domingo, 17 de maio de 2020

“A Dança dos Ossos”, edições Livro B


A Dança dos Ossos” é a edição Livro B de um ebook já aqui muito falado, “Dentro da Noute”, organizado por Ricardo Lourenço.
(Basta seguir a etiqueta “Dentro da Noute” para encontrar comentários a todos os contos portugueses desta antologia.)
Embora eu prefira muito mais o título “Dentro da Noute” (assim mesmo, arcaico e tudo), o melhor motivo para mudar o título deste “A Dança dos Ossos” é que um dos contos foi substituído: em vez de “A Confissão de Lúcio”, no original digital, “A Estranha Morte do Prof. Antena”, do mesmo autor Mário de Sá Carneiro (o que faz sentido, uma vez que  “A Confissão de Lúcio” talvez fosse muito extensa para a edição em papel).
“A Dança dos Ossos” está disponível no website da colecção Livro B. Transcrevo de lá o texto introdutório:

As origens da literatura popular luso-brasileira com temáticas de sempre: crime, sobrenatural, romance.

A génese do movimento gótico teve lugar na Alemanha no século XVIII (a balada"Lenore" de Gothfried August Burger é considerada a obra iniciadora do género). Como nunca antes, numa espécie de onda imparável, a moda espalhou-se pela Europa e pelo mundo ocidental em geral. As razões conjugavam-se para justificar esse sucesso: o livro impresso vulgarizava-se e tornava-se acessível em termos de preço; com mais acesso a fontes de escrita e a projectos pioneiros de ensino, uma grande parte da população começou a aceder com maior ou menor facilidade a uma educação básica que antes era simplesmente inexistente; os escritores encontravam, pela primeira vez, um mercado propriamente dito adequando, pela primeira vez na história, a sua produção a uma procura crescente. 

Dessa forma encontra-se no gótico literário a génese da literatura policial, fantástica, da ficção científica, da literatura de acção ou, até, da dita literatura romântica.

No mundo lusófono, traduções de Ann Radcliffe, Fréderic Soulié e muitos dos primeiros best-sellers do gótico chegaram já no século XIX e o movimento, por cá, mesclou-se, de alguma forma, com o ultra-romantismo

Nesta antologia, preparada por Ricardo Lourenço, encontramos uma amostra choruda dos grandes expoentes do género no universo luso-brasileiro, catalogando uma panóplia de temáticas que vieram a marcr toda a literatura popular dos séculos seguintes e que ainda hoje mantém a sua actualidade bem fresca.

Contos e Novelas Portugueses
1. «O Defunto», de Eça de Queirós
2. «A Dama Pé-de-Cabra», de Alexandre Herculano
3. «A Caveira», de Camilo Castelo Branco
4. «A Torre Derrocada», de Alberto Osório de Vasconcelos
5. «O Mistério da Árvore», de Raul Brandão
6. «O Corvo», de Fialho de Almeida
7. «A Feiticeira», de Ana de Castro Osório
8. «A Morta», de Florbela Espanca
9. «Os Canibais», de Álvaro do Carvalhal
10. «Uma Récita do Roberto do Diabo», de Júlio César Machado
11. «O Cadáver», de Beldemónio
12. «Sede de Sangue», de Manuel Teixeira Gomes
13. «A Estranha Morte do Prof. Antena», de Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. «Noite na Taverna», de Álvares de Azevedo
2. «A Dança dos Ossos», de Bernardo Guimarães
3. «Os Porcos», de Júlia Lopes de Almeida
4. «Acauã», de Inglês de Sousa
5. «Violação», de Rodolfo Teófilo
6. «Maibi», de Alberto Rangel
7. «Assombramento», de Afonso Arinos
8. «11 e 20», de Medeiros e Albuquerque
9. «Demônios», de Aluísio Azevedo
10. «O Defunto», de Tomás Lopes
11. «A Causa Secreta», de Machado de Assis
12. «O Bebê de Tarlatana Rosa», de João do Rio
13. «Confirmação», de Gonzaga Duque
14. «Os Olhos que Comiam Carne», de Humberto de Campos

Recomendo a antologia a toda a gente que gosta de literatura gótica (e de literatura portuguesa), especialmente àqueles que ainda não tiveram muito contacto com ela. Aos outros, esta antologia vai com certeza despertar memórias e recordar o motivo pelo qual já temos os nossos autores preferidos.
E aproveito para dar os parabéns ao Ricardo Lourenço pela iniciativa. Desejo muita sorte para esta antologia, e cá fico à espera de mais iniciativas deste tipo, ou de outro.

O Livro B
Saúdo a iniciativa de trazer de volta a colecção Livro B. Estes livrinhos, de tamanho muito pequeno e capa negra (e às vezes páginas azuis de papel muito fino e letra muito pequena), são em grande parte responsáveis pela minha educação literária. Por serem pequenos, eram também baratos. Noutros tempos, nunca ia à Feira do Livro sem trazer uma carrada deles, o que me deu a conhecer autores que de outra forma me teriam passado ao lado. De alguns gostei, com outros fiquei decepcionada, mas o importante é que graças à colecção fui exposta a muitos tipos de escritores e diferentes géneros, encaminhando os meus gostos literários na direcção em que acabariam por solidificar mais tarde.
Por esta educação literária, indescritivelmente superior à que tive na escola, estou muito grata ao Livro B e à sua colecção original. Foi aqui que li “Do Assassínio como uma das Belas-artes” de Thomas de Quincey; “Paraísos Artificiais” de Charles Baudelaire; “Frankenstein” de Mary Shelley; “As Filhas do Fogo” de Gérard de Nerval; “Os Demónios de Randolph Carter” de H. P. Lovecraft; “O Cocheiro da Morte” de Selma Lagerlöf (um dos meus preferidos e um livro que me marcou muito); “O Altar dos Mortos” de Henry James; “O Castelo de Otranto” de Horace Walpole (considerado a primeira obra de literatura gótica); “Os Cisnes Selvagens e Outros Contos” de Hans Christian Andersen, e isto só para recordar os favoritos. Muitos outros li também e, embora não sendo preferidos, deram-me a conhecer contos de autores que me levaram mais tarde a procurar as suas obras mais importantes, como “A Mulher Pobre” de Léon Bloy ou “Carmilla” de Joseph Sheridan Le Fanu. Este sim, é um plano de leitura cinco estrelas.
Vou continuar a ser uma leitora desta nova colecção do Livro B, mas tenho uma crítica a fazer. Estamos na era digital e estas novas edições não incluem o ebook. É pena, para quem como eu desistiu do papel (muitos motivos, desde os ecológicos à falta de espaço e à facilidade de transporte em dispositivos digitais). Já é altura de as editoras portuguesas (não só esta como todas) acompanharem o espírito dos tempos e perceberem que o ebook veio para ficar e muitos leitores já não querem o papel. Ignorar este facto é perderem leitores pagantes, para seu prejuízo. E nosso, também.


domingo, 10 de maio de 2020

La guerre des trônes, la véritable histoire de l'Europe / A verdadeira guerra dos tronos


Como o nome indica, este documentário aproveita o sucesso da série para nos apresentar a História da França à moda da “Guerra dos Tronos”: batalhas sangrentas, envenenamentos, traições e facadas nas costas, sexo escandaloso. E muita, muita ambição.
De forma modesta e engraçada, até o genérico final tenta “imitar” o da “Guerra dos Tronos”, mas com castelos a sério. Achei giro, mas também podiam ter feito uma brincadeira com os brasões das principais famílias: o Leão, a Flor-de-Lis, as Rosas…
Porque, de certa forma, o documentário acerta em cheio. É esta História, a História real (e não apenas a História medieval), que inspira os escritores de Fantasia. Com mais ou menos dragões, com mais ou menos magia, vai-se a ver e tudo começa aqui, nos livros de História, mais ou menos transformada de acordo com a imaginação do autor. Porque a História é interessante, mas há sempre maneira de a reinventar ainda mais interessante.
O documentário conta o enredo muito depressa em quatro episódios, desde a Guerra dos Cem Anos (que afinal duraram mais tempo: 1337-1453) até Francisco I de França (1494-1547), e eu fiquei com uma grande vontade de ver aquilo tudo numa série propriamente dita, com os personagens bem desenvolvidos e os acontecimentos bem mostrados. É claro que já foram feitas adaptações cinematográficas e televisivas deste ou daquele personagem e/ou acontecimento histórico, mas assim, numa extensão de tempo tão longa e com um enredo que se vai entrelaçando de personagem em personagem, do princípio ao fim, desta maneira nunca vi. E gostava muito de ver.
Depois de andar por aí na net a pesquisar este documentário descobri que deve ter tido sucesso, porque fizeram mais temporadas. Por este motivo não sei se esta crítica vai ser justa, por isso ressalvo que a seguir me refiro à primeira temporada. A série focou-se demasiado na História de França para se poder chamar “História da Europa”. A não ser que voltem atrás, agora nas temporadas seguintes, porque nem sequer mencionaram alguns dos episódios mais sumarentos da História: os Bórgias, os Médicis, o fanático Savonarola, e o meu querido Maquiavel. Como é que é possível fazer uma História da Europa à moda da “Guerra dos Tronos” e não falar de Maquiavel? Parafraseando: “Mais vale ser temido do que amado, porque os homens traem quem amam, mas obedecem a quem temem”. Até a Daenerys Targarien sabe disto e nunca leu “O Príncipe”.
(E, já agora, podiam também falar daquele paisinho da ponta da Europa que teve um império mas perdeu-o por causa de um rei adolescente que quis ir caçar mouros. Foi um massacre, maior do que a Batalha dos Bastardos.)
Gostei muito deste documentário e queria ver mais. Boa ideia terem feito mais temporadas.
“A Verdadeira guerra dos tronos” passou na RTP2.

RTP2, repete lá isto mais vezes e, já agora, passa as novas temporadas!

domingo, 3 de maio de 2020

Deepwater Horizon / Horizonte Profundo - Desastre no Golfo (2016)


 

Exactamente como o título indica, este filme é a dramatização do maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. Em Abril de 2010, a plataforma de exploração petrolífera Deepwater explodiu, matando 11 pessoas e derramando crude no Golfo Do México. De acordo com o filme, o acidente teve por causa a ganância da BP (a quem pertencia a plataforma), que, perante o atraso nos prazos, se recusou a realizar todos os testes necessários para garantir a segurança da operação.
O filme faz tudo o que precisa de fazer para nos explicar o que está a acontecer, até para quem (como eu) nunca viu uma plataforma petrolífera na vida. Percebi sempre o que se estava a passar, os riscos que se estavam a avolumar e os aspectos técnicos da explosão.
As personagens são bem desenvolvidas o suficiente para nos importarmos com elas, embora neste tipo de filmes não seja costume aprofundá-las muito porque se tratam de pessoas reais, vivas ou mortas, de quem não se pode revelar ou fantasiar demasiado.
“Deepwater Horizon” é um filme catástrofe explicativo, eficiente e direito ao assunto, que nos ajuda a perceber o desastre. Como disse, um filme que faz tudo o que devia fazer.

13 em 20

domingo, 26 de abril de 2020

Ice Age: Continental Drift / A Idage do Gelo: Deriva Continental (2012)


Porque é que eu estou agarrada a esta série? Se calhar porque me faz chorar a rir.
Só a primeira sequência, em que o nosso amigo Esquilo da Bolota consegue partir o continente Pangeia e dar início à deriva continental, fez-me rir de lagriminhas nos olhos.
Será que os miúdos apanham estas piadas todas? Porque isto tudo me parece demasiado sofisticado para miúdos. Lembra-me uma vez em que a minha tia me levou a ver um filme supostamente para miúdos. Foi uma seca. No fim ela perguntou-me o que é que eu tinha achado e eu respondi: “Não percebi nada.” Mas a minha tia tem tendência para os filmes intelectuais. Quando eu tinha 15 anos levou-me a ver um filme de Fellini, “O Navio”, e desta vez já percebi tudo, mas não é o meu género. Isto para dizer que muito possivelmente não ia achar graça nenhuma a “Ice Age” quando era miúda. Mas agora gosto mesmo muito. Faço questão de ver a versão original (e não a dobrada em português) para não perder uma única piada.
Além do humor, o que me prende à série já são as personagens. É claro que estes mamutes, que esta preguiça, que este tigre dente-de-sabre, são tão humanos como nós.
Peaches (filha de Manny, o tal mamute que no princípio pensava que era o último mamute do mundo, e de Ellie) já é uma adolescente que quer andar com rapazes. “Só no dia em que eu morrer!”, responde Manny, um pouco ultra-possessivo, “Melhor ainda, três dias depois de eu morrer para ter a certeza de que estou morto!”
Peaches, como qualquer boa adolescente, ignora o que o pai diz e foge para ir ter com os “rapazes” estilosos da manada. Entretanto, o seu amigo ouriço, Louis, tem uma paixão platónica e desesperada por Peaches. Coitado do ouriço, é tão pequeno que Peaches o pode transportar na tromba, mas o amor é cego.
Sid, a preguiça optimista, recebe a visita inesperada da família toda: pai, mãe, irmão, tio e avó idosa. Sid, que foi abandonado pela família, fica radiante ao vê-los. É o seu ingénuo optimismo. A família só apareceu para abandonar a velha com ele, e logo de seguida desaparece outra vez. Pobre Sid. Isto é para os miúdos perceberem que nem todas as famílias são perfeitas.
E depois temos Diego, o dente-de-sabre, que finalmente encontra um interesse romântico, mas penso que este enredo só vai ser desenvolvido em próximos episódios.
Só não gosto quando eles começam com as canções. Palavra de honra, nunca gostei de musicais, nem para adultos, e assim que eles começam a cantar fico atacada de urticária. Felizmente foi só uma canção.
Gostei da parte sobrenatural em que Manny, Sid e Diego, à deriva num iceberg, se cruzam com umas lindíssimas sereias que os querem atrair até elas. Só que estas sereias são uns monstros marinhos que podiam perfeitamente ter saído de Lovecraft. Sim senhor, educar os miúdos em Lovecraft desde pequeninos. Aprovo!
As personagens são sólidas e cativantes e já as acompanho há tempo suficiente que me importo com tudo o que lhes acontece. Mas não quero enganar ninguém. A personagem com quem me identifico mais, desde que o conheço, e foi amor à primeira vista, é mesmo o Esquilo da Bolota (Scrat). Anti-social e obcecado pela Bolota amada, o mundo todo podia partir-se à sua volta que Scrat não vê mais nada nem ninguém. Eu também sou assim, seja o que aconteça à minha volta, sempre obcecada e incansavelmente a perseguir a minha Bolota (os meus projectos, isto é, só para clarificar).
Em “Deriva Continental”, e depois de partir o mundo, Scrat encontra um mapa do tesouro para uma ilha repleta de bolotas. Nada o consegue deter de encontrar esse mundo idílico e bolótico. E encontra mesmo, e é assim que o Esquilo da Bolota consegue também afundar a Atlântida. Como é que é possível não chorar a rir?
Já sou fã da série e vou ver todos os filmes que saírem. Lamento não ter gostado tanto de “Dawn of the Dinosaurs”, não sei bem porquê. Mas “Continental Drift” é novamente “Ice Age” no seu melhor.

15 em 20 (para filme de animação)

A sequência inicial em que o Esquilo da Bolota parte o mundo, e agora digam-me que não é de chorar a rir: AQUI.

domingo, 19 de abril de 2020

(The Adventures of) Merlin / Merlin (2008–2012)


[contém spoilers; revela o final]

Hesitei muito em fazer a crítica a esta série (as cinco temporadas), porque basicamente só tenho a dizer mal, mas cá vai. “Merlin” deve ser a série mais mal feita que eu já vi na vida. Quando comecei a ver os primeiros episódios julguei, palavra de honra, que era uma série muito antiga, daquelas que se faziam nos anos 80, tipo “Os Três Duques” ou “Buck Rogers”, destinadas a um público muito jovem e estruturadas em episódios do género “aventura da semana” sem que tivessem qualquer história de fundo a desenvolver-se ao longo da série. “Merlin” começou assim, pelo menos, e assim se manteve até ao final da terceira temporada.
Fiquei muito desapontada logo com o primeiro episódio. Esperava um drama arturiano e saiu-me uma série infanto-juvenil sobre o jovem feiticeiro Merlin que embirra com o jovem príncipe Arthur, mas que acaba por se tornar criado dele. Para terem uma ideia, nada aqui é realista nem segue a história clássica. Estes acontecimentos deviam ter acontecido no século V mas Camelot parece uma cidade do século XVII, inclusive com um físico da corte, Gaius. Guinevere não é uma nobre mas sim uma criada de Morgana. Morgana não é meia-irmã de Arthur mas sim uma protegida de Uther, o rei. Ao ver isto, percebi que ia ser uma versão para crianças do conto arturiano, em que todos os personagens são amigos e lutam contra o vilão da semana. E de certa forma até foi. Em quase todos os episódios, estes quatro partiam em aventuras, derrotavam os maus e voltavam a casa.
Agora vamos à história principal de “Merlin”, que durante três temporadas serviu apenas de móbil para este ou aquele enredo semanal. Uther, o actual rei de Camelot, tem ódio à magia. Logo no primeiro episódio um qualquer desgraçado é decapitado por praticar magia (mas não se preocupem porque não se vê nada de perturbador; aliás, as espadas de Camelot têm o condão de serem enfiadas numa qualquer barriga e saírem como entraram, sem uma gota de sangue. Sinceramente, acho que nunca vi sangue nesta série, do princípio ao fim, apesar das batalhas e do elevado número de mortos nas últimas temporadas. Neste aspecto, a série nunca perdeu o seu cariz infantil. E as mortes nunca foram realistas, excepto a última, mas já lá vamos.) Uther é um rei fanático em relação à magia, justificando que em tempos esta foi usada para grandes males, o que o levou a fazer a Grande Purga em que matou toda a gente que tinha dons mágicos: homens, mulheres e crianças. Só isto já dá uma ideia do tipo de homem que aqui está. O que descobrimos depois, e o que o torna execrável, é que Uther é também um grande hipócrita. Quando se vê em apertos, e apesar da sua própria lei anti-magia, o hipócrita recorre a quem o salve, mesmo com magia.
Mas, como se não bastasse, Uther é também um péssimo pai para Arthur, sempre e constantemente a deitá-lo abaixo. Quase todos os episódios eu acabava a abanar a cabeça e a dizer “Pobre Arthur” e admito que foi isto que me agarrou à série. Pobre Arthur, eu só queria que finalmente aquele desgraçado tivesse uma chance de ser feliz. Desgraçadamente, tudo lhe aconteceu e todos lhe mentiram e o traíram a torto e a direito, até aqueles que o amavam e o queriam proteger.
A Merlin é atribuído, desde o primeiro episódio, o destino de proteger Arthur. Quem lho diz é o Dragão, o último da sua espécie, aprisionado nas masmorras de Uther para servir de exemplo da sua cruzada anti-magia. Honra seja feita a “Merlin”, este é um dragão como deve ser, um dragão sábio e falante, cheio de profecias e segredos, que não tem nada a ver com as criaturas acéfalas da “Guerra dos Tronos”. Isto é que é um dragão, um dragão à Tolkien. E durante a série inteira o Dragão foi a única personagem coerente. Já as outras…
Desde cedo se percebeu que Arthur e Guinevere iam mesmo casar um com o outro. Ora, isto é problemático porque Guinevere é uma serva. E Uther, evidentemente, opõe-se. O homem é tão mau que mandou matar o pai de Guinevere só porque este falou com um feiticeiro, e ameaçou expulsar Guinevere de Camelot quando percebeu que Arthur tinha sentimentos por ela. Mas, estranhamente, por culpa dos autores da série que a escreveram tão mal, Guinevere aceita isto tudo, inclusive a execução do próprio pai, como se nada fosse. Por fim, depois da morte de Uther, a série lá arranjou maneira de os casar, justificando que o povo de Camelot só queria que o seu novo rei, Arthur, fosse feliz. Se é uma série infanto-juvenil, aceita-se.
Mas esta Guinevere, não é só para dizer mal por dizer, é uma oferecida. Não houve ninguém a quem ela não se tivesse feito. A Merlin, logo no dia em que o conheceu. A Lancelot, o primeiro grande amor da vida dela. Até a Gawaine, quando o viu. Quando ela diz a Arthur “eu sempre te amei”, deve ser para rir. Sempre o amou, ou ficou com ele porque foi o único que, pelo contrário, a amou sempre, ou porque ele ia ser rei? É que tudo isto pareceu muito mal para o lado da Guinevere. E mais uma vez eu abanei a cabeça: pobre Arthur!
E depois temos Morgana. A princípio ela era boa pessoa, amiga de Arthur, de Gaius e de Guinevere. Chegou a ir com eles em aventuras em que arriscou a vida para os salvar. Ao mesmo tempo, Morgana vai descobrindo que também ela tem dons mágicos, o que a coloca numa situação periclitante perante Uther, que chega mesmo a enfiá-la numa masmorra e tudo indica que até a mandava matar se fosse preciso. Começa assim a revolta de Morgana contra Uther e ninguém pode dizer que não é justificada. Mas de repente, golpe de teatro!, os autores da série decidem que Morgana afinal não é apenas uma protegida de Uther, que é mesmo uma filha ilegítima (logo, meia-irmã de Arthur, como na história clássica), e para lhe salvar a vida Uther até recorre à magia certa vez. Então, Uther, não estavas disposto a mandá-la matar quando desconfiaste que ela tinha magia? Esqueceste-te de que ela é tua filha? Os autores da série, de certeza, esqueceram-se, ou nunca tiveram intenção de a tornar filha de Uther.
Isto é apenas um das dúzias de exemplos de como os escritores da série andaram a patinar, como se não soubessem para onde levar a história e o que queriam fazer da série. Efectivamente, o maior problema de “Merlin” é que a série não parece ter sido previamente planeada, que não sabe a quem se destina e para onde se dirige. Cheguei a pensar para com os meus botões que cada episódio era dado a escrever a um escritor diferente que não sabia o que os outros estavam a fazer, naquele improvisanço de que depois se “dava um jeito”. Se, pelo contrário, isto foi tudo pensado de propósito, nem sei o que dizer. Mas duvido mesmo muito que o tenha sido.
Um outro exemplo que me irritou solenemente: desde os primeiros episódios que Arthur disse que um certo soberano vizinho a Camelot, um tal de Odin, o queria matar porque Arthur tinha matado o filho dele. Isto foi dito e esquecido, mas umas temporadas depois Arthur voltou a dizer: “Odin odeia-me porque eu matei o filho dele”. Só nunca disse quando e como. Foi na guerra? Foi um acidente? Foi em legítima defesa? Foi a jogar aos dardos?... Quanto mais falavam do assunto mais curiosa eu ficava. Lá para as últimas temporadas algum dos escritores decidiu fazer um episódio em que o tal Odin captura Arthur e o quer matar porque, claro está, ele matou o filho dele. E eu pensei, “finalmente!, vamos saber o que é que aconteceu”. Pois. Não. Nem assim. Arthur é salvo por Merlin no último instante, como acontece sempre nesta série, e agora é ele que vai matar Odin. E eu quase gritei à televisão: “Não, gaita, não o mates antes de ele dizer como é que mataste o filho dele! Ou diz tu! Alguém diga!” Ninguém disse. E nunca fiquei a saber como é que o tal filho do Odin foi morto, e se havia legítimas razões para vingança ou se o Odin estava apenas a ser casmurro. Ora, não é assim que se conta uma história. Isto é fazer de propósito para alienar os espectadores que estão a tentar importar-se com aquilo que estão a ver.
A série continuou a fazer isto regularmente. Coisas que eram mencionadas e nunca explicadas, profecias que só apareciam quando davam jeito, partes importantes do enredo que não eram contadas nem mostradas. Por exemplo, quando de repente se inventou, lá para a quarta temporada, que havia uma profecia de que seria um druida a matar Arthur. “Estranhamente”, nunca se ouviu falar desta profecia antes, porque os escritores nunca tinham pensado nela. Outro exemplo: já depois de Morgana se tornar uma vilã tomamos conhecimento de que um outro soberano vizinho a Camelot (cujo nome nem apareceu o suficiente para eu me lembrar) a manteve aprisionada durante dois anos. Isto é importante, não?! Muito importante. Mas isto só foi dito, en passant, no episódio em que ele entrou, com um flashback de 10 segundos de Morgana acorrentada numa cela. Como foi capturada, porque é que foi aprisionada, como escapou, nunca saberemos. Até parece que nada disto é importante. Eu tive a sensação de ter perdido esse episódio, mas de facto não perdi porque os vi todos. Mais uma vez a série a fazer todo o seu possível para não nos importarmos com as personagens. Não há nada pior, ao contar uma história, do que fazer com que os espectadores não a percebam. Foi exactamente o que aconteceu aqui.
Bem, pelo menos isto explicou porque é que o dragão da Morgana é deficiente, pobrezinho, o que já não é mau, senão isto ficava sem explicação também... Mas já estou a pôr o carro à frente dos bois.
Morgana, como disse, torna-se 100% vilã. A revolta contra Uther compreende-se, mas depois de ele morrer Morgana transfere a sua raiva contra Arthur, de quem sempre foi amiga, sem que se perceba muito bem porquê. O próprio lhe pergunta, em dois episódios diferentes: “Morgana, o que te aconteceu?” Ao que ela responde: “Cresci.” Fraca motivação para quem era capaz de arriscar a vida por Arthur, antes mesmo de saber que ele era seu irmão, a quem Arthur nunca fez nenhum mal, que de repente a faz querer roubar-lhe o trono e dizer coisas como “quero que os lobos lhe comam a carcaça e que os corvos lhe furem os olhos”. É muito forte para quem não tem motivos para odiar desta maneira. (Mas honra seja feita à actriz Katie McGrath, ela conseguiu adaptar-se à transformação da personagem e vendeu-nos muito bem a sua vilania.)
O que aconteceu a Morgana foi antes isto: a “Guerra dos Tronos” estava a ter o sucesso que se sabe e de repente os autores de "Merlin" decidiram copiar, e vai de transformar a Morgana numa vilã horrorosa, como Daenerys e Cercei. Até lhe arranjaram um dragão! A última temporada é mesmo um plágio descarado, com cenários a lembrar a Muralha e Winterfell, onde até aparece “Ser Davos” (Liam Cunningham), vestido com roupa que, não estou a ironizar, deve ter sido alugada directamente ao guarda-roupa da “Guerra dos Tronos”.
Foi por esta altura, a quinta temporada, que comecei a ver por hate watching mesmo. Só para gozar e dizer mal. Mas foi também na quinta temporada que a série finalmente encontrou um rumo, tarde demais mas encontrou, abandonando a faceta infanto-juvenil e perdendo o medo de se tornar sombria. Foram os melhores episódios, e mesmo assim não foram bons.
Até chegarmos aos três últimos episódios. Estes sim, foram bons, até parece uma série diferente, onde os acontecimentos têm peso e consequência, onde as personagens não mudam de personalidade conforme a vontade dos autores. Onde conseguimos, finalmente, importarmo-nos com elas. Confesso que vi estes três últimos episódios colada ao écran.
Mas, no fim, a série voltou a deixar a desejar. Embora a mim, pessoalmente, tenha satisfeito, li algumas críticas de fãs que ficaram completamente destroçados. E têm razão, e vou explicar porquê.
Grande spoiler, ou talvez não: Arthur morre no fim. Quem conhece a história clássica já sabe disto, e que é uma história muito mais trágica do que na série (Arthur é assassinado pelo seu próprio filho Mordred, filho de Arthur e da sua meia-irmã Morgana), mas tendo em conta como a série aligeirou a história a níveis infanto-juvenis penso que os fãs do início tinham legitimidade para esperar um final diferente. Afinal, Arthur e Morgana nunca dormem juntos, Mordred não é filho deles, Arthur casa com uma criada por amor, porque é que raio não podiam engendrar um fim feliz? A série prometeu que ia ser ligeira e no fim partiu o coração aos fãs.
Eu própria, no último episódio, não acreditei que Arthur ia morrer. Sempre julguei que Merlin inventasse algo à última da hora (como a série sempre fez) que o salvasse. De outra maneira teria logo desatado a chorar quando Arthur começou a revirar os olhos, a morte mais realista de toda a série. Mesmo assim, quando ele morreu mesmo, afectou-me, confesso. Os actores Colin Morgan (Merlin) e Bradley James (Arthur) conseguiram, às vezes contra a má qualidade da própria série, convencer-nos de uma amizade que se foi desenvolvendo ao longo de cinco temporadas e que atinge o seu auge épico neste último episódio. Quando Merlin grita, guturalmente, em lágrimas incontroláveis, a invocar o Dragão, é também já um grito de dor e luto, e eu arrepiei-me.
E é por causa deste momento arrepiante que estou a fazer esta crítica. Não posso, de modo algum, recomendar a série, nem sequer a última temporada, que igualmente padeceu de soluços constantes, mas recomendaria os três últimos episódios. Talvez não bastem para mostrar como esta amizade evoluiu até chegar onde chegou, mas quem ficar interessado pode sempre ir ver do princípio.
Pobre Arthur, nunca teve mesmo uma chance. Da mesma forma, o talento dos actores merecia uma série à altura deles, mas infelizmente não a tiveram. Os três últimos episódios que me colaram ao écran não poderiam nunca salvar cinco temporadas de uma série sem rumo que não sabia o que queria nem para onde queria ir. Quando foi, já ia tarde.



domingo, 12 de abril de 2020

Pet Sematary / Cemitério Vivo (1989)


Gravei este filme ao engano, porque o canal anunciava que era a remake de 2019. Não, era o original de 1989, mas não me importei porque gosto mesmo muito deste filme. Já o vi umas quatro ou cinco vezes, duas delas no cinema, e quanto mais o vejo mais gosto dele.
“Pet Sematary”, adaptação do livro homónimo de Stephen King, pode parecer superficialmente um filme sobre zombies, mas da forma que eu o vejo é tudo menos isso. É uma história profunda e filosófica sobre a morte, o luto, e a dor tão intolerável que leva quem perdeu um ente querido a fazer o proibido para o ter de volta. Várias vezes me vieram as lágrimas aos olhos.
Não vou contar a história, até porque por esta altura já toda a gente viu o filme, mas vou salientar quando no início a filha do casal se revolta ao perceber que o seu gato, Church, ia morrer um dia. “Ele ainda vai estar vivo quando andares no liceu”, diz-lhe o pai, “parece-me uma vida bem longa”. “Não me parece nada longa”, responde a miúda, e tem razão: “Já sei, quem faz as regras é Deus. Se Deus quer um gato que o arranje! Que não me leve o meu gato!”
O que a miúda diz reflecte a grande questão que pesa sobre a humanidade desde que a homem pré-histórico se sentou  à volta da fogueira e começou a pensar no assunto. A vida é muito curta. Por longa que seja, é sempre muito curta. Deus e a religião, se quisermos ser incréus, foram invenções da humanidade para solucionar o problema da mortalidade. Morremos, mas a religião diz-nos que, de alguma forma, ressuscitamos, neste mundo ou no outro. Nada é mais difícil para um ser pensante do que a aceitar a efemeridade da vida, e de que tudo continua mas já não estaremos cá para ver o futuro.
A revolta começa na infância, quando as crianças vêem morrer os seus animais de companhia. Continua pela fase adulta, enquanto o homem tenta encontrar a explicação ou a conformação que lhe apazigue esta angústia existencial. Para alguns, como o médico do filme, nada existe após a morte. Podemos mesmo condená-lo por tentar trazer à vida o seu filho bebé, e, apesar dos resultados, insistir ainda em ressuscitar a sua esposa? Pergunto mesmo mais: quem não faria o mesmo naquela situação? O solo do coração de um homem é emperdernido, diz o filme, e nada o demove.
O filme propriamente dito está muito bem feito e continua actual (não percebo os motivos do remake, mas logo comentarei quando o vir), tirando os exageros típicos da época: aquela parte de Zelda, com o cliché "Vou-te apanhar!", era perfeitamente dispensável. E a cena em que o bebé luta corpo a corpo com o pai adulto -- que ridículo e que cena péssima, péssima! Mesmo assim, um bom filme do princípio ao fim, mas por causa destas cenas não é o filme perfeito que podia ser.

17 em 20



domingo, 5 de abril de 2020

Only Lovers Left Alive / Só os amantes sobrevivem (2013)


Cheguei a este filme através da música de Jozef van Wissem, quando este veio tocar ao festival Fade In 2019 (Leiria). A banda sonora é tão boa que quando descobri que “Only Lovers Left Alive” era um filme de vampiros, ainda por cima, tive de ver.
E o filme não desaponta no que diz respeito à música. Diria mesmo o contrário, que às vezes o filme tem tanta música que mais parece um videoclip e se eu quisesse ver videoclips ia ao YouTube.
Mas não é este o grande problema do filme. Ninguém jamais me vai ouvir dizer mal de personagens tridimensionais e bem construídas, como é o caso. O que falta a este filme é outra coisa igualmente crucial. Este filme não tem história. Ou não tem história que chegue, o que vai dar ao mesmo. É um filme-retrato, que se vê pela estética e pelo “ambiente” criado e por interesse nos personagens, à maneira daqueles filmes europeus em que dois personagens se sentam à mesa da cozinha e discutem Filosofia, mas não é o meu tipo de filme. Se os personagens não fossem vampiros muito provavelmente eu nem teria visto o filme até ao fim.
Mas vamos então ao pouco de história que “Only Lovers Left Alive” nos apresenta. Os protagonistas são um casal de vampiros, Eve e Adam, ela a viver em Marrocos, ele a viver numa zona deserta de Detroit, consequência do fecho das fábricas. Nunca se explica porque é que não estão a viver juntos, se aparentemente ainda se amam como no princípio, mas talvez como vampiros tenham tanto tempo à sua frente que estas separações temporárias são normais. Eve é alegre, entusiástica, apaixonada pela vida. Adam é melancólico, filosófico, introvertido. Como acontece aos vampiros muito antigos, Adam frequentemente se deixa cair no ennui de existir, e desta vez chega mesmo a mandar fazer uma bala de madeira para se suicidar. Eve percebe-lhe a depressão e viaja até ele, num voo nocturno, as malas cheias de livros em vez de roupa. Se a paixão de Eve são os livros, a de Adam é a música, bem como outras engenhocas científicas. A casa de Adam é um pesadelo de desarrumação, mais parecendo uma oficina caótica, com peças e fios e aparelhos em todo o lado, até na banheira e no frigorífico (desligado). Eve e Adam vivem à parte da humanidade (a quem chamam zombies, a nós!), observando de longe a passagem dos séculos e os progressos e retrocessos da sociedade. Bons vampiros, daqueles que se alimentam nos bancos de sangue dos hospitais, não fazem vítimas. Mas têm um problema. O sangue dos seres humanos está cada vez mais contaminado, o que leva os vampiros a adoecer e até mesmo à morte. Esta contaminação nunca é explicada de forma explícita, mas tanto pode ser drogas como SIDA como até a dieta do ser humano moderno. Penso que sejam drogas, porque a certa altura um deles diz que o sangue veio de alguém ligado à música, logo, “era de esperar”. Drogas é a hipótese mais provável.
O filme não tem realmente muito enredo. A certa altura a irmã mais nova de Eve, Ava, igualmente vampira e antiga mas com uma irresponsabilidade e um egoísmo de adolescente, visita o casal em Detroit e faz uma vítima. Eve e Adam têm de se ver livres do corpo, mas entretanto foram vistos com a vítima e têm de fugir para Marrocos. Onde os espera outro problema. O médico que arranjava sangue puro para Eve entretanto já não está lá, e pela primeira vez no filme Eve e Adam estão em grandes apuros.
E então o filme acaba. E fez-me pensar: “Era só isto?” Agora que estava bom, que Eve e Adam tinham de recomeçar do zero e arranjar outra rede de apoio, acaba assim? Pelo menos façam uma sequela.
“Only Lovers Left Alive” é um filme-retrato que vai agradar certamente aos amantes de vampiros, especialmente aos amantes de vampiros riceanos, que compensa em ambiente e banda sonora o que peca por falta de enredo. Eu, confesso, esperava mais, e gostaria muito de ver uma continuação.

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