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domingo, 13 de agosto de 2023

The Winchesters (2022-2023)


Já disse várias vezes e vou voltar a dizer: “Sobrenatural” deve ter sido das séries mais subestimadas que já existiram. Durante 15 temporadas e 15 anos (2005-2020), “Sobrenatural” prendeu a atenção dos fãs e fez mesmo fãs envergonhados que não admitem conhecer os Winchesters (mas conhecem!). A química entre Sam e Dean era intensa e genuína. É preciso não esquecer que a princípio eram dois irmãos em conflito, muito diferentes um do outro, unidos unicamente pela busca de vingança em sequência da morte da namorada de Sam nas mesmas circunstâncias que vitimaram Mary Winchester. “Sobrenatural” fazia-nos querer saber de Sam e Dean. As mortes atingiam-nos. Houve mesmo cliff-hangers entre temporadas que me deixaram muito preocupada com o destino dos “rapazes”. Até os personagens secundários se tornaram mitológicos de tão inesquecíveis.
“The Winchesters” segue a mesma fórmula, mas num patamar muito inferior a este. Com produção e narração de Jensen Ackles (aqui também no papel de Dean), esta é a história de Mary Campbell e John Winchester, ou seja, supostamente uma prequela dos acontecimentos de ”Sobrenatural”. Dean é o narrador, e desde o início nos deixa de pulga atrás da orelha de que isto não vai ser exactamente o que pensamos, mas não posso tentar explicar sem incorrer em spoilers. O último episódio desvenda tudo. Prestem atenção porque no final faz sentido.
Algumas passagens de “The Winchesters” parecem de facto contrariar o que vimos e sabemos de Mary e John. Por exemplo, na série original John não conhecia o passado de Mary como caçadora e só descobriu quando Azazel (o demónio dos olhos amarelos) a matou. É então que John se torna no caçador obcecado que conhecemos.
Em “The Winchesters”, John recebe de certo “homem misterioso” uma carta do pai, Henry Winchester, que o leva direitinho a um bunker dos Homens de Letras. Mais motivo ainda para desconfiar, uma vez que John Winchester nunca falou dos Homens de Letras aos filhos e que Sam e Dean só encontram esta organização já tarde na série. (O episódio em que eles descobrem o bunker é inesquecível.)
John e Mary conhecem-se por acaso quando John chega do Vietname. Também ela anda à procura do pai, Sam Campbell, que foi caçar para parte incerta atrás de uma pista sobre uns monstros de outra dimensão chamados Akrida. Os Akrida querem aniquilar a vida em todos os planetas e já não seria a primeira vez que tentavam atacar a Terra, mas foram repelidos pelos Homens de Letras. Como é que nunca tínhamos ouvido falar de uma ameaça tão grande como os Akrida? A certa altura os Akrida até dizem a John que foram eles quem mataram Henry, o que nos deixa ainda mais perplexos. Sabemos que os Homens de Letras foram dizimados por demónios. Então, que segredo se passa aqui?
“The Winchesters” tenta fazer o mesmo que “Sobrenatural” fazia no princípio: um monstro da semana ao mesmo tempo que os caçadores perseguem a ameaça maior, os Akrida. É neste pano de fundo que John e Mary se apaixonam.
Ora, sinceramente, sabendo nós que este foi um amor épico, eu esperava ver faíscas a voar entre os dois. Pelo contrário, e lamento muito dizê-lo, não existe quase química, nem boa nem má, entre os dois actores. Mary e John são ambos casmurros e mandões, o que bate certo, e passam a série a discutir. Nunca aquela relação resultaria na vida real e muito menos acabaria em casamento. Simplesmente não está lá. Mary e John parecem mais irmã e irmão, o que neste caso não funciona por razões óbvias.
Aliás, todos os personagens mais jovens são muito superficiais. Temos algumas cenas boas com a mãe de John, Millie Winchester, a bruxa boa Ada Monroe, Sam Campbell e os actores veteranos em geral (alguns deles caras familiares do passado, mas não vou revelar). Não culpo os actores mais novos. Simplesmente não lhes foi dado o peso dramático que acontece naturalmente nas conversas entre os mais velhos.
John, Mary, Latika e Carlos não tiveram grande enredo emocional com que trabalhar. Sem surpresas, a série não foi renovada. Não sei se tenho pena ou não. Depois do último episódio ficou tudo muito bem resolvido. Não estou a imaginar mais temporadas de monstros da semana (e até esses foram muito fraquinhos) depois das proporções épicas atingidas por “Sobrenatural”. Os irmãos Winchester impediram dois ou três apocalipses, foram ao Inferno, foram ao Purgatório, foram ao Céu, travaram a irmã de Deus, mataram Lúcifer, mataram Deus, até mataram a Morte, tinham um anjo como melhor amigo e foram os pais adoptivos de um novo Deus. É difícil ultrapassar isto.
“The Winchesters” estaria sempre condenado a ser um sub-produto Young Adult a não ser que ganhasse asas como “Sobrenatural” ganhou. Sim, é preciso não esquecer que as primeiras temporadas de “Sobrenatural” não deixavam adivinhar o que veio depois. Faltou aqui a magia entre Sam e Dean, e faltaram as asas, algumas bastante literais como as de Castiel. Talvez com o tempo “The Winchesters” levantasse voo também, mas a temporada inicial não bastou para agarrar os fãs.
Eu achei interessante como entretenimento, mas confesso que os melhores momentos foram protagonizados pelas personagens da série original (obviamente). Detestei a música dos anos 70. Adorei a moda! Aquele poliéster todo, as calças de boca de sino, a roupa hippie, as flores no cabelo. A certa altura Mary usa um vestido branco que parece uma mistura entre camisa de dormir e vestido de noiva (alguma moda da altura era tenebrosa, admito). E adorei que os caçadores tivessem de usar livros a sério para investigar os monstros e que só pudessem comunicar-se através de telefones fixos ou rádios. Muito retro. Não desprezemos o poder da nostalgia. Talvez um dos problemas da série tenha sido não ter apostado mais na nostalgia. Afinal, resultou com “Stranger Things”. Mas talvez os fãs de “Sobrenatural” não tenham idade para nostalgias dos anos 70. Seja o que for, não resultou.
RIP “The Winchesters”. Ou talvez não, porque em “Sobrenatural” as coisas só ficam mortas até voltarem à vida. Talvez Jensen Ackles acerte para a próxima.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Sobrenatural

 

domingo, 17 de outubro de 2021

Supernatural / Sobrenatural (2005 - 2020)


[alguns spoilers inevitáveis mas não revela o fim, era só o que faltava depois de 15 temporadas!]

Quinze anos. Quinze temporadas. Sem um único episódio mau. Ou melhor, até os episódios mais fracos eram bons. Não é para todos, e “Sobrenatural” é uma das séries mais subestimadas de todos os tempos.
Para quem não sabe, “Sobrenatural” foi pensado para cinco temporadas. Dois irmãos caçadores de monstros (o negócio de família, como eles dizem), um monstro da semana, 23 episódios do mesmo todas as temporadas. Mas a certa a altura a coisa cresceu, muito por responsabilidade dos excelentes actores capazes do mais dramático e do mais cómico, Jared Padalecki e Jensen Ackles, a que brevemente se juntou Misha Collins que imediatamente nos “convenceu” de que era mesmo um anjo.
As interpretações, das personagens principais às secundárias, são extraordinárias e envergonham muitas outras séries mais vistas e ditas de qualidade. (Vou ter de recorrer a cábulas para isto, porque foram muitas, muitas personagens. Quinze temporadas!) Mark Pellegrino foi um dos melhores Lúciferes que eu já vi, em filme ou televisão. O mesmo posso dizer de Julian Richings no papel de Morte (a Morte mesmo, um dos cavaleiros do Apocalipse). Julian Richings fez uma Morte tão sinistra que a partir de agora não o vou conseguir ver de outra maneira. Mas não descuremos a Morte que o substituiu quando a primeira Morte morreu (sim, nesta série a Morte foi para o Outro Mundo), a fantástica Billie (Lisa Berrie) que quase conseguiu ser tão sinistra como o seu “patrão”, mas a actriz é demasiado bonita para ser tão ameaçadora, diga-se a verdade, e mesmo assim fez uma Morte de meter medo.
Não nos podemos esquecer do carismático Crowley (Mark Sheppard), primeiro um humilde Demónio de Encruzilhadas promovido a Rei do Inferno, que sempre que entrava em cena roubava o cenário todo. O que me lembra a mãe dele, Rowena (Ruth Connell), bruxa centenária, umas vezes vilã outras aliada, conforme lhe dava mais jeito.
Receio cometer a injustiça de me esquecer de alguém, porque algo que “Sobrenatural” sempre fez bem foi desenvolver excepcionalmente as personagens, dos heróis aos vilões. Quando alguém morria a gente sentia, e de que maneira. Por exemplo, Bobby (Jim Beaver). Custou-me uns dois episódios a acreditar que ele tinha morrido mesmo. (E penso que foi a primeira vez que Dean disse que se Bobby morresse ele matava Deus, mas toda a gente pensou que era um desabafo do luto…) Mas em “Sobrenatural” ninguém morre mesmo, o que ainda deu umas cenas hilariantes no Céu.
Para não descurar ninguém, remeto os leitores para a página dos créditos do IMDB, onde poderão recordar todos os personagens e actores. Inesquecíveis, mas é impossível lembrar todos de uma vez só para este post. Por mim, tenciono ver a série toda outra vez, desde a primeira temporada. Foi muito riso, muita emoção. Quando via um episódio de “Sobrenatural”, sabia que ia ficar bem disposta. Tirando aqueles em que morria mesmo gente. Esses não eram divertidos. “Sobrenatural” tinha uma faceta cómica, é inegável, mas o drama podia ser pesado.

Mais Sobrenatural não há
Sam e Dean são heróis imbatíveis, mas nunca super-heróis. Como humanos que são, correm todos os riscos que qualquer pessoa correria. Mesmo assim, evitaram o Apocalipse, foram ao Inferno, foram ao Céu, morreram várias vezes, foram ao Purgatório. Para além da legião de vampiros, lobisomens, djinns, wendigos e que tais que eram os ossos do ofício, enfrentaram entidades cósmicas cada vez mais poderosas: demónios, Lúcifer, anjos e serafins e arcanjos, o Rei do Inferno, a bruxa mais competente do planeta, eles próprios quase se transformaram em demónios também (entre outros monstros que os “infectaram”), Hitler (que não é uma entidade cósmica mas é sem dúvida um super-vilão), a Escuridão, irmã de Deus (Amara, Emily Swallow) sim, Deus tem uma irmã! Ainda estou de boca aberta por uma cadeia de televisão americana ter deixado isto passar. Se calhar por causa do humor não perceberam o potencial blasfemo, ou porque a série teve o cuidado de nunca tocar no nome de Jesus, ainda mais sensível para os cristãos do que o próprio Deus, aliás, um Deus muito à Velho Testamento. No fim, os irmãos Winchester tiveram de enfrentar o Ser mais sobrenatural de todos, o Ser que criou o Natural, logo, está acima dele: tiveram de combater Deus!
É verdade que o Deus de “Sobrenatural” não é o “nosso” Deus, antes um escritor falhado e caprichoso que insiste que o tratem por Chuck, mas não deixa de ser o Todo-Poderoso. Como poderiam Sam, Dean e Castiel, auto-intitulados Equipa Livre-arbítrio, contrariar o destino que Chuck tinha delineado para eles e para toda a Criação?
Que mais dizer de uma série que durou quinze anos e quinze temporadas, que nunca se tornou irrelevante, que manteve sempre o suspense e acabou enquanto era boa? Confesso que esperava outro fim. Por muito que os protagonistas avisassem que o fim seria sangrento, eu sempre tive esperança de um final feliz para os rapazes… E foi um fim feliz, mais ou menos. Mas para compreender isto é preciso aceitar a sólida mitologia da série. Quem diria, na quinta temporada, quando a sinistra Morte comentou que um dia Deus também seria “ceifado”, que os variados escritores que vieram depois nunca tivessem deixado cair essa ideia? É tão raro ver um enredo bem construído, sem pontas soltas, especialmente numa série desta longevidade!
Só posso aconselhar a que se veja do princípio, desde o primeiro episódio até ao último. Vou sentir falta do divertimento (muitas vezes negro e amargo) que “Sobrenatural” me trazia todas as semanas. Mas se é para acabar, e tudo acaba, mais vale acabar enquanto é bom.