quinta-feira, janeiro 27, 2005

Os sete pecados mortais - parte II: A versão moderna

(Eu não devia estar ainda a escrever - eu devia estar aterrorizada debaixo da cama, de preferência a apanhar uma bebedeira - mas antes que me recolha ao esconderijo...)

A soberba
Começo pelo meu pecado preferido. E o meu. A Soberba é quando a auto-estima se transforma em arrogância, em desprezo pelo outro. O soberbo sente-se superior, mais sábio, mais importante, mais tudo. O soberbo está tão apaixonado por si próprio que nunca conseguirá amar o outro. O soberbo nunca saberá o que é o amor.

A inveja
A Inveja é o pecado que mais abomino. A Inveja é o contrário da soberba. O Invejoso sente-se para sempre inferior, pequenino, insignificante. Procura no outro aquilo que não tem e inveja-o por tê-lo. Se o soberbo não conhece o amor porque não consegue amar o outro, o Invejoso não conhece o amor porque nunca conseguirá amar-se a si próprio.

A avareza
A Avareza é a incapacidade de partilhar, é a ganância, o egoísmo. É a falta de solidariedade. É a exploração do trabalho, do ser, do ter do outro. O Ávaro não conhece o amor porque vê no outro um objecto a adquirir.

A Gula
A Gula é a grande amiga da Avareza. A Gula é o consumismo. É o querer sempre mais, sempre mais, sempre mais, é ter um carro maior, uma casa maior, e mais luxo, mais conforto, mais um livro, mais um cd, mais um jogo. É a falta de auto-domínio. É o crédito. É também o alcolismo, a droga legal e ilegal, o consumo do próprio corpo ao fazer o corpo consumir o que não deve. É o tabaco. É o viver para os prazeres materiais. É por isso que o Guloso não conhece o amor no outro; os bens materiais não têm amor para dar.

A Luxúria
A Lúxuria é o viver para os prazeres da carne. É a superficialidade, é a banalidade, é a falta de pensamento. É o verniz dos socialites. São as cabeças ocas, a exibição do corpo e das roupas que o cobrem, a beleza exterior e não interior, a beleza falsa e as operações plásticas. É a extravagância desmedida colada ao corpo. É o próprio endeusamento do corpo. (Pensavam que isto era a Soberba? Por vezes aproximam-se. Pensavam que a Lúxuria era ser escravo do sexo? Também, mas o sexo é o corpo.) O Luxurioso não conhece o amor porque não reconhece no outro mais do que a superficialidade da pele.

A Ira
A Ira é a violência, doméstica, urbana, rural. São os socos, os machados, as armas. São também os gritos, os insultos, os olhares de ódio. É o ódio tornado acção. É o rebentar dos instintos mais agressivos da natureza humana. É a intolerância. É o racismo e a xenofobia. É a destruição do mais fraco ou a destruição pura e simples. O Irado não conhece o amor porque destrói tudo em que toca.

A Preguiça
A Preguiça é o pecado mais perigoso. É a apatia, é o deixa andar, é o ir na corrente, é o não fazer nada, é o esperar que os outros façam tudo. É o valha-me Deus. É a alienação. É a completa insensibilidade pelo problema do outro. É a recusa em ir mais longe, em aprender, em partilhar, em explorar novos territórios. É o fechar na própria concha. É a estagnação. O Preguiçoso não conhece o amor porque conhecer o outro dá muito trabalho.



E agora, ainda responderiam da mesma forma?
E agora, ainda diriam que não têm pecado? Ou que o pecado não existe?
Quem não tem pecado que atire a primeira pedra.

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Por falar em cunhas, com as eleições à porta

Existe a tendência neste país de tentar resolver os problemas caso a caso.
Eu choro, querem ajudar-me.
Mas não é assim. Não é caso a caso que se resolve o problema, antes pelo contrário. Como eu disse no último comentário ao post antes deste, os favores só perpetuam a corrupção, as cunhas e o amiguismo que existe neste país.
Se não fosse a corrupção, as cunhas e o amiguismo dar-se-ia valor ao mérito. Mas continua-se a viver no país provinciano em que se oferece uma galinha ao maioral lá da terra para ver um favor feito. Porque alimentar favores alimenta a rede de dependência.
Alimenta-se a caridadezinha.
Somos um país de caridadezinha. Somos o país do "faxavor". Já dizia o Miguel Esteves Cardoso, se a memória não me falha, era eu miúda. Passaram uns 16 anos e nada mudou. Veio a união Europeia e nada mudou. O MEC (Miguel Esteves Cardoso) já desistiu e calou-se. Pelo menos não o tenho ouvido. Mas ele tinha toda a razão. É um país de caridadezinha e do "faxavor".
Eu não quero ajuda. Eu quero triunfar por mim própria ou ser arrastada na lama por mim própria. Essa é a minha grande diferença.
Dir-me-ão: neste país não vais longe. E ainda bem que mo dizem porque finalmente percebem exactamente onde estamos.
Quem não pede "faxavor" não vai longe.

Não quero parecer ingrata a quem ofereceu ajuda. Mas isso vai completamente contra aquilo em que acredito. Isso vai contra aquilo em que eu tenho andado a martelar há meses. Está na altura de apostar no mérito. De desfazer a corrupção. Porque as cunhas e os favores são a base da corrupção.
Como desfazer esse monstro de sete cabeças? Esse monstro que engoliu os dois principais partidos da nossa democracia?
Quando Cavaco perdeu a mão ao monstro, fugiu.
Quando Guterres viu o monstro, fugiu.
Quando Durão Barroso se apercebeu que podia fazer mais contra o monstro lá fora do que cá dentro, aproveitou a oportunidade e fugiu.
O exemplo vem de cima.
Não me admira nada que se a coligação ganhar novamente as eleições o próprio Jorge Sampaio se demita.
Os que podem, os que têm oportunidade, fogem também, para o estrangeiro. Os estudantes de ciências que têm qualificação e mérito para isso põem-se a andar. Nunca ouviram falar na fuga de cérebros?
O próprio primeiro ministro se pôs a andar.
Ficaram os filhos da cunha.
E os irmãos Portas, que são independentes e não precisam de cunhas para nada. Como eles há poucos e são muito ricos e por isso estão geralmente do lado do sistema.
Chegámos ao cúmulo de neste país termos o partido da extrema direita a fazer frente aos grupos bancários. É realmente o cúmulo! É a total inversão de valores. A própria democracia deu uma cambalhota e porta-se de modo anómalo e inédito em todos países em que existe um sistema bipolarizado entre esquerda e direita.
De um lado temos um gajo que tem estaleca para ser presidente do Futebol Clube Unidos de Cima mas não vale mais.
De outro temos um intelectual que faz uma promessa nova e mirabolante todos os dias.
Os comunistas vivem em pleno PREC. Fossilizaram.
Restam dois partidos. Um tem trabalho feito, outro não tem.
Eu devia votar na esquerda mas como neste país a direita corta à esquerda e a esquerda é reaccionária, não me resta grande alternativa.
Vou votar num homem chamado Paulo Portas porque tem mérito e acredita no mérito. E se estou a ver a situação como deve ser, e já dei grandes voltas à cabeça, votar num não é também votar no outro. Santana há-de desistir como já desistiu de tudo em que se meteu. Santana é um palhaço que deixou de me fazer rir quando, por amiguismos e cunhas, chegou a primeiro ministro.
Foi o fundo do pântano. (Ou será que não, que ainda há mais lodo a sair da sargeta?)
Esta coligação não dura. Paulo Portas caiu numa armadilha e ficou preso na ratoeira mas o próprio queijo quer expulsar de lá o rato.
Típico.
Esta coligação não vai longe, com ou sem acordo. Queira Deus e Nossa Senhora de Fátima que não caia também o Presidente da República quando vir que o povo vota na nos amigos da bola porque afinal o Benfica - Sporting é que interessa ao país. Queira Deus que não lhe dê uma coisinha má.
Mas votar num já não é votar no outro.
Durante uns dias ainda ponderei votar no Sócrates. Mas não voto. Não merece.

E pronto, hoje já me diverti um bocadinho e deixei de pensar na minha vida triste.
Vou dar o mérito a quem o merece. Sei que não é muito, sei que não é nada, mas sei que fiz a minha parte.

E também já decidi deixar de me queixar. Às minhas lágrimas, no entanto, eu tenho todo o direito e ninguém me vai dizer que as cale. Vou chorar tudo o que me apeteça. Vou chorar em público também por aqueles que riem e não sabem que deviam chorar. Os que estão enterrados na lama e acham bom porque nunca conheceram outra coisa. Os que estão cegos e acham bom porque nunca viram a luz (se bem que tiveram oportunidade de estudar Platão e a Alegoria da Caverna, mas estavam distraídos). E pelos muitos que nunca tiveram oportunidade de ver a Alegoria, nem Platão, nem a luz, nem coisa nenhuma.


PS: (a ironia deste PS, já repararam?) Muitos leitores devem achar estranho que eu admire um homem como Paulo Portas. Deve ser para muitos um choque. Mas não é. É que ele não desiste. Eu desisto. Ele é forte, eu não valho um chavo. Ele é optimista, eu choro nos intervalos. Mas não é por eu desistir, não é por eu não valer um chavo, não é por eu chorar pelos cantos que vou deixar de admirar um homem que é tudo o contrário mas que é brilhante. Diferente, lá com umas ideias esquisitas que eu não engulo, mas simplesmente brilhante. Um homem que diz "faz-se" e "faz-se" mesmo. Um homem que ataca a preguiça nacional e que faz qualquer coisa. O que neste país, é obra. Fazer qualquer coisa é obra. Ser suficientemente determinado e independente e patriótico para não desistir, é uma grande obra.
Um dia ser-lhe-á dado o devido valor.
Por enquanto não, porque de facto o homem tem obrigado alguém a mexer-se e a fazer qualquer coisa, e isso não é popular. E isso até faz rolar cabeças, o que é sempre chato.
Se é triste que o exemplo venha da nossa direita mais à direita, sim é triste, mas o monstro engoliu tudo e apenas poucos escaparam.
Seja como for, ao contrário do que o pintam, Paulo Portas não é um fascista. Tem umas ideias esquisitas, é verdade, mas guarda-as lá para ele. Em privado, my home is my castle.
Apresentem-me um socialista que faça coisas e eu voto nele. Não me apresentem mais ninguém que diz que vai fazer coisas e depois foge do monstro.
Tenho esperança que o homem não desista se bem que de vez em quando lhe deva dar uma grande vontade de fugir também. "Que fazer, que fazer?", deve-se perguntar, "Para ganhar votos sem promessas falsas?". Ele e todos. Mas até ao momento, foi o único que teve a sensatez de apresentar uma equipa em vez de fazer promessas que não se podem cumprir. Podia largar isto tudo e ir dirigir uma empresa de um dos amigos. Já pensaram? Ele podia muito bem arranjar um daqueles cargos de fachada em que só se vai assinar quando não se está no estrangeiro e estar-se completamente nas tintas para o país. Ele não precisa de ver a sua cara em cartazes onde lhe foi pespegado um balão vermelho ao nariz para lhe chamar palhaço (isto vi eu em Lisboa, esta semana, ao lado do cartaz onde estava o verdadeiro palhaço, sem balão vermelho). Que necessidade tem um menino bem de se andar a cansar com estas merdas? Podia estar tão melhor na vida e não se ralar!
Mas ele fica. Ele não desiste.
Como eu gostava de ser assim! Não o invejo. Já aqui disse que a inveja não é um mal que me atormente, mas como eu gostava de ser assim determinada!
Enfim, perdi-me.

PS2: Eu também não desisto de ir dizendo as coisas, mesmo quando só me apetece desistir e não escrever mais uma palavra neste blog. Apercebi-me agora desse pormenor. Estou a escrever, não estou? E apetece-me escrever? Não, não me apetece nada. Apetecia-me mais estar a apanhar uma bebedeira. Mas sinto esta coisa do dever moral que é uma chatice!!!

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Silêncio

Posso estar ausente por um tempo.
Estou a ter um período "aterrorizada; escondida debaixo da cama".

Acontece-me cada vez mais.

Estar debaixo da cama, no entanto, proporciona pensamentos interessantes.

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terça-feira, janeiro 18, 2005

Intervalo

Hoje, durante o meu curto e cronometrado intervalo, saí para a rua e chorei.
Não tive tempo de chorar tudo. Como eu disse, o intervalo é muito curto. Quem pára para chorar é despedido. É por isso que eu também chorava.
Desde a infância que não me sentia tão frustrada, tão amordaçada, de mãos tão atadas.
Mas agora tenho de pôr uma cara de gente grande e fingir que não choro. Olhos vermelhos dá mau aspecto. Tudo pode ser causa para se ser despedido. Sem recurso.

Neste país há muitas pessoas a chorar assim mas não têm um blog onde o dizer porque não têm acesso à internet. Lembrem-se disto. Lembrem-se das minhas palavras enquanto posso dizê-las.

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A amizade sai cara

Quem tem amigos tem que sair com eles. Gastar dinheiro.
Telefonar aos amigos. Gastar dinheiro.
Mandar mensagens aos amigos. Gastar dinheiro.

Não tenho dinheiro. Lamento.

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Comentário sobre a avareza

Atenção, que a avareza, no seu sentido lato, também é ganância e, acima de tudo, egoísmo.
Sei que a maior parte das pessoas nunca foi à catequese mas não viram o filme? Para quem não sabe qual é o filme, é o "Seven" (Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, Morgan Freeman, Kevin Spacey; Se faltavam razões para ver o filme...)

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quinta-feira, janeiro 13, 2005

Dificuldades em comentar no Haloscan

Alguém me explica o que isto significa?


Your IP was found in the OPM blacklist and will not be allowed to post

Open proxy lookup
Performing a lookup on the IP address xxx.xx.xxx.xxx.

Although the IP address xxx.xx.xxx.xxx has at some point been in our OPM blacklist it is no longer marked as active, this means that the listing has been manually removed or automatically expired, it was removed from the list at 2005-01-13 00:03:59 GMT. If you have recently secured the proxy please be prepared to wait several hours for the removal to propagate. If you are still banned after that time please contact the service that you are trying to connect to for further help. If this website says that you are no longer blacklisted, we are unable to make things happen any faster.

Details of this entry.


Aconteceu-me quando estava a comentar no meu blog e no Tapornumporco. Primeiro diz "Your IP was found in the OPM blacklist and will not be allowed to post" e depois pede que introduzamos manualmente uma palavra para desbloquear a restrição.
Será alguma medida para limitar o número de comentários por IP?
Está a acontecer a mais alguém?

Outro post imperdível para quem queira conhecer a História

Não sou a única a apontar a PREGUIÇA


A prova do cansaço

Fala-se muito outra vez da necessidade imperiosa de se «dizer a verdade» aos portugueses. Esse foi sempre um substancioso tópico eleitoral.

Mas agora considera-se a questão ainda mais premente, como se os portugueses quisessem saber da verdade para alguma coisa. Na verdade... não querem!

Basta, para o comprovar, o longo catálogo das vezes em que se falou verdade. Já se terá esquecido a sequência de intervenções essenciais de Cavaco Silva ao longo dos últimos anos? Ou o que se fartou de dizer Manuela Ferreira Leite? Ou o que, concomitantemente, tem sido dito por inúmeros especialistas, de todos os quadrantes, de António Borges a Silva Lopes, de Vítor Constâncio a Saldanha Sanches?

Não é por falta de verdade que o gato vai às filhoses ou que os portugueses desacertam no caminho. É mesmo por excesso de verdade todos sabem que «isto» assim não se aguenta, mas reluz no canto do olho de cada um a certeza infalível de que, entre mortos e vivos, ele, pelo menos ele, se há-de salvar. Ora, se se há-de salvar, para quê aceitar rigor, disciplina, sacrifícios, contenções, austeridades, ninharias que afinal só serviriam para exacerbar irritações? Antes viver do reforço insolente dos corporativismos, enquanto a bola saltita de um campo político para outro.

Acresce que os portugueses cultivam a propensão fatal de se interrogarem sobre o que é que se passa com eles, para logo mergulharem nos refegos da ontologia barata. E põem-se a debater longamente porque é que «nós» somos «assim». A enfadonha conclusão é sempre a mesma somos «assim» porque nunca nos dispusemos a ser de outra maneira. Quando alguma vez o fomos, foi porque nos obrigaram a isso.

Mas já não há figuras nem mecanismos que obriguem seja quem for a seja o que for. Nem sequer no tocante às eleições geme-se deveras perante a abstenção, mas o voto nunca foi obrigatório.

De resto, a tal «verdade» é muito simples e todos a conhecem anda-se «de tanga» porque se viveu muito tempo «à balda». Para o PS, principal responsável por isso, é preciso dar continuidade à balda, sustentada em anestesias pitorescas, palavreado barato, suspeições acumuladas, desprestígios quanto baste e sinuosos faits-divers.

O PS concilia a nostalgia do despesismo com as referências ambíguas ao pacto, as reivindicações sociais com as impossibilidades práticas de lhes dar satisfação, as refe- rências à Europa com o paleio sem carisma e sem cobertura.

O PS concilia tudo pela «verdade» incontornável da promessa. É o seu dicionário dos milagres. Sabe que, entre a promessa e a realidade, a primeira é a que acena aos portugueses com a lei do menor esforço. E enquanto o Estado for pagando umas coisinhas, os jornais relatarem umas coscuvilhices suculentas, houver reality-shows a correr na televisão e os habituais psicodramas do futebol forem traumatizando ansiosamente as almas, ninguém perderá tempo a pensar em dificuldades.

Nada de falar em minudências desagradáveis, como subidas de impostos, adiamento de aumentos salariais, diminuição de férias e regalias, flexibilização de leis laborais, aproveitamento escolar exigente, autoridade das forças da ordem, respeito das leis, crescimento da produtividade, reformas de fundo, como condição para se sair da cepa torta.

Dá muito menos trabalho e só interessa afinal proclamar uma «verdade» mandriona como alguém disse há muito tempo, o homem não foi feito para trabalhar e a prova é que se cansa.


Vasco Graça Moura
Diário de Notícias, 12/10/2004

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Genial

The Old Man, A Novela do Futuro

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quarta-feira, janeiro 12, 2005

A inveja e a preguiça

Queria pôr-vos a pensar na inveja quando fiz a pergunta ali em baixo. Pessoalmente, não é mal de que eu sofra embora tenha muitas vezes sido vítima de invejosos.
Penso que havia uma coisa boa na religiosidade antiga que era o facto de as pessoas se confessarem. O padre foi substituído, nas classes privilegiadas, pelo analista. Passou a ser fino.
Com a perda da religiosidade, que subsiste com a noção ignorante de que a psicanálise é só para os doidos, a maioria da população perdeu o hábito de olhar ao espelho. Perderam-se os valores de virtude e defeito. Perderam-se mais valores, mas estes são dos mais importantes.

Depois desta pequena dissertação introdutória, golpe de teatro!, não vou falar de inveja. Direi apenas que muitas mentes brilhantes neste país apontam a inveja como o "mal nacional". Estão enganados. Estão todos enganados! Andam lá perto mas não conseguiram apanhar a seiva da coisa. E a seiva, como a própria palavra indica, é algo de mais espesso e mais profundo, mais escondido, do que a inveja (que é apenas a casca superficial). A seiva às vezes fica nas mãos quando se toca na casca mas têm-se dado mais importância à casca do que à seiva que a alimenta.
Os portugueses não são mais nem menos invejosos do que os nacionais de outros países. A nível individual, uns são mais invejosos do que os outros, é certo, mas o mesmo acontece em todo o lado. Não é por aí.
O grande mal nacional, a pegar nos sete pecados mortais, é a preguiça. Não, não é a preguiça óbvia que é a vontade de não fazer nada. É pior. Trata-se de um imobilismo, uma estagnação, de origens culturais, que é imposta desde a infância.
Desde a escola primária é-nos dito para não irmos depressa demais. É-nos dito para "acompanhar o ritmo dos outros". Todos têm que ir ao mesmo ritmo, como um rebanho. Ninguém se pode salientar pelo mérito. Atrasar-se, pode (e deve), porque atrasa também os outros. E, ao atrasar os outros, faz com que andem TODOS mais devagar. O que é bom, porque é menos cansativo. O que convida a uma preguiça irresistível.
Digo-vos mesmo, durante todo o meu percurso escolar, nunca estudei 5 dias para ter 20 se me bastavam 3 dias para ter 16. E 16 já era acima da média. E já os outros olhavam de lado porque, afinal, estava a provocar um sobreaquecimento da turma e podia dar-se o caso de os professores acharem que estava a ser "muito fácil". De modo que, para não tornar as coisas mais difíceis, vamos fingir todos que somos burros e não vamos FAZER MAIS se podemos fazer menos.
Estou a fazer-me explicar?
É o tal ditado muito português "para quem é bacalhau basta". Se basta bacalhau cozido, não vale a pena inventar pratos sofisticados. Até porque dá mais trabalho.
Depois, a vida profissional. No trabalho, somos pressionados pelos outros a fazer o menos possível. Por duas razões: primeiro, se fizermos mais, o patrão duplica o trabalho; segundo, se fizermos mais, não ganhamos mais por isso.
Aliás, acredito que a expressão "coçar os tomates" não tem tradução noutra língua que não a portuguesa. É certo que os alemães, os americanos, os ingleses, também coçam os tomates. Só não os coçam no mesmo sentido que nós. Em Portugal, até as mulheres coçam os tomates. A palavra "ronha" deve ser tão intraduzível como a palavra "saudade".
É justo. Como não há reconhecimento do mérito, não há empenho. Não há incentivo.
É por isso que ouvimos aquela velha história de que "portugueses, lá fora, se esforçam e mostram do que são capazes". Dentro de portas, é o que se vê. A ponto de um imigrante ser o único que pode dizer: "Ah, que saudades de fazer ronha!"
E porquê? É cultural. E não é inveja, é preguiça.
É este um dos problemas da nossa produtividade. A falta dela. No trabalho, o que é exigido ao empregado é que esteja lá, que esteja presente, que seja assíduo. O que faz é de somenos importância. A qualidade, então, é descartável. O que importa é que produza o mínimo.
O MÍNIMO. Porque se alguém começa a produzir mais - e quem é que me vai dizer que não? - começam os colegas todos a olhar de lado. "Este parvo está a lixar-nos a vida". É-lhe dito para "abrandar". Para não se esforçar tanto. Que está a ganhar inimigos.
Vão dizer que não?
Em toda a minha vida, neste país, nunca ouvi dizer, nem na escola, nem no trabalho, nem em lado nenhum: "Vamos ser os melhores".
Ouvi, sim, dizer, "Vamos tentar melhorar" ou "Vamos tentar estar à altura" ou "Vamos ver se conseguimos fazer o mínimo para não perder clientes" ou "Vamos ver se conseguimos".
"Vamos ser os melhores"? Nem em palavras!

Harry Potter e o menino Tonecas
Identificado o mal de raiz, quis pôr-me a analisar a razão de isto ser assim. Não porque eu ache que os portugueses sejam mais preguiçosos do que os outros (veja-se o caso dos referidos imigrantes) mas porque se portam como se fossem.
Lembrei-me do único livro que li do Harry Potter (não é o meu género porque, como devem imaginar, é muito soft para o meu gosto). Peço a todos que recordem, pelo menos, o filme. Lembrem-se da competição que existe entre o menino bom, o Harry Potter, e o menino mau, o Draco Malfoy. Mas há algo em comum: ambos competem pelas notas, pelo mérito, pelo prémio. Ambos sabem trabalhar em equipa. Ambos respeitam os professores e dão valor ao conhecimento. Ambos se desunham para mostrar quem é o melhor, e para ajudar a equipa. Ambos estudam pela noite fora para levar a melhor. Ambos têm orgulho.
Agora pensem no menino Tonecas. O menino Tonecas também tem orgulho. Julga-se o maior. E as semelhanças com Harry Potter começam e terminam aqui. O menino Tonecas está na sala de aula a gozar com o professor. Não sabe nada nem quer aprender. Não é capaz de fazer magia nenhuma. Só diz gracinhas. O resto da turma, estupidamente, ri. É o elogio da estupidez. Quando a aula acaba, é como se não tivesse começado.
A aula ri-se do mérito do professor. Inveja?... Inveja de quê? Do conhecimento do professor? Pobre coitado! O professor é o alvo do gozo e nunca passará de um pobre professor de escola primária. O professor sabe demais. Quem está no poder são outros meninos Tonecas que fazem de parvo um país inteiro.
Mas isso é porque os portugueses são estúpidos?
De forma alguma. Os portugueses não são menos inteligentes do que os outros, se é que não são mais. Simplesmente perceberam que não vale a pena o esforço. Que a preguiça compensa. Que o mérito não é recompensado. Que mais vale estar quieto.
Porque é que o mérito não é recompensado? Para culpar este imobilismo nacional, há quem aponte o dedo à ditadura que paralisava quem quer que fosse que quisesse brilhar pois, quem brilhava, quem pensava, era certamente anti-regime. Tenho para mim que isto vem de mais atrás. Nunca o mérito foi recompensado. Nem Camões nem Pessoa tiveram cunhas.
Mas não é o atrás que nos interessa. O que nos interessa é o que vem aí pela frente, o futuro. E o que se vê no presente? Um facilitismo assustador que começa na escola e termina, inevitavelmente, na incompetência. A longo prazo, é todo um país que se torna incompetente. É todo um país sem valores, sem apreço pelo mérito. E temo que esse desapreço pelo mérito se tenha confundido com um desrespeito pela autoridade em geral, e pelas instituições do conhecimento, nomeadamente a escola, que rebentou no 25 de Abril e que agravou a tendência nacional para a preguiça. Ela já existia mas o facilitismo da revolução veio agravá-la. Hoje temos no poder a geração dos meninos Tonecas do 25 de Abril. E é o que se vê.

Posto isto, é por estas e outras que os ingleses têm o Harry Potter, que deslumbra e fascina pessoas de todas as idades em todo o mundo, e nós temos um menino Tonecas ranhoso que só faz rir a meia dúzia de portugueses que vêem o programa à hora de jantar por falta de alternativas.


Dá que pensar, não dá?

E agora não escrevo mais porque me dá preguiça escrever tanto e certamente que o leitor também já deve estar a pensar que ler este texto está a dar muito trabalho. Foi por isso que pus certas frases a bold, para facilitar.
Porque a palavra de ordem é: fazer o máximo para que eles leiam, no mínimo, o mínimo.


(Estou contente. Lavei a alma.)

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Sete pecados mortais

Avareza
Gula
Inveja
Ira
Luxúria
Preguiça
Soberba

Qual é o teu?

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terça-feira, janeiro 11, 2005

Interaction with Others Survey



You scored as Adult. The Adult ego state is the part of the personality that is most in tune with reality as it gathers information and makes decisions based on the reality of facts. People who score high in this category spend a lot of time thinking, computing and analyzing.

Adult

93%

Controlling Parent

80%

Nurturing Parent

63%

Natural Child

53%

Adapted Child

33%

Interaction with Others Survey
created with QuizFarm.com

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"Vittorio, o Vampiro", de Anne Rice

É uma pequena história. Até começa bem. Vittorio é um jovem florentino que vive num castelo isolado da cidade com a sua família feudal. Certa noite, o seu pai é visitado pelo líder de um bando de vampiros que lhe propõe que lhe ofereça as crianças, os velhos, os doentes, enfim, os indesejáveis, em troca de poupar a vida aos fortes e saudáveis. O pai de Vittorio não aceita. Por isso, toda a sua família morre. Todos menos Vittorio. Vittorio é salvo pela vampira Ursula, que se apaixona por ele. Quando o jovem procura a vingança, e a consegue, vê-se traído pelo amor e transformado, ele próprio, num vampiro.
A história é pequena e simples. Talvez mais um pretexto para Anne Rice falar do Renascimento, de Fra Filippo Lippi e dos anjos que faz Vittorio ver, antes e depois de ser um vampiro. Anjos da guarda e anjos exterminadores. Ambas as faces de Deus. Anjos que condenam Vittorio a uma maldição muito particular: ver nos seres vivos a luz brilhante do Criador. Literalmente. Para sempre. O que não é agradável para quem vive de vidas.

Neste pequeno conto delirante também ficamos a saber que os vampiros, afinal, são capazes de realizar o acto sexual. Não sabemos, contudo, se o apreciam. Nas palavras da vampira Ursula sobre o marido (um vampiro) e a noite de núpcias: "Oh, eu tinha um véu, um grande e longo véu, e um vestido da melhor seda florida, e tudo isso ele me arrancou, e tomou-me primeiro com o seu órgão duro como a pedra, sem vida, sem semente, e depois com os seus dentes aguçados, como estes dentes que eu tenho agora. Oh, que boda, e era para isto que o meu pai me tinha entregue."

(Juro que não inventei o "órgão duro como a pedra"! A sério! Pela minha alminha!)

Portanto, não há muito a esperar de "Vittorio". Diria mesmo que é só para fãs. No entanto, em Vittorio não há notícias do resto do coven. É uma história paralela. Talvez o objectivo fosse falar dos quadros de que Anne Rice se esqueceu em "O Vampiro Armand". Esse, sim, uma parte indispensável da saga.


Por falar em saga, a partir de que página é que "A Irmandade do Anel" se torna interessante?...

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Se houver um sismo...

... o que é que tu fazes?

a) Escondo-me debaixo da cama.
b) Deito-me em cima da cama.
c) Fico aqui sentado à espera que o tecto me caia em cima (como foi hoje sugerido no programa "Prós e Contras", Canal 1, televisão pública, horário nobre!)
d) Vou para a praia com a minha prancha e espero por apanhar a onda.
e) Os sismos não existem.
f) Eu até gosto de tiramisu à sobremesa. E também gostava de ver um marmoto. Deve ser um animal fofinho como a marmota.
g) Meto-me debaixo da mestra... da trave, isto é. Ou por cima, tanto faz.


Opção de propósito para o Goldmundo:

h) Vou para a igreja rezar. Se a água subir muito, vou para o campanário e
agarro-me ao badalo.

Opção de propósito para o Klatuu:

i) Vou onde me levar o meu caixão.

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Sabem o que é?

Está frio.

Agora não posso.
Tenho os miolos congelados.

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terça-feira, janeiro 04, 2005

Cenas dos próximos capítulos

"A Inveja", "O Vampiro Vittorio", um filme que vi e que ainda vou ter de me lembrar do nome, ah, e "O Pianista" de Roman Polanski, e "O Vampiro" de John Polidori, e "A Idade de Aquário", e "A música gótica" (Santa Mãe de Cristo me valha) e uma dissertação sobre a minha intenção de voto próximo (que me valham os santinhos todos).
Não necessariamente por esta ordem.

Ah!!!

E BOM ANO NOVO!!!

O primeiro ano

Em estilo de resposta ao Fernando, do Angústias de um Professor, a aluna vai tentar esmerar-se. (Sempre fui a aluna perfeita, mesmo quando era a aluna rebelde.)

Parabéns pelo aniversário do blog. Para lá de recordares o teu primeiro post, gostava que fizesses um balanço para além do óbvio. O que é que o blog te deu? Como é que lidas com o facto de tantas pessoas que não conheces te lerem com admiração? Por vezes, tenho a sensação que há um vazio entre mim e os leitores, que estou a escrever para o vácuo e que não comunico verdadeiramente... também sentes isso? Será que um post tem sempre de ter significado para alguém?


Este blog sempre foi um diário pessoal. Quando tinha 10 anos ofereceram-me um diário, daqueles com chave e tudo, e desde aí nunca mais parei de escrever. Houve interregnos nessa escrita. Mas subitamente algo me levava a pegar num caderno e escrever nele os meus pensamentos, desenhar as minhas visões, colar os meus recortes. Uma série de cadernos escolares serviram para esse fim e não outro.
Todos eles foram para o lixo, incluindo o primeiro diário. Eu não guardo. Eu deito tudo fora.
Esta é a continuação dessa introspecção, em formato virtual.
Porque sempre se tratou de instrospecção e nada mais.
Quando este blog começou, o objectivo não era falar sobre o gótico mas sobre mim, Gotika. Sim, exactamente, sobre mim. O meu diário. Onde eu pudesse dizer, as vezes que me apetecesse, nas palavras de Louis de Pointe du Lac, "Eu não sei o que quero".
Este blog não era para ter audiência.
A audiência foi um fenómeno posterior que, ao contrário do que acontecia com os meus cadernos secretos, me proporcionou feedback.
Mas no fundo continuo a escrever no caderno secreto.
Com algumas mudanças, confesso.
A audiência inibe a exposição da minha intimidade. Mas não completamente; no máximo, força-me a procurar formas mais subtis de a expressar. Palavras mais rebuscadas. Muitas metáforas. Até poesia. O que é também uma forma de terapia. Ao verbalizar a minha intimidade de forma codificada, vejo-me obrigada a repensá-la e, à boa maneira do psicanalista, interpretá-la vez após vez antes de apresentar ao leitor hipotético a confissão final.
A audiência trouxe outra novidade que me entusiasma particularmente. Agora sinto-me obrigada a partilhar as minhas descobertas culturais. "Obrigada" em itálico porque de facto me dá prazer escrever sobre filmes e livros que atravessam o meu caminho. Gosto de ler os comentários às minhas opiniões. É muito estimulante.
(Isso não poderia acontecer com os cadernos secretos, e é muito bom!!!)
A audiência também me fez perceber que as minhas palavras, que em princípio eram para aqui despejadas sem nenhuma intenção que não satisfazer uma necessidade egoísta de me analisar, são benéficas para algumas pessoas que gostam de as ler e pedem que continue a escrevê-las.
Mas não, não me sinto obrigada. Registo-o com apreço. O blog ultrapassou as intenções para que foi criado. Mas não deixa de ser o meu caderno secreto. Que não hajam dúvidas nem ilusões. Esta coisa é sobre mim. Às vezes desvio-me propositada e alegremente do assunto - que sou eu - e para gáudio de muitos leitores que de outra forma morrerriam de tédio. Mas continua a ser sobre mim. O mundo que me rodeia é apenas um pormenor no meu narcisismo.

Posto isto, vamos às questões, uma a uma.

O que é que o blog te deu?
Além da óbvia expressão dos meus pensamentos para que foi inicialmente criado, deu-me estímulo intelectual. Estímulo não só por escrever para mim, como por responder às pessoas intelectualmente estimulantes que por aqui passam e que fazem perguntas estimulantes - como o caro professor Fernando (esta é manteiga para a nota...) - como também, e se calhar não menos importante (pelo contrário, talvez até a verdadeira razão de ser deste blog), o derradeiro elo entre mim e uma intelectualidade que a vida quotidiana teima em roubar-me.
Uma vez apercebi-me de que se me fechassem num quarto escuro sem papel e caneta, eu cortaria as veias para escrever na parede nem que fosse com sangue. Ainda não chegámos a tanto... Mas as palavras têm que sair, a bem ou a mal.

Como é que lidas com o facto de tantas pessoas que não conheces te lerem com admiração?
Com distanciamento. Adoro a palavra inglesa para distanciamento, que é "detachment". Conheço bem demais as armadilhas do pedestal para ansiar por ele, mesmo nunca tendo participado no Big Brother.
Conheço a mente humana. Não sei se o professor sabe, mas eu fui uma aluna brilhante a Psicologia. Essa era a minha vocação primordial. Basicamente, eu não me limitava a estudar. Eu interiorizava. Há um fenómeno chamado "projecção" em que a pessoa projecta, como o nome indica, os seus desejos e medos na pessoa do seu afecto. Como diria a minha falecida psicóloga, a pessoa "fantasma" ideais.
Eu não quero ser um fantasma. Mas na impossibilidade de ser outra coisa, pois estamos no mundo virtual e todos não passamos senão de fantasmas, não posso impedir que me idealizem e me ponham no pedestal, mas posso e devo impedir-me de participar na alucinação colectiva.
Gosto de ser útil. Gosto de saber que estou a partilhar literatura, arte, música e cinema com as pessoas que me lêem. Gostei quando alguém me disse "obrigada por me dares a conhecer as Vampire Chronicles".
Gosto quando alguém me diz que as minhas palavras são um refresco numa tarde quente no escritório. Gosto de saber que dou prazer às pessoas que me lêem.
Mas sem perder a noção do distanciamento. Eu não existo. Sou um fantasma. Os meus próprios amigos não me conhecem e estão comigo há anos. É preciso ter isso sempre presente.
Ademais, este é um blog secreto. Só há duas pessoas que me conhecem que sabem que eu tenho um blog, e uma delas é espanhola e mal percebe o português. É difícil ficar vaidosa e convencida quando não nos andam a apertar a mão na rua. Mas eu gosto assim. Sinto-me uma espécie de super-heroína secreta que troca de roupa na cabine telefónica para se tornar na... Super-Gotika! :)
Esta última era uma piada. Toda a vaidade e arrogância e convencimento que vêem aqui não é culpa do blog. Eu já era assim. Deixem o blog em paz. O blog não sabe nada, não viu nada, nem tem culpa de nada. Simplesmente caiu nas mãos erradas.

Por vezes, tenho a sensação que há um vazio entre mim e os leitores, que estou a escrever para o vácuo e que não comunico verdadeiramente... também sentes isso?
Pois, lá está, também, mas só quando partilho a minha intimidade. Os tais posts que os voyers gostam de ler. Quando falo da minha vida. Quando expresso os meus sentimentos.
Aí percebo perfeitamente que ninguém percebeu nada de nada.
Mas é como digo, os amigos também não percebem e tinham obrigação de me conhecer. Talvez o único com perspicácia foi aquele que disse, certa vez, algures, "tu és muito incompreendida, não és?". Não é que eu não tente explicar, mas há coisas que só conhece quem passou por elas.
Este fosso, este abismo, já o conheço desde a infância quando eu era muito precoce para ter conversas com os meninos da minha idade mas não a maturidade suficiente para acompanhar as ideias dos mais velhos. Sempre tive uma existência muito solitária, perdida entre gerações. Entre mim e os da minha idade continua a existir o fosso da minha demasiada experiência para a minha idade, e entre mim e os mais velhos, a minha insuficiente experiência para a idade deles. Talvez um dia nos encontremos, mas, aos trinta anos, metade da vida pensante, já duvido muito que isso venha a acontecer, que as gerações se encontrem comigo visto que eu não me consigo encontrar com elas.

Quanto ao resto que eu escrevo aqui, acho que sim, que comunico, que me faço entender, nem que tenha de o dizer três vezes e de diferentes maneiras, uma para cada público. Mas não é de estranhar. Comunicação é a minha área de especialidade. Ou nunca tinham reparado?

Será que um post tem sempre de ter significado para alguém?
Não sei se tem que ter, mas sei que certamente tem. Nem que seja o significado mais deturpado que possas imaginar. Do género falares de alhos e responderem em bugalhos. Ou pior que bugalhos...
Do género de não terem a mais pequena pista de ideia do que tu estavas a querer dizer. Como expliquei acima, com os meus posts pessoais até é anedótico. Os comentários. É por isso que às vezes mando as pessoas a certa parte. É raiva. Raiva de não ser compreendida. Raiva deste abismo que me separa dos outros desde a infância. Depois passa-me.

Até agora, e mudando de assunto, o comentário mais hilariante que me deixaram neste blog foi "isso [o assunto do post] não interessa nada. Se quiseste fazer um blog gótico agora tens de escrever sobre assuntos góticos."
Parece que a pessoa em causa me queria despedir. Ou deixar de me pagar. Não percebi bem. Acho que a pessoa também não percebeu que aqui não manda a ponta de um corno. Que aqui só mando eu.
Ao contrário do que se passa no grupo MSN que entretanto criei, em que não manda ninguém. É a anarquia (dentro da legalidade, meninos, dentro da legalidade).

E já agora, vou tentar responder à minha própria questão, a questão que pus no ar a 18 de Dezembro de 2003:

Sou um ser under reconstruction.
Veremos o que sai da metamorfose.


Ainda não saiu nada. O ser continua em estado larvar. Posso sonhar que saia uma borboleta, mas pode sair traça. Ou barata apodrecida, à Kafka.
2004 foi para mim um ano de extrema instrospecção em que me vi obrigada - mais pela vida do que por vontade própria - a afastar-me das pessoas, inclusive dos amigos mais queridos.
Mas foi um ano melhor que 2003, um ano marcado pela disorientação (e dissolução) de uma loucura incontrolável. Foi o ano em que percebi que ia acabar num call center para o resto dos meus dias. Por isso andei bêbeda, a dormir na rua, a chegar a casa ao meio dia (depois de sair à meia noite), de cabeça perdida. Foi um rude golpe. Foi o enterrar da mentira do mérito que me contaram na escola. Não faças isso, professor, não alimentes a mentira do mérito.
Enfim, foi o funeral do mérito.
Este ano fiz-lhe o luto com mais pompa e circunstância, mais pesar e menos choque.
Agora que já não sei qual é o meu destino, procuro simplesmente não sair fora da estrada. E já tem sido um esforço monumental. Acho que ainda não foi desta que perdi a cabeça. Mas andou perto. Mais perto do que nunca. Uma igual e posso muito bem nunca mais voltar.
Conheço outros que se perderam por menos. Tenho sorte.
Este ano, vou tentar manter-me na estrada e não fugir para a floresta, de onde me tentam os Lobos Maus. São persuasivos, os Lobos Maus. E têm sempre vodka e rum e whisky para mim. Não são assim tão Maus, os bichinhos. São simplesmente incompreendidos.

Hoje, o ser continua em metamorfose.

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Tenho que pôr a escrita em dia

Este blog está atrasadíssimo. Os meus pensamentos vão a mil à hora.

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