domingo, 25 de outubro de 2026

Sandokan: The Pirate Prince (2025 - ?)

Para as pessoas da minha geração, Sandokan, o Tigre da Malásia, não precisa de apresentações.
"Sandokan: The Pirate Prince" é o remake de 2025, uma adaptação dos livros de Emilio Salgari. Tal como no original, Sandokan é um pirata, mas nesta versão ele ainda não sabe que é o herdeiro de um líder nativo cuja tribo foi chacinada pelos britânicos.
Depois de assaltar um navio, Sandokan e a sua tripulação são perseguidos pelo mercenário e caçador de piratas James Brooke. Ferido, Sandokan dá à costa e é encontrado por Marianne, filha rebelde do cônsul britânico, que o leva para casa. Sandokan apresenta-se como mercador atacado por piratas, mas James Brooke suspeita dele. Quando é desmascarado, Sandokan consegue fugir, raptando Marianne como refém. Entretanto, James Brooke tinha pedido Marianne em casamento e agora já não quer apanhar os piratas só por dinheiro e prestígio. Durante a viagem com Sandokan, Marianne apaixona-se por ele, e o resto já sabem. Ou talvez não saibam, porque a história é ligeiramente diferente. Depois de ver a primeira temporada, é possível que o final não seja aquele que conhecemos.

"Sandokan, o Tigre da Malásia"
Esta série de 1976, que por cá passou primeiro a preto e branco e só nos anos 80 foi repetida a cores, causou um grande impacto no nosso imaginário. Cães foram chamados Sandokan, pessoas alcunhadas de Sandokan, miúdos mascarados de Sandokan muito depois de a série ser exibida. Havia espadas do Sandokan à venda, acho que ainda andei com uma. Era uma verdadeira loucura que atingia crianças, jovens e adultos.
O que eu não sabia, e que só descobri agora, é que a loucura não foi só cá, foi na Europa toda, com espectadoras da minha idade a confessarem publicamente que queriam casar com Sandokan e espectadores que o idolatravam como herói de acção.
Muita gente (como eu) ainda se lembra da música, o que é um bocadinho espantoso porque a série original só teve 6 episódios. Será que a música também passava na rádio? Descobri que há um disco:


Fiquei perfeitamente estarrecida quando pesquisei que o original era de 1976. Tinha eu 4 anos. Da maneira que recordo o enredo, as imagens e até os nomes das personagens, tinha ideia de ter visto a série mais tarde. Muito embora as memórias de infância tenham tendência a ficar marcadas de forma mais permanente do que o filme que vimos na semana passada, acredito que me lembro muito melhor por causa dos livrinhos.
Na altura em que não havia gravadores de vídeo nem botão de rewind, vendiam estes pequenos livrinhos com o resumo das séries da televisão. Existia um grande negócio à volta disso porque os livrinhos eram baratos, acessíveis, com muitas imagens e pouco texto, e encontravam-se em qualquer papelaria. Deve ser também por isso que só me lembro da série a cores.




O novo Sandokan
É claro que não me lembro da série original assim tão bem, mas reparei em algumas diferenças. Fiquei com a impressão, pelo menos, de que o "Sandokan" de 1976 era muito mais uma série de aventuras de capa e espada, não obstante o romance com Marianne, e que este novo "Sandokan" é muito mais romântico e centrado na protagonista feminina, à semelhança, por exemplo, de "Outlander", e igualmente dirigido ao público feminino, motivo pelo qual passa no AXN White e não no AXN. Ao contrário da ficção romântica e erótica da actualidade, contudo, não há cenas de sexo.
As cenas de acção são igualmente inócuas. Não há muito sangue nem nada de chocante, e as mortes são no mínimo irrealistas, do tipo "adeus, meu amor", e morreu. Nos dias que correm isto é raro, nomeadamente se considerarmos que este novo "Sandokan" pode ser descrito como "Spartacus" encontra "Black Sails", mas sem o sexo e a violência.
Penso que os criadores quiseram ser fiéis ao original e fazer uma série que pode ser vista por toda a família, tal como foi vista por miúdos e graúdos na altura. Pessoalmente, acho que a intenção é bonita e que respeita as nossas memórias de infância. Quem preferir sexo e violência tem muito por onde escolher. 
Mas "Sandokan: The Pirate Prince" segue uma narrativa em tudo moderna, com desenvolvimento de personagem, flashbacks, backstories. Os vilões, à excepção do sultão, são complexos e tridimensionais. James Brooke devia ser um vilão mas torna-se um galã romântico com a real possibilidade de rivalizar com Sandokan. Yanez de Gomera (Eanes), o português da tripulação de Sandokan, era padre e é-nos dado a ver porque deixou de ser.
Os espectadores mais novos vão achar estranho que se ouça uma certa música nos momentos mais épicos. Pois, é essa música, a música de Sandokan. A música que nunca nos saiu da cabeça. Pode parecer muito datado mas é de propósito.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: drama, aventura, acção, romântico, Sandokan, Spartacus, Black Sails 


domingo, 18 de outubro de 2026

For Evigt / Eterno (2023)


Um sismo abre uma fissura submarina na crosta terrestre que ameaça comprometer o campo magnético da Terra. Este cataclismo, supostamente causado pelas alterações climáticas, irá pôr fim a toda a vida no planeta que ficaria desprotegido das radiações espaciais.
Dito assim, isto seria ficção científica, mas a história de "For Evigt" não é esta. Na verdade, nunca se percebe o que é que as alterações climáticas (à superfície) têm a ver com a fissura no núcleo terrestre. Pode ser ignorância minha mas, já agora, se isto tem alguma relação plausível, podiam ter feito o favor de explicar.
Este filme nórdico (segundo o IMDB, uma produção da Dinamarca, Islândia e Noruega) não está verdadeiramente interessado na ficção científica. Do que aqui se trata é de uma relação romântica que acabou mal e de um lamento sobre oportunidades perdidas da juventude vistas à luz da maturidade. As cenas de ficção científica propriamente dita são lentas e confusas e eu dei por mim a pensar em tudo menos no filme.
Mas também dei por mim, quando o filme acabou, a pensar no significado do que tinha visto.
Será uma metáfora? Uma maneira de dizer que a humanidade age como um jovem imaturo que privilegia o presente sem querer saber do futuro dos que virão depois dele? Se sim, haveria melhores maneiras de transmitir a mensagem. Mas pelo menos fez-me pensar.

12 em 20


domingo, 11 de outubro de 2026

Lovecraft Country (2020)

Chama-se "Lovecraft Country" à região ficcional que H. P Lovecraft inventou para situar as suas histórias, parte imaginação e parte realidade da Nova Inglaterra. Este "Lovecraft Country", porém, é a adaptação do livro homónimo de Matt Ruff e não de H. P. Lovecraft como o título sugere.
O primeiro episódio até começa bem. Atticus é um veterano da guerra da Coreia que parte à procura do seu pai, misteriosamente desaparecido na remota localidade de Ardham (sim, como Arkham). Atticus e o seu tio são ávidos leitores do verdadeiro H. P. Lovecraft e perfeitamente bem preparados para investigar enigmas sobrenaturais, lutar contra monstros e traduzir livros escritos em línguas arcaicas. Isto prometia ser uma espécie de "Sobrenatural" encontra "Indiana Jones".
Mas não é. "Lovecraft Country" é um drama sobre uma família negra de Chicago nos anos 50 que enfrenta o racismo, a segregação e a violência racial da época. O drama está embrulhado em histórias inspiradas em H. P. Lovecraft que nem fingem querer meter medo. Quem está à espera de ver K'thulla, os alienígenas de Plutão, os híbridos de Dunwich, ou até mesmo o reanimador, esqueça, não há nada disso aqui.
Tive muitas vezes a sensação de estar a ver dois filmes diferentes. Por um lado, o drama histórico. Por outro, as aventuras dos protagonistas que se vêem envolvidos com a ordem secreta Filhos de Adão. Às vezes até estava a gostar mais do drama histórico, quando começava a "dar" o outro filme, e assim sucessivamente. Mas o "filme de terror" em "Lovecraft Country" é muito mau, com magia aleatória e CGI pobrezinho, e um enredo principal sem pés nem cabeça.
Faz uma pessoa perguntar-se: se queriam fazer um drama histórico, porque não o fizeram? Porque é que tinham de meter Lovecraft ao barulho? Tinham, e quiseram metê-lo, porque Lovecraft era muito racista (mais ainda na escrita não-ficcional do que nos contos), e esta é uma história sobre racismo. Na verdade, somos tão martelados com o racismo, constantemente e a torto e a direito, que saímos daqui a perceber: ah, ok, Lovecraft Country é a América. Lovecraft racista, América racista, território de Lovecraft! Podiam ser ainda um bocadinho mais explícitos? Não, não podiam. Podiam era ter sido um bocadinho mais subtis. "True Blood", também da HBO, era uma analogia com a homossexualidade, mas nunca deixou de ser uma história de vampiros. "Lovecraft Country" é um drama de época disfarçado de sobrenatural, e isso aborrece-me. Se não queriam levar o terror a sério, ninguém os obrigava a fazer terror. O título até podia ser o mesmo, bastava incluir o protagonista que gosta de Lovecraft, mas não vendiam gato por lebre para martelarem a mensagem na cabeça de mais gente. Mensagem essa que, se calhar, até seria transmitida com a seriedade que merece num drama igualmente sério. Se calhar este formato até é contraproducente para a mensagem.
E qual é a mensagem final? Chegamos ao último episódio e a mensagem é "todos os brancos são maus e racistas, vamos tirar-lhes a magia para sempre". Bonito, sim senhor. Uma mensagem racista a fechar uma série sobre racismo, se não mesmo um incitamento descarado à violência a julgar pela última cena de todas. Não era preciso dar a outra face e perdoar, mas aquilo foi bater no ceguinho.
Tirando a temática do racismo, a série só se debruça com igual atenção sobre uma temática gay e trans (com muito sexo explícito à mistura porque é a HBO). Aqui até se safaram melhor, com um sub-enredo sobre uma mulher negra a quem o amante dá uma poção para se transformar em mulher branca. Esta "mudança de corpo" é realmente inspirada num conto de Lovecraft e é sempre fascinante, mas melhor ainda quando ela descobre que o amante também é uma mulher que usa a mesma poção para se transformar em homem. Isto sim, é interessante, provocador, criativo, e subtil o suficiente (também não precisa de ser tão subtil que não se entenda), e não foi necessário martelar na tecla até à náusea. O espectador percebe, o espectador não é idiota.
"Lovecraft Country" é uma série de activismo e não deve ser vista como outra coisa. Quem gosta de H. P. Lovecraft pode evitar que não perde nada.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: drama histórico, True Blood, sobrenatural, H. P. Lovecraft

 

domingo, 4 de outubro de 2026

You Should Have Left / Deviam Ter Saído (2020)

Theo, um banqueiro rico e reformado, a sua mulher Susanna e a filha de 6 anos vão passar férias num alojamento temporário no País de Gales. Para começar, a casa que os espera é muito moderna, não tem aspecto de lugar pitoresco no campo. Mais tarde eles interrogam-se, quem é que sugeriu este sítio, Theo ou Susanna?
Theo e Susanna estão em crise. Susanna é muito mais nova do que Theo e é actriz de profissão, e Theo não consegue conter os ciúmes, incluindo bisbilhotar-lhe o telemóvel, o tablet e o portátil. Mas a Theo pesa também um passado trágico. A sua primeira mulher afogou-se na banheira por ter tomado comprimidos para dormir e Theo foi julgado, e absolvido, como suspeito de homicídio. Uma série de pesadelos leva-o a pensar que precisam de mudar de ares e passar tempo de qualidade juntos para que as coisas melhorem.
Assim que chegam ao local, Theo e Susanna reparam que a casa parece muito maior por dentro do que por fora. Isto é uma ilusão comum, mas logo na primeira noite é-nos revelado que não é uma ilusão. Esta casa labiríntica manipula o espaço e o tempo e torna realidade os demónios que já existem na cabeça dos personagens. Resta saber o que está reservado à família.
Fiquei completamente agarrada a este filme que tem influências óbvias de "The Shining" e de H. P. Lovecraft. Uma casa que não tem ângulos rectos não pode ser boa.
(A minha casa é assim, não deve ter um único ângulo recto. Causa tonturas.)
À medida que ia conhecendo as personagens, principalmente a menina, cada vez me afligia mais. Não queria que isto se tornasse "The Shining", mas ao mesmo tempo até queria. O grande problema de "You Should Have Left" é que, ao contrário do que fazem Stephen King e Lovecraft, não abraçou o terror que sugeria. Não era necessário que o fim fosse semelhante a "The Shining" para nos perturbar, mas acho que o filme nunca quis realmente ir tão longe. Como amante de terror, tenho a lamentar, mas "You Should Have Left" vale muito bem pelos primeiros dois terços do filme, e especialmente por aquela parte em que Theo foge com a filha de noite, no escuro e no frio. Eu fiquei arrepiada várias vezes durante este filme e isto já não me acontece com frequência.

13 em 20 (que podia ter sido mais se o fim não ficasse aquém da premissa)


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Humanos perseguidos por agentes exterminadores

Os sonhos costumam ser fragmentados e difíceis de lembrar, mas desta vez tive direito a uma "sessão de cinema" com world building e tudo. Eu não entrei como personagem no sonho, fiquei só a ver o "filme".
Um universo distópico em que os registos analógicos tinham sido dados como obsoletos e abandonados. O registo de identidades tinha sido migrado para um sistema digital. Quem não tivesse identidade no novo sistema não existia. Quando o sistema falhava em migrar ou apagava uma identidade, o regime enviava agentes para "apagar" a pessoa também. Porquê? Porque o sistema era considerado infalível e o erro não era admitido. Era mais fácil eliminar a pessoa "clandestina" do que admitir que o regime cometia erros. 
Mas ainda havia raras pessoas que sabiam ler os códigos analógicos antigos. Estas pessoas consultavam o código de identidade em livros velhos (um código alfanumérico) e a pessoa perseguida podia dar este código ao agente exterminador para provar que existia.
Quem eram estes agentes exterminadores? Não tenho a certeza, mas não eram humanos. Também não me pareceram máquinas. Eram mais do tipo dos agentes da Matrix (mas não podiam ser hologramas porque matavam mesmo) ou, talvez, extraterrestres que agora controlavam o planeta Terra e subjugavam os humanos?... Fosse o que fosse, era um regime desumano e brutal.
Comecei a acordar do sonho e a perguntar-me: que série é esta? Não é série nem filme, pelo menos que eu conheça. É um original.
Mas as influências para o sonho vêm de muitos lados, mais presentemente das séries "Silo" e "Arcadia", a par de distopias como "Farenheit 451", "1984", Exterminador Implacável e outras do género, e ficção científica de invasões extraterrestres. A contribuir também, as questões relacionadas com a IA e a perseguição aos imigrantes (sem documentos/identidade).
Tenho pena de não gostar de escrever nestes géneros, mas a ideia também não é completamente original.
Gostei do "filme". Precisava de mais drama, talvez até um interesse romântico para o protagonista. Era bom sonhar com o próximo episódio.


domingo, 27 de setembro de 2026

The Sandman (2022 - 2025)

Sandman é Morfeu, deus dos sonhos, senhor do reino do Sonhar, ou simplesmente Sonho. Sonho é um dos irmãos da Infinidade (the Endless) que igualmente personificam a Morte, o Desejo, o Destino, a Destruição, o Delírio. "The Sandman" é uma série baseada nos comics de Neil Gaiman, contos independentes passados neste universo. 
Tal como nos comics, a série conta histórias distintas em cada dois ou três episódios. De algumas histórias gostei, de outras não, e outras foram uma seca realmente digna de Sandman porque me deram sono. Não penso que tenha sido de propósito, mas esta sucessão de histórias pareceu-me efectivamente um conjunto de sonhos e pesadelos, em que nunca sabia o que ia ver a seguir, mas sem grande conexão entre eles. A conexão foi tentada, penso que artificialmente, introduzindo a família de Sonho como fio condutor, mas se era para fazer uma antologia teria sido melhor separar completamente as histórias sem forçar um enredo principal que muitas vezes se perde a meio.
Também dei por mim a pensar a que público é que isto se destina. O género oscila entre a Dark Fantasy e o Terror, com uma estética gótica a lembrar Tim Burton (quem se inspirou em quem, fica a questão). Há momentos muito infantis (têm um corvo falante, um cão falante, uma gárgula bebé, um pégaso, um dragão, um grifo, um cabeça-de-abóbora) e há outros momentos que parecem Stephen King (um congresso de serial killers, um coleccionador de olhos). Admito que pode haver pessoas que gostem da mistura, mas para mim não resulta. A fantasia e a leveza infantil, tipo Harry Potter, não encaixa com as histórias mais pesadas.
Foi pior ainda na segunda temporada, quando quiseram fazer drama. Delírio (que mais parece uma drogada) procura Destruição, um irmão que abandonou a família, e pede ajuda a Morfeu para o encontrar. Para este objectivo morre muita gente, Morfeu tem de matar o próprio filho (!), e com que resultado? Quando encontram Destruição, este serve um lanche aos irmãos e parte de novo para outra galáxia (juro que não inventei isto, mas com irmãos destes eu também dava de frosques).
E Lúcifer, o que foi aquilo com Lúcifer? (Sim, é exactamente o mesmo Lúcifer que inspirou este "Lucifer".) Lúcifer é o senhor do inferno, naturalmente, mas não tem nada a ver com estes entes da Infinidade. A certa altura Lúcifer abandona o inferno e decide reformar-se, assim sem mais nem ontem, e entrega-o a Sonho, que por sua vez o entrega de volta aos anjos e a Deus. Sim, a Deus, que também entra neste universo mas não percebi como. Contado assim até se supunha cómico, mas é mais de ficar de boca aberta com tanto absurdo.

Gwendoline Christie em "Wednesday"

Deste enredo deplorável salva-se a interpretação de Gwendoline Christie como Lúcifer, a tentar fazer o melhor dos diálogos miseráveis que lhe deram.
Se mesmo assim isto soa familiar, foi porque "Sobrenatural" foi inspirado no universo de Neil Gaiman, só que, na minha opinião, "Sobrenatural" transformou cacos em ouro e acertou no tom, na mitologia, no enredo, nas personagens, no drama, no humor, enfim, em tudo. Não posso avaliar "The Sandman" como adaptação, porque não conheço os comics (nem gosto de banda desenhada), mas como série aproveita-se a estética de encher o olho e pouco mais.
E nem sequer falei da máscara anti-gás que Sonho usa nos primeiros episódios. Para que é que era aquilo afinal? Era para o estilo? Cyber goth cósmico? O vosso palpite é tão bom como o meu, porque nunca foi explicado.
O melhor episódio foi mesmo "Dream of a Thousand Cats", um desenho animado de cerca de 20 minutos e uma história claramente inspirada no clássico "The Cats of Ulthar" de H. P. Lovecraft, mas, na minha opinião, muito mais pesado. Ninguém vai esquecer aquele final. Aconselho a todos os amantes de gatos, mas não me responsabilizo pelo trauma que causar.

PS: Por falar em interpretações, só em "The Sandman" é que percebi que Jacob Anderson, o Louis de "Entrevista Com o Vampiro", também foi Grey Worm em "Guerra dos Tronos"! Isto é um elogio para o actor, que consegue encarnar cada personagem a ponto de ficar irreconhecível.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: ir directamente para "Dream of a Thousand Cats", último episódio da primeira temporada

PARA QUEM GOSTA DE: Dark Fantasy, Neil Gaiman, Tim Burton, Harry Potter, Sobrenatural (série), Lucifer (série)

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Soft Science - "Sand" (2026)

"Sand", quinto álbum dos californianos Soft Science, é uma mistura sedutora de dream pop, post-punk e shoegaze. A cada audição vieram-me à cabeça bandas tão díspares como Cocteau Twins, The Mission, Echo & the Bunnymen ou Faith & the Muse, e uma sensação de arrepio por me parecer que sempre conheci estas canções toda a vida. Não acontece frequentemente.
Entre tantos temas cativantes, recomendo "Sway" e "Thread".

"Sand", the fifth album by the Californians Soft Science, is a seductive blend of dream pop, post-punk and shoegaze. With every listen, bands as different as Cocteau Twins, The Mission, Echo & the Bunnymen or Faith & the Muse came to mind. "Sand" sent shivers down my spine like I've known these songs my entire life. Doesn't happen every day.
Among so many captivating tracks, I recommend "Sway" and "Thread".

softscienceband.bandcamp.com/album/sand

 

 

domingo, 20 de setembro de 2026

The Pope's Exorcist / O Exorcista do Vaticano (2023)


Sinceramente, não consigo dizer se já tinha visto este filme ou se são tantos os clichés que já os vi todos noutro sítio. Uma vez que "The Pope's Exorcist" é tão recente, muito provavelmente é a segunda hipótese.
O enredo é familiar. Uma mãe viúva muda-se com os filhos para uma abadia em Espanha, herança do marido, tentando remodelá-la e vendê-la. Durante as obras, os trabalhadores abrem um espaço selado na cave, o que dá azo à possessão. O puto mais novo é possuído. O padre Amorth, exorcista do Vaticano, é chamado pelo jovem padre Esquibel e juntos procedem ao exorcismo. O demónio resiste com obscenidades, ameaças, levitação, mobília a voar, pessoas atiradas contra a parede, etc, o costume.
Este padre Amorth é um exorcista durão e muito experiente. Logo de início, é chamado a exorcizar um outro jovem de uma família italiana modesta. Dizem-lhe que o rapaz está possuído porque começou a falar inglês, língua que nunca tinha falado, e Amorth pergunta: eles têm televisão? Eu já tinha visto esta cena, ou num filme ou numa série. Obviamente, Amorth depreende que não existe possessão nenhuma e que o jovem é mentalmente transtornado e que aprendeu a falar inglês com a televisão, mas faz o exorcismo à mesma porque "às vezes as pessoas só precisam de atenção e de conversa" e resolve a situação. Este primeiro exorcismo "placebo" leva-nos a perceber que o caso do miúdo da abadia é mesmo sério e fidedigno.
Ora, "The Pope's Exorcist" lembrou-me especialmente de "The Rite", mas com Russell Crowe em vez de Anthony Hopkins e um exorcista que deve muito àquele protagonista detective (?) de Dan Brown que eu conheço mal porque não é o meu género de ficção. A diferença é que "The Rite" é um filme de exorcismos como deve ser, daqueles que nos perturbam, e "The Pope's Exorcist" nem sequer tenta. O enredo é batido, os personagens são os mesmos do Exorcista original, desde a mãe viúva à dupla de padres experiente e novato, e os efeitos especiais são iguais (excepto quando se tornam piores, mas já lá vou). A princípio até estava a levar o enredo a sério até ao momento em que o demónio possessor começa a falar, e aqui comecei a questionar-me se isto queria ser de facto um filme de terror. O demónio parece mais o Gollum de "O Senhor dos Anéis" com sotaque britânico, falta de fôlego, falta de originalidade e, acima de tudo, falta de perigo. Principalmente quando descobrem que o demónio é Asmodeus, rei do inferno, era de esperar mais.
Mas isto até faz sentido porque afinal o problema maior não é a possessão em si, mas o facto de a abadia albergar nada mais nada menos do que um portal para o inferno que os tais homens das obras desselaram. Isto é supostamente um grande segredo do Vaticano há séculos, mas por alguma razão o Vaticano esqueceu-se do segredo e deixou a abadia entrar no mercado imobiliário. Pelo final do filme sabemos que existem mais 199 portais para o inferno e que o padre Amorth tem de os procurar a todos. Isto também era o enredo de "Evil", mas em "Evil" era um segredo do inferno que o Vaticano tinha de desvendar.
Em suma, só alguém que não conhece este género de enredos poderá encontrar alguma coisa interessante nesta manta de retalhos copiados e re-copiados de melhores fontes. O que me confirmou que o filme era mau, no entanto, foram mesmo os efeitos especiais do tal portal, entre os quais um poço de sangue e lava (?). Já é costume que os filmes de terror recorram aos efeitos especiais quando não têm substância com que aterrorizar, mas aqui é tudo tão demasiadamente exagerado que me pergunto se isto foi mesmo feito para ser terror, ou apenas terror-light, ou apenas entretenimento. 
Mesmo assim, até estava disposta a dar o desconto. O que me chateou a sério foi quando Amorth e Esquibel concluem que os mentores da inquisição estavam possuídos por demónios, isto é, que a Inquisição foi invenção do Diabo. Podem dizer "é só ficção", mas este tipo de ideias, tal como outra já utilizada, de que Hitler também estaria possuído, não fazem sentido nos dias de hoje, nem sequer na ficção. 
Tudo espremido, "The Pope's Exorcist" não deita nada de jeito.

11 em 20

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

GENTE QUE ODEIO: 6 - gente que diz "podes ligar-me a qualquer hora do dia ou da noite"

Não sou só eu. Muito boa gente odeia ouvir isto. Até apetece ligar-lhes às 4 da manhã só para lhes desmascarar o bluff.
Porque é um bluff. As pessoas só dizem isso para se armarem em mais disponíveis do que os outros.
As únicas pessoas que podem dizer isto com sinceridade são membros da família ou amigos chegados em momentos de crise em que tal telefonema seria urgente e imprescindível. O resto é uma cambada de mentirosos.
Todavia, ouvimos muito isto até em contexto profissional. "Pode ligar-me a qualquer hora do dia ou da noite." Azar o dele, eu até costumo estar acordada de madrugada. Já me passou pela cabeça telefonar só para lhe dar cabo da vida. "Era só para confirmar a cor da tinta. Quero branco para as paredes." Uma aposta que me mandava a um sítio? Mas ofereceu a disponibilidade, não ofereceu?  Só tem o que merece. 
Felizmente, a minha boa educação não me deixa fazê-lo. É a sorte deles, e eles sabem disso, que "fica bem" dizer "a qualquer hora do dia ou da noite" mas que ninguém vai levar à letra.
Uma vez levei, porque era uma amiga. Ofereceu, eu fiz-me de parva e liguei depois das 23 horas. "O que foi?", "Não foi nada, só queria falar contigo", "Mas é quase meia-noite", "Mas tu disseste qualquer hora do dia ou da noite".
Eu sabia que ela não ia gostar, mas eu também não gostei que ela se armasse em "grande amiga". Isto ainda foi na adolescência, quando a gente se anda a educar uns aos outros.
Fiquem descansados, hoje em dia não telefono a ninguém, a hora nenhuma. Desde que apareceram as SMS baratas que não pego no telefone para telefonar. Dizem que é a Geração Z que só comunica por mensagem. Geração Z o caraças, sou Geração X e já faço isso desde antes de a Geração Z ter nascido. A ideia de falar ao telefone até já me provoca ligeiras náuseas. Também escusam de telefonar, não atendo. Até tenho o telemóvel sem som. Telefonar é só para recados, como antigamente, e coisas que não podem esperar: "Estou no supermercado, queres que leve esparguete? Ok." E desligo. Nem sequer "adeus, até logo".
Se és daquelas pessoas que dizem "podes ligar-me a qualquer hora do dia ou da noite", cuidado. Podes apanhar uma como eu num dia mau. Ou melhor, numa noite má, às 4 da manhã.

domingo, 13 de setembro de 2026

Domino Day (2024)


Domino Day, barista jovem e sexy, tem poderes que não controla e uma necessidade diária de se alimentar da energia vital de seres humanos. Domino usa uma app para marcar encontros com vítimas potenciais, mas um deles filmou-a e ameaça denunciá-la.
Um coven de bruxas detecta a magia de Domino e começa a segui-la para tentar avaliar que perigo ela representa. Não surpreendentemente, descobrem que Domino não é apenas uma bruxa, mas também uma Lamia. Isto significa que o conselho de Anciãos das bruxas e magos vai querer matá-la, uma vez que uma Lamia pode expor todas as criaturas mágicas. Mas as bruxas do coven compreendem o dilema em que ela se encontra e planeiam protegê-la, mesmo que isso signifique arriscar a sua magia e as próprias vidas por desobedecerem aos Anciãos.
"Domino Day" é uma série inglesa muito básica de Young Adult, Sobrenatural e Fantasia Urbana que promete um pouquinho mais do que dá (mas só um pouquinho porque também não promete muito). O world building não vai longe, mas também não precisa de ir porque assenta num imaginário já estabelecido por abundante ficção anterior. O enredo é super familiar, já o vimos muitas vezes, e não aquece nem arrefece. 
Mas chateou-me um bocadinho que Domino não saiba que é vampira. Foi preciso o coven explicar-lhe que ela é uma Lamia (espécie de demónio da mitologia grega que mais tarde passou a ser associado ao vampirismo, especialmente o vampirismo feminino e sedutor). Compreendo que nem toda a gente seja fanática por vampiros como eu sou, mas é impossível acreditar que Domino se sentisse compelida a sugar pessoas e nunca lhe tivesse passado a ideia pela cabeça. Isto foi fraquinho e faz a personagem parecer burra. Teria sido evitado se fosse a própria Domino a procurar ajuda para o seu "problema", até porque ela sabe que tem um problema e não consegue resolvê-lo. Não teria elevado muito o nível da série, mas pelo menos não parecia tão parvo.
Aconselho "Domino Day" como entretenimento ligeiro para quem gostou de "Os Diários do Vampiro", "Charmed" ou "Lost Girl". Vê-se bem, não é muito bom nem muito mau, não mete medo nem sangue e não há vítimas mortais (excepto os maus, mas os maus estão lá mesmo para isso).

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, bruxas, sobrenatural, Young Adult, The Vampire Diaries, Charmed, Lost Girl, Harry Potter, Buffy The Vampire Slayer, etc