domingo, 30 de maio de 2021

Terminator: Salvation / Exterminador Implacável: A Salvação (2009)

Só há uma maneira de ver este filme: ou se gosta da saga ou não se gosta. Quem não gostou de “Exterminador Implacável” e suas sequelas escusa de perder tempo. Este filme não é muito bom nem acrescenta nada de novo. Vale pelo entretenimento.
O “herói” desta vez é Marcus Wright, homicida condenado à morte que aceita doar o seu corpo à ciência. Quando lhe concedem as últimas palavras, admite que é mau e merece o castigo.
Acorda novamente em plena guerra das máquinas contra os seres humanos, transformado num cyborg, mas ele não sabe o que lhe fizeram nem como foi ali parar. Ao dar-se conta da guerra, decide imediatamente lutar do lado dos humanos. Pelo caminho conhece o jovem Kyle Reese, feito prisioneiro pelas máquinas. Wright consegue escapar e é então que se cruza com um tal John Connor, que ainda não é o chefe da Resistência. Acontece que a Resistência parece ter conseguido uma vantagem tecnológica sobre as máquinas e o chefe da Resistência em funções não quer perder tempo: decide arrasar uma das instalações da Skynet sem apelo nem agravo, apesar dos prisioneiros humanos que lá estão. John Connor não pode aceitar isto porque o jovem Kyle Reese, a quem ainda não conhece, precisa de ir ao passado conhecer Sarah Connor. Estão a ver agora? Connor nunca tem de entrar em conflito com o superior em funções, porque entretanto a vantagem tecnológica que julgavam possuir era uma armadilha. Graças a este engodo, grande parte da Resistência é destruída, tornando Connor no chefe efectivo. É fulcral entrar na sede do inimigo e libertar Kyle Reese. Wright já sabe que o transformaram num cyborg, mas voluntaria-se. Quando as máquinas o confrontam com o facto de ser o que é, e que o fabricaram para se infiltrar na Resistência, responde-lhes que não é por ser feito de aço que deixa de ser um homem.
E foi o momento filosófico da noite, senhoras e senhores. O resto é pancadaria e cenas de acção. É claro que nós sabemos que Kyle Reese vai ser libertado, senão não existiria John Connor, mas e se algo correr mal?
A parte mais surpreendente do filme é quando aparece um modelo T-800 acabado de sair da caixa, isto é, um Arnold Schwarzenegger nuzinho da silva e jovem, em 2009! Claro que fui investigar como é que fizeram aquilo, embora já desconfiasse. O actor é um duplo e a cara é sobreposta com software, mas a ilusão ficou tão bem feita que se aguenta à bronca. A câmara também nunca se aproxima demais, para dizer a verdade.
Este é daqueles filmes para nos entreter durante duas horas sem termos de pensar muito. Seria difícil sair daqui alguma coisa de original tendo em conta que a saga já foi mais que explorada. Para quem já perdeu a conta, este é o quarto episódio do “Exterminador Implacável”.

13 em 20
 

 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

:: Review :: WORLD GOTH DAY 2021 :: Review ::

Sabiam que 22 de Maio é o Dia Internacional do Gótico? Eu também não. (Para dizer a verdade, só começou em 2009.) Foi preciso a pandemia e assistir a streamings estrangeiros para saber que o World Goth Day é cada vez mais celebrado pelo mundo fora. Mas este ano, 2021, foi definitivamente especial. (Podem tirar-nos os bares, mas não nos tiram o gótico.) Emissão em streaming, 24 horas ininterruptas, com DJ sets de todo o mundo.
Sendo que é a primeira vez que faço uma crítica / reportagem de um evento de streaming, vou-me guiar pelas regras da crítica de concertos (só que cada um em sua casa).
Só soube do evento no próprio dia, e só por acaso, uma vez que recentemente tenho andado mais ligada aos eventos de streaming como há muito tempo não andava (por exemplo, deixei de ouvir rádio/podcasts online há anos), desde que tenha tempo. Consegui acompanhar o evento das 18h às 2 e tal da manhã, e só posso dizer que foi um espectáculo. DJs do mundo inteiro, vários estilos de música (dentro do gótico / alternativo, bem entendido), góticos de todo o planeta a assistir aos eventos e a participar no chat, de início com alguma timidez, depois mais abertamente.
Algo que sempre me impressionou desde o meu contacto inicial com a cena é que não importa onde estejamos, de que país e cultura sejamos originários, da Europa aos Estados Unidos, da Austrália à América do Sul, quando nos encontramos sentimos que já nos conhecemos todos uns aos outros desde sempre. Isto nunca senti em mais lado nenhum nem com mais ninguém. Quando comunicamos uns com uns outros, apesar de desconhecidos, sabemos imediatamente do que o outro está a falar. É extraordinário.
Não se pense que os góticos são uns sisudos, porque houve momentos de humor. A certa altura um DJ de New York (DJ Sean Templar) decidiu discursar, agradecer a presença de tanta gente online, desejando que nos divertíssemos e mostrássemos, com o nosso apoio, as nossas “true colours”:
“OUR COLOURS ARE BLACK” Respondeu alguém no chat.
Eu ri-me porque estava a pensar o mesmo. Cores, quais cores? Maior verdade nunca foi dita.
Quem perdeu este evento não fique triste, todos os DJ sets estão no site
www.death-rock.de
para serem ouvidos e apreciados em
www.death-rock.de/2021/05/playlist-world-goth-day-stream-2021-22-05-2021
e noutras plataformas onde os DJs alojaram as suas prestações (é só procurar porque estão disponíveis).
Adoro estes streamings, quer os nacionais como os internacionais, e espero que não acabem, com ou sem pandemia. Dão muito jeito às pessoas que não podem sair por motivos profissionais ou familiares, ou que não podem viajar. É uma janela para o que se faz lá fora e, acima de tudo, uma maneira de conhecer música nova ao mesmo tempo que se passa um bom bocado.
Da nossa parte, fomos representados pelo DJ Yggdrasil, já um veterano dos streamings internacionais. Espero não perder para o ano e prometo anunciar com antecedência. É preciso é que se faça.

 

 

domingo, 23 de maio de 2021

The Walking Dead: World Beyond

Dizia eu que só acreditaria em spin offs de “The Walking Dead” quando as visse, mal sabendo que já estavam a ser filmadas. E parece mesmo que vêm aí mais. A qualidade é que não é nada por aí além, tirando os próprios zombies, e é por causa dos excelentes zombies de Nicotero que ainda se conseguem ver estas séries. Esta é outra igual.
“World Beyond” é a versão adolescente de “The Walking Dead”. Enquanto que, na Virginia, Carl andava a comer comida de gato e a enfrentar famílias canibais, noutros lados do país as coisas parecem ter-se aguentado melhor depois do apocalipse zombie. É o caso da cidade de Omaha, de Portland, e do campus da Universidade do Nebraska, onde vamos encontrar os protagonistas de “World Beyond”. Isto causa alguma estranheza para quem viu a sociedade desaparecer e a anarquia reinar em “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”, mas aparentemente ainda há comunidades onde sobreviveu o mundo como o conhecemos. O que coloca desde logo a questão: como é que os sobreviventes ainda não sabem uns dos outros, 10 anos passados desde o apocalipse, uma vez que em “Fear the Walking Dead”, e mais ultimamente em “The Walking Dead” também, toda a gente usa o rádio para comunicar? Estas comunidades sobreviventes não saberiam já da existência umas das outras? Mas no universo “Walking Dead” é melhor não fazer muitas perguntas.
Hope e Iris são duas irmãs (adoptadas) que frequentam a universidade, junto com outros jovens como elas que eu não sei de onde apareceram nem onde vivem os seus pais. Omaha, Portland? Mas lá estou eu a fazer muitas perguntas. O importante é que estes jovens do campus passaram pelo apocalipse num ambiente seguro e resguardado onde sabem que fora dos seus muros existem zombies mas nunca tiveram de se confrontar com eles. O início da série é quase o nosso mundo, e estes jovens do campus estão a ser educados para trazer de volta a civilização.
O pai de Hope e Iris é um cientista que dá aulas nesta universidade pós-apocalíptica até ser recrutado pela sinistra Civic Republic Military. (Como chamar a isto em português, Milícias da República Cívica? República Cívica Miliciana? Parece-me mais a segunda opção. Mas uma República não contém já o conceito de “cívica”, e “militar” não é um dos ramos de poder em que assenta uma república?) A princípio nada nos diz que esta República Cívica seja sinistra, mas há sempre esse suspense de algo pesado no ar quando os helicópteros aparecem. A localização das bases da República Cívica é secreta (o que faz sentido num mundo dominado pela anarquia e o saque) e o tal cientista não está autorizado a comunicar para fora delas, mas antes de partir ele arranja uma maneira de estabelecer contacto com as filhas. Hope e Iris recebem uma mensagem do pai em que este as informa de que corre perigo, e decidem ir salvá-lo (sozinhas contra um exército, porque acham que conseguem). Com elas vão outros dois jovens da mesma idade, Elton e Silas. Nenhum deles alguma vez teve de sobreviver sozinho fora dos muros e não sabem sequer matar um zombie.
Dois dos seguranças do campus, Felix e Huck, vão à procura dos miúdos e conseguem encontrá-los, mas, cada um pelas suas razões, estes recusam regressar. Foi a sorte deles, porque, por algum motivo que ainda não faz sentido, a República Cívica destruiu o campus universitário.
Esta série é sobre os primeiros adolescentes a crescer num apocalipse zombie, mas a República Cívica acaba por ser o enredo (neste caso, sub-enredo) mais interessante. É que foram estes misteriosos helicópteros que levaram Rick Grimes e Anne/Jadis (personagem também conhecida por “senhora da lixeira”, que afinal era uma agente infiltrada). É por isso principalmente, e por outros encontros com a República Cívica em “Fear the Walking Dead”, que os espectadores do universo “Walking Dead” sabem que esta gente não é boa e recorre a métodos chocantes. Por muito que estes digam que o objectivo é o “futuro”, o “bem maior”, reestabelecer a civilização, ficamos perplexos quando destroem um campus universitário onde estava a ser preparada a próxima geração com esse mesmo objectivo em mente. Eu, por exemplo, a princípio nem percebi o que tinha acontecido, de tão contraditório que isto é. E na verdade não se viu acontecer, mas foi dado a entender e toda a gente percebeu assim. Afinal, quem é esta República Cívica e qual é o seu verdadeiro desígnio? Mas a série só nos deu migalhas porque não vai ser aqui que se vai descobrir.
Hope e Iris, e os companheiros Elton e Silas, partem numa daquelas viagens de auto-descoberta e de descoberta dos outros típicas da adolescência. Não digo isto como crítica mas como constatação, é um drama adolescente com temáticas adolescentes, em que os quatro miúdos têm de aprender coisas como conduzir ou matar o primeiro zombie. (Experiências que Carl, na série-mãe, começou a ter na infância.) Há muita conversa e o ritmo pode ser considerado demasiado lento para a grande parte dos espectadores. Cada episódio parece uma aventura separada e os miúdos nunca se encontram em grande perigo como acontece na série original. Só nos últimos dois episódios é que acontece algo minimamente empolgante.
“World Beyond” não é série que se compare às melhores temporadas de “The Walking Dead”, mas pelo menos a história não é o caos sem nexo em que se tornou “Fear the Walking Dead” (já não percebo o que se passa por lá). Vê-se bem, sem grandes expectativas, e só estão anunciadas duas temporadas, o que nos promete um enredo com princípio, meio e fim. Quem esperar mais do que isto vai ficar desiludido.



domingo, 16 de maio de 2021

The Purge: Election Year / A Purga: Ano de Eleições (2016)

Passaram-se alguns anos desde o início da Purga. Agora a Purga é quase um feriado nacional, a noite em que se pode cometer impunemente qualquer crime, até o homicídio. Os “purgadores” tornaram-se mais sofisticados. Trajam a rigor para ir matar, usam métodos mais teatrais (a certa altura há uma guilhotina) e armas mais originais. Grupos de miúdas adolescentes vestem-se como quem vai para a noite em carros decorados com luzes de Natal. Nas palavras de um dos vendedores de roupa e máscaras, “A Purga é o Halloween dos adultos”. Turistas de todo o mundo visitam os Estados Unidos para participarem também na matança, dando origem ao “turismo de homicídio”. Serviços religiosos são organizados em que se matam várias vítimas como parte do ritual. É a carnificina institucionalizada.
Mas, finalmente, a população começa a acordar para a atrocidade com que antes compactuava. Se nos primeiros dois filmes não havia assistência médica durante a Purga, agora a sociedade civil organizou os seus próprios hospitais de campanha com médicos e enfermeiros voluntários. Veículos improvisados de ambulância percorrem as ruas à procura de feridos sem que os “purgadores” os incomodem. O cúmulo é um “carro do lixo” da Câmara, que agora também anda nas ruas na noite da Purga, carregado de mortos, anunciando com um megafone: “Serviços de limpeza e remoção de vítimas. Mantenha as ruas limpas”.
Grande parte do eleitorado quer que isto acabe. Uma senadora anti-Purga está bem posicionada para ganhar as eleições. O poder vigente, os Novos Pais Fundadores, decide aproveitar a noite da Purga para se livrar dela. Se até ali era proibido tocar nos detentores de altos cargos políticos, a regra muda nessa noite. A senadora sabe o que tem pela frente. O seu chefe de segurança é precisamente o polícia do segundo filme, que já pensou em tudo para a manter segura em casa dela, onde a senadora insiste em ficar nessa noite como “90% das famílias”. Mas são traídos, e acabam os dois na rua, perseguidos por mercenários altamente bem equipados contratados pelo governo e à mercê de todos os “purgadores” que andam na matança.
São salvos pelos voluntários da ambulância que os levam para o hospital clandestino. Estas instalações são protegidas pelas milícias anti-Purga que surgiram no segundo filme, mas que agora já se transformaram num exército bem oleado. A senadora descobre que nessa noite tencionam assassinar um dos Novos Pais Fundadores (o tal dos sacrifícios na igreja) e quer impedi-los. “Não quero ser eleita através do homicídio. Vai contra tudo o que eu represento”, tenta argumentar com eles.
Mas as coisas complicam-se. Os mercenários descobrem onde ela está e acabam na rua outra vez. Agora, além de tentar travar os planos do assassinato, a senadora e o seu segurança têm de sobreviver à noite da Purga.
Não deixando de ser terror, este filme inclina-se bastante para um thriller de acção mais convencional, com os bons de um lado e os maus do outro, e cenas de porrada e tiroteios e autênticas batalhas entre perseguições alucinantes a pé e em veículo. Por este motivo, gostei menos do que dos filmes anteriores, mas não deixei de gostar. Não percebo o que é que a crítica tem contra os filmes “A Purga”, excepto talvez a tal ideia da “premissa ridícula e inconcebível”. Não é, como disse aqui na crítica ao segundo filme, e por mim vinham mais filmes da série se o argumento conseguir arranjar maneira de se manter original e pertinente.
Este terceiro filme do mesmo realizador, James DeMonaco, tem um gosto a fim de saga, mas entretanto descobri que já existem mais dois filmes, de outros realizadores, e uma série de televisão. Fiquei particularmente interessada na série.

15 em 20


domingo, 9 de maio de 2021

Maquiavel - O Fundador dos Tempos Modernos, um trabalho de D. D. Maio

MAQUIAVEL – O FUNDADOR DOS TEMPOS MODERNOS
© 2021 D. D. MAIO

Sinopse

Antes ser temido do que amado. Os fins justificam os meios. Quem foi Nicolau Maquiavel, famoso e infame por estas frases, e em que circunstâncias as proferiu? Cínico ou romântico desiludido?
“Maquiavel – O Fundador dos Tempos Modernos” é um trabalho académico breve e despretensioso que tenciona fazer luz sobre a verdadeira natureza do homem (biografia) e dos seus desígnios (pensamento político).


“Maquiavel - O Fundador dos Tempos Modernos” está disponível para download gratuito em www.bubok.pt/livros/266734


domingo, 2 de maio de 2021

Son of the Shadows, de Juliet Marillier

[contém spoilers]

“Son of the Shadows” é o segundo livro da trilogia Sevenwaters de Juliet Marillier. Há muito tempo que um livro não me agarrava tanto, ainda mais do que o primeiro, “Daughter of the Forest”, em que os seis irmãos são transformados em cisnes.
Até parece que a autora leu a minha crítica de tal forma se evita os plot holes e os anacronismos. (Estou a brincar, é claro. O livro foi escrito muito antes da minha crítica. Mas talvez críticas semelhantes lhe tenham chegado aos ouvidos…) Obrigada, leitores que comentaram, por me terem aconselhado a não desistir. Não desisti e descobri um livro melhor do que o primeiro.
Mas não sem fragilidades. Depois de um início muito promissor, o fim revela-se decepcionante. Talvez Marillier melhore em obras posteriores, mas a sensação geral com que fiquei é de uma autora que vale mais pela sua escrita, e é de facto uma escrita lindíssima, do que pelos seus enredos.
E tal como disse em “Daughter of the Forest”, continua a haver aqui momentos em que a bota não bate com a perdigota, embora menos, mas Marillier ainda não se consegue livrar deles neste segundo livro. O que é pena. Ao contrário do que se costuma dizer, que uma boa história merecia melhor escrita, aqui é caso para dizer que a escrita merecia melhor história.
O que mais gosto em Marillier é que as histórias são tristes, ou, no mínimo, melancólicas. Logo no primeiro capítulo, somos informados de que dois dos irmãos morreram na guerra pelas ilhas sagradas. Isto era de prever, tendo em conta a personalidade de ambos, mas não deixamos de pensar se não teria sido melhor terem permanecido cisnes. Logo a seguir, sabemos que Sorcha está a morrer. Este sim, foi um grande choque, porque Sorcha sempre foi demasiado nova. Aqui é-nos dito que Liam tem 36 anos, o que significa que ela não pode ter mais do que 30.

SPOILER

Não era necessário. Não era mesmo. Sorcha podia ter continuado na série durante muitos mais anos, em pano de fundo, só intervindo ocasionalmente na vida dos filhos e dos netos. Não gostei.

A minha maior crítica ao primeiro livro foi mesmo essa: Sorcha era demasiado nova. Em “Son of the Shadows” a acção começa quando os filhos de Sorcha e Red já são crescidos. A mais velha, Niamh, tem 17 anos, e os mais novos, Liadan e Sean, gémeos, têm 16. Com estas idades já são perfeitamente credíveis, o que não acontecia com uma Sorcha de 12 anos.
A história é contada pela perspectiva de Liadan, uma perfeita réplica da mãe. Tal como esta, Liadan também é curandeira e também tem a Visão. Não gostei que esta personagem parecesse uma substituta da protagonista de “Daughter of the Forest”, confesso. Mas a história mais interessante, a história que me manteve agarrada, nem sequer é a dela. Bom, o melhor será dizê-lo de uma vez. Achei Liadan uma sonsa, uma menina do papá e da mamã, a filha preferida, e ainda por cima burra que nem uma porta. (Já justifico.)
Mas quem sai aos seus não degenera. A burrice parece ser genética em Sevenwaters, ou não tivessem os seis irmãos e a irmã ido confrontar a Lady Oonagh sem um plano que os protegesse caso esta decidisse transformá-los novamente em cisnes e desta vez fazer empadas com eles. As personagens de Sevenwaters não são exactamente brindadas pela inteligência, e este segundo livro vem apenas confirmar o primeiro.

A história
O que me manteve agarrada à história foi uma suspeita, vinda do livro anterior, que depressa se tornou certeza. Um dos “filhos das trevas”, porque o livro se refere a dois, é o filho da Lady Oonagh com Lord Colum, Chiaran, o oitavo irmão. Lady Oonagh levou-o quando saiu de Sevenwaters mas Colum foi à procura dele, encontrou-o, e trouxe-o de volta. O que, como pai, só lhe fica bem.
E que fizeram os irmãos, na morte do pai? Mereciam ser todos transformados em escaravelhos pela porcaria que fizeram, Sorcha incluída. Acharam melhor criar o miúdo junto dos druidas e do irmão Conor, sem lhe dizerem quem era. Chiaran cresceu e conheceu Niamh, sua sobrinha, que também não sabe que Chiaran é seu tio. E aqui está, Tragédia da Rua das Flores. Isto só se “revela” na terceira parte do livro, mas é mais do que óbvio desde o início para quem leu “Daughter of the Forest”.
Não contentes com a porcaria que fizeram, ao descobrirem este affair já consumado, tanto os tios como o pai de Niamh a tratam como a uma galdéria emporcalhada, e arranjam-lhe um casamento sem amor com um nobre qualquer, contra a vontade dela.
O que é curioso, porque à filhinha querida, Liadan, Red diz que nunca a obrigaria a casar contra a sua vontade. Mas isto ainda fica pior.
Ao acompanhar o séquito da irmã, no regresso da boda, Liadan é raptada por um bando de mercenários. Mas não fiquem já assustados porque estes mercenários são uns cavalheiros do melhor que há (é preciso querer acreditar nisto). O mais cavalheiro de todos é mesmo o homem a quem eles chamam o Chefe e a quem Laidan chama Bran, por ele se recusar a dizer o seu nome. Os mercenários raptaram-na porque um deles, serralheiro, sofreu um acidente horrível e precisa de cuidados, e os dotes de Liadan como curandeira (por se saber que aprendeu com Sorcha, sem dúvida) são sobejamente conhecidos. Só querem que ela trate o homem, o que é comovente.
O género de Juliet Marillier é apelidado de Fantasia Romântica, mas fiquei desapontada por Liadan ter conhecido o seu interesse romântico logo à primeira. Esperava mais voltas e reviravoltas antes disso, como em “Daughter of the Forest”, mas aqui vai-se logo aos finalmentes. Liadan apaixona-se por Bran, o líder dos mercenários (e o outro “filho das trevas”), e percebemos logo isso da maneira como os dois embirram um com o outro e discutem como adolescentes (e até são, ou quase). Tanta discussão acaba na cama, ou melhor, nas ervas do campo à chuva. Mas então acontece algo que só pode deixar um leitor de “Daughter of the Forest” completamente boquiaberto. Quando Liadan lhe conta quem é, Bran rejeita-a. Acusa o pai dela, Red, de ser o causador da grande desgraça da sua vida, e Sorcha de ser uma sedutora que desencaminhou um homem fraco. Mostrando a sua misoginia, só falta a Bran chamar prostituta a Liadan (mas acaba mesmo por chamar, indirectamente) antes de a mandar embora.
Ora, quem leu “Daughter of the Forest” fica chocado ao ouvir isto, porque sabe que Red e Sorcha seriam incapazes de fazer mal fosse a quem fosse. As acusações de Bran são muito graves, o que se reflecte na maneira como trata Liadan. Começamos logo a especular o que se teria passado em Harrowfield, na Bretanha, que a gente não sabe. Ter-se-á Simon, irmão de Red, voltado para o mal? Passa-nos tudo pela cabeça. E como gostamos destes personagens do primeiro livro, sentimos que quase nos estão a insultar os amigos e não podemos descansar enquanto não soubermos o que aconteceu ao certo. Eu já estava agarrada às minhas suspeitas de que Chiaran era o filho da Lady Oonagh, e ainda fiquei mais agarrada por causa destas acusações.
Liadan regressa a casa grávida. Desta vez não há censuras, como aconteceu à pobre Niamh, só amor e carinho e aceitação. Filhinha dos papás. A própria Liadan diz várias vezes que é injusto que a tratem melhor do que trataram a Niamh, e que não percebe porquê.
Eu também queria muito saber, e quanto mais ia percebendo mais me parecia que deviam ter sido todos transformados em escaravelhos. Liadan acaba por descobrir que a irmã está a ser espancada e violada pelo marido, completamente sozinha e sem se atrever a pedir ajuda. Culpa dos pais e dos tios. Liadan ajuda-a a escapar e obtém assim uma ajuda mais ou menos inesperada: Chiaran, filho da feiticeira, está a seguir na peugada da mãe, mas tem para com Liadan uma dívida de gratidão. Talvez Chiaran não se torne o génio do mal que os irmãos temiam dele.
Há uma ideia subjacente a todo o livro que me irrita profundamente: que os filhos acabam por ser forçosamente iguais ao que foram os pais. Chiaran, filho de feiticeira, tem de ser maléfico também. De Liadan, filha de Sorcha, espera-se que seja um espelho da mãe. (O próprio Red o diz.) Niamh, porque não saiu à mãe, foi desde sempre a filha enjeitada. (Escaravelhos, Chiaran, transforma-os em escaravelhos porque merecem!) Bran, filho de gente boa, tem de ser gente boa também. Eamonn, filho de um traidor, tem de ser igualmente malvado.
Por falar em Eamonn, pretendente a Liadan a quem esta rejeita, vamos lá então explicar a burrice da personagem. Só houve uma coisa que esta Liadan fez no livro todo com que eu concordei, que foi mandar a Senhora da Floresta às urtigas. (Exactamente! E eu gostei porque já me tinha parecido que a Senhora da Floresta é uma grande sádica.) Não, minto: também gostei que Liadan fosse a única a ter verdadeira compreensão para com o romance entre Niamh e Chiaran. Mas Liadan estraga tudo quando vai confrontar Eamonn, um homem que ela já sabe que é perigoso, que até já traiu Sevenwaters, e leva com ela o bebé. Lembrou-me aquele momento de “Homeland” em que Carrie Mathison leva a filha para um encontro de terroristas, e até um simpatizante de terrorista lhe pergunta: “Mas a senhora é doida? Trouxe para aqui uma criança?” Carrie Mathison é mesmo doida, mas Liadan é simplesmente burra. Quem é que leva o seu bebé para um conflito que pode correr muito mal, quando o bebé não faz lá falta nenhuma e podia tê-lo deixado em segurança?
Só há um personagem inteligente nesta história toda. Não vou dizer quem é para não criar mais spoilers, mas quem se lembra da minha crítica anterior sabe quem é o meu personagem preferido. E nada mais digo.
O fim decepcionante refere-se às acusações monstruosas que Bran faz a Red e Sorcha. Como dizer isto?... Afinal, ele estava completamente enganado. Ouviu mentiras, repetiu mentiras. Foi tudo uma construção artificial para o manter afastado de Liadan até ao fim do livro, porque não podiam ser “felizes para sempre” tão cedo. Não gostei mesmo nada. Como leitora, senti-me defraudada.
Senti-me ainda mais defraudada quando Red diz que tem alguma culpa no assunto, para justificar o truque baixo do livro. Nem Red, e muito menos Sorcha, nem sequer Simon, têm qualquer influência no que aconteceu a Bran. Não era preciso pôr Red a assumir culpa que não tem ao serviço de um enredo mal amanhado. Havia outras maneiras de chegar ao mesmo objectivo. Desta forma, Bran também me pareceu um idiota misógino que se queixa sem razão e acusa quem não deve. A certa altura ele diz a Liadan que ela é uma “mulher perigosa e uma estratega subtil”, e eu fartei-me de rir. Ele também não é muito esperto, por isso estão bem um para o outro. Bran é um personagem atormentado por uma infância de abuso, compreendo perfeitamente, mas, chamem-me insensível à vontade, ou talvez porque conheça casos muito piores em que as pessoas deram a volta “mais por cima”, acho que ele não tinha razão para aquela revolta toda. Até parece que foi o único no mundo a sofrer, ou, pior, é tão focado em si próprio que não sabe que outros sofreram mais. Talvez este personagem ainda melhore, porque, afinal, ele também é muito novo. Bran é quem verbaliza uma das ideias mais filosóficas do livro: “As histórias são perigosas, porque fazem os homens sonhar com o que não podem ter”. Às vezes é verdade, outras vezes é o contrário: em vez de perigosas, as histórias podem ser inspiradoras. Mas como personagem auto-destrutivo e sem auto-estima que é, Bran só consegue ver o lado cínico da vida.

Ainda assim, viciante
Então, do que é que eu gostei tanto neste livro, porque efectivamente gostei de alguma coisa que me manteve agarrada do princípio ao fim? A escrita é muito boa. A autora consegue das melhores descrições que já li na vida, embora eu não seja grande amiga de descrições. (Às vezes dá-me a entender que a autora prefere as descrições e os pormenores a essas chatices de manter o enredo coerente.)
Gostei da história de Niamh e da história de Chiaran, e de como ambas as histórias podem vir a dar uma continuação empolgante. Porque, a verdade é esta, estou em pulgas para ler a terceira parte, “Child of the Prophecy”.
Queria ter gostado mais deste livro, sim, queria. Queria ter-lhe dado 5 estrelas no Goodreads e só lhe pude dar 4 porque o fim me pareceu artificial. Conhecendo as fragilidades da autora, passei o livro todo a temer que isto acontecesse, nomeadamente quando se questionou a integridade de Red e Sorcha (não podia ser verdade!). Infelizmente, os meus piores receios vieram a concretizar-se, ou a autora não me conseguiu convencer das razões de Bran. Aliás, todo o personagem Bran faz pouco sentido, eu é que não quis estar aqui a debicar que nem abutre.
A escrita de Marillier é francamente agradável, mas precisa de enredos mais sólidos. Vou continuar a ler a trilogia na esperança de que a experiência melhore estas fragilidades até elas desaparecerem.
E continuo a querer saber a resposta à questão que ficou a pairar no primeiro livro: porque é que a Lady Oonagh se foi embora sem mais nem ontem quando já tinha conquistado tudo. A questão volta a ser abordada em “Son of the Shadows” e a resposta promete. Resta saber se a trilogia cumpre a promessa. Por esta altura falha-me a esperança, mas se “Son of the Shadows” supera “Daughter of the Forest”, pode ser que o terceiro livro me satisfaça completamente. A ver vamos.


domingo, 25 de abril de 2021

Carriers / Pandemia (2009)

Este vai ser filosófico.
Sempre me disseram, na escola, que o homem é um animal social, um animal gregário. Gregário, só se for como o lobo.
Começou tudo no tempo das cavernas, quando éramos caçadores/recolectores. O homem pensou que sozinho caçava um coelho ou um veado, mas em equipa podia caçar um mamute e a tribo toda tinha carne para muito tempo. Lógica de alcateia. Colaborar para encher a barriga.
Com a chegada da agricultura, o homem tornou-se sedentário. Depois de uma vida inteira a trabalhar o solo, a construir uma casa, a crescer um vinhedo, o homem chegava à velhice e pensava: quando eu morrer tudo isto se perde, o que me deu tanto trabalho a conseguir, o que passei anos de enxada a labutar, todo o meu trabalho, todo o meu valor. Para que não se perdesse, o homem arranjou uma família. Mulheres e muitos filhos que lhe mantivessem vivo o nome e dessem continuidade ao seu legado. Mais do que isso, o homem abastado doaria grão para os sacerdotes do templo, metal para fazer um novo ídolo, para que alguém lhe escrevesse o nome num pergaminho como “Fulano, muito rico em grão e metal, doou isto”. Não podendo ser imortal, o homem quis que ao menos a sua labuta lhe imortalizasse o nome. E que o imortalizasse perante quem? Perante a sociedade. Quem mais lhe recordaria os feitos e o valor? A sociedade serve o homem porque lhe espelha a vaidade. O que é o homem abastado sem uma sociedade que o reconheça? Não é ninguém. É o lobo solitário que morre bem alimentado, mas sozinho.
Chegamos aos nossos tempos. Agora as vaidades são outras, as necessidades são outras. Mas continuamos os mesmos lobos de sempre. Vivemos em sociedade para encher a barriga e alimentar a vaidade. O carro, o emprego, o curso, a viagem, os amigos que tem de se ter, a família que fica bem nas redes sociais. Ninguém quer morrer sozinho e ignorado, por muito bem alimentado.
E de repente chega um vírus mortal. No outro homem, onde antes se via um membro de equipa e um espelho da própria vaidade, vê-se agora a morte. A sociedade já não serve o homem, pelo contrário, torna-se uma ameaça à sua sobrevivência. O homem foge do homem. Foge da alcateia para as montanhas e regressa ao seu lugar de lobo solitário. Quando a sociedade se desagrega e tudo escasseia, o homem ataca-se entre si pelos bens que ainda restam: é o homem lobo do homem.
Vêm estas considerações a propósito de um filmezinho despretensioso de 2009, “Carriers” / ”Pandemia", que algum canal de televisão foi repescar na certeza de que os espectadores iam logo querer vê-lo nos tempos que correm. Além deste ainda tenho outro para ver, chamado “Contágio”, sem contar com o outro do Dustin Hoffman, que também tem passado muito frequentemente.
Em “Pandemia”, um vírus mesmo muito mortal, com efeitos muito rápidos semelhantes ao ébola ou à lepra, mata todos os hospedeiros e transmite-se por inalação de partículas. Dois irmãos, a namorada de um deles e a amiga do outro, fogem dos centros urbanos para se refugiarem numa estância balnear isolada onde os irmãos passavam férias quando eram miúdos. Por esta altura a sociedade já se desagregou. A estrada está deserta. Já não há gasolina para abastecer. A maioria da população já morreu. Não se vê ninguém. É quase o pós-apocalipse, mas ainda não chegaram lá. O intuito é sobreviver o tempo suficiente até que a doença desapareça, isto é, que todos os infectados morram e o vírus deixe de se transmitir por falta de hospedeiros. Para sobreviverem, os quatro concordam num conjunto de regras implacáveis: quem está infectado é como se já estivesse morto, deixa-se para trás.
O ambiente despovoado do filme lembrou-me muito de “The Walking Dead”, mas sem zombies, só com mortos, e trouxe-me esta outra reflexão: até no apocalipse zombie a sociedade continua a servir o homem. Os zombies são uma ameaça. A união em grupos coesos permite combater essa ameaça e a de outros grupos hostis. Em “Pandemia”, nem para isso a sociedade serve. É o completo regresso à sobrevivência do mais apto. Os quatro jovens são aptos, saudáveis, e querem sobreviver a todo o custo. E do ano de 2021, especialista que me tornei sem querer, até digo que eles estavam a fazer tudo bem: o uso correcto de máscaras, luvas e desinfectante, o que me surpreendeu porque geralmente estes filmes acabam sempre por desleixar os pormenores.
Na estrada, encontram um pai com uma criança infectada, e deixam-nos para trás. A namorada fica infectada, e deixam-na para trás. Um dos irmãos é mais impiedoso do que o outro, uma espécie de Shane de “The Walking Dead” que já percebeu que para sobreviver pode ser preciso matar. E mata. Logo da primeira vez que precisa de gasolina, mata duas inocentes num carro que só querem o mesmo que ele: fugir e sobreviver. O outro irmão parece condenar, mas vai tolerando porque também quer sobreviver. Todavia, nota-se na personagem uma crescente desilusão, um crescente nojo e antipatia. Já nem os laços de sangue os unem. Quando o irmão impiedoso também fica infectado e se recusa a dar-lhes as chaves do carro para continuarem sem ele, o outro irmão dá-lhe um tiro. Só fez, afinal, como lhe disse o irmão mais velho: “Fui eu que te ensinei tudo”.
No fim, este irmão e a amiga conseguem chegar à estância da praia, completamente abandonada. Já não se falam, já nem conseguem sequer olhar um para o outro depois das atrocidades que cometeram para chegar ali. Vai cada um para seu lado. Um homem e uma mulher jovens, dos poucos sobreviventes no mundo, e nem sequer se suportam de modo a fazer sexo e continuar a espécie. Mas por esta altura a gente questiona-se: e esta espécie de animais sem escrúpulos merece continuar?
O que distingue o homem do animal é a consciência moral. Talvez o outro irmão, o que não tinha escrúpulos nem remorsos, conseguisse continuar a viver com a namorada como se nada tivesse acontecido, como animais, como lobos. Se tivessem ambos sobrevivido. Mas sobreviveram os que tinham consciência, os que se repugnam do que fizeram. E agora nota-se-lhes nos rostos que se perguntam também: valeu a pena? Somos os mais aptos, somos os sobreviventes, mas sobrevivemos para quê se nem nos conseguimos olhar no espelho que é o rosto um do outro?
Todas estas reflexões não vêm deste filme em particular, “Pandemia”. Não é um filme assim tão bom, embora seja melhor do que as críticas o pintam. Estas reflexões vêm de muitos outros filmes como este, cenários apocalípticos que nos convidam a questionar o que é que nos distingue de uma alcateia de lobos. O que é verdadeiramente importante na existência humana. A vida, e não apenas a sobrevivência. Lembrou-me também as sábias palavras bíblicas: de que importa ganhar o mundo e perder a alma? Estes dois personagens podem ser as últimas pessoas vivas no planeta, mas perderam a alma pelo caminho. Tanto queriam sobreviver a todo o custo que agora a vida já não lhes interessa. Irónico, não é?

14 em 20 (o filme não é assim tão bom)


 

domingo, 18 de abril de 2021

The Twilight Zone / A Quinta Dimensão (2019, segunda temporada)

Não sei o que se passa com esta nova edição de “The Twilight Zone”, mas o facto é que parece não ter impacto. Se na primeira temporada os episódios eram quase panfletários, tão preocupados com a mensagem política e social que estavam a tentar transmitir que as histórias acabavam por ser relegadas para segundo plano, já não podemos dizer isso da segunda.
Desta vez “The Twilight Zone” cingiu-se às histórias, mas nem por isso estas tiveram o impacto com que a velhinha “A Quinta Dimensão” de 1959, a preto e branco, ou até a edição de 1985, a cores, nos marcou para sempre. Serão as histórias menos boas? Seremos nós que já vimos tanta coisa que não é qualquer história que nos atinge? A verdade é que depois de cada episódio dei por mim a encolher os ombros, sem que me aquecesse ou arrefecesse.
Quase basta dizer que o meu episódio preferido foi “8”, em que o protagonista é um polvo assassino. Sim, leram bem, um polvo assassino, nem sequer um polvo gigante (embora bastante grande), mas muito inteligente. O episódio passa-se na Antártida, onde um grupo de cientistas estão isolados a estudar, supostamente, os efeitos das alterações climáticas, quando algo os começa a matar um a um. Este é um enredo à “Alien” e “The Thing”. Nunca me passou pela cabeça que o vilão fosse mesmo o polvo que os cientistas encontram escondido dentro de uma arca. Mas acontece que os cientistas, afinal, não estão ali com boas intenções. O que eles querem é apanhar o espécime para a indústria farmacêutica e coisas piores. Só que o polvo é mais esperto do que eles e lixa-os. E o pior é que nós aplaudimos. Existe uma cena perturbadora como há muito tempo não via. O polvo consegue camuflar-se de tal maneira que fica invisível em cima de um dos membros da equipa que acabou de matar. Foi arrepiante, confesso.
Algumas histórias têm o seu interesse, mas destaco também “You Might Also Like”, uma invasão extraterrestre pelos mesmos aliens do original “To Serve Man” que acaba por ser uma paródia pouco subtil ao consumismo.
Os outros episódios são francamente esquecíveis e se a série for renovada e a qualidade continuar assim, penso que vai ser a última crítica que faço a esta nova “Twilight Zone”.



domingo, 11 de abril de 2021

Sinbad (2012–2013)

Depois de tão escaldada e irritada por séries juvenis como “Merlin” e “Atlantis”, comecei a ver “Sinbad”, outra série feita no Reino Unido, na quase certeza de que era mais uma para criticar sem piedade. Surpresa das surpresas, até gostei. Ao contrário das outras duas, e tendo em consideração que é um produto infanto-juvenil, esta pelo menos faz sentido. Mas há muito mais para gostar.
Não sei até que ponto é uma série para crianças. Reparei num quadradinho azul-claro no canto do écran com o número 7. O que é isto? Como não costumo ver séries para crianças, não sei, mas desconfio que é para maior de sete? Sim, a história é simples de acompanhar e até aparece um grifo no segundo episódio que ajuda os protagonistas, mas não sei se às vezes não é muito pesado para sete anos. Como daquela vez, por exemplo, em que um monstro comeu o braço a alguém e se vê o “braço decepado”, osso e sangue à mostra. Eu achei um bocadinho realista demais para um público infantil, mas se calhar agora os putos até vêem “A Guerra dos Tronos”. Por outro lado, apesar da simplicidade da história, os personagens não são tão bidimensionais como é costume e não sei se um miúdo desta idade tem capacidade de lhes compreender as nuances. Eu aconselharia a uma idade entre os 10 e os 13, mas já volto a este ponto.
Sinbad é mesmo Sinbad o Marinheiro. Um jovem irresponsável, vive de expedientes até ter o azar de matar acidentalmente o filho de um nobre importante num antro de luta a dinheiro. Este nobre importante, Lord Akbari, não é outro senão Naveen Andrews, o Sayid Jarrah de “Lost”, e que bem que este homem faz de vilão atormentado. Tão atormentado, na verdade, que não sei até que ponto uma criança ia compreender isto. No mundo infantil há os bons e os maus, não existe a área cinzenta em que um vilão pode ter alguma razão.
Cego de vingança, Lord Akbari manda matar o irmão de Sinbad, que este adora, para que Sinbad sinta a dor que ele sente. Quando isto acontece, a avó de Sinbad, furiosa por este ter sido o causador da morte do irmão bom e responsável, põe-lhe uma maldição: Sinbad tem de andar no mar durante um ano, com um colar ao pescoço que o estrangula se passar mais de um dia em terra. A avó é uma feiticeira, como é óbvio, e não faz isto por malvadez. Quer que Sinbad aprenda a lição de que os seus actos têm consequências. Entretanto, Lord Akbari sofre pela morte do único filho e decide que a vingança não bastou. Agora quer matar Sinbad também, e decide persegui-lo até aos confins do mundo. Para tal, pede ajuda à feiticeira Taryn, cujas práticas estavam banidas da Pérsia por ordem do soberano, irmão de Akbari, que não gosta de magia.
Aqui, confesso, cheirou-me tanto a “Merlin” que enjoou (“Merlin” terminou em 2012, ano de estreia de “Sinbad”), mas a série afastou-se desse enredo depressa, talvez por perceber que já ninguém tinha paciência para ver o mesmo outra vez. Foram espertos.
A única ligação à Pérsia é mesmo o ponto de partida, porque de resto “Sinbad” é uma série de Fantasia com um world building próprio muito bem feito em que somos mergulhados num tempo e espaço ficcionais sem outras semelhanças com a realidade histórica. (Alguns críticos não perceberam que estavam a ver Fantasia. É triste mas ainda acontece.) Perseguido por Lord Akbari, Sinbad tem de fugir num navio que quase naufraga durante uma tempestade. Os únicos sobreviventes, que se tornam companheiros de Sinbad, são meia dúzia de personagens que não podiam ser mais diferentes, alguns bons até ao tutano, outros de passado e presente duvidosos.
Todos os episódios são uma aventura diferente e a série aproveita para desenvolver cada um dos personagens, contando-lhes a história. Dei por mim a ficar interessada. Não deslumbrada, nem nada que se pareça, mas é uma boa série para ver ao fim do dia, com sono e um copo de vinho, sem ter de pensar muito, mas ainda nos fazendo pensar um bocadinho. O enredo principal vai sempre acompanhando as aventuras dos amigos náufragos, e nunca temos a sensação de episódios que só ali estão a encher “chouriços”.
Acabada a primeira temporada de 10 episódios, perguntei-me se havia segunda. Para meu espanto, não havia. Foi cancelado. E digo “para meu espanto” depois de cinco intermináveis temporadas de “Merlin” e duas de “Atlantis”, que eu já só via por hate watching. Isto intrigou-me e fui investigar. Li algumas críticas. E as minhas suspeitas confirmaram-se. “Sinbad” foi vítima de ser demasiado pesado para crianças e demasiado leve para adultos, um pouco o que aconteceu também a “Atlantis” no fim. As crianças não conseguem compreender os personagens e os adultos acham-nos demasiado estereotipados. O world building de Fantasia está muito bem feito mas pedia mais drama a encher este cenário. Numa altura em que competia com “A Guerra dos Tronos”, não tinha qualquer hipótese.
Vou dar o exemplo do segundo episódio, em que os náufragos vão parar a uma ilha de ladrões canibais. Que são canibais é a princípio só insinuado mas lá para o meio do episódio torna-se muito claro: vão ser comidos. A rainha dos canibais escolhe um dos homens para dormir com ela (antes de o comer mesmo, isto é), e Sinbad oferece-se em vez dele para tentar descobrir como escapar. Ora, meus amigos, isto é violação. Se fosse um homem a escolher uma mulher para dormir com ele sob ameaça de morte, o que não teriam gritado os pais das criancinhas a quem a série era supostamente destinada. Sinbad vai para a cama com a rainha dos canibais porque não tem outra escolha se a quer “empatar”. É a vida dele e dos amigos que está em jogo. Não me parece um enredo infantil. Mas este é precisamente o episódio que acaba com a ajuda do grifo. A rainha dos canibais tem um grifo aprisionado a quem Sinbad liberta. O grifo ajuda por gratidão. Ora, este já é um enredo infantil. Mas o episódio andou ali entre o pesadíssimo e o infantil como se água e azeite se misturassem. Eu assisti de boca aberta a perguntar-me: quem é o público-alvo desta série? É que não dá para ser leve e pesado ao mesmo tempo. Acaba por não agradar a ninguém, nem aos miúdos nem aos graúdos. Na minha opinião foi isto que ditou a curta carreira de “Sinbad”, que, dirigido a um público mais adulto, ou o contrário, a um público mais infantil, podia ter sido uma série mais satisfatória.
Assim, ficou ali no morno e não foi quente nem frio. Mas como morno que é, aconselho a adultos ensonados antes de dormir.
E já falei no Naveen Andrews como vilão? Por onde é que o homem tem andado? As saudades que eu tinha dele.

 

domingo, 4 de abril de 2021

The Purge: Anarchy / A Purga: Anarquia (2014)

Muitos críticos deste filme apontam a premissa da Purga como ridícula e inconcebível. Eu discordo cada vez mais. Tal como disse aqui na crítica ao primeiro filme da série, “A Purga”, não acredito que uma noite de violência por ano em que todos os crimes são admissíveis, até o homicídio, resultasse na diminuição do crime. Mas, como acabámos de ver pelo exemplo do ano que passou, não é por uma medida não resultar que não se implementa. E uma população aterrorizada, neste caso uma população aterrorizada pelo crime, desde que bem regada de propaganda, aceita tudo o que percepcione como medida de protecção para si e para os seus.
Os Novos Pais Fundadores, como chamam a si próprios, não são ditadores de um regime totalitário. Tal como o partido Nazi foi eleito por uma população desesperada e iludida, estes líderes foram eleitos por uma população amedrontada que acreditou na propaganda. Uma vez engolida a propaganda, as piores atrocidades podem acontecer sob o aval da sociedade que concordou com elas, implícita ou explicitamente. E depois há sempre aquela tendência do ser humano de entrar em negação: “Eles dizem isso assim e assim, mas não são tão maus como parecem. É só conversa, não vão pôr em prática.” E lá vai o voto de protesto para os radicais que defendem as medidas. Aconteceu com o partido Nazi, não vejo razão por que não possa vir a acontecer. É claro que aqui também entra a negação: “Não, não vai nada acontecer outra vez. Que ideia ridícula e inconcebível.” Não é ridícula nem inconcebível e já esteve mais longe.
Raramente me vão ouvir dizer isto, mas este segundo filme é melhor do que o primeiro. Se “A Purga” era o típico filme de terror em que uma casa é assaltada por estranhos que querem matar os seus habitantes, esta sequela desenvolve-lhe as pistas políticas e sociológicas. Sem deixar de ser um filme de grande terror, que o é, é também um comentário à desigualdade social, à lavagem cerebral e ao poder.
Se em “A Purga” vimos os acontecimentos pela perspectiva de uma família privilegiada da classe média-alta, aqui andamos nas ruas, na anarquia da noite da Purga em que aqueles que não se conseguem proteger por detrás de muros e bunkers, os pobres, são os mais vitimados. Muitas coisas são chocantes por serem já consideradas tão normais pela sociedade.
Por exemplo, começa por aquele avô que precisa de remédios muito caros e sabe que a filha faz grandes sacrifícios para lhos comprar, e decide vender-se para ir ser assassinado por uma família abastada que mata em conjunto no conforto e segurança do seu lar. “Sobrevivam a esta noite e usem o dinheiro que vai aparecer na vossa conta”, escreve à filha e à neta antes de sair para ir morrer. 

Já na casa deste avô, esta filha, empregada de mesa, e a sua filha adolescente, tentam trancar-se como podem, mas uma milícia armada invade o prédio e arrasta-as para fora de casa, onde uma metralhadora as espera. É que o governo acha que as pessoas “não estão a matar-se o suficiente” e começou a intervir com assassinatos militarizados em bairros pobres para diminuir a despesa com as classes mais desfavorecidas. Esta milícia mata a mando do governo.
Mãe e filha são salvas no último instante por um polícia que andava na rua na noite da Purga com a sua própria vingança em mente: matar o condutor alcoolizado que vitimou o seu filho num acidente de automóvel. Este é daqueles que concordam com a Purga como método de fazer justiça pelas próprias mãos, e que se calhar até votou nos Novos Pais Fundadores, mas tem muitas horas para mudar de ideias até ao fim da noite.
Os outros protagonistas da história são um jovem casal em crise que apenas teve o azar de estar no sítio errado à hora errada. Ainda antes de começar a Purga, são perseguidos por um gangue com máscaras medonhas e facas. Pensamos que este gangue os quer matar, mas não. Este gangue anda à procura de vítimas para vender a um leilão da classe alta em que estas vítimas vão ser caçadas, como animais num safari, pelos licitantes que pagarem mais. A mensagem do filme não podia ser mais clara. A Purga serve os interesses dos mais ricos, que “purgam e purificam” completamente convencidos de que estão a participar na melhoria da sociedade. Porque nunca lhes calha a eles. Assim é fácil defender a Purga.
Mas se os mais ricos se conseguem proteger, isso não significa que alguns das classes mais desfavorecidas não gostem também da Purga. É uma noite para deitar cá para fora o “animal dentro de si” como dizem as notícias, e grupos de “purgadores” munidos das suas armas preferidas saem às ruas para fazer isso mesmo: matar tudo o que lhes aparecer à frente. Chegam até a procurar os locais onde dormem os sem-abrigo porque são os mais fáceis de matar e estão completamente indefesos.
Nem tudo é horrível. Já começa a formar-se uma resistência política e armada que anda pela noite da Purga a matar os ricos nos seus bunkers. Sim, também parece horrível, mas pelo menos estes matam por convicções ideológicas, se não mesmo em auto-defesa, não matam para satisfazer instintos sádicos. É a diferença entre a guerra e a barbárie, por muito más que sejam ambas.
Como se deve ter notado, gostei do filme e recomendo. Para se ver de olhos bem abertos sem as vendas da negação. Já aconteceu semelhante e pode muito bem vir a acontecer igual ou semelhante outra vez.

17 em 20

 

 

domingo, 28 de março de 2021

Um Olhar do Paraíso, de Sérgio B. Andrade

Filha de uma família nobre e muito rica Isolda perde os pais assassinados pelo seu tio Azim. Ao saber da existência de um homem chamado Jesus que cura doentes e ressuscita mortos ela parte em busca do mesmo com a esperança de ver seus pais vivos novamente. Quando olhar de Isolda se cruza com o do jovem Noah tudo muda em suas vidas. O olhar sobre a vida nunca mais será o mesmo para os dois.


Comprei este livro por causa da sinopse acima. Infelizmente, esta não diz nada sobre o facto de este ser um “romance cristão” ou eu teria pensado duas vezes. Também não reparei nessa informação ao abrir o miolo (preview) do livro. Preferi prestar mais atenção às páginas iniciais (como faço sempre, nem sequer compro sem as ver primeiro) e a escrita pareceu-me decente. Por isso comprei. E apesar de o Romance Cristão não ser dos meus géneros favoritos, também não sou alérgica.
Infelizmente, a escrita decente foi sol de pouca dura. Por muito que me doa, tive de dar apenas duas estrelas no Goodreads devido, sobretudo, ao livro estar tão mal escrito.
Hesitei muito se devia escrever esta crítica. Escrever uma crítica dá trabalho e demora tempo, ambas coisas que este livro não teve. Pergunto-me quantas revisões o autor lhe fez, para deixar passar tantos erros ortográficos e gramaticais e gralhas várias, e se alguma vez pediu a alguém (fora do grupo de amigos e familiares, que nunca são de confiar nestas coisas) que lhe fizesse beta reading. Quanto à segunda pergunta, tenho a certeza de que não. Este livro nunca teve um beta reader exigente e imparcial que dissesse ao autor aquilo que eu vou dizer agora, quando já é tarde porque o livro já se encontra à venda. E eu fui uma leitora muito desiludida, tão desiludida que ponderei largar o livro e só não o fiz porque como escritora e beta reader se aprende muito (bastante) de livros maus. E “Um Olhar do Paraíso” é um livro mau, daqueles que só servem para aprender a não escrever assim.
Fui tirando algumas notas enquanto lia para não me esquecer dos pontos mais graves. Fiz propositadamente vista grossa a algumas utilizações de vocábulos da oralidade do brasileiro, bem como a algumas construções que me pareceram francamente agramaticais, embora recorrentes do princípio ao fim do livro, por não saber se em brasileiro já são aceites como norma “informal”. O autor é brasileiro e a língua é um processo dinâmico. Os beta readers e críticos brasileiros que avaliem. Vou focar-me apenas no que me saltou à vista como notoriamente problemático e ignorar estas diferenças de linguagem de cá e de lá.
Comecemos com as frases agramaticais que não deixam qualquer dúvida, nem na norma brasileira nem na europeia. Um exemplo:
Kirsten é a primeira a sair da água, ela nos guiou até à estrada para dentro da caverna.
Falta aqui qualquer elemento de ligação que torne a frase gramatical. Mas aproveito este exemplo dois-em-um para falar noutro problema constante e incomodativo:
Mudança de tempo verbal do presente para o pretérito perfeito ou imperfeito, ou vice-versa, no mesmo parágrafo sem motivo ou efeito justificado. Ver exemplo acima. Presente, pretérito perfeito, e por aí fora, sempre a saltar entre tempos verbais sem rei nem roque.
Anacronismos de linguagem: “meninos”, “pessoal”, utilização da expressão “déjà vu” (ainda por cima mal empregue porque o que se queria dizer era “Fulano reconheceu um lugar por onde já tinha passado no que parecia um labirinto de corredores”, o que não tem nada a ver com a sensação de déjà vu); anacronismos históricos que precisavam do beta reading de alguém com cultura geral sobre a Palestina dos tempos de Jesus: batatas, coqueiros, vidraças. (Não, meu amigo, não mesmo. Isto são coisas do Renascimento, pós-Descobrimentos.)
Palavras mal escolhidas em geral (como o tal “déjà vu” que nem sequer o era). Repetições desnecessárias e frequentes da mesma ideia e/ou factos que bem cortadas podiam tirar um bom terço ao livro sem se perder nada.
Descrição deficiente do espaço em que ocorre a acção, especialmente em cenas de perseguição e fuga em que o leitor precisa de saber exactamente onde é que os personagens e os perseguidores estão para compreender o perigo que os protagonistas correm nesse momento, sem o qual não se consegue criar um efeito de suspense.
Opção de usar pontuação extravagante nos diálogos (propositada para ser diferente?) que apenas serve para confundir: “_Não se preocupem, meninos, o Homem dos Milagres também estará comigo! Desabafa Kristen com uma voz segura e firme.” (Estes “meninos” são homens, só para explicar aos leitores deste lado do Atlântico.) Como vêem, em vez de travessão (ou mesmo aspas) o autor usa um underscore e o leitor que perceba sozinho onde é que o diálogo acaba e a narração continua. Originalidades destas são engraçadas quando o livro está muito bem escrito. Neste caso, mais valia ter seguido a norma e era menos uma fonte de estranheza a juntar às demais e a distrair-nos da leitura.
Por último, qual terá sido o critério que o autor usou para escolher os nomes dos personagens? (Cá para mim, não houve qualquer critério.) Temos nomes bíblicos, o que só fica aqui bem, temos nomes anglo-germânicos como Noah e Emily e Kristen, temos nomes portugueses como Maria Eduarda (não perguntem), o vilão chama-se Azim (o que nos remete para paragens mais arábicas, mas nesse caso a sua sobrinha Isolda não deveria ter igualmente um nome da etnia do tio, como, por exemplo, Samira?) e nomes brasileiríssimos como Silvaír e Ademar. Tudo isto até "passava" se o livro fosse Fantasia, mas é ficção histórica na Judeia do tempo de Cristo. (Ser um “romance cristão” não iliba desta responsabilidade nem significa que o autor possa escrever o que lhe der na cabeça.) Juro que no princípio ainda me questionei se estes personagens de nomes anglófonos não eram de facto originários de tribos germânicas que estavam na Palestina por qualquer motivo, como o comércio, por exemplo. Não seria impossível, na grande Roma. E nenhum deles (mesmo nenhum deles) alguma vez é visto ou ouvido a falar ou a praticar qualquer ritual hebraico, o que me leva a perguntar se seriam judeus. O livro também não diz, muito menos explica esta salada de nomes. E Kristen? Até em hebraico, Kristen significa “seguidora de Cristo”. Não podia haver uma menina chamada Kristen antes de Cristo. Plot hole, anacronismo, falta de atenção. Nem sei o que diga. Porque não usar apenas nomes bíblicos e em português, já que há tantos? João, Noé (em vez de Noah), Bartolomeu, Mateus, Lucas, Sara, Raquel, Rebeca, Dinah, Ester, Eva. Nomes não faltam.
Vamos lá então à história. E a história é uma confusão de tal ordem que eu teria dificuldade em contá-la a alguém. Noah apaixona-se por Isolda, mas entretanto conhece Emily, amiga de Isolda, que lhe diz que os pais de Isolda foram assassinados pelo malvado tio de Isolda, Azim. Emily foi raptada por Azim por saber demais e Noah tem de a ajudar a escapar de um ritual em que Azim a queria sacrificar aos deuses dele. Resgate feito, decidem ir salvar Isolda. Mas entretanto Isolda já se salvou a si própria e já partiu em busca do Homem dos Milagres. Segue-se um corre-corre para a frente e para trás, daqui para ali, sempre em viagem, em que o movimento dá a entender que está a acontecer muita coisa mas na verdade não acontece nada. Todos os personagens acabam por se encontrar por acaso e não porque se procurassem uns aos outros. Fiquei perplexa porque Emily quer tanto salvar Isolda, com quem vive no palácio desta, mas nunca passa pela cabeça de Isolda que Emily desapareceu e que devia igualmente procurar por ela. Só pensa em pedir a Jesus que lhe ressuscite os pais, a amiga que se desenrasque. Grande amiga, sim senhor.
Sempre que há apuros, um milagre de Jesus, à distância, acaba por salvá-los no último momento. Teria sido melhor que os personagens se tivessem conseguido salvar a si próprios mais vezes sem tanta intervenção divina. Compreendo que isto faça parte de um “romance cristão”, mas quanto mais milagres (e ressurreições) mais os embaratece.
De milagre em milagre, conseguem finalmente encontrar Jesus, já quando este é preso e crucificado. Admito que foi a parte mais empolgante do livro, mas convenhamos que não foi por mérito do autor. Esta é a história mais lida no mundo e já foi escrita há 2000 anos. O autor apenas a transcreve.
Se o autor me está a ler, como escritora também sei o que isto custa ouvir. A minha intenção não é apenas criticar mas antes aconselhar. Este livro podia ser muito melhorado se o autor não for daqueles que responde às críticas com um encolher de ombros e um “eu nem levo a escrita a sério” (como já vários me disseram assim que perceberam o trabalho que implica e o tempo que demora escrever um bom livro).
Primeiro que tudo, este livro devia ser retirado da venda ao público e dado a beta readers. A comunidade brasileira de beta readers funciona e é muito mais vibrante do que a nossa (a portuguesa). Consegue-se arranjar beta readers em brasileiro para qualquer género, é só procurar. Depois, é preciso aplicar o que lhe disserem e trabalhar muito este manuscrito. Uma boa investigação sobre o tempo histórico da Palestina de Jesus também faz aqui falta como pão para a boca. Só então o autor pode pensar em voltar a pôr o livro à venda.
Em suma, se o autor quer continuar a escrever, e a escrever bem (ninguém nasce ensinado), devia pôr mais fé no trabalho e menos fé em que a boa escrita lhe caia do Céu. Não é assim que acontece, nem por milagre divino.



domingo, 21 de março de 2021

The Lazarus Effect (2015)

Uma equipa de cientistas produz um soro que tenciona prolongar a vida de pacientes em coma de modo a permitir mais tempo à intervenção médica. O soro funciona como um desfibrilhador, mas a nível cerebral. No decurso de experiências em laboratório com animais mortos, os cientistas conseguem ressuscitar um porco por breves instantes. De seguida ressuscitam um cão.
Acidentalmente, uma das cientistas da equipa morre electrocutada. E a seguir vocês já sabem o que acontece.
“The Lazarus Effect” é uma salada de clichés que me lembrou de dois filmes em particular: “Flatliners” / “Linha Mortal”, de 1990, um clássico em que os cientistas se submetem a experiências de quase-morte cada vez mais prolongadas de modo a investigarem o que existe para lá dela, e “Pet Sematary”, em que se pergunta: o que é que as pessoas estão dispostas a fazer para trazerem um ente querido da morte? Tudo!
Depois de ressuscitarem o cão, os cientistas observam que o seu comportamento não é normal. Primeiro que tudo, o cão tinha cataratas à data da morte e estas agora estão curadas. A princípio o cão mostra-se apático, mas torna-se cada vez mais agressivo. A sua actividade cerebral é extraordinária, muito acima do normal.
Um dos personagens (interpretado por Evan Peters, bem nosso conhecido de “American Horror Story”) sugere que se abata o cão antes que ele vire Cujo, numa referência descomplexada a Stephen King.
Mas claro que não fazem isso, e quando a cientista morre acidentalmente, com o soro ali tão perto, o noivo dela, e líder da equipa, nem pensa duas vezes e ressuscita-a.
Até aqui o filme estava a ser interessante, admito, não obstante a falta de originalidade. A premissa continha algo de filosófico, os próprios cientistas questionavam as suas escolhas éticas, falava-se da morte como o fim da vida biológica mas colocava-se a hipótese da sobrevivência da alma.
E depois descamba em todos os clichés possíveis e imaginários de um filme de terror previsível de reduzido orçamento, já a pensar na sequela que ninguém quer ver.
A sério, era necessário que os olhos da ressuscitada ficassem negros como os dos demónios de “Sobrenatural”? É que já nem provoca efeito de choque. Fiquei desiludida, confesso. Esperava mais deste filme que até não começa mal.
O enredo de “The Lazarus Effect” está demasiado explorado: o personagem que volta dos mortos “diferente”, inevitavelmente maléfico. O original seria que fosse malvado e voltasse bonzinho.
Este é um filme que se vê bem, sem expectativas e sem pensar muito. E também não há mais nada a dizer sobre ele.

14 em 15



domingo, 14 de março de 2021

Carrie (2013)

Sempre que é feito um remake de um clássico, é legítimo questionar porquê. Muitas vezes a única razão é monetária: sucesso de bilheteira instantâneo. Toda a gente quer ir ver, nem que seja por curiosidade. Na esmagadora maioria das vezes o remake não é melhor do que o original.
Confesso que já não me lembrava dos pormenores todos do enredo do “Carrie” de 1976 (tirando o sangue de porco e o massacre, que ficam na memória para sempre) e que tive de ir lê-los à Wiki. Tirando poucos detalhes insignificantes, o enredo do remake é exactamente o mesmo.
Mas há problemas de anacronismo. O filme de 2013 passa-se na actualidade, com smartphones e tudo. Torna-se muito difícil acreditar que a mãe de Carrie não soubesse que estava grávida e que Carrie, no ano de finalista do liceu, não soubesse o que é a menstruação. No caso da mãe de Carrie, fanática religiosa possivelmente com perturbações mentais, ainda se admite que estivesse em negação (estava a dar à luz e pensava que estava a morrer de cancro), mas no caso de Carrie torna-se ainda mais inacreditável. Quantos anos tem Carrie, afinal, quando lhe aparece o período em pleno duche do ginásio à frente das colegas? 15, 16 anos? Isto faria com que tivesse nascido por volta do ano 2000. Carrie, no filme, é uma miúda do novo milénio, que vive na cidade e sabe usar o computador da escola para pesquisar “telecinese”. É impossível, verdadeiramente impossível, não saber o que é o período, mesmo que a mãe nunca lhe tivesse explicado as coisas da vida, mesmo que não tivesse acesso a televisão nem rádio nem jornais, mesmo que não tivesse tido Biologia na escola (o filme explica que durante muito tempo foi ensinada em casa). Até os outdoors de publicidade a tampões e pensos higiénicos a deviam ter deixado curiosa, não? Assim, o filme não devia ter ido buscar um elemento do enredo que em 2013 é completamente irrealista.
Mas não o era em 1976, nem em 1974 quando Stephen King publicou o livro homónimo. Nesta altura, Carrie teria nascido nos anos 60, talvez até mais cedo. Era perfeitamente possível, vivendo na América rural e isolada, sem escola nem televisão, que uma mulher não soubesse o que era o período nem que estivesse grávida ou sequer como é que se engravidava.
Nem é preciso ir à América rural e imaginarmos uma casinha isolada no meio da pradaria. Em Lisboa, nos anos 70, esses assuntos ainda eram tamanho tabu que até as mães tinham vergonha de falar com eles às filhas. Era completamente possível uma miúda ser surpreendida com a menstruação sem saber o que era, ou ficar grávida sem saber exactamente como. (Basta recordar a revista Crónica Feminina e os artigos que lá apareciam a explicar estas coisas, todos muito decentes e cheios de eufemismos para não chocar as susceptibilidades mais puritanas.) Nesse aspecto, o livro e o filme de 1976 eram completamente plausíveis.
Portanto, o filme começa logo de início a alienar-nos do realismo em torno da história, o que é mau num filme de terror. Mas será este “Carrie” um filme de terror, ou melhor, um filme de terror bem conseguido? (O momento mais perturbador, para se ter uma noção, é a cena em que matam o porco. Só digo que envolve um martelo.) Senti mais esta versão como um drama centrado na relação mãe e filha, com Julianne Moore a desempenhar um papel deveras à sua altura que não vou esquecer tão cedo. O sangue de porco, o bullying, a vingança, tudo isso soa a cópia.
Então porque é que se fez este filme? Tirando a resposta possível “e porque não fazer?”, talvez pelos efeitos especiais mais modernos? Por falar nestes, achei-os muito espalhafatosos e exagerados. E todo aquele cliché em que Carrie utiliza as mãos ao mesmo tempo que aplica os poderes psíquicos para se vingar foi realmente de filme de terror barato.
O que fica deste filme? Um decalque ferido de anacronismos que não justifica o remake. Em 1976, “Carrie” teve impacto e foi chocante. Em 2013, “Carrie” vê-se e logo se esquece. Salva-se o espectacular desempenho de Julianne Moore.

14 em 15


sexta-feira, 5 de março de 2021

BETA READERS para “Elysion”: Low Fantasy, Drama, Romântico, Filosófico

Chegámos ao momento trepidante em que “Elysion” está pronto para beta reading.
“Elysion” é o novo livro de D. D. Maio. A história passa-se a seguir a “Nepenthos”, “Miasma” e “Solstício”. Não é necessário ter lido estes títulos para acompanhar “Elysion”, embora o contacto prévio com a série iniciada em “Nepentos” torne a leitura mais satisfatória.


SINOPSE (provisória, por agora, bem como a capa que ilustra o post)

Quanto tempo pode durar a felicidade? Ainda é verão, paraíso breve. Reena e o imperador encontram-se no jardim do novo palácio para debaterem filosofia. Depressa a conversa se volta para o passado. Eric, o imperador, sempre pensou que tinha travado uma guerra para sobreviver. Na verdade, o que queria era despeitar o seu pai.
Reena só queria ser uma rapariga como as outras.
Axel só queria ser alguém.
Camilla e Alexander queriam o que não podiam ter.
Gherrard e Sunya já tinham tudo o que queriam.
Hildegaard, sem nada querer, conseguiu esvaziar a sua vida.
Rosa só desejava um lar onde pertencer.
Rurik queria de volta o lar que perdera.
Kelma queria escapar para lá do seu horizonte.
Selma queria poder.
Elena queria vingança.

§


O original tem 203 mil palavras. Para beta reading, sugiro começar pelas primeiras 13.500, e logo se vê como decorre o processo. Aceito todas as opiniões, críticas e comentários, e, sabem os que já me conhecem, não protesto.
Como autora, estou disponível para reciprocar o beta reading com outros autores.
Não costumo apontar deadlines, mas ainda tenho esperança de publicar esta história em Junho. Muito vai depender da disponibilidade e rapidez dos queridos beta readers que aceitarem o desafio.
Os beta readers mais dedicados serão mencionados nos agradecimentos do livro, se assim o desejarem.

O que faz um beta reader?
O beta reading ainda é pouco conhecido entre nós. Muitas pessoas me têm perguntado o que faz exactamente um beta reader. De modo muito simples, um beta reader lê o manuscrito antes de este ser publicado e aponta tudo aquilo que escapou ao autor: desde gralhas insignificantes a plot holes do tamanho de crateras. Das opiniões, comentários e elogios dos beta readers, o autor fica com uma percepção exterior de como o seu trabalho está a ser recebido que o vai ajudar a melhorar o manuscrito e a escrita futura. Quanto maior a honestidade dos comentários, mais estes ajudam.
O autor tem de ter a maturidade de aceitar e agradecer as opiniões (concorde ou não com elas), mas por outro lado os comentários devem ser construtivos. São estes os mais úteis. Pessoalmente, todos os comentários me têm sido úteis, até aqueles mais difíceis de “decifrar”. Um bom beta reader vale o seu peso em ouro.
Para um autor, o beta reading é simplesmente a melhor maneira de evoluir. E não me refiro apenas aos “iniciantes”. Todos os escritores consagrados (mas mesmo todos) têm beta readers e/ou editores que fazem esse papel. Fazer beta reading a outro autor tem a grande vantagem de permitir comparar a escrita que se está a analisar com o próprio trabalho e reconhecer os erros naquilo que não funciona (ou, melhor ainda, descobrir como evitá-los).
Para um leitor, e aqui falo como beta reader que sou também, os proveitos são óbvios. Graças ao beta reading já li vários livros excelentes que não teria conhecido de outra maneira (e de borla, não considerando o “pagamento” em trabalho da minha parte, porque o beta reading dá trabalho e leva tempo). Sempre que tenho disponibilidade e o género me é agradável, ofereço-me.
 
Os interessados podem contactar-me directamente através do email d.d.maio.email@gmail.com, ou deixar o vosso email em comentários para receberem as páginas iniciais do manuscrito.
Até breve!

quinta-feira, 4 de março de 2021

A Revolta de Tuong, de Armando Frazão – disponível também em ebook

“A Revolta de Tuong” é um livro de ficção científica hard que vai agradar a quem gosta de acção, especialmente acção militar.
Ver a restante crítica AQUI.


O livro e o ebook estão disponíveis no site da Amazon / Kindle, aqui:
www.amazon.es/dp/B08Q6NZZBR


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Divergente, de Veronica Roth (livro), e filmes

[contém spoilers]

Ó Céus, ó Seca! Sem exagerar, este foi um dos livros mais aborrecidos que já li na vida.
Mas antes, o disclaimer: este foi dos tais que adquiri como bónus da entidade patronal. Era escolher alguns ou ficar sem nada. A sinopse interessou-me. Numa sociedade de facções, uma jovem divergente é obrigada a escolher a facção a que vai pertencer o resto da vida. É caso para dizer que a sinopse é melhor do que o livro, porque me fez pensar numa história socio-filosófica em que a conclusão é que todos somos divergentes e ninguém pertence a uma só facção como ovelhas rotuladas. Eu, sem dúvida nenhuma, sou divergente. Mas afinal há sempre uns mais divergentes do que outros.
Assim que vi o primeiro filme, homónimo, arrependi-me logo de ter adquirido o livro. Mas já que estava cá em casa, dei-me ao trabalho de ler e julgar por mim própria. O livro ainda é pior do que o filme, não só porque qualquer livro demora mais a ler do que um filme demora a ver, mas também porque é mais chato.
É uma história Young Adult contada na primeira pessoa em que uma rapariga de dezasseis anos (mas que aparenta uns vinte e tal em maturidade) decide escolher uma facção de malucos e sádicos porque quer ser maluca e sádica como eles. Não lhe consegui perdoar isto e nunca consegui simpatizar com ela. Mas certas coisas são culpa da autora. Por exemplo, logo a princípio um dos Intrépidos (os tais malucos e sádicos) cai de um telhado por acidente e os outros companheiros de facção nem pestanejam. Penso que até ali deixam o cadáver sem se darem ao trabalho de o ir buscar, ou nada nos é dito sobre isso. Isto não é comportamento humano normal excepto em situação de guerra ou catástrofe. Desprezar assim um “membro da tribo” é minar o espírito de grupo. Mas Beatrice (a miúda) observa isto e nem se incomoda. Em Roma sê romano, deve concluir, e não pensa mais no assunto.
Segue-se uma longa iniciação cheia de praxes e bullying. Isto podia resultar se os Intrépidos fossem uma daquelas tiranias mesmo medonhas, como na História Alternativa de “The Man in the High Castle”. Mas não. Isto parece mais uma historinha de colégio interno onde os veteranos embirram especialmente com a miúda nova sem que haja sequer grande razão para isso. Beatrice veio de outra facção, mas não é a única. Não vejo razão para implicarem com ela mais do que com os outros “transferidos”, a ponto de a quererem matar por ter bons resultados, santo exagero! (Alguém deve ter passado as passinhas do Algarve no liceu e este livro é resultado/vingança dessa experiência.)
O livro são páginas e páginas de treino e simulações (tipo jogos de vídeo). Poderá haver algo mais chato do que páginas e páginas de treinos? Eu nem o “Karate Kid” consegui suportar já por causa disso.
Finalmente Beatrice consegue o que quer, ser iniciada como Intrépida de pleno direito, só não sendo tão sádica como os outros porque tem o tal gene “divergente”. Mais um simplismo irrealista, a mera ideia de um grupo de pessoas só poderem ser uma coisa e uma coisa apenas. Não há lugar para empatia nos Intrépidos, como se em vez de humanos fossem uma outra espécie qualquer, ou uma cambada de psicopatas (é mais a segunda hipótese).
Finalmente, chegamos à acção. Não vou contar como, mas há uma guerra entre facções. A mãe de Beatrice morre a salvar a filha. Reacção: “Oh, nem acredito que a minha mãe acabou de morrer à minha frente, mas tenho mais que fazer agora.” Apenas horas mais tarde, o pai de Beatrice morre também. Reacção: “Hoje não estou com paciência nenhuma. Morreu-me o pai e a mãe. Que raio de dia.”
Eu espero que no próximo livro ela chore, e chore muito, porque isto não é uma reacção normal de pessoa humana a fazer um luto por um pai e uma mãe de quem gostava muito. Não é mesmo. E novamente culpo a autora que não deve perceber muito de psicologia nem de gente nem da vida. Que personagens tão mal escritas, ó desgraça!
Ainda por cima os Eruditos (facção) são os maus da fita. Isto sim, já é plausível, porque este livro realmente não se destina a um público-alvo de grande erudição. Mas chateou-me ainda mais, não bastante tudo o resto, porque numa sociedade destas (ou doutras) eu escolhia mesmo pertencer aos Eruditos sem pensar duas vezes. Mais uma razão para não simpatizar com a protagonista nem com o livro.
Pelo menos fiquei a saber algo que não apanhei no filme. As facções estabeleceram-se assim para evitar aquilo que acreditam causar as guerras: os Eruditos, a ignorância; os Intrépidos, a cobardia; os Cândidos, a mentira, e por aí fora. Mais uma explicação simplista de gente pouco erudita, porque o Mal é demasiado complexo para se explicar apenas por um único factor. O mais irónico ainda é que não há nada mais propício do que um sistema de facções para criar um clima de conflito “nós contra eles”, que seria exactamente o que as facções supostamente deveriam evitar. Os Eruditos, que pelo menos estudam, devem ser os únicos que sabem disto. Mas chamar malvados aos únicos que prezam o conhecimento não é um bom princípio.
Dei três estrelas ao livro no Goodreads porque está escrito decentemente, em termos técnicos. Se fosse a avaliar unicamente a história, levava só duas estrelas com sorte.

Divergente / Divergent (filme, 2014); Insurgente / Insurgent (filme, 2015)
Como disse, assim que vi o primeiro filme, “Divergente”, arrependi-me logo de ter pedido o livro e demorei alguns anos a começar a lê-lo. Mesmo assim, tenho de dar os parabéns aos realizadores do filme por terem conseguido fazê-lo mais interessante do que o livro, adaptando e cortando o que foi preciso, adicionando mais dramatismo onde era criticamente necessário. Por exemplo, no filme sentimos de facto a dor e o luto de Beatrice quando perde os pais. No livro, e ainda mais grave, na primeira pessoa, é quase como se ela estivesse a falar de dois conhecidos lá da rua. O filme não me interessou nada, mas como o vi primeiro ainda serviu para salientar mais os problemas do livro.
“Insurgente” consegue ser um filme ainda mais maçador, o meio da história na trilogia onde se avança um bocadinho mas não muito, onde me dá a sensação de que o filme se passou todo entre várias simulações que apenas Beatrice consegue manipular. Olha outra incongruência. Por alma de quem é que a Super-Beatrice é a única que consegue manipular as simulações, como apenas os divergentes conseguem, e destes é a melhor de todas? Que genes tão bons devem ter os divergentes em relação aos outros seres humanos. No segundo filme há mais violência e mais mortes, mas nada que cause impacto.
Péssima série, não aconselho a ninguém. Vou ver o último filme, “Allegiant”, quando e se passar na televisão, porque gosto de saber o fim às coisas, mesmo quando as coisas são más. Mas não tenho pressa nenhuma. Se nunca o vir também não perco nada.

Divergente / Divergent (filme, 2014)

12 em 20

Insurgente / Insurgent (filme, 2015)

12 em 20

 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Blog Gotika ultrapassa as 400.000 visitas

 

Quatrocentas mil!
Pena não ter estado aqui para captar o momento dos 400 zero zero zero.
São muitos visitantes. São muitos leitores. Muito obrigada a todos. O blog não existiria sem vós!

domingo, 21 de fevereiro de 2021

The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas (2013); The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1 (2014)

Quando aqui fiz a crítica ao primeiro filme, perguntava-me quem seria Katniss quando não andava a ser perseguida na floresta. Agora já sei. Katniss é daquelas protagonistas Young Adult que estão muito na moda e que não passam de “action figures” à Schwarzenegger, mas no feminino como manda o “espírito dos tempos”. Queixei-me do mesmo quanto à Juliana de “The Man in the High Castle”, protagonista que ali está para fazer as coisas que o enredo precisa que ela faça. Profundidade nenhuma, motivações as mais básicas. Isto era o pior dos filmes de acção dos anos 80 e continua em força, pelos vistos.
O único esforço para aprofundar Katniss é um stress pós-traumático levezinho que a faz ter um ou dois pesadelos depois de sobreviver aos Jogos da Fome, mas nada de grave ou incapacitante.
Até o triângulo amoroso (?) é incompreensível. Mas afinal ela gosta é do Gale, ou do Peeta, ou dos dois, ou de nenhum? Assim o que parece é que ela beija aquele que ali está mais perto porque… está ali mais perto. Coisinha mais mal feita. Ao menos podiam ter aprendido com “Os Diários do Vampiro”, um triângulo amoroso Young Adult verdadeiramente épico, daqueles que nos prendem a respiração.
Mas vamos lá aos filmes.


The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas
“Os Jogos da Fome: Em Chamas” é a continuação do enredo onde o primeiro filme acabou. Katniss sobrevive aos Jogos da Fome, mas de maneira tão subversiva que inspirou as populações dos distritos oprimidos à rebelião. A princípio a elite dominante do Capitólio decide passeá-la e a Peeta, numa espécie de romance de telenovela para distrair a populaça. Quando não funciona, o malvado do Presidente Snow (malvado como só Donald Sutherland consegue fazer sem grande esforço) decide eliminá-la. Muda a “narrativa” política, e agora Katniss e os outros vencedores de prévios Jogos da Fome vão ter de se confrontar nuns Jogos especiais que celebram os 75 anos do regime.
A única maneira em que esta história funciona, e funciona muito bem apesar de tudo, é ao basear a elite despótica na Antiga Roma, desde os nomes ao vomitorium. (O próprio nome do país vem de “panem et circenses”, pão e circo.) O filme adquire uma gravitas que se calhar não merece quando os vencedores / participantes / gladiadores dos Jogos desfilam em quadrigas numa arena perante a tribuna do Presidente. Isto leva-nos imediatamente para a imagética dos filmes bíblicos de gladiadores e de cristãos lançados aos leões que têm um peso profundo no nosso inconsciente colectivo, entre os quais Spartacus, o antigo e o recente. Não é difícil de imaginar que isto seria Roma se os romanos tivessem reality shows na televisão. Mas quem viu o “Spartacus” recente sabe que também os tinham, apenas não tão mediáticos como agora.
A parte mais chata do filme, curiosamente, foram mesmo os Jogos. E detestei aquela coisa dos macacos assassinos. Completamente escusado.
Mas desta vez Katniss e Peeta e outras personagens simpáticas que conhecemos entretanto parecem mesmo feitos ao bife. Até que chega a reviravolta surpreendente.

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1
“Os Jogos da Fome: A Revolta” (primeira parte) começa exactamente onde o segundo “episódio” terminou, levando Katniss para o meio da rebelião da qual se tornou um símbolo mais ou menos sem querer.
Aqui o tom da série torna-se mais pesado, com imagens a lembrarem muitos cenários de guerra que já vimos na realidade, e repressão e execuções na rua à maneira dos vários regimes ditatoriais que têm existido aqui e ali. Mais uma vez o filme ganha uma gravitas que não sei se merece, emprestada de acontecimentos reais e exteriores à história que só nos tocam por esse motivo: porque aconteceram mesmo.
As personagens continuam bidimensionais, o que se torna cada vez mais notório e incomodativo à medida que o enredo progride. Sim, empatizamos com elas porque lhe conhecemos os nomes e as caras (da Katniss, pelo menos, dos outros nem isso) e porque temos coração, mas nada que perdure quando o filme acaba.
A acção passa-se agora no bunker do quartel-general do exército da Resistência (um exército que ninguém sabia que existia, nem a própria Katniss). O secretismo compreende-se, mesmo assim, porque os rebeldes não querem denunciar a sua posição e armamento antes de estarem em condições de atacar. Depois de ver a destruição infligida ao seu próprio distrito, Katniss decide finalmente assumir-se como símbolo da rebelião. Agora é que ela se torna realmente um alvo a abater, mas Katniss já sabia que o era e não tem nada a perder. Ou quase nada. Peeta foi capturado pelo Capitólio.
O resgate de Peeta é a parte mais empolgante do filme. O suspense da acção militar é merecido, decorrente do enredo e não “emprestado do exterior” como os exemplos que referi antes.
Não resisto a mencionar um momento que me fez rir, embora não devesse. A certa altura Katniss agarra-se a alguém a chorar quando percebe que tanto Gale como Peeta podem morrer. “Perdi os dois! Perdi os dois!”, lamenta-se. Apeteceu-me ser mázinha: Olha filha, quem tudo quer… Mas procura em tua volta, aí perto como tu gostas. Há muito peixe no mar. Mais um, menos um, para quem muda de homem conforme a fase da Lua, não há-de ser nada.
Duas últimas notas para as interpretações de Philip Seymour Hoffman (uma das suas derradeiras), num grande papelão como Plutarch Heavensbee. Já Julianne Moore foi criminosamente subaproveitada como Presidente Coin.
Falta-me ver o fim da história. Os filmes estão a tornar-se mais interessantes de “episódio” para “episódio” e pode ser que ainda me surpreenda. Vou deixar as conclusões finais para essa altura.

The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas
13 em 20

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1
14 em 20

 

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Cat-Shape Hole In My Heart, vários artistas (1999) – requiem pelos ausentes

Um disco de grande beleza pelos nossos amigos felinos ausentes, essas criaturas misteriosas que dignam partilhar connosco as suas vidas efémeras.
O projecto começou quando Sam Rosenthal (fundador de Projekt e Black Tape for a Blue Girl) perdeu a sua gata Vidna devido à leucemia felina e decidiu convidar bandas a integrarem uma compilação que alertasse para essa doença. Os lucros foram, e são ainda, destinados ao Tree House No-Kill Shelter of Chicago, um abrigo para gatos.
Cruzei-me com este disco por acaso (se acreditasse em acasos) quando o encontrei em segunda mão nos anos 2000, ainda na velhinha loja Fata Morgana da avenida Duque de Loulé. Comprei-o logo, mesmo sem conhecer a maioria das bandas. Vinte anos depois, este disco fez-me companhia em alguns dos momentos mais penosos da minha vida: o adeus aos companheiros felinos que estiveram comigo e já não estão. Muitas destas canções fazem-me logo desatar em lágrimas, mas chorar lava a alma.
“A Cat-Shape Hole In My Heart” é um álbum de gótico puro e sublime, um requiem composto por pessoas que passaram pelo mesmo luto destruidor. Um disco obrigatório para góticos que amam gatos. Se ainda não o têm, não imaginam a falta que vos fez.
Não há uma única canção inferior nesta colectânea, mas destaco as minhas preferidas: o desgosto subtil de "Too Far Away" (Area), o comovente "Cayman" (Mira), o devastador "Night and Mourning" (Regenerator), os fantasmagóricos "Galactipus" (Tara Vanflower) e "Felix the Cat" (Collide), o melancólico "In The Snow" com o seu último verso "There’s something that falls apart the instant the light ends" (Dead Leaves Rising), o misterioso "In Dreams Of Mine" (Faith & The Muse).

Há pouco tempo pesquisei e não apenas ainda se encontra à venda o CD em formato físico como agora é possível ouvi-lo e adquiri-lo no Bandcamp do Projekt Records:
projektrecords.bandcamp.com/album/a-cat-shaped-hole-in-my-heart-pay-what-you-wish-1999
Ouçam-no, guardem-no, comprem para os amigos, não emprestem. Um dia vão precisar dele.