Todos os conhecemos. Pessoas que têm dúzias, centenas de amigos. Mas depois vamos analisar e descobrimos que quem banca as jantaradas, as passeatas, até as facturas dos amigos, é o gajo triste que paga para ter "amigos".
Esta criatura é geralmente tão patética que quase me dá pena, e nem estaria na categoria "gente que odeio" se não ajudasse a propagar uma outra praga: os cravas.
Disse "geralmente" porque alguns sabem muito bem que só têm "amigos" porque lhes pagam, e continuam a fazê-lo para se armarem em superiores: "tens é inveja porque não tens amigos como eu tenho", "os meus amigos aparecem quando preciso deles, nem que seja às 3 da manhã".
Pois aparecem, porque não são amigos, são empregados. Para eles não és um amigo, és um rendimento. Pode até não ser dinheiro, pode ser um benefício que obtêm através de ti, e tu sabes. Estão sempre disponíveis para ti porque não querem perder o part time, quando não mesmo full time, e tu sabes. Escusas de te armar, a gente sabe que amigos são esses que dizem mal de ti nas tuas costas.
De vez em quando, o gajo que paga para ter amigos queixa-se de ingratidão: "fui tão bom para ele e agora faz-me isto!" Faz-te isto porque
1) deixaste de lhe pagar o suficiente para te aturar
2) arranjou quem lhe pagasse mais e mandou-te à merda
3) apanhaste-o a falar mal de ti nas tuas costas, como se tu não soubesses que estavas a alimentar uma sanguessuga
Cuidado quando te queixas! Quando te queixas de ingratidão, podes estar a recrutar outro crava mais necessitado do que o anterior que acabou de encontrar uma vaga de emprego em ti.
Se és uma pessoa que paga para ter amigos, deixo-te aqui um conselho de amiga, completamente grátis e sem contrapartidas: trabalha na tua auto-estima e no teu complexo de inferioridade que te leva a querer parecer superior, e presta mais atenção às pessoas que talvez não estejam sempre ao teu serviço mas que são aquelas que vão ter a integridade de te ajudar quando estiveres realmente na merda e as sanguessugas te abandonarem.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 2 - gente que paga para ter amigos
domingo, 16 de agosto de 2026
Silo (2023 - ?) [primeira temporada]
10 mil pessoas vivem no Silo, uma cidade subterrânea com 144 níveis. O ar lá fora está envenenado. O Silo é o único refúgio para sobreviver. Tirando isso, ninguém sabe quem construiu o Silo, nem quando. Os habitantes do Silo só sabem que há 140 anos houve uma rebelião de insurrectos que queriam abrir a porta ao exterior. Antes disso não há memória e a História está proibida. Até certos objectos quotidianos, como relógios e lupas, a que chamam Relíquias, podem ser interditos. As consequências são sérias para quem possui Relíquias ilegais.
Isto já é muita informação, mas "Silo" transmite-a sem pesar num primeiro episódio em que acompanhamos o drama do xerife Becker e da sua mulher Allison, que são autorizados a ser pais (a natalidade está condicionada). A tentativa falha e Allison, que trabalha no departamento de informática, começa a questionar as regras e a proibição de fazer perguntas. Um encontro com George Wilkins, técnico de hardware e traficante de Relíquias, leva-a a fazer uma descoberta avassaladora num disco rígido antigo. Impedida de a partilhar com o marido, Allison toma a decisão mais extrema: pede para sair do Silo.
Sair do Silo é suicídio, mas a regra número um do Silo é mesmo essa: um pedido para sair é irrevogável. Quem sai não sobrevive três minutos lá fora. Os habitantes do Silo podem assistir à saída (e à morte) através de uma câmara no exterior. Para suavizar este procedimento, o Silo chama a isto Limpeza: quem sai leva um pano de lã para limpar a câmara, beneficiando assim os que ficaram.
Becker está chocado com a decisão da esposa, mas o que ela lhe diz antes de sair deixa-o intrigado e também ele começa a procurar respostas. Meses depois, é o próprio Becker quem pede para sair.
A saída/suicídio de Becker é atribuída ao desgosto de perder a mulher, mas antes disso ele tinha passado o "testemunho" a uma engenheira do departamento de mecânica, Juliette Nichols, que se vai tornar a protagonista. Juliette era namorada de George Wilkins, o dos computadores, e acredita que ele foi assassinado, embora a versão oficial seja que se suicidou. É assim que Becker e Juliette se conhecem, na sequência da investigação. Mas investigar a morte de George Wilkins esbarra com os segredos do Silo. Será mesmo verdade que o ar lá fora está envenenado? Os écrans que exibem o exterior mostram de facto a realidade, ou imagens falsas? E se não há perigo em sair do Silo, quem é que teria interesse em manter esta situação?
Obviamente, isto é uma sociedade distópica e totalitária, com perseguições, repressão, manipulação da História e da narrativa, e até uma polícia do regime. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que não é um regime tão brutal como o contexto nos levaria a crer. As pessoas aceitam e obedecem porque acreditam que é a única maneira de sobreviver, as tais Limpezas são voluntárias (não são execuções), e as autoridades são bem-intencionadas. Mais ainda, até a polícia do regime, aparentemente, faz o que faz para proteger o Silo. Só é reprimido, no interesse do bem comum, quem põe em causa as regras. Mas há segredos e contradições gritantes. Os tais rebeldes são acusados de destruir todos os livros e discos rígidos que guardavam a História antes da rebelião, e no entanto quem procurar essa História e esses artefactos é preso ou mandado "voluntariamente" "limpar". É de caras, estes rebeldes míticos são um vilão muito conveniente para manter as pessoas na ignorância. Mas os habitantes do Silo que se apercebem da falta de lógica desta narrativa também preferem manter as suspeitas para si e seguir com a sua vida normal. Porque, afinal, não há vida fora do Silo. Ou haverá?
O mistério não fica esclarecido na primeira temporada. O último episódio é muito chocante e faz-nos dar voltas à cabeça a tentar perceber o que se passa realmente. Somos impelidos a continuar a ver. No entanto, nós que levámos a vacina "Lost" ficamos logo de pé atrás sempre que um mistério dá lugar a um mistério ainda maior. Mas "Silo" é baseado na série de livros do autor Hugh Howey, e isso costuma ser indicador de um enredo com pés e cabeça. Por um lado, não são argumentistas a inventar um episódio por semana; por outro, se os livros foram adaptados é porque alguma coisa têm de bom. (O que não invalida os casos em que os argumentistas adaptam mal, mas há que ter esperança.)
Muita coisa para pensar
Não posso falar mais do enredo, porque a partir daqui quase tudo é um spoiler, mas quero alertar sobre algumas fraquezas da série que podem levar os mais impacientes a desistir. Não desistam. Vale a pena. Contudo, "Silo" talvez tenha ficado melhor no papel. No terceiro episódio, especialmente, em que Juliette e a sua equipa estão a reparar o gerador descomunal que alimenta o Silo, a ciência vai pela janela fora. Eu não acredito mesmo nada que aquela coisa, grande que seja, consiga alimentar uma cidade de 144 x 5 metros = 720 metros de profundidade no mínimo (é uma estimativa minha), ou mais, porque alguns níveis são mais altos do que os outros e debaixo deles há todo um outro subterrâneo não habitado. Aquele gerador deve ser alimentado a magia, porque, para além das necessidades fundamentais, toda a gente tem janelas com falsa luz solar e vitrines decorativas iluminadas. As janelas até percebo, por questões de saúde e sanidade, mas há energia suficiente para iluminar vitrines e tudo? Há outras coisas tão erradas neste episódio que basta ter mais de 12 anos para as detectar.
Por falar em funcionar, como é que eles conseguem ter energia e espaço suficientes para vários níveis dedicados ao cultivo de cereais e criação de animais, só com aquele gerador, e dar de comer a toda a gente? Não há escassez no Silo, uma cidade enterrada um quilómetro debaixo do solo. Se calhar eu nem me punha a fazer estas contas de cabeça se não tivesse visto o gerador. Às vezes mais vale não mostrar e deixar que as pessoas imaginem.
Ao mesmo tempo, à medida que a série coloca o mistério principal em segundo plano e envereda pela investigação do homicídio/suicídio de Wilkins, pode parecer um simples policial num cenário pós-apocalíptico. Foi o que me pareceu, durante uns episódios, e algumas pessoas até deixaram de ver por causa disso. Não deixem de ver. O fim recompensa!
A mim chateou-me um bocadinho uma tendência de que já falei aqui, a "Mary Sue", a mulher super-heroína que é boa a tudo, mesmo a tudo. Juliette Nichols é uma boa engenheira mecânica, tudo bem, mas depois é feita xerife sem perceber nada do assunto e age com a confiança de quem trabalha há uns 10 anos nas forças da ordem. Isto não é culpa da actriz, coitada, que faz o que lhe mandam, e muito menos da personagem, mas totalmente dos escritores que a conceberam assim. Juliette, tal como a Claire de "Outlander", é muito boa a tudo ou quase tudo. Tenho a certeza de que até seria uma boa astronauta, treinadora de golfinhos, vendedora de castanhas. Por favor, parem de escrever personagens destas. São falsas e irritantes.
Por outro lado, "Silo" é uma série subtil em que os pormenores contam. Custa acreditar que as pessoas pura e simplesmente tenham perdido a memória da História em apenas 140 anos, mas torna-se menos absurdo quando sabemos que o Silo tem uma droga que efectivamente faz as pessoas esquecer. O que novamente nos leva a questionar quem poderá estar por trás disto, e, se há uma droga envolvida, não poderá ser tudo uma simulação ou alucinação? O controlo de natalidade, igualmente, é um método de eugenia para extinguir o gene da curiosidade. Será que o Silo existe mesmo no mundo real, ou será uma experiência? As lupas são proibidas porque permitem ler as letras pequeninas nos discos rígidos antigos, mas porque é que proibiram os elevadores? Será apenas para manter as pessoas mais separadas por níveis (e classes), ou haverá razões mais sinistras?
Gostei principalmente das cenas em que os habitantes do Silo observam os outros a sair. Todos sabem o que vai acontecer, mas noto-lhes uma esperança de que seja diferente dessa vez, de que o ar já esteja puro, de que o "limpador" sobreviva, de que seja o sinal para abandonar o Silo. Estas pessoas aceitam e obedecem, mas querem mudança.
"Silo" é daquelas histórias que permitem muitas analogias com a actualidade, desde os confinamentos, ao populismo e à IA, e até com a espiritualidade (será que existe vida após a morte, ou só queremos acreditar nisso para não ficarmos tão deprimidos?). Não é uma série perfeita, mas há aqui muita coisa para pensar.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes
PARA QUEM GOSTA DE: distopia, ficção científica, pós-apocalíptico
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
GENTE QUE ODEIO: 1 - o crava
O crava é universalmente odiado. Até um crava odeia outro crava, afinal, porque outro crava significa concorrência.
Toda a gente sabe o que é um crava. É aquela pessoa que crava cigarros porque deixou de fumar (dos dele); que pede dinheiro emprestado e "esquece-se" de pagar; que num jantar de grupo, assim que sabe que a conta vai ser dividida, pede logo o prato mais caro; é o colega de curso que está sempre a pedir os teus apontamentos mas nunca tem nada para partilhar contigo.
A única maneira de escapar ao cravanço é ser assertivo e dizer "não". O crava não é um amigo, é uma sanguessuga.
Os especialistas do ofício do cravanço têm todo um leque de competências para manipular a vítima aproveitando-se da sua generosidade, da sua boa educação, da sua compaixão. Consoante o montante a cravar, um crava de categoria apresenta um choradinho de derreter corações: morreu o pai, morreu a mãe, o bebé recém-nascido está no hospital com cancro, o gato precisa de um transplante de rim. O crava é um artista em adaptar o choradinho à vítima. Contra esta táctica, se a pessoa não quiser ser muito bruta, é repetir "não tenho, não tenho" até o crava acreditar ou desistir. Outra solução é "com essas desgraças todas, já se foi informar se tem direito a um apoio?" Deflectir, dizer não, e nunca ceder. Ceder é dar incentivo ao crava para se alapar que nem carraça. Para quem tem dificuldade em dizer não, lembrem-se que é menos doloroso não deixar a carraça pegar-se do que arrancá-la depois.
É claro que o crava vai reagir mal, pode até ser mal-educado ou fazer-te sentir culpado pela tua falta de compaixão ou generosidade. É assim que reconheces o crava.
Não estou com isto a dizer que nunca se deve ajudar. A diferença entre o crava e a pessoa em dificuldades é a lata e a rapidez com que o crava pede. Um crava não tem vergonha na cara. Começa a cravar 5 minutos depois de te conhecer, às vezes até já para te tirar a pinta de tanso. Começas por dar um cigarro, no outro dia já te está a pedir dinheiro. Fazes um favor, pedes outro favor em troca e a pessoa nunca mais te responde. Dizer "não" faz estas pessoas desaparecer como se se tivessem desfeito em fumo, mas quem é que as quer por perto? Um amigo pode pedir-te um favor de ano a ano e começa sempre envergonhado com um "desculpa lá, não pedia se não estivesse mesmo à rasca, e só se não te incomodar". Ou um conhecido pode dizer "desculpe lá, mal o conheço, mas você percebe mais disto do que eu e talvez me possa dar indicações do que fazer ou a quem pedir ajuda". O crava não tem pudor. Pede como quem tem direito a receber. É uma relação predatória, que nunca é consensual nem recíproca.
Quanto mais banana é a vítima, mais descarado o crava. É o caso do célebre
"Emprestas-me 20 euros?"
"Só tenho 10"
"Não faz mal, ficas-me a dever e pagas-me depois"
Este diálogo é anedota mas aconteceu-me uma coisa semelhante. Um crava de grande categoria até pode contestar assim quando a vítima diz que não tem dinheiro: "Tens, tens. Ganhas tanto, tens tanto de despesas, sobra-te tanto". Já te fez a contabilidade toda sobre como gastar o teu dinheiro. É muita lata mesmo.
Um tipo comum de crava é o chamado pendura. Tradicionalmente era o vizinho que batia sempre à porta quando se estava a pôr a mesa, ou a visita que ia tomar chá e ia ficando, ficando, a fazer-se ao piso para o jantar. Este tipo de crava finge que não percebe as dicas para se ir embora. Continua ali sentado com um sorriso idiota, ou "lembra-se" de começar a falar de outro assunto. Desalojar esta criatura do sofá pode requerer uma intervenção física: inventar uma emergência e abrir a porta da rua, pedindo desculpa, mas é preciso ir atender o telefone imediatamente, ou, no caso dos cravas de certa idade, pegar-lhes no braço e "ajudá-los" a percorrer o caminho até saírem porta fora. Lembrem-se sempre: não são vocês que estão a ser mal-educados. Mal-educado é o crava que está a tentar aproveitar-se da vossa bananice. Não são vocês que estão a ser brutos, é o crava que não tem o mínimo respeito por vocês. Quando somos forçados a recorrer a uma posição mais assertiva, o crava ainda é capaz de dizer "eu ia-me já embora". Não, não ia, está é fulo da vida por o esquema não ter resultado. Lembrem-se, isto é gente que não interessa a ninguém, não importa se ficou amuadinho. Quanto mais amuado melhor, para não tentar outra vez.
Outro dos tipos mais detestáveis de crava é o pendura/encostado da equipa. Todos o conhecemos. Começa a praticar na escola, em tenra idade, nos trabalhos de grupo. Nas empresas e instituições, encosta-se/pendura-se no trabalho dos outros e não faz a ponta. Quando alguém o obriga a trabalhar, faz tudo tão mal e porcamente que os outros membros da equipa começam a excluí-lo de propósito para não prejudicar mais o trabalho, ou dão-lhe qualquer tarefa desnecessária porque é desnecessária, e o crava sabe que é desnecessária e também nunca a completa, embora possa fingir que está a fazer alguma coisa. Este é porventura o tipo de crava mais odiado porque não é possível livrarmo-nos dele. Na escola, porque o professor não o vai tirar do grupo; no trabalho, porque a pessoa que age assim tem algum tipo de protecção do chefe ou do patrão. É uma sanguessuga inescapável, é o nosso karma a castigar-nos pelos pecados das vidas passadas. E o crava sabe, e ainda goza o prato e pergunta "de certeza que não querem mais ajuda?" Muitas vezes este tipo de crava é tomado por incompetente ou preguiçoso, mas nada mais errado! Este é o crava profissional, um mestre avançado do ofício do cravanço, proficiente e industrioso na arte de fazer os outros trabalharem por ele.
Se és um crava, toma vergonha na cara e deixa de o ser.
Os cravas odeiam-me tanto como eu os odeio a eles, porque sabem que daqui não levam nada.
Se os cravas são tão fáceis de identificar, perguntarão, porque é que existem tantos? Duas razões. Primeiro, há muitos cravas porque há muitos bananas. Segundo, por causa da categoria da "gente que paga para ter amigos", que fica para a próxima.
domingo, 9 de agosto de 2026
Meg 2: The Trench / Meg 2: O Regresso do Tubarão Gigante (2023)
Este filme é tão mau que corre o risco de se tornar um clássico. E como é um filme de tubarões completamente sem sangue também serve para se ver com a criançada em tardes em família ou em convívio de amigos para a galhofa. E acabaram as qualidades do filme.
Vi o primeiro "The Meg" e, apesar da premissa mirabolante, até não desgostei. Megalodontes julgados extintos afinal ainda existem, vivem nas profundezas desconhecidas do oceano, e quando são incomodados saem de lá para comer pessoas. Esta sequela, contudo, coloca a franchise ao nível de Sharknado, e até acho que é de propósito. Se a ficção científica por trás de "The Meg" já é rebuscada, aqui a ciência é completamente atirada às urtigas.
O filme é demasiado longo e pode ser dividido em três partes. Na primeira, encontramos alguns sobreviventes do primeiro filme e conhecemos personagens novas. Uma empresa de pesquisa oceânica capturou uma megalodonte fêmea quando era cria e um dos cientistas acredita que conseguiu amestrá-la. Mas, quando a fêmea entra no cio, destrói a jaula onde a tinham presa e parte em busca de machos. Esta empresa tão cheia de tecnologias de ponta nem se apercebe da fuga.
Segunda parte, os cientistas mergulham em dois submarinos numa investigação às profundezas quando são surpreendidos pela fêmea e pelos machos. A única razão porque não são logo atacados é porque os megalodontes estão demasiado ocupados a acasalar.
Mas aqui vamos esquecer os tubarões durante meia hora. Os submarinos foram sabotados por uma companhia maléfica que opera secretamente no fundo do mar, a 7,5 km de profundidade, para extrair metais raros. Esta empresa maléfica ataca os protagonistas porque... eles são donos do mar? Porque a actividade é ilegal? E como é que a empresa maléfica montou uma base submarina em território de megalodontes sem que estes dessem por isso? Esqueçam lá isso, este filme não é para pensar. Mesmo assim tentei prestar toda a atenção possível e só percebi que este subplot dos vilões malvados não faz sentido, apenas torna o filme longo e chato, e não se perdia nada se tivesse sido cortado. Ainda por cima há a cena interminável em que os personagens têm de caminhar 3 km no leito do mar, só com fatos de mergulho. Ora isto é outro filme, amiguinhos, e igualmente mau, mas apesar de tudo "Underwater" conseguiu transmitir a sensação de perigo e claustrofobia das profundezas. Em "Meg 2: The Trench" nota-se claramente que a cena nem sequer foi filmada debaixo de água (nem sequer numa piscina), muito menos a 7,5 km de profundidade. E depois acontece isto: a certa altura o protagonista tem de nadar sem o fato, mas não faz mal, porque "se ele expulsar o ar do nariz" ainda consegue sobreviver 30 ou 60 segundos. Isto aconteceu. Apenas um minuto depois de uma personagem secundária ter implodido dentro do fato. Ou seja, é esta a ciência da coisa: só os protagonistas conseguem sobreviver sem fato especial a 7,5 km de profundidade. Isto só não é grave porque é muito improvável que qualquer pessoa normal que esteja a ver este filme alguma vez se encontre em situação similar, mas é chato estar a passar estas falsidades científicas aos putos.
Terceira parte. Meia hora depois, finalmente, os personagens principais emergem das profundezas e começa aquilo que nos trouxe aqui: os tubarões. Mas por terem perturbado o habitat, aparentemente, com eles emergem também um polvo gigante e meia dúzia de dinossauros tipo crocodilo/raptor.
Pausa para falar nos dinossauros. Estes bichos são muito parecidos com outros que aparecem em "65", não sei se são da família. O absurdo é que estes dinossauros das profundezas, que nunca de lá saíram durante milhões de anos, são anfíbios, respiram oxigénio, têm patinhas e dentuças e correm que se farta em terra firme. A princípio até questionei a minha sanidade e voltei atrás para tentar perceber se estes bichos tinham mesmo vindo do fundo da fossa submarina. Vieram, e isto não é para pensar.
A última meia hora é que é efectivamente o que a gente queria ver: megalodontes a engolir banhistas na praia como uma baleia engole plâncton, dinossauros a comer os vilões, polvo gigante a fazer coisas de polvo gigante. Uma carnificina, mas sem uma gota de sangue porque isto é para miúdos. Também temos o protagonista a surfar uma onda numa mota de jetski para enfrentar um megalodonte olhos nos olhos com uma lança explosiva improvisada. É isto, é Sharknado, ninguém diga que foi ao engano.
Sobre os efeitos especiais, há partes que convencem e partes ao nível daqueles reels de IA muito chunga e baratucha de 5 euros por mês (e se calhar até são). Dá quase a entender que o orçamento não chegou para tudo. Pessoalmente, lamento a falta de qualidade do polvo e do megalodonte num momento crucial que até podia ter tido mais impacto se o resultado tivesse sido mais realista.
O final, e desculpem lá o spoiler, são os protagonistas na praia, a brindar e a rir, como se não tivessem acabado de ver centenas de pessoas morrer selvaticamente à frente deles, nomeadamente colegas e amigos. Sei que isto é "para crianças" mas não fazia mal um bocadinho mais de sensibilidade. As criancinhas também apreciam.
Entretanto, a fêmea amestrada (?) fica à solta, possivelmente grávida, o que cheira a outra sequela.
Não consegui ver o filme duas vezes, fui logo ler as críticas, e descobri que os filmes são baseados numa série de livros de Steve Alten. Das opiniões que li, os livros são melhores do que os filmes, portanto fica a nota.
Quero só destacar a cena de abertura, que parece outro reel para o Tik Tok: uma animação com dinossauros, um tiranossauro e um megalodonte. Tiranossauros e megalodontes não foram contemporâneos mas isso não interessa nada aqui, o objectivo é dar-nos uma ideia das dimensões do bicho e nisso foi muito eficaz.
11 em 20
domingo, 2 de agosto de 2026
The Murder Network / O Médico Assassino Na Paris Nazi (2022)
Fiquei muito surpreendida ao ver este documentário por não ter lembrança de ouvir falar de Marcel Petiot, médico francês, serial killer e psicopata em geral que cometeu dezenas de homicídios, inclusive durante a ocupação nazi. É uma história tão macabra e inacreditável que até me espanta ainda não terem feito um filme de Hollywood a sério sobre ele (embora algumas personagens tenham sido inspiradas neste assassino).
Marcel Petiot é o típico sociopata sádico, narcisista e manipulador, mas ao mesmo tempo carismático e capaz de enganar quem não o conhece bem, a ponto de ter sido eleito presidente da câmara da cidade onde morava e onde já tinha começado a matar.
A ocupação nazi deu-lhe a oportunidade de se fazer passar por membro da Resistência que supostamente ajudaria judeus e outros refugiados a escaparem, só para os assassinar friamente no seu apartamento de Paris. Petiot não fazia isto só para se divertir, uma vez que aproveitava para roubar valores que os fugitivos levavam com eles. Aliás, Petiot também desviou dinheiro da câmara onde foi presidente, revelando uma completa ausência de consciência moral. Roubar, envenenar, e ainda fingir que matava as pessoas ao serviço da Resistência, todo esse discurso mirabolante fazia sentido na sua cabeça e quase que o absolveria em tribunal se as provas contra ele não fossem tão esmagadoras e incontestáveis (matou, inclusive, crianças).
Serial killers há muitos, mas o que mais nos choca em Petiot foi como ele foi capaz de aproveitar a situação em proveito próprio e cometer muitos mais homicídios do que seria provável em tempos normais. Os pobres desgraçados que confiavam nele para fugir aos nazis acabavam desmembrados e enfiados na fornalha do prédio. Entre os nazis e um serial killer, é caso para dizer que para estes tinha mesmo chegado a sua hora.
Os acontecimentos tornam-se ainda mais caricatos. Uma vez que Marcel Petiot fingia pertencer à Resistência, foi preso pela Gestapo e torturado, mas não revelou nada, nem sobre a (falsa) "rede de fuga" nem sobre os crimes. Por sua vez, a polícia francesa não o apanhou mais cedo precisamente por julgar que algumas actividades suspeitas de Petiot se deviam ao seu (falso) envolvimento na Resistência. Verdadeiramente, um homem capaz de usar as circunstâncias para manipular e ludibriar toda a gente.
Vale muito a pena ver "The Murder Network" para compreender os meandros e os pormenores, mas advirto que o documentário contém cenas muito pesadas.


