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domingo, 2 de maio de 2021

Son of the Shadows, de Juliet Marillier

[contém spoilers]

“Son of the Shadows” é o segundo livro da trilogia Sevenwaters de Juliet Marillier. Há muito tempo que um livro não me agarrava tanto, ainda mais do que o primeiro, “Daughter of the Forest”, em que os seis irmãos são transformados em cisnes.
Até parece que a autora leu a minha crítica de tal forma se evita os plot holes e os anacronismos. (Estou a brincar, é claro. O livro foi escrito muito antes da minha crítica. Mas talvez críticas semelhantes lhe tenham chegado aos ouvidos…) Obrigada, leitores que comentaram, por me terem aconselhado a não desistir. Não desisti e descobri um livro melhor do que o primeiro.
Mas não sem fragilidades. Depois de um início muito promissor, o fim revela-se decepcionante. Talvez Marillier melhore em obras posteriores, mas a sensação geral com que fiquei é de uma autora que vale mais pela sua escrita, e é de facto uma escrita lindíssima, do que pelos seus enredos.
E tal como disse em “Daughter of the Forest”, continua a haver aqui momentos em que a bota não bate com a perdigota, embora menos, mas Marillier ainda não se consegue livrar deles neste segundo livro. O que é pena. Ao contrário do que se costuma dizer, que uma boa história merecia melhor escrita, aqui é caso para dizer que a escrita merecia melhor história.
O que mais gosto em Marillier é que as histórias são tristes, ou, no mínimo, melancólicas. Logo no primeiro capítulo, somos informados de que dois dos irmãos morreram na guerra pelas ilhas sagradas. Isto era de prever, tendo em conta a personalidade de ambos, mas não deixamos de pensar se não teria sido melhor terem permanecido cisnes. Logo a seguir, sabemos que Sorcha está a morrer. Este sim, foi um grande choque, porque Sorcha sempre foi demasiado nova. Aqui é-nos dito que Liam tem 36 anos, o que significa que ela não pode ter mais do que 30.

SPOILER

Não era necessário. Não era mesmo. Sorcha podia ter continuado na série durante muitos mais anos, em pano de fundo, só intervindo ocasionalmente na vida dos filhos e dos netos. Não gostei.

A minha maior crítica ao primeiro livro foi mesmo essa: Sorcha era demasiado nova. Em “Son of the Shadows” a acção começa quando os filhos de Sorcha e Red já são crescidos. A mais velha, Niamh, tem 17 anos, e os mais novos, Liadan e Sean, gémeos, têm 16. Com estas idades já são perfeitamente credíveis, o que não acontecia com uma Sorcha de 12 anos.
A história é contada pela perspectiva de Liadan, uma perfeita réplica da mãe. Tal como esta, Liadan também é curandeira e também tem a Visão. Não gostei que esta personagem parecesse uma substituta da protagonista de “Daughter of the Forest”, confesso. Mas a história mais interessante, a história que me manteve agarrada, nem sequer é a dela. Bom, o melhor será dizê-lo de uma vez. Achei Liadan uma sonsa, uma menina do papá e da mamã, a filha preferida, e ainda por cima burra que nem uma porta. (Já justifico.)
Mas quem sai aos seus não degenera. A burrice parece ser genética em Sevenwaters, ou não tivessem os seis irmãos e a irmã ido confrontar a Lady Oonagh sem um plano que os protegesse caso esta decidisse transformá-los novamente em cisnes e desta vez fazer empadas com eles. As personagens de Sevenwaters não são exactamente brindadas pela inteligência, e este segundo livro vem apenas confirmar o primeiro.

A história
O que me manteve agarrada à história foi uma suspeita, vinda do livro anterior, que depressa se tornou certeza. Um dos “filhos das trevas”, porque o livro se refere a dois, é o filho da Lady Oonagh com Lord Colum, Chiaran, o oitavo irmão. Lady Oonagh levou-o quando saiu de Sevenwaters mas Colum foi à procura dele, encontrou-o, e trouxe-o de volta. O que, como pai, só lhe fica bem.
E que fizeram os irmãos, na morte do pai? Mereciam ser todos transformados em escaravelhos pela porcaria que fizeram, Sorcha incluída. Acharam melhor criar o miúdo junto dos druidas e do irmão Conor, sem lhe dizerem quem era. Chiaran cresceu e conheceu Niamh, sua sobrinha, que também não sabe que Chiaran é seu tio. E aqui está, Tragédia da Rua das Flores. Isto só se “revela” na terceira parte do livro, mas é mais do que óbvio desde o início para quem leu “Daughter of the Forest”.
Não contentes com a porcaria que fizeram, ao descobrirem este affair já consumado, tanto os tios como o pai de Niamh a tratam como a uma galdéria emporcalhada, e arranjam-lhe um casamento sem amor com um nobre qualquer, contra a vontade dela.
O que é curioso, porque à filhinha querida, Liadan, Red diz que nunca a obrigaria a casar contra a sua vontade. Mas isto ainda fica pior.
Ao acompanhar o séquito da irmã, no regresso da boda, Liadan é raptada por um bando de mercenários. Mas não fiquem já assustados porque estes mercenários são uns cavalheiros do melhor que há (é preciso querer acreditar nisto). O mais cavalheiro de todos é mesmo o homem a quem eles chamam o Chefe e a quem Laidan chama Bran, por ele se recusar a dizer o seu nome. Os mercenários raptaram-na porque um deles, serralheiro, sofreu um acidente horrível e precisa de cuidados, e os dotes de Liadan como curandeira (por se saber que aprendeu com Sorcha, sem dúvida) são sobejamente conhecidos. Só querem que ela trate o homem, o que é comovente.
O género de Juliet Marillier é apelidado de Fantasia Romântica, mas fiquei desapontada por Liadan ter conhecido o seu interesse romântico logo à primeira. Esperava mais voltas e reviravoltas antes disso, como em “Daughter of the Forest”, mas aqui vai-se logo aos finalmentes. Liadan apaixona-se por Bran, o líder dos mercenários (e o outro “filho das trevas”), e percebemos logo isso da maneira como os dois embirram um com o outro e discutem como adolescentes (e até são, ou quase). Tanta discussão acaba na cama, ou melhor, nas ervas do campo à chuva. Mas então acontece algo que só pode deixar um leitor de “Daughter of the Forest” completamente boquiaberto. Quando Liadan lhe conta quem é, Bran rejeita-a. Acusa o pai dela, Red, de ser o causador da grande desgraça da sua vida, e Sorcha de ser uma sedutora que desencaminhou um homem fraco. Mostrando a sua misoginia, só falta a Bran chamar prostituta a Liadan (mas acaba mesmo por chamar, indirectamente) antes de a mandar embora.
Ora, quem leu “Daughter of the Forest” fica chocado ao ouvir isto, porque sabe que Red e Sorcha seriam incapazes de fazer mal fosse a quem fosse. As acusações de Bran são muito graves, o que se reflecte na maneira como trata Liadan. Começamos logo a especular o que se teria passado em Harrowfield, na Bretanha, que a gente não sabe. Ter-se-á Simon, irmão de Red, voltado para o mal? Passa-nos tudo pela cabeça. E como gostamos destes personagens do primeiro livro, sentimos que quase nos estão a insultar os amigos e não podemos descansar enquanto não soubermos o que aconteceu ao certo. Eu já estava agarrada às minhas suspeitas de que Chiaran era o filho da Lady Oonagh, e ainda fiquei mais agarrada por causa destas acusações.
Liadan regressa a casa grávida. Desta vez não há censuras, como aconteceu à pobre Niamh, só amor e carinho e aceitação. Filhinha dos papás. A própria Liadan diz várias vezes que é injusto que a tratem melhor do que trataram a Niamh, e que não percebe porquê.
Eu também queria muito saber, e quanto mais ia percebendo mais me parecia que deviam ter sido todos transformados em escaravelhos. Liadan acaba por descobrir que a irmã está a ser espancada e violada pelo marido, completamente sozinha e sem se atrever a pedir ajuda. Culpa dos pais e dos tios. Liadan ajuda-a a escapar e obtém assim uma ajuda mais ou menos inesperada: Chiaran, filho da feiticeira, está a seguir na peugada da mãe, mas tem para com Liadan uma dívida de gratidão. Talvez Chiaran não se torne o génio do mal que os irmãos temiam dele.
Há uma ideia subjacente a todo o livro que me irrita profundamente: que os filhos acabam por ser forçosamente iguais ao que foram os pais. Chiaran, filho de feiticeira, tem de ser maléfico também. De Liadan, filha de Sorcha, espera-se que seja um espelho da mãe. (O próprio Red o diz.) Niamh, porque não saiu à mãe, foi desde sempre a filha enjeitada. (Escaravelhos, Chiaran, transforma-os em escaravelhos porque merecem!) Bran, filho de gente boa, tem de ser gente boa também. Eamonn, filho de um traidor, tem de ser igualmente malvado.
Por falar em Eamonn, pretendente a Liadan a quem esta rejeita, vamos lá então explicar a burrice da personagem. Só houve uma coisa que esta Liadan fez no livro todo com que eu concordei, que foi mandar a Senhora da Floresta às urtigas. (Exactamente! E eu gostei porque já me tinha parecido que a Senhora da Floresta é uma grande sádica.) Não, minto: também gostei que Liadan fosse a única a ter verdadeira compreensão para com o romance entre Niamh e Chiaran. Mas Liadan estraga tudo quando vai confrontar Eamonn, um homem que ela já sabe que é perigoso, que até já traiu Sevenwaters, e leva com ela o bebé. Lembrou-me aquele momento de “Homeland” em que Carrie Mathison leva a filha para um encontro de terroristas, e até um simpatizante de terrorista lhe pergunta: “Mas a senhora é doida? Trouxe para aqui uma criança?” Carrie Mathison é mesmo doida, mas Liadan é simplesmente burra. Quem é que leva o seu bebé para um conflito que pode correr muito mal, quando o bebé não faz lá falta nenhuma e podia tê-lo deixado em segurança?
Só há um personagem inteligente nesta história toda. Não vou dizer quem é para não criar mais spoilers, mas quem se lembra da minha crítica anterior sabe quem é o meu personagem preferido. E nada mais digo.
O fim decepcionante refere-se às acusações monstruosas que Bran faz a Red e Sorcha. Como dizer isto?... Afinal, ele estava completamente enganado. Ouviu mentiras, repetiu mentiras. Foi tudo uma construção artificial para o manter afastado de Liadan até ao fim do livro, porque não podiam ser “felizes para sempre” tão cedo. Não gostei mesmo nada. Como leitora, senti-me defraudada.
Senti-me ainda mais defraudada quando Red diz que tem alguma culpa no assunto, para justificar o truque baixo do livro. Nem Red, e muito menos Sorcha, nem sequer Simon, têm qualquer influência no que aconteceu a Bran. Não era preciso pôr Red a assumir culpa que não tem ao serviço de um enredo mal amanhado. Havia outras maneiras de chegar ao mesmo objectivo. Desta forma, Bran também me pareceu um idiota misógino que se queixa sem razão e acusa quem não deve. A certa altura ele diz a Liadan que ela é uma “mulher perigosa e uma estratega subtil”, e eu fartei-me de rir. Ele também não é muito esperto, por isso estão bem um para o outro. Bran é um personagem atormentado por uma infância de abuso, compreendo perfeitamente, mas, chamem-me insensível à vontade, ou talvez porque conheça casos muito piores em que as pessoas deram a volta “mais por cima”, acho que ele não tinha razão para aquela revolta toda. Até parece que foi o único no mundo a sofrer, ou, pior, é tão focado em si próprio que não sabe que outros sofreram mais. Talvez este personagem ainda melhore, porque, afinal, ele também é muito novo. Bran é quem verbaliza uma das ideias mais filosóficas do livro: “As histórias são perigosas, porque fazem os homens sonhar com o que não podem ter”. Às vezes é verdade, outras vezes é o contrário: em vez de perigosas, as histórias podem ser inspiradoras. Mas como personagem auto-destrutivo e sem auto-estima que é, Bran só consegue ver o lado cínico da vida.

Ainda assim, viciante
Então, do que é que eu gostei tanto neste livro, porque efectivamente gostei de alguma coisa que me manteve agarrada do princípio ao fim? A escrita é muito boa. A autora consegue das melhores descrições que já li na vida, embora eu não seja grande amiga de descrições. (Às vezes dá-me a entender que a autora prefere as descrições e os pormenores a essas chatices de manter o enredo coerente.)
Gostei da história de Niamh e da história de Chiaran, e de como ambas as histórias podem vir a dar uma continuação empolgante. Porque, a verdade é esta, estou em pulgas para ler a terceira parte, “Child of the Prophecy”.
Queria ter gostado mais deste livro, sim, queria. Queria ter-lhe dado 5 estrelas no Goodreads e só lhe pude dar 4 porque o fim me pareceu artificial. Conhecendo as fragilidades da autora, passei o livro todo a temer que isto acontecesse, nomeadamente quando se questionou a integridade de Red e Sorcha (não podia ser verdade!). Infelizmente, os meus piores receios vieram a concretizar-se, ou a autora não me conseguiu convencer das razões de Bran. Aliás, todo o personagem Bran faz pouco sentido, eu é que não quis estar aqui a debicar que nem abutre.
A escrita de Marillier é francamente agradável, mas precisa de enredos mais sólidos. Vou continuar a ler a trilogia na esperança de que a experiência melhore estas fragilidades até elas desaparecerem.
E continuo a querer saber a resposta à questão que ficou a pairar no primeiro livro: porque é que a Lady Oonagh se foi embora sem mais nem ontem quando já tinha conquistado tudo. A questão volta a ser abordada em “Son of the Shadows” e a resposta promete. Resta saber se a trilogia cumpre a promessa. Por esta altura falha-me a esperança, mas se “Son of the Shadows” supera “Daughter of the Forest”, pode ser que o terceiro livro me satisfaça completamente. A ver vamos.


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Daughter of the Forest / A Filha da Floresta, de Juliet Marillier


[contém spoilers!!!]

"Daughter of the Forest" é uma história é inspirada no conto infantil em que a madrasta má transforma os enteados em cisnes, mas este é tudo menos um livro para crianças.
Fiquei com sentimentos contraditórios após ler esta história. Por um lado tem partes brilhantes que me fazem querer gostar muito mais do que gostei, e depois tem inconsistências que simplesmente não me deixam apreciar o enredo e as personagens como teria desejado. De 1 a 5 não lhe daria 3 nem 4 mas 3,5. E é pena porque queria ter gostado mais.

A protagonista é demasiado nova
Primeiro que tudo, esta história teria sido infinitamente melhor se a protagonista fosse uns dois anos mais velha. Sorcha, a irmã mais nova que tem por missão salvar os seis irmãos do encantamento que os transformou em cisnes, tem apenas 12 anos quando a história começa. Apesar disso, é uma curandeira respeitada por toda a gente. A história começa logo aqui a desafiar a credibilidade. Sorcha é uma menina nobre e diz que encontrou livros de medicina esquecidos algures (isto eu aceito), e também se informou junto de mulheres sábias da povoação. Pois bem, se havia mulheres sábias porque é que toda a gente recorre a uma fedelha de 12 anos? Nem é a questão dos conhecimentos que ela pudesse ter, é mesmo a questão da autoridade, e nestas coisas da saúde as pessoas só confiam em quem tem autoridade (mesmo que tenha menos conhecimentos). Mas a autora leva isto ao cúmulo quando após ajudar a um parto Sorcha faz respiração boca-a-boca a um recém-nascido que não respirava. Ora, ainda nos anos 70 a solução para isto era dar uma palmada nas nalgas. Como é que uma fedelha de 12 ou 13 anos, dos confins da floresta céltica irlandesa do século IX, sabe mais do que médicos e parteiras do século XX? (Ou éramos nós assim tão atrasados?) Estas coisas arrancaram-me completamente à Fantasia e fizeram-me revirar os olhos. Teria sido bem diferente se Sorcha fosse mais velha e tivesse mais experiência com partos, ou, noutras circunstâncias, se tivesse crescido com uma familiar que era parteira e tivesse aprendido com ela. Assim, Sorcha é demasiado competente para a experiência e idade que tem. Mais dois anos de idade teriam feito maravilhas pela credibilidade da personagem sem interferir com a história.
Há mais incoerências. Quem costuma ler aqui o blog já sabe que me chateia muito quando a bota não bate com a perdigota. Neste caso, acho que a autora se agarrou demasiado ao conto infantil em pontos em que não devia. Quando contamos uma história às criancinhas sobre uma menina e seis irmãos, as criancinhas não questionam. Quando se conta um conto de fadas aos adultos, as perguntas começam a surgir umas após outras. Que idade tem a mais nova, que idade tem o mais velho? Do que percebi, se Sorcha tem 12 anos o mais velho deve andar pelos 18 ou 19 anos, no mínimo. Logo a princípio, quando ele fica noivo e a noiva o vem visitar, este mancebo casadoiro ainda se mostra tão juvenil que se reúne com os irmãos, todos num círculo de mãos dadas como um grupo de putos wiccans. Mas Liam (o mais velho) não é nada juvenil. Não faz sentido nenhum que em vez de querer estar com a noiva (às escondidas, se preciso fosse) preferisse encontrar-se com meia dúzia de fedelhos. Contraria tudo o que conheço da vida. Rapazes desta idade com uma noiva que lhes interessa já não andam com miúdos pré-púberes a não ser para tomarem conta deles (e a maior parte das vezes a fazer um grande frete obrigados pelos pais). Tive de fazer um grande esforço para fingir que acreditava nestes rituais de infância ainda observados por sete jovens em fases da adolescência tão díspares. Todos eles às vezes parecem muito adultos (Sorcha principalmente, apesar dos 12 anos, quando discursa sobre a unidade que os assemelha aos sete ribeiros que dão nome a Sevenwaters) e às vezes portam-se como criancinhas.
A pior destas incoerências relativas à idade da protagonista é quando Sorcha conhece alguém que se apaixona por ela, Red, e ele próprio não sabe se lhe há-de chamar criança ou rapariguinha. Como é que é, Red? Criança ou rapariga? É que não sou eu que estou a inventar estas coisas. Estão explícitas na história quando ele se refere a ela como “criança”. Não sei a idade dele e quero acreditar que não tenha ainda 20 anos (mas neste caso quanto mais velho pior porque ela só tem 13) mas não me parece que um homem (mesmo jovem) que tenha sentimentos românticos por uma rapariga lhe chame criança em nenhuma circunstância. Se a Sorcha fosse apenas uns dois anos mais velha tudo faria muito mais sentido.

O feitiço
Lady Oonagh, a madrasta má, quer livrar-se dos enteados para que o filho dela herde o domínio de Sevenwaters. Até aqui bate certo. Mas depois transforma-os em cisnes e deixa-os ir à vida deles. Não seria muito mais lógico apanhá-los e fazer empadas? (A ideia não é minha, é de uma tragédia grega.) Foi imediatamente em que pensei ao ler algumas críticas que alertavam que este livro tem muito sofrimento, que é muito pesado, etc. É tudo relativo. Habituada como estou a doses descomunais de porno-tortura, esperava muito mais perversidade. A autora podia ter lá ido, e a certas alturas noto-lhe uma perversidade subtil e até perturbadora (ver Finbar) mas não é tão pesado como podia ser sido.
Sorcha consegue escapar por pouco ao feitiço. Eis quando lhe aparece a figura da fada madrinha na Senhora da Floresta que lhe ensina como reverter o encantamento. Tem de fazer seis camisas de uma planta espinhosa que tem de apanhar, fiar e tecer ela própria, tudo isto sem pronunciar uma única palavra ou sequer um som até terminar a tarefa. As camisas têm de ser vestidas aos irmãos exactamente ao mesmo tempo, quando todas estiverem prontas. Duas noites por ano, no solstício de verão e no solstício de inverno, os irmãos escapam ao encantamento e transformam-se de novo em homens desde o anoitecer ao amanhecer.
Admito que a princípio embirrei com a Sorcha. Ela é mimada, convencida, sabichona e, o pior de tudo, daquelas pessoas muito positivas e optimistas porque nunca passaram por nada. Assim que lhe é pedido que se submeta a esta tarefa excruciante, Sorcha responde imediatamente que é “forte” e que vai conseguir tudo e mais alguma coisa, o que ainda me fez embirrar mais. Só comecei a simpatizar com ela quando admitiu que afinal podia não ser tão forte como pensava e que nem tudo na vida está dentro do nosso controlo. Aí sim, deixou de ser uma menina privilegiada e tornou-se uma personagem com que consegui empatizar.
Mas demorou. Tenho de dar os parabéns à autora por ter escrito tão vividamente o sacrifício que implicou toda esta tarefa com a planta espinhosa. A planta é chamada starwort. Pesquisei mas não consegui encontrar o nome em português nem sei se a planta existe entre nós. [Se alguém souber, deixe nos comentários, por favor.] Mas foi tão bem descrito que imaginei o que conheço, aqueles cactos que deitam uns espinhos fininhos, quase invisíveis, que se espetam debaixo da pele e dentro da carne e têm de ser tirados à pinça. Ao ler tantas vezes como era doloroso fiar esta planta, e como as mãos dela incharam e se deformaram, a certa altura também comecei a sentir picadas nas mãos. Verídico. É preciso escrever muito bem para causar esta impressão no inconsciente do leitor. Este foi um dos momentos brilhantes do livro que nos provam que a autora tem grande talento, se bem que nem sempre os enredos mais bem construídos, mas lá voltaremos de novo.
Não percebi, sinceramente, a necessidade de silêncio. A Sorcha está proibida de falar, mas aparentemente só não pode dizer nada sobre o encantamento e não pode explicar a tarefa. De resto, ela comunica por linguagem gestual e “fala” de tudo e mais alguma coisa e até comunica telepaticamente com alguns dos irmãos. Batota! Isto faz com que a Sorcha tenha a vida muito mais facilitada do que se não pudesse mesmo comunicar de forma nenhuma, o que muito possivelmente a colocaria em situações ainda mais periclitantes do que já acontece. Mas, sendo assim, ela podia muito bem falar normalmente e dizer “sobre isso não me perguntem” em relação ao assunto proibido. A Senhora da Floresta também é uma grande sádica e ainda teve o desplante de lhe dizer “não sou eu que invento estes feitiços”. Então quem é, Senhora da Floresta? Sorcha, porque não lhe perguntaste isto?
Por último, a Lady Oonagh diz aos irmãos que não devem contar com a ajuda da Senhora da Floresta porque ambas são “uma só”. Ora, eu acho que isto devia ser explicado. O encantamento é o enredo principal do livro. E ao chegar ao fim da história também concluí que as Fadas (os Fair Folk, no livro) a que a Senhora da Floresta pertence também não são de fiar. Mais uma razão para esta questão ser explicada. Compreendo que a Lady Oonagh pode estar a querer dizer que a magia negra/má e a magia branca/boa são duas faces da mesma moeda, mas a Lady Oonagh é humana, não é Fada (ou será?).
Algo que me deixou perplexa durante o livro todo é que nunca, nem por um instante, Sorcha ou os irmãos pensam em aprender magia também para derrotar a Lady Oonagh. A certa altura (não direi quando) decidem ir confrontá-la os sete sem terem qualquer plano. Isto não foi inteligente. A mulher já os tinha transformado em cisnes, podia transformá-los noutra coisa qualquer ou fazer muito pior. Não me importa que eles tivessem um bom plano ou um mau plano, desde que o tivessem. Convenientemente, a Lady Oonagh sabe da vinda deles e foge. O que não faz sentido nenhum. Agora ela já tinha conseguido tudo o que queria. É uma mulher poderosa capaz de transformar pessoas em cisnes (e não pode ser a única coisa que é capaz de fazer) e foge? Só há uma “desculpa” para esta resolução insatisfatória, e essa é que a autora planeasse desenvolver esta história noutro livro mais dedicado à Lady Oonagh. Não sei se o fez ou não, mas compreendo que o quisesse fazer. Não considero esta ponta solta muito grave mas irritou-me que os sete irmãos não tivessem um plano.

Finbar o Gótico
Finbar é o meu personagem preferido. Um dos irmãos do meio, é o mais próximo de Sorcha e partilha com ela uma ligação telepática. Finbar tem algumas qualidades “vampirescas” que dão logo nas vistas aos “entendidos”. Não só consegue transmitir pensamentos telepáticos (conversas inteiras, com efeito) como consegue transmitir também imagens. Tem dons proféticos. Consegue aproximar-se das pessoas sem fazer barulho como se aparecesse “do ar”. E depois tem alguns traços nitidamente góticos, como o pacifismo, a melancolia e a visão pessimista da vida. E a rebeldia.
Tudo começa com ele, na verdade, quando se revolta contra o pai. Há muito tempo que dura uma guerra com os Bretões (a acção passa-se no século IX, tempo do rei Aethelwulf, mas não o de Vikings em que a série aglutina dois séculos numa única linha temporal). Os três irmãos mais velhos participam na guerra com entusiasmo, mas Finbar prefere aderir à Amnistia Internacional e quando um prisioneiro de guerra é capturado e torturado pelos soldados do pai decide libertá-lo. O que até nos dias de hoje é considerado traição. (Aliás, aquela revolta toda contra o pai caiu ali de pára-quedas. Lord Colum, o pai, é um homem distante dos filhos desde que a esposa que amava morreu de parto quando Sorcha nasceu, mas tirando isso não merecia aquela hostilidade toda em frente dos seus súbditos.) Finbar quer o fim da guerra e o começo de negociações (mas a guerra nunca é algo realmente relevante na história, apenas pano de fundo). Lord Colum e os irmãos mais velhos nem querem ouvir falar do assunto. Novamente a tal inconsistência. Por muito que Sorcha fale de unidade e façam rodinhas wiccans de mãos dadas, não há unidade. A própria Sorcha o diz, que os irmãos mais velhos iam ficar muito zangados se suspeitassem do que Finbar quer fazer. Lá se vai a unidade dos sete ribeiros, não, Sorcha? Direi mesmo mais. A verdadeira unidade entre eles só acontece depois do feitiço que sofrem juntos, não antes.
Finbar recruta Sorcha para lhe preparar uma beberagem que põe os guardas a dormir e lá conseguem libertar o prisioneiro, Simon. Outra grande inconsistência. No decorrer da história percebemos que toda a gente reconhece que Sorcha tem conhecimentos médicos. Que toda a gente recorre a ela quando é necessário. (Passe a falta de credibilidade que isto tem.) E no entanto ninguém desconfia que foi ela quem drogou os guardas? Muito estranho. Seja como for, Finbar e Sorcha conseguem tratar o prisioneiro e dar-lhe uma hipótese de sobreviver e escapar. O começo da história (principalmente toda esta parte em que Sorcha é a enfermeira de Simon) pode ser considerado algo lento para quem gosta de mais acção, mas eu não me importei porque acho que vale a pena esperar pelas partes boas e deixo ao autor a liberdade de me guiar até elas como lhe parecer melhor. Nunca pensei que Simon regressasse, e muito menos que Simon também se tenha apaixonado por Sorcha quando ela ainda era uma miúda. É algo que deve ser de família, gostar delas aos 12 anos, e não digo mais nada.
Finbar personifica um dos momentos mais perturbadores da história. Mais perturbador do que a cena da violação e a morte de alguém que não vou revelar, mais perturbador do que a cena da fogueira. Como cisne, Finbar tem uma “esposa” cisne e dois patinhos. Em forma humana, lembra-se deles e atormenta-o tê-los abandonado. Ora, nem sei o que devo sentir perante isto. Tristeza? Repulsa? Pena? Acabei por decidir-me pela tristeza e foi uma das coisas mais amargas que já li na vida. Entre dois mundos, Finbar não consegue pertencer a nenhum porque está demasiado dividido. O que ele resolve no fim (e desconfio que sei o que é) faz todo o sentido. No final, Finbar é completamente gótico, um espírito atormentado que anseia libertar-se do seu estado humano.

Os vilões
A história tem dois vilões e ambos são apresentados a preto e branco, o que raramente faz personagens cativantes.
Mesmo assim, Lady Oonagh é uma vilã bem conseguida. Talvez seja até a personagem mais bem conseguida da história toda. Todos nós já conhecemos uma Lady Oonagh, pelo menos. Tive o azar de me cruzar com várias e conheço bem a peça. Marillier também a deve conhecer e nota-se na perfeição com que a retrata. Faz-me ficar em pulgas para ler mais sobre ela. Quem era, de onde veio, para onde foi, onde aprendeu as artes mágicas, quem a ensinou. Se não houver um livro sobre a Lady Oonagh vou ficar muito desapontada.
E depois temos outro vilão, Lord Richard, que já não me convenceu. Lord Richard é execrável em vários sentidos. É o tipo de vilão irredimível que ali está para o odiarmos sem reservas. Prefiro vilões complexos e “cinzentos”, mas no que toca às intenções da autora, foram bem conseguidas. A caracterização da personagem, contudo, não foi tanto. Lord Richard revela-se um homem extremamente sádico quando Sorcha recusa os seus avanços. Cheio de orgulho ferido (e com outras motivações adicionais que não vou revelar) arranja maneira de a condenar à fogueira sob várias acusações, uma delas de feitiçaria. Não contente com isto, durante as semanas em que a mantém aprisionada delicia-se a torturá-la psicologicamente com os pormenores da morte que a espera: a construção da fogueira, o fogo, a dor, tudo com tanto detalhe e malvadez que raramente encontrei um vilão tão sádico. Um nível de sádico acima do Hannibal Lecter, acreditem ou não, que ao menos anestesiava as vítimas. É este nível de sadismo que não me convence. Este nível de sadismo não se desenvolve da noite para o dia e não se consegue esconder das pessoas mais íntimas (que são as principais vítimas). Uma rejeição amorosa também não o explica. Um sádico assim começa na infância, e se for narcisista também (e geralmente são) por esta altura já todos conheceriam a peste que ali estava. Das duas uma, ou já teriam cortado relações ou, se não pudessem, viveriam aterrorizados por ele. Não é nada disto que acontece com a família de Lord Richard, que o acha simplesmente desagradável. Não, um sádico destes não é apenas desagradável. É um terror. A família é a primeira a sofrer. Aqui, Marillier errou ou exagerou. Funciona, mas não me convence.

A autora
Juliet Marillier consegue criar uma Fantasia Romântica com uma leve base histórica que resulta muito bem a esse nível. Mas não se espere daqui um romance histórico porque não o é. Aqui reina a Fantasia. Sorcha, na floresta, ouve as fadas das árvores, o que pode parecer algo infantil. Mas há outros seres sobrenaturais. Não há nada de infantil no momento de Dark Fantasy em que as sereias aliciam Sorcha, desesperada e traumatizada, a juntar-se a elas no mundo aquático “onde não há mais dor”. Por um instante temi que Sorcha cedesse à tentação de as ouvir e pusesse fim à vida. Esta é das tais passagens brilhantes que quase nos fazem esquecer as inconsistências.
Mas os momentos mais impressionantes são a violação (muito gráfica, muito pormenorizada, muito traumática) e a fogueira, que realmente nos arrepia. Toda a relação de Sorcha com a floresta é igualmente bonita e bem descrita.
Só tenho algo a apontar à forma como Sorcha, em primeira pessoa, “justifica” ter de contar a violação como “algo que determina” tudo o que aconteceu depois. Não, não determina nada, nem a autora tem de se justificar. A violação é uma coisa que acontece, independente do enredo, e que tem uma influência marginal nos acontecimentos seguintes. Sorcha vivia escondida numa gruta da floresta enquanto se dedicava à sua terrível tarefa, mas a sua subsistência tinha-se tornado insustentável. Mais tarde ou mais cedo teria de procurar um abrigo mais seguro e confortável. Com ou sem violação. Eu sempre pensei que a violação estaria mais ligada ao enredo mas afinal é algo que acontece à margem.
Não é a primeira vez que através da primeira pessoa a autora nos tenta manipular a concordar com o desenvolvimento da narrativa. Eu dispensava estas manipulações que a certa altura se tornam demasiadas, desnecessárias e justificativas. Especialmente quando Sorcha diz “nos contos tradicionais tudo acaba bem, os vilões são castigados, não há pontas soltas, mas esta é a minha história, etc”. Completamente desnecessário e manipulativo. A autora não tem de pedir desculpa.
Outro pormenor que me irritou, mas parece que os autores anglo-saxónicos não prestam tanta atenção a estas coisas como nós, foi a quantidade de anacronismos linguísticos que fui apanhando na história. O pior, o uso da palavra "piquenique", duas vezes!, pela protagonista. Não, não, não. Nem era necessário. Pergunto-me se não foi uma palavra ali inserida pelos editores, uma vez que a autora até respeita a linguagem da época. Aquele “piquenique” e outras que tais destroem a nossa imersão na Fantasia e tornam o livro desleixado. É uma pena.
Outro ponto negativo é o recurso ao deus ex machina, e por duas vezes! Da primeira, quando Red está mesmo prestes a ser morto na floresta e Sorcha se lembra de pedir ajuda aos Fair Folk. (E porque não pediste também antes e depois, Sorcha?) Da segunda, quando Sorcha já está na fogueira e aparece alguém que estava ausente no preciso instante em que a salva por uma unha negra. Ainda estou para encontrar alguém que goste de deus ex machinas, e eu também não gosto. Na segunda vez nem seria necessário porque os irmãos estavam presentes e podiam tê-la salvo sozinhos.
E por falar nisso, lamento dizer que fomos roubados do verdadeiro clímax da história. A autora não “mostra” o fim do feitiço, antes o descreve pela boca de personagens que ainda por cima são secundárias. Não percebi esta opção (a autora tem talento de sobra para mostrar a cena) e senti-me defraudada. Também não achei graça nenhuma àquela ideia de a camisa voar no vento e ir parar por artes mágicas onde era necessária. Com ou sem influência dos Fair Folk. Não era isto que eu queria ver. E acaba por funcionar como outro deus ex machina, fazendo três, e somando dois na mesma cena.
São estas coisas que me fazem não gostar tanto do livro como podia ter gostado. A todo o momento queria acreditar que não iam aparecer mais coisas destas, que eram só um percalço, mas os “percalços”, mesmo os de menor importância, foram-se avolumando uns em cima dos outros e acabaram a criar uma montanha de percalços. Uma montanha, passe a poesia, cuja sombra obscureceu os momentos brilhantes que o livro efectivamente tem. E é pena. Quando é preciso, a autora tem um tipo de escrita vívida e sensível, às vezes poética, de que gostei muito. Também gostei dos momentos perturbadores e jamais esquecerei Finbar e a sua família de cisnes.
Se é um livro que vou ler duas vezes? Não. Não gostei o suficiente. Mas gostaria de dar outra oportunidade a esta escritora (parece que este é o livro de estreia) e perceber se as inconsistências desaparecem noutras histórias ou se se tornam norma.
Desaconselho este livro a toda a gente que detestar Fantasia e Fadas e encantamentos e enredos românticos em geral. Aconselho vivamente a quem gostou de “As Brumas de Avalon”. Não é tão bom, nem por sombras, mas às vezes parece umas Brumas de Avalon menos pesadas.