domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Chrildren of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (como aconteceu no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, the Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 22 de março de 2026

Ouija / Ouija, o Jogo dos Espíritos (2014)

Uma rapariga suicida-se, aparentemente, depois de usar uma ouija board, mas a sua melhor amiga duvida que tenha sido suicídio. O grupo de amigos reúne-se com a mesma ouija board numa séance para tentar contactá-la, mas o que responde é outra coisa.
Como é que esta premissa foi tão mal aproveitada? Vou já directamente ao ponto. Este filme é chato. Isto nem é um spoiler porque se descobre logo nos primeiros 15 minutos: a rapariga não se suicidou, foi assassinada por um fantasma. A partir daqui, o fantasma começa a matar os amigos um por um e só resta saber quem é que se safa no fim.
É por isso que é chato. Este é o enredo de milhões de filmes mata-adolescentes, só que com um fantasma. O início até prometia. Tanta coisa que se podia fazer com um suicídio causado pelo contacto com o Além. Mas não, teve de ser o mesmo de sempre.
"Ouija" estava a contar muito com a actriz Lin Shaye, a médium de "Insidious", mas não há aqui nada que salve o déjà-vu do enredo. Eu estava com dificuldade em não adormecer.

11 em 20

 

domingo, 15 de março de 2026

The Leftovers (2014 - 2017)

2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso. 
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária

PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)


quinta-feira, 12 de março de 2026

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domingo, 8 de março de 2026

The Northman / O Homem do Norte (2022)


Amleth, príncipe viking, jura vingar-se do tio que matou o rei e usurpou o trono.
Não quero acreditar que este filme seja de 2022. Este filme lembrou-me "Conan, o Bárbaro" de 1982 (e não sou a única), e isto não é um elogio. Até perdoava se o filme tivesse sido feito algures até ao ano 2000, mas depois de "Vikings" e "The Last Kingdom" como é que alguém pode achar que "The Northman" tenha alguma relevância? Será que o realizador alguma vez viu as séries? Será que viu os filmes de vikings que têm sido feitos entretanto?
"The Northman" não foi feito para ser realista, compreendo isso. Diria mesmo que o realizador viu "Conan, o Bárbaro" quando era pequenino e quis fazer a sua versão. Há aqui muita Fantasia e magia. O herói, Amleth, ouve a profecia de uma vidente e tem de encontrar uma espada "mágica" para matar o tio, e tem de fazê-lo em determinado lugar a determinada hora. Porquê? Porque sim. O tio não é uma criatura sobrenatural e Amleth tem muitas oportunidades de o matar... mas a profecia! Isto é estúpido, mas se fosse só um filme de Fantasia eu deixava passar. Se fosse só um filme de Fantasia, isto era para miúdos. Mas o realizador também quis utilizar rituais e costumes sangrentos dos vikings, pseudo-realistas, pensando que nos chocava, como se nunca tivéssemos visto a porno-tortura de "Vikings".
É por isso que pergunto, qual é a relevância deste filme em 2022, quando já vimos muito melhor Fantasia e muito melhores reconstituições históricas? Até "The 13th Warrior" ("O Último Viking"), com Antonio Banderas, de 1999, é um filme mais interessante e mais relevante. Não percebo um filme destes em 2022.
No meio da patetice, há uns poucos destaques que não salvam o filme mas que o tornam mais suportável. Nicole Kidman faz o melhor que pode do papel que lhe é dado. Alexander Skarsgård (o Eric de "True Blood") provou-me finalmente que é um grande actor numa cena que podia estar num filme de Ingmar Bergman, mas é mesmo lá para o fim. Mal desperdiçado actor e mal desperdiçada cena. Mas também é uma cena que parece ter saído de outro filme e escrita para um personagem que fez uma jornada de herói e que chegou ao seu limite. O pobre Alexander Skarsgård não tem tanta sorte, passa o filme todo no mesmo registo de vingança, sem a menor evolução psicológica.
Björk faz de vidente, mas não a reconheci. Com aquela máscara na cara, nem podia reconhecê-la. Fica aqui a dica para os fãs.
"The Northman" é um filme de 2022 que tenta ser "Conan, o Bárbaro" mas que consegue ter ainda menos interesse cinematográfico, uma mistura falhada de Fantasia e pseudo-realismo, uma coisa que só pode agradar a quem nunca viu os filmes e séries de vikings da última década. Volta, Michael Hirst, estás perdoado.
Só uma última nota de que me lembrei a posteriori. Alexander Skarsgård é irmão de Gustaf Skarsgård (o Floki de "Vikings") e se calhar foi ao papel do irmão que Alexander Skarsgård foi buscar inspiração. Na verdade, aquela cena brutal fazia sentido em "Vikings". Pelo menos sabemos que alguém viu a série antes de entrar neste filme.

11 em 20

 

domingo, 1 de março de 2026

El Cadáver de Anna Fritz / O Cadáver de Anna Fritz (2015)


Anna Fritz, uma actriz jovem e bela, é encontrada morta. Um dos funcionários da morgue convida os amigos para virem espreitar o corpo da celebridade. A partir daqui as coisas vão de mal a pior.
Quando li a sinopse pareceu-me talvez um drama, talvez terror. Este filme espanhol talvez seja as duas coisas e também um thriller, mas o melhor é ver sem spoilers e sem ler nada sobre o enredo, por isso vou calar-me.
Quase dava 20 em 20, mas alguns pormenores relacionados com o funcionamento da morgue retiram alguma credibilidade e precisavam de ser mais bem "vendidos". Também não vou explicar por causa dos spoilers, mas posso garantir que só pensei nisto depois. Durante o filme, fiquei petrificada do princípio ao fim.

17 em 20

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ena. La reina Victoria Eugenia / Ena, A Rainha Vitória Eugénia (2024 - 2025)


Primeiro que tudo, o título não significa "Ena! A rainha Vitória Eugénia" mas antes "Ena, a rainha Vitória Eugénia". (Sim, eu li "ena!" e fiquei uns segundos a pensar o que é que ela teria feito para merecer o "ena"). Ena era a alcunha da rainha espanhola Vitória Eugénia, neta da rainha Vitória de Inglaterra, avó de Juan Carlos e bisavó do presente rei Filipe VI. Vitória Eugénia foi a consorte do último rei de Espanha antes do interregno, Afonso XIII, exilado em 1931. A acção da série centra-se sobretudo desde o início do século XX até ao pós-Segunda Guerra Mundial.
Confesso que conheço muito mal o período histórico português entre a instauração da República e o Estado Novo, mas do espanhol não conhecia mesmo nada. Por exemplo, nem me passava pela cabeça que Espanha não tivesse participado na Primeira Guerra Mundial, onde nós participámos. Esta série espanhola não explica os factos históricos em profundidade (é mais dirigida a quem já os conhece) mas fiquei a perceber muita coisa em que nunca tinha pensado.
Tive muita pena de Vitória Eugénia. Primeiro, teve de casar com um espanhol. Segundo, teve de viver em Espanha. Terceiro, assim que se casou descobriu que quem mandava no rei era a mãe do rei. Quarto, o marido era um mulherengo inveterado. Mas tudo isto era muito comum nas monarquias à antiga. Rainhas como Vitória Eugénia tinham um único propósito: gerar herdeiros. É claro que a série tentou romantizar a protagonista, mas eu não acredito que uma descendente da rainha Vitória, por jovem e ingénua que fosse, não soubesse muito bem o que esperar do casamento.
Vitória Eugénia, e isso é que eu acho mais fascinante, foi uma mulher do século XIX que viveu todas as revoluções do século XX. Da luz das velas às cidades iluminadas, do coche ao automóvel, dos canhões à bomba atómica, do espartilho ao biquíni. Vitória Eugénia viu o cinema, a televisão, e, embora já não tenha visto o homem na Lua, também assistiu à conquista do espaço. Não consigo imaginar outro período histórico com inovações científicas tão avassaladoras como estas devem ter parecido a quem nasceu no final do século XIX e viveu o século XX. (Como alguém que também mudou de século, e já vamos em 2026, não encontro nada no século XXI que se aproxime desta revolução vertiginosa, tirando a internet ao acesso de todos. Continuamos em evolução, mas o século passado foi uma explosão.) Estes choques tecnológicos não podiam deixar de influenciar também as mentalidades. Vitória Eugénia foi educada à vitoriana e preparada para uma monarquia à antiga, mas uma monarquia à antiga já não tinha lugar na modernidade e a própria Vitória Eugénia queria ser mais do que um enfeite e uma parideira, e efectivamente foi. Dedicou-se sobretudo a causas humanitárias como os hospitais para os pobres, a Cruz Vermelha e os prisioneiros de guerra. De muitas formas, foi já o modelo de rainha próxima e empática que as suas sucessoras europeias viriam a adoptar.
A corrente republicana ditou o exílio de Afonso XIII, e a monarquia só regressou a Espanha em 1975. Como disse, a série não se detém em profundidade a analisar os factos históricos. Afonso XIII, e o seu herdeiro Juan (pai de Juan Carlos), continuaram a escrever a Franco na tentativa de restabelecer a monarquia. Da perspectiva da série, não se consegue perceber se o fizeram em cumplicidade com o regime ou apesar dele. Na verdade, a série aborda o assunto com talvez demasiada leveza, quase como se Afonso XIII e Juan quisessem voltar ao trono só porque sempre foi assim e sempre assim será, haja ditadura ou haja democracia. A certa altura, um personagem até refere que "a Espanha é monárquica" na sua essência. Bem, o facto é que resultou e que a monarquia ainda lá está.
Por outro lado, compreendo que a prioridade de "Ena, A Rainha Vitória Eugénia" tenha sido dramatizar a mulher, retratá-la como esposa, mãe e avó, e não dar uma lição de História. Mesmo assim, aprendi muitas coisas que não sabia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Victoria, História, drama, séries de época


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Us / Nós (2019)

Duas famílias estão de férias na praia quando se tornam alvo de ataque por seres misteriosos e assassinos que são iguais a eles.
Spoiler necessário: o filme nunca explica em detalhe, mas estes seres foram criados num laboratório subterrâneo como réplicas (vou chamar-lhes clones) das pessoas originais, numa experiência (tudo indica governamental) para tentar controlar a mente dos cidadãos. Falhada a experiência, os clones foram abandonados à sua sorte, e finalmente subiram à superfície para se vingarem dos originais.
O filme é arrepiante. Estes clones são em tudo idênticos aos originais mas são defeituosos: na fala, nos movimentos, na falta de consciência moral. Na verdade, parecem mais uns "zombies vivos" do que outra coisa. Por alguma razão, estão mentalmente ligados aos originais no exterior e a única forma de se "desligarem" é matando as pessoas de quem são réplicas.
"Us" tem sido agraciado com elogios retumbantes de originalidade que, no meu entender, não merece. Se isto é uma metáfora dos excluídos contra os privilegiados, George Romero já o fez antes, com zombies. A sensação com que fiquei deste filme é de que lhe falta qualquer coisa, uma base minimamente credível. Por exemplo, quando a experiência é cancelada, e sendo uma experiência ilegal e bastante sinistra, porque é que os investigadores deixaram os clones vivos? Também nunca é explicado quantos clones existem, se são apenas milhares naquela cidade costeira ou milhões deles para toda a população americana. Desta forma, não sabemos o que acontece quando o filme acaba: os clones tomaram conta de tudo ou não?
Para quem não fizer perguntas difíceis, "Us" é um slasher quase igual aos outros, mas com clones.

12 em 20

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Servant (2019 - 2023)


[contém alguns spoilers]

"Servant" é uma série excepcional que combina terror, thriller psicológico, mistério, comentário social e humor. Porque o enredo vive do suspense não vou poder aprofundá-lo como merece, mas aconselho a toda a gente que gosta do género que veja a série sem spoilers absolutamente nenhuns para maior impacto.

Spoilers
Dorothy e Sean Turner são um casal de classe alta que perdeu um bebé de poucos meses. Dorothy ficou em tal depressão que Sean e o irmão dela, Julian, por sugestão de uma terapeuta, substituem o bebé por um boneco Reborn (um boneco bastante realista). Só que Dorothy não recupera do choque e, em estado de negação, começa mesmo a acreditar que o boneco é o seu filho. Sean e Julian não querem contrariá-la e agem como se o boneco fosse um bebé de verdade. Isto cria um ambiente de casa de doidos, especialmente quando Dorothy, sem que Sean se oponha, contrata uma ama de 18 anos. Leanne, a ama, é daquelas raparigas religiosas de província que não conhecem nada do mundo e cheiram a sabão azul e branco porque até o sabonete seria considerado demasiada vaidade (ou assim imagino que ela cheire). Mas quando Leanne chega, o boneco transforma-se num bebé a sério. Mais do que isso, quando ela está presente o bebé existe, quando ela se afasta o bebé volta a ser um boneco.
Dorothy não se apercebe disto porque sempre acreditou que o boneco fosse o bebé, mas Sean e Julian partem do princípio de que Leanne trouxe uma criança com ela, possivelmente sua. Quando vêm a saber que Leanne cresceu num culto, a Igreja dos Santos Menores, e um tio misterioso vem à procura dela, ainda mais se convencem de que isto tudo é um esquema para fazer chantagem e extorquir dinheiro. O pior é quando Sean, primeiro, e Julian, depois, se apegam também ao novo bebé e já não o querem deixar ir embora.
Mas não é um esquema. Leanne é aquilo a que eu chamo uma bruxa genuína. Não falo de senhoras que lêem o Tarot, percebem de astrologia e têm um gato. Falo de uma bruxa de verdade com poderes de verdade, como se percebe depressa em poucos episódios. O culto é cristão, mas os membros do culto têm muito boas razões para serem crentes. Gostei muito deste "cruzamento" entre os poderes sobrenaturais que geralmente são associados com bruxaria e o zelo cristão de um outro tipo de sobrenaturalidade que não vou revelar.
Agora o comentário social. Dorothy, jornalista televisiva, Sean, Chef de renome, e Julian, com dinheiro de família, vivem num mundo de luxo e privilégio em que tudo pode ser comprado. Neste mundo artificialmente perfeito, trocar um bebé por um boneco parece-lhes aceitável para que a perda não lhes afecte o conforto absoluto. Lidar com a dor não é uma opção. Até pode parecer que os Turner nem sequer estão de luto, que são tão superficiais que vivem numa bolha de ilusão, mas é mais do que isso. Eles não vivem apenas numa ilusão, eles transformaram a ilusão em realidade e a realidade é que se tornou uma ilusão, como um pesadelo que se dissipa à luz do dia. Se existe drama, todas as personagens fingem que não o vivem, e é isto que mais nos choca em "Servant". Será Leanne uma força do bem que os vem obrigar a ser humanos, ou uma força do mal que os vem castigar?
"Servant" é uma produção de M. Night Shyamalan, mas não foi escrito por ele. M. Night Shyamalan tem sido um realizador com grandes sucessos e grandes flops, mas voltou a cair nas minhas boas graças com "The Visit" (20 em 20), que me deixou de cabelos em pé de tão arrepiada. Mesmo assim, não quis pronunciar-me antes de ver a série toda e posso assegurar: "Servant" não desilude.
Agora o humor. No meio desta situação de pesadelo, Julian e Sean, principalmente, protagonizam momentos tão absurdos que quase nos fazem rir. Quase. Julian tem sempre disposição para provar os vinhos vintage na colecção de Sean. Sean é um Chef tão meticuloso que passa o dia a cozinhar e até o pequeno-almoço é gourmet. Na segunda temporada, por exemplo, quando julgam que o bebé foi raptado, decidem distribuir pizzas para que os suspeitos lhes abram a porta. É tudo a fingir, mas nem mesmo assim Sean consegue entregar uma pizza menos do que perfeita. Aliás, aviso já, ver Sean cozinhar abre o apetite. Excepto quando nos repugna, como daquela vez em que faz doce de grilo. Mas que é gourmet, sim é.
"Servant" também é uma série gourmet, daquelas que só se vêem raramente na vida. 
Certas semelhanças recordam-me "Shining Vale", série posterior, mas "Shining Vale" era claramente mais voltado para a comédia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: terror, thriller, mistério, sobrenatural, Shining Vale