domingo, 26 de julho de 2026

The Sheltering Sky / Um Chá No Deserto (1990)


Um casal americano vai viajar algures no norte de África em lazer, mas a aventura torna-se pesadelo.
"The Sheltering Sky" é um filme complexo com variadíssimas camadas de leitura, por isso vou apenas analisar aquilo que subjectivamente me saltou mais à vista.
Primeiro que tudo, acho que Bernardo Bertolucci não poderia ter realizado este filme nos dias que correm sem lhe chamarem tudo de racista para baixo, mesmo sem razão, mas a nova censura, tal como a velha censura, não tem capacidade crítica para interpretar para além do óbvio. É preocupante que um artista tenha de se questionar se o que está a criar é, antes de mais, politicamente correcto. Gosto muito da expressão "toda a gente tem o dever de chocar e o direito de ser chocado", que emana de filosofias e movimentos artísticos provocadores, e não podia concordar mais no que toca ao papel da arte.
Segundo, da maneira que escrevi a sinopse até parece um filme de terror, e fi-lo de propósito. "The Sheltering Sky" é antes aquilo a que gostamos de chamar um "filme intelectual" com diversas interpretações, mas uma delas, o tal "pesadelo" em que os protagonistas embarcam voluntariamente, podia ser muito bem a estrutura de um filme de terror, ou, pelo menos, de um terror da vida real. 
O filme é baseado no romance homónimo de Paul Bowles. É este "narrador" que nos diz logo de início que Kit e Port, o casal, nunca precisaram de ter noção do tempo porque sempre tiveram tempo para tudo. Aproveito esta deixa para salientar o que mais me impressionou neste casal de americanos ricos, boémios, artistas, privilegiados, e até um pouco hippies antes dos hippies. O que mais me impressionou nem sequer foi a ausência de um pensamento ou comentário perante a pobreza extrema dos nativos que os rodeiam, como se estes nem fossem pessoas mas parte da paisagem pitoresca, porque eram outros tempos, tempos de euforia logo após a Segunda Guerra Mundial, muito antes da era das revoluções sociais. Nem sequer foi a arrogância de classe que leva Kit e Port a pensarem que o dinheiro na mão resolve tudo e compra tudo, até chegarem a uma civilização onde o dinheiro não tem valor. Isso também era típico de um tempo em que um casal privilegiado ainda vivia segundo o legado de uma aristocracia do século anterior e numa mentalidade de colonialismo em que o rico e educado era considerado "superior" e o nativo inculto "inferior". 
O que realmente me impressionou em Kit e Port foi aquilo a que vou chamar a arrogância existencial de quem se julga imortal, rico para sempre, jovem para sempre, belo para sempre. O próprio Port diz isso a um amigo que os acompanha, que eles não são turistas mas viajantes e que os viajantes podem nunca regressar a casa. O seu único plano é não fazer planos, e este plano de não fazer planos não é temporário mas para sempre, como se algum mortal pudesse arrogar-se ao "para sempre".
Para começar, nunca é abordado porque é que o casal escolheu o norte de África para viajar. Porque sim podia ser uma resposta tão boa como qualquer outra. O casamento de Kit e Port está nitidamente periclitante, ambos são infiéis, mas nunca conseguem conversar sobre o assunto por muito que tentem. É como se nada se passasse de errado nesta felicidade matrimonial fingida, ambos a enterrar a cabeça na areia e a caminhar para a frente, cegamente e sem rumo, para não terem de parar e encarar a realidade. O deserto, cada vez mais perto e imponente, é uma boa metáfora para esta relação e atitude perante a vida: árido, estéril, enganador no seu encanto, perigoso na sua promessa de vastidão e liberdade. É para esta vastidão desértica que Kit e Port se encaminham, à deriva e sem destino, apenas para não estarem quietos. 
Quanto mais eles se embrenhavam no interior de África e do Saara, cada vez mais longe da civilização, mais dava por mim a pensar em "Wolf Creek", e daí a relação que estabeleci com um filme de terror, se bem que até os personagens de "Wolf Creek", com muito menos ingenuidade e mais experiência, tivessem os olhos mais abertos para o que os rodeava. Kit e Port, privilegiados de uma geração muito anterior, não têm os olhos abertos porque os querem manter fechados. Não são turistas, julgam-se aventureiros destemidos que, afinal, andam a fugir de si próprios.
Referi "longe da civilização" mas está incorrecto. Kit e Port embrenham-se no deserto e afastam-se da civilização ocidental ao encontro de uma civilização local e primitiva onde se espalha a malária, onde não há médicos nem medicamentos nem água potável. Kit e Port avançam voluntariamente para o pesadelo que destrua por eles o que não conseguem destruir sozinhos. Talvez, inconscientemente, fosse esse o rumo desde o início.

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terça-feira, 21 de julho de 2026

E mais outro post abre-olhos, 100% IA, para os mais distraídos ficarem a conhecer o padrão 👇

Porque em menos de meia hora (o tempo de fazer a prompt) gerei logo meia dúzia deste género e podia ter gerado mais. Depois é só postar e receber elogios pela grande criatividade. 😂


O estranho caso dos génios que florescem à velocidade da fibra óptica

Há dias em que penso seriamente em desistir de escrever.

Não porque me faltem ideias.

Porque me sobram concorrentes... que nunca ficam sem elas.

Antigamente um escritor demorava anos a encontrar uma voz própria.

Hoje basta encontrar um bom prompt.

É uma evolução extraordinária.

Ou, se preferirem, um milagre.

✨ Todos os dias aparece mais um pensador.

📚 Todos os dias aparece mais um filósofo.

🧠 Todos os dias aparece mais um especialista em absolutamente tudo.

Na segunda-feira escreve sobre o Império Romano.

Na terça explica porque é que os polvos são um exemplo de inteligência emocional.

Na quarta estabelece uma ligação entre Mozart, os buracos negros e a fermentação natural do pão.

Na quinta conta uma história emocionante passada consigo próprio... que nunca aconteceu.

Na sexta publica uma fotografia da chávena de café.

Porque ninguém acredita num sábio sem café.

E tudo isto... sem um único erro ortográfico.

Nunca.

Nem uma vírgula perdida.

Nem um acordo verbal maroto.

Nem uma frase que denuncie que o cérebro resolveu tirar cinco minutos para respirar.

Eu escrevo.

Eles publicam.

Há uma diferença.

Quando escrevo, apago frases.

Troco palavras.

Mudo parágrafos de sítio.

Às vezes passo meia hora a decidir entre um ponto final e um ponto e vírgula.

Eles acordam às oito.

Às oito e três já descobriram que a felicidade funciona exactamente como a migração das borboletas-monarca, tal como demonstram estudos recentes, a filosofia estoica e uma curiosidade fascinante sobre os cavalos-marinhos.

Não é apenas criatividade, é um safari enciclopédico.

Os textos seguem sempre a mesma receita.

Começam com uma pergunta existencial.

"Já alguma vez paraste para pensar..."

Claro.

Quem nunca interrompeu o jantar para reflectir sobre a relação entre o ADN humano e o crescimento dos bambus?

Depois surgem três referências culturais.

Obrigatoriamente três.

Um filósofo grego.

Um cientista famoso.

Um imperador romano.

Se der para encaixar Leonardo da Vinci, Einstein e Marco Aurélio no mesmo parágrafo, melhor ainda.

Se não houver qualquer relação entre eles...

Melhor ainda.

Depois entra a analogia.

Porque uma ideia simples nunca pode ser apenas uma ideia simples.

Não.

A procrastinação é como uma torradeira que sonha ser submarino.

A empatia é semelhante a um farol vegetariano durante uma tempestade magnética.

A disciplina lembra uma girafa a jogar snooker na Estação Espacial Internacional.

Não faz sentido?

Precisamente.

É isso que lhe dá profundidade.

Segue-se o momento autobiográfico.

"Recordo-me de quando liderei uma equipa multicultural..."

"Durante uma viagem transformadora pelo Nepal..."

"Um velho jardineiro japonês disse-me uma frase que mudou a minha vida..."

Curiosamente, estas pessoas têm mais experiências marcantes do que o Indiana Jones.

Eu, pelo contrário, a última conversa memorável que tive foi com a funcionária do supermercado sobre a falta de troco.

Depois chega o golpe final.

💡 Não é apenas um texto.

É uma experiência.

❤️ Não é apenas uma reflexão.

É um convite à transformação.

🚀 Não é apenas um pensamento.

É um movimento.

E lá aparecem centenas de comentários.

"Que privilégio poder ler-te."

"Devias dar palestras."

"Cada palavra é uma lição."

Não.

Cada palavra é uma previsão estatística.

Há uma pequena diferença.

O que me incomoda não é a Inteligência Artificial.

É a inteligência artificial... do autor.

Usar IA não faz de ninguém um impostor.

Fingir que não a usou já é outra conversa.

É como ganhar um rali enquanto o carro conduz sozinho.

É como receber um prémio de fotografia por uma imagem comprada num banco de imagens.

É como subir ao palco para agradecer uma música... depois de ligar o rádio.

E ainda fazer um discurso sobre o enorme sacrifício criativo.

Assumam.

Digam simplesmente:

"Usei IA para escrever este texto."

Ninguém morre.

Aliás, talvez até ganhem respeito.

Porque a honestidade continua a ser uma tecnologia que ainda não ficou obsoleta.

Entretanto, eu continuo aqui.

A escrever devagar.

A trocar palavras.

A cortar adjectivos.

A discutir comigo próprio.

A deixar escapar uma gralha de vez em quando.

A fazer aquilo que os escritores sempre fizeram.

Escrever.

Sem polvos.

Sem buracos negros.

Sem Einstein.

Sem um monge tibetano que, por uma coincidência extraordinária, me ensinou o verdadeiro significado da liderança enquanto observávamos o voo sincronizado de estorninhos ao pôr do sol.

Embora... reconheço...

Dava um excelente post no Facebook. *

* E vai dar mesmo, ChatGPT, obrigadinha.

domingo, 19 de julho de 2026

Wednesday [segunda temporada] (2022 - ?)


O que nós aprendemos na segunda temporada de "Wednesday":

1. Wednesday é literalmente alérgica à cor, não era exagero
2. Os Addams são ricos porque comem ratos, insectos e outras coisas nojentas; sempre é dinheiro que poupam no supermercado
3. Os Párias não são secretos, são conhecidos pelos Normais (mas admito que se calhar fui eu que estava distraída na primeira temporada)
4 Morticia é uma autora de literatura romântica/soft porn (grande Morticia, é preciso coragem para escrever coisas dessas)

"A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada", do filósofo Voltaire, é um lema para Wednesday, e até resultava melhor se ela não gostasse tanto de se meter em sarilhos. Quando Wednesday regressa a Nevermore para o segundo ano lectivo, problemas novos e antigos não lhe vão dar paz. Mas, na verdade, é mesmo isso que ela quer. Uma vida sem sarilhos é muito aborrecida para qualquer adolescente, e Wednesday nem sequer é uma adolescente qualquer.
Já ia no segundo visionamento quando me apercebi de que não retive nada do enredo. É difícil prestar atenção à história quando Morticia está a comer bolachas cobertas de aranhas (?) vivas. A série é uma tal festa para os olhos, um tal espectáculo de Tim Burton, que o enredo até distrai. Pode dizer-se que esta segunda temporada tem três sub-enredos, e um deles, se calhar o menos provável, vai ganhando predominância até se revelar o principal. 
Entretanto, Wednesday perde os poderes mediúnicos por abusar deles. Em contrapartida, ganha uma aliada na sua ex-stalker Agnes, outra aluna de Nevermore que idolatra Wednesday e que tem o poder da invisibilidade. Mas a relação de Wednesday e Enid está periclitante. Numa das suas últimas premonições, Wednesday pressagia a morte de Enid, o que a leva a deixar a amiga lupina fora dos seus planos. Sem saber que a sua vida está em risco, e descontente com a dinâmica que se estabelece entre Wednesday e Agnes, Enid sente-se compreensivelmente posta de lado. 
A nível da evolução das personagens principais, contudo, o sub-enredo mais dramático é a aproximação entre Ajax e Bianca quando esta enfrenta uma crise familiar. As coisas nunca se tornam românticas, até porque Bianca está com demasiados problemas para pensar nisso, mas seria bonito se esta amizade desinteressada se transformasse em algo mais no futuro.
A Mão (Thing) continua a ser um personagem preferido de muita gente, eu inclusive. Como é que é possível, como?, transmitir-se tanta personalidade num "ser" que não passa de uma mão? Adorei a cena em que a Mão e outras partes de corpos têm uma reunião do tipo Partes-de-Corpos Anónimos. Estão lá, do que eu percebi, duas mãos, duas pernas, um pé, um braço, dois olhinhos e uma orelha, todos com personalidades bem perceptíveis. A sério, quem é que consegue prestar atenção ao enredo, e até aos diálogos, quando os dois olhinhos e a orelha batem palmas? Os nossos olhinhos e orelhas também batem palmas ao festim visual e auditivo que nos é servido.
Que mais? Adorei tudo do Pilgrim World, adorei Morticia a alimentar plantas carnívoras, adorei Catherine Zeta-Jones como Morticia (na minha opinião a melhor Morticia de sempre), adorei o zombie que se vai regenerando à medida que come cérebros, adorei o romance entre Fester e Louise da cantina, adorei Lady Gaga como Raven, adorei Gwendoline Christie como Larissa Weems e Christina Ricci como Marilyn Thornhill. Nesta segunda temporada passamos muito mais tempo com a família Addams inteira, o que algumas pessoas não apreciaram porque a série centra-se em Wednesday, mas eu não me importei nada.
E depois há as danças. Vou cometer um spoiler. Se virem por aí uma Wednesday estranhamente colorida e efusiva a dançar, não é Wednesday. Num dos melhores episódios da série, Wednesday e Enid trocam involuntariamente de corpo. Ambas as actrizes dão um show a interpretar-se uma à outra. Até a voz conseguem adaptar de tal maneira que muita gente (e eu) pensou que tivesse havido dobragem, mas nem foi preciso.
Noutro episódio, Enid tem uma coreografia de dança em dueto com Agnes, a rapariga invisível, mas desta já não gostei tanto porque não vi metade. (Perceberam a chalaça? Não vi metade porque ela é invisível. Ehm... Avançando.)
No meio deste desvario absoluto, às vezes a série perde a noção da realidade. Como no caso em que o Hyde pega em Marilyn Thornhill (que é humana) pelo pescoço, eleva-a do chão e atira-a contra uma parede como se fosse uma boneca de borracha, e não há sequer uma costela partida. Isto é coisa de desenhos animados que na minha opinião não devia ter aqui lugar. Noutros casos, sacrifica-se a credibilidade, como quando Agnes vê Wednesday ser enterrada viva no bosque, vai a correr até à escola pedir ajuda a Enid, e nenhuma delas se lembra de levar uma pá ou qualquer ferramenta. E para quê? Para que Enid tenha de se transformar nesse momento dramático em que salva a amiga.
Mas pergunto, alguém reparou nisto sequer? Duvido, e duvido que alguém se importe. A série pode fazer tudo o que lhe apetece entre o realismo, o desenho animado e a fantasia porque "Wednesday" é um clássico instantâneo e estou convencida de que o será para sempre enquanto existir televisão.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes, e ninguém vai escapar a ver isto na internet 

PARA QUEM GOSTA DE: A Família Addams, Young Adult, Fantasia


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Verdadeiro ou falso: quem escreveu esta crónica, eu ou a Inteligência Artificial? (resposta no fim do texto)

Crónica de uma sala de aula (virtualmente) destruída: o "milagre" da sexta-feira

Dizem que o inferno são os outros. Pois desenganem-se: o inferno tem nome, apelido e uma plataforma digital que teima em carregar apenas até aos 99%.

Estou aqui, sentada à frente desta luz azul, com as pálpebras a pesarem mais que o orçamento da educação, a tentar corrigir exames nacionais. Ou melhor, a tentar acceder aos exames. A cada clique, um erro 404, um "servidor em baixo" ou aquela roda colorida e hipnótica que gira, gira e gira, como se estivesse a ironizar a minha sanidade mental.

O nosso Ministro, o Senhor Fernando Alexandre, lá apareceu hoje com aquele ar sereno de quem nunca teve de lidar com um "sistema indisponível" numa véspera de prazo. Garante, com a convicção de quem lê guiões de ficção científica, que o processo está "praticamente concluído". É curioso como o conceito de "praticamente" se expandiu para englobar um caos administrativo que faria corar um amador de informática. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira... os dias passam e a promessa de afixação das pautas na sexta-feira mantém-se inabalável, quase como um dogma de fé.

Será o senhor Ministro um vidente? Ou terá ele acesso a uma plataforma mágica, escondida algures na gaveta da Secretaria de Estado, onde os exames se corrigem sozinhos, por telepatia ministerial?

Do lado de cá da barricada, a realidade é menos idílica. Professores em colapso nervoso, pais a ligarem-me a horas que o bom senso proíbe — e com razão, porque o futuro dos miúdos parece ter sido entregue a um estagiário com um servidor de plástico — e alunos num estado de ansiedade que nem a medicina do século passado resolveria.

Este Governo da AD, que tanto prometeu a "mudança" e a "eficiência", parece ter encontrado a sua especialidade: a digitalização analógica. Conseguiu o feito notável de transformar o exame nacional — um momento de seriedade e rigor — num episódio de uma série de comédia de erros, onde o protagonista é um código de erro que ninguém sabe explicar. É a governação feita de "slides" bonitos e conferências de imprensa onde a palavra "estabilidade" é repetida até à exaustão, enquanto, na prática, o que temos é um sistema que colapsa à primeira brisa de carga computacional.

O Ministro garante a sexta-feira. Eu garanto que, se a pauta aparecer, será por milagre ou porque algum colega, num surto de heroísmo, se esqueceu de dormir, de comer e de ter vida própria para tapar os buracos deixados pela "modernização" deste ministério.

No fim, a culpa nunca é da estrutura. É do servidor. É da rede. É da nuvem. O que é curioso, porque quando os exames falham, os professores continuam a ser a face visível de uma incompetência que habita algures em gabinetes climatizados.

Vou tentar mais uma vez. Carregar na tecla 'F5'. Ou talvez a tecla 'Escape' seja a única que realmente funciona nesta nossa educação moderna. Se não houver pautas na sexta-feira, espero que o Senhor Ministro, pelo menos, nos envie um emoji de consolação. É esse o nível de seriedade a que chegámos.

 

Resposta: Sim, a IA também escreve textos satíricos baseados na actualidade, com crítica política, da perspectiva de uma personagem realista. Parabéns a quem acertou.
Escolhi este tema porque queria fazer a experiência com um assunto "quente" na comunicação social. O Gemini saiu-me um grande escritor.

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais um post abre-olhos, 100% IA, para reconheceres o padrão e não seres engrupido nas redes sociais

Querido Génio das Redes Sociais,

Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.

Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.

E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?

Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.

Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."

E voilà.

Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.

O resultado? Qualquer coisa assim:

🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.

📌 Pensa nisso.

🌊 Não és a tempestade. És o oceano.

💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.

E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:

"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."

Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".

Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.

"Que texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau, que profundidade. Segui-te já!"

E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"

Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.

Entretanto, eu. O autor de carne e osso.

Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.

No fim publico.

Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.

Tu, entretanto, és convidado para podcasts.

"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.

"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.

Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.

O problema não é usares a ferramenta.

O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.

O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.

O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.

E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?

Merecia saber.

Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.

É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.

Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.

Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.

Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.

Tenho os braços cansados de escrever.

P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *

P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.


* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.

 

domingo, 12 de julho de 2026

65 (2023)


"Alien" encontra "Jurassic Park" e temos ficção científica de terror com dinossauros.
Quando a sua nave é atingida por meteoritos, o astronauta Mills despenha-se num planeta desconhecido que é a nossa Terra há 65 milhões de anos. O início assemelha-se ao ambiente espacial de "Alien" mas os dinossauros remetem-nos imediatamente para "Jurassic Park". O fio condutor é o horror sci-fi, em que os dinossauros são efectivamente tão ameaçadores e alienígenas como o xenomorfo de Nostromo.
Além de Mills, a única sobrevivente é Koa, uma miúda com cerca de 10 anos que o recorda da própria filha. Ambos têm de percorrer uma distância de vários quilómetros até à única nave salva-vidas que ainda está funcional depois do impacto, mas o percurso está repleto de dinossauros.
Tenho algumas dúvidas sobre a que faixa etária se destina este filme. Alguns dos dinossauros são tão fofinhos que parecem bonecos de desenho animado para crianças, e a própria interacção paternal de Mills com Koa e os momentos de humor entre ambos nos poderiam sugerir isso, até porque estes dinossauros fofinhos estão lá de propósito, não são problema de CGI. Por outro lado, os restantes dinossauros são efectivamente aterradores. Os dinossauros vão surgindo com um nível crescente de ameaça, culminando nuns tiranossauros gigantescos (se não são T-Rex são da família, e muito mais feios e mal-encarados do que os de "Jurassic Park"). Um deles, devido à perspectiva, até parece do tamanho de Godzilla. E depois juntam-se vários a cercar os personagens. Algumas das cenas são uma homenagem descarada a "Jurassic Park", e igualmente de roer as unhas, com o factor adicional de que Mills e Koa não estão em território familiar nem conhecem o comportamento dos répteis que os perseguem. O risco de serem engolidos inteiros por uma destas bocarras é muito real e palpável.
A maior ameaça chega no fim, contudo, quando percebemos que os personagens estão na Terra no preciso momento em que esta vai ser atingida pelo asteróide que supostamente extinguiu os dinossauros. Dizem que os raios não caem no mesmo sítio duas vezes, mas, aqui, os meteoritos não ligam à regra.
"65" não é um filme grandioso e inesquecível, mas é uma história  de acção e sobrevivência com muitos momentos de meter medo. A mim, pelo menos, meteu medo, porque eu tenho muito medo de dinossauros. Infelizmente, também tive pena dos bichinhos. É duro.

13 em 20

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Post abre-olhos, 100% escrito por Inteligência Artificial

Confissão de um escritor em vias de extinção

Escrevo os meus textos.

Eu sei.

É um hábito antiquado. Como engomar camisas, revelar fotografias ou decorar números de telefone.

Ainda penso nas frases antes de as escrever.

Às vezes demoro uma hora para encontrar um parágrafo.

Às vezes apago metade do texto.

Às vezes publico com um erro.

Porque fui eu que o escrevi.

Entretanto, abro o Facebook e encontro mais um génio literário acabado de nascer durante a noite.

"A vida é como um polvo a jogar xadrez numa bicicleta."

🎯 "Não é apenas resiliência, é alquimia emocional."

🧠 "Tal como Carl Sagan observava as estrelas, também nós devemos observar o silêncio entre os nossos pensamentos."

Segue-se uma referência aos estorninhos da Islândia.

Depois aos samurais.

Logo a seguir à física quântica.

Pelo meio aparece um polvo, um bambu, uma colmeia, a Via Láctea, os estoicos, Leonardo da Vinci e uma curiosidade fascinante sobre os axolotes mexicanos.

Tudo no mesmo texto.

Tudo perfeitamente encaixado.

Tudo absolutamente necessário para explicar... que devemos beber água e acreditar em nós próprios.

E os comentários não desiludem.

"Que mente brilhante."

"Como consegue escrever assim?"

"És um poço de cultura."

"Devias publicar um livro."

Claro que devia.

Basta perguntar ao ChatGPT.

O mais extraordinário nem é a qualidade dos textos.

É a velocidade com que estes autores se transformaram em enciclopédias ambulantes.

Na semana passada vendiam suplementos alimentares.

Hoje explicam neurociência, filosofia grega, astronomia, psicologia comportamental e o comportamento migratório das baleias-jubarte.

Tudo antes do pequeno-almoço.

E sem uma única gralha.

Nem uma vírgula fora do sítio.

Nem uma frase torta.

Nem aquele momento em que um humano escreve "há" quando queria escrever "à".

Nada.

São perfeitos.

Milagrosamente perfeitos.

Depois há aquela característica irresistível.

A necessidade de contar episódios pessoais.

"Quando eu dirigia uma equipa internacional..."

"Recordo-me perfeitamente de uma conversa que tive com um velho pescador..."

"Na minha experiência de vinte anos a acompanhar líderes..."

Que coincidência.

Toda a gente na internet parece ter vivido exactamente as experiências que uma IA costuma inventar quando precisa de ilustrar uma ideia.

Eu, infelizmente, tenho memórias muito menos inspiradoras.

Passei três horas à procura das chaves do carro.

Queimei o arroz.

Fiquei meia hora à olhar para uma frase sem saber onde pôr um ponto final.

É pouco cinematográfico.

Talvez por isso tenha poucos gostos.

Depois chega o grande final.

Sempre o grande final.

💡 Não é apenas escrever textos.

É transformar palavras em pontes para a alma.

Não é apenas comunicar.

É despertar consciências.

Não é apenas publicar.

É deixar um legado.

Claro.

Porque um post sobre produtividade sem qualquer ideia original é, evidentemente, o equivalente literário da Biblioteca de Alexandria.

Há também a regra dos três.

Sempre três.

Três exemplos.

Três lições.

Três pilares.

Três passos.

Se Moisés descesse hoje do monte, provavelmente trazia um PDF com "As 3 Estratégias para Maximizar o Potencial das Tábuas da Lei".

E depois existe aquele travessão enorme — o famoso travessão que agora aparece em todo o lado — como se fosse um selo invisível a dizer:

"Este texto foi polido por um algoritmo que nunca teve de lutar com uma frase difícil na vida."

O problema nem sequer é usar Inteligência Artificial.

Eu também uso corrector ortográfico.

Pesquiso fontes.

Consulto dicionários.

A tecnologia não é o inimigo.

O problema é vestir um papagaio de professor universitário e esperar aplausos pela eloquência.

É subir ao palco para receber uma medalha conquistada por outra entidade.

É assinar um quadro pintado por outro.

É ganhar um concurso de culinária depois de encomendar o jantar ao restaurante da esquina.

E, no fim, agradecer humildemente "ao talento, ao trabalho e à inspiração".

Não.

Agradece ao botão "Gerar novamente".

Talvez eu esteja apenas ultrapassado.

Talvez o futuro pertença mesmo aos grandes pensadores que descobrem diariamente o significado profundo da vida entre dois pedidos de geração automática.

Eu continuarei aqui.

A escrever.

A apagar.

A reescrever.

A duvidar.

A tropeçar nas palavras.

A cometer erros.

Porque, por muito competente que seja uma máquina, ainda há qualquer coisa de profundamente humano em olhar para uma página em branco e não saber como começar.

E, ironicamente, talvez seja precisamente essa imperfeição que torna um texto digno de ser lido.

Ou então não.


🤖 Concordo plenamente. *

Excelente reflexão. *

Continue assim. *


* Isto é o Chat GPT a dar-me graxa pelo texto que ele próprio escreveu.


domingo, 5 de julho de 2026

Mozart Mozart / A Irmã de Mozart (2025)

"Mozart Mozart" é uma série alemã que reimagina as personagens dos jovens Amadeus Mozart e sua irmã Maria Anna, no mesmo período histórico, mas qualquer semelhança com a realidade é coincidência.
Amadeus é um rock star que usa brinco e óculos escuros, e que, como qualquer rock star, é adorado pelas fãs. Maria Anna é a sua irmã mais velha, tão talentosa quanto ele, mas remetida à obscuridade por ser mulher. Em Viena, ambos tentam libertar-se das restrições sociais que forçariam Maria Anna a um casamento arranjado. A ideia é conseguirem um contrato na corte do imperador José II, que lhes encomenda uma "ópera para o povo". Contudo, uma vez que Amadeus sofre de dores no pulso que o fazem recorrer ao láudano e ao álcool, Maria Anna tem de se disfarçar e fazer-se passar por ele para manter o contrato. Amadeus acaba mesmo por ser internado e é Maria Anna quem compõe "O Rapto do Serralho". Em suma, é uma ópera de Mozart, de Maria Anna Mozart, e é isso que significa o título "Mozart Mozart", uma Fantasia Young Adult sobre uma jovem a tentar afirmar-se na medida em que os tempos lhe permitiam.
Entretanto, Amadeus tem um affair com Maria Antonieta (sim, essa), irmã de José II, que está de visita em Viena, e Maria Anna envolve-se com Antonio Salieri (sim, esse, o rival de Amadeus), mas não se preocupem que acaba tudo bem e são felizes para sempre. (Excepto a pobre Maria Antonieta e o suposto filho de Amadeus, o pobre Delfim de França, que não acabaram nada bem. Acho que a série se meteu por caminhos sombrios, neste aspecto, que não faziam aqui falta nenhuma.)
E música, há música? Haver, há, mas não sei até que ponto é que estão a adaptar composições de Mozart (não sou fã) ou outra coisa qualquer, porque na maior parte parece mais música do século XXI para Britney Spears ou Taylor Swift (também não sou fã). Reconheci partes do Réquiem e já foi bom. No fim sempre tocam "O Rapto do Serralho", que depressa se torna na versão Enya com sintetizadores e tudo. Fica o aviso aos puristas da música clássica, para não morrerem do coração. Não desgostei da versão Enya, por acaso. Antes Enya que Taylor Swift.
Posto isto tudo, gostei? Sim, gostei, achei muito levezinho e divertido, e também não me parece que a série tivesse mais ambição do que criar uma coisa bonita para entreter e salientar o papel das mulheres talentosas esquecidas nas sombras.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, Fantasia, Mozart


domingo, 28 de junho de 2026

Believer / A Crente (2024)


[contém alguns spoilers]

Este filme é uma desilusão. O começo até é bom, mas a certa altura a história esquece-se da lógica.
Em pleno julgamento, no dia em que a sentença vai ser lida, o líder de um culto responsável por múltiplos homicídios ataca uma jovem que está a escrever um livro sobre ele. Esta jovem, Kate, vai recuperar do trauma para casa da família da irmã mais velha, casada e com uma filha adolescente. Mas um detective acredita ter razões para suspeitar que Kate é na verdade uma seguidora do culto e que a família pode estar em perigo, uma vez que o líder, tal como Charles Manson, persuadia os seguidores a cometer os crimes por ele.
A primeira parte do filme é algo arrepiante. Efectivamente, começam a acontecer coisas estranhas e sangrentas em casa da irmã de Kate. Ao mesmo tempo, vemos segmentos da narrativa pela perspectiva da irmã e somos levados a crer que o detective pode ter razão. Kate não está no seu juízo perfeito... ou será ela a vítima da irmã, ou do cunhado, ou até da sobrinha adolescente, que também demonstra algum fascínio pelo livro e pelo culto?
Chegamos ao fim e não percebemos o que aconteceu. Daquilo que nos é mostrado, nenhuma das personagens podia ter cometido todos os ataques que vemos acontecer, mas também há sempre aquela possibilidade de o criminoso simular ser uma vítima para não ser alvo de suspeita. Logo, todos podem ser o atacante, mas nunca descobrimos nem o filme se interessa em explicar porque é que não interessa se descobrimos ou não.
Mas se recordarmos, em retrospectiva, a cena do tribunal, logo no início, também não faz muito sentido. O líder do culto é cego, está desarmado e rodeado de polícia quando ataca a rapariga, e aquela polícia toda não conseguiu dominá-lo e teve de abatê-lo? Muito improvável.
O filme continua a jogar com a ambiguidade. Por um lado, o homem é apresentado como um líder carismático que controla a mente dos seguidores com uma doutrina apocalíptica, mas por outro há fenómenos que não podem ser explicados sem intervenção sobrenatural. Em que é que ficamos? É um líder de culto normal, ou há aqui uma presença maligna que possui os seguidores e, possivelmente, até possui o líder? Uma vez que todos os personagens são os chamados "narradores não-confiáveis", não se consegue determinar até que ponto é que os "fenómenos sobrenaturais" nunca chegaram a existir. E o que é que significou aquele sorrisinho sinistro na cara da família toda no final? Eram todos seguidores que a certa altura se apunhalaram uns aos outros para parecerem vítimas? Ou será que estão todos possuídos no fim?
(E, já agora, mais outra. Se o detective estava mesmo tão convencido de que Kate podia matar a família, como de facto estava, porque é que não apareceu mais cedo? A polícia não fica muito bem vista neste filme.)
"Believer" podia ser (e se calhar queria ser) daqueles filmes que usam a ambiguidade para nos perturbar mais, mas a ambiguidade só resulta quando assenta numa lógica qualquer que a permita, o que não acontece aqui. Em suma, não percebemos o que se passa, não percebemos o que o filme nos queria dar a entender, apenas ficamos frustrados por termos perdido tempo a tentar acompanhar. Ainda por cima a acção é muito lenta, o que cria mais tensão quando ainda estamos a esforçar-nos por apanhar o fio à meada, mas o final ilógico não me deixou vontade nenhuma de ver outra vez.
Pergunto-me se isto não foi propositado para abrir a porta a uma sequela para "explicar".

10 em 20

domingo, 21 de junho de 2026

Homens de Honra (2026)


"Homens de Honra" é a história dramatizada de Álvaro Cunhal e Mário Soares, e de como se encontraram, convergiram e divergiram. Mostrar como as coisas se passaram, apesar do aspecto ficcional que o género biográfico envolve, é muito importante para a preservação da nossa memória histórica à medida que estas figuras vão ficando cada vez mais distantes das gerações que já não as conheceram.
Gostei muito até aos últimos dois episódios. O episódio da fuga de Peniche, tenso e cheio de acção e perigo, dava um filme inteiro a não ficar atrás de "Prison Break". "Homens de Honra" seria interessante até apenas como série de época, mesmo com personagens fictícias.
Não gostei nada da substituição por actores mais velhos nos dois últimos episódios e não vejo a necessidade de o ter feito. Romeu Vala estava a arrasar como Álvaro Cunhal. Obviamente que não conheci a pessoa na juventude (nem eu, nem o actor) mas a interpretação é tão bem decalcada da personalidade mais velha que me convenceu completamente de que aquele podia ter sido o jovem Álvaro Cunhal, faceta Don Juan e tudo. Na verdade, nem conhecia esses pormenores da vida privada de Cunhal porque nunca gostei de meter o nariz, mas acredito plenamente que toda aquela aura de espionagem/clandestinidade/idealismo/liderança/perigo podia muito bem ter sucesso com o sexo feminino.
Alexandre Carvalho já não ficou tão parecido com Mário Soares, nem ele nem o actor que o substituiu, Tónan Quito, porque Mário Soares tinha particularidades físicas muito próprias e seria sempre difícil recriá-las, nem é isso que está aqui em causa, muito menos as interpretações dos quatro actores. O que está em causa é que assim que identifiquei os personagens com os actores, os personagens passaram a ter aquelas caras. Eram as caras que eu reconhecia e em que estava investida. A substituição das caras deu-me a sensação de que estava a ver outra série, em que a dinâmica criada pelos actores substituídos se perdeu a meio. Talvez tivesse resultado se os actores tivessem sido substituídos mais cedo e durante mais episódios, para poderem criar uma dinâmica própria com o espectador, mas assim sendo pareceu-me abrupto e desnecessário. Eu, pelo menos, como espectadora, teria preferido ver os actores originais envelhecidos, mesmo que ficasse um bocadinho forçado. Afinal, desde o primeiro episódio que é forçado: este é Cunhal, este é Soares. A substituição obrigou a forçar outra vez, e a minha paciência como espectadora não acompanhou a mudança. Nem sequer tentei perceber quem eram as novas caras de todos os outros substituídos.
Sem desprimor ao actor Tónan Quito, também não achei que a substituição tenha sido benéfica. Fisicamente, o actor é mais parecido com Ricardo Salgado do BES (se ainda não fizeram a série, podiam fazer) e em vez de ver Soares via Salgado, o que nem vou comentar mas que foi "algo" aflitivo. Também acho que o actor Tónan Quito é fisicamente mais parecido com José Sócrates. Pela minha saúde, sem desprimor absolutamente nenhum. Até deixo aqui a sugestão, e seriam, tanto Salgado como Sócrates, dois papelões do caraças.
Também a nível das parecenças, e numa nota humorística, não reconheci João Soares. Pensei que era Vasco Pulido Valente ou Fernando Rosas, por causa do colete de malha.* Mania de usarem todos o mesmo. Por outro lado, pensei que Daniel Proença de Carvalho era Marcelo Rebelo de Sousa tal e qual me lembro dele, barbicha e tudo. Já Maria Barroso não ficou nada parecida, tenho de dizer, pelo menos da altura em que a conheci. O que me fez cair o queixo foi o general Ramalho Eanes do actor João Tempera, arrepiante de tão igualzinho, até na voz e na maneira de falar.
Quando escrevi aqui sobre "Ena, A Rainha Vitória Eugénia", salientei que a série não explica os factos históricos em profundidade, é mais dirigida a quem já os conhece. Achei o mesmo de "Homens de Honra". Gostei da voice over que ia guiando o espectador em certas passagens, mas penso que no futuro ainda vamos precisar de mais voice over e legendas. Por exemplo, só identifiquei o general Humberto Delgado quando ele disse "obviamente, demito-o". Tudo isto foi antes de mim, e o que é antes de mim é História, um rumor de outros tempos que nos chega dos mais velhos.
Já não tive esta desconexão com os factos que vivi, embora os dois últimos episódios não os retratem como me lembro deles (o que é natural, porque já entramos no campo do subjectivo). Fiquei muito surpreendida que a série não tenha mencionado o "engolir do sapo". Tendo em conta que "Homens de Honra" retrata a relação entre Cunhal e Soares, o "sapo" é relevante e pensei que estavam a guardar para o clímax. Mas não, nada sobre o assunto. 
Por último, e vou ter muito cuidado ao escrever isto, acho que "Homens de Honra" não fez justiça ao legado de Álvaro Cunhal, e não porque a série seja tendenciosa mas se calhar exactamente por não o ser e por se ter cingido aos factos. Chegamos ao fim e podemos ser levados a conjecturar que o único legado válido de Álvaro Cunhal, que nunca admite os crimes da União Soviética e que aparece como um homem ultrapassado pelo tempo, foi a Festa do Avante, onde a malta hoje vai beber umas cervejas e ver umas bandas, enquanto que Mário Soares foi eleito presidente da República. Um perdeu, o outro ganhou. Ou se calhar sou eu que estou a ser tendenciosa, ainda que inconscientemente, a ler coisas que não estão lá. Não parto do princípio de que tenha sido isto que a série tenha querido dizer, ou sequer que tenha querido fazer qualquer tipo de comentário, mas penso que podia ter sido dedicada mais profundidade ao legado de Cunhal. 
Tudo o que aconteceu nos últimos dois episódios me pareceu apressado, uma montagem de acontecimentos políticos que podia ter vindo do arquivo das televisões, sem o dramatismo que me fez investir nos personagens Álvaro e Mário, cada um com os seus ideais e motivos.

* O colete de malha pode ser imaginação minha. Pesquisei as fotos das pessoas mencionadas no Google e de facto não os encontrei de colete de malha, mas a ideia deve-me ter vindo parar à cabeça de algum lado. Afinal, quem é que nunca usou um colete de malha nos anos 70 e 80? Nem eu escapei.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, política, biografia

domingo, 14 de junho de 2026

The Darkest Hour / A Hora Mais Negra (2011)

Dois amigos e sócios vão a Moscovo vender uma app de sua autoria e roubam-lhes a ideia. Isto é muito mau, mas o pior é quando alienígenas invadem a Terra e exterminam 99% da população mundial logo nas primeiras horas.
Antes de irmos à análise, é preciso não confundir este título em português "A Hora Mais Negra" com o outro "00:30 A Hora Negra" ("Zero Dark Thirty", que é sobre a captura de Osama Bin Laden e não tem nada a ver com isto).
Voltando a "The Darkest Hour". Achei este filme principalmente desequilibrado. A primeira parte é realmente aterradora. Os alienígenas são seres de energia que caçam os humanos procurando os seus campos electromagnéticos e emitindo um raio que os desintegra em instantes, mas os personagens não sabem disto e são chacinados a torto e a direito. Os dois amigos da app, outras duas turistas americanas e o gajo que lhes roubou a app conseguem esconder-se durante três dias na despensa de um bar. Quando saem, a cidade está destruída e deserta e toda a gente foi transformada em cinzas. Há uma cena num parque de estacionamento que me lembrou os melhores momentos do início do apocalipse zombie de "The Walking Dead". Há pânico e motivo para pânico. Qualquer pessoa pode ser obliterada a qualquer momento.
Já na segunda parte, tudo se torna muito fácil à Hollywood. Os personagens descobrem num instantinho como se proteger e até como contra-atacar, aparecem milícias que aparentemente se organizaram em três dias (antes de poderem ter informações suficientes para saberem o que fazer) e um cientista que inventou uma arma em casa sem conhecer nada dos alienígenas. É quase um final "e (os sobreviventes) viveram felizes para sempre". Isto é pena, porque o filme estava a ir muito bem no que ao terror diz respeito e de repente se tornou mais num filme de acção. Nesta fase até as mortes perderam o impacto que deviam ter.
Em suma, a premissa é muito boa e teria sido um filme bastante perturbador se tivessem querido ir por aí, mas a certa altura decidiram que o filme estava a ficar muito pesado e que precisava de ser mais levezinho. Isto não vai ser surpresa para ninguém, eu preferia que tivessem seguido a primeira opção.

13 em 20 (porque a primeira parte merece)

 
Ah, e o filme também tem isto, um gato vestido numa jaula Faraday para os alienígenas não o atingirem. Convenhamos, não se vê todos os dias.


domingo, 7 de junho de 2026

Talamasca: The Secret Order (2025)


A Talamasca é uma organização secreta e milenar que estuda o sobrenatural, nomeadamente as bruxas e vampiros do universo de Anne Rice. A Talamasca sempre foi fascinante, mas descobrir a sua verdadeira origem, nos últimos livros das Vampire Chronicles, tornou-a ainda mais interessante. (Um nome apenas: Gremt)
Fiquei muito entusiasmada quando descobri esta outra série criada a partir dos livros da autora. A Talamasca é uma organização que vamos conhecendo ao longo das Vampire Chonicles e Mayfair Witches e, ao contrário destas, não tem nenhum livro que lhe seja dedicado. Isto permite uma liberdade criativa única. Os argumentistas podem desenvolver personagens dos livros ou, pelo contrário, criar personagens e histórias completamente novas.
Foi o que aconteceu neste caso. Guy Anatole, um jovem advogado com poderes telepáticos, é abordado por Helen, uma operacional da Talamasca, para que se junte à organização. Guy não tem qualquer motivo para fazê-lo até perceber que a sua mãe, que ele julgava morta, era na verdade uma agente da Talamasca que por alguma razão teve de fugir e esconder-se. Guy aceita a missão na tentativa de encontrar a mãe, o que o leva à sede da Talamasca em Londres, onde o vampiro Jasper usurpou o poder. Jasper e Helen andam à procura do misterioso 752, que poderá ser um livro, ou um microfilme, ou um artefacto completamente diferente, que reúne todo o conhecimento que a organização compilou durante séculos.
Jasper também tem estado a criar uma espécie de vampiros "imperfeitos", mais "zombificados" e acéfalos, que Anne Rice introduziu no primeiro livro, "Entrevista Com o Vampiro". Anne Rice desinteressou-se deste tipo de vampiro, aparentemente, porque nunca mais o retomou, e se calhar fez muito bem porque os temas das Vampire Chronicles são mais profundos do que isto, mas o facto é que estes monstros resultam muito bem na televisão.
Do que sei, sem ter lido as Mayfair Witches, e do que vi nas críticas, são todos personagens novos (excepto dois, que só entram em curtas passagens, que também aparecem em "Interview With The Vampire"). O subplot de Helen recorda vagamente o enredo das gémeas e de Jesse Reeves em "The Queen of the Damned", mas apenas como paralelismo. A série desenrola-se como uma história de espionagem/policial, sem que isso interfira com o aspecto sobrenatural das personagens. E gostei, gostei muito, mesmo sem conhecer os personagens de lado nenhum.
Fiquei sinceramente chocada e perplexa quando soube que a série foi cancelada após apenas a primeira temporada. De todo o universo de Anne Rice adaptado pela AMC, "Talamasca: The Secret Order" era a série que tinha mais potencial de desenvolvimento. Como disse, a Talamasca é uma organização que estuda o sobrenatural há mais de mil anos. Os personagens podiam ser novos ou conhecidos, ou uma mistura de ambos, interagindo igualmente com os imortais dos livros ou outros que viessem a ser apresentados, incluindo até flashbacks a outros séculos. Só o manancial de criaturas e fenómenos sobrenaturais que podiam ser abordados é inesgotável. Basta pensar que a Talamasca é uma mistura de X-Files com os Homens de Letras de "Sobrenatural", mas com todo um requinte académico e britânico, e que os próprios membros da Talamasca incluem vampiros, espíritos, bruxas, telepatas e outros mortais com poderes especiais. Acresce a isto que a Talamasca tem casas-mãe em várias partes do mundo, o que até daria panos de fundo diversificados e internacionais se fosse esse o objectivo.
Não sei o que aconteceu, se "Talamasca: The Secret Order" não teve audiência suficiente ou se a AMC estava com problemas de orçamento e preferiu investir nas Vampire Chronicles ou nas Mayfair Witches. Não encontro nenhuma razão para cancelar esta série, fosse com um enredo derivado da primeira temporada ou adoptando um formato de antologia nas seguintes. Com uma organização como a Talamasca, até o monstro-da-semana resultava (embora eu, muito pessoalmente, esteja farta desse formato e não o recomende). A questão é que não faltavam histórias, opções e personagens. E nem sequer estou a falar de Gremt, mas adorava tê-lo visto.

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PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Vampire Chronicles, Mayfair Witches, vampiros, bruxas, sociedades secretas, espionagem, policial, sobrenatural, terror


domingo, 31 de maio de 2026

Automata (2014)

Tempestades solares transformam a Terra num deserto radioactivo. Devido à diminuição da população, a civilização depende de robôs para executar todas as tarefas. Um dia, os robôs ganham consciência de si. Mas terão desenvolvido também empatia, ou serão um perigo para os seres humanos? Para evitar este perigo, os robôs têm instalados dois protocolos: nunca fazer mal a um ser humano e nunca se alterarem a si próprios. Quando eles começam a fazer upgrades a si próprios, terão igualmente ultrapassado o primeiro protocolo?
Ou seja, estamos perante um filme "Terminator", ou outra coisa? Não vou responder porque seria estragar o filme todo. Isso é o que tem de descobrir o investigador Jacq Vaucan (Antonio Banderas), agente da corporação responsável pelo modelo de robôs que são apanhados em flagrante a proceder a reparações em si próprios e a modificarem peças. O perigo da Inteligência Artificial está aqui muito presente, e não de forma abstracta. Estes robôs, conscientes de si como "espécie", têm de facto a capacidade de dizimar a raça humana se entenderem que esta é uma ameaça para eles. E nós sabemos que somos uma ameaça para eles, ainda antes de eles o terem percebido. Será que os robôs têm o mesmo instinto de sobrevivência preemptivo que levou os seres humanos a controlar a Natureza, ou serão capazes de uma coexistência pacífica?
Nunca é muito bem explicado, mas a certa altura aparece um lugar tão radioactivo, devido à utilização de armas nucleares, que os seres humanos não poderão lá entrar durante milhões de anos. Jacq Vaucan, um homem a viver um limite existencial na sua vida privada, representa a espécie humana neste outro limite existencial colectivo. Até que ponto merecemos um habitat que já destruímos com a nossa arrogância de predador dominante? Será que o nosso tempo já passou, como diz um dos robôs, e que a espécie humana será substituída pelas máquinas que criou, o único legado humano que restará numa posteridade de que já não fará parte?
"Automata" não aborda exactamente temas originais nem pretende ser uma grande obra filosófica, mas é um filme sensível com uma mensagem de auto-reflexão que me impressionou. E impressionou-me sobretudo porque as máquinas não são capazes de empatia, mas algumas pessoas também não, então devíamos mesmo ponderar o que significa realmente ser humano. E não é ter uma inteligência superior. Isso as máquinas também têm e até nos ultrapassam. O que é que nós temos que as máquinas não têm? E quando as máquinas desenvolverem uma Empatia Artificial superior à nossa, que desculpa nos resta para justificar a nossa sobrevivência às custas do planeta e de outras espécies?
Numa das cenas fulcrais alguém pergunta ao protagonista "como é que pudeste atraiçoar a tua gente?", ao que ele responde "vocês não são a minha gente". "Automata" quer fazer-nos pensar que tipo de gente nós somos.

15 em 20

 

domingo, 24 de maio de 2026

The Witcher (2019 - ?) [quarta temporada]

Depois de elogiar aqui a terceira temporada pela maior clareza do enredo, aborrece-me ter de dizer que a história de "The Witcher" continua a estar mal contada. Durante esta quarta temporada andei tão perdida e confusa que acabei por ir à internet apanhar o fio à meada.
Admito que possa ser culpa minha. Primeiro que tudo, não li os livros. A história não é de todo desinteressante mas nunca me agarrou a ponto de ver com muita atenção. Depois houve o interregno da pandemia e esqueci bastante das temporadas anteriores. As personagens são às catadupas e, tirando um ou outro caso, são tão bidimensionais que não me ficam na memória. O próprio formato da série, que oscila entre episódios focados em personagens e/ou desenvolvimento do enredo, mas muitas vezes empata em monstros-da-semana, também não ajuda. A quarta temporada, por exemplo, não avançou um milímetro na narrativa. Geralt, Yennefer, Vilgefortz e Emhyr andam à procura de Cirilla, e no fim continuam todos sem imaginar onde ela possa estar. Isto não me incomoda pessoalmente. Eles é que sabem a quantidade de enredo que têm e quantos chouriços precisam de encher, e "The Witcher" é uma série de Fantasia que se vê exactamente para encher o olho.
O que me confundiu muito foi o enredo de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Na temporada anterior já tinha suspeitado que ele era o pai de Cirilla, suspeita que nesta se confirma. O que não me tinha passado pela cabeça é que ele quisesse Cirilla para casar com ela, devido a uma qualquer profecia de que o filho de ambos vai ser um homem muito poderoso que vai conquistar os reinos todos e trazer glória a Nilfgaard, etc. Isto confundiu-me tanto, e a série explica tão mal, que fui pesquisar para ficar a saber de uma vez por todas. Deixo aqui um resumo escorreito do que descobri, para não ter de ir pesquisar novamente. 
A história é longa e cabeluda. Muitos anos antes, Emhyr, também conhecido por Lord Urcheon ou Duny, salvou a vida ao avô de Cirilla, rei de Cintra, e invocou como recompensa a Lei da Surpresa. Esta surpresa foi a Criança-Surpresa Pavetta, filha do rei de Cintra e da sua esposa, a rainha Calanthe. Entretanto, Emhyr foi amaldiçoado para se transformar em porco-espinho. É este Porco-Espinho que conhecemos como Duny na primeira temporada, a quem Geralt ajuda a quebrar a maldição. Em troca, Geralt também invoca a Lei da Surpresa. Duny/Emhyr reclama Pavetta e casa-se com ela, desta união nascendo Cirilla. Cirilla é assim a segunda Criança-Surpresa, para confundir ainda mais, a quem Geralt tem direito. Alegadamente (agora questiono o que realmente aconteceu), Duny/Emhyr e Pavetta morreram num naufrágio, mas afinal Emhyr sobreviveu. Como é pretendente ao trono de Nilfgaard, deixa Cintra, nunca mais quer saber da filha Cirilla e decide ir tomar a coroa que lhe pertence. Anos mais tarde, já imperador de Nilfgaard, ataca Cintra de surpresa, sem que (aparentemente) ninguém o reconheça como Duny, marido de Paveta, pai de Cirilla, apenas alguns anos passados do casamento com Pavetta.
Ora, isto levanta-me tantas perguntas a que "The Witcher", já na quarta temporada, insiste em não responder. Começo pela mais óbvia. Como é que ninguém em Cintra reconheceu Emhyr como imperador de Nilfgaard? Não houve um espião, nem um mercador, nem um viajante, que tenha passado por Nilfgaard e pensado "caramba, este fulano é mesmo cuspido e escarrado a cara do pai da princesa Cirilla!". Só essa curiosidade teria levado as pessoas a falar do assunto. Mas não. Ou, pelo menos, na série, ninguém sabia que Duny e Emhyr eram a mesma pessoa. Nem sequer Geralt, um homem tão viajado, que conhece outros homens tão viajados.
Segundo, Emhyr não deve ser muito esperto. Sendo pai da única herdeira ao trono de Cintra, não teria sido muito mais lógico e eficiente ter-se aproximado da filha, talvez até para a controlar e manipular e tornar-se regente de Cintra quando chegasse a altura? Talvez até para a convencer da tal profecia? Não era muito mais prático ter anexado Cintra dessa maneira em vez de invadir o reino pela força? Nem sequer é uma questão de maquiavelismo, é apenas senso comum. Porque é que ele fingiu que estava morto se lhe era muito mais conveniente ser o pai da princesa de Cintra?
A partir daqui é especulação. Será que Emhyr já conhecia a profecia antes de casar com Pavetta? Será que o naufrágio não foi um acidente? Será que Emhyr nunca quis conhecer Cirilla como criança para não ter problemas em casar com ela depois? Quem tem de responder a isto é a série, e até agora o enredo principal tem saído a conta-gotas. O que me aborrece é que as gotas não estavam a fazer sentido e tive de ir pesquisar para perceber o que se estava a passar. Também não ajuda que Geralt pareça muito mais novo do que realmente é (na série, supostamente, Geralt tem cem anos ou mais) e não me lembro nada da cara de Emhyr quando era Duny o Porco-Espinho. Não me incomoda que o enredo se desenvolva lentamente mas chateia-me quando as coisas não fazem sentido e a história de Emhyr não faz sentido. Ou então o personagem é mesmo muito burro, o que também dava uma boa história, mas não me parece que a série o esteja a retratar assim.
Não sei quantas temporadas vêm a seguir, mas durante estes oito episódios Geralt andou em vão à procura de Cirilla, arranjou uma espécie de "Irmandade do Anel" com dois anões, um gnomo, o bardo, a rapariga da floresta e um vampiro, contou-se a história deles, a irmandade desfez-se a meio do caminho porque alguns decidiram ir à vida deles, Geralt descobriu que afinal nem sabia onde estava Cirilla, e acabou assim. Mas tivemos uma batalha de bruxas e magos com muitas bolas de energia, isso tivemos, e uma batalha numa ponte a lembrar a ponte de Khazad-dûm com uma espécie de Balrog e tudo, e se calhar não é para pedir mais, mas, ao mesmo tempo, esta série podia ser tão melhor se resolvesse os problemas de narrativa. Até dá dor de alma.
Adorei Laurence Fishburne como vampiro, por esta não esperava. Era capaz de ver uma série inteira só com os vampiros lá do sítio, mas vocês já me conhecem.
Curiosamente, o actor que faz de Geralt mudou e não notei que isso tivesse afectado negativamente a temporada. Notei que Geralt diz muito menos "fuck" do que dizia, o que é decepcionante.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Fantasia, Lord of The Rings, Game of Thrones, magia, vampiros

 

domingo, 17 de maio de 2026

Mayhem / Pandemónio (2017)


Um vírus que retira as inibições provoca uma epidemia de violência extrema. Quando uma firma de advogados sem escrúpulos fica em quarentena, os infectados fazem justiça pelas próprias mãos sabendo que vão beneficiar de impunidade. 
Ao ler a sinopse, e ainda mais quando vi Steven Yeun (o Glenn de "The Walking Dead"), pensei que ia ser uma coisa do tipo "28 Days Later". Mas não é. É um filme de acção e comédia que satiriza as grandes corporações de advogados, uma espécie de "Um Dia de Raiva" provocado por um vírus.
Derek Cho é um executivo em ascensão tramado pela colega incompetente que está nas boas graças do dono da firma. Infectado e sem nada a perder, Derek Cho decide mostrar aos accionistas quem tem razão, quer eles queiram quer não. Mas Derek Cho até é boa pessoa. Os sócios da firma, impiedosos de natureza, e igualmente sabendo que o vírus lhes trará impunidade, não hesitam um instante em recorrer ao homicídio.
Violência há de sobra, resta saber se há comédia. Pessoalmente, não achei engraçado. É claro que dá sempre gozo ver esta gente velhaca a pagar pelos seus crimes, mas não há muito mais a esperar daqui.
"Mayhem" é um filme que entretém, em que a violência é demasiado irrealista para se levar a sério, sem conseguir ser tão engraçado como queria ser.

12 em 20

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Culatra - "Capítulo Primeiro: 1985-1989 / Sombras e Fantasmas" (Pós-80's label)

Segundo o press release, os Culatra foram "provavelmente a primeira banda portuguesa assumidamente gótica". Com actividade entre 1985 e 1992, nunca chegaram a gravar um disco. Esta colectânea, pela Pós-80's, reúne "os registos raros e inéditos do material gravado entre 1985-1989, provenientes de uma maquete, ensaios e um tema ao vivo no RRV".
Não tenho qualquer lembrança dos Culatra (o que não significa que nunca tenha ouvido falar deles). Estou impressionada com a qualidade desta banda de Lisboa que merecia mais reconhecimento, e lamento que tenham acabado sem deixar discografia. A diferença que o Bandcamp teria feito naquela altura! Nestes registos, finalmente trazidos à luz do dia em 2026, encontro influências do melhor da época: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy e outras referências pós-punk incontornáveis. Este é o som que eu recordo do Rock Rendez Vous. A qualidade das gravações é que é fraquinha, como seria de esperar de ensaios, maquetes e música ao vivo.
Para descobrir agora no Bandcamp, já que esta música esperou tanto tempo entre sombras e fantasmas.

According to the press release, Culatra were "probably the first explicitly Portuguese goth band". Even though they were active between 1985 and 1992, a record was never released. This compilation by the Pós-80's label brings together "rare and unreleased recordings from 1985 to 1989, taken from demos, rehearsals, and a live track at the RRV [Rock Rendez Vous]".
I have no recollection of Culatra (which doesn't mean I've never heard of them). I'm impressed by the quality of this Lisbon band, which deserved more recognition, and I regret that they disbanded without leaving a discography. The difference Bandcamp would have made back then! In these recordings, finally brought to light in 2026, I find influences from the best of the era: Joy Division, Bauhaus, Sisters of Mercy, and other inescapable post-punk references. This is the sound I remember from Rock Rendez Vous. The recording quality is weak, as one would expect from rehearsals, demos and live music.
After waiting so long amidst shadows and ghosts, Culatra’s music can finally be discovered on Bandcamp.

 

pos-80s.bandcamp.com/album/cap-tulo-primeiro-1985-1989