domingo, 24 de maio de 2026

The Witcher (2019 - ?) [quarta temporada]

Depois de elogiar aqui a terceira temporada pela maior clareza do enredo, aborrece-me ter de dizer que a história de "The Witcher" continua a estar mal contada. Durante esta quarta temporada andei tão perdida e confusa que acabei por ir à internet apanhar o fio à meada.
Admito que possa ser culpa minha. Primeiro que tudo, não li os livros. A história não é de todo desinteressante mas nunca me agarrou a ponto de ver com muita atenção. Depois houve o interregno da pandemia e esqueci bastante das temporadas anteriores. As personagens são às catadupas e, tirando um ou outro caso, são tão bidimensionais que não me ficam na memória. O próprio formato da série, que oscila entre episódios focados em personagens e/ou desenvolvimento do enredo, mas muitas vezes empata em monstros-da-semana, também não ajuda. A quarta temporada, por exemplo, não avançou um milímetro na narrativa. Geralt, Yennefer, Vilgefortz e Emhyr andam à procura de Cirilla, e no fim continuam todos sem imaginar onde ela possa estar. Isto não me incomoda pessoalmente. Eles é que sabem a quantidade de enredo que têm e quantos chouriços precisam de encher, e "The Witcher" é uma série de Fantasia que se vê exactamente para encher o olho.
O que me confundiu muito foi o enredo de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Na temporada anterior já tinha suspeitado que ele era o pai de Cirilla, suspeita que nesta se confirma. O que não me tinha passado pela cabeça é que ele quisesse Cirilla para casar com ela, devido a uma qualquer profecia de que o filho de ambos vai ser um homem muito poderoso que vai conquistar os reinos todos e trazer glória a Nilfgaard, etc. Isto confundiu-me tanto, e a série explica tão mal, que fui pesquisar para ficar a saber de uma vez por todas. Deixo aqui um resumo escorreito do que descobri, para não ter de ir pesquisar novamente. 
A história é longa e cabeluda. Muitos anos antes, Emhyr, também conhecido por Lord Urcheon ou Duny, salvou a vida ao avô de Cirilla, rei de Cintra, e invocou como recompensa a Lei da Surpresa. Esta surpresa foi a Criança-Surpresa Pavetta, filha do rei de Cintra e da sua esposa, a rainha Calanthe. Entretanto, Emhyr foi amaldiçoado para se transformar em porco-espinho. É este Porco-Espinho que conhecemos como Duny na primeira temporada, a quem Geralt ajuda a quebrar a maldição. Em troca, Geralt também invoca a Lei da Surpresa. Duny/Emhyr reclama Pavetta e casa-se com ela, desta união nascendo Cirilla. Cirilla é assim a segunda Criança-Surpresa, para confundir ainda mais, a quem Geralt tem direito. Alegadamente (agora questiono o que realmente aconteceu), Duny/Emhyr e Pavetta morreram num naufrágio, mas afinal Emhyr sobreviveu. Como é pretendente ao trono de Nilfgaard, deixa Cintra, nunca mais quer saber da filha Cirilla e decide ir tomar a coroa que lhe pertence. Anos mais tarde, já imperador de Nilfgaard, ataca Cintra de surpresa, sem que (aparentemente) ninguém o reconheça como Duny, marido de Paveta, pai de Cirilla, apenas alguns anos passados do casamento com Pavetta.
Ora, isto levanta-me tantas perguntas a que "The Witcher", já na quarta temporada, insiste em não responder. Começo pela mais óbvia. Como é que ninguém em Cintra reconheceu Emhyr como imperador de Nilfgaard? Não houve um espião, nem um mercador, nem um viajante, que tenha passado por Nilfgaard e pensado "caramba, este fulano é mesmo cuspido e escarrado a cara do pai da princesa Cirilla!". Só essa curiosidade teria levado as pessoas a falar do assunto. Mas não. Ou, pelo menos, na série, ninguém sabia que Duny e Emhyr eram a mesma pessoa. Nem sequer Geralt, um homem tão viajado, que conhece outros homens tão viajados.
Segundo, Emhyr não deve ser muito esperto. Sendo pai da única herdeira ao trono de Cintra, não teria sido muito mais lógico e eficiente ter-se aproximado da filha, talvez até para a controlar e manipular e tornar-se regente de Cintra quando chegasse a altura? Talvez até para a convencer da tal profecia? Não era muito mais prático ter anexado Cintra dessa maneira em vez de invadir o reino pela força? Nem sequer é uma questão de maquiavelismo, é apenas senso comum. Porque é que ele fingiu que estava morto se lhe era muito mais conveniente ser o pai da princesa de Cintra?
A partir daqui é especulação. Será que Emhyr já conhecia a profecia antes de casar com Pavetta? Será que o naufrágio não foi um acidente? Será que Emhyr nunca quis conhecer Cirilla como criança para não ter problemas em casar com ela depois? Quem tem de responder a isto é a série, e até agora o enredo principal tem saído a conta-gotas. O que me aborrece é que as gotas não estavam a fazer sentido e tive de ir pesquisar para perceber o que se estava a passar. Também não ajuda que Geralt pareça muito mais novo do que realmente é (na série, supostamente, Geralt tem cem anos ou mais) e não me lembro nada da cara de Emhyr quando era Duny o Porco-Espinho. Não me incomoda que o enredo se desenvolva lentamente mas chateia-me quando as coisas não fazem sentido e a história de Emhyr não faz sentido. Ou então o personagem é mesmo muito burro, o que também dava uma boa história, mas não me parece que a série o esteja a retratar assim.
Não sei quantas temporadas vêm a seguir, mas durante estes oito episódios Geralt andou em vão à procura de Cirilla, arranjou uma espécie de "Irmandade do Anel" com dois anões, um gnomo, o bardo, a rapariga da floresta e um vampiro, contou-se a história deles, a irmandade desfez-se a meio do caminho porque alguns decidiram ir à vida deles, Geralt descobriu que afinal nem sabia onde estava Cirilla, e acabou assim. Mas tivemos uma batalha de bruxas e magos com muitas bolas de energia, isso tivemos, e uma batalha numa ponte a lembrar a ponte de Khazad-dûm com uma espécie de Balrog e tudo, e se calhar não é para pedir mais, mas, ao mesmo tempo, esta série podia ser tão melhor se resolvesse os problemas de narrativa. Até dá dor de alma.
Adorei Laurence Fishburne como vampiro, por esta não esperava. Era capaz de ver uma série inteira só com os vampiros lá do sítio, mas vocês já me conhecem.
Curiosamente, o actor que faz de Geralt mudou e não notei que isso tivesse afectado negativamente a temporada. Notei que Geralt diz muito menos "fuck" do que dizia, o que é decepcionante.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Fantasia, Lord of The Rings, Game of Thrones, magia, vampiros

 

domingo, 17 de maio de 2026

Mayhem / Pandemónio (2017)


Um vírus que retira as inibições provoca uma epidemia de violência extrema. Quando uma firma de advogados sem escrúpulos fica em quarentena, os infectados fazem justiça pelas próprias mãos sabendo que vão beneficiar de impunidade. 
Ao ler a sinopse, e ainda mais quando vi Steven Yeun (o Glenn de "The Walking Dead"), pensei que ia ser uma coisa do tipo "28 Days Later". Mas não é. É um filme de acção e comédia que satiriza as grandes corporações de advogados, uma espécie de "Um Dia de Raiva" provocado por um vírus.
Derek Cho é um executivo em ascensão tramado pela colega incompetente que está nas boas graças do dono da firma. Infectado e sem nada a perder, Derek Cho decide mostrar aos accionistas quem tem razão, quer eles queiram quer não. Mas Derek Cho até é boa pessoa. Os sócios da firma, impiedosos de natureza, e igualmente sabendo que o vírus lhes trará impunidade, não hesitam um instante em recorrer ao homicídio.
Violência há de sobra, resta saber se há comédia. Pessoalmente, não achei engraçado. É claro que dá sempre gozo ver esta gente velhaca a pagar pelos seus crimes, mas não há muito mais a esperar daqui.
"Mayhem" é um filme que entretém, em que a violência é demasiado irrealista para se levar a sério, sem conseguir ser tão engraçado como queria ser.

12 em 20

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)

Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.

According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.

 

pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989

  

domingo, 10 de maio de 2026

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?


Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.

Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.

❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗

Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.


Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico


domingo, 3 de maio de 2026

Burial / O Enterro (2022)

Depois do suicídio de Hitler, um grupo de soldados russos tem a missão de transportar o corpo até Moscovo para o apresentar a Estaline. A caminho, são interceptados por uma milícia de nazis que não se resigna ao fim da guerra e fará tudo para resgatar o cadáver e negar a morte do líder.
A ideia até era "interessante", o que aconteceu ao corpo de Hitler, mas o último consenso quanto ao assunto, confirmado por testemunhos de pessoas que estavam no bunker (à altura, pessoal administrativo muito jovem), os corpos de Hitler e Eva Braun foram levados para o exterior e incinerados porque Hitler não queria o seu cadáver profanado como no caso de Mussolini. É claro que pode haver sempre especulações e teorias da conspiração, mas não me parece que este filme as tencionasse alimentar.
Foi essa a minha questão durante o filme todo: qual é o objectivo deste filme?
Durante o percurso, os soldados e os locais são confrontados com algumas atrocidades que aconteceram durante a guerra, nomeadamente a violação de mulheres por parte dos soldados russos e o fanatismo dos nazis. Tudo bem, podia ser um filme de reflexão. Mas está bem feito? Aqui é que está o problema. É tudo feito de forma muito superficial e acaba por ser um filme de tiros. Se não fosse o cadáver de Hitler isto passava como mais um filme de guerra/acção, mas tinham mesmo de ir explorar o assunto, em 2022? Porque me pareceu que usaram o cadáver de Hitler para promover o filme, que de outra forma nem era comentado. 
E, mesmo com o cadáver de Hitler, o filme não deixa de ser muito fraquinho. Era melhor terem feito um filme só de tiros, era mais honesto e não enganava ninguém. Não gostei do filme e não gostei da pseudo-profundidade.

11 em 20


domingo, 26 de abril de 2026

Outlander: Blood of My Blood (2025 - ?)


"Outlander: Blood of My Blood" é uma prequela de "Outlander" e dirigido aos fãs do original. Vinte anos antes de Claire passar pelo Círculo de Pedras e encontrar-se na Escócia do século XVIII, o mesmo aconteceu aos pais dela. Henry e Julia Beauchamp conheceram-se por correspondência durante a Primeira Guerra Mundial, casaram e tiveram uma filha, e decidiram ir passear à Escócia numa viagem romântica a dois. Como se percebe em "Outlander", a capacidade de viajar no tempo através das Pedras parece ser hereditária. Por acidente, Henry e Julia deparam-se com as Pedras e são transportados para o século XVIII, exactamente para o local onde Claire vai chegar mais tarde.
Na última temporada de "Outlander" (isto é, a última que eu vi) questionei-me muito sobre como é que funcionava a viagem no tempo através das Pedras. No início achei que era aleatória ou sobrenatural, isto é, que levava as personagens até ao seu "destino", e também não quero que isto se torne científico (precisamente 200 anos antes) porque estraga o romantismo. Mas é o que acontece em "Outlander: Blood of My Blood", em que Henry e Julia são transportados para o tempo de juventude de muitas personagens mais velhas de "Outlander", como Murtagh e Jocasta. Infelizmente para mim, já não me lembrava das primeiras temporadas de "Outlander" e com certeza perdi muitos pormenores sumarentos destas personagens importantes na família e amigos de Jamie.
Henry e Julia chegam separados e ficam separados durante muito tempo. Estariam a poucos quilómetros de distância, mas isto, no século XVIII, podia significar que duas pessoas nunca mais se encontrassem. Henry chega a acreditar que Julia morreu. Julia está grávida e tem de se sujeitar a ser uma serva na casa do laird para proteger a vida do seu filho.
Entretanto, desenrola-se um novo romance. Ellen MacKenzie, filha solteira de um laird falecido recentemente, apaixona-se por Brian Fraser, filho bastardo de outro nobre. A paixão já seria proibida o bastante porque os irmãos de Ellen a querem casar por aliança com outro clã, mas é pior porque os clãs MacKenzie e Fraser são inimigos. Uma espécie de Romeu e Julieta com muito soft-porn.
Henry e Julia vão conseguir reencontrar-se? Ellen e Brian vão ser forçados a abdicar do amor que os une?
"Outlander: Blood of My Blood" é uma série romântica, como o original, e é só para quem gosta destas coisas. É claro que também há a reconstrução histórica, os sotaques, a música folk e as gaitas-de-foles, as paisagens, os castelos, os trajes de época, que enchem o olho e o ouvido, mas é acima de tudo uma história ultra-romântica, onde o realismo fica em segundo plano, e deve ser vista como tal.
Pessoalmente, achei que o enredo é um pouco apressado e que os acontecimentos são muito mais forçados do que no original, mas quem gosta de "Outlander" não vai sair daqui desiludido. Fiquei surpreendida porque comecei a ver a série julgando que seria uma única temporada (não estava a imaginar enredo para mais, tendo em conta o original) mas vai continuar. Que venham então mais mancebos de kilt e donzelas de espartilho sobre a camisa interior branca, kilt e camisa desapertados por dedos sôfregos durante encontros secretos em casebres de pedra rústica nas colinas verdejantes, e... 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Outlander, séries de época, História, romance

domingo, 19 de abril de 2026

Ouija: Origin of Evil / Ouija: Origem do Mal (2016)

[contém alguns spoilers, não revela o final]

Tendo em consideração que achei o primeiro "Ouija" um filme chato, e bem chato, esta prequela deixou-me de boca aberta. Cá está uma das excepções que confirmam a regra.
Em 1967, uma falsa vidente, viúva e em dificuldades económicas, tenta ganhar a vida a fazer "sessões espíritas" com a ajuda das duas filhas menores. Lina, a filha adolescente, sugere que utilizem uma ouija board para compor o número, coisa que a mãe decide experimentar. Mas a filha mais nova, Doris, tem de facto dons mediúnicos. Com a utilização da ouija board, Doris entra em contacto com espíritos maléficos.
Para começar, só o ambiente de época já faz o filme valer a pena. O enredo centra-se no drama da viúva e das filhas órfãs, e eu fiquei tão interessada que estive sempre a torcer para que o filme resultasse. E resulta, em certa medida. E depois acontecem coisas que nos fazem torcer o nariz.
A certa altura isto parece que vai ser uma coisa tipo "O Exorcista". A miúda fica possuída, um padre quer fazer um exorcismo... Mas depois o filme dá uma reviravolta, como se nos provocasse: "pensavam, não pensavam?" Sim, pensávamos. Geralmente estes truques não funcionam muito bem sem ser pela mão de um mestre. Funciona aqui? Já lá vou.
Estava tudo a correr muito bem. Doris, a miúda, protagoniza algumas cenas que nos deixam realmente inquietos. Não digo que metam medo, mas perturbam. Acho que este filme também beneficia do anterior, uma seca tão grande que os espectadores da prequela não estão à espera de serem minimamente perturbados.
Mas depois a coisa complica-se. Afinal a mãe e as filhas estão a viver numa casa assombrada. Doris está a contactar o espírito de um polaco que sobreviveu aos campos de concentração onde havia um médico nazi que fazia experiências com os prisioneiros. Este polaco sobrevive e vai para a América, onde acaba num hospital psiquiátrico onde reconhece o mesmo médico nazi do campo de concentração que continua a fazer experiências nos pacientes. Coincidência do caraças e azar do caraças. Este tal médico nazi fazia as experiências na casa de Doris e os corpos estão enterrados na cave. São os fantasmas destas vítimas que estão a possuir Doris agora. Ok, aceito. Fantasmas injustiçados e vingativos e isso tudo.
Mas pensemos melhor. A família está a viver na casa estes anos todos, a fazer falsas sessões espíritas, e só agora é que os espíritos se manifestam à miúda, que realmente tem poderes psíquicos, por causa de uma ouija board? Não. Não bate certo.
Esta história também está mal contada. O tal médico nazi é mal aproveitado. Aparentemente, são as vítimas que se estão a manifestar, o médico deve ter morrido e foi enterrado noutro sítio. Desperdício de médico nazi. Ainda vi o filme duas vezes para perceber se me tinha escapado alguma coisa, mas não. Afinal, o médico até podia ter sido parente do pai das miúdas, mas também não.
Também não percebi o fantasma malvado. Este fantasma malvado tem olhos simpáticos. Eu até pensei, sinceramente, que se ia revelar um espírito bom que ia ajudar a família. Há aqui qualquer coisa que não bate certo porque qualquer pessoa de Hollywood (ou até eu) sabe fazer um monstro assustador, e este monstro parece um desenho animado para crianças. Deu-me a entender que metade do filme já estava feita para uma coisa e foi "remendada" para outra. Algo de estranho se passou com este filme, o que é de facto o maior mistério de todos.
Mas funciona? Aí é que está o mistério. Funciona. Até ao final, nem me passou pela cabeça que fosse uma prequela. Mas foi exactamente aqui, no final, quando tentaram estabelecer a ligação entre a prequela e o original, que o filme deixou de fazer sentido. Nem que quisesse explicar, não consigo. Vi duas vezes e não percebo o final. Até tentei fazer um esforço para me lembrar do original, mas mesmo assim não chego lá. Tendo em conta a qualidade surpreendente do todo, talvez isto tenha sido um truque mal conseguido.
Depois de ver o filme descobri que foi realizado por Mike Flanagan. Isso explica a qualidade inesperada desta continuação de um filme medíocre, mas não há aqui nada ao nível de um "The Haunting Of Hill House", nem nada que o valha. Mesmo assim, metade do mistério está explicada. O final desastroso é que não está.
Este ainda não foi o filme de terror com ouija boards que eu queria ver, e há muito que explorar com as ouija boards. "Ouija: Origin of Evil" remete o original para um canto obscuro, mas, conhecendo o realizador como conheço, eu diria que algo aqui correu muito mal e não tem a ver com espíritos do outro mundo. 

13 em 20 (que podia ter sido muito mais se não fosse o final desastroso)

PS: O "fantasma malvado" é o actor Doug Jones, que eu só fiquei a conhecer como Barão Afanas em "What We Do In The Shadows", mas já foi o Fauno em "Pan's Labyrinth", a criatura aquática em "The Shape of Water", Count Orlok em "Nosferatu" e o Bye Bye Man em "The Bye Bye Man", entre outros, só que estava sempre irreconhecível.


domingo, 12 de abril de 2026

The Last of Us (2023 - ?) [segunda temporada]

Eu nem ia falar mais sobre "The Last of Us", mas gostei muito de um dos episódios.
Se a primeira temporada me decepcionou, da segunda ainda gostei menos. Continuo a achar a miúda embirrante, desmiolada e insuportável, pondo tudo e todos em risco sem pensar duas vezes. Joel faz muita falta. Na falta de Joel, a série enveredou por um romance adolescente em que uma das miúdas pergunta à outra "como é que avalias o meu beijo de 1 a 10?" Oh, pelo amor da santa.
Infectados continuam a ser escassos. Temos um confronto muito tenso com os cabeças-de-fungo logo nos primeiros episódios e fica por aí. Se calhar fomos mal habituados por "The Walking Dead" com zombies em todos os episódios, mas, por outro lado, isto também é uma série de zombies.
Só estou a escrever sobre a segunda temporada porque o sexto episódio, "The Price", é mesmo muito bom. É um episódio dramático e humano que podia estar numa série completamente diferente, mas é bom, mesmo sem Infectados.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos

 

domingo, 5 de abril de 2026

There's Something In The Barn / Há Alguma Coisa No Celeiro (2023)

Atenção mamãs e papás, avós e avôs! Este pode ser um bom filme de Natal.
Uma família americana muda-se para a Noruega onde espera ter um Natal de sonho, mas os seus usos e costumes irritam os elfos residentes.
Gravei isto por engano, só pelo título e pela sinopse, pensando que era um filme de terror. Percebi logo que não era, mas já estava gravado... Por outro lado, o título não é inocente. "There's Something In The Barn" contém alguns elementos clássicos de filmes de terror adaptados aos filmes natalícios. Como? O que existe no celeiro são elfos (mas parecem-me mais gnomos) que, quando provocados, se transformam numa autêntica horda viking. A família não cumpre as regras e os gnomos estão zangados. Algumas cenas não são aconselháveis a crianças que ainda não percebem que é tudo a fingir. Num filme a sério, estas mortes seriam pavorosas. Claro que aqui é tudo muito suavizado. Depois de muita violência à americana, a moral da história é bonita: é preciso ter respeito mútuo pelas culturas diferentes da nossa. Não apreciei aquela treta de que a família é que é importante porque não gosto de ensinar mentiras às crianças, e é por isso que detesto filmes natalícios. Mas gostei dos gnomos zangados.
Aconselho este filme como introdução das criancinhas ao Terror.

12 em 20 (dentro do género)