domingo, 1 de novembro de 2026

Aparição (2018)


Não li o livro homónimo de Vergílio Ferreira e depois de ver este filme também não planeio ler. Isto quer dizer que o filme é mau? Não sei. Até hesitei em escrever esta crítica, que pode não ser justa, porque desconheço o original. Por outro lado, uma adaptação deve ser autónoma, não necessita de comparações com o original, e é nessa perspectiva que vou falar de "Aparição".
Para começar, nem sei até que ponto é que o livro tem narrativa adaptável. Muitos romancistas de cariz mais filosófico, nomeadamente os existencialistas, de quem gosto muito (e se calhar faço mal em não ler o livro), nem utilizam narrativa, ou partem dela para escrever filosofia em vez de enredo. Isto é um problema para o cinema, que precisa de história, de acção, dos três actos da dramaturgia. Até pode ter mais (ou menos) do que três actos, nisso sou muito liberal, o importante é que um deles seja a Conclusão. Chegar à conclusão numa obra existencialista é outro problema, porque o único sentido da existência é existir, não há motivo, nem causa, nem conclusão ou moral da história. Existe-se enquanto se existe, o antes e o depois é irrelevante. O que é evidente aparece, o eu-que-existe é a única evidência.
Mas "Aparição" (filme) tem uma história. Alberto é um professor de liceu em Évora nos anos 50, tentando métodos de ensino que incentivem o individualismo e a capacidade de pensar. Individualismo e capacidade de pensar são atributos que não agradam ao regime, mas, tirando um personagem que afirma querer ensinar os homens a "não deixar que lhes ponham a pata em cima", também não é um filme político. Alberto entra em contacto com a alta sociedade de Évora onde conhece Sofia, uma jovem desocupada e sedutora, mas o romance não dura e Sofia acaba por se envolver com um aluno de Alberto. (Espero que nessa altura os alunos de liceu tivessem mais de 18 anos, ou que Sofia, pelo menos, fosse maior de idade, porque hoje em dia isto soa muito esquisito, mas eram outros tempos, não interessa.)
O filme também é lento, mas a lentidão fica aqui bem e transmite o espírito da década e do sítio, e a cinematografia de época é cativante. O meu problema foi mesmo Sofia. Detestei a personagem. Menina rica, mimada, que não entra em Direito porque não se esforça para aprender latim numa altura em que estudar era um privilégio. Aliás, toda esta gente rica que "sofre", coitadinha, por serem ricos e não terem mais em que pensar, me põe logo mal-disposta. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Mas quem nunca teve fome também não sabe dar valor às nozes, e não saímos disto.
Personagens ricas não têm de ser forçosamente um problema, mas tornam-se um problema quando não fazem mais nada senão ser ricas, e penso que o problema aqui é mesmo este. Tem mais personalidade o personagem que só pensa na quantidade de coelhos que a coelha pariu do que a própria Sofia, que parece uma daquelas mulheres fatais de banda-desenhada ou filme noir cujo único propósito é seduzir e desiludir o protagonista para ele "sofrer" mais, coitadinho, para além das preocupações existenciais que já o atormentam. Se o livro também é isto, não, obrigada. Se o filme era só isto, fiquei esclarecida. E, sim, percebi que Sofia é um produto da repressão e que age da única forma que conhece ou consegue para se libertar, mas era preciso fazê-la tão superficial? No que é que ela pensa, além de homens?
Os diálogos são artificiais e absurdos. Ninguém, em tempo algum, fala desta maneira. Voltando à questão da adaptação, se estes diálogos vêm do livro, o filme tinha duas alternativas: torná-los naturais (o que implicaria cortar a maioria das dissertações filosóficas que saem da boca dos personagens ao pequeno-almoço), ou fazer um filme diferente, mais teatral e/ou surrealista, que suportasse a artificialidade das falas. Aqui, numa narrativa realista clássica, colocar um personagem a dizer "eu também já matei os meus deuses" tira-nos completamente da ficção. É com cada solavanco que até dói.
Por falar em solavancos, podiam ter feito qualquer coisa com aquele acidente de carro. Não é credível que um carro àquela velocidade, numa estrada do Alentejo, nos anos 50, o único carro na estrada, tenha provocado aquele acidente. Era preciso muito azar, era caso para um prémio Darwin. Pelo menos arranjavam um chaparro caído na estrada, uma ponte a ruir, uma vaca a atravessar, qualquer coisa convincente. 
Acima de tudo, "Aparição" precisava de personagens mais tridimensionais e de diálogos realistas para acompanhar o clima pesado que conseguiu estabelecer. Assim, a vacuidade dos personagens não faz justiça ao filme como um todo.

12 em 20