[contém spoilers]
“Son of the Shadows” é o segundo livro da trilogia Sevenwaters de Juliet Marillier. Há muito tempo que um livro não me agarrava tanto, ainda mais do que o primeiro, “Daughter of the Forest”, em que os seis irmãos são transformados em cisnes.
Até parece que a autora leu a minha crítica de tal forma se evita os plot holes e os anacronismos. (Estou a brincar, é claro. O livro foi escrito muito antes da minha crítica. Mas talvez críticas semelhantes lhe tenham chegado aos ouvidos…) Obrigada, leitores que comentaram, por me terem aconselhado a não desistir. Não desisti e descobri um livro melhor do que o primeiro.
Mas não sem fragilidades. Depois de um início muito promissor, o fim revela-se decepcionante. Talvez Marillier melhore em obras posteriores, mas a sensação geral com que fiquei é de uma autora que vale mais pela sua escrita, e é de facto uma escrita lindíssima, do que pelos seus enredos.
E tal como disse em “Daughter of the Forest”, continua a haver aqui momentos em que a bota não bate com a perdigota, embora menos, mas Marillier ainda não se consegue livrar deles neste segundo livro. O que é pena. Ao contrário do que se costuma dizer, que uma boa história merecia melhor escrita, aqui é caso para dizer que a escrita merecia melhor história.
O que mais gosto em Marillier é que as histórias são tristes, ou, no mínimo, melancólicas. Logo no primeiro capítulo, somos informados de que dois dos irmãos morreram na guerra pelas ilhas sagradas. Isto era de prever, tendo em conta a personalidade de ambos, mas não deixamos de pensar se não teria sido melhor terem permanecido cisnes. Logo a seguir, sabemos que Sorcha está a morrer. Este sim, foi um grande choque, porque Sorcha sempre foi demasiado nova. Aqui é-nos dito que Liam tem 36 anos, o que significa que ela não pode ter mais do que 30.
SPOILER
Não era necessário. Não era mesmo. Sorcha podia ter continuado na série durante muitos mais anos, em pano de fundo, só intervindo ocasionalmente na vida dos filhos e dos netos. Não gostei.
A minha maior crítica ao primeiro livro foi mesmo essa: Sorcha era demasiado nova. Em “Son of the Shadows” a acção começa quando os filhos de Sorcha e Red já são crescidos. A mais velha, Niamh, tem 17 anos, e os mais novos, Liadan e Sean, gémeos, têm 16. Com estas idades já são perfeitamente credíveis, o que não acontecia com uma Sorcha de 12 anos.
A história é contada pela perspectiva de Liadan, uma perfeita réplica da mãe. Tal como esta, Liadan também é curandeira e também tem a Visão. Não gostei que esta personagem parecesse uma substituta da protagonista de “Daughter of the Forest”, confesso. Mas a história mais interessante, a história que me manteve agarrada, nem sequer é a dela. Bom, o melhor será dizê-lo de uma vez. Achei Liadan uma sonsa, uma menina do papá e da mamã, a filha preferida, e ainda por cima burra que nem uma porta. (Já justifico.)
Mas quem sai aos seus não degenera. A burrice parece ser genética em Sevenwaters, ou não tivessem os seis irmãos e a irmã ido confrontar a Lady Oonagh sem um plano que os protegesse caso esta decidisse transformá-los novamente em cisnes e desta vez fazer empadas com eles. As personagens de Sevenwaters não são exactamente brindadas pela inteligência, e este segundo livro vem apenas confirmar o primeiro.
A história
O que me manteve agarrada à história foi uma suspeita, vinda do livro anterior, que depressa se tornou certeza. Um dos “filhos das trevas”, porque o livro se refere a dois, é o filho da Lady Oonagh com Lord Colum, Chiaran, o oitavo irmão. Lady Oonagh levou-o quando saiu de Sevenwaters mas Colum foi à procura dele, encontrou-o, e trouxe-o de volta. O que, como pai, só lhe fica bem.
E que fizeram os irmãos, na morte do pai? Mereciam ser todos transformados em escaravelhos pela porcaria que fizeram, Sorcha incluída. Acharam melhor criar o miúdo junto dos druidas e do irmão Conor, sem lhe dizerem quem era. Chiaran cresceu e conheceu Niamh, sua sobrinha, que também não sabe que Chiaran é seu tio. E aqui está, Tragédia da Rua das Flores. Isto só se “revela” na terceira parte do livro, mas é mais do que óbvio desde o início para quem leu “Daughter of the Forest”.
Não contentes com a porcaria que fizeram, ao descobrirem este affair já consumado, tanto os tios como o pai de Niamh a tratam como a uma galdéria emporcalhada, e arranjam-lhe um casamento sem amor com um nobre qualquer, contra a vontade dela.
O que é curioso, porque à filhinha querida, Liadan, Red diz que nunca a obrigaria a casar contra a sua vontade. Mas isto ainda fica pior.
Ao acompanhar o séquito da irmã, no regresso da boda, Liadan é raptada por um bando de mercenários. Mas não fiquem já assustados porque estes mercenários são uns cavalheiros do melhor que há (é preciso querer acreditar nisto). O mais cavalheiro de todos é mesmo o homem a quem eles chamam o Chefe e a quem Laidan chama Bran, por ele se recusar a dizer o seu nome. Os mercenários raptaram-na porque um deles, serralheiro, sofreu um acidente horrível e precisa de cuidados, e os dotes de Liadan como curandeira (por se saber que aprendeu com Sorcha, sem dúvida) são sobejamente conhecidos. Só querem que ela trate o homem, o que é comovente.
O género de Juliet Marillier é apelidado de Fantasia Romântica, mas fiquei desapontada por Liadan ter conhecido o seu interesse romântico logo à primeira. Esperava mais voltas e reviravoltas antes disso, como em “Daughter of the Forest”, mas aqui vai-se logo aos finalmentes. Liadan apaixona-se por Bran, o líder dos mercenários (e o outro “filho das trevas”), e percebemos logo isso da maneira como os dois embirram um com o outro e discutem como adolescentes (e até são, ou quase). Tanta discussão acaba na cama, ou melhor, nas ervas do campo à chuva. Mas então acontece algo que só pode deixar um leitor de “Daughter of the Forest” completamente boquiaberto. Quando Liadan lhe conta quem é, Bran rejeita-a. Acusa o pai dela, Red, de ser o causador da grande desgraça da sua vida, e Sorcha de ser uma sedutora que desencaminhou um homem fraco. Mostrando a sua misoginia, só falta a Bran chamar prostituta a Liadan (mas acaba mesmo por chamar, indirectamente) antes de a mandar embora.
Ora, quem leu “Daughter of the Forest” fica chocado ao ouvir isto, porque sabe que Red e Sorcha seriam incapazes de fazer mal fosse a quem fosse. As acusações de Bran são muito graves, o que se reflecte na maneira como trata Liadan. Começamos logo a especular o que se teria passado em Harrowfield, na Bretanha, que a gente não sabe. Ter-se-á Simon, irmão de Red, voltado para o mal? Passa-nos tudo pela cabeça. E como gostamos destes personagens do primeiro livro, sentimos que quase nos estão a insultar os amigos e não podemos descansar enquanto não soubermos o que aconteceu ao certo. Eu já estava agarrada às minhas suspeitas de que Chiaran era o filho da Lady Oonagh, e ainda fiquei mais agarrada por causa destas acusações.
Liadan regressa a casa grávida. Desta vez não há censuras, como aconteceu à pobre Niamh, só amor e carinho e aceitação. Filhinha dos papás. A própria Liadan diz várias vezes que é injusto que a tratem melhor do que trataram a Niamh, e que não percebe porquê.
Eu também queria muito saber, e quanto mais ia percebendo mais me parecia que deviam ter sido todos transformados em escaravelhos. Liadan acaba por descobrir que a irmã está a ser espancada e violada pelo marido, completamente sozinha e sem se atrever a pedir ajuda. Culpa dos pais e dos tios. Liadan ajuda-a a escapar e obtém assim uma ajuda mais ou menos inesperada: Chiaran, filho da feiticeira, está a seguir na peugada da mãe, mas tem para com Liadan uma dívida de gratidão. Talvez Chiaran não se torne o génio do mal que os irmãos temiam dele.
Há uma ideia subjacente a todo o livro que me irrita profundamente: que os filhos acabam por ser forçosamente iguais ao que foram os pais. Chiaran, filho de feiticeira, tem de ser maléfico também. De Liadan, filha de Sorcha, espera-se que seja um espelho da mãe. (O próprio Red o diz.) Niamh, porque não saiu à mãe, foi desde sempre a filha enjeitada. (Escaravelhos, Chiaran, transforma-os em escaravelhos porque merecem!) Bran, filho de gente boa, tem de ser gente boa também. Eamonn, filho de um traidor, tem de ser igualmente malvado.
Por falar em Eamonn, pretendente a Liadan a quem esta rejeita, vamos lá então explicar a burrice da personagem. Só houve uma coisa que esta Liadan fez no livro todo com que eu concordei, que foi mandar a Senhora da Floresta às urtigas. (Exactamente! E eu gostei porque já me tinha parecido que a Senhora da Floresta é uma grande sádica.) Não, minto: também gostei que Liadan fosse a única a ter verdadeira compreensão para com o romance entre Niamh e Chiaran. Mas Liadan estraga tudo quando vai confrontar Eamonn, um homem que ela já sabe que é perigoso, que até já traiu Sevenwaters, e leva com ela o bebé. Lembrou-me aquele momento de “Homeland” em que Carrie Mathison leva a filha para um encontro de terroristas, e até um simpatizante de terrorista lhe pergunta: “Mas a senhora é doida? Trouxe para aqui uma criança?” Carrie Mathison é mesmo doida, mas Liadan é simplesmente burra. Quem é que leva o seu bebé para um conflito que pode correr muito mal, quando o bebé não faz lá falta nenhuma e podia tê-lo deixado em segurança?
Só há um personagem inteligente nesta história toda. Não vou dizer quem é para não criar mais spoilers, mas quem se lembra da minha crítica anterior sabe quem é o meu personagem preferido. E nada mais digo.
O fim decepcionante refere-se às acusações monstruosas que Bran faz a Red e Sorcha. Como dizer isto?... Afinal, ele estava completamente enganado. Ouviu mentiras, repetiu mentiras. Foi tudo uma construção artificial para o manter afastado de Liadan até ao fim do livro, porque não podiam ser “felizes para sempre” tão cedo. Não gostei mesmo nada. Como leitora, senti-me defraudada.
Senti-me ainda mais defraudada quando Red diz que tem alguma culpa no assunto, para justificar o truque baixo do livro. Nem Red, e muito menos Sorcha, nem sequer Simon, têm qualquer influência no que aconteceu a Bran. Não era preciso pôr Red a assumir culpa que não tem ao serviço de um enredo mal amanhado. Havia outras maneiras de chegar ao mesmo objectivo. Desta forma, Bran também me pareceu um idiota misógino que se queixa sem razão e acusa quem não deve. A certa altura ele diz a Liadan que ela é uma “mulher perigosa e uma estratega subtil”, e eu fartei-me de rir. Ele também não é muito esperto, por isso estão bem um para o outro. Bran é um personagem atormentado por uma infância de abuso, compreendo perfeitamente, mas, chamem-me insensível à vontade, ou talvez porque conheça casos muito piores em que as pessoas deram a volta “mais por cima”, acho que ele não tinha razão para aquela revolta toda. Até parece que foi o único no mundo a sofrer, ou, pior, é tão focado em si próprio que não sabe que outros sofreram mais. Talvez este personagem ainda melhore, porque, afinal, ele também é muito novo. Bran é quem verbaliza uma das ideias mais filosóficas do livro: “As histórias são perigosas, porque fazem os homens sonhar com o que não podem ter”. Às vezes é verdade, outras vezes é o contrário: em vez de perigosas, as histórias podem ser inspiradoras. Mas como personagem auto-destrutivo e sem auto-estima que é, Bran só consegue ver o lado cínico da vida.
Ainda assim, viciante
Então, do que é que eu gostei tanto neste livro, porque efectivamente gostei de alguma coisa que me manteve agarrada do princípio ao fim? A escrita é muito boa. A autora consegue das melhores descrições que já li na vida, embora eu não seja grande amiga de descrições. (Às vezes dá-me a entender que a autora prefere as descrições e os pormenores a essas chatices de manter o enredo coerente.)
Gostei da história de Niamh e da história de Chiaran, e de como ambas as histórias podem vir a dar uma continuação empolgante. Porque, a verdade é esta, estou em pulgas para ler a terceira parte, “Child of the Prophecy”.
Queria ter gostado mais deste livro, sim, queria. Queria ter-lhe dado 5 estrelas no Goodreads e só lhe pude dar 4 porque o fim me pareceu artificial. Conhecendo as fragilidades da autora, passei o livro todo a temer que isto acontecesse, nomeadamente quando se questionou a integridade de Red e Sorcha (não podia ser verdade!). Infelizmente, os meus piores receios vieram a concretizar-se, ou a autora não me conseguiu convencer das razões de Bran. Aliás, todo o personagem Bran faz pouco sentido, eu é que não quis estar aqui a debicar que nem abutre.
A escrita de Marillier é francamente agradável, mas precisa de enredos mais sólidos. Vou continuar a ler a trilogia na esperança de que a experiência melhore estas fragilidades até elas desaparecerem.
E continuo a querer saber a resposta à questão que ficou a pairar no primeiro livro: porque é que a Lady Oonagh se foi embora sem mais nem ontem quando já tinha conquistado tudo. A questão volta a ser abordada em “Son of the Shadows” e a resposta promete. Resta saber se a trilogia cumpre a promessa. Por esta altura falha-me a esperança, mas se “Son of the Shadows” supera “Daughter of the Forest”, pode ser que o terceiro livro me satisfaça completamente. A ver vamos.
domingo, 2 de maio de 2021
Son of the Shadows, de Juliet Marillier
domingo, 28 de março de 2021
Um Olhar do Paraíso, de Sérgio B. Andrade
Filha de uma família nobre e muito rica Isolda perde os pais assassinados pelo seu tio Azim. Ao saber da existência de um homem chamado Jesus que cura doentes e ressuscita mortos ela parte em busca do mesmo com a esperança de ver seus pais vivos novamente. Quando olhar de Isolda se cruza com o do jovem Noah tudo muda em suas vidas. O olhar sobre a vida nunca mais será o mesmo para os dois.
Comprei este livro por causa da sinopse acima. Infelizmente, esta não diz nada sobre o facto de este ser um “romance cristão” ou eu teria pensado duas vezes. Também não reparei nessa informação ao abrir o miolo (preview) do livro. Preferi prestar mais atenção às páginas iniciais (como faço sempre, nem sequer compro sem as ver primeiro) e a escrita pareceu-me decente. Por isso comprei. E apesar de o Romance Cristão não ser dos meus géneros favoritos, também não sou alérgica.
Infelizmente, a escrita decente foi sol de pouca dura. Por muito que me doa, tive de dar apenas duas estrelas no Goodreads devido, sobretudo, ao livro estar tão mal escrito.
Hesitei muito se devia escrever esta crítica. Escrever uma crítica dá trabalho e demora tempo, ambas coisas que este livro não teve. Pergunto-me quantas revisões o autor lhe fez, para deixar passar tantos erros ortográficos e gramaticais e gralhas várias, e se alguma vez pediu a alguém (fora do grupo de amigos e familiares, que nunca são de confiar nestas coisas) que lhe fizesse beta reading. Quanto à segunda pergunta, tenho a certeza de que não. Este livro nunca teve um beta reader exigente e imparcial que dissesse ao autor aquilo que eu vou dizer agora, quando já é tarde porque o livro já se encontra à venda. E eu fui uma leitora muito desiludida, tão desiludida que ponderei largar o livro e só não o fiz porque como escritora e beta reader se aprende muito (bastante) de livros maus. E “Um Olhar do Paraíso” é um livro mau, daqueles que só servem para aprender a não escrever assim.
Fui tirando algumas notas enquanto lia para não me esquecer dos pontos mais graves. Fiz propositadamente vista grossa a algumas utilizações de vocábulos da oralidade do brasileiro, bem como a algumas construções que me pareceram francamente agramaticais, embora recorrentes do princípio ao fim do livro, por não saber se em brasileiro já são aceites como norma “informal”. O autor é brasileiro e a língua é um processo dinâmico. Os beta readers e críticos brasileiros que avaliem. Vou focar-me apenas no que me saltou à vista como notoriamente problemático e ignorar estas diferenças de linguagem de cá e de lá.
Comecemos com as frases agramaticais que não deixam qualquer dúvida, nem na norma brasileira nem na europeia. Um exemplo:
“Kirsten é a primeira a sair da água, ela nos guiou até à estrada para dentro da caverna.Falta aqui qualquer elemento de ligação que torne a frase gramatical. Mas aproveito este exemplo dois-em-um para falar noutro problema constante e incomodativo:
Mudança de tempo verbal do presente para o pretérito perfeito ou imperfeito, ou vice-versa, no mesmo parágrafo sem motivo ou efeito justificado. Ver exemplo acima. Presente, pretérito perfeito, e por aí fora, sempre a saltar entre tempos verbais sem rei nem roque.
Anacronismos de linguagem: “meninos”, “pessoal”, utilização da expressão “déjà vu” (ainda por cima mal empregue porque o que se queria dizer era “Fulano reconheceu um lugar por onde já tinha passado no que parecia um labirinto de corredores”, o que não tem nada a ver com a sensação de déjà vu); anacronismos históricos que precisavam do beta reading de alguém com cultura geral sobre a Palestina dos tempos de Jesus: batatas, coqueiros, vidraças. (Não, meu amigo, não mesmo. Isto são coisas do Renascimento, pós-Descobrimentos.)
Palavras mal escolhidas em geral (como o tal “déjà vu” que nem sequer o era). Repetições desnecessárias e frequentes da mesma ideia e/ou factos que bem cortadas podiam tirar um bom terço ao livro sem se perder nada.
Descrição deficiente do espaço em que ocorre a acção, especialmente em cenas de perseguição e fuga em que o leitor precisa de saber exactamente onde é que os personagens e os perseguidores estão para compreender o perigo que os protagonistas correm nesse momento, sem o qual não se consegue criar um efeito de suspense.
Opção de usar pontuação extravagante nos diálogos (propositada para ser diferente?) que apenas serve para confundir: “_Não se preocupem, meninos, o Homem dos Milagres também estará comigo! Desabafa Kristen com uma voz segura e firme.” (Estes “meninos” são homens, só para explicar aos leitores deste lado do Atlântico.) Como vêem, em vez de travessão (ou mesmo aspas) o autor usa um underscore e o leitor que perceba sozinho onde é que o diálogo acaba e a narração continua. Originalidades destas são engraçadas quando o livro está muito bem escrito. Neste caso, mais valia ter seguido a norma e era menos uma fonte de estranheza a juntar às demais e a distrair-nos da leitura.
Por último, qual terá sido o critério que o autor usou para escolher os nomes dos personagens? (Cá para mim, não houve qualquer critério.) Temos nomes bíblicos, o que só fica aqui bem, temos nomes anglo-germânicos como Noah e Emily e Kristen, temos nomes portugueses como Maria Eduarda (não perguntem), o vilão chama-se Azim (o que nos remete para paragens mais arábicas, mas nesse caso a sua sobrinha Isolda não deveria ter igualmente um nome da etnia do tio, como, por exemplo, Samira?) e nomes brasileiríssimos como Silvaír e Ademar. Tudo isto até "passava" se o livro fosse Fantasia, mas é ficção histórica na Judeia do tempo de Cristo. (Ser um “romance cristão” não iliba desta responsabilidade nem significa que o autor possa escrever o que lhe der na cabeça.) Juro que no princípio ainda me questionei se estes personagens de nomes anglófonos não eram de facto originários de tribos germânicas que estavam na Palestina por qualquer motivo, como o comércio, por exemplo. Não seria impossível, na grande Roma. E nenhum deles (mesmo nenhum deles) alguma vez é visto ou ouvido a falar ou a praticar qualquer ritual hebraico, o que me leva a perguntar se seriam judeus. O livro também não diz, muito menos explica esta salada de nomes. E Kristen? Até em hebraico, Kristen significa “seguidora de Cristo”. Não podia haver uma menina chamada Kristen antes de Cristo. Plot hole, anacronismo, falta de atenção. Nem sei o que diga. Porque não usar apenas nomes bíblicos e em português, já que há tantos? João, Noé (em vez de Noah), Bartolomeu, Mateus, Lucas, Sara, Raquel, Rebeca, Dinah, Ester, Eva. Nomes não faltam.
Vamos lá então à história. E a história é uma confusão de tal ordem que eu teria dificuldade em contá-la a alguém. Noah apaixona-se por Isolda, mas entretanto conhece Emily, amiga de Isolda, que lhe diz que os pais de Isolda foram assassinados pelo malvado tio de Isolda, Azim. Emily foi raptada por Azim por saber demais e Noah tem de a ajudar a escapar de um ritual em que Azim a queria sacrificar aos deuses dele. Resgate feito, decidem ir salvar Isolda. Mas entretanto Isolda já se salvou a si própria e já partiu em busca do Homem dos Milagres. Segue-se um corre-corre para a frente e para trás, daqui para ali, sempre em viagem, em que o movimento dá a entender que está a acontecer muita coisa mas na verdade não acontece nada. Todos os personagens acabam por se encontrar por acaso e não porque se procurassem uns aos outros. Fiquei perplexa porque Emily quer tanto salvar Isolda, com quem vive no palácio desta, mas nunca passa pela cabeça de Isolda que Emily desapareceu e que devia igualmente procurar por ela. Só pensa em pedir a Jesus que lhe ressuscite os pais, a amiga que se desenrasque. Grande amiga, sim senhor.
Sempre que há apuros, um milagre de Jesus, à distância, acaba por salvá-los no último momento. Teria sido melhor que os personagens se tivessem conseguido salvar a si próprios mais vezes sem tanta intervenção divina. Compreendo que isto faça parte de um “romance cristão”, mas quanto mais milagres (e ressurreições) mais os embaratece.
De milagre em milagre, conseguem finalmente encontrar Jesus, já quando este é preso e crucificado. Admito que foi a parte mais empolgante do livro, mas convenhamos que não foi por mérito do autor. Esta é a história mais lida no mundo e já foi escrita há 2000 anos. O autor apenas a transcreve.
Se o autor me está a ler, como escritora também sei o que isto custa ouvir. A minha intenção não é apenas criticar mas antes aconselhar. Este livro podia ser muito melhorado se o autor não for daqueles que responde às críticas com um encolher de ombros e um “eu nem levo a escrita a sério” (como já vários me disseram assim que perceberam o trabalho que implica e o tempo que demora escrever um bom livro).
Primeiro que tudo, este livro devia ser retirado da venda ao público e dado a beta readers. A comunidade brasileira de beta readers funciona e é muito mais vibrante do que a nossa (a portuguesa). Consegue-se arranjar beta readers em brasileiro para qualquer género, é só procurar. Depois, é preciso aplicar o que lhe disserem e trabalhar muito este manuscrito. Uma boa investigação sobre o tempo histórico da Palestina de Jesus também faz aqui falta como pão para a boca. Só então o autor pode pensar em voltar a pôr o livro à venda.
Em suma, se o autor quer continuar a escrever, e a escrever bem (ninguém nasce ensinado), devia pôr mais fé no trabalho e menos fé em que a boa escrita lhe caia do Céu. Não é assim que acontece, nem por milagre divino.
domingo, 28 de fevereiro de 2021
Divergente, de Veronica Roth (livro), e filmes
[contém spoilers]
Ó Céus, ó Seca! Sem exagerar, este foi um dos livros mais aborrecidos que já li na vida.
Mas antes, o disclaimer: este foi dos tais que adquiri como bónus da entidade patronal. Era escolher alguns ou ficar sem nada. A sinopse interessou-me. Numa sociedade de facções, uma jovem divergente é obrigada a escolher a facção a que vai pertencer o resto da vida. É caso para dizer que a sinopse é melhor do que o livro, porque me fez pensar numa história socio-filosófica em que a conclusão é que todos somos divergentes e ninguém pertence a uma só facção como ovelhas rotuladas. Eu, sem dúvida nenhuma, sou divergente. Mas afinal há sempre uns mais divergentes do que outros.
Assim que vi o primeiro filme, homónimo, arrependi-me logo de ter adquirido o livro. Mas já que estava cá em casa, dei-me ao trabalho de ler e julgar por mim própria. O livro ainda é pior do que o filme, não só porque qualquer livro demora mais a ler do que um filme demora a ver, mas também porque é mais chato.
É uma história Young Adult contada na primeira pessoa em que uma rapariga de dezasseis anos (mas que aparenta uns vinte e tal em maturidade) decide escolher uma facção de malucos e sádicos porque quer ser maluca e sádica como eles. Não lhe consegui perdoar isto e nunca consegui simpatizar com ela. Mas certas coisas são culpa da autora. Por exemplo, logo a princípio um dos Intrépidos (os tais malucos e sádicos) cai de um telhado por acidente e os outros companheiros de facção nem pestanejam. Penso que até ali deixam o cadáver sem se darem ao trabalho de o ir buscar, ou nada nos é dito sobre isso. Isto não é comportamento humano normal excepto em situação de guerra ou catástrofe. Desprezar assim um “membro da tribo” é minar o espírito de grupo. Mas Beatrice (a miúda) observa isto e nem se incomoda. Em Roma sê romano, deve concluir, e não pensa mais no assunto.
Segue-se uma longa iniciação cheia de praxes e bullying. Isto podia resultar se os Intrépidos fossem uma daquelas tiranias mesmo medonhas, como na História Alternativa de “The Man in the High Castle”. Mas não. Isto parece mais uma historinha de colégio interno onde os veteranos embirram especialmente com a miúda nova sem que haja sequer grande razão para isso. Beatrice veio de outra facção, mas não é a única. Não vejo razão para implicarem com ela mais do que com os outros “transferidos”, a ponto de a quererem matar por ter bons resultados, santo exagero! (Alguém deve ter passado as passinhas do Algarve no liceu e este livro é resultado/vingança dessa experiência.)
O livro são páginas e páginas de treino e simulações (tipo jogos de vídeo). Poderá haver algo mais chato do que páginas e páginas de treinos? Eu nem o “Karate Kid” consegui suportar já por causa disso.
Finalmente Beatrice consegue o que quer, ser iniciada como Intrépida de pleno direito, só não sendo tão sádica como os outros porque tem o tal gene “divergente”. Mais um simplismo irrealista, a mera ideia de um grupo de pessoas só poderem ser uma coisa e uma coisa apenas. Não há lugar para empatia nos Intrépidos, como se em vez de humanos fossem uma outra espécie qualquer, ou uma cambada de psicopatas (é mais a segunda hipótese).
Finalmente, chegamos à acção. Não vou contar como, mas há uma guerra entre facções. A mãe de Beatrice morre a salvar a filha. Reacção: “Oh, nem acredito que a minha mãe acabou de morrer à minha frente, mas tenho mais que fazer agora.” Apenas horas mais tarde, o pai de Beatrice morre também. Reacção: “Hoje não estou com paciência nenhuma. Morreu-me o pai e a mãe. Que raio de dia.”
Eu espero que no próximo livro ela chore, e chore muito, porque isto não é uma reacção normal de pessoa humana a fazer um luto por um pai e uma mãe de quem gostava muito. Não é mesmo. E novamente culpo a autora que não deve perceber muito de psicologia nem de gente nem da vida. Que personagens tão mal escritas, ó desgraça!
Ainda por cima os Eruditos (facção) são os maus da fita. Isto sim, já é plausível, porque este livro realmente não se destina a um público-alvo de grande erudição. Mas chateou-me ainda mais, não bastante tudo o resto, porque numa sociedade destas (ou doutras) eu escolhia mesmo pertencer aos Eruditos sem pensar duas vezes. Mais uma razão para não simpatizar com a protagonista nem com o livro.
Pelo menos fiquei a saber algo que não apanhei no filme. As facções estabeleceram-se assim para evitar aquilo que acreditam causar as guerras: os Eruditos, a ignorância; os Intrépidos, a cobardia; os Cândidos, a mentira, e por aí fora. Mais uma explicação simplista de gente pouco erudita, porque o Mal é demasiado complexo para se explicar apenas por um único factor. O mais irónico ainda é que não há nada mais propício do que um sistema de facções para criar um clima de conflito “nós contra eles”, que seria exactamente o que as facções supostamente deveriam evitar. Os Eruditos, que pelo menos estudam, devem ser os únicos que sabem disto. Mas chamar malvados aos únicos que prezam o conhecimento não é um bom princípio.
Dei três estrelas ao livro no Goodreads porque está escrito decentemente, em termos técnicos. Se fosse a avaliar unicamente a história, levava só duas estrelas com sorte.
Divergente / Divergent (filme, 2014); Insurgente / Insurgent (filme, 2015)
Como disse, assim que vi o primeiro filme, “Divergente”, arrependi-me logo de ter pedido o livro e demorei alguns anos a começar a lê-lo. Mesmo assim, tenho de dar os parabéns aos realizadores do filme por terem conseguido fazê-lo mais interessante do que o livro, adaptando e cortando o que foi preciso, adicionando mais dramatismo onde era criticamente necessário. Por exemplo, no filme sentimos de facto a dor e o luto de Beatrice quando perde os pais. No livro, e ainda mais grave, na primeira pessoa, é quase como se ela estivesse a falar de dois conhecidos lá da rua. O filme não me interessou nada, mas como o vi primeiro ainda serviu para salientar mais os problemas do livro.
“Insurgente” consegue ser um filme ainda mais maçador, o meio da história na trilogia onde se avança um bocadinho mas não muito, onde me dá a sensação de que o filme se passou todo entre várias simulações que apenas Beatrice consegue manipular. Olha outra incongruência. Por alma de quem é que a Super-Beatrice é a única que consegue manipular as simulações, como apenas os divergentes conseguem, e destes é a melhor de todas? Que genes tão bons devem ter os divergentes em relação aos outros seres humanos. No segundo filme há mais violência e mais mortes, mas nada que cause impacto.
Péssima série, não aconselho a ninguém. Vou ver o último filme, “Allegiant”, quando e se passar na televisão, porque gosto de saber o fim às coisas, mesmo quando as coisas são más. Mas não tenho pressa nenhuma. Se nunca o vir também não perco nada.
Divergente / Divergent (filme, 2014)
12 em 20
Insurgente / Insurgent (filme, 2015)
12 em 20
domingo, 24 de janeiro de 2021
Christ the Lord The Road to Cana, de Anne Rice
Tanto a dizer! Como já tinha referido ao fazer a crítica ao primeiro livro desta série, “Christ The Lord Out Of Egypt”, fui daquelas que estremeceu de medo ao saber que Anne Rice estava a escrever a vida de Jesus. E em primeira pessoa, para ser ainda mais controverso.
Este segundo livro veio tranquilizar-me completamente de que Anne Rice adoptou uma postura respeitosa e reverente, recontando os episódios bíblicos da perspectiva de Yeshua como alguém que lá esteve e os viveu. Nada é esquecido, mas tudo é desenvolvido de maneira que nos surpreende como se nem conhecêssemos a história.
O livro começa não com a última mas com a primeira tentação de Cristo: uma rapariga. Yeshua é agora um homem de trinta anos, carpinteiro de profissão, tal como o pai José e os irmãos adoptivos, de mãos calejadas do trabalho árduo a lixar tábuas e assentar chãos em casas mais ricas do que aquela onde mora a sua família em Nazaré. Yeshua tem um sonho com Avigail, a rapariga, sua parente afastada que o ama. Mas Yeshua afasta o sonho com a conclusão: talvez isto não seja algo para o filho de Deus conhecer.
Nesta altura Yeshua ainda não compreende qual é exactamente o seu propósito divino (especificamente, aquilo que tem de fazer), mas sabe que o tem e sabe quem é.
Anne Rice descreve a vida prosaica de Jesus e da sua família alargada, uma família normal da Palestina ocupada por Roma, mas é quando explora personagens extraordinários que a escrita de Anne Rice brilha. Nenhum personagem poderia ser mais extraordinário do que Jesus, Deus encarnado para alguns, apenas divino para outros. Anne Rice transmite-nos esta dimensão divina em Yeshua mas faz-nos ao mesmo tempo empatizar com o homem. Yeshua é acima de tudo um homem bom, um homem decente, a quem não queremos que aconteça mal nenhum.
Quando chegamos à parte de João Batista no Jordão, a minha vontade era gritar à personagem: não vás! Se vais, é o princípio do teu fim! Fica em Nazaré, casa com a Avigail, esquece lá os pecados do mundo que não são culpa tua. Sê feliz porque mereces.
E aqui eu estaria a falar como o Tentador, o que não é nada bom para a minha pessoa.
Por falar em Tentador, mais uma vez o ponto alto do livro é quando este aparece para tentar Jesus após os quarenta dias no deserto. Anne Rice tem experiência a escrever do ponto de vista de diabos, mas nunca fica claro se Memnoch é o diabo ou apenas um diabo. Aqui, sem dúvida nenhuma, é mesmo o Diabo, Lúcifer, Satanás, o tentador do Jardim do Éden. Lúcifer aparece a Jesus fisicamente igual a ele, mas vestido como um rei. Tal como no primeiro livro, existe em Lúcifer um misto de curiosidade, medo e inveja, mas também atracção, que o torna muito complexo. (Este Lúcifer recordou-me o vampiro Armand no seu primeiro encontro com Louis e Lestat. Ou melhor, e mais certo, o vampiro Armand é que terá sido inspirado na ideia que Anne Rice faz do Diabo, o que é completamente natural tendo em conta a personagem.)
Lúcifer não está ali para antagonizar Yeshua nem para o levar a desistir. Lúcifer pensa que Yeshua vai liderar um exército contra Roma e, sendo o Príncipe deste mundo (está na Bíblia), oferece a sua ajuda. Yeshua rejeita-o, é claro, e Lúcifer tem um ataque de cólera:
“Vais amaldiçoar o dia em que me recusaste! Não vais conseguir fazer isto sem mim! Vais morrer numa cruz romana.”
Lúcifer estava enganado quanto ao propósito do homem cujo nascimento esteve rodeado de “maravilhas e sinais”, mas ao dizer isto Lúcifer não está a fazer uma ameaça. Está a deixar um aviso.
O livro termina na altura em que Yeshua já assumiu o seu papel divino e começa a chamar a si os apóstolos. Jesus diz a Pedro: “Segue-me e far-te-ei um pescador de homens”. Mateus diz a Yeshua: “José contou-me os prodígios e sinais que aconteceram quando nasceste. Se me deres permissão, gostava de os escrever”. E escreveu. Gostei muito que o jovem rico a quem Jesus diz “se queres vir comigo, abandona as tuas riquezas e segue-me” não fosse um estranho qualquer como no episódio bíblico. Aqui ainda tem mais peso. E surpreendeu-me o casamento de Canaã, as bodas de outra personagem que nunca me passaria pela cabeça. Não vou revelar para não estragar a surpresa.
Gostei do surgimento da verdadeira Maria de Magdala, possessa, de quem Jesus expulsa os demónios. (Ao contrário do mito popular, Maria Madalena não era prostituta. O mito decorreu da confusão com outra Maria que também seguia Jesus.) É tudo tão bem encadeado que os episódios bíblicos ganham vida sem nunca perderem solenidade. Anne Rice está a superar-se com esta obra.
Ou melhor, estava. Agora que eu estava a gostar mesmo muito da sua interpretação da vida de Cristo, e decidida a ler o resto até ao fim, Anne Rice já anunciou que não vai continuar a série, originalmente planeada para quatro livros, devido à potencial controvérsia que os livros seguintes poderiam gerar.
Compreendo perfeitamente a posição da autora. Qualquer interpretação da vida de Cristo é polémica. Este mesmo livro, onde eu pessoalmente não encontrei nada de desrespeitoso, pode ser encarado como blasfemo por algum fundamentalista só porque Yeshua pensou (e nada mais fez senão pensar) no que seria uma vida normal com Avigail. Noutros tempos, escrever (e ler) um livro destes era caso para sermos queimados vivos na fogueira. Por isso compreendo perfeitamente a posição de Anne Rice de estar farta de lançar pérolas a porcos. Tenho esperança de que ela tenha continuado a série, nem que seja em segredo, para ser publicada postumamente quando já ninguém a puder chatear. É triste, em pleno século XXI, que fundamentalismos religiosos continuem a obstruir a criação artística a ponto de levarem um autor a perder a paciência e a deixar de escrever.
Recomendo muito os dois livros existentes. Lamento não termos os seguintes.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
A Revolta de Tuong, de Armando Frazão
“A Revolta de Tuong” é um livro de ficção científica hard que vai agradar a quem gosta de acção, especialmente acção militar.
A história passa-se no futuro. O capitão Andrew MacGregor, ou Tuong, como lhe chamam os extraterrestres, é um oficial humano que se voluntaria para ser “modificado” por tecnologia alienígena de modo a combater melhor os movimentos anarquistas que ameaçam a paz do Estado Mundial. Os alienígenas, Tuarianos, tinham chegado à Terra para oferecer ajuda, mas com o tempo Andrew MacGregor apercebe-se de que têm uma agenda muito mais sinistra. Só lhe resta, a ele e ao seu batalhão, iniciar uma revolta para os desmascarar. Mas a tecnologia alienígena é muito mais avançada do que a terrestre e terão de usar de toda a astúcia para atingir os seus fins. Conseguirão, ou serão derrotados?
Acima de tudo, esta é uma história que opõe o engenho humano à tecnologia superior. Uma boa leitura para quem gosta de ficção científica, extraterrestres e acção.
“A Revolta de Tuong” pode ser adquirido aqui: www.amazon.co.uk/Revolta-Tuong-Armando-Frazão/dp/B08Q6NZZBR
Tudo sobre o livro no blog do autor, aqui: armandofrazao.wordpress.com/2021/01/06/a-revolta-de-tuong-press-release
domingo, 10 de janeiro de 2021
A História de Lisey, de Stephen King
Embora conheça a obra de Stephen King através dos filmes, dele só tinha lido "Salem's Lot", publicado em 1975, e não fiquei bem impressionada com a escrita a ponto de querer ler mais. Para um autor competente, mas com personagens bidimensionais, os filmes chegavam muito bem.
Este livro de 2006, “A História de Lisey”, é outra conversa. É outra escrita. É grande literatura. É certo que se passaram 31 anos desde “Salem’s Lot”, e muita evolução como escritor, sem dúvida, mas há aqui uma liberdade de linguagem, de narrativa, até de construção, que só o estatuto permite a Stephen King. Uma editora nunca publicaria este livro a um autor desconhecido, muito menos sendo um livro de “género”. Num livro de Terror espera-se que o autor conte a história decentemente, provoque alguns sustos, e acabe depressa, para consumo rápido. “A História de Lisey” é tudo menos consumo rápido e não é para leitores impacientes ou que gostam de muita acção e muitos sustos.
Mas aos leitores que gostam de boa escrita, de uma estrutura fora-da-caixa, de personagens bem construídos, de uma viagem ao psiquismo de cada um deles, este livro é para vocês.
Começa logo com o tamanho. O formato do livro que li é dos mais pequenos e tem 600 páginas, mas as letras são minúsculas. Isto noutro formato talvez não chegasse às seiscentas, mas andaria igualmente pelas quinhentas e muitas.
Durante um terço do livro não acontece praticamente nada. Lisey é a viúva de um escritor de sucesso, Scott Landon, e dois anos após a morte dele ainda não decidiu o que fazer com o espólio do marido, apontamentos, livros, teses, jornais e revistas, e nem sabe se existe no meio daquela tralha toda um romance inédito. Lisey não é exactamente uma intelectual e nunca acompanhou de perto a obra do marido. Pior um pouco, ela própria admite que nunca gostou muito dos livros dele (Terror, dá-se a entender), e ele sabe disso. Lisey diz a certa altura que “Atracção Fatal” é que é um filme como deve ser que já viu muitas vezes, “nada daquelas tretas suecas com legendas”. Esta admissão diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre a personagem. Questionei-me muito por que motivo tinha um intelectual casado com uma pessoa com encanto zero, na minha opinião, e não vou explicitar as conclusões a que cheguei.
Duzentas páginas a ler sobre uma personagem assim é violento. Lisey tem três irmãs (não percebi se são mesmo três ou quatro, era preciso ler de novo, o que não vai acontecer) e as primeiras duzentas páginas são quase só isto, drama familiar entre elas, memórias do marido, a exasperação de Lisey perante os interessados no espólio que ela nunca mais se decide a partilhar. O que nos prende é a maneira como King nos manipula, transformando-a numa narradora não confiável. A certa altura ela começa a falar com o marido. Em pensamentos, ou ouve mesmo a voz dele? E ouve a voz dele porque está a pirular? Lisey é uma mulher de meia-idade, não é nenhuma garota. Pode bem estar a pirular. O que eu não senti dela, nesta fase, foi desgosto. Só consegui sentir desgosto no fim, seiscentas páginas depois. O que me passou dela foi uma mulher banal, sem saber o que fazer à vida sem o marido (não tem qualquer ocupação), e ainda por cima demasiado preguiçosa para arrumar as coisas dele. Dois anos passados!
A primeira coisa que acontece que é digna de meter medo, é certa passagem em que ela julga que o marido possuiu o corpo da irmã, catatónica, para falar com ela. Mas por esta altura já a julgamos tão maluquinha que temos dificuldade em acreditar nisto. Se não fosse um livro de Stephen King nem me passaria pela cabeça que o que estava a acontecer podia de facto ter origem sobrenatural. E não haveria nada de errado nisto. Stephen King tem todo o direito de escrever um drama familiar com uma personagem a perder a sanidade.
Por esta altura também, já no segundo terço do livro, Lisey começa a ser perseguida por um fã obcecado e tresloucado, que a quer obrigar a abdicar do espólio do marido, seja por que meios forem. O fã obcecado é uma imagem de marca de Stephen King (“Misery”) que me faz pensar como é que ele não tem medo de escrever. Outra imagem de marca, infelizmente, é a mulher que vive em função do marido. É que Stephen King também é um homem “antigo”. Cresceu com mulheres a viver em função dos homens na sua vida. Mulheres como Lisey.
O que realmente mete medo é o que acontece lá para o meio, quando sabemos que tanto o pai como o irmão de Scott sofriam de alguma doença e/ou maldição que os transformava em monstros a certa altura das suas vidas. Quase como lobisomens, mas não são lobisomens. Sim senhor, meteu medo, e os leitores de Terror não vão sair deste livro defraudados.
A partir daqui, as coisas tornam-se mirabolantes. Não apenas uma, como várias personagens, têm o “poder” de ir a uma dimensão paralela apenas ao fecharem os olhos e quererem lá ir. Stephen King já escreveu tantos livros que desconheço se a explicação está algures na sua obra prolífica, mas mesmo assim eu acho que uma coisa destas merecia uma explicação aqui. Ficou inexplicado e é pena, porque por aquela altura eu já estava convencida de que estávamos a viver completamente no mundo de fantasia da cabeça de Lisey. Não me teria surpreendido se ela acabasse por revelar que tinha sido ela a matar o marido (o que a tinha levado a pirular), ou que Lisey fosse uma personagem numa história de Scott (o marido também não batia bem da bola), ou que Lisey acabasse no manicómio com todas as irmãs a olharem para ela com piedade, ou outra coisa ainda mais estrambólica. Neste aspecto, fiquei decepcionada com o fim. Pelo menos compreendi o título, e porque é que se chama “A História de Lisey” em vez de só “Lisey”, mas mesmo assim o motivo não me convenceu muito.
“A História de Lisey” vale sobretudo pela escrita e pela estrutura não-linear, complexa, que nos obriga a ir completando o puzzle por nós próprios. Stephen King atinge aqui uma maturidade como autor que até lhe permite ir tecendo comentários sobre o mundo da literatura e da escrita que muito provavelmente só outros escritores vão compreender na sua totalidade. “A realidade é o Ralph” foi uma das que me fez rir para dentro.
Só lamento que a protagonista seja tão desenxabida (sem gracinha nenhuma). Mas a realidade é o Ralph, e as desenxabidas desta vida, e Stephen King retratou-a muito bem.
domingo, 29 de novembro de 2020
The Moon Pool, de A. Merritt (Abraham Merritt)
"The Moon Pool” é um livro de 1919 e nota-se. Durante a leitura perguntei-me muitas vezes porque é que tinha ido fazer este download ao Projecto Gutenberg. Foi numa altura em que andava à procura dos clássicos iniciais do vampirismo. "The Moon Pool” é efectivamente um deles, mas na minha opinião um dos piores. Este livro é uma salada de Géneros. Terror, Fantasia, Ficção Científica, Acção, Aventura, e, note-se, até Intriga Internacional e Distopia ele conseguiu lá meter! É obra. O problema é que nenhum dos géneros sai bem feito e o livro acabou por se perder nesta salsada toda.
O início até é promissor, uma típica história de Terror. A linguagem é antiquada e datada, mas suporta-se. (Li o livro em inglês.) Um grupo de cientistas vai estudar umas ruínas numa ilha remota do Pacífico. Durante várias noites, na ilha, começam a desaparecer um por um. Os nativos das ilhas próximas são supersticiosos e recusam-se a passar uma noite na ilha em causa, e quando há Lua Cheia nem se querem aproximar dela. Os cientistas estão por sua conta. Apenas um sobrevive, e consegue fugir antes de “desaparecer” também, na intenção de ir buscar ajuda para resgatar os colegas e a mulher. De volta à civilização, já a bordo do navio que o levará a procurar equipamento e ajuda, encontra o narrador desta história, o Dr. Goodwin, outro cientista, a quem conta tudo o que se passou. Goodwin aceita regressar com o amigo e ajudá-lo a encontrar a expedição perdida. Mas, a meio do oceano, um «ser» brilhante de luz aproxima-se do navio através de um feixe de luar, e leva também, nos seus tentáculos de energia, o cientista sobrevivente. Goodwin ainda fica mais determinado a encontrar as ruínas malditas e salvar o amigo.
No caminho encontra um tenente irlandês, piloto na Primeira Guerra Mundial, e um marinheiro nórdico, a quem o mesmo «ser de luz» tinha igualmente levado a mulher e a filha. A este «ser de luz» chamam o Dweller das ruínas.
E aqui está uma história de terror com bases pseudo-científicas. Mas depois as coisas mudam de tom. Os três salvadores, com o uso de engenhocas, conseguem penetrar no túnel secreto do Dweller, que por sua vez os leva ao mundo subterrâneo de Muria, onde existe uma civilização desconhecida. Aqui já estamos no reino da Fantasia. Mas não foram sozinhos. Com eles entrou também um outro personagem de intenções duvidosas, um cientista russo que não parece estar do lado dos nossos heróis.
Ora, desde Júlio Verne que tudo o que são mundos no centro da Terra me dá urticária. Talvez fosse interessante em 1919, mas actualmente considero isto tudo uma patetice. Mesmo assim alinhei, porque na Fantasia temos de fazer cedências. Neste mundo de Muria há uma Distopia em que as pessoas são escolhidas para a elite ou para as massas só por causa da cor de cabelo. Os de cabelo loiro prateado são sacerdotes do Shining One, nome que eles dão ao Dweller, a quem adoram como a um deus. Uma raça de anões também faz parte desta elite. E a elite são todos uma cambada de malvados. Os desgraçados das massas, além de trabalharem e servirem a elite, ainda são oferecidos como sacrifício ao Shining One. Estes desgraçados vivem aterrorizados. O Shining One é mesmo uma espécie de vampiro que enche as vítimas de êxtase e terror ao mesmo tempo. (Não percebi como, mas avançando.)
Tanto estes sacerdotes louros e belíssimos, como os anões, fizeram-me pensar se Tolkien não leu isto também. Foi como entrar no mundo do Senhor dos Anéis, só que com Elfos e Anões malvados. Aliás, o próprio Merritt usa a palavra “élfico” para descrever os sacerdotes.
Os três salvadores têm de lidar com esta civilização sem serem dados como sacrifício ao Shining One, ao mesmo tempo que procuram os amigos desaparecidos. Mas, e aqui entra a parte da intriga internacional/espionagem, o cientista russo está em Muria para arranjar aliados para a Rússia e, com a ajuda do tenebroso Shining One, tomar conta do mundo.
Perda de tempo
O ambiente de terror inicial perde-se num instante e até os sacrifícios ao Shining One são tratados com tanto distanciamento que não causam impacto ao leitor. A história transforma-se depressa em Aventura, sendo o fim escapar de Muria e/ou combater os maus. As personagens são bidimensionais. Apesar de ser uma história narrada em primeira pessoa nem assim conseguimos estabelecer uma relação com o protagonista que nunca passa do cliché do homem de ciência. Os bons são muito bons e muito heróicos, os maus são muito maus. Tudo a preto e branco. Até o vilão russo é explicado “porque a Rússia já fez tantas atrocidades”. Aqui ri-me um bocadinho. Antes da Segunda Guerra Mundial, antes da Guerra Fria. Malvados dos Russos.
A explicação de todos estes fenómenos (a civilização no centro da terra, o ser de energia, etc) cabe no campo da ficção científica, embora completamente risível. O autor é palavroso, muito palavroso. A Wikipedia diz que Merritt influenciou Lovecraft, e vice-versa, mas se em Lovecraft o excesso de palavras funciona para criar um ambiente de terror, aqui em “The Moon Pool” só serve para encher. Um quarto do livro extirpado e não se perdia nada.
A leitura foi efectivamente aborrecida. O que me trouxe a este livro, o vampirismo, existe de facto, à sua maneira, mas quase como algo de secundário. Pior, nunca faz sentido. É-nos dito que as vítimas do Shining One/Dweller ficam exangues. Mas como? Que necessidade de sangue tem um ser feito de energia? Como é que ele consumia o sangue e onde é que o metia? Para que é que o queria? Mais importante ainda, para que é que ele queria as vítimas, afinal, se não precisava delas para coisa nenhuma? Se isto não faz sentido, nada na história faz sentido.
Obviamente, não gostei nada deste livro, embora reconheça ao autor a imaginação, a criatividade e a originalidade tendo em conta a data em que foi escrito.
Não recomendo “The Moon Pool” a ninguém, excepto àqueles interessados em “arqueologia literária”, como eu, que gostam de descobrir os primórdios dos seus géneros preferidos. De resto, uma descomunal perda de tempo.
Teria muito mais a criticar em “The Moon Pool”, mas só vou gastar um último instante a falar do que detestei mais neste livro. Também há Romance, para ajudar à salsada. Um romance muito mau. Merritt consegue colocar as duas protagonistas femininas, a vilã e a boazinha, a lutar pelo irlandês. Porque uma mulher não pode passar sem um homem, e este irlandês é pintado como a oitava maravilha deste mundo e do mundo subterrâneo. Só que, palavra de honra, o irlandês é irritante até dizer chega. Não só como é descrito por Goodwin, mas também quando abre a boca. Para dizer a verdade, as duas protagonistas também são super-irritantes. E este péssimo romance foi para mim o último prego que selou o caixão.
Tenho mesmo de começar a praticar a arte de abandonar os livros a meio.
domingo, 15 de novembro de 2020
A Febre das Bruxas, de Leif Esper Andersen
Este conto é a história de Esben, um rapaz cuja mãe foi queimada por bruxaria. A acção passa-se algures em terras nórdicas, o que sabemos pelos fiordes, pela toponímia e pelos nomes dos personagens (o autor é dinamarquês). Nunca nos é dada uma data. Mas nada disto realmente interessa excepto que aconteceu, e aconteceu em todo o lado.
A mãe de Esben era uma curandeira, conhecedora de medicina popular. As pessoas iam procurá-la quando estavam doentes. Certa vez alguém lhe levou uma menina com tuberculose e a Mãe disse que não a conseguia curar. A menina morreu. A mãe da menina foi ao padre dizer que a Mãe era uma bruxa. Para “piorar” a situação, Esben e a Mãe tinham uma vaca que era a inveja dos vizinhos. Também o facto de a vaca dar mais leite do que as outras foi considerado prova de pacto com o demónio. A Mãe foi queimada viva e a vaca foi leiloada.
Esben tem de fugir, porque já o queriam apanhar também por ser “filho do Diabo”, e na sua fuga encontra Hans, um homem sábio e solitário que vive na encosta do fiorde. É a ele que Esben conta a sua história, aos bocadinhos de cada vez, uma história dolorosa de contar e de ler. Hans é igualmente um curandeiro e sabe que um dia virão por ele também. Mas Hans fugiu a vida toda e não quer fugir mais. “Talvez um dia haja lugar para aqueles que são diferentes. Talvez.” Mas ainda não será tão cedo, e quando vêm efectivamente buscar Hans, na febre da caça às bruxas, Esben tem de fugir outra vez.
Eu adquiri este livro através do Círculo de Leitores quando era ainda miúda. A tiragem é de 1981, o que significa que o li quando tinha uns 10 anos. Esta é uma leitura pesada e perturbadora que não é de todo para crianças, e eu sabia disso, e preparei-me psicologicamente para o que ia ler, mas sempre tive um fascínio pelo Mal. Não um fascínio no sentido em que me atrai. Pelo contrário, um fascínio no sentido em que o Mal tem de ser compreendido e explicado. A perseguição a estas pessoas que praticavam medicina, sob a alegação de bruxaria e pacto com o Diabo, sempre foi uma coisa que me fez muita confusão. Anos mais tarde li um longo livro espanhol dedicado à Inquisição e outras perseguições, e foi o mesmo em todo o lado. Superstição e ignorância, sim, mas estas perseguições foram também motivadas por invejas, cobiça e conflitos entre vizinhos. Por causa de uma vaca que dava mais leite do que as outras, por exemplo.
Neste livro, Hans diz que “todos nós temos um bocadinho de caçador de bruxas”. Eu diria que todos nós temos uma natureza negra e perigosa, debaixo da normalidade, que só precisa de uma desculpa para vir à superfície. Não conhecer isto é não conhecer nada da natureza humana.
Há pouco tempo, e de repente, lembrei-me novamente deste livro, assim do nada. (Nunca nada vem do “nada”, mas quase pareceu assim.) Ao longo dos anos tive de dar vários livros por questões de espaço, e senti-me tomada de pânico de ter dado este também. Mas não dei. Assim que abri o baú (é mesmo um baú) encontrei-o logo à minha frente, como se quisesse saltar-me para as mãos. Era um livro em que eu não pensava há décadas. Ainda bem que o guardei porque a segunda leitura ainda me disse mais do que a primeira, como era de esperar. É curioso como naquela altura eu fiquei com a ideia de que o livro era muito maior. Afinal é um conto que nem chega às 20 mil palavras, num livro decorado por ilustrações igualmente sombrias como a da capa, que se lê numa hora. Mas apesar de ser um livro curto é um grande livro.
Aconselho a toda a gente que gosta de conhecer a natureza humana, nem que seja preciso encontrar este livro em segunda mão.
domingo, 25 de outubro de 2020
“A Estranha Morte do Professor Antena”, de Mário de Sá-Carneiro, in “A Dança dos Ossos”
[contém spoilers]
“A Estranha Morte do Professor Antena” é o último conto de autores portugueses na colectânea “A Dança dos Ossos”. Tal como “A Confissão de Lúcio”, também de Sá-Carneiro, na antologia em ebook “Dentro da Noute” que deu origem a esta edição em papel, “A Estranha Morte do Professor Antena” é a chegada à modernidade numa colecção de clássicos iniciada com “O Defunto” de Eça de Queirós.
Li “A Estranha Morte do Professor Antena” ainda na adolescência e devo confessar que fiquei perturbada. Enquanto que em “A Confissão de Lúcio” temos um surrealismo psicológico (a mulher que desaparece perante os olhos de Lúcio, será que ela existe mesmo ou não passa de uma manifestação da homossexualidade do protagonista?), cheio de segundos sentidos e simbolismos, “A Estranha Morte do Professor Antena” é uma história de terror. Mais propriamente, uma história de ficção científica de terror, embora a explicação científica nunca entre em pormenores, deixando as culpas aos apontamentos (convenientemente) incompletos do Mestre.
É difícil analisar este conto sem o spoiler logo nas primeiras páginas, o spoiler que, afinal, dá título ao conto. O Prof. Antena morre vítima do que é oficialmente um atropelamento. Mas só agora o seu assistente, e narrador da história, vem a público revelar o que realmente aconteceu. O Prof. Antena descobriu uma maneira de viajar entre dimensões paralelas, só que teve o azar de entrar na dimensão errada à hora errada. Algo dessa dimensão o trucidou como a alguém colhido por um comboio. Desde que li este conto nunca mais achei interessante andar por aí a viajar entre dimensões. Sim, foi um conto difícil de esquecer, por muito que a base científica que lhe dá origem peque por insuficiente. Para conto de terror, no entanto, chega e sobra.
Nesta segunda leitura, o que mais me impressionou não foi a morte chocante do Prof. Antena, mas antes a questão das dimensões paralelas. Esta história foi publicada em 1915 (compilação “Céu em Fogo”). Onde é que Sá-Carneiro foi buscar estes conhecimentos científicos? Lovecraft, no mesmo período, arranja maneira de explicar estas coisas com portais abertos por deuses e extraterrestres. Havia sequer hipóteses científicas nesta época sobre dimensões paralelas, pergunto eu que não percebo quase nada do assunto? Mas de repente Mário de Sá-Carneiro fala do Espiritismo, e, por muito que os cientistas de hoje esperneiem de nojo, basta ler “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, publicado em 1857, para ficar com uma ideia clara de vidas sucessivas em diferentes dimensões, até em diferentes mundos. E, de facto, o Prof. Antena não tenciona ir a uma dimensão “paralela” a esta em termos espaço-temporais; ele pensa que vai para uma dimensão da (sua) vida futura. O que difere da doutrina Espírita, se não estou em erro, é a questão de a vida futura poder decorrer em espaço-tempo simultâneo com a vida presente a ponto de ser possível atravessar de uma para a outra, como nas dimensões alternativas de ”The Man in the High Castle”. Mas outro livro de cariz igualmente espiritualista, “Conversas com Deus”, de Neale Donald Walsch, publicado em 1995, e com a Teoria das Cordas por base/inspiração, afirma que é bem possível que todas as dimensões, passadas, presentes e futuras, existam “agora” e que nós não tenhamos capacidade de as percepcionar. Rebuscado? A Teoria das Cordas também me parece rebuscada, uma coisa de ficção científica. Mas aparentemente há cientistas que trabalham a sério para a provar, bem como a uma Teoria de Tudo. Quem sou eu, ignara, para falar do que não sei?
Isto tudo para dizer que fiquei algo baralhada quanto ao conhecimento de dimensões espaço-temporais que haveria no tempo de Sá-Carneiro. Não era um bocadinho cedo para isto? Nesta altura ainda o Einstein andava a trabalhar na Teoria da Relatividade. Ter-se-á Sá-Carneiro realmente inspirado no Espiritismo?
Aceite a hipótese das vidas sucessivas – e, de resto, preocupando-nos apenas com a de hoje e com a de ontem – onde se localizarão essas vidas, quais serão os seus meios?...
«Essas vidas existem sobrepostas, bem como os seus meios» – parece ter concluído o sábio. Unicamente os seres adaptados a uma vida, seriam insensíveis a outra. Assim não a poderiam ver, não a poderiam sentir, embora ela os trespassasse, os entrecruzasse.
(Citação do conto, mas de outra fonte que não “A Dança dos Ossos”.)
A nível espiritualista, acho tudo isto interessantíssimo. A nível científico é que não me interessa tanto.
A escrita de Mário de Sá-Carneiro é a de um poeta e o seu estilo é tão único quanto a certa altura se torna cansativo. Principalmente as sinestesias e os galicismos, que aparentemente estavam tanto na moda que toda a escrita de Sá-Carneiro se agita* deles. (*Agitar, aqui, é um dos exemplos de galicismo que não devia aqui estar nem faz sentido em português.) É interessante na poesia, embora na minha opinião não deixe de ser batota linguística, mas permite-nos, pelo menos, experiências de dinamização da linguagem: umas que ficam, outras que se perdem. Mas esta linguagem em conto, especialmente quando lemos alguns contos seguidos, e neste conto em particular, não ajuda a criar o tal contexto de credibilidade que uma história de ficção científica de terror precisa. É claro que isto é a minha opinião de leitora do século XX-XXI, mas entretanto o terror escreve-se com uma linguagem mais próxima da realidade, exactamente para convencer o leitor a “acreditar”. Ao ler este conto eu lembro-me constantemente de que é um conto, e um conto escrito por um poeta, e a história perde muito do seu impacto por causa disso. Uma escrita mais científica e este conto seria perfeito. Mas, ressalvo novamente, isto é uma opinião de 2020, de uma leitora amante de um género que evoluiu para a excelência ao longo de um ou dois séculos. Mário de Sá-Carneiro ainda estava no domínio da experiência, de uma escrita “fora da caixa” para a altura, e aí é que está o seu grande mérito. Ademais, conseguiu que a história me perturbasse, sinestesias e galicismos à parte, e não é fácil perturbar uma leitora de Terror de finais do século XX.
“A Dança dos Ossos”
Mais algumas notas sobre a colectânea. Além dos contos já publicados em “Dentro da Noute” – clicar na etiqueta abaixo para ver comentários a todos os contos portugueses presentes no ebook – a versão impressa inclui uma biografia resumida de cada autor antes do respectivo conto.
Saliento igualmente o excelente prefácio de António Monteiro, onde se debatem as origens da literatura fantástica em português e do género gótico em geral, de que já se falou aqui várias vezes.
Volto a expressar os meus parabéns pela iniciativa e a recomendar este livro a todos os que estão agora a tomar contacto com a literatura fantástica em português, bem como àqueles que a queiram recordar.
O design do Livro B, bem como as lendárias páginas azuis, vão certamente despertar nostalgias.
Para quem ainda não pensou nisso, eis aqui um excelente presente para as pessoas que gostam de literatura gótica. Mas não mo ofereçam a mim porque já tenho um exemplar. ;)
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Crítica ao conto "Miasma", de D. D. Maio - por o.chefdoslivros (Instagram)
Ver esta publicação no InstagramUma publicação partilhada por 𝕺 𝕮𝖍𝖊𝖋 𝕯𝖔𝖘 𝕷𝖎𝖛𝖗𝖔𝖘 (@o.chefdoslivros) a
Toda a informação AQUI.
domingo, 18 de outubro de 2020
Crítica ao conto "Miasma", de D. D. Maio - por book.serotonin (Instagram)
Ver esta publicação no InstagramUma publicação partilhada por Rita | Book Serotonin (@book.serotonin) a
Toda a informação AQUI.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Crítica ao conto "Miasma", de D. D. Maio - pelo autor Armando Frazão
Directamente do blog de Armando Frazão:
Miasma – Livro de D.D. Maio
Li este livro, de uma amiga escritora, há uns dias.
É um livro pequeno que se consegue ler de uma assentada. Nem por isso deixa de ter o seu toque de suspense, a sua dose de inesperado e revelação. Bom para nos aproximar das personagens deste universo criado pela autora nos 2 livros anteriores: Nepenthos e Solstício.
Cumpriu ou até excedeu ligeiramente as expectativas.
Podem encontrar mais informações e onde comprar ou fazer download neste link:
https://ddmaio.blogspot.com/2020/09/miasma-novo-conto-de-d-d-maio.html
Deixo-vos as palavras da própria autora:
Quando Eric desconfia que existe uma presença maligna no castelo, Hildegaard aceita visitá-lo para lhe assegurar que está a imaginar coisas. O que encontra apanha-a desprevenida. Mais difícil do que enfrentar uma entidade das trevas é assumir o conflito no seu próprio coração.
“Miasma” é um conto em Low Fantasy, dramático e romântico, com elementos de sobrenatural.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
“Correntes”, um conto de Patrícia Morais
Ada já tem problemas de sobra ainda antes de se cruzar com o sobrenatural. Vítima de violência doméstica, o seu grande objectivo é conseguir a custódia dos dois irmãos mais novos para os livrar dos maus-tratos de um pai desempregado e alcoólico que descarrega nos filhos as suas frustrações. Mas se a situação de Ada é má, as coisas ainda vão ficar piores. Crianças têm vindo a desaparecer na vizinhança e ninguém sabe o que lhes acontece.
O que gostei mais nesta história foi o lado humano. Todo aquele ambiente de violência doméstica é muito realista e eu já estava tão interessada no drama familiar que, por mim, não me importava que o conto nem envolvesse o sobrenatural.
Mas “Correntes” é um conto curto no género Fantasia Urbana / Sobrenatural / Young Adult, e é desta forma que deve ser lido. A acção é relativamente rápida e privilegiada em detrimento de um maior desenvolvimento dos personagens secundários (que me agradaria mais), mas a protagonista é bastante tridimensional. É muito fácil empatizar com esta personagem.
“Correntes” é uma história no universo da série começada por Patrícia Morais com “Sombras” e revela os acontecimentos que levaram Ada a ter contacto com a organização Diabolus Venator.
O conto encontra-se disponível a partir da página da autora: patricia-morais.com/livros












