Dizem que o inferno são os outros. Pois desenganem-se: o inferno tem nome, apelido e uma plataforma digital que teima em carregar apenas até aos 99%.
Estou aqui, sentada à frente desta luz azul, com as pálpebras a pesarem mais que o orçamento da educação, a tentar corrigir exames nacionais. Ou melhor, a tentar acceder aos exames. A cada clique, um erro 404, um "servidor em baixo" ou aquela roda colorida e hipnótica que gira, gira e gira, como se estivesse a ironizar a minha sanidade mental.
O nosso Ministro, o Senhor Fernando Alexandre, lá apareceu hoje com aquele ar sereno de quem nunca teve de lidar com um "sistema indisponível" numa véspera de prazo. Garante, com a convicção de quem lê guiões de ficção científica, que o processo está "praticamente concluído". É curioso como o conceito de "praticamente" se expandiu para englobar um caos administrativo que faria corar um amador de informática. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira... os dias passam e a promessa de afixação das pautas na sexta-feira mantém-se inabalável, quase como um dogma de fé.
Será o senhor Ministro um vidente? Ou terá ele acesso a uma plataforma mágica, escondida algures na gaveta da Secretaria de Estado, onde os exames se corrigem sozinhos, por telepatia ministerial?
Do lado de cá da barricada, a realidade é menos idílica. Professores em colapso nervoso, pais a ligarem-me a horas que o bom senso proíbe — e com razão, porque o futuro dos miúdos parece ter sido entregue a um estagiário com um servidor de plástico — e alunos num estado de ansiedade que nem a medicina do século passado resolveria.
Este Governo da AD, que tanto prometeu a "mudança" e a "eficiência", parece ter encontrado a sua especialidade: a digitalização analógica. Conseguiu o feito notável de transformar o exame nacional — um momento de seriedade e rigor — num episódio de uma série de comédia de erros, onde o protagonista é um código de erro que ninguém sabe explicar. É a governação feita de "slides" bonitos e conferências de imprensa onde a palavra "estabilidade" é repetida até à exaustão, enquanto, na prática, o que temos é um sistema que colapsa à primeira brisa de carga computacional.
O Ministro garante a sexta-feira. Eu garanto que, se a pauta aparecer, será por milagre ou porque algum colega, num surto de heroísmo, se esqueceu de dormir, de comer e de ter vida própria para tapar os buracos deixados pela "modernização" deste ministério.
No fim, a culpa nunca é da estrutura. É do servidor. É da rede. É da nuvem. O que é curioso, porque quando os exames falham, os professores continuam a ser a face visível de uma incompetência que habita algures em gabinetes climatizados.
Vou tentar mais uma vez. Carregar na tecla 'F5'. Ou talvez a tecla 'Escape' seja a única que realmente funciona nesta nossa educação moderna. Se não houver pautas na sexta-feira, espero que o Senhor Ministro, pelo menos, nos envie um emoji de consolação. É esse o nível de seriedade a que chegámos.
Resposta: Sim, a IA também escreve textos satíricos baseados na
actualidade, com crítica política, da perspectiva de uma personagem
realista. Parabéns a quem acertou.
Escolhi este tema porque
queria fazer a experiência com um assunto "quente" na
comunicação social. O Gemini saiu-me um grande escritor.








