quinta-feira, março 24, 2011

Club Noir



Antes de mais, o meu contrito mea culpa por não ter escrito sobre o Club Noir mais cedo quando já o podia ter feito. (A preguiça é um pecado tão feio...)
Depois de tantos anos sem alternativas, em Lisboa, a coisa começa a compor-se. Foi com muito agrado que conheci o Club Noir, inaugurado na rua da Madalena (baixa) em Fevereiro. Aqui está um espaço com tudo para agradar e todas as potencialidades que se possam imaginar.
À entrada, junto ao bar, existe uma sala onde se facto se pode conversar em grupo. A música é audível e a pista de dança é visível mas não atrapalha o convívio.
A mencionada pista de dança, por sua vez, ocupa exactamente o espaço suficiente para ser ao mesmo tempo intimista e convidativa (em suma, uma pista de dança "a sério", ao contrário de pista de dança improvisada como acontece em tantos bares). De facto, se estivéssemos nos anos 80 chamaria ao espaço nada mais nada menos do que bar/discoteca, porque é precisamente o que o espaço oferece. Mais nas "profundezas" há uma terceira sala, a que chamo a sala dos sofás, que oferece oportunidade para conversas mais... "aconchegadas". Aqui a minha opinião não é muito favorável (mas sou suspeita à partida porque detesto sofás): a música na "sala dos sofás" é tão elevada como na pista de dança e os sofás, se houvesse mais luz, dariam ao espaço um aspecto de "sala de espera". Talvez uma sala a melhorar, na minha opinião.
Tirando os sofás (que segundo me disseram já lá estavam quando o bar foi adquirido) nada a apontar à decoração e à iluminação. Podia ter um toque mais "pessoal" mas acredito que com o tempo, e os cartazes, e as recordações, chega-se lá.
Quanto à música, pelos dois eventos a que assisti fiquei com a impressão que depende do DJ ou da temática da noite, o que também é bom sinal. Respeitam-se os gostos das pessoas e não se engana ninguém caindo nos mesmos êxitos do costume, batidos e "rebatidos" por todo o lado. (Uma das coisas de que gostava na antiga Juke Box -- a do Bairro Alto -- era entrar lá e não conhecer nada do que estava a passar. A mim nunca ouvirão criticar música obscura.)
Por último, mas não menos importante, gostava de realçar a localização. O facto de se situar na baixa, numa rua afastada do mainstream dos bares (Cais do Sodré, Bairro Alto, etecetras e tais que não vou referir) é um ponto muito positivo. Quem frequentava a Juke Box, à tarde e a noite, na rua da Fé, sabe bem do que falo. O Club Noir, tal como a Juke da r. da Fé, tem a vantagem de ser apenas frequentado por gente que sabe para onde vai e para o que vai. Gente da cena, gente que não cai lá de pára-quedas. Talvez, com o tempo, surja a mística que o ambiente pede e encoraja. Logo, toca ir ao Club Noir e a espalhar a palavra pelos amigos. Das vezes que fui não me pareceu que estivesse suficientemente "povoado", certamente por ser um sítio ainda novo. Por isso insisto, toca a ir! Toca a recriar a mística! E já agora, toca a recriar a "dança em círculo". Isso, infelizmente, tem-se perdido, e cá por mim tenho saudades da cumplicidade que se criava. (Sabem do que falo, não sabem?...)
Um ponto negativo apenas: Já estou mal habituada desde que os bares começaram a fechar mais tarde em Lisboa. O Club Noir fecha mesmo às 4 da manhã. Enfim, tudo o que é bom parece que acaba sempre cedo demais, não é?

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domingo, março 20, 2011

"2012" (2009) / "Apocalypto" (2006)


Existe a noção errónea de que um filme de terror tem que incluir necessariamente o sobrenatural. Tal não é verdade, como provam os filmes-catástrofe (como "2012") que se tornaram quase um sub-género (um outro exemplo recente: "O Dia Depois de Amanhã"). Mas existe um outro tipo de filmes, também eles com cenas eventualmente chocantes (e assustadoras), que se situam numa área bem mais cinzenta. "A Escolha de Sofia", é ou não um filme de terror? Mas foi filmado com a intenção de ser um drama. "Titanic", é ou não um filme de terror? E, no entanto, foi feito com a intenção de ser romântico (mas não é verdade que se não fosse o horror do naufrágio era apenas mais uma história de namorados)?
"2012", filme de terror/catástrofe que retrata a extinção da humanidade devido à inversão dos pólos terrestres tal como predita pelo povo Maia na data de 21 de 12 de 2012, podia ter causado mais medo, muito mais medo, mas algo falhou. Tenho para mim que os protagonistas permaneceram sempre demasiado seguros (enquanto o mundo literalmente desabava e a terra era engolida pelo mar) para causar aquela empatia necessária que leva a que se tenha medo "na pele deles". Não há efeito especial capaz de suprir esta falha mas até neste ponto a catástrofe não foi muito "catastrófica". Esperava-se mais do fim do mundo em efeitos visuais, digo eu. Os que vi não me pareceram muito convincentes (por comparação, por exemplo, ao já citado "O Dia Depois de Amanhã", esse sim, pela maestria da realização, verdadeiramente arrepiante).
Às vezes estes filmes têm efeitos surpreendentes. Provocou-me lágrimas de desespero ver aquele metro ser cuspido de uma montanha que acabava de se partir ao meio. Mas, pensando bem, nada mais natural do que estas lágrimas, afinal... egoístas. Foi a única situação em todo o filme em que pensei "podia ser eu", porque ando todos os dias de metro e a zona de Lisboa... "POSSO SER EU!" E chorei, obviamente. Senti-me naquela pele. De resto, não. Passei o filme todo a temer pelo cãozinho, e foi só isso.
De "2012" esperava um filme capaz de provocar pesadelos. De onde não o esperava era de "Apocalypto".


15 em 20



"Apocalypto", de Mel Gibson, está na minha opinião na área cinzenta e subjectiva. Feito na intenção de retratar ficcionalmente o período histórico do declínio do povo Maia, aterrorizou-me do princípio ao fim. A realidade (mesmo a realidade do passado) mete mais medo do que a ficção. Para mim, sem dúvida, este é um filme de terror. Assusta-me ainda mais pensar que pode haver quem não considere tal. Há mais a temer do homem do que de qualquer sobrenatural.


17 em 20


Duas notas curiosas
1. Sem ter consciência do facto, juntei dois filmes que falam da cultura Maia. (E foi mesmo inconsciente, visto que ainda há pouco tive de ir verificar se os índios de "Apocalypto" não eram antes Incas ou Aztecas - tendo a confundi-los.)
2. É curioso que gostei muito mais de "O Dia Depois de Amanhã" mas passada meia dúzia de anos acabo a atribuir a mesma nota a "2012", um filme de que sem dúvida gostei menos. O que prova o seguinte: muita quantidade do "mesmo" acaba por tornar o espectador indiferente e com a perda de originalidade desce necessariamente a fasquia.

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