quarta-feira, fevereiro 18, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror VI

The Quest of Iranon
Não encontro nada de assustador neste conto, apenas uma tristeza tão grande que foge à própria assinatura do autor. Se em Lovecraft as tragédias se prendem ao sobrenatural ou ao bizarro, como em "The Outsider", aqui trata-se apenas de uma viagem psicológica pelas veredas da loucura. Não sei se os mais sensíveis não verterão uma lágrima.
Iranon é um jovem poeta que anda a correr mundo à procura da sua cidade de Aira, terra de luz suave e cheia de canções, de que está exilado mas onde um dia será rei como o seu pai. Pelo caminho sofre a troça e a incompreensão dos que escutam as suas canções, tendo por único amigo um rapaz que partilha dos seus sonhos e o acompanha durante largos anos. A parte misteriosa é pois esta: enquanto o amigo naturalmente envelhecia, Iranon permanecia sempre jovem. Nem quando este morreu, de velhice, Iranon desistiu da demanda de Aira. Nunca acreditou quando lhe diziam, ao perguntar direcções a quem encontrava na sua longa jornada, que ninguém tinha ouvido falar de Aira nem das suas gentes. Uma noite, porém, cruza-se com um velho pastor que guardava gado perto de um pântano de areias movediças, e este parece de facto recordar-se de algo. Lembrava-se de um rapaz, um pedinte, que conhecia desde criança, e que cantava estranhos poemas sobre uma cidade de Aira que não existia senão na sua cabeça. Sim, Lembrava-se, e o seu nome era Iranon. Nessa noite, Iranon envelheceu de repente e afogou-se no pântano.

That night something of youth and beauty died in the elder world.


The Rats In The Walls
O último descendente dos de la Poer, família emigrada na América onde adoptou o nome Delapore, ascendeu a uma considerável fortuna que dedicou, já depois de viúvo e tendo perdido o seu único filho na guerra, a reconstruir o castelo dos antigos barões na velha Inglaterra. O castelo, situado num precipício, era considerado um monumento onde se cruzavam vários estilos arquitectónicos desde o pré-romano ao medieval e tinha até sido importante objecto de estudo por eminentes autoridades na matéria, razão porque o proprietário decidiu restaurá-lo em todo o seu esplendor excepto no interior, onde não poupou nenhum dos luxos mais modernos. Nesse empreendimento foi muito auxiliado por um amigo do seu filho, Capt. Norrys, também veterano de guerra, que, sendo nativo do local, parecia conhecer mais sobre a antiga família de la Poer e a sua propriedade do que o próprio descendente na América. Delapore apenas sabia que o seu primeiro avô radicado no novo continente tinha abandonado o castelo em circunstâncias estranhas depois de assassinar toda a família. Um único envelope que continha o segredo, e provavelmente a resposta ao mistério por detrás do massacre, tinha sido passado de geração em geração ao longo dos anos, mas foi destruído por um incêndio antes que o seu pai o pudesse abrir. E assim se perdeu o legado. Mas Delapore depressa se apercebeu de que não apenas o castelo como ele próprio eram ostracizados pelos camponeses e de que tinha vindo viver para uma casa amaldiçoada cuja fama persistia, apesar dos séculos, de ter sido um ninho de "bandidos e lobisomens". No mínimo, o local onde agora se erguia o castelo tinha servido de palco desde tempos pré-históricos a rituais sangrentos, associados depois aos druidas, e a seguir, durante o Império Romano, relacionados com a deusa Cybele, mas o certo é que sempre ali teria existido uma seita praticante de sacrifícios humanos. Vexado, o sóbrio homem de negócios quase que fez por último objectivo de vida não apenas reconstruir a moradia como limpar o bom nome da família. Assim que as obras ficam prontas, instalou-se definitivamente no castelo, acompanhado de "nove criados e sete gatos". Destes sete felinos, o mais velho, Nigger Man, era um gato preto que tinha trazido de Boston e nunca deixava o dono. Foi também este que pela primeira vez detectou ruídos nas paredes do quarto, barulhos que Delapore imediatamente identificou como ratos.
Um pouco perplexo por ter uma infestação em tão pouco tempo, o prático americano fartou-se de colocar ratoeiras que apareciam desarmadilhadas mas vazias, como se os ratos fizessem pouco dele. Foi esse o seu embaraço inicial. Não sendo dado a superstições, começou a ficar deveras preocupado quando percebeu que só ele e os gatos da casa conseguiam ouvir os roedores. Ninguém mais os ouvia, nem os criados nem o seu amigo Capt. Norrys, que foi chamado a passar uma noite no castelo, e a partir do momento em que se apercebeu disso até Delapore os deixou de ouvir, passando antes a ter pesadelos com fantasmagorias de que não se recordava ao acordar. Na opinião de um dos empregados, dado aos fenómenos psíquicos, já não os ouvia porque "certos poderes" já lhe tinham feito chegar a "mensagem".

[Este pormenor recorda-me de certa passagem de "Shinning, do outro mestre Stephen King.]

Mas a noite que Capt. Norrys passou no castelo não foi perdida. Juntos, encontraram na parte mais recôndita da cave um alçapão, porventura um túnel, que tinha passado despercebido aos estudiosos que visitaram o castelo. São chamadas autoridades arqueológicas ao local e os vastos subterrâneos são abertos pela primeira vez. É caso para dizer que Delapore descobriu literalmente os esqueletos da família. E é também caso para dizer que afinal a família de la Poer era de facto um ninho de "bandidos e lobisomens" porque a última coisa que o venerável ancião faz, antes de ser internado num hospício, é devorar o seu amigo Capt. Norrys, aparentemente com a cumplicidade do seu gato Nigger Man, mas dizendo sempre que foram os ratos.

 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)


The Shunned House
Devo confessar que nas minhas leituras de Lovecraft já me preocupava não encontrar uma história de vampiros, se bem que esta não é nem a melhor que já li nem o melhor de Lovecraft, mas vampiros são sempre vampiros e vampiros são sempre deliciosos, seja lá em que forma se manifestem.
"The Shunned House" relata, como o nome indica, os acontecimentos que levaram a que determinada casa de Providence -- à frente da qual a fantasia de Lovecraft coloca o seu mestre Edgar Allan Poe a passear sem nunca se ter apercebido de nada -- fosse lendariamente evitada por toda a gente.
A casa não era exactamente "assombrada". Dizia-se que era uma casa de "má sorte" por tanta gente lá ter morrido, por ser propícia à loucura, por nenhuma criança viva lá ter nascido. Atribuía-se o facto à humidade, aos estranhos fungos que cresciam na cave (e provocavam um persistente cheiro pestilento), e possivelmente à má qualidade da água bombeada do poço. Nenhuma das mortes parecia violenta. Pelo contrário, os habitantes pareciam apenas "definhar" de causas naturais, depois de tomados pelo delírio ou loucura senil que os levava, nas últimas fases da doença, a gritar coisas estranhas sobre algo que os observava na escuridão ou a tentar sugar o sangue dos próprios familiares. Não era uma maldição dos Harris, família que ergueu a casa, porque depois de uma série de mortes estes acabaram por mudar-se e alugá-la a inquilinos, o que se tornou cada vez mais raro porque estes eram também afligidos pela "insalubridade" do local e as mortes não paravam de se suceder, a ponto de o município mandar fumigar a casa, até que esta acabou por ser completamente evitada. O que quer que fosse, estava lá e continuava lá. O último herdeiro dos Harris pensava em deitá-la abaixo e construir ali um bloco de modernos apartamentos quando interveio um vizinho interessado nas lendas associadas ao local que se propôs a investigar mais. Não lhe era estranha a teoria de vampirismo, mas até ao momento não tinha bases para demonstrá-la. Sabia-se que o terreno tinha servido de sepultura aos os primeiros proprietários, séculos atrás, mas todas as campas tinham sido transladadas para o novo cemitério da cidade muito antes de a casa ter sido construída pelos infelizes Harris. O que a história local tinha abafado foi a existência dos Roulets, os primeiros donos do lote, franceses fugidos da repressão religiosa e com fama de feiticeiros, que também ali tinham sepultado os seus mortos. Da mesma forma inesperada que apareceram, os Roulets, extremamente odiados por todo o lado onde passavam, tinham sido obliterados por um motim que pôs fim à família. Saberiam os seus beligerantes vizinhos que um dos Roulet tinha sido acusado de ser lobisomem, ainda em França? O certo é que a cidade os tinha apagado dos registos durante séculos e agora o investigador estava convencido que tinha descoberto a causa. O restante é por demais à Van Helsing para repetir, mas diremos apenas que Lovecraft resolveu "a coisa" com ácido sulfúrico em vez de estacas de madeira. E a casa não voltou a ser de "má sorte".

Such a thing was surely not a physical or biochemical impossibility in the light of a newer science which includes the theories of relativity and intra-atomic action. One might easily imagine an alien nucleus of substance or energy, formless or otherwise, kept alive by imperceptible or immaterial subtractions from the life-force or bodily tissue and fluids of other and more palpably living things into which it penetrates and with whose fabric it sometimes completely merges itself. It might be actively hostile, or it might be dictated merely by blind motives of self-preservation. In any case such a monster must of necessity be in our scheme of things an anomaly and an intruder, whose extirpation forms a primary duty with every man not an enemy to the world's life, health, and sanity.
What baffled us was our utter ignorance of the aspect in which we might encounter the thing. No sane person had even seen it, and few had ever felt it definitely. It might be pure energy--a form ethereal and outside the realm of substance-or it might be partly material; some unknown and equivocal mass of plasticity, capable of changing at will to nebulous approximations of the solid, liquid, gaseous, or tenuously unparticled states. The anthropomorphic patch of mould on the floor, the form of the yellowish vapour, and the curvature of the tree-roots in some of the old tales, all argued at least a remote and reminiscent connection with the human shape; but how representative or permanent that similarity might be, none could say with any kind of certainty.


The Thing on the Doorstep
Embora o tema do roubo de identidade seja recorrente em toda a sua obra, a história que Anne Rice refere em "The Tale of the Body Thief" é uma das preferidas dos leitores de Lovecraft. Talvez porque seja o conto mais conseguido ou consistente, ou, atrevo-me a palpitar, porque a personagem principal é uma "mulher", coisa rara em Lovecraft. E a história é semelhante a outras do género: uma tal de Asenath seduz um jovem académico com pouca experiência de vida mas um grande fascínio pelo oculto, e acaba por lhe roubar o corpo. Afinal, descobre-se, o ser que estava dentro de Asenath nem sequer era uma mulher, mas o seu pai, poderoso feiticeiro, que vivia há sabe-se lá quantos séculos, de corpo em corpo, expulsando dele o seu hospedeiro, numa espécie de vampirismo de almas que ia abandonando em corpos alheios. A própria Asenath, sua filha e descendente da gente-peixe de Innsmouth, estava há muito aprisionada e deixada para morrer no corpo velho do pai.
Sórdido, insidiosamente incestuoso e homossexual, este conto ergue-se a patamares que o próprio Lovecraft talvez não tenha congeminado mas que qualquer mente tortuosa reduz a isto: possui a filha e casa-se com um homem para lhe roubar o corpo. Lovecraft no seu melhor e a precisar urgentemente de ser descoberto como merece.



 
H. P. Lovecraft
(1890-1937)

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segunda-feira, fevereiro 16, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror V

The Horror at Martins's Beach
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.

[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]

Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.


The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.


The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...


The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.


The Outsider

Unhappy is he to whom the memories of childhood bring only fear and sadness.

Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.


The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.


Continua.

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sábado, fevereiro 14, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror IV

Herbert West: Reanimator
Este é um dos contos mais populares e popularizados de Lovecraft, mais ainda do que "The Mountains of Madness". Toda a gente já viu a história no cinema, repetida vezes sem conta em filmes igualmente inumeráveis: um cientista descobre um soro que devolve a vida aos mortos. A vida, mas não a personalidade. Estes voltam, mas "alterados" como só o mestre Stephen King descreveu mais tarde. Então o que temos? Zombies. Carradas de zombies. Mortos-vivos. Braços e pernas saltitantes. Cabeças rolantes. Toda essa palhaçada. Agora parece-nos engraçado mas não o seria certamente na época em que Lovecraft o escreveu.

["Reanimator" é também o nome de uma famosa música dos Fields of the Nephilim que, como vimos antes, muito foram buscar ao universo do autor. Um conhecedor de ambas as obras vai encontrar um manancial de referências, em que McCoy mistura o universo onírico e assombrado de Lovecraft com a análise psicológica dos nossos dias.]

O tema já não era novo quando o autor lhe pegou. Aliás, o próprio Lovecraft cita os mestres antigos quando começa esta história -- publicada originalmente em fascículos, razão pela qual é feito um sumário do enredo anterior a cada novo capítulo -- com uma citação do Conde Drácula: "To be dead, to be truly dead, must be glorious. There are far worse things awaiting man than death."
O primeiro "reanimador" famoso foi o cientista "Frankenstein", de Mary Shelley, mas o resultado acaba por ser bem diferente e é isso que interessa salientar. Enquanto o monstro de Frankenstein (que não tem nome) é uma criatura feita de partes de vários mortos mas que almeja uma existência humana e é por isso rejeitado pela sociedade, -- uma perspectiva muito "feminina" capaz de levar o mais sensível às lágrimas -- os zombies de H. P. Lovecraft, numa versão a que nos dias de hoje chamamos "gore", pensam mais em comer a carne dos vivos e voltar a esgravatar na terra do cemitério. Não há aqui nada de "choramingas". São zombies, são maus, e comem criancinhas.
Pior que eles só o seu criador, Herbert West, um verdadeiro monstro digno das experiências nazis mais atrozes (mas antes dos nazis), diametralmente o oposto do torturado cientista Frankenstein, cheio de remorsos pela sua obra blasfema.
Herbert West, que nos é descrito pelo seu assistente, só tem uma preocupação na vida: arranjar cadáveres frescos, muito frescos, para que o soro actue antes que o cérebro perca demasiadas células e comprometa a existência inteligente. Quando lhe faltam os defuntos a tempo e horas, qualquer visitante que bata à porta se torna candidato à experiência. Este médico mata primeiro para ressuscitar depois.
Mas, porque os seus mortos-vivos não são totalmente desprovidos de inteligência, um dia há-de beber o seu próprio veneno.
Delicioso. Imperdível. Satisfação garantida!


Imprisioned with the Pharaohs
Um ilusionista cuja especialidade é o escapismo, como Houdini, vai visitar o Cairo onde a sua "magia" de espectáculo é particularmente testada. Traído por uma armadilha montada pelos beduínos do deserto, é lançado para dentro de um enorme poço que estaria debaixo da Esfinge, amarrado, de mãos e pés atados e olhos vendados. Cabe-lhe primeiro escapar das amarras. Depois... tem de fugir das múmias.
É uma história interessante e exótica mas particularmente indicada para quem gosta do antigo Egipto, pirâmides e mitologia. A ideia é inteligente (a esfinge afinal existe e é real) mas não me convenceu. Certamente haverá quem goste mais do género.


In the Vault
Já esta, é uma história muito mais cómica do que tétrica -- ou ambas as coisas. Parece daqueles contos da avózinha para assustar criancinhas e fazer-lhes perceber os males da preguiça. Senão vejamos. Coveiro de profissão, era um homem habituado a tratar os mortos como se fossem um lixo aborrecido que o seu trabalho tratava de empacotar e enterrar. Não era um coveiro muito competente. Os caixões que fazia eram frágeis. Alguns eram demasiado pequenos para o seu destinatário mas o coveiro lá se encarregava de fazer "caber tudo", nem que para isso tivesse de serrar os pés... Certa vez até enterrou os restos de alguém na sepultura de outrém. Não que o homem fosse má pessoa, mas para ele a missão de enterrar os mortos não passava de um ofício como outro qualquer em que não punha muito brio.
Devido ao seu desleixo, e porventura um copo a mais ao almoço, certa tarde de Sexta Feira Santa ficou preso do lado de dentro de um sepulcro onde estavam alguns dos seus caixões e respectivos "clientes". Negligente, o coveiro tinha deixado que o tempo enferrujasse a fechadura e agora via-se grego para abrir a porta a partir de dentro. Mas não tinha medo da sua situação. De tal modo não tinha medo que se pôs logo a pensar na solução para o contratempo, e esta passava por pegar num martelo que por ali tinha e abrir mais a estreita janela sobre o portão do jazigo. Para lá chegar, empilhou os caixões todos uns sobre os outros (com os respectivos ocupantes lá dentro) e fez deles uma escada. Quando estava quase a conseguir esgueirar-se pela abertura, perto da meia noite, o seu negligente trabalho traiu-o mais uma vez: os caixões eram tão fracos que cederam sobre o seu peso e o pobre diabo ficou pendurado da janela. Mesmo assim, e com muito esforço para levantar todo o peso da sua pança, ia quase a sair do túmulo quando lhe agarraram pelos tornozelos. Alguém que não gostou que lhe serrassem os pés...


Nyarlathotep

I do not recall distinctly when it began, but it was months ago. The general tension was horrible. To a season of political and social upheaval was added a strange and brooding apprehension of hideous physical danger; a danger widespread and all-embracing, such a danger as may be imagined only in the most terrible phantasms of the night. I recall that the people went about with pale and worried faces, and whispered warnings and prophecies which no one dared consciously repeat or acknowledge to himself that he had heard. A sense of monstrous guilt was upon the land, and out of the abysses between the stars swept chill currents that made men shiver in dark and lonely places. There was a daemoniac alteration in the sequence of the seasons--the autumn heat lingered fearsomely, and everyone felt that the world and perhaps the universe had passed from the control of known gods or forces to that of gods or forces which were unknown.

Não deixa de ser curioso como tantos escritores e tão distintos apanham no "ar" o vento das trevas e o traduzem em ficção mal sabendo que escrevem profecias. Agitação social e alterações climáticas... e depois vem o fim.
Nyarlathotep ("the crawling chaos"), ou o mensageiro do caos, é uma personagem sinistra e sobrenatural que povoa toda a obra de Lovecraft. Grande e perigoso hipnotizador, leva qualquer pessoa que o ouve a ingressar a grande massa humana que deambula pelo mundo sem norte, uma imensa vaga de "mortos-vivos" ou autómatos, enquanto a civilização se desmorona em ruínas abrindo caminho para o domínio dos Outros Deuses.
Pela sua visionária actualidade, arrepia pensar que este conto foi escrito em 1920.


The Cats of Ulthar
Quando comecei a ler Lovecraft perguntou-me um conhecedor: "E qual é a tua história preferida?". "Tenho de ler mais", respondi. Mas, afinal, já sabia a resposta. Lovecraft tinha um grande amor por gatos. Eu também. E a história é esta e reza assim:
Havia um execrável casal de velhos, que odiava gatos, e que os apanhava e torturava até à morte de formas cruéis. Ouviam-se de noite os gritos arrepiantes dos bichinhos.
Um dia passaram saltimbancos por Ulthar, muito versados em artes mágicas. Um deles era ainda quase uma criança, um pobre rapaz órfão cujo melhor amigo e companhia era um gatinho também de pouca idade. De noite, em Ulthar, o gatinho foi apanhado e torturado e morto pelo casal de velhos malvados.
Na noite seguinte, depois da partida dos saltimbancos, algo aconteceu. Todos os gatos de Ulthar desapareceram. Os habitantes da cidade, que temiam a maldade dos velhos, julgaram o pior e choraram pelos seus amigos de estimação. Mas no outro dia, de manhã, todos os gatos voltaram para casa, gordos, satisfeitos, lambendo os bigodes como se depois de uma boa refeição. Dos velhos, só restavam os ossos. Os gatos de Ulthar comeram-nos.
É por isso que até hoje, em Ulthar, existe uma lei em que é expressamente proibido matar um gato.


The Dream Quest of Unknown Kadath
Esta é uma das histórias em que figura o personagem recorrente Randolph Carter, o grande herói de H. P. Lovecraft, que na sua demanda do sobrenatural terá sido uma espécie de Fox Mulder com os seus Ficheiros Secretos.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

Randolph Carter é referido em algumas aventuras mas é neste conto que se aproxima mais dos terríveis deuses (aqui chamados "the Great Ones") que povoam o universo do sonho. Kadath seria a cidade onde os deuses habitam, apenas vislumbrada no sono profundo, e para a alcançar Randolph Carter vai ter de se debater com inúmeros adversários fantásticos, e contar com a ajuda de alguns amigos poderosos no mundo do sonho que também são personagens de outros contos de Lovecraft, como o rei Kuranes de Celepahis, o "ghoul" Richard Pickman ou... o exército dos gatos de Ulthar! Devo confessar que toda esta bizarria me passaria ao lado até ao momento em que Lovecraft invoca, precisamente, o exército dos gatos de Ulthar, que combatem ferozmente para salvar Randolph Carter dos terríveis seres "assapados" do lado oculto da Lua. Mas isto é o quê? Um conto para crianças? Devo dizer que fiquei imensamente decepcionada e não aconselho a ninguém que comece a leitura do autor por esta história excepto se gostar muito, muito, mesmo muito!, de fantasia. Para os iniciados, é uma pequena maravilha conhecer o destino do artista Richard Pickman e do vagabundo Kuranes fora dos limites do mundo físico. Mas, na minha honesta opinião, a única parte realmente à altura de Lovecraft é o encontro final de Carter com Nyarlathotep, "the Crawling Chaos", o mensageiro do caos, que lhe explica que essa cidade porque tanto anseia não é mais do que um reflexo dourado das suas próprias memórias da infância passada em Boston. E dizendo isto, que pode ser verdade ou mais uma artimanha para o desviar do seu objectivo, Nyarlathotep estende-lhe outra armadilha de que o herói tem de se livrar. Nyarlathotep é a personagem que em Lovecraft mais se assemelha ao Diabo: tentador, elegante, eloquente... mas mentiroso e cruel. E esta é a única razão porque a história acaba com algum interesse.


Continua.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror III

The Case of Charles Dexter Ward
O roubo de identidades é um tema recorrente em Lovecraft. Diz-se que os escritores (até os melhores) escrevem sempre a mesma história de maneiras diferentes. "O Estranho Caso de Charles Dexter Ward" faz parte da obsessão.
A princípio, Charles Dexter Ward era apenas um vulgar estudante com um interesse particular em antiguidades e uma especial predilecção por reconstituir a árvore genealógica da família. É assim que descobre a existência de um tetravô desconhecido, cujos registos tinham sido estranhamente apagados de todos os documentos oficiais da região. Através de cartas particulares, contudo, e da memória de gente mais velha, Charles começa a aperceber-se que havia suspeitas sombrias sobre o seu antepassado falecido há 150 anos. Parece que o velho senhor viveu mais de cem anos mantendo sempre a mesma aparência. Havia no seu tempo a desconfiança generalizada de era por artes de vampirismo que o ancião de 100 anos parecia ter apenas 50. Era também conhecido por ser alquimista, e corria o boato da sua prática de bruxaria pois tinha fugido para Providence aquando dos julgamentos de Salem. O facto é que depois da sua morte, apesar de ser um homem muito rico e temido na comunidade, todo e qualquer registo do seu nome tinha sido erradicado e a própria viúva voltou a usar o nome de solteira, muito provavelmente porque o tetravô teria sido morto por um destacamento de "homens bons" depois da descoberta de horrores praticados nas catacumbas secretas debaixo da quinta onde a sinistra personagem mantinha o seu laboratório.
Entusiasmado pela descoberta, Charles embrenha-se na investigação e consegue mesmo descobrir a casa dos tetravós, onde encontra um grande painel com o retrato do proprietário e importantes papéis num esconderijo na parede. O que mais surpreendeu o jovem é que o retrato do antepassado era tão parecido com ele que parecia estar a ver-se ao espelho, razão pelo que o pai de Charles compra imediatamente o quadro e o leva para casa como presente para o filho. [Uma referência à obra de Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray"?...]
A partir daí, Charles fica obcecado com os estudos do seu antepassado, a ponto de se tornar ainda mais reservado e reclusivo do que era, sempre enfiado nos escritos e livros do tetravô, a ponto de montar no sótão um laboratório onde começou a fazer experiências que não partilhava com ninguém e que assustavam os pais e os criados da casa. Finalmente, decidiu abandonar os estudos universitários alegando "que estava prestes a atingir um conhecimento tão importante que escola nenhuma lhe poderia proporcionar". Os pais acharam que o filho enlouquecera e chamaram o médico de família, mas a este pareceu que Charles estava obcecado mas não louco. Quando atingiu a maioridade, Charles faz o mesmo que o seu tetravô teria feito no século XVII ou XVIII, uma longa viagem pela Europa que o levou de Londres à Transilvânia e onde conheceu outros alquimistas de importância.
Anos mais tarde, de regresso à América, desgastado e irreconhecível, Charles muda-se de casa dos pais para a mesma quinta onde o seu antepassado teria levado a cabo as suas experiências mais macabras, e explica ao médico de família que estaria cada vez mais próxima a "grande revelação" que iria revolucionar "todo o conhecimento do mundo, do sistema solar e do universo" (ou algo que o valha). Entretanto, o médico repara que o retrato do sinistro tetravô, devido à mudança ou à idade, tinha-se desintegrado e já não passava de um monte de pó caído no chão. Ainda assim, o clínico não acha que Charles tenha enlouquecido, embora agora este se tenha tornado um autêntico prisioneiro do seu trabalho no laboratório e chamado a si dois ajudantes: um português de quem Lovecraft diz muito mal [no mínimo chama-lhe "suspeito" só por ser "mulato", o que é habitual em Lovecraft] e uma criatura sinistra cuja cara anda sempre escondida debaixo de barba e óculos escuros que se apresenta como Dr. Allen e é notavelmente parecido com o antepassado de Charles.
O que aconteceu então? Tal como o antepassado, Charles tinha descoberto o processo químico para fazer, literalmente, os mortos renascer das cinzas, ou dos "sais" dos seus cadáveres, e a primeira coisa que fez foi levantar o corpo do seu tetravô. De facto, este já tinha feito planos para o que o seu tetra-neto descobrisse a sua campa, o seu retrato... e as suas anotações. E quando Charles acaba por ser internado, vítima de distúrbios de personalidade inexplicáveis, o médico de família tem todas as dúvidas de que o homem no hospício seja de facto o jovem estudante... ou o seu longínquo avô, levantado dos mortos e com as mais maléficas intenções de ocupar o lugar do pobre Charles Dexter Ward.
Um conto fascinante entre outros dois semelhantes: "The Thing on the Doorstep" e "Herbert West: Reanimator".


Cool Air
Um jovem escritor (diz-se apenas que escreve para uma revista) é obrigado a viver num edifício onde aluga um quarto junto com muitos outros hóspedes de fracos recursos. Neste conto, tenta explicar a sua estranha fobia a correntes de ar relatando o que se passou nesse prédio, cuja senhoria era espanhola ("quase barbuda", salienta Lovecraft) e onde vivia, no quarto andar, o excêntrico Dr. Muñoz, de quem esta dizia já ter sido "grande no seu tempo". Mas agora o médico reformado Dr. Muñoz era ele próprio afligido por uma estranha doença que o obrigava a manter o seu quarto sempre arrefecido a temperaturas próximas de zero através de uma máquina concebida para o efeito. Com o passar do tempo, repara o jovem escritor, a condição do velho médico ia-se agravando e o paciente, desesperado, tentava por tudo fazer baixar ainda mais a temperatura, ao mesmo tempo que tomava estranhos banhos gelados e fazia um uso peculiar de ervas aromáticas usadas nas múmias egípcias. Dizia o doutor que tinha declarado guerra à morte, uma afirmação bastante compreensível para um médico, mas algo no seu aspecto e no odor do quarto e na baixa temperatura repugnava ao jovem que, apesar de tudo, o tentava assistir o melhor possível.
Por exemplo, na noite em que a máquina se avariou fez todos os possíveis para encontrar mecânicos que a arranjassem e lhe substituíssem o motor enquanto mantinha o paciente abastecido em banhos de gelo, mas o dia estava quente e a reparação tardava. Quando entraram no quarto de onde o médico já não respondia, encontraram em seu lugar uma papa fétida e um manuscrito trémulo em que o Dr. Muñoz explicava a razão de todos os seus esforços. Dizia que a vontade sobrevivia ao corpo, e foi assim que se manteve vivo durante 18 anos após a morte, à custa de mumificação e baixas temperaturas, até à noite tépida de outono em que a máquina finalmente falhou...
Este é um conto que não resiste à implacável verdade da ciência pois se o Dr. Muñoz estava lúcido não podia ter havido morte cerebral, o que estraga o condimento que apimenta a história... ou será que não? Talvez no tempo de Lovecraft não se conhecessem conceitos como "morte cerebral" e se pudesse levianamente atribuir a existência à "vontade", mas nos dias de hoje contos como este colocam-nos sérias questões pois nunca foi possível viver tanto tempo em coma com ajuda artificial. Não posso deixar de querer imaginar (mas não consigo!) o que Lovecraft não escreveria sobre isso.


Dagon
Na sua nota de suicídio, em que declara estar prestes a atirar-se da janela, um ex-prisioneiro da Primeira Guerra Mundial relata como consegue evadir-se do navio alemão que o capturara num pequeno salva vidas. Perdido e à deriva algures no hemisfério sul, tinha esperança apenas de encontrar um navio que o salvasse do naufrágio quando a exaustão lhe faz perder os sentidos. Quando volta a si, apercebe-se de que o mar tinha desaparecido e tanto ele como o barco estavam agora em terra firme mas pantanosa. Só havia uma explicação: durante o desmaio, alguma erupção vulcânica teria projectado para fora este pedaço de terra arrancado ao fundo do mar, e tão grande era a sua extensão que o náufrago teve de o percorrer a pé durante vários dias em busca de encontrar de novo o mar. É nesta caminhada que descobre uma montanha, e que, atrás dela, se abria um enorme abismo cheio de água. À luz da lua cheia, o que o mais o surpreendeu foram as esculturas na rocha, que pareciam ser provas de um culto pré-histórico e desconhecido a gigantescos deuses do mar, ou assim pensava o perplexo observador. Pensava, porque quando viu uma dessas enormes criaturas, toda ela barbatanas e escamas, sair do abismo e adorar o obelisco erguido em honra dos deuses do mar, não teve mais dúvidas e refugiou-se para sempre no vício da morfina para não se recordar do que tinha visto com os próprios olhos, até ao momento em que decide pôr termo à vida.
Lovecraft chama "Dagon" ao deus-peixe das profundezas adorado pelos homens-peixe em "The Shadow Over Innsmouth".



Ex Oblivione
Uma página de prosa poética da melancolia mais profunda raramente expressa em Lovecraft, este é um meio conto, meio poema, em que um sonhador se aventura por um maravilhoso vale encantado onde encontra uma porta que decide atravessar para fugir à realidade. Como toda a poesia, esta pode ser interpretada de muitas formas mas na minha modesta opinião do que aqui se fala é da própria morte:

Some of the dream-sages wrote gorgeously of the wonders beyond the irrepassable gate, but others told of horror and disappointment. I knew not which to believe, yet longed more and more to cross forever into the unknown land; for doubt and secrecy are the lure of lures, and no new horror can be more terrible than the daily torture of the commonplace.


Facts Concerning the Late Arthur Jermyn and his Family
Não sei se todos os leitores de Lovecraft concordam comigo mas esta história parece-me mais cómica do que trágica, se calhar por causa de uma protagonista "portuguesa" que me provocou algumas gargalhadas tão silenciosas quanto permite a minha falsa indignação. Preparem-se, pois, lusitanos, porque de todas as alusões ao povo português na obra de Lovecraft esta é de facto a mais mázinha.
Começa-se por dizer que Arthur Jermyn se auto imolou pelo fogo quando descobriu a verdade sobre a sua família. O que poderia ser tão grave? Pelos vistos, uma ascendente portuguesa, que o seu antepassado, Sir Wade, grande explorador de outros séculos, teria conhecido em África. Diz-se que esta filha de pai português, comerciante, casara com o americano, mas desgostada dos hábitos anglo-saxónicos teria permanecido reclusivamente fechada em casa e nunca teria sido vista por ninguém, até à viagem que fez com o marido de volta a África onde viria a falecer.

[Até aqui nada de muito grave ou insultuoso, mas desta "portuguesa" fala-se mais tarde.]

Diz-se que a loucura sempre existiu na casa dos Jermyn desde o grande explorador Sir Wade, que com um copo a mais não se cansava de repetir que tinha vivido numa cidade perdida no coração de África: as ruínas de civilização magnífica e avançada agora ocupadas por uma sociedade de grandes símios. Acabou por morrer num manicómio sem mostrar grande desgosto por ser separado do filho. O filho, nascido da união com a misteriosa esposa, ainda veio mais afectado. Philip Jermyn era uma criatura corpulenta mas ágil, de feições algo estranhas apesar da parecença com o pai, e uma predilecção por subir às árvores. Casou com uma mulher de ascendência cigana mas depressa a abandonou para se tornar marinheiro. Certa noite, ao largo do Congo, desapareceu na selva e nunca mais voltou.
Deixou um filho que, certamente saído ao avô, se distanciou intelectualmente do pai. Apesar de algumas desproporções fisionómicas, Sir Robert era um homem elegante e inteligente e tornou-se um grande estudioso. Foi o primeiro a debruçar-se sobre o grande manancial de objectos preciosos que o avô trouxera de África e a conquistar um nome na comunidade científica da etnologia da altura. Casou e teve três filhos, sendo que o mais velho e o mais novo eram tão desmesuradamente feios que eram guardados da vista do público, o que causava grande desgosto ao casal. O filho do meio, Nevil, que parecia tão desmiolado como o avô Philip, e de aparência igualmente desagradável (mas não tanto como os irmãos), acabou por fugir com uma bailarina de má vida e só voltar a casa depois de enviuvar, trazendo com ele um único filho, Alfred. Devido a estas contrariedades que afectavam a estatuto social da família, Sir Robert embrenhou-se ainda mais nos seus estudos africanos e chegou mesmo a visitar o continente em duas expedições. Os mitos que ouviu por lá e os desgostos pessoais, diz-se, foi o que o levou a perder a cabeça, pois depois de tomar conhecimento de uma cidade magnífica dominada por macacos que adoravam um "deus branco", assassinou, nesse mesmo dia, o amigo que o informara do facto, e os seus três filhos, tentando matar-se de seguida. Não o conseguiu, nem conseguiu matar o neto, como pretendia, acabando por morrer num hospício. O que teria levado a tamanha loucura um homem até então perfeitamente lúcido e equilibrado?
Ninguém o poderia saber, muito menos o seu neto Alfred que acabou por sair ao pai. Casou e constituí família, deixando um único filho, Arthur, mas também enveredou por abandonar a esposa para ir viver com um circo. Tinha uma especial afinidade com os animais, e uma predilecção por um gorila com quem se "entendia" muito bem e o qual treinou para um espantoso número que maravilhava as multidões... mas um dia houve uma "briga", homem e animal envolveram-se numa luta, e quase nada restou do corpo de Alfred Jermyn.
Arthur Jermyn, o único filho e último da linhagem, saiu a Sir Wade e Sir Robert. Apesar de ser muito feio e ter os membros invulgarmente longos, Arthur era intelectualmente superior e aproveitou a boa educação que ainda lhe proporcionou a fortuna restante da família. Tornou-se um poeta e um académico e decidiu dedicar-se também aos estudos etnológicos em África que tinham distinguido os membros da família. Tal como Sir Robert, visitou o Congo e procurou sem preconceito vestígios da cidade de falava o seu antepassado, atribuindo-lhe um carácter mitológico e nada mais. Era um homem de letras mas também de ciência, um verdadeiro humanista. Na sua busca, entrevistou alguns chefes de tribos locais mas apenas um lhe falou da misteriosa cidade perdida dos macacos brancos. Segundo a lenda, esta tinha mesmo existido, e os símios que a habitavam adoravam a múmia de uma macaca branca de espécie mais semelhante ao homo sapiens. Há muito que as tribos locais tinham dizimado os macacos, mas o ídolo, símbolo de poder, ainda existia, algures numa tribo africana, e podia ser comprado. O velho chefe africano contou ainda mais. Rezava a lenda que na cidade dos macacos tinha reinado um "deus branco" casado com a princesa macaca, e que ambos tinham tido um filho e abandonado África, mas regressaram e a princesa tinha sido preservada para adoração. Havia rumores de que, mais tarde, este "deus branco", ou o filho de ambos, teria voltado também, se para a mulher ou para a mãe não se sabia a certeza. Arthur conhecia as histórias da família. Talvez não quisesse ver como tudo batia certo com a história do antepassado, o famoso explorador Sir Wade?...
Até que um dia a esperada encomenda chegou a sua casa e Arthur se regou com gasolina e pegou fogo a si próprio perante os criados estupefactos. Os colegas etnólogos conseguiram reconstruir a história: dentro da caixa estava a múmia de uma macaca branca, totalmente símia mas mais semelhante ao ser humano do que os primatas conhecidos. E ao pescoço tinha um medalhão que provava, sem sombra de dúvida, que tinha sido esta a misteriosa esposa "portuguesa" do famoso Sir Wade... que constituíra família com uma macaca.



Continua.

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terça-feira, fevereiro 10, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror II

The Whisperer in Darkness
«(A Buzzing Imitation of Human Speech)

Ia! Shub-Niggurath! The Black Goat of the Woods with a Thousand Young!»

Onde é que eu ouvi algo semelhante?

Let it spill from my mouth
Sweet nectar for a thousand young


Fields of the Nephilim, "Psychonaut Lib"

[É oficial. As letras do sr. McCoy são ainda menos compreensíveis do que o universo alienígena do autor em que se inspiram.]



Esta é outra das histórias mais arrepiantes de H. P. Lovecraft, muito devido à habilidade como o enredo vai sendo exposto através de cartas entre os protagonistas, à semelhança do clássico "Drácula" de Bram Stocker. Depois de uma inundação em Vermont, populares relatam o avistamento entre os destroços de corpos não-humanos que o folclore local associa a criaturas monstruosas (segundo os Índios, extraterrestres), que habitam as altas montanhas para extrair minério. Em sequência destes acontecimentos, Albert Wilmarth, um professor da universidade de Miskatonic versado em mitologia e lendas é interpelado pelos seus colegas que desenvolvem teorias no sentido de revelar alguma base de verdade nos relatos dos populares. Muito céptico, este professor rejeita completamente estas teses e depressa a polémica chega aos jornais. É então que recebe a primeira carta de um cavalheiro erudito e distinto, habitante do sopé das montanhas de Vermont, que não apenas afirma que as criaturas são reais e de facto extraterrestres como fornece provas tangíveis (fotografias e gravações) da sua existência. Mais ainda, afirma que estes seres têm vindo a cercar a sua casa, tentando matá-lo ou capturá-lo para o levarem para outro planeta, por saber demais sobre eles. Um dos destinos prováveis é o posto avançado que teriam no planeta Yuggoth, o recém descoberto Plutão. [Plutão foi descoberto em Fevereiro de 1930. O conto data de Setembro do mesmo ano.]
Se a princípio o céptico professor tem dificuldade em acreditar nas cartas e provas que recebe, à medida que a correspondência se torna mais intensa apercebe-se que de facto o cavalheiro está plenamente convencido de que está em perigo, seja a ameaça real ou imaginária, uma vez que este já fala em abandonar tudo e ir morar com o filho na Califórnia. Quando as cartas revelam que a situação em torno da casa do distinto eremita se torna deveras preocupante, o professor decide deslocar-se pessoalmente a Vermont para ajudar o amigo seja qual for a natureza do apuro que o ameaça. Quando chega, é demasiado tarde. Este já tem o cérebro metido num cilindro e pronto para ser despachado para Plutão, e o ser com quem chega a ter uma conversa, apercebe-se depois, não passa de um extraterrestre com uma máscara de cera copiada do original. O cenário que encontra é tão chocante que só lhe resta fugir para bem longe e destruir todas as provas.
Outra leitura altamente recomendável.



Dreams in the Witch-House
Um jovem estudante, hóspede de uma casa em Arkham onde habitou em tempos uma feiticeira fugida de Salem, começa a ter pesadelos com a velha bruxa e o seu espírito familiar: uma criatura do tamanho de um grande rato com feições humanas chamado Brown Jenkins. Se não fosse mesmo por este Brown Jenkins, por quem nutro uma especial simpatia, teria achado este conto uma imensa seca. Não sei se devido à minha cultura europeia, especialmente peninsular, em que bruxas não faltam a cada esquina, se pelo meu cepticismo em relação ao caso de Salem em geral, não tenho medo de bruxas que papam criancinhas. Se calhar por isso é que acho que a história não tem pés nem cabeça e a única parte boa é quando a pequena criatura come o estudante. Pode ser mais assustador para um americano, mas terão de perguntar a um americano. Porque aqui não se acredita em bruxas mas que as há, há. Brown Jenkins, no entanto, é um nome engraçado para um gato de família.

The Haunter of the Dark
Um escritor começa a interessar-se por uma igreja abandonada cujo pináculo consegue avistar da janela do seu quarto. A sua curiosidade é despertada ao reparar que os pássaros não se chegam perto dela. Finalmente, decide dar um passeio pela parte mais longínqua da cidade em busca do que pensava ser apenas um monumento arquitectónico de grande interesse. É com perplexidade que percebe que os habitantes locais têm um medo supersticioso do local que se manteve fechado e impenetrável durante dezenas de anos. Destemido, consegue maneira de entrar e no interior do templo descobre livros e vestígios de uma estranha seita que invocava deuses sanguinários. Nos livros lá deixados consegue ler que uma criatura terrível habita o local (mais um dos Antigos, ou uma sua criação) e apenas a luz, até a artificial luz eléctrica, a mantém prisioneira dentro das quatro paredes. E o escritor não duvida disso porque desde a visita à igreja os seus sonhos começam a ser assombrados por visões de outros tempos e mundos, e ele sabe que é a o ser da escuridão quem lhos manda. A partir daí, vive em terror que uma noite falte a luz na cidade e o ser consiga libertar-se na escuridão. Numa noite de verão, mas de tempestade, chuva e relâmpagos, a electricidade falha. O terror da escuridão já pode sair do seu cativeiro.



The Shadow Over Innsmouth
Este é outro clássico imprescindível para conhecer o universo de Lovecraft e toda a sua galeria de monstros. É na fictícia Innsmouth que se desenvolve mais um capítulo aterrador do domínio dos que estão nas profundezas do mar. Durante séculos, Innsmouth foi uma pacata vila piscatória e portuária de onde saíam barcos que velejavam pelo Pacífico Sul. De uma dessas viagens, o armador mais rico da vila trouxe ideias de começar uma nova religião, a Ordem de Dagon, a que todos os habitantes aderiram seduzidos por promessas de prosperidade ("estes Deuses do mar respondem às nossas orações"). Em troca de prosperidade, os Deuses exigiam sacrifícios humanos e... na curiosa expressão utilizada por Lovecraft noutro conto: "tráfico com as coisas do mar". Isto é, acasalamento entre as criaturas marinhas e os seres humanos. Nem todos os habitantes de Innsmouth aceitaram as novas leis... mas estes acabaram por servir os sacrifícios. O certo é que em poucas dezenas de anos Innsmouth se tornou um amontoado de casas abandonadas e entaipadas, onde não se via vivalma, e os habitantes começaram por exibir deformidades repugnantes: membros achatados, pupilas dilatadas cujos olhos nunca piscam, queda de cabelo, pele semelhante a escamas, andar esquisito, cabeça careca, e, o pior de tudo, um intenso cheiro a peixe. Os habitantes de Arkham evitavam deslocar-se à cidade, não só por ser considerada um antro de criminalidade mas por se ter generalizado a ideia de que estes infelizes sofriam de uma doença genética e endémica, repulsiva para as pessoas normais, que se agravava à medida que envelheciam a ponto de os casos mais graves serem mantidos em segredo dentro de portas, em sótãos onde as janelas foram também forradas a madeira.
Não obstante, um jovem estudante em turismo pela região, especialmente atraído pelas peças de joalharia típicas dos habitantes de Innsmouth e por arquitectura em geral, decide tirar um dia para visitar a vila. Mal tinha chegado já se tinha arrependido, porque os habitantes eram esquivos e repugnantes, e aquilo que lhe conta um dos poucos habitantes da vila que só lá estava devido ao seu posto no armazém geral o convence de que seria muito perigoso pernoitar ali. Mas a curiosidade acaba por vencê-lo, e perde tempo precioso a falar com um velho bêbedo, mas de aspecto normal, que lhe conta toda a história de como a vila adora os Deuses do Mar ("the Deep Ones") e os seus habitantes nascidos da união entre seres humanos e híbridos se transformam com a idade por sua vez em híbridos, e acabam por ir viver para as profundezas como os seus antecessores, tendo aí uma vida imortal.
O jovem turista não acredita em nada destas lendas mas por incidente imprevisto é obrigado a passar a noite no único hotel da cidade. É aqui que apanha um dos maiores sustos da sua vida, quando percebe que o *incidente* não foi acidental e que está a ser perseguido por uma horda de homens-peixe que acaba finalmente por conseguir ver com os seus próprios olhos. Consegue a custo fugir de Insmouth, a pé, despistando os seus perseguidores, mas só muitos anos mais tarde chega a perceber que afinal eles não o queriam aprisionar mas antes, devido ao seu parentesco com o povo de Innsmouth, devolvê-lo à família. É que com a idade, ele também começa a transformar-se. É um deles. E agora tem duas opções: suicidar-se, como o fez um seu tio ao descobrir a verdade sobre a sua ascendência, ou mergulhar para sempre na companhia dos Deuses do Mar.



The Shadow Out of Time
Um pacato professor de Economia Política está a dar uma aula quando desfalece e parece sofrer de amnésia durante anos a fio, uma amnésia tão profunda que nem os seus amigos ou a própria mulher o reconhecem. Quem escreve é o próprio, saído desse torpor, para explicar como voltou a ser ele próprio e todas as viagens e investigações que fez durante a amnésia lhe parecem feitas por um outro que não ele. De facto, começa desde logo a ser atormentado por sonhos estranhos, que contava apenas ao seu filho e médicos pessoais, em que se via aprisionado num outro corpo, no planeta Terra mas muito antes de toda a vida conhecida, por uma tal Grande Raça ("the Great Race") de origem extraterrestre que tinha o poder de trocar de mente com criaturas de outros locais e até de outros períodos temporais, de modo que a mente do professor foi transportada para o passado enquanto o extraterrestre usurpador do seu corpo, no presente, obtinha conhecimentos sobre o a humanidade do século XX. Esta Grande Raça, por sua vez, tinha sido forçada a fugir para a Terra em consequência da iminente destruição do seu próprio planeta -- ideia da invasão extraterrestre motivada pela necessidade dos nossos recursos tão explorada na ficção científica desde "A Guerra dos Mundos" ao simpático Super-Homem.
Mais do que terror, este é de facto um conto de ficção científica que se baseia no fascínio de Lovecraft pelas ideias de Einstein sobre o espaço e o tempo, mas que para um leitor actual tem partes verdadeiramente cómicas. Por exemplo, as outras mentes prisioneiras da Grande Raça, que o professor descreve assim:

I knew, too, that I had been snatched from my age while another used my body in that age, and that a few of the other strange forms housed similarly captured minds. I seemed to talk, in some odd language of claw clickings, with exiled intellects from every corner of the solar system.
There was a mind from the planet we know as Venus, which would live incalculable epochs to come, and one from an outer moon of Jupiter six million years in the past. Of earthly minds there were some from the winged, starheaded, half-vegetable race of palaeogean Antarctica; one from the reptile people of fabled Valusia; three from the furry pre-human Hyperborean worshippers of Tsathoggua; one from the wholly abominable Tcho-Tchos; two from the arachnid denizens of earth's last age; five from the hardy coleopterous species immediately following mankind, to which the Great Race was some day to transfer its keenest minds en masse in the face of horrible peril; and several from different branches of humanity.
I talked with the mind of Yiang-Li, a philosopher from the cruel empire of Tsan-Chan, which is to come in 5,000 A.D.; with that of a general of the greatheaded brown people who held South Africa in 50,000 B.C.; with that of a twelfth-century Florentine monk named Bartolomeo Corsi; with that of a king of Lomar who had ruled that terrible polar land one hundred thousand years before the squat, yellow Inutos came from the west to engulf it.
I talked with the mind of Nug-Soth, a magician of the dark conquerors of 16,000 A.D.; with that of a Roman named Titus Sempronius Blaesus, who had been a quaestor in Sulla's time; with that of Khephnes, an Egyptian of the 14th Dynasty, who told me the hideous secret of Nyarlathotep, with that of a priest of Atlantis' middle kingdom; with that of a Suffolk gentleman of Cromwell's day, James Woodville; with that of a court astronomer of pre-Inca Peru; with that of the Australian physicist Nevil Kingston-Brown, who will die in 2,518 A.D.; with that of an archimage of vanished Yhe in the Pacific; with that of Theodotides, a Greco-Bactrian official Of 200 B.C.; with that of an aged Frenchman of Louis XIII's time named Pierre-Louis Montagny; with that of Crom-Ya, a Cimmerian chieftain of 15,000 B.C.; and with so many others that my brain cannot hold the shocking secrets and dizzying marvels I learned from them.

A própria Grande Raça é cómica: os seus corpos físicos são gigantescos cones movediços de onde saem múltiplos tentáculos ou sensores. Acho que "Os Simpsons" aproveitaram isto para um episódio em que estes extraterrestres pareciam ameaçadores mas acabavam por ser simpáticos apesar do seu estranho aspecto. Também me lembro de algo semelhante no lendário "Star Trek" ("O Caminho das Estrelas"), em que não eram tão amigáveis.
A moralidade da Grande Raça, porém, não é tema da história. Até porque muitos antes de toda a vida terrestre a Grande Raça sabia que teria de fugir de novo para outro planeta pois seria ameaçada por uma espécie ainda mais antiga de extraterrestres cujas mentes não conseguiam controlar e que apenas podiam conter em subterrâneos debaixo do esplendor das suas grandes cidades.
É aqui que Lovecraft abandona a ficção científica para deixar a sua pincelada de terror. Certo é que a Grande Raça já não habita entre nós, pois migrou há milhões de anos para outras paragens, mas o professor interroga-se sobre a sobrevivência da outra raça, a mais antiga e temida até pelas mentes superiores dos seus captores.
Para perceber a origem da sua ilusão, o protagonista embrenha-se no estudo da psicologia e acaba por convencer-se de que os seus sonhos são pseudo-memórias criadas pelos estranho interesse em mitologia que o possuiu durante os anos de amnésia e decide até publicar os seus sonhos para fins científicos em jornais da especialidade. É devido a estas publicações que é contactado por um arqueólogo que efectuava escavações na Austrália, pois os vestígios que tinha encontrado eram em tudo semelhantes às descrições do ex-paciente. Convidado para integrar a expedição, mas muito céptico em relação às alegações do colega, o professor parte para o deserto australiano, onde vem a deparar-se com as ruínas da grande cidade com que tinha sonhado. Encontra até, nessas escavações nunca antes tocadas por um ser humano, um livro escrito pelo seu próprio punho, em inglês. E encontra outra coisa mais monstruosa: pegadas. É que todos os alçapões onde a Grande Raça aprisionava os mais antigos se tinham aberto com as convulsões da Terra, e sim, esses seres monstruosos andavam à solta.

Uma última nota sobre um facto que é recorrente em toda a obra de Lovecraft e que me causa desgosto particular: Lovecraft não gosta da Lua. Arrisco uma explicação astrológica. Talvez por ser de signo Leão, cujo astro é o Sol, Lovecraft descreve sempre a Lua como silenciosa cúmplice dos monstros e o luar como mancha doentia sobre as ruínas, ruas ou personagens sobre quem cai na escuridão da noite, mas nesta história Lovecraft faz um dos seus ataques mais violentos, descrevendo como inchada e fungóide a musa inspiradora de tantos poetas, assim:

The daemon wind died down, and the bloated, fungoid moon sank reddeningly in the west.


At the Mountains of Madness
Esta é um dos meus contos preferidos por ser fonte de tantos mitos que povoam o nosso inconsciente colectivo moderno e que eram novidades aterradoras à altura. A história? Uma equipa de cientistas descobre uma nova espécie e decide dissecá-la. A nova espécie não está tão morta como parece e papa os cientistas.

I am forced into speech because men of science have refused to follow my advice without knowing why. It is altogether against my will that I tell my reasons for opposing this contemplated invasion of the antarctic--with its vast fossil hunt and its wholesale boring and melting of the ancient ice caps. And I am the more reluctant because my warning may be in vain.

Começa assim o narrador a tentar dissuadir uma expedição ao Pólo Sul, lembrando uma Ripley a tentar impedir que alguma nave regresse ao planeta onde encontrou os Aliens. Não, o cientista não está preocupado com o aquecimento global. Esses são terrores mais actuais. Na altura ainda havia margem para especular sobre a desconhecida Antárctida.
Equipada com os meios mais sofisticados da época, uma equipa com fins geológicos, biológicos e geográficos parte para o Pólo Sul com grandes ambições:

We planned to cover as great an area as one antarctic season--or longer, if absolutely necessary--would permit, operating mostly in the mountain ranges and on the plateau south of Ross Sea; regions explored in varying degree by Shackleton, Amundsen, Scott, and Byrd. With frequent changes of camp, made by aeroplane and involving distances great enough to be of geological significance, we expected to unearth a quite unprecedented amount of material--especially in the pre-Cambrian strata of which so narrow a range of antarctic specimens had previously been secured. We wished also to obtain as great as possible a variety of the upper fossiliferous rocks, since the primal life history of this bleak realm of ice and death is of the highest importance to our knowledge of the earth's past. That the antarctic continent was once temperate and even tropical, with a teeming vegetable and animal life of which the lichens, marine fauna, arachnida, and penguins of the northern edge are the only survivals, is a matter of common information; and we hoped to expand that information in variety, accuracy, and detail. When a simple boring revealed fossiliferous signs, we would enlarge the aperture by blasting, in order to get specimens of suitable size and condition.

O narrador começa então a descrever a aventura, sem esconder um certo desdém pela arrogância humana de querer conhecer sempre mais do que lhe é revelado independentemente dos riscos. É a grande fábula do jardim do Éden revisitada. Mais do que "Cthulhu", que foi recentemente adaptado ao cinema, acho que "The Mountains of Madness", apesar das suas sucessivas influências na posteridade, merecia um filme mais honesto na origem e fiel ao original. Esta é provavelmente a obra de H. P. Lovecraft mais pilhada de sempre.
Senão, reparem. Que grande erro começam os cientistas por cometer? Como qualquer amante de filmes de terror sabe de cor: separam-se. Um deles decide arriscar a previsão de mau tempo ao descobrir ao longe uma nova cordilheira, "mais alta que os Himalaias", e leva com ele a maior parte dos recursos da expedição contra a vontade do narrador, que fica para trás. Estas grandes montanhas vão revelar-se então as guardiãs de um terror há muito adormecido.
Eufóricos com a grande descoberta das suas vidas, uma nova parte do mundo, os cientistas afoitos começam a escavar, e ignoram até os latidos insistentes dos seus cães de trenó que se mostram muito agitados à medida que vao sendo desenterrados primeiro estranhas pedras que parecem artefactos, e, de seguida, uma vastidão de caves subterrâneas. É aqui que os cientistas encontram vários espécimes, presumivelmente mortos e congelados, que levam para autópsia no acampamento.
Novo aviso a não ser ignorado, também sobejamente conhecido dos filmes de terror: quando os cães ladram, foge!
Mas estes cientistas não tinham aparentemente visto muitos filmes de terror, embora conhecessem os mitos de Cthulhu do livro maldito Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred.

[O narrador faz muitas vezes referência à influência de um certo professor Wilmarth do departamento de Inglês da universidade de Miskatonic e dos seus conhecimentos de folclore, e, pela frequência com que Lovecraft mistura os personagens em histórias diferentes, tudo leva a crer que este Wilmarth é exactamente o mesmo que protagoniza "The Whisperer in Darkness", logo, um verdadeiro perito.]

Por esta razão, e um pouco em jeito de troça, os cientistas chamaram provisoriamente aos espécimes recém descobertos Os Antigos ("the Old Ones").
E eis que o Homem conheceu o Alien. Descreve-o assim:

Objects are eight feet long all over. Six-foot, five-ridged barrel torso three and five-tenths feet central diameter, one foot end diameters. Dark gray, flexible, and infinitely tough. Seven-foot membranous wings of same color, found folded, spread out of furrows between ridges. Wing framework tubular or glandular, of lighter gray, with orifices at wing tips. Spread wings have serrated edge. Around equator, one at central apex of each of the five vertical, stave-like ridges are five systems of light gray flexible arms or tentacles found tightly folded to torso but expansible to maximum length of over three feet. Like arms of primitive crinoid. Single stalks three inches diameter branch after six inches into five substalks, each of which branches after eight inches into small, tapering tentacles or tendrils, giving each stalk a total of twenty-five tentacles.

At top of torso blunt, bulbous neck of lighter gray, with gill-like suggestions, holds yellowish five-pointed starfish-shaped apparent head covered with three-inch wiry cilia of various prismatic colors.

Perante a descoberta, os cientistas passaram imediatamente a fazer autópsias. E outras dissecações também aconteceram, mas não as que os cientistas estavam à espera. Quando o resto da expedição se junta ao acampamento avançado encontra um massacre. Homens e cães de trenó, todos feitos em pedaços. Alguns dos espécimes, que aparentemente estavam mortos e congelados, tinham desaparecido, tal como um dos homens e um cão. A única explicação que encontram é que os colegas foram acometidos por uma loucura assassina devido ao isolamento e influência das sinistras montanhas, pelo que o incidente é abafado. Apesar do choque, dois dos restantes elementos, um piloto e o geólogo que narra a história, decidem fazer um voo de reconhecimento para lá das altas montanhas. Assim que as ultrapassam, descobrem uma gigantesca e fantástica cidade construída, supõem, há 50 milhões de anos e abandonada há milénios. Apesar de perceberem imediatamente que tanto a cidade como os espécimes encontrados antes, pela sua idade geológica, só podiam pertencer a uma civilização extraterrestre, arriscam a entrada na cidade que julgam desabitada.

 
"The Dead City", por Nicholas Roerich, pintor que Lovecraft cita neste conto para descrever as fantásticas visões no Pólo Sul


É durante este périplo que Lovrecraft, através do narrador, faz a melhor e mais exaustiva exposição do apogeu e declínio dos Antigos ("the Old Ones"), desde a sua chegada à Terra, a colonização e a criação de todas as outras formas de vida [Lovecraft não tem medo de cair na blasfémia: foram os Antigos que nos criaram], e as suas guerras com invasores posteriores: seres como Cthulhu e outros extraterrestres que também fazem parte dos mitos do Necronomicon.

[Por este motivo, aconselho o leitor que se queira familiarizar com a obra de Lovecfrat a começar por "The Mountains of Madness", de modo a compreender melhor os outros contos em que não se explica tão exaustivamente a História dos Antigos e a sua relação com outros seres como Cthulhu, os curiosos crustáceos de Vermont que protagonizam "The Whisperer in Darkness", os homens-peixe de "The Shadow Over Innsmouth", e muitas outras manifestações do universo de Lovecraft nas mais diversas partes do mundo.]

A exploração da cidade trouxe ainda outra surpresa desagradável para os cientistas. Os espécimes que provocaram caos no acampamento estavam afinal vivos e tentaram voltar a casa... mas algo os decapitou. Na cidade deserta permaneciam os Shogoths, criaturas de matéria indefinível criadas pelos Antigos para trabalharem na construção dos edifícios gigantescos, que na ausência dos donos destruíam tudo o que encontravam pela frente. Quem se lembra da famosa cena de Indiana Jones a fugir à frente de um pedregulho em "Os Salteadores da Arca Perdida" terá mais facilidade em perceber de que maneira os cientistas tiveram de correr para salvar a vida à frente de um Shogoth que os perseguiu, na analogia de Lovecraft, como o metro avança implacavelmente no seu túnel. [Pois é, Spielberg não inventou nada.]

 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

Por todas estas razões, "The Mountains of Madness", adaptando o argumento não ao Pólo Sul, por impossibilidade científica, mas a um planeta inexplorado, daria um grande filme em que se restabeleceria a verdade sobre as origens de "Aliens", "A Esfera", "O Abismo", e uma miríade de filmes de monstros extraterrestres e submarinos que não passam da adaptação deste precioso conto.


Continua.

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domingo, fevereiro 08, 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror I

O primeiro contacto relevante que me levou a ler Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) foi referência ao clássico "The Thing on the Doorstep" por Anne Rice, nesse outro clássico que é a aventura do vampiro Lestat em "The Tale of The Body Thief". Curiosa, fui à internet procurar o primeiro conto que tinha inspirado o segundo (as obras de Lovecraft já se encontram disponíveis gratuitamente na web). Encontrei, e dando uma vista de olhos pelo resto da obra, foram-me logo parar os olhos num outro clássico de Lovecraft, "The Cats of Ulthar", quanto mais não fosse por não estar assim à espera de um conto de terror que envolvesse gatos. Como era uma história pequena, li-a também, deliciada, e prometi regressar a Lovecraft assim que pudesse.
Foi este o meu primeiro encontro com o autor americano, mas não com os seus mitos. Há muitos anos que conhecia Cthulhu, dos meus muito preferidos Fields of the Nephilim, mas há mesmo tantos anos que é uma vergonha ter demorado todo este tempo a dedicar-me à sua leitura, da mesma forma que é uma pena que Lovecraft esteja tão pouco divulgado entre nós, não só entre os apreciadores de terror como também entre os amantes de ficção científica. Eis uma tentativa para que a situação mude.
H. P. Lovecraft era daqueles autores que se sentam à secretária para escrever histórias de meter medo. Estes são poucos e, entre eles, menos ainda o conseguem. Lovecraft, contudo, no deserto dos anos 20 e 30, tanto inspirado em Edgar Allan Poe e no folclore da bruxaria de Salem, como em Einstein e nas recentes descobertas científicas do ainda recente século, compôs em histórias relativamente curtas toda uma obra que veio a influenciar autores de todas as áreas e os seus horrores mais básicos ainda inspiram o cinema mais recente. Aliens? Nada de novo. Possessão? Só mudam os mitos. Casas assombradas? Possivelmente ninguém explorou tanto o campo como Lovecraft e o seu fascínio pelos casebres abandonados das florestas em torno da cidade imaginária de Arkham, banhada pelo igualmente inexistente rio Miskatonic, no que os especialistas chamam "Lovecraft Country" (mas situado na verdadeira Nova Inglaterra, Essex County, Massachusetts). Feiticeiras? Das verdadeiras, e bruxos também. Investigadores paranormais? Ninguém foi tão longe como Randolph Carter. Necronomicon? Inventou-o. Pois é, o famoso Necronomicon não existe, mas existem versões disponíveis, geradas pelo que hoje chamamos "fan fic" (ficção feita pelos fãs utilizando os personagens e universo de um autor preferido).
Para começar a pesquisar Lovecraft, aconselho a página da Wikipedia, com vários links relativos ao seu mundo muito particular. Tal como Tolkien, Lovecraft também inventou todo um universo paralelo, metade passado na mundo como o conhecemos, a outra metade passado na terra dos sonhos, mas dividiu-o em pequenos contos de modo que não temos a papinha toda feita como na trilogia d'"O Senhor dos Anéis". Por outro lado, quanto mais se lê mais se deseja ler.
A melhor alusão à parte terrena do universo de Lovecraft vem mesmo do personagem do clássico "The Thing on the Doorstep", por onde comecei, que a certa altura desabafa: "I suppose you think I'm crazy, Dan--but Arkham history ought to hint at things that back up what I've told you--and what I'm going to tell you." Ou, "What he said was not to be believed, even in centuried and legend-haunted Arkham; but he threw out his dark lore with a sincerity and convincingness which made one fear for his sanity. He talked about terrible meetings in lonely places, of cyclopean ruins in the heart of the Maine woods beneath which vast staircases led down to abysses of nighted secrets, of complex angles that led through invisible walls to other regions of space and time, and of hideous exchanges of personality that permitted explorations in remote and forbidden places, on other worlds, and in different space--time continua."
Fora de Arkham, existe também um mundo de cidades escondidas no deserto, submersas no fundo do mar, nas entranhas da terra, nos inacessíveis picos gelados, restos de civilizações colossais, marmóreas, ciclópicas, há muito abandonadas pelos seus construtores e habitantes mais velhos do que o mundo, sejam deuses ou monstros, extraterrestres ou demónios, descritas apenas no misterioso e amaldiçoado Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

E muita atenção! Quando Lovecraft fala em "tráfico com as coisas do mar" não está de todo a referir-se à venda ilegal de pérolas preciosas, mas sim à existência de uma raça híbrida entre o ser humano e os Outros, os Antigos, os habitantes das profundezas.
Uma boa fonte para download da obra de H. P. Lovecraft, em formato .zip, é o Projecto Gutenberg Australia.
Tentarei abordar aqui as melhores histórias e despertar a curiosidade para este autor injustamente ainda tão desconhecido.

The Festival
Desejoso de voltar a participar nas tradições do seu parentesco, um jovem regressa à terra natal (a cidade ficcional de Kingsport) para uma celebração natalícia que nada tem de cristão. Acaba na manhã seguinte numa cama de hospital, convencido de que o seu parentesco nem sequer pertence à raça humana. O que faz dele então?...

The Colour Out of Space
Passada nos arredores da cidade ficcional preferida do autor, Arkham, esta é uma história de ficção científica verdadeiramente arrepiante. Isto é-vos dito e garantido por uma leitora e espectadora assídua de terror, em pleno século XXI. Confesso: a certa altura tive de parar de ler e começar a olhar em volta. Quando isto acontece, meus amigos, é porque estamos perante uma obra genial, que se insinua, que nos perturba, que nos faz considerar a possibilidade de acontecer mesmo. E porquê? No caso da ficção científica até não é muito difícil. Conhecemos tão pouco do universo!
Tudo começa com a queda de um meteorito perto de uma pacata quinta de família honesta. Chamados os peritos, chegam à conclusão que não se consegue determinar em termos científicos conhecidos a espécie de metal (a ser metal) que o compõe. Em questão de dias, o meteorito decompõe-se e desaparece. Mas a terra onde caiu começa a produzir estranhos vegetais que não prestam para consumo humano. Os animais que os comem transformam-se em seres esquisitos. As árvores em volta, por exemplo, brilham no escuro com uma estranha cor indefinível, a cor do metal do meteorito, e abanam-se mesmo quando não há vento, animadas por uma força exterior às leis da Natureza. A população da aldeia mais próxima começa a evitar a quinta e a família fica cada vez mais isolada. Mas nenhum dos habitantes consegue tomar a decisão de abandonar o local, nem quando a mãe fica louca, nem depois da fuga dos cavalos, cães e gatos da quinta, nem mesmo quando se descobre que a água do poço de onde bebem está inquinada e é maligna. Existe algo no poço, algo que vai sugando a energia, a sanidade e a força de vontade de todos eles. Os filhos mais novos atiram-se para dentro do poço, onde mais tarde se vêm a encontrar também esqueletos de pequenos animais. Depois chega a "morte cinzenta". Começa por afectar o gado. Porcos e vacas ficam cinzentos e quebradiços e partem-se aos bocados. O mesmo destino está reservado para o dono da quinta, que também termina assim, como que em cinzas. Os agentes da autoridade que vão investigar são forçados a fugir a meio da noite, quando uma luz sobrenatural começa a penetrar dentro da casa... pelas frestas, enquanto o último cavalo que ficou preso lá fora, e não se conseguiu soltar, se estalava aos bocados como um caco de barro.
Leitura não recomendável à noite.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)



The Call Of Cthulhu
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn: "In his house at R'lyeh dead Cthulhu waits dreaming." Na sua casa em R'lyeh, morto, Ktulu espera dormindo. Um investigador persegue o desconhecido culto de Cthulhu (ou Ktulu, ou K'tula), cujos seguidores servem em loucura e bestialidade, praticando inclusive sacrifícios humanos nos pântanos de New Orleans, quando se reunem e dançam à volta do fogo ao som de tambores cuja inspirada descrição me lembra imediatamente do clássico início de "Endemoniada" (mais uma vez, nem podia deixar de ser, dos Fields of the Nephilim). Dizem que Cthulhu é um dos Antigos (the Old Ones), seres vindos das estrelas de onde trouxeram as suas imagens, mais velhos do que o mundo, e que esperam, na submersa cidade de R'lyeh, que os astros se conjuguem para que se libertam e tomem conta do mundo outra vez. Outrora, a sua comunicação com os seres mais sensíveis era feita apenas por pensamentos e sonhos, mas depois do desaparecimento de R'lyeh nas águas profundas a frase acima, que os servidores entoam sem cessar nos seus cânticos e na linguagem original que lhes foi transmitida de geração em geração, é o que resta das palavras dos Antigos.
Foi neste mito que Carl McCoy dos Fields of the Nephilim se inspirou em muitos temas (tal como em Lovecraft em geral), e o melhor exemplo será mesmo "The Watchman":
«You'll see, you'll see her when she starts to form
You'll see, you'll see her when she starts to call
Follow me...
You sleep, you sleep, follow me
It's just another day, remember I am calling you
Just another day, remember she's calling for you
Just another day, Kthulhu I am calling for you
Just another day, An empire has fallen from view
(...)»
Cthulho, "dead but dreaming", citando palavras dos Nephilim, penetra na mente dos homens através de sonhos colectivos e levá-los-à a resgatá-lo quando as estrelas se alinharem... e o mundo será seu de novo. (Também é no mundo dos sonhos que Freddy Kruger, um monstro moderno, contacta as suas vítimas...)
Este é o mito que tem alimentado páginas e páginas de especulação, e até banda desenhada cómica. Um novo filme "Chtulho" foi realizado ainda em 2007. Depois de o conhecer, não há como escapar aos seus "tentáculos", pelos menos aos inconscientes.

 
Cthulhu

Segue a história com uma embarcação de marinheiros que acidentalmente vai parar a uma pequena ilha a descoberto, nada mais do a ponta do iceberg que é a cidade submersa de R'lyeh.
Primeira nota curiosa: "It was Rodriguez the Portuguese who climbed up the foot of the monolith and shouted of what he had found." Não é de admirar que se encontre um português em todos os cantos do mundo, até na cidade de R'lyeh, num livro de Lovecraft.
Segunda nota curiosa: Muitas citações de Lovecraft, em que desconfia claramente de homens mestiços, geralmente designados por escumalha de marginais e malfeitores, como estes seguidores de Chtulhu em New Orleans, são indubitavelmente racistas se analisadas fora do seu tempo.

 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

É preciso compreender que a época de Lovecraft era outra, e tão distante que se podia sem cair no ridículo imaginar que o recém descoberto planeta Plutão seria uma base avançada dos estraterrestres (como se pode ler noutro conto). Mas não deixa de ser curioso como Lovecraft, fruto do seu tempo, era tão ingenuamente racista nos anos 20 e 30, o que nos permite desvendar outros mistérios bem mais horrendos e nada ficcionais...
De regresso ao relato: "The Thing cannot be described-- there is no language for such abysms of shrieking and immemorial lunacy, such eldritch contradictions of all matter, force, and cosmic order. A mountain walked or stumbled. God! What wonder that across the earth a great architect went mad, and poor Wilcox raved with fever in that telepathic instant? The Thing of the idols, the green, sticky spawn of the stars, had awaked to claim his own. The stars were right again, and what an age-old cult had failed to do by design, a band of innocent sailors had done by accident. After vigintillions of years great Cthulhu was loose again, and ravening for delight."
Então Chtulhu acordou. Mas o que aconteceu ao bravo Rodrigues? Chtulhu papou-o. Safou-se um norueguês, mas não por muito tempo porque os servos do monstro estão em todo o lado.
Quem sonhar com Chtulhu... é melhor não voltar a adormecer.

 



The Dunwich Horror
Os Antigos (the Old Ones) não são as únicas criaturas que aguardam no fundo do mar ou nos subterrâneos das montanhas o momento em que os astros se conjuguem para uma vez mais reinar sobre a Terra e dizimar toda a vida animal e vegetal, inclusive o ser humano. Neste conto aprende-se que Yog-Sototh (um dos Antigos e "primo de Cthulho", se bem que esta relação de parentesco não esteja minimamente explicada), é uma criação destes seres que vieram das estrelas e que habitam nos insterstícios das montanhas de Dunwich (povoação ficcional), onde um velho feiticeiro local o invoca regularmente, especialmente na véspera de Maio (May's Eve) e, como não podia deixar de ser, no Hallowen. Esta criatura, Yog-Sototh, embora desprovido de corpo material terrestre, pode gerar filhos (à semelhança dos demónios da Bíblia), e desta união com uma mulher nasce um ser metade humano -- ou mais de metade humano, para se ser preciso, como se comprova pelos seus restos mortais quando este encontra o seu fim nos dentes de um cão de guarda no momento em que tenta roubar o exemplar do Necronomicon da universidade de Mistatonik -- cujo objectivo é auxiliar os Antigos a regressar e destruir o mundo. Este híbrido termina de forma trágica mas o verdadeiro horror está ainda para se manifestar.
Esta é uma das histórias chave para o leitor que quer conhecer os mitos dos Antigos e seus propósitos. Altamente recomendável.



Continua.

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