Chama-se "Lovecraft Country" à região ficcional que H. P Lovecraft inventou para situar as suas histórias, parte imaginação e parte realidade da Nova Inglaterra. Este "Lovecraft Country", porém, é a adaptação do livro homónimo de Matt Ruff e não de H. P. Lovecraft como o título sugere.
O primeiro episódio até começa bem. Atticus é um veterano da guerra da Coreia que parte à procura do seu pai, misteriosamente desaparecido na remota localidade de Ardham (sim, como Arkham). Atticus e o seu tio são ávidos leitores do verdadeiro H. P. Lovecraft e perfeitamente bem preparados para investigar enigmas sobrenaturais, lutar contra monstros e traduzir livros escritos em línguas arcaicas. Isto prometia ser uma espécie de "Sobrenatural" encontra "Indiana Jones".
Mas não é. "Lovecraft Country" é um drama sobre uma família negra de Chicago nos anos 50 que enfrenta o racismo, a segregação e a violência racial da época. O drama está embrulhado em histórias inspiradas em H. P. Lovecraft que nem fingem querer meter medo. Quem está à espera de ver K'thulla, os alienígenas de Plutão, os híbridos de Dunwich, ou até mesmo o reanimador, esqueça, não há nada disso aqui.
Tive muitas vezes a sensação de estar a ver dois filmes diferentes. Por um lado, o drama histórico. Por outro, as aventuras dos protagonistas que se vêem envolvidos com a ordem secreta Filhos de Adão. Às vezes até estava a gostar mais do drama histórico, quando começava a "dar" o outro filme, e assim sucessivamente. Mas o "filme de terror" em "Lovecraft Country" é muito mau, com magia aleatória e CGI pobrezinho, e um enredo principal sem pés nem cabeça.
Faz uma pessoa perguntar-se: se queriam fazer um drama histórico, porque não o fizeram? Porque é que tinham de meter Lovecraft ao barulho? Tinham, e quiseram metê-lo, porque Lovecraft era muito racista (mais ainda na escrita não-ficcional do que nos contos), e esta é uma história sobre racismo. Na verdade, somos tão martelados com o racismo, constantemente e a torto e a direito, que saímos daqui a perceber: ah, ok, Lovecraft Country é a América. Lovecraft racista, América racista, território de Lovecraft! Podiam ser ainda um bocadinho mais explícitos? Não, não podiam. Podiam era ter sido um bocadinho mais subtis. "True Blood", também da HBO, era uma analogia com a homossexualidade, mas nunca deixou de ser uma história de vampiros. "Lovecraft Country" é um drama de época disfarçado de sobrenatural, e isso aborrece-me. Se não queriam levar o terror a sério, ninguém os obrigava a fazer terror. O título até podia ser o mesmo, bastava incluir o protagonista que gosta de Lovecraft, mas não vendiam gato por lebre para martelarem a mensagem na cabeça de mais gente. Mensagem essa que, se calhar, até seria transmitida com a seriedade que merece num drama igualmente sério. Se calhar este formato até é contraproducente para a mensagem.
E qual é a mensagem final? Chegamos ao último episódio e a mensagem é "todos os brancos são maus e racistas, vamos tirar-lhes a magia para sempre". Bonito, sim senhor. Uma mensagem racista a fechar uma série sobre racismo, se não mesmo um incitamento descarado à violência a julgar pela última cena de todas. Não era preciso dar a outra face e perdoar, mas aquilo foi bater no ceguinho.
Tirando a temática do racismo, a série só se debruça com igual atenção sobre uma temática gay e trans (com muito sexo explícito à mistura porque é a HBO). Aqui até se safaram melhor, com um sub-enredo sobre uma mulher negra a quem o amante dá uma poção para se transformar em mulher branca. Esta "mudança de corpo" é realmente inspirada num conto de Lovecraft e é sempre fascinante, mas melhor ainda quando ela descobre que o amante também é uma mulher que usa a mesma poção para se transformar em homem. Isto sim, é interessante, provocador, criativo, e subtil o suficiente (também não precisa de ser tão subtil que não se entenda), e não foi necessário martelar na tecla até à náusea. O espectador percebe, o espectador não é idiota.
"Lovecraft Country" é uma série de activismo e não deve ser vista como outra coisa. Quem gosta de H. P. Lovecraft pode evitar que não perde nada.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: drama histórico, True Blood, sobrenatural, H. P. Lovecraft









