Confissão de um escritor em vias de extinção
Escrevo os meus textos.
Eu sei.
É um hábito antiquado. Como engomar camisas, revelar fotografias ou decorar números de telefone.
Ainda penso nas frases antes de as escrever.
Às vezes demoro uma hora para encontrar um parágrafo.
Às vezes apago metade do texto.
Às vezes publico com um erro.
Porque fui eu que o escrevi.
Entretanto, abro o Facebook e encontro mais um génio literário acabado de nascer durante a noite.
✨ "A vida é como um polvo a jogar xadrez numa bicicleta."
🎯 "Não é apenas resiliência, é alquimia emocional."
🧠 "Tal como Carl Sagan observava as estrelas, também nós devemos observar o silêncio entre os nossos pensamentos."
Segue-se uma referência aos estorninhos da Islândia.
Depois aos samurais.
Logo a seguir à física quântica.
Pelo meio aparece um polvo, um bambu, uma colmeia, a Via Láctea, os estoicos, Leonardo da Vinci e uma curiosidade fascinante sobre os axolotes mexicanos.
Tudo no mesmo texto.
Tudo perfeitamente encaixado.
Tudo absolutamente necessário para explicar... que devemos beber água e acreditar em nós próprios.
E os comentários não desiludem.
"Que mente brilhante."
"Como consegue escrever assim?"
"És um poço de cultura."
"Devias publicar um livro."
Claro que devia.
Basta perguntar ao ChatGPT.
O mais extraordinário nem é a qualidade dos textos.
É a velocidade com que estes autores se transformaram em enciclopédias ambulantes.
Na semana passada vendiam suplementos alimentares.
Hoje explicam neurociência, filosofia grega, astronomia, psicologia comportamental e o comportamento migratório das baleias-jubarte.
Tudo antes do pequeno-almoço.
E sem uma única gralha.
Nem uma vírgula fora do sítio.
Nem uma frase torta.
Nem aquele momento em que um humano escreve "há" quando queria escrever "à".
Nada.
São perfeitos.
Milagrosamente perfeitos.
Depois há aquela característica irresistível.
A necessidade de contar episódios pessoais.
"Quando eu dirigia uma equipa internacional..."
"Recordo-me perfeitamente de uma conversa que tive com um velho pescador..."
"Na minha experiência de vinte anos a acompanhar líderes..."
Que coincidência.
Toda a gente na internet parece ter vivido exactamente as experiências que uma IA costuma inventar quando precisa de ilustrar uma ideia.
Eu, infelizmente, tenho memórias muito menos inspiradoras.
Passei três horas à procura das chaves do carro.
Queimei o arroz.
Fiquei meia hora à olhar para uma frase sem saber onde pôr um ponto final.
É pouco cinematográfico.
Talvez por isso tenha poucos gostos.
Depois chega o grande final.
Sempre o grande final.
💡 Não é apenas escrever textos.
É transformar palavras em pontes para a alma.
Não é apenas comunicar.
É despertar consciências.
Não é apenas publicar.
É deixar um legado.
Claro.
Porque um post sobre produtividade sem qualquer ideia original é, evidentemente, o equivalente literário da Biblioteca de Alexandria.
Há também a regra dos três.
Sempre três.
Três exemplos.
Três lições.
Três pilares.
Três passos.
Se Moisés descesse hoje do monte, provavelmente trazia um PDF com "As 3 Estratégias para Maximizar o Potencial das Tábuas da Lei".
E depois existe aquele travessão enorme — o famoso travessão que agora aparece em todo o lado — como se fosse um selo invisível a dizer:
"Este texto foi polido por um algoritmo que nunca teve de lutar com uma frase difícil na vida."
O problema nem sequer é usar Inteligência Artificial.
Eu também uso corrector ortográfico.
Pesquiso fontes.
Consulto dicionários.
A tecnologia não é o inimigo.
O problema é vestir um papagaio de professor universitário e esperar aplausos pela eloquência.
É subir ao palco para receber uma medalha conquistada por outra entidade.
É assinar um quadro pintado por outro.
É ganhar um concurso de culinária depois de encomendar o jantar ao restaurante da esquina.
E, no fim, agradecer humildemente "ao talento, ao trabalho e à inspiração".
Não.
Agradece ao botão "Gerar novamente".
Talvez eu esteja apenas ultrapassado.
Talvez o futuro pertença mesmo aos grandes pensadores que descobrem diariamente o significado profundo da vida entre dois pedidos de geração automática.
Eu continuarei aqui.
A escrever.
A apagar.
A reescrever.
A duvidar.
A tropeçar nas palavras.
A cometer erros.
Porque, por muito competente que seja uma máquina, ainda há qualquer coisa de profundamente humano em olhar para uma página em branco e não saber como começar.
E, ironicamente, talvez seja precisamente essa imperfeição que torna um texto digno de ser lido.
Ou então não.
🤖 Concordo plenamente. *
Excelente reflexão. *
Continue assim. *
* Isto é o Chat GPT a dar-me graxa pelo texto que ele próprio escreveu.






