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domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.


domingo, 27 de janeiro de 2019

The Twilight Saga: Eclipse (2010)


Terceiro episódio de Edward o-vampiro-que-brilha e Bella a-rapariga-que-só-quer-ser-vampira. E agora também temos Jacob o-lobisomem-que-quer-comer-a-Bella-no-melhor-dos-sentidos.
Fiquei um pouco confusa logo a começar. Nunca me passou pela cabeça que a situação com a vampira Victoria (a ruiva que aprendeu a correr por entre as árvores num ângulo de 90º como na Matrix) não estivesse já resolvida. Isto é que é tenacidade. Victoria quer mesmo muito vingar-se por causa de coisas que aconteceram no primeiro livro/filme e de que eu já não me lembro. Mas recordo que foi o bando da Victoria que se meteu com os Cullen por isso ela não tem razão nenhuma. As pessoas têm mesmo de aprender a desprender-se e partir para outra. Victoria precisa de ler um livrinho de auto-ajuda.
Victoria continua obcecada em matar Bella para que Edward sinta a dor de perder um amor, como ela sentiu. E também dá muito jeito ao enredo principal, porque obriga os vampiros e os lobisomens a fazer uma aliança para se revezarem a proteger Bella.
Entretanto, e depois sabemos que foi Victoria também, alguém cria um exército de vampiros recém-transformados (a quem chamam recém-nascidos) para atacar os Cullen em grande escala. Na mitologia de Twilight os vampiros são fisicamente mais fortes quando são transformados há pouco tempo. Geralmente é o oposto, o que faz com que os vampiros muito antigos sejam praticamente invencíveis. Esta ideia de maior fragilidade física mas de aquisição de outras capacidades é interessante e foge aos lugares comuns do mito do vampiro.
Por falar em mitologia, neste filme temos um flashback que nos explica como começou a animosidade entre os lobisomens e os vampiros. Mas temos também a resposta à questão que coloquei na crítica ao filme anterior, New Moon: os lobisomens têm consciência do que fazem enquanto lobos? Sim, têm. E conseguem, efectivamente, transformar-se quando querem, sem qualquer influência lunar. Até há uma cena em que os lobisomens vão a um encontro com os vampiros em forma de lobos porque se sentem mais seguros assim. (É uma cena algo ridícula, se não mesmo infantil, em que de repente temos os vampiros a combinar estratégia com os lobos silenciosos -- também era melhor se falassem! -- enquanto Bella faz festinhas ao lobo Jacob. Por falar nisso, o CGI dos lobos não é nada realista. Parece um desenho animado para crianças.)

 Eu também gosto muito de animais.

Ora, como dizia na crítica anterior, isto é problemático. Se os lobisomens têm consciência do que fazem como lobos são tão maus como os vampiros e não têm autoridade moral para se sentirem superiores. Duvido que esta questão existencial alguma vez seja abordada no universo Twilight mas fica a minha nota.
Também disse que estava a torcer pelo Jacob, mas neste filme o jovem lobisomem está a passar pela fase “parva” e não podia estar a sair-se pior com a Bella. Mas que outra coisa esperar? O rapazinho tem 16 ou 17 anos, ainda tem muito que aprender sobre como encantar o sexo oposto. O Edward tem 90 anos de lábia e anda atrás de uma miúda do liceu. Desculpem, fãs, factos são factos. Pobre Jacob, não tem a mínima hipótese.
O envolvimento dos Vulturi é, como sempre, o que mais gosto na saga. Porque me lembram os vampiros Riceanos, claro está. Armand ficaria orgulhoso destes Vulturi.
Não percebi, no filme, de que matéria são feitos os vampiros. Pedra, gelo, é por isso que brilham? É o que parece no filme, ou é culpa dos efeitos especiais. (Akasha foi durante séculos uma vampira “petrificada” mas isso era porque não se alimentava. Quando voltou à “vida” parecia completamente de carne e osso.) Quando os vampiros de Twilight são decapitados não há sangue a jorrar e carne à mostra. Parecem objectos partidos, o que lhes retira a humanidade. Como é que podemos ter pena de uma boneca partida? É isto que Bella quer ser?
Por último, nunca é explicado o título do filme. Qual eclipse? Penso que se referem ao exército que era liderado por um testa-de-ferro aparentemente criado por Victoria. Desta forma, ela estava “eclipsada” atrás dele. Será? Eu acho rebuscadíssimo mas não encontro outra explicação. Talvez o livro tenha explicado melhor.

12 em 20

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

New Moon / Lua Nova (2009)


Segundo capítulo das aventuras de Edward o-vampiro-que-cintila e Bella a-rapariga-que-só-pensa-no-Edward.
Um dos motivos porque a saga Twilight foi tão mal recebida pelos verdadeiros amantes de vampiros foi na verdade um equívoco gerado pelo marketing à série. Um desfasamento de expectativas. Embora tenha elementos sobrenaturais, Twilight pertence mais ao género romântico do que a qualquer outro. O facto de ter vampiros e lobisomens é quase irrelevante. Se os substituíssemos por grupos rivais o enredo seria exactamente o mesmo. Esta é, acima de tudo, uma história romântica, e os amantes de horror que não apreciam o género romântico não vão encontrar aqui satisfação.
As minhas razões para continuar a seguir a saga são mais obcecadas. Sou de tal forma uma viciada em vampiros que muito raramente consigo resistir e vejo tudo: do muito bom ao muito mau. Para quem não é alérgico a histórias românticas, a saga Twilight vê-se.

Sempre desconfiei de vampiros que brilham
Depois dos acontecimentos do primeiro livro, que puseram Bella em perigo, Edward decide finalmente fazer a coisa certa e deixar de andar atrás de miúdas de liceu. Mas fá-lo mal. Em vez de revelar os seus verdadeiros motivos, arma-se em “todo-bom” e diz a Bella que esta não é digna dele. Grande estafermo. Eu já não gostava do Edward, mas neste filme começo mesmo a detestá-lo. Sem mais explicações, desaparece, deixando a miúda bastante deprimida por uns meses. Mas na verdade Edward não rompeu completamente, como devia ter feito se era mesmo esse o objectivo. Continuou em contacto com Bella através da ligação psíquica, o que pessoalmente achei de muito mau gosto. (Se vais, vai. Não vás pela metade.) Desta forma, nunca lhe permite recuperar e ultrapassar a relação. O que é mais grave, Bella fica à mercê dos inimigos dos Cullen, na ausência destes, e começa a ser perseguida por vampiros vingativos. Outra má onda. Não a deviam ter deixado sozinha nestas circunstâncias. Nomeadamente Edward sabe o que se passa (através da tal ligação psíquica) e nem isso o leva a mexer o traseiro para ir resolver problemas que são da família dele. (Estão a ver porque é que o detesto?)

Vampiros vs lobisomens
Felizmente, Bella torna-se mais próxima de Jacob, o índio. Admito que sempre gostei deste personagem. Sempre que ele aparecia no livro original, era uma lufada de ar fresco. Jacob parece ser o único que pensa e diz coisas com pragmatismo, e além disso tem sentido de humor. É difícil não torcer por ele. (Mas só aqui entre nós acho que a Bella não o merece.)
Quando se aproximam, Jacob ainda não sabe que é lobisomem. Mas atingiu a idade e as transformações começam a acontecer. (Coitada da Bella, também admito que não pode haver rapariga mais azarada. Ou se apaixona por vampiros ou lobisomens.)
Os lobisomens de Twilight, à semelhança dos vampiros, também não obedecem aos cânones. Não precisam da noite nem da Lua Cheia para se transformarem. Não sei se o livro explica melhor, mas fiquei com dúvidas. Conseguem transformar-se quando lhes apetece ou apenas quando se enfurecem? A Lua Cheia terá alguma influência, ou nenhuma? E até que ponto têm consciência humana na fase lobo? Se percebi bem, são responsáveis por alguns homicídios que a polícia da terra andava a investigar. Mas Jacob parece reconhecer Bella na fase de lobisomem, o que é problemático do ponto de vista da consistência. (Se como “lobo” tem este grau de consciência, também é responsável pelos homicídios.) Também não cheguei a perceber porque é que há rivalidade entre vampiros e lobisomens. O filme não explica, simplesmente apresenta como facto. Nos Diários do Vampiro, pelo menos, são apresentados como inimigos naturais porque uma dentada de lobisomem mata um vampiro. Aqui, não percebo qual é a rivalidade (e não me quero pôr a conjecturar). Afinal, não são todos monstros? Até deviam dar-se bem, penso eu. No primeiro livro/filme já havia aversão dos índios para com os Cullen, mas pensei que se devia apenas a saberem que eram vampiros. Afinal a aversão é outra.
É Jacob que lá está quando é preciso salvar Bella. Começa a estabelecer-se entre eles uma relação maior do que amizade. E eu a torcer por ele, obviamente.
Mas a relação não chega a ter tempo de se desenvolver. Em busca de adrenalina, e porque é jovem e não pensa (e para tentar que Edward a contacte psiquicamente), Bella decide mergulhar de um penhasco. Alice, a irmã adoptiva de Edward e vampira médium, tem uma visão deste mergulho e julga que Bella se tentou suicidar. Aqui acontece uma peripécia um bocadinho forçada. Sem confirmar que Bella está morta, Edward acredita apenas na visão de Alice e decide ir entregar-se a um clã de vampiros na Itália, os Volturi, que matam aqueles que quebram as regras. A primeira de todas é que os vampiros não devem expor-se aos seres humanos (brilhando ao sol). Nesta tentativa de suicídio à Romeu (porque não consegue viver num mundo onde Bella não viva), Edward decide quebrar as regras para que o matem. Mas eu acho isto um pouco precipitado. A própria Alice diz que nem sempre vê tudo. Porque é que o Edward acredita numa visão sem se certificar? Pelo menos ia ao funeral, não? Mas assim é mais dramático.
Bella e Alice chegam mesmo a tempo de o salvar, mas os tais Volturi exigem que ela seja transformada porque sabe demais. Isso, ou morta. Mais uma vez, Edward arranja-lhe problemas. Bravo, Edward vampiro-brilhante! E a Bella deixou o Jacob para isto!
Estes Volturi lembram-me os vampiros de Anne Rice, no tempo do coven do Cemitério dos Inocentes e do Teatro dos Vampiros. A qualquer altura, esperava que o vampiro Armand entrasse pela sala.

 Armand, Lestat e Louis não estavam disponíveis para participar no filme.

Tal como os vampiros de Armand, também estes se julgam a autoridade vampírica e gostam das suas regrazinhas. São os piores. O filme consegue um momento de quase-terror quando um grupo de turistas é guiado para dentro do palácio dos Volturi para lhes servir de refeição. Como é que eles explicariam todos estes desaparecimentos, pergunto-me? Levantar suspeitas também é contra as regras. Mas o filme não é sobre isto.
O facto é que Bella quer ser vampira. Desde o início do filme, não fala de outra coisa. Até me perguntei: mas esta miúda nunca leu Anne Rice? Aparentemente não, porque no mundo de Twilight não existem as Vampire Chronicles. Bella não quer ser vampira para ser imortal, nem para ser jovem para sempre, nem para ter poderes especiais. Nada disso. Bella quer ser vampira para ficar mais próxima de Edward. A princípio ele rejeita a ideia (única coisa em seu favor) mas acaba por concordar (lá se foi a coisa).

E assim terminaram duas horas de filme. Não imagino quando verei a continuação. Acompanho por uma questão de curiosidade e cultura “geral”, como acompanhei o Harry Potter. (De outra forma, como é que ia perceber as referências culturais da gente mais nova?) Comparando entre ambos os fenómenos, desgosto menos do Twilight. Pelo menos tem vampiros. E pronto, é só isto.


13 em 20 (ponto extra porque os Volturi me lembraram outras vampiragens)




domingo, 8 de outubro de 2017

"Prince Lestat", de Anne Rice


Já me tinham avisado de que este livro é uma desilusão, mas recusei-me a acreditar antes de ler. E depois recusei-me a acreditar antes de chegar ao fim. E agora que acabei de ler também não adjectivaria o livro como uma desilusão, mas como um manancial de ideias mal aproveitadas que até podiam ter dado um grande livro se tivessem sido exploradas como Anne Rice nos habituou. Infelizmente, este não é um livro da qualidade a que Anne Rice nos habituou. De todas as minhas queixas, a principal é mesmo essa. O que mais gosto na escrita de Anne Rice é que nos mergulha na psique dos personagens e nos faz compreender todas as suas motivações. Infelizmente, é o que mais falha em "Prince Lestat". Nunca consegui compreender as motivações dos personagens, dos já conhecidos e dos que são apresentados neste livro. Muitas das suas decisões e personalidades pareceram-me até incoerentes, como se durante o hiato em que Anne Rice pôs de lado as Vampire Chronicles se tenha esquecido de quem estes personagens são.

Para explicar estes motivos de insatisfação, terei de incluir spoilers. Quem ainda não leu e pretende ler, pode preferir interromper a leitura aqui e regressar mais tarde.


!!!CONTÉM SPOILERS!!!


Rowan? Qual Rowan? Quinn e Mona, idem
A minha primeira insatisfação é a falta de continuidade com o último livro da série, “Blood Canticle”. No fim deste, Lestat e Rowan, das Mayfair Witches, estão completamente apaixonados. Lestat até pensa em dar o Sangue a Rowan, mas decide adiar porque acha que ela ainda tem muito que fazer como humana. (Esta ideia é importante para este livro.) Mas ficamos a pensar que o romance vai ser retomado, se é que chega a ser interrompido.
Neste livro, eu talvez esperasse continuar a partir daí. Mas mesmo não continuando, nunca imaginei que aconteceria o que aconteceu: Rowan desaparece como se nunca tivesse existido. Nem uma palavra é dita sobre ela. 
Mona e Quinn, personagens de "Blackwood Farm" e "Blood Canticle", também não são mencionados, como se nunca tivessem acontecido, como se Anne Rice se tivesse arrependido de escrever esses dois últimos livros.
Mas Mona e Quinn (apesar de nunca terem sido personagens de que eu goste particularmente, especialmente a fútil Mona) são agora vampiros. Tendo em conta o enredo desta história, eles deviam ter aparecido, mais ainda, deviam ter estado sempre ao lado de Lestat. Incompreensivelmente, desapareceram também.

Os vampiros cientistas e o bebé-proveta
Parece o título de uma comédia, mas aconteceu mesmo. Lestat conhece uns vampiros que são igualmente cientistas e que se dedicam a estudar a fisiologia da espécie a que pertencem (outros vampiros). Até aqui tudo bem e normal. Conseguem convencer Lestat a participar nestas experiências, ao que ele acede porque lhe parecem interessantíssimas, e por meios que nem vale a pena explicar devolvem-lhe temporariamente a capacidade sexual. (Como os leitores das Vampire Chronicles sabem, os vampiros de Anne Rice perdem qualquer capacidade de desejo ou actividade sexual, sendo esta completamente substituída pelo desejo de sangue.) Lestat consegue assim envolver-se numa relação sexual com uma cientista humana, para fins científicos. Quando a coisa termina e o efeito da experiência passa, a Lestat apetece imediatamente "exanguinar" a parceira, o que não deixa de ser engraçado.
Ainda bem que não o fez, porque o sémen aproveitado deste encontro é utilizado para criar em laboratório um bebé 100% humano! Isto é, Lestat é pai! Lestat tem um filho! Humano! Eu adorei esta parte, imaginando que tipo de pai poderia Lestat tornar-se, como o poderia fazer evoluir e transformá-lo.
Que desilusão! Por razões que me ultrapassam, os cientistas acham melhor esconder a criança do pai, embora o miúdo saiba, desde sempre, que é filho do famoso vampiro Lestat.
Ora, isto não me entra na cabeça. Custava alguma coisa que um deles lhe tivesse telefonado:
“Lestat, pá, como vai isso?”
“Hã, assim assim.”
“Pá, nem vais acreditar no que aconteceu. Lembras-te daquela experiência, com a cientista boazona, no laboratório? Pá, és pai, pá! Vem cá já ver o puto! Mas não o comas, fixe? ”
Nada disto aconteceu. Lestat só toma conhecimento deste filho quando este já tem 18 anos. E não se percebe porquê, porque Lestat e os cientistas ficaram amigos e não havia razão para que não participasse na paternidade. O que Lestat teria para ensinar a um miúdo humano!
O que é que Anne Rice estava a pensar, pergunto-me? Que oportunidade desperdiçada.

A insuportável Rose
Em vez disso, somos apresentados a mais uma protegida de Lestat, uma miúda órfã chamada Rose a quem este decide “adoptar”, apresentando-se como tio Lestan. A história de Rose não me diz nada. A miúda foi tão protegida por amas e seguranças que nunca conseguiu aprender a safar-se sozinha no mundo. Cresceu uma flor-de-estufa, uma mosquinha morta. Uma daquelas donzelas do século XIX que choram e desmaiam e precisam de ajuda para atravessar a rua. Uma coisa que já não existe, graças a Deus.
Resultado: Rosa mete-se em problemas atrás de problemas e não sabe sair deles sozinha. Rosa nem sequer tem um grupo de amigos, nem um único. Só podia correr mal!
Em vez desta insuportável Rose, eu queria ver o Lestat ser um pai para o filho verdadeiro. Como é que alguma vez Rose poderia ser relevante, quando subitamente Lestat tem um filho biológico e humano com quem nunca o vemos relacionar-se? Rose não era necessária para nos mostrar que Lestat tem tendências paternais (sabemo-lo desde Claudia de "Entrevista com o Vampiro") e ainda por cima não desempenha qualquer papel influente no enredo. O que Rose fez na história foi ocupar espaço que devia ter sido usado com Viktor, o filho de Lestat.

A ameaça
"Prince Lestat" é a história de como a comunidade vampírica enfrenta a maior ameaça desde que Akasha ("A Rainha dos Malditos") decidiu destruir todos os vampiros (ou quase). A ameaça, suspeito, é a mesma, porque desta vez é o espírito Amel (o espírito que vivia no corpo de Akasha e origem de todos os vampiros) que após milénios de dormência toma consciência de si próprio e decide que existem demasiados vampiros no mundo. Amel possui um corpo (espiritual, mas um corpo) que também tem limitações, e a proliferação de vampiros esgota-o e enfraquece-o. Desta forma, Amel começa a convencer os vampiros mais velhos, os que já adquiram o Fire Gift, a incinerarem os mais novos. A maneira como os atormenta até que lhe façam a vontade nada deve à possessão. Amel é tão cruel que ameaça os resistentes: se não fazem o que lhes manda, mandará outros matá-los a eles.
Descobri muito depressa de quem era esta Voz que sussurrava ao ouvido dos vampiros, mas não penso que o livro tenha feito dela grande mistério, de propósito ou não, porque Lestat e outros vampiros também já desconfiavam ainda antes de começarem a falar disto uns com os outros.
A Voz, que mais tarde se veio a confirmar ser Amel, é o enredo fulcral desta nova história das Vampire Chronicles. O final, sem querer revelar, foi bastante imprevisto.
Mas que faz Lestat ao conhecer o perigo que enfrenta? Lestat vai buscar um pequeno machado e começa a usá-lo dentro do casaco. Sim, leram bem, um machado! E pequeno! Ora, desde quando é que o vampiro Lestat anda com um machado? E para quê? O que é que Lestat fazia com um machado se lhe aparecesse à frente um vampiro de 6000 anos com intenções de o transformar em cinzas? Esta parte é tão estúpida que até dói. O pior é que Anne Rice nem tenta explicar. Podia ter havido uma explicação plausível, algo do género, “sei que um machado não me protege mas era o que eu usava quando era humano e de alguma forma irracional conforta-me andar com ele neste momento de perigo”. Se era isto que Anne Rice queria transmitir, não transmitiu. Mas o machado acabou por ser muito conveniente quando foi preciso um machado e Lestat o tinha dentro do casaco… Ele há conveniências que só as necessidades do enredo podem explicar.

Lestat superstar
Por falar em vampiros de 6000 anos, esta história apresenta-nos uns quantos que ainda não conhecíamos. O que também é bastante interessante. O que não faz qualquer sentido é que até estes concordem que Lestat deva ser o novo líder de todos os vampiros.
Exactamente, o líder! Por razões que me são incompreensíveis, todos os vampiros do mundo (Armand incluído) decidem que Lestat é o homem perfeito para os liderar. Lestat passará a ser o príncipe dos vampiros! Ora, isto não faz sentido nenhum, nem para o próprio Lestat. Ele mesmo o diz, a certa altura, como é que o vampiro que mais regras quebrou ficará agora encarregado de as estabelecer?! (Boa pergunta, Lestat! E olha, já agora, como e porque é que mudaste de ideias? Foi a tua vaidade, não foi? Mas não explicaste, maroto! Dantes costumavas ser mais sincero. Cuidado, não te transformes mesmo num político.)
Mas é assim que Anne Rice apresenta o mundo dos vampiros. De repente, vampiros antiquíssimos, vampiros de primeira geração, vampiros que já viveram milénios, decidem achar que Lestat é presidenciável, ou realeza, ou algo assim, porque… Ah, é verdade. Não se percebe porquê. Porque teve uma banda rock? Porque expôs os vampiros ao mundo (e não foi ele, foi Louis quem o fez primeiro)? Porque os vampiros mais novos o consideram um vampiro superstar? Pela sua bela “juba de cabelo loiro”? Isto era como se um líder político fosse escolhido por ser um fenómeno de popularidade. Até estaria disposta a aceitar se fossem apenas um ou dois vampiros fascinados com Lestat, mas todos? Não. 

As gémeas estavam a mais
Esta fascinação por Lestat também deu muito jeito no caso de Mekare, e em como Anne Rice se livrou das duas gémeas no mesmo livro. (Grande spoiler: as gémeas foram-se, excepto se regressarem como fantasmas.) Mas novamente não faz sentido. Não me lembro exactamente qual era o estado mental de Mekare no fim de "A Rainha dos Malditos", mas é-nos dito neste livro que o cérebro de Mekare está praticamente morto devido a ter passado milénios sem contactar com ninguém. Ora, nesse caso, Akasha, que “petrificou” durante milénios seguidos, não teria ficado no mesmo estado? E não poria isso em causa a capacidade de regeneração vampírica da mitologia destes vampiros? Mas fechando os olhos a estes pormenores (que até não são pormenores, mas adiante), o cérebro de Mekare, dizem-nos, não funciona. Mekare não é capaz de um pensamento racional. Mekare é um vegetal. Muito bem, aceitamos isto. Como é que então Mekare subitamente dá a entender a Lestat que quer morrer? A mesma Mekare que não teve a capacidade mental de perceber que a sua irmã Maharet tinha sido assassinada quase debaixo do seu nariz? Não faz sentido. O cérebro de Mekare funciona ou não funciona, ou só funciona quando dá jeito ao enredo? 
Que mal Anne Rice tratou Mekare, e as gémeas. As gémeas que eliminaram Akasha, que souberam o que fazer para impedir a destruição de todos os vampiros que a morte de Akasha implicava! A única maneira de redimir a falta de cerimónia com que as gémeas foram despachadas seria mesmo fazê-las regressar como espíritos. (Neste livro, somos informados de que alguns fantasmas aprenderam a criar um corpo físico para si próprios. Não sei se gostei disso.) Algo me diz que Anne Rice não o fará, que as gémeas morreram porque a autora se fartou delas, e nota-se. Esta parte, a parte em que se nota, é que me incomoda.

O filho (invisível) de Lestat
E por último, voltamos à tristeza que foi o desperdício deste filho biológico, Viktor. A pobreza que foi aquela primeira conversa: 
“Sou o teu filho Viktor”
“Pois, parece que sim”
Nem foi tão engraçado como isto, foi muito pior. Foi seco, foi forçado, foi artificial. Absolutamente nenhuma emoção, nem boa nem má. E depois Viktor diz ao pai que também quer ser vampiro. (Aqui, recordemos que Lestat não transformou Rowan por achar que ela ainda tinha muito que fazer como humana.) O que faz Lestat? Aceita! Sim, filho, vamos já tratar disso. Marius, transforma-me aqui o puto, se faz favor.
Não Lestat! O que devias ter-lhe dito era o que ele precisava de ouvir: “Queres o quê?! Ser vampiro? Qual vampiro qual carapuça! Quantos anos tens, 18? Pensa mas é em ir para a escola, tirar um curso, arranjar um emprego! Vai viver a vida! E dá-me um neto, já agora! E depois, quando fores um homenzinho, logo se pensa no assunto.” 
Não. Lestat aceita transformar um adolescente em vampiro, antes de ter oportunidade de experimentar a vida, antes ainda de sair de casa dos pais. Isto não me entra na cabeça. Lestat não aprendeu a lição de Claudia?!?!... Por falar em Claudia, o único que ainda tem algum juízo, valha-nos isso, continua a ser Louis. Foi o único que disse ao miúdo que o vampirismo não é vida, é não-vida. Que para ser vampiro Viktor tem de morrer antes. Não adiantou nada. 
Rose apaixonou-se por Viktor e também quis ser vampira. O que não interessa nem ao menino Jesus, porque nunca se viu um romance tão forçado e artificial e conveniente (?) como o destes dois. Detesto tanto esta personagem que quando a autora dá entender que por pouco Rose não sobrevivia à transformação, torci para que não sobrevivesse mesmo. Se esta série de livros é para continuar, Rose tem de desaparecer ou ser remetida para um lugar muito nas sombras, ou ter qualquer papel relevante que não seja ser apenas a filha adoptiva de Lestat que é namorada do filho biológico de Lestat, e que também é vampira.
Nunca julguei dizer isto, mas uma personagem como Rose fez-me desejar que Mona regressasse.
Quanto a Viktor, não sabemos nada dele excepto a sua aparência física e que tem medo de espaços subterrâneos (relevância? não sei). O livro não achou interessante debruçar-se sobre a personalidade do único filho biológico do protagonista. Escolhas curiosas, estas. Este podia ter sido um enredo tão interessante como o enredo de Amel, se não mais, mas Anne Rice desperdiçou-o tão completamente que não percebo por que motivo decidiu que Lestat devia ter um filho. Não é todos os dias que um vampiro deste universo consegue ter um filho biológico, faria todo o sentido que um acontecimento destes fosse explorado à altura.

Não bastando todas estas queixas, ainda tenho outra. No final, Anne Rice tenta convencer-nos de que Louis, subitamente, se livrou da melancolia. Que subitamente decidiu que é feliz. Oh horrores, oh injúria! Se ao menos não soasse a falso! Mas cada vez estou mais convencida de que Anne Rice odeia o personagem Louis e se quer livrar dele. Se não fisicamente, transformando-o noutra coisa. Talvez não fosse assim quando escreveu "Entrevista com o Vampiro", mas depois disso Louis desapareceu e começou a ser cada vez mais maltratado pelas Chronicles. Neste aspecto, "Prince Lestat" não destoa da tendência anti-Louis.

Pela primeira vez desde que leio as Vampire Chronicles terminei este livro sem qualquer vontade de o ler outra vez. Não sei se é uma desilusão, para mim pessoalmente, porque "Blackwood Farm" e "Blood Canticle" já não me agradaram tanto como os anteriores. Confesso que não esperava todos os motivos de queixa que apontei acima, o mais grave de todos a falta de importância que é dada à paternidade de Lestat.
No fim do livro, parece que Lestat decide que os vampiros têm de deixar de pensar mal de si próprios, que não são monstros (não, que ideia!), que já não se devem referir a si próprios como The Damned ou ao vampirismo como The Devil’s Road. Em suma, querem ter orgulho em si próprios como "povo". A minha vontade de ler livros posteriores vai depender disto. O mais interessante nas Vampires Chronicles era o perpétuo dilema dos vampiros entre a necessidade de matar e o remorso, entre a imortalidade e a nostalgia da vida mortal, entre o Bem e Mal. Se este dilema acaba, se até Louis resolve decidir que não podia estar melhor como está, que apelo poderá restar nesta série? Não sei, e talvez leia o próximo livro ("Prince Lestat and the Realms of Atlantis") para só para chegar a uma opinião definitiva.
Mas neste momento as Vampire Chronicles estão a perder-me.
Com outra escritora, diria que este livro foi escrito porque a autora precisava do dinheiro para pagar as contas. (Parece que a série sobre Cristo não vendeu o que se esperava.) Anne Rice, do que sei, não precisa do dinheiro. Mas, talvez por sorte, nunca li dela um livro tão desinspirado como este. É como se, ao decidir deixar de escrever sobre as Trevas e começar a escrever sobre a Luz, ela tenha delirado que as Vampire Chronicles também podiam pertencer à Luz. Fechando os olhos ao crime e à morte, porque os vampiros se alimentam de “malfeitores”. Mas até os malfeitores têm direito a julgamento, e nunca um só homem ou vampiro se deve encarregar de fazer justiça pelas próprias mãos e achar que pertence à “Luz”.
Honestamente, não sei que caminho levam as Vampires Chronicles mas não estou a gostar do sentido em que se dirigem. É possível que este tenha sido o último livro que leio desta série. Para já, não me apetece nada ler o próximo.

Por outro lado, descobri no site da Anne Rice que há planos para transformar as Vampires Chronicles numa série de TV, abrangendo toda a história desde o início. Esta sim, é uma ideia brilhante, que adoraria ver em prática. Que venha ela!





quinta-feira, 29 de setembro de 2016

American Horror Story: VAMPIROS!!!


Tropecei nesta série quase por acaso, lá muito escondida depois de The Walking Dead, como se a Fox tivesse vergonha de a mostrar ou não acreditasse que American Horror Story valesse audiências por si própria. Bem, tem sido um dos meus "prazeres envergonhados" mas também não é assim tanto caso para ter vergonha. Ao longo das cinco temporadas que já vi (há uma sexta), a série evoluiu e ganhou uma qualidade que talvez nem os próprios criadores esperassem da sua estreia, American Horror Story: Murder House.
Não comecei por ver a primeira temporada, a que só assisti recentemente. Caí de pára-quedas na segunda, "Asylum". E devo dizer que durante dois ou três episódios fiquei de boca aberta sem saber o que pensar. "Hospício" é um bom título, porque tudo aquilo me parecia uma doidice de uma mistura sem pés nem cabeça, um esmagador exagero de histórias e sub-histórias de terror, como se fosse a obra de alguém a quem tivesse sido dada oportunidade de fazer uma única série, e essa apenas, e tivesse querido meter tudo lá dentro: um hospício de freiras nos anos 50 (coisa já por si bastante assustadora, mesmo sem os choques eléctricos e os castigos corporais), uma história de lésbicas, uma ninfomaníaca, um psiquiatra serial killer, uma freira possuída pelo Diabo, um médico nazi fugido da Europa que faz experiências com os pacientes, e como se isto tudo não bastasse, e até acho que me estou a esquecer de qualquer coisa, extra-terrestres que vão e vêm e abduzem e devolvem quem lhes apetece! Uma salada russa de horror! Mas afinal a loucura era propositada.

American Horror Story: Asylum

American Horror Story é mesmo assim, um estonteante desfilar dos horrores e mitos e traumas que se alimentam do psiquismo americano profundo. O que explica o nome da série e acaba por ser o fio condutor entre temporadas. É curioso também como tão ao gosto americano estas histórias acabam sempre por ter um final feliz em família, nesta vida ou na outra. (Se vir mais uma família a enfeitar a árvore de Natal, vomito!)

 American Horror Story: Murder House

A segunda perplexidade que me causou esta série aconteceu na temporada seguinte, "Coven", com uma história de bruxas rivais (as finas e as pobres, que é como quem diz, a feitiçaria das brancas e o vodu das pretas...) em New Orleans. (Onde mais poderia ser?... Se isto tem a ver com o universo da Anne Rice ou se é o universo da Anne Rrice que tem a ver com isto, desconheço. Nunca me interessei pela saga das bruxas de Anne Rice.) 

 American Horror Story: Coven

A segunda perplexidade, dizia eu, é que muitos dos actores são os mesmos da temporada anterior a interpretar papéis completamente diferentes. Não é comum, e passada a confusão inicial o espectador habitua-se, mas este é um método muito próprio do teatro que denuncia a ambição da série. Uma ambição plenamente conseguida com grandes exibições de Jessica Lange, Kathy Bates, Denis O'Hare (que eu praticamente só conhecia de True Blood) e os outros actores mais jovens e/ou menos conhecidos que encontraram aqui uma grande oportunidade.
Admiro particularmente os momentos irrepreensíveis de Jessica Lange, a mesma que em 1976 era considerada apenas uma sex symbol para figurar na mão de King Kong. Com lucidez e ironia, esta senhora tem aproveitado magistralmente a sua idade em extraordinários papéis a tender para as divas acabadas de Hollywood nos tempos áureos das grandes estrelas de cinema. Como é que era aquela linha, "Mr. DeMille, estou preparada para o meu grande plano!"?... Jessica Lange nunca esteve tão preparada para o seu grande plano. Tem tido vários em American Horror Story e não consigo decidir em qual das personagens gostei mais dela. Ver esta mulher actuar é um prazer por si só. (Quem me dera ser assim quando tiver aquela idade!...) 

 Jessica Lange em American Horror Story: Murder House

Cada temporada tem o seu tema, e é natural que cada tema provoque maior ou menor agrado. Gostei da primeira temporada, "Murder House", que vai brincar com os mitos da casa assombrada e do Frankenstein louco (o médico, não o monstro), entre outros, tentando um pouco fazer lembrar os filmes sobre o bebé-Anticristo (Rosemary's Baby, The Omen), mas não se aventuraram muito por aí. Já não gostei tanto da quarta temporada, "Freak Show", porque não acho graça à ideia em si, e não gostei de toda aquela violência entre pessoas de carne e osso em que o sobrenatural quase não aparece. Não é o meu género de terror.

American Horror Story: Freak Show

E de repente... VAMPIROS!!!

O que é o meu género, o que eu não consigo deixar de ver nem que seja para dizer mal... Os leitores frequentes já sabem.
Não era isto que eu esperava de American Horror Story: Hotel, e ainda nem vi metade da temporada e já estou a recomendar. Vampiros! Crianças vampiro! Se não vos convence, o primeiro episódio começa ao som de "Decades" de Joy Disivion, sim, Joy Division!, e mais tarde passa "Neverland" dos Sisters of Mercy, sim, Sisters of Mercy!, e mais alguns, e até "Bela Lugosi is Dead" dos Bauhaus! E vampiros! E crianças vampiro! E muito de Shinning:

American Horror Story: Hotel

Concebido para uma audiência gótica? Talvez. Mas não deviam tê-lo sido também "Murder House" e "Coven"? Porque é que só os vampiros é que têm direito a música gótica? Não sei. Já desisti de perceber o que é que as pessoas normais pensam dos góticos.
E por falar em pessoas normais, em "Hotel" tive a oportunidade de conhecer bem a cara à Lady Gaga. Acreditem se quiserem, não a conhecia, nunca a tinha olhado duas vezes, se já ouvi alguma das músicas dela não sei porque desconheço e não tenho interesse em conhecer, e se passasse por ela na rua não a conhecia. Mas agora conheço-a! E sei que sempre que olhar para ela é só disto que me me vou lembrar:

Lady Gaga em American Horror Story: Hotel

Não há ninguém que convença a senhora a vestir-se sempre de preto? Fica-lhe tão bem!
E era isto, e basicamente: vampiros, vampiros, vampiros. E crianças vampiro. E Denis O'Hare num espaventoso papel de bicha que ainda não sei se também é vampiro ou não. E Kathy Bates noutro fantástico papelão. O resto é o mesmo do costume, mas: vampiros, vampiros, vampiros! Este "Hotel" está cheio de vampiros!
Os fanáticos do género, se ainda não viram, já sabem o que têm a fazer.



terça-feira, 26 de abril de 2016

“Christ The Lord Out Of Egypt”, de Anne Rice


Christ The Lord Out Of Egypt é uma novela de ficção de Anne Rice em que esta descreve os primeiros anos de Jesus, na primeira pessoa. Isto é, o próprio Jesus nos conta o relato intimista do período entre os seus 7 anos, idade em que voltou do Egipto para Nazaré, e durante o espaço do ano seguinte, até à visita ao Templo de Jerusalém onde, diz a Bíblia, Jesus teria ficado a discutir a Lei com os maiores sábios entre os Rabis.
Na verdade, a Bíblia não diz mais do que isto sobre a criança Jesus. Sabemos que, após a matança dos inocentes, Maria e José, avisados por um anjo num sonho de José, fugiram com o menino para o Egipto, de onde só regressaram após a morte do rei Herodes. Sabemos que Jesus aprendeu o ofício de carpinteiro, como José. Sabemos que a família visitou o Templo em Jerusalém onde Jesus ficou para trás, a debater com os Rabis do Templo, e quando a família, já desesperada, finalmente o encontrou, Jesus terá dito: "Porque me procuram? Não sabem que estive na casa do meu Pai?"
Anne Rice baseou-se também em evangelhos apócrifos, e inclui uma extensa nota em que descreve o grande trabalho de pesquisa que fez sobre a época, e os trabalhos académicos e religiosos que consultou sobre a vida de Jesus enquanto criança. Para os não-crentes, este livro servirá, no mínimo, para acompanhar a vida de um rapazinho e sua família nessa altura conturbada da Palestina.
Eu sou crente (gosto de dizer que tento ser Cristã, e que "tento ser" porque ser Cristão é muito difícil) e quando ouvi dizer que Anne Rice ia pôr de lado os vampiros para se dedicar a escrever a vida de Cristo, que estava "farta de escuridão e queria escrever sobre a luz", até estremeci de medo. Demorei muito tempo a preparar-me psicologicamente para o que ia ler, se bem conheço Anne Rice, temendo encontrar nestas páginas os envolvimentos românticos e controversos entre Jesus e Maria Madalena, entre Jesus e João (o apóstolo), entre Jesus e Judas... Se bem conheço Anne Rice.
Foi uma agradável surpresa que este primeiro livro da série tenha sido completamente inocente de tudo isto que imaginei. Mas polémico o suficiente, como teria sempre de ser polémica uma qualquer interpretação da vida de Jesus, criança ou adulto.
A polémica começa logo na primeira frase. Jesus fala na primeira pessoa e diz-nos que naquela idade, aos 7 anos, "what did I know?". E aqui começa a controvérsia. Anne Rice apresenta-nos um menino completamente alheio à sua natureza divina. O que não é de somenos importância, porque o debate sobre a divindade do Cristo é um assunto muito sério entre os teólogos. Este menino Jesus que Anne Rice nos apresenta não é divino, na minha opinião, mas humano, completamente humano. Sentimos por ele a empatia que podemos sentir por qualquer outra criança na situação de tentar perceber os eventos trágicos que rodearam o seu nascimento, os segredos que a família prefere guardar dele, os seus esforços, finalmente recompensados, de encontrar respostas e compreender quem é.
Jesus não tem qualquer intuição de quem é. Intrigam-no os milagres que realiza, as curas, as ressurreições, os milagres menores como pedir que deixe de chover e a chuva lhe obedecer. Intriga-o que da sua família não encontre nenhuma explicação, que mais perplexos do que ele Maria e José o aconselhem a guardar em segredo o seu poder e a não falar dele a ninguém. Jesus é uma criança muito confusa. Em certas passagens, Jesus é um menino aterrorizado pela guerra que atravessa Israel na sequência da morte do rei Herodes. Não era esta a minha ideia de Jesus, nem em criança, mas a representação de Anne Rice parece-me razoável. (Mesmo assim, não sei se concordo. Não era assim que via Jesus e não será assim que passarei a vê-lo.) Mas reconheci Jesus em certas passagens. Quando chegam a Nazaré, e alheio aos horrores da guerra à sua volta, o menino sente uma paz que transcende todo o pensamento: a paz de Cristo. Quando no regresso ao Templo Jesus deseja tanto entrar no Santo dos Santos, onde Jeová está presente, que os pensamentos o transportam até lá, numa viagem transcendental muito à maneira oriental, para lá do pátio, para lá do véu, para lá do Santo dos Santos, e ainda mais além, até Deus. Sem saber, sem imaginar, que naquele momento nada existe de mais divino naquele Templo do que a sua pessoa, e que o Templo, que o Jesus-criança admira e acha tão glorioso, e que o Santo dos Santos, nada são perante o Rei dos Céus que se senta à direita do Pai. Como é que Jesus poderia não o saber, não o intuir? Como poderia faltar-lhe algo da omnisciência divina que vem do Pai? O Jesus-criança de Anne Rice é acima de tudo humano, um Jesus-humano que faz milagres sem querer, por quem todos nos podemos enternecer, mas Anne Rice deve saber (por muito bem intencionada, como eu completamente acredito que o estivesse, porque se sente na obra uma humildade e uma espiritualidade de quem acredita no que está a dizer) que esta não é uma interpretação livre de controvérsia.
Outro problema que encontrei nesta obra é a personagem de Maria. José é exactamente o que eu esperava dele, sem tirar nem pôr. Anne Rice preferiu enveredar pela tradição católica de Maria sempre virgem, indicando que o casamento com José nunca foi consumado, nem antes de Jesus nem depois de Jesus, e que os irmãos de Jesus, de que fala a Bíblia, são irmãos adoptivos, um deles do primeiro casamento de José e alguns outros primos órfãos que sendo criados por Maria podiam mais tarde ter sido chamados de irmãos de Jesus. Em suma, Maria, puríssima, nunca conheceu carnalidade. Ora... (Não, nem vou por aí.) O que direi de Maria, sem perceber se Anne Rice fez isto de propósito ou não, é que me parece uma jovem mulher à beira de um ataque de nervos. É certo que ela dá o consentimento ao anjo "Faça-se em mim conforme a vontade do Senhor", mas tudo o resto me dá a entender que Maria tem um calado rancor ao que lhe aconteceu, ao que lhe estragou a reputação e a vida, ao que lhe estragou o casamento. Tenho a sensação, à medida que vou lendo, que a qualquer momento Maria vai agarrar os cabelos e desatar a gritar histericamente. Não vejo nela, nada de nada, a Maria Sereníssima. Sinceramente, até tive pena da personagem. Não sabemos, da Bíblia, quem era Maria na intimidade, mas sempre a imaginei alguém profundamente religioso, uma jovem tão devotada a Deus que foi por isso a escolhida, a abençoada entre as mulheres, o que na Idade Média se chamava uma "mística", uma santa, com visões e tudo. A Maria de Anne Rice também não percebe muito bem o que lhe aconteceu. E a minha sensação, errada ou não, é de que não gosta do que lhe aconteceu.
Outro aspecto digno de nota, pela sua possibilidade de polémica, é a família de Jesus. Não faço ideia de como era a espiritualidade dos judeus na época de Cristo, mas a família de Jesus, segundo o livro, era tão religiosa que nos nossos dias lhe chamaríamos fanática. Toda a vida daquela família, das orações da manhã às orações da noite, revolvia em torno das Escrituras, da Lei, da sinagoga. Seria fácil, para os críticos, atribuírem àquilo que hoje nos parece fanatismo as visões de anjos, a influência religiosa no pequeno Jesus, a sua inevitável conclusão de que é o Filho de Deus, o seu delírio religioso que o levaria à execução como Rei dos Judeus. Partidários desta opinião considerarão que os milagres foram alucinações ou pura e simplesmente não aconteceram.
Mas arriscando tudo isto, a própria Anne Rice diz, na nota de autora:
 "I wanted to write the life of Jesus Christ. I had known that years ago. But now I was ready. I was ready to do violence to my career. I wanted to write the book in the first person. Nothing else mattered. I consecrated the book to Christ. I consecrated myself and my work to Christ. I didn't know exactly how I was going to do it."
Mas fez, e explica porque o fez, quase como numa necessidade, digo eu, de proclamar desta forma o evangelho, o que é um dever de todos os cristãos, da maneira que ela sabe fazer melhor, pela escrita.
Não sei, não faço ideia, se a leitura deste livro terá alguma influência nos não-crentes. Em mim, teve apenas a influência que aqui exponho, o confronto entre as minhas próprias ideias sobre a Sagrada Família e a interpretação de Anne Rice, mas a minha opinião quase não conta porque Anne Rice, no meu caso, está a pregar para o coro (eu já estou convertida). Não aconselho este livro aos leitores do trabalho mais bem conhecido de Anne Rice, as Vampire Chronicles, se acharam que os momentos religiosos não tinham ali razão de ser. Não aconselho a quem leu Memnoch e não gostou por achar o livro demasiado religioso. Christ The Lord Out Of Egypt é religioso, e quem não estiver interessado em religião não conseguirá, acho eu, suportar as cerca de 120 páginas a contar a vida da criança-Jesus. Posso estar enganada, mas não me parece. Aconselho exactamente aos outros, aos que leram Memnoch e gostaram, aos crentes, aos que se interessam por religião.
Por falar em Memnoch, e como não podia deixar de ser, digo eu que conheço Anne Rice, um dos episódios mais empolgantes do livro é quando Jesus tem um sonho perturbador com um ser lindíssimo e alado que lhe coloca questões a que o próprio Jesus não sabe responder. O ser alado também não sabe quem ele é, o que demonstra o grau de afastamento entre Lúcifer e os planos divinos. Pois, claro, este ser alado é Lúcifer, e basta ele aparecer para reconhecermos o melhor de Anne Rice em todo o seu esplendor. Anne Rice escreve melhor sobre a escuridão. Nada a fazer.
Mas não sei se esta obra é exactamente o que ela disse, uma "obra sobre a Luz". Eu achei-a algo triste e até abaladora, aqui e ali. E pensei, quando vi o reduzido tamanho do livro, que era pequeno. Mas o conteúdo, estranhamente, tão intenso e tão profundo, torna-o grande, imenso. Fiquei convencida, e tenciono ler os livros seguintes desta série apesar de todas as minhas reservas quanto à interpretação pessoal da autora.




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Drácula (série TV)

*** contém spoilers, mas não revela o final ***

Primeiro que tudo, estou muito agradecida a esta série! Tão agradecida, para que conste, que a minha apreciação é assumidamente parcial. Antes desta série, sempre que pensava no Jonathan Rhys Meyers só me vinha à cabeça, como se gravada por um ferro em brasa, a imagem de Henrique VIII (“The Tudors”). Obviamente, Jonathan Rhys Meyers foi escolhido para o papel para facilitar a vida aos espectadores que de outro modo não apenas teriam de assistir aos caprichos de um monarca abjecto com uma predilecção por cortar cabeças (especialmente cabeças de rainhas), como também teriam de olhar para a carantonha de um monarca abjecto e feio (como era a criatura na realidade), o que seria duplamente penoso. O casting de Jonathan Rhys Meyers tornou a experiência menos dolorosa. (Mas um monarca abjecto e feio não merecia que Jonathan Rhys Meyers lhe vestisse a pele!)
Desde os “Tudors”, portanto, não conseguia pensar em Jonathan Rhys Meyers sem horror e asco, o que era a todos os níveis uma pena!
Nem tenho palavras para agradecer que essa imagem tenha sido substituída, e com o tempo, oxalá, completamente desvanecida, e me lembre antes desta:


Embora, para dizer a verdade, Jonathan Rhys Meyers interprete os dois papéis da mesma maneira, resultando de modo elogioso para Henrique VIII que não podia ter metade do charme deste Drácula. Meyers lá tem a sua razão, um monstro é um monstro, a diferença é apenas ficcional. Mas basta de reminiscências dos “Tudors”, série que já bastou ver uma vez e não é agradável de recordar. Falemos de “Drácula”, 2013-14, série de TV.



Conde de Monte-Drácula
A minha reacção ao saber deste “Drácula” não foi famosa: “Oh não! Mais uma adaptação de Bram Stoker e ‘atravessei oceanos de tempo para te encontrar!’...”
(Por falar em *ainda* mais uma adaptação. Parece que existe um novo Drácula, filme, do qual vi algumas cenas pavorosas em que o nosso Vlad lutava usando artes marciais! Sim! Artes marciais! Drácula Kung Fu! Este arrisca-se a ser o único filme de Drácula que eu não vou ver jamais. Nem a minha compulsão obsessiva de ver tudo o que é vampiros resiste na presença de artes marciais. Não, obrigada, não.)
A série surpreendeu-me. Trata-se, sim, de uma adaptação do clássico de Bram Stoker, passada na Inglaterra vitoriana e elencando todas as personagens que já conhecemos (Drácula, Mina, Jonathan, Lucy, Renfield e Van Helsing). Mas o espectador vai ser confrontado com alguns choques, e alguns espectadores, creio, não vão conseguir ultrapassar o primeiro episódio. O que seria uma pena, na minha opinião, porque a série começa de forma esquisita mas torna-se bastante interessante.
O primeiro grande choque... Bem, antes terei de explicar porque é que Drácula está em Londres. (Não é um spoiler “grave” porque tudo o que vou dizer é esclarecido nos dois primeiros episódios.) Drácula, o verdadeiro, o único, o Impalador, Vlad Drakul, princípe da Valáquia, está em Londres sob a identidade de Alexander Grayson, empreendedor americano de grande mas recente fortuna de origem obscura (como não seria de estranhar de um americano arrivista), para se vingar da Ordem do Dragão. No seu tempo, a Ordem do Dragão queimou na fogueira a esposa adorada de Vlad (a série nunca explica exactamente porquê) e foi também a Ordem do Dragão que como castigo por heresia, e usando rituais ocultos, transformou Vlad no primeiro caminhante das Trevas, para sempre amaldiçoado. (O que foi uma péssima ideia que a Ordem do Dragão teve, mas avançando.) A Ordem do Dragão existe ainda na Inglaterra vitoriana, na forma de uma sociedade oculta, corrupta e fanática, composta apenas dos mais ricos e poderosos que não olham a meios para atingir os fins. Drácula também não olha a meios para atingir os fins. E começa a vingança. Drácula não pretende simplesmente matar os líderes; quer destruir, para sempre e de uma vez por todas, a Ordem do Dragão, e vai usar tudo ao seu dispor para o conseguir: compra, suborno, chantagem, embuste, difamação, homicídio. Tirando a parte do homicídio, a vingança de Alexander Grayson recorda o maravilhoso enredo do Conde de Monte Cristo e vai deliciar quem gosta de uma boa história de vingança.
Os ricos e poderosos da Ordem do Dragão acabam de descobrir a importância que o petróleo vai ter na economia mundial do futuro. (Como nós tão bem sabemos.) Estão dispostos a começar uma guerra com o Império Otomano para ter acesso ao petróleo do Médio Oriente. (Nós também sabemos que sim, e como!, e ainda!) Drácula pretende cortar o mal pela raiz. E aqui vem o grande choque: Drácula apresenta-se como um empresário que quer implementar uma fonte de electricidade limpa, sem fios, barata, não poluente, não dependente do petróleo!!! Electricidade gerada a partir do campo magnético da Terra!!! (Era bom, não era?) E com isto pretende destruir as grandes fortunas dos membros da Ordem da Dragão, impossibilitando a dependência petrolífera, e acabar com esta para sempre!
Quanto à Ordem do Dragão, bastará mencionar que são uma cambada de capitalistas ricos, exploradores, poluidores, os donos do mundo, os donos dos mercados, os donos dos homens, e também a mim me apetecia arrancar-lhes à dentada algumas cabeças, mesmo não sendo vampira, e daqui exorto, inequivocamente:
Drácula, amigo, o povo está contigo!


É o grande choque do primeiro episódio. Drácula, empresário?! Electricidade verde e sem fios?! No século XIX?! E internet também, não? E já agora, televisão a cores, para vermos estas séries de ficção científica?
Aconselho todos os espectadores a fecharem os olhos a esta tolice, uma tamanha tolice que pode afastar muita gente da série logo no primeiro episódio. É daquelas coisas que podem ofender irreparavelmente os intelectos mais apegados às ciências, o que compreendo, mas, como em tantas outras séries do género, às vezes temos mesmo de fingir que acreditamos se queremos apreciar o que interessa. Na minha opinião, vale a pena fechar os olhos porque há muito a apreciar. Até porque todo este ambiente laboratorial de experimentação com electricidade nos vai proporcionar cenas que evocam outro grande clássico da época, Frankenstein! E agora vou falar do segundo choque:

Van Helsing está a trabalhar com Drácula!!!
Sim, o caçador de vampiros mais famoso do mundo está de conluio com aquele que é o seu arqui-rival, o seu arqui-inimigo, o seu nemesis! E porquê? Porque a Ordem do Dragão também lhe matou a família. (Com quem eles se foram meter!) Isto não quer dizer que Drácula e Van Helsing sejam amigos. Longe disso. Mas Van Helsing é um homem racional e frio, e sabe a quem recorrer. Logo na primeira cena do primeiro episódio, vemos dois exploradores a penetrar no túmulo onde Drácula repousa há séculos. (Muito Indiana Jones.) Algo me fez logo adivinhar que um deles era Van Helsing (quem mais poderia ser?), mas pensei, mais logicamente, que Van Helsing procurava o túmulo para matar Drácula, como é costume, no que podia ser a última cena de uma história contada a partir do fim. Foi um choque perceber o quanto estava enganada. Mas um choque refrescante, admito.

Tão amigos que eles não são.

A verdade é que o personagem Van Helsing se tornou um herói por mérito próprio na cultura popular mais recente. O velho professor, fanático e algo excêntrico, do livro de Stoker, já não cai bem como caía na época. Entretanto, tivemos Van Helsing, o sex symbol, e penso que tudo mudou desde aí. Este Van Helsing (Thomas Kretschmann, que por sua vez já encarnou Drácula em “Dracula 3D”, que eu ainda não vi) é um professor de meia idade, entre o génio científico e o homem de acção. É dele a ideia da electricidade magnética, é dele a invenção do soro que permite a Alexander Grayson caminhar ao Sol durante o dia. Van Helsing também se quer vingar e também não olha a meios para atingir os fins. Enquanto Van Helsing fornece a inteligência, Drácula fornece o músculo. O maniqueísmo na ficção é algo do passado. Neste novo universo de personagens “cinzentos” já não existem muitas personagens completamente boas ou completamente más. Gosto desta adaptação que apresenta os personagens à luz da modernidade. Quem contava com outra adaptação de Stoker “à letra” pode esperar ainda outros choques:

Renfield. Adorei o que fizeram com este personagem! Não é o louco babado do hospício que come moscas e clama “Mestre! Mestre!”. Este Renfield (Nonso Anozie) é um ex-escravo norte-americano que conseguiu tirar um curso de Direito graças a um mecenas abolicionista, mas viu fechadas todas as portas de emprego devido à sua cor. Também Renfield tem muitas razões para estar zangado com os donos do mundo. Renfield, à sua maneira, também se quer vingar.

Imaginam o meu choque ao perceber que Renfield é o senhor grande e negro e, acima de tudo, são da cabeça?!

Lucy Westenra (Katie McGrath). Esta não é a Lucy namoradeira e vitoriana que só pensa em arranjar um marido. Esta é a Lucy inexperiente que ainda não sabe em que equipa joga, mas acaba por descobrir, e é na equipa da Mina. Infelizmente, não é correspondida. Infelizmente, tendo em conta as alternativas, muitos espectadores torceram para que ficassem juntas. Faziam um par bonito. Mas o que não tem de ser não tem de ser.

Como é que se podia não torcer por isto?

Jonathan Harker (Oliver Jackson-Cohen). Este também não é o Jonathan virtuoso e debilitado e merecedor de simpatia que Stoker nos apresenta. Este Jonathan é um homem frio e ambicioso, ávido de subir na vida, que chega a sugerir deixar para trás os amigos antigos (e pobres) quando começa a relacionar-se com a alta sociedade. Tem que ser Mina a intervir para que Jonathan “veja o seu erro”. No fundo, percebe-se disto que Jonathan não muda de ideias nem vê erro nenhum, só quer agradar à futura mulher (nesta versão, Mina e Jonathan ainda não são casados). Jonathan é o tipo de homem que descarta quem já não lhe é útil, e também não olha a meios para atingir os fins. Sem Mina, onde estaria a sua consciência? Aparentemente, em lado nenhum.

Não é o Jonathan Harker querido e fofinho da história de Stoker.

Por fim, Mina Murray (Jessica De Gouw), ainda o nome de solteira. Talvez seja um dos maiores choques que a Mina “doméstica” e bem comportada, do livro, se transforme, nesta série, numa mulher independente e progressista e estudante de medicina. Jonathan revela que não a merece quando é apanhado em flagrante a dizer que depois do casamento Mina se vai deixar dessas “coisas”. Mina ouve, mas perdoa-o, porque o amor é cego. E porque o amor é cego, Mina acaba por ser magneticamente atraída pelo americano recém-chegado que a adora e admira, na mesma medida em que o carácter de Jonathan progressivamente a repele. É científico. Grayson nem precisa de sex appeal sobrenatural, e não o usa. Mas esta Mina é mais racional do que emotiva e luta contra a paixão... enquanto consegue.
Afinal, Drácula sempre cruzou oceanos de tempo para a encontrar, porque (aproveitando a mitologia já existente em torno dos dois, que vem dos filmes e não do livro original de Stoker) Mina é, de facto, a reencarnação de Ilona, mulher de Vlad. Este encontro do amor, inesperado, perturba Grayson e quase o distrai da sua missão de vingança. Drácula tem aqui uma crise de consciência como também já faz parte da mitologia do vampiro moderno (o que temos de agradecer aos vampiros da senhora Rice) e por causa de Mina sente a ânsia de viver novamente, como homem, à luz do Sol. O soro, contudo, não é suficiente...

Sempre cruzaram oceanos de tempo para se encontrarem...

Todos estes novos elementos se tornam bastante interessantes à medida que a história se desenrola e são motivo para levar a sério a adaptação que recomendo vivamente.
O final é muito bom e surpreendente e abre portas para uma segunda temporada que não vai existir (a série foi mesmo cancelada). Sendo assim, a série merecia pelo menos mais um ou dois episódios para fechar a história. Talvez os autores tenham planeado uma segunda temporada mas as audiências não foram suficientes para a justificar? É uma pena. Como digo, o fim prometia, no mínimo, um último episódio para o grande e épico confronto que já ninguém esperava. E mais não posso revelar.
Posso apenas recomendar, e quando a série for repetida tenciono ver de novo. Não imagino porque é que esta adaptação tenha passado tão despercebida. Desconfio que foi a tal energia magnética, limpa e sem fios que estragou a série para muitos espectadores do primeiro episódio que não lhe deram a hipótese de um segundo. Manias de meter ficção científica em tudo às vezes dão nisto. Afinal, a tal energia magnética até não era importante para a história e podiam ter arranjado um esquema que envolvesse bancos, especulação, escândalos e política. Atingia os mesmos fins, e talvez a série tivesse mais hipóteses. Se é verdade que os fins justificam os meios, também há meios tão incompetentes que nem os fins servem. Acho que este foi um desses casos.