Querido Génio das Redes Sociais,
Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.
Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.
E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?
Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.
Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."
E voilà.
Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.
O resultado? Qualquer coisa assim:
🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.
📌 Pensa nisso.
🌊 Não és a tempestade. És o oceano.
💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.
E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:
"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."
Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".
Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.
"Que
texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto
chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau,
que profundidade. Segui-te já!"
E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"
Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.
Entretanto, eu. O autor de carne e osso.
Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.
No fim publico.
Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.
Tu, entretanto, és convidado para podcasts.
"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.
"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.
Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.
O problema não é usares a ferramenta.
O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.
O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.
O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.
E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?
Merecia saber.
Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.
É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.
Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.
Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.
Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.
Tenho os braços cansados de escrever.
P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *
P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.
* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.







