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domingo, 8 de março de 2020
Bates Motel
[crítica à primeira temporada]
Quando ouvi falar de uma série chamada “Bates Motel” e baseada no filme “Psycho”, pensei que o enredo seria: um episódio, um hóspede, um homicídio. Tipo “Dexter”.
A série tenta ser muito mais ambiciosa do que isso. O problema é se consegue atingir o que se propôs. Acabei de ver a primeira temporada e ainda não estou convencida.
“Bates Motel” pretende ser uma prequela de “Pshyco”, anacronicamente passada nos nossos dias, com um Norman Bates adolescente antes de ser o serial killer que conhecemos de Hitchcock. E qual é a figura chave na vida dele que o tornou assim? A mãe, claro está. Esta história é tanto sobre Norma Bates (a mãe), se não mais, como sobre Norman. Os próprios nomes, óbvios, dizem-nos como Norma é possessiva para com o filho. Norman é dela, Norma, e de mais ninguém. Mas esta Norma da série não é a bruxa má que se adivinha do filme (já explicarei porque digo isto).
Na primeira cena da série, o pai de Norman está morto na garagem num acidente muito suspeito. Como consequência desta morte, Norma e Norman mudam-se para a pequena vila costeira de White Pine Bay, onde ela pretende reconstruir a sua vida explorando o motel que comprou com o dinheiro do seguro de vida. Este é logo o primeiro mistério da série. A morte do pai de Norman parece tudo menos um acidente e o dinheiro do seguro dá muito jeito. Como sabemos quem é Norman Bates a nossa tendência é pensar que foi ele… até conhecermos a mãe. E Norma começa a matar, embora em legítima defesa, logo no primeiro episódio.
Não há volta a dar, Norma torna-se uma personagem ainda mais fulcral do que Norman. A interpretação de Vera Farmiga é uma força da natureza. Norma é manipuladora, emotiva, dramática e algo destrambelhada. É o próprio Norman quem a descreve melhor, numa cena em que exasperado lhe grita: “Tu és maluca!” E ela é maluca. Sabem aquelas pessoas que quanto mais se querem desenvencilhar de uma má situação, mais se embrulham? É o caso.
Mas se Norma é maluca, quem sai aos seus não degenera: Norman é mais maluco do que ela. Norman é tão “maluco” que nem sabe que é maluco. Tal como no filme, o adolescente Norman já sofre de episódios dissociativos com “apagões” em que não se lembra do que fez, à mistura com alucinações que muitas vezes nos fazem questionar se aquilo que estamos a ver está mesmo a acontecer ou se se passa apenas na cabeça dele. (Se calhar a intenção da série não era criar esta ambiguidade, mas a partir do momento em que o protagonista alucina conversas e situações a nossa dúvida é inevitável.) O domínio de Norma sobre ele é tanto manipulativo como impróprio. Norma não se parece aperceber (ou não quer admitir) que o filho já tem 17 anos. Prestes a perder o controlo sobre tudo na sua vida, Norma usa Norman como o seu ponto de apoio, quando devia ser ao contrário, ao mesmo tempo que este Norman quase adulto quer fazer tudo para ajudar a mãe, criando entre ambos uma relação de co-dependência com que muitos espectadores se vão identificar de certeza (excepto, espero eu, a parte em que Norma se vai deitar na cama com o filho como se este tivesse 3 anos).
Como se não bastasse todo este drama (direi mesmo patologia) que mãe e filho trazem com eles, White Pine Bay também não é um lugar muito seguro onde se viver. Aparentemente uma vila pacata à beira-mar, toda a economia de White Pine Bay gira em torno de criminalidade em vários graus, desde o cultivo de marijuana ao tráfico de escravas sexuais. E tudo, parece, com o conhecimento do xerife Romero (Nestor Carbonell, o Richard Alpert de “Lost”), que sabe muito mais do que dá a entender. Há até teorias de que é ele o grande Chefão do crime todo, o que nunca é confirmado na primeira temporada mas não me admiraria mesmo nada. Esta “vila pacata cheia de segredos” tem feito com que “Bates Motel” seja comparado a “Twin Peaks” e até a “Breaking Bad” (por causa das actividades criminais em cada canto), mas na minha opinião as semelhanças começam e acabam aí.
Várias séries dentro da mesma série, mas no mau sentido
Um dos grandes problemas da primeira temporada, embora com certeza tenha sido feito de propósito não fossem os espectadores aborrecerem-se, é que às vezes parece que estamos a ver séries diferentes na mesma série.
Se não, vejamos. Nesta versão, Norman tem um meio-irmão mais velho, Dylan, filho de Norma e de um relacionamento anterior ao pai de Norman (este relacionamento também é um mistério). Dylan, no meio desta maluquice toda, é um gajo normal. E por ser normal, saiu de casa o mais cedo possível e tem uma relação distante e conflituosa com a mãe. Mas, ao perder o emprego, vê-se obrigado a ir morar com ela em White Pine Bay. Nota-se que Dylan é um jovem desenrascado, mas talvez por pobreza (ele próprio se queixa que nunca tinham dinheiro para nada) não parece ter estudos. Ao chegar a White Pine Bay arranja um trabalho justamente com o gangue da marijuana, e é tão bom no que faz que é logo promovido. Mas apesar da sua ocupação criminal, Dylan acaba por revelar-se um jovem sensível e amigo do irmão, talvez a única influência normal na vida dele, que quer afastá-lo da influência tóxica de Norma. É impossível não gostar de Dylan. O próprio Norman começa por não gostar muito dele (especialmente porque Dylan odeia Norma) mas Dylan acaba mesmo por conquistá-lo com amizade, conselhos e companheirismo. Acompanhar Dylan é como ver outra série, uma série de drama e crime em que um jovem tenta desenrascar-se como pode.
Depois, temos um sub-enredo Young Adult à volta da escola nova de Norman. As miúdas populares da escola, por alguma razão, engraçam com ele, e uma delas, Bradley, até dorme com ele num momento vulnerável da vida dela. Norman julga que é o início de uma relação séria, mas afinal o sexo não significou nada para Bradley. (Alerta Norman Bates: aos 17 anos já foi seduzido, usado e descartado por uma rapariga bonita e inacessível… o que obviamente o deixa magoado. Mas magoado a ponto de querer matar todas as mulheres bonitas? Ainda não.) Ao mesmo tempo, Norman conhece Emma, uma rapariga com uma doença pulmonar grave, que, esta sim, tem um grande fraquinho por Norman, embora não seja correspondida. É através dela que Norman se envolve na descoberta das escravas sexuais chinesas que são traficadas em White Pine Bay, sendo que o motel era uma base de operações para os traficantes. Todo este sub-enredo é típico de Young Adult, em que os adolescentes se metem em aventuras que são areia a mais para a camioneta deles.
E depois temos toda a maluquice de Norma, que contagia quem contracena com ela e que muitas vezes transforma a série numa comédia negra (ou apenas comédia?). O problema é que não se percebe se o objectivo destas cenas era mesmo serem cómicas, ou se ficaram tão disparatadas que nos deixam a pensar se é para rir ou não.
Todos estes sub-enredos podiam funcionar perfeitamente, mas em “Bates Motel” simplesmente não encaixam muito bem, criando a tal sensação de que foi tudo ali pespegado com fita-cola e que estamos a ver “filmes” diferentes no mesmo filme.
Um sub-enredo muito falhado
Mas ainda sobre as escravas sexuais, foi onde a série meteu mesmo a pata na poça. Um assunto grave como este devia ser tratado com a maior seriedade, mas “Bates Motel” tratou-o com uma leviandade quase cómica. Quando deixou de interessar ao enredo principal, o sub-enredo das escravas sexuais desapareceu num instante. A escrava sexual foi, aparentemente, abatida a tiro nos bosques por um dos vilões, sem que víssemos a morte, sem que nunca mais ninguém se importasse com ela nem em descobrir o seu corpo. Pobre escrava sexual, não passou de um filler para encher episódios. Muito mau, muito mau.
O actor que faz de Deputy Shelby, o traficante de escravas, também não podia ter sido mais mal escolhido. É nada menos do que Mike Vogel (que eu conheço principalmente como protagonista de outra péssima série, “Under the Dome”; quando é que dão um papel como deve ser a este actor, que merecia muito melhor do que isto?).
Ora, basta olhar para Mike Vogel. Isto não é um homem que precise de manter uma escrava chinesa presa na cave. Isto é um homem que deve ter uma fila de mulheres à porta daqui até à China. [Sim, também estou a ser leviana, mas não resisti à piada.] Na vida real, a procura de escravas sexuais não tem nada a ver com necessidades e/ou atractivos físicos dos abusadores, mas com factores muito mais desviantes, entre eles o desejo de domínio absoluto sobre a vítima e o sadismo. Este Deputy Shelby devia ser um tipo asqueroso e sádico, mas não é nada do que vemos aqui (ou não tivemos tempo de ver porque a personagem nunca chegou a ser desenvolvida como devia ser.) O pobre actor bem tenta, o melhor que pode, transmitir este factor asqueroso à sua personagem, mas nunca teve muito com que trabalhar. Em vez de um traficante de pessoas, os seus diálogos eram mais adequados a um criminoso vulgar, um traficante de droga, por exemplo. O Deputy Shelby foi a personagem mais mal conseguida num cast que, pelo contrário, nos apresenta personagens bastante sólidas e credíveis. Mais valia terem arranjado antes uma rede de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, o que é igualmente mau, mas não tão mau como o rapto e violação de mulheres.
Este sub-enredo das escravas sexuais foi tão mal feito, e as críticas foram tantas, que se calhar os autores da série nem o quiseram corrigir e acabaram com ele abruptamente.
Os bons momentos superam os maus
O que funciona muito bem é a dinâmica entre Norma e Norman, e até mesmo Dylan, quando a família disfuncional se encontra dentro de portas.
Aqui nota-se que “Bates Motel” foi pensado a partir de “Psycho”, com o infame cenário exterior e interior da casa e do motel, e os personagens vestidos num guarda-roupa tão retro que podia bem passar pelos anos 60, e principalmente aquelas televisões antiquíssimas onde Norman gosta de ver filmes a preto e branco. [O maior mistério da série, na minha opinião, é como é que eles conseguem manter aquelas televisões a funcionar quando há muito tempo que a minha pifou e mandar arranjar uma televisão daquelas fica mais caro do que comprar um plasma, já para não falar que essas televisões não tinham entrada para cabo nem gravador de vídeo, só para antena analógica, então como é que Norman consegue ver os filmes a preto e branco se não tem um canal “Memória”?] O pai de Emma é também um taxidermista que ensina Norman a embalsamar animais, o que faz sentido com o filme. E algumas vezes os realizadores da série filmam certas cenas com um toquezinho de Hitchcock que resulta muito bem, como daquela vez em que Norma encontra um cadáver autopsiado na sua cama e desata a gritar histericamente, algo que podia ter feito parte do filme original ou de filmes da mesma época, ou a cena em que Bradley rejeita Norman, sozinhos, rodeados de nevoeiro, e não deve ter havido um espectador que não tenha pensado que era ali, que era já, que Norman a estrangulava de raiva.
Mas Norman é um miúdo adorável, por quem torcemos, com quem não é difícil empatizar porque sabemos que durante os episódios dissociativos ele não tem consciência do que faz. Por exemplo, Norman encontra uma cadelinha abandonada e quer logo ficar com ela, mesmo quando Norma não aprova. Quando a cadela morre atropelada (isto foi para manipular os nossos sentimentos) Norman fica devastado e leva-a ao pai de Emma para a embalsamar. Como é que não se gosta de um miúdo assim?
E depois existe ainda um outro sub-enredo, em que uma professora de Literatura de Norman, de trinta anos no máximo, bonita e sexy, se interessa demasiado por ele. Em todas as cenas em que estão juntos sempre me pareceu que aquilo era ainda mais impróprio do que a relação super imprópria de Norman com a mãe. Abraços e festinhas na cara? Isto, comigo, e esse professor/professora era logo denunciado ao Conselho Directivo. Não admira que o pobre Norman fique traumatizado com as mulheres. É preciso ter azar com tantas malucas na vida dele. No fim da temporada, esta professora aparece degolada depois de uma cena em que Norman a vê mudar de roupa (talvez de propósito à frente dele), expondo uma lingerie super sexy. Mas se pensam que isto é um spoiler, pois não é! Porque antes disto a vemos ter uma violenta discussão ao telefone com um ex-namorado que parece estar a ameaçá-la (e que, segundo outras pistas, também deve estar ligado às actividades criminais da terra). Norman estava em casa da professora antes de ela morrer e volta para casa muito perturbado, com um dos seus “apagões”, mas nada nos garante que tenha sido o seu primeiro homicídio. Conhecendo a série e as suas voltas e reviravoltas, não me admirava nada que tivesse sido antes o tal ex. Mas esse é um mistério para a segunda temporada.
A verdade é que “Bates Motel” devia ser a prequela de como Norman Bates se transforma num assassino e estamos todos à espera do momento inevitável em que ele comece a matar. O maior problema da série é que não se está a ver como é que vão transformar aquele miúdo adorável num serial killer. Não é preciso ser um grande psicólogo para perceber que o problema do Norman Bates do “Psycho” era a repressão sexual e a educação puritana que recebeu. Aquela cena do duche, a faca e a mulher nua, tudo aquilo é sexualidade reprimida. E não é difícil de imaginar a Norma Bates do filme como uma daquelas mulheres para quem o sexo é algo de sujo e pecaminoso, sempre a dizer ao filho “aquelas ordinárias, olha como se comportam agora, sem decência nenhuma, isto não é de boas raparigas, não dês o desgosto à tua mãe de andar com essas galdérias, etc”. Ora, a Norma da série não é nada disto e repressão sexual é coisa que não existe naquela casa. Pelo contrário, eu diria mesmo que existe descontracção sexual a mais. Tanto da parte de Norma, sexualmente muito activa sem o esconder dos filhos, como da miúda da escola que dormiu com Norman e não significou nada, como da parte da professora que anda sempre vestida como uma mulher fatal. A temática sexual paira sempre sobre o enredo nas suas formas mais extremas (desde a parte das tais escravas sexuais até às alusões ora subtis ora explícitas de incesto, passando pela violação mostrada logo no primeiro episódio e muito realista), às vezes de forma dramática e bem feita, outras vezes não tão bem conseguida. Será por aí que a psique frágil de Norman vai ser afectada? É que uma mãe destrambelhada não chega para fazer um serial killer. A própria série o prova com o caso de Dylan, filho da mesma mãe e criado na mesma maluquice.
“Bates Motel” é uma série com muitos desequilíbrios e altos e baixos, mas estranhamente viciante, talvez devido à solidez dos personagens. Os momentos bons superam os maus e conseguimos seguir a história com interesse por muitos desvios mal pensados que nos surjam ao caminho. Além disso, a série vale a pena nem que seja só pela performance fantástica de Vera Farmiga, que eu não conhecia (embora o nome não me fosse estranho uma vez que conheço a irmã mais nova, Taissa Farmiga, de “American Horror Story”). Fiquei fã.
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite
[spoilers mínimos; não revela o fim]
Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.
Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:
«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»
Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros.
Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:
«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»
Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:
«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»
E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:
«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»
A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.
Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
“Dexter” (série TV)
Nunca pensei vir a fazer uma crítica sobre Dexter. A verdade é que perdi o interesse na série algures durante a temporada 2 ou 3, e embora tenha continuado a ver (ainda dava na RTP2!), confesso que era mais hábito do que outra coisa. Isto por várias razões:
1, tornou-se repetitivo. Em todos os episódios, Dexter enrolava alguém em plástico e espetava-lhe uma faca no peito. Dois e três anos disto, convenhamos, aborrece. Aborrece tanto que não percebo porque é que ele não arranjou outro hobby entretanto. Eu não suportava o tédio de fazer sempre a mesma coisa, mas também não sou serial killer, sei lá eu!
2, aquela esquadra de polícia devia ter os polícias mais estúpidos do planeta! Certo, eram polícias normais, não eram profilers do BAU (“Mentes Criminosas”), mas por amor de Deus, nunca ninguém ali leu um livro de psicologia, ou teve uma sessão de formação sobre “Como reconhecer um sociopata”? Apesar de tanta inépcia, duas pessoas chegaram a desconfiar de Dexter, o detective Doakes, logo no princípio, e outra personagem que não vou mencionar para não estragar o suspense a quem ainda não viu as duas últimas temporadas, e ambas foram desacreditadas. A meio da série, um reputado profiler do FBI fez consultadoria com a esquadra (salvo erro, por causa do serial killer Trinity) e não suspeitou de nada (para o que deve ter contribuído o facto de que ele andava a dormir com a irmã de Dexter, mas ainda assim!...). E Rita, a mulher do Dexter! Que idiota não percebe que o marido é um serial killer?! Esta personagem era tão burra, e tão desinteressante, que quando alguém a matou eu encolhi os ombros. Já não serei tão dura quanto a Debra, irmã de Dexter, porque há uma certa cegueira entre parentes chegados que faz com que as pessoas não queiram acreditar nos próprios olhos, especialmente quando o pai de ambos fez os possíveis e impossíveis para esconder da filha a verdadeira natureza do irmão adoptivo. Mesmo assim, uma vez levantada a suspeita (e a suspeita foi levantada), não podia haver um único polícia naquela esquadra que não ficasse atento e de sobreaviso. Em vez disso, amnésia geral.
3, tirando o próprio Dexter, que nos informava dos seus processos mentais em monólogo interior e em conversas imaginárias com o pai falecido (James Remar como Harry Morgan, um dos papéis mais ingratos de uma vida porque nunca ninguém se lembra do personagem que “não existe” embora tenha aparecido do primeiro ao último episódio), todos os outros personagens eram superficiais, incultos, pouco inteligentes (como já expliquei) e de uma mediocridade psicológica de dar dó. (Aquele Masuka, valha-me Deus!...)
Não comecei este artigo com a sinopse de “Dexter” porque, por esta altura, não deve haver ninguém que não saiba quem ele é, mas na remota eventualidade de alguém mais distraído que nunca tenha ouvido falar da série, Dexter é um serial killer que trabalha como técnico forense numa esquadra de Miami. O que o distingue dos serial killers “normais” é que Dexter só mata pessoas que se enquadrem no código que lhe foi ensinado pelo seu pai: Dexter caça os criminosos, os violadores, os outros assassinos. O código de Harry permite a Dexter satisfazer a sua necessidade de matar sem vitimar inocentes contribuindo para a “limpeza” da sociedade (como ele diz, “deitar fora o lixo”).
O grande sucesso de “Dexter” deve-se ao código de Harry. Não acredito que os espectadores estivessem interessados em ver um serial killer matar inocentes, impunemente, semana após semana, temporada após temporada. Mas o que Dexter faz é vigilantismo. Dexter é um justiceiro das trevas que dá sumiço a muitos criminosos que a polícia não consegue apanhar por falta de provas. Dexter é o papão dos maus. (Surpreende-me, agora que penso nisto, que a série não tenha explorado esta vertente. Durante anos o Bay Harbor Butcher foi divulgado nos media, ainda que nunca correctamente identificado, e sabia-se qual era a sua vitimologia. Estranho que não se espalhasse o pânico entre os criminosos de Miami. Com a frequência com que Dexter matava, seria de esperar que esse “papão” fizesse tremer muita gente em certos meios... A série não se lembrou.)
O que Dexter faz encontra simpatia nosso sentido de Justiça, inato, que tanto mais nos atormenta quanto mais horrível o crime que escapa impune. Este sentido de Justiça permite-nos assistir a “Dexter” sem nos incomodarmos com o “método”. Ninguém lamenta as vítimas de Dexter, que não são vítimas nenhumas, que na maioria dos casos até são piores do que ele. Dexter é o grande anti-herói, mas Dexter é também um herói, no pleno sentido do termo, e a sua complexidade de super-anti-herói era o que nos mantinha presos à série, semana após semana.
Desde os primeiros episódios, questionei-me muito se um psicopata conseguiria seguir um código de conduta. Parece-me que não, porque os verdadeiros sociopatas são demasiado narcisistas para deixar de matar quem lhes apetece por causa de um código. Será Dexter realmente um psicopata, ou uma vítima de stress pós-traumático devido ao que assistiu na infância, a quem essa noção foi inculcada na cabeça por um pai adoptivo demasiado preocupado? A relação de Dexter com o pai não era falsa e vazia de afectos, tal como não são falsas e vazias de afectos as relações com a irmã e o filho. Não são relações oportunistas ou manipuladoras (mesmo tendo em conta que a princípio Dexter acredita que tem de mantê-las, unicamente, e ao emprego, e ao casamento, como disfarce de “pessoa normal”). Mas estas relações são autênticas, afectivas, e ele próprio o admite mais perto do final. Um psicopata não consegue sentir estas afeições profundas. As pessoas à sua volta são peões no seu jogo, nada mais, e a perda de uma é substituída por outra. (O que de certa forma aconteceu no caso de Rita, embora Dexter quase tenha sido “obrigado” a casar, à moda antiga.)
Outro “pormenor” importantíssimo para o sucesso da série é que Dexter não é um sádico. A maneira como mata é rápida (pelo menos nunca se viu o contrário): faca no coração. Se houvesse tortura e sadismo, muitos espectadores talvez não conseguissem suportar. A única “tortura” infligida na mesa de matança é psicológica, quando Dexter confronta a “vítima” com os seus próprios crimes. De certa forma, o que se passa é um julgamento em que é explicado ao condenado a razão por que foi escolhido para morrer. (Por isso escrevi “tortura” entre aspas, porque é uma espécie de "leitura da sentença", salvas as distâncias.) A execução, de seguida, é rápida e limpa. O que coloca mais questões quanto à suposta psicopatia de Dexter. Os serial killers têm prazer no acto de matar. Um prazer, especialmente quando é utilizada uma faca, que todos os peritos concordam ser de natureza sexual ou seu derivativo. Ao contrário, por exemplo, de um assassino contratado para quem abater o alvo é puramente profissional. Como é que a necessidade de Dexter se satisfaz com uma morte tão rápida? Não bate muito certo com o que sabemos de assassinos psicopatas.
Mas decidi fechar os olhos e admitir que Dexter, como personagem ficcional, tinha “licença criativa” para ser um psicopata “diferente”, mais “humano”, mas nunca realista, apenas ficcional, e aceitei o personagem como tal. Deu-me um certo gozo pessoal que na última temporada a Dra. Vogel (que o conhece desde pequeno) tenha começado a duvidar do seu diagnóstico ao analisar que as acções altruístas de Dexter para com a família, e amigos, e envolvimentos românticos, não encaixam no perfil de sociopata sem empatia. (O que vem dar-me razão, daí o gozo pessoal.) Depois de ver a série inteira, estou ainda mais inclinada para a hipótese de que Dexter possa não ser um sociopata. Se o fosse, e sem querer revelar o fim, Dexter não decidiria que não pode ficar com ninguém porque destrói (involuntariamente, mas destrói) a vida de todos os que lhe são próximos. E é verdade, destrói. E ele não deseja isso para a irmã, para a mulher que ama (Dexter ama) e muito menos para o filho. Ora, um verdadeiro sociopata estaria já a pensar como usar o puto para atrair as vítimas mais depressa. Um verdadeiro psicopata estar-se-ia nas tintas para os danos colaterais que provoca nos outros porque um verdadeiro psicopata só se preocupa com uma pessoa: ele mesmo. Um verdadeiro psicopata não se sacrifica pelos outros; sacrifica os outros por si.
Não acredito que seja possível na vida real, mas Dexter, personagem ficcional, pode pertencer a uma área cinzenta em que existem traços de psicopatia, sem dúvida, reforçados pela lavagem cerebral que lhe foi feita desde a infância: “És um monstro, não consegues controlar a necessidade de matar, tens de aprender a matar as pessoas certas sem seres apanhado”.
A última viagem do Dark Passenger?
Esta é uma série estreada em 2006, num outro tempo televisivo em que os espectadores se contentavam com programas de “polícias e ladrões”, um caso por episódio (“Law and Order”, por exemplo), nada de muito complicado e sem um enredo transversal a todos os episódios. Quando Dexter apareceu, relatando na primeira pessoa os pensamentos de um serial killer, foi refrescante e inovador. Mas o formato manteve-se quase o mesmo. Os enredos giravam em torno de Dexter e das personagens com quem se cruzava e com quem partilhava o segredo, terminando cada temporada ou mais ou menos da mesma maneira, com estas novas personagens a acabar na mesa forrada a plástico (com a rara excepção de Lumen, mais um exemplo da empatia de Dexter).
Sempre tive a sensação sobre esta série que os autores queriam mergulhar em águas profundas (como eram profundos os mergulhos na psique sombria de Dexter) mas nunca saíam da piscina dos pequeninos que o rodeava e onde a série chapinhava sem fim. Como se temessem que a introdução de mais do que uma personagem profunda fosse demasiado complicada para a audiência que se contentava com uma caçada por episódio. Durante seis temporadas a série chapinhou neste formato, a ponto de se tornar repetitiva e desinteressante.
O meu interesse só tornou a despertar na sétima e penúltima temporada, quando Debra descobre quem o irmão é. E então, sim, pelo menos quanto a Dexter e Debra, a série mergulhou em águas profundas. As restantes personagens nunca saíram da piscina dos pequeninos mas Dexter e Debra mergulham no poço sem fundo e perdem o pé, no bom sentido.
Penso que deve ter sido a primeira vez que a série me arrebatou, sempre que Debra confrontava Dexter, e a si própria, com a incredulidade, e a repulsa, e o questionar de tudo em que acreditava daquele irmão adoptivo que julgava perfeito, mais do que isso, que julgava um modelo a seguir! Grande performance de Jennifer Carpenter (Debra), tão mais emocional e de cabeça perdida quanto Michael C. Hall (Dexter) permanece impassível. Bem, já não tão impassível, porque pela primeira vez na vida importa-lhe, importa-lhe muito, o que Debra pensa dele. Pela primeira vez, Dexter não está a lidar com psicopatas como o Ice Truck Killer, ou o Trinity Killer, ou o Doomsday Killer, ou a outra maluca inglesa, ou o outro maluco que queria que Dexter o ensinasse a matar, ou com aquela pobre rapariga Lumen num estado psicológico feito em frangalhos. Desta vez Dexter estava a lidar com uma pessoa normal, uma pessoa com uma consciência moral, uma pessoa que lhe importava, a última pessoa que queria perder, a quem mais certamente perderia.
(Curiosidade: para meu grande espanto, Jennifer Carpenter e Michael C. Hall foram casados na vida real, enquanto a série decorria, e nunca uma pitada de química romântica transpareceu entre eles! Se não me tivessem dito eu não tinha desconfiado. Grandes actores, ambos!)
E aqui estamos, e gostei tanto das duas últimas temporadas da série, finalmente a interacção Dexter/Debra sem segredos!, que aqui estou a declarar o meu arrebatamento. Sei que muitos fãs não gostaram do último episódio, mas que se lixem, eu adorei o último episódio! Aquela cena em que pela última vez Dexter sai no Slice of Life e lança à água aquele corpo amortalhado num lençol branco, durante uma tempestade iminente, e o mar está negro, e o céu está negro, negro, negro, de meter medo, foi tão épico, foi tão gótico! Foi o mergulho em águas profundas de que a série andou à procura desde o princípio!
Sem querer deixar spoilers, li em comentários que muitos fãs ficaram piamente convencidos de que no último episódio Dexter desiste de matar. Quanto a isso só digo uma coisa: não me parece!
Aqueles que, como eu, se desapontaram com a série quando esta se tornou uma dança de psicopatas, fariam bem em dar a Dexter uma segunda oportunidade a partir da sétima série. Sei que vão ficar surpreendidos. Agradavelmente, espero eu.
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