domingo, 5 de dezembro de 2021

Brave New World / Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley


Uma distopia é sempre a utopia de quem a inventou. Perguntem aos comunismos, aos fascismos, até ao nazismo, e a resposta seria igual: instituir um regime para o Bem comum, para a melhoria e estabilidade da sociedade ideal conforme esse regime a imagina. A própria democracia é uma utopia, mas, como disse o outro, é o método de governo menos mau que já inventámos até agora.
“Brave New World” foi publicado em 1932, entre duas guerras. O título espanhol é particularmente bem conseguido ao traduzi-lo como “Um Mundo Feliz”. “Brave New World” foi o livro que iniciou todas as distopias, mas não temos aqui a violência e a brutalidade de George Orwell ou Ray Bradbury. George Orwell e Ray Bradbury já tinham visto regimes que Huxley não viu. Como li numa outra crítica, se em “1984” (George Orwell)* as pessoas são controladas pelo medo, em “Brave New World” as pessoas são controladas pelo prazer. Se em “Farenheit 451” (Ray Bradbury) os livros são queimados, em “Brave New World” as pessoas estão tão imersas em prazeres acéfalos que já ninguém quer ler livros.
O livro deve ter sido bastante chocante em 1932, mas, admito, quase 100 anos depois, eu própria fiquei chocada. Na sociedade de “Brave New World” não há mães nem pais. Aliás, “mãe” e “pai” são palavras obscenas. Todos os bebés são feitos em laboratório e a sua inteligência é manipulada, ainda no tubo onde são gerados, de acordo com as funções que essa pessoa vai ser condicionada a desempenhar. Desse modo, por exemplo, um bebé condicionado para trabalhos manuais nunca ficaria frustrado com o seu trabalho, enquanto que a um sujeito Alfa é permitido que a inteligência se desenvolva e são atribuídos trabalhos intelectuais. Resultado, o trabalhador da fábrica é feliz, o Alfa é feliz. São todos felizes e não questionam.
A juntar a isto, o sexo com vários parceiros é incentivado. O objectivo é que o sujeito nunca crie laços afectivos (com uma família, por exemplo) ou passionais (com um só amante). Essas emoções fortes criam motivações, ressentimentos, ódios, instabilidade. Para que todos sejam felizes, a sociedade tem de ser estável.
Neste mundo, nunca ninguém está sozinho nem tem tempo de pensar. Ou estão a trabalhar ou a divertir-se em jogos ou filmes. A juntar a isto, a sociedade fornece uma droga, Soma, para quem começar a pensar demais. A ciência está tão avançada que as pessoas podem divertir-se, sem adoecer ou envelhecer, até morrerem.
Isto não é muito diferente do nosso mundo, pois não? Até há quem já tenha experimentado este modo de vida. Tirando a parte não envelhecer e morrer de overdose, isto é.
Confesso que em algumas passagens me senti atraída por esta sociedade de juventude e felicidade permanente. Não era tão bom? Estar contente, estar sempre contente?
No nosso mundo, por exemplo, não se pode manifestar muita tristeza. Mandam-nos logo para o psiquiatra e dão-nos antidepressivos. Pensar demasiado na morte? Prolongar "demasiado" um luto? Não gostar particularmente da vida? Só podem ser doenças mentais. Venha daí uma tablete de Soma. Sim, estamos quase lá.
A esta sociedade chega um estranho, a quem chamam Selvagem, que acidentalmente leu todas as obras de Shakespeare. São obras proibidas, mas mesmo que estivessem disponíveis talvez ninguém lhes pegasse porque são “velhas”. O Selvagem fica chocado com o que vê. Foi criado noutros princípios e não quer viver numa sociedade sem individualidade nem espiritualidade, em que não existe noção de transcendente, em que não há sequer a necessidade de Deus.
Num diálogo muito filosófico com o Controlador do Mundo, o Selvagem diz-lhe:

"But I don't want comfort. I want God, I want poetry, I want real danger, I want freedom, I want goodness. I want sin."
"In fact," said Mustapha Mond, "you're claiming the right to be unhappy."
"All right then," said the Savage defiantly, "I'm claiming the right to be unhappy"


No nosso mundo, aqui, que não é uma utopia de certeza, há cada vez menos este direito à infelicidade. Ninguém quer ser infeliz e ninguém quer lidar com os infelizes.
Há dissidentes, no mundo artificialmente feliz de “Brave New World”. Mas não há medo, tortura, violência, intimação. Os dissidentes, os que recusam esta sociedade sem individualidade, são simplesmente enviados para ilhas distantes onde podem viver uns com os outros como lhes apetece. Dois dos amigos do Selvagem são enviados para lá, compulsivamente. O Selvagem também quer ir, mas recusam-lhe o desejo. Como filho de um pai e de uma mãe naturais, tornou-se um valioso espécime de estudo. Mas o Selvagem também não tem qualquer interesse em ser estudado. Foge da civilização, cheio de culpa e remorsos devido à morte da mãe, e entrega-se, por sua vez, a uma outra utopia, a religiosa, vivendo num farol abandonado como um monge eremita, com auto-flagelação e tudo.
Nem mesmo assim o deixam em paz. Alguém o descobre e o transforma num divertimento circense, numa atracção de Feira de Aberrações. Tal como eu previa, o Selvagem não aguenta mais este isolamento, esta sensação de ser único e incompreendido, e volta-se para o Soma também. Mas não previ o que aconteceria a seguir.
Este livro continua tão actual como no dia em que foi publicado, se não mais, porque a nossa sociedade caminha (ou já lá está?) para o hedonismo absoluto, mesmo sem precisarmos de ser condicionados. Quem é que não quer estar contente, sempre contente? Mas de que vale a vida sem a morte, a alegria sem o sofrimento? Valerá alguma coisa? Uma excelente reflexão a termos todos.

* Nota sobre “1984” de George Orwell
Entretanto, li também “1984” de George Orwell. Fiz a crítica, agendei o post, estava pronto a publicar. Desgraçadamente, entrei no post agendado para mudar uma vírgula. Com um CTRL+Z desastrado, apaguei o post todo. O Blogger tem um sistema de “auto save” e não me permitiu voltar atrás com outro CTRL+Z. Lá se foi a crítica toda, e que trabalho me deu a escrever! Como o post já estava pronto, corrigido e agendado no Blogger, já não tinha sequer o rascunho da crítica. Fiquei tão zangada, mas tão zangada, que desisti de a escrever outra vez. Neste momento ter-me-iam dado jeito uns comprimidos de Soma para acalmar. Serviu-me de lição. Agora não apago os rascunhos enquanto os posts não estiverem publicados e guardados em back up.
Devido à violência do livro, também não voltarei a lê-lo e muito menos a comentá-lo. Direi apenas que devia ser um livro de leitura obrigatória para toda a gente. Se ainda não leram “1984”, larguem tudo e vão já ler.



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