domingo, 21 de junho de 2026
Homens de Honra (2026)
"Homens de Honra" é a história dramatizada de Álvaro Cunhal e Mário Soares, e de como se encontraram, convergiram e divergiram. Mostrar como as coisas se passaram, apesar do aspecto ficcional que o género biográfico envolve, é muito importante para a preservação da nossa memória histórica à medida que estas figuras vão ficando cada vez mais distantes das gerações que já não as conheceram.
Gostei muito até aos últimos dois episódios. O episódio da fuga de Peniche, tenso e cheio de acção e perigo, dava um filme inteiro a não ficar atrás de "Prison Break". "Homens de Honra" seria interessante até apenas como série de época, mesmo com personagens fictícias.
Não gostei nada da substituição por actores mais velhos nos dois últimos episódios e não vejo a necessidade de o ter feito. Romeu Vala estava a arrasar como Álvaro Cunhal. Obviamente que não conheci a pessoa na juventude (nem eu, nem o actor) mas a interpretação é tão bem decalcada da personalidade mais velha que me convenceu completamente de que aquele podia ter sido o jovem Álvaro Cunhal, faceta Don Juan e tudo. Na verdade, nem conhecia esses pormenores da vida privada de Cunhal porque nunca gostei de meter o nariz, mas acredito plenamente que toda aquela aura de espionagem/clandestinidade/idealismo/liderança/perigo podia muito bem ter sucesso com o sexo feminino.
Alexandre Carvalho já não ficou tão parecido com Mário Soares, nem ele nem o actor que o substituiu, Tónan Quito, porque Mário Soares tinha particularidades físicas muito próprias e seria sempre difícil recriá-las, nem é isso que está aqui em causa, muito menos as interpretações dos quatro actores. O que está em causa é que assim que identifiquei os personagens com os actores, os personagens passaram a ter aquelas caras. Eram as caras que eu reconhecia e em que estava investida. A substituição das caras deu-me a sensação de que estava a ver outra série, em que a dinâmica criada pelos actores substituídos se perdeu a meio. Talvez tivesse resultado se os actores tivessem sido substituídos mais cedo e durante mais episódios, para poderem criar uma dinâmica própria com o espectador, mas assim sendo pareceu-me abrupto e desnecessário. Eu, pelo menos, como espectadora, teria preferido ver os actores originais envelhecidos, mesmo que ficasse um bocadinho forçado. Afinal, desde o primeiro episódio que é forçado: este é Cunhal, este é Soares. A substituição obrigou a forçar outra vez, e a minha paciência como espectadora não acompanhou a mudança. Nem sequer tentei perceber quem eram as novas caras de todos os outros substituídos.
Sem desprimor ao actor Tónan Quito, também não achei que a substituição tenha sido benéfica. Fisicamente, o actor é mais parecido com Ricardo Salgado do BES (se ainda não fizeram a série, podiam fazer) e em vez de ver Soares via Salgado, o que nem vou comentar mas que foi "algo" aflitivo. Também acho que o actor Tónan Quito é fisicamente mais parecido com José Sócrates. Pela minha saúde, sem desprimor absolutamente nenhum. Até deixo aqui a sugestão, e seriam, tanto Salgado como Sócrates, dois papelões do caraças.
Também a nível das parecenças, e numa nota humorística, não reconheci João Soares. Pensei que era Vasco Pulido Valente ou Fernando Rosas, por causa do colete de malha.* Mania de usarem todos o mesmo. Por outro lado, pensei que Daniel Proença de Carvalho era Marcelo Rebelo de Sousa tal e qual me lembro dele, barbicha e tudo. Já Maria Barroso não ficou nada parecida, tenho de dizer, pelo menos da altura em que a conheci. O que me fez cair o queixo foi o general Ramalho Eanes do actor João Tempera, arrepiante de tão igualzinho, até na voz e na maneira de falar.
Quando escrevi aqui sobre "Ena, A Rainha Vitória Eugénia", salientei que a série não explica os factos históricos em profundidade, é mais dirigida a quem já os conhece. Achei o mesmo de "Homens de Honra". Gostei da voice over que ia guiando o espectador em certas passagens, mas penso que no futuro ainda vamos precisar de mais voice over e legendas. Por exemplo, só identifiquei o general Humberto Delgado quando ele disse "obviamente, demito-o". Tudo isto foi antes de mim, e o que é antes de mim é História, um rumor de outros tempos que nos chega dos mais velhos.
Já não tive esta desconexão com os factos que vivi, embora os dois últimos episódios não os retratem como me lembro deles (o que é natural, porque já entramos no campo do subjectivo). Fiquei muito surpreendida que a série não tenha mencionado o "engolir do sapo". Tendo em conta que "Homens de Honra" retrata a relação entre Cunhal e Soares, o "sapo" é relevante e pensei que estavam a guardar para o clímax. Mas não, nada sobre o assunto.
Por último, e vou ter muito cuidado ao escrever isto, acho que "Homens de Honra" não fez justiça ao legado de Álvaro Cunhal, e não porque a série seja tendenciosa mas se calhar exactamente por não o ser e por se ter cingido aos factos. Chegamos ao fim e podemos ser levados a conjecturar que o único legado válido de Álvaro Cunhal, que nunca admite os crimes da União Soviética e que aparece como um homem ultrapassado pelo tempo, foi a Festa do Avante, onde a malta hoje vai beber umas cervejas e ver umas bandas, enquanto que Mário Soares foi eleito presidente da República. Um perdeu, o outro ganhou. Ou se calhar sou eu que estou a ser tendenciosa, ainda que inconscientemente, a ler coisas que não estão lá. Não parto do princípio de que tenha sido isto que a série tenha querido dizer, ou sequer que tenha querido fazer qualquer tipo de comentário, mas penso que podia ter sido dedicada mais profundidade ao legado de Cunhal.
Tudo o que aconteceu nos últimos dois episódios me pareceu apressado, uma montagem de acontecimentos políticos que podia ter vindo do arquivo das televisões, sem o dramatismo que me fez investir nos personagens Álvaro e Mário, cada um com os seus ideais e motivos.
* O colete de malha pode ser imaginação minha. Pesquisei as fotos das pessoas mencionadas no Google e de facto não os encontrei de colete de malha, mas a ideia deve-me ter vindo parar à cabeça de algum lado. Afinal, quem é que nunca usou um colete de malha nos anos 70 e 80? Nem eu escapei.
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PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, política, biografia
domingo, 2 de novembro de 2025
Espias (2025)
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Portugal neutro é um palco ideal para a espionagem. "Espias" é uma história de espionagem no feminino com agentes inglesas e alemãs e polícias da PVDE.
Primeiro que tudo, deixo um disclaimer. Não sou fã de espionagem, especialmente a espionagem "pura e dura". Nem sequer tenho paciência para o 007. Só vi esta série porque é portuguesa e porque gosto de ir acompanhando a produção nacional. Posto isto, não sei mesmo avaliar se a série é boa dentro de um género que, pessoalmente, acho chato.
No entanto, as poucas coisas de espionagem que eu vi e que me interessaram focaram-se mais no drama pessoal de uma personagem em que a espionagem propriamente dita ficava quase em segundo plano. Estou a pensar, por exemplo, em "Das Boot", em que os personagens que se viam envolvidos em espionagem lá iam parar um pouco por acidente ou necessidade, mas o foco de interesse era mesmo o drama humano. Em "Espias" temos aquilo a que eu chamo espionagem "pura e dura", em que o drama humano é secundário. É verdade que Bárbara, falsificadora portuguesa que se torna agente dupla porque é apanhada entre ingleses, alemães e a PVDE, tem um irmão preso no Tarrafal e faz tudo isto na tentativa de o ajudar. Mas nunca vemos este irmão nem a relação entre os dois, é apenas uma motivação que nos é informada. A série passa-se sobretudo na acção da espionagem em si, isto é, planos, códigos, encontros, fotografias, mapas, correspondência com tinta invisível, falsificações, seduções, e todo esse etcétera, que é precisamente o etcétera que pessoalmente me desinteressa do género. Se calhar os fãs de espionagem vão achar o contrário, não imagino.
Outra coisa que me entusiasmou minimamente nos (relativamente) poucos filmes e séries do género que vi, é quando todo o enredo culmina num propósito maior, seja esse propósito engraçado (como roubar a "Fallen Madonna With The Big Boobies" em "Alô Alô") ou grandioso (como obter informações que podem alterar o curso da guerra em "Das Boot") ou egoísta (como um personagem simpático que só quer safar a pele). Achei que "Espias" se focou principalmente nos pormenores das missões e utilizou muita informação e personagens off-screen que nem chegamos a conhecer, e só conseguiu este efeito de propósito maior no último episódio. Mas isto é a opinião de quem não gosta particularmente de espionagem como género, logo teria de haver outra coisa qualquer para me agarrar.
O que aprecio são produções de época, e gostei bastante do que vi. Só achei estranho tantas mulheres de calças naquela altura, mas por outro lado eram mulheres estrangeiras e da alta sociedade. Pode ser que muita coisa tenha mudado entre os anos 40 e os anos 70, mas ainda nos anos 70 não era bem visto que uma senhora "de respeito" usasse calças, e muitas velhotas que conheço nunca usaram calças na vida nem se sentiriam bem a usar. Era considerado "vergonha". Uma senhora não andava por aí a mostrar as formas, tinha de usar saia, e que não fosse muito justa.
O que me leva ao que gostei mais nesta série, os Pevides, a parte que senti mais portuguesa e próxima daquilo que será o meu imaginário no que toca à altura. Para começar, aprendi que a sigla que antecedeu a PIDE até 1945 era PVDE. Eu sabia que tinha mudado de nome mas não conhecia a designação exacta. Agora não me vou esquecer por causa dos Pevides. Também já tinha ouvido a expressão "pevide", mas sempre pensei que era a gozar com PIDE. Afinal nem era gozo, estava mesmo lá: PeViDE.
Brincadeiras à parte, gostei de ver as coisas um bocadinho pela perspectiva dos agentes da PVDE, por vilões que sejam. Até seria interessante, na minha opinião, termos mais ficção nesta perspectiva. Passados 51 anos do 25 de Abril, talvez já fosse tempo? Talvez ainda seja muito cedo? Pergunto-me. Mas seria interessante.
"Espias" é uma espécie de sequela de outra série que eu perdi, "A Espia". Não me pareceu que não ter visto a série anterior tenha prejudicado a minha avaliação, mas não posso ter a certeza. Aconselho o visionamento aos apreciadores de séries de época e, é claro, de espionagem.
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PARA QUEM GOSTA DE: séries de época, espionagem, História
domingo, 7 de setembro de 2025
Faro (2025)
Um importante advogado de Faro aparece assassinado, vestido em roupa bondage, amarrado ao mastro do seu próprio veleiro. Quem o matou, e porquê? Dois inspectores da Polícia Judiciária começam a investigação.
"Faro" é um policial muito bem feito, que consegue também abordar temas actuais como a imigração, a corrupção, a especulação imobiliária.
Ao mesmo tempo, "Faro" remete ao período pós-revolução em que terrenos foram ocupados ilegalmente para construir casas, neste caso na ilha de Faro. (Por acaso não sabia que as ocupações tinham acontecido até tão tarde.) Um grupo de investimentos quer comprar todas as habitações da ilha para construir um grande resort turístico. Um dos moradores, Zé Maria, recusa-se a vender. Quando as ofertas não resultam, os investidores recorrem à violência.
A narrativa é simples e escorreita, mas as questões abordadas são complexas e controversas. No decurso da série são apresentados ambos os lados da moeda.
Gostei da narrativa directa, dirigida ao desvendar do mistério, sem se perder em dramatismos desnecessários neste tipo de enredo. Confesso que desde o primeiro episódio tinha uma ideia mais ou menos formada de quem tinha matado o advogado e que me surpreendeu a quantidade de outros suspeitos que foram aparecendo, todos eles com motivo e oportunidade. Só se descobre ao certo no último episódio, e faz sentido.
Até não tencionava ver a série uma segunda vez, porque foi tão fácil de seguir o enredo, quando me surgiu uma dúvida. Essa dúvida ficou esclarecida, mas ao segundo visionamento surgiu-me outra. Porque é que Marta se interessou por Ernesto, o filho do advogado? Da primeira vez pensei que fosse ele que tivesse as gravações. Sendo assim, pode ter havido muitas motivações, mas não percebi exactamente o porquê.
Também tenho algumas questões quanto à casa de bondage/SM. Admito que não conheço a cena "à portuguesa", se é que isso existe, mas do que conheço da cena em geral não é um sítio onde qualquer pessoa vá tomar uns copos. São clubes com muitas regras, alguns onde só se entra por convite e com "recomendação", não é "porta aberta". Fiquei um bocadinho perplexa porque toda a gente lá ia. Não estou mesmo a imaginar um engenheiro Seabra num sítio desses, a não ser que não seja só uma casa de bondage...
"Faro" é uma série que se vê muito bem e um mistério interessante e bastante português. Recomendo vivamente.
Por último, e só para não dizerem que sou uma marreta a bater sempre na mesma tecla, esta série NÃO tem problemas de som. Contra factos não há argumentos.
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domingo, 17 de agosto de 2025
Rabo de Peixe / Turn of the Tide (2023 - ?) [primeira temporada]
"O diabo tem de sair por algum lado" - Carlinhos, em "Rabo de Peixe"
Em 2001, centenas de quilos de cocaína deram à costa em Rabo de Peixe. O que se passou depois poderia ter sido esta série. Quatro amigos da vila piscatória, um dos lugares mais pobres da Europa, decidem que esta é a sua única oportunidade de conseguirem uma vida melhor.
Lembro-me de ler sobre o incidente caricato na altura e lembro-me de pensar o que faria se fosse comigo. Bem, não fazia nada, exactamente por causa da polícia e dos traficantes. Vender cocaína aos quilos atrai demasiada atenção, algo que os protagonistas descobrem num instante.
Mas convenhamos. A droga dá 23 milhões e 820 mil euros. Põem este valor à frente de um pobre muito pobre, e o pobre não pensa duas vezes. Não por ganância ou desejo de luxos, mas porque "com esse dinheiro posso comprar uma casa à minha mãe". Eduardo, jovem pescador, o melhor aluno da sua turma, teve de deixar a escola para ir para o mar. O pai dele precisa de uma operação às cataratas e o Serviço Nacional de Saúde não dá resposta. É esta a sua motivação principal. Com o tempo, se tivesse conseguido chegar longe, daria mais em mau, como Walter White?
Sim, esta é quase a premissa de "Breaking Bad", um génio injustiçado que se mete no negócio da droga porque precisa do dinheiro para pagar as despesas médicas do filho. Eduardo não é um doutorado em Química como Walter White, mas também não precisa de ser. O seu conhecimento do mar, da geografia, do lugar, já o colocam à frente dos traficantes e da polícia. Depois é só preciso ter alguns dedos de testa, sangue frio, e um grande motivo de bom filho a ajudar o pai.
O enredo também segue a fórmula de sucesso drama/acção/humor/thriller que me recorda tanto de "Breaking Bad". Curiosamente, as críticas comparam mais a série a "Narcos", que eu não vi, mas "Narcos" é posterior. Da mesma forma, também encontrei aqui vestígios de "The Wire", mas podem ter chegado igualmente via "Breaking Bad" porque são séries que se foram influenciando umas às outras, e ainda bem. Já as influências de "Pulp Fiction", também comuns a estas séries todas, devem ter vindo directamente do original.
"Rabo de Peixe" (título em inglês "Turn of the Tide") esteve no Top 10 de séries mais vistas da Netflix e compreende-se porquê. Adorei a adaptação deste tipo de enredo a uma realidade portuguesa (e até fiquei com inveja de não se passar em Lisboa). Não temos os cartéis sul-americanos? Temos melhor e mais original, a máfia. Não temos o Tuco Salamanca? Temos o traficante de bairro, Arruda, com a fachada da oficina de mecânico. Não temos Jesse Pinkman a vender Blue Sky aos putos da esquina? Temos o playboy Ian a traficar com os nórdicos que conheceu quando viveu por lá. Não temos as mães de família dos bairros sociais norte-americanos? Temos as mães de família que vão à missa e competem entre elas para levar a imagem de Nossa Senhora para casa. Está tão bom, tão realista, tão bem feito, que não se consegue parar de ver episódio após episódio.
Disse que fiquei com inveja de não se passar em Lisboa, mas é só dor de cotovelo. As paisagens são tão deslumbrantes, tão fantásticas, e funcionam tão bem na história que não imagino isto noutro lado, e com certeza que as paisagens também contribuíram para o sucesso da série.
Por falar em paisagens, foi aqui que a credibilidade foi desafiada. Os Açores não são o deserto do Novo México. É preciso querer acreditar que tudo aquilo podia acontecer sem que aparecesse um pescador, um turista, um guardador de vacas, ou que qualquer pessoa pode subir por um farol acima, por exemplo. As testemunhas incautas que surgiam em lugares inesperados, até no meio do deserto, tornaram-se mesmo num dos elementos mais dramáticos de "Breaking Bad". Também não fiquei convencida com aquela troca de carro. É muito estranho que numa ilha, naquele ambiente de pobreza, conseguissem arranjar duas carrinhas precisamente iguais em tão pouco tempo, e com a mesma capota e com o mesmo crucifixo. Já nem falo da matrícula, porque algumas pessoas topam logo pela matrícula que não é o carro que elas conhecem. (Seria mais credível terem ali dois ou três populares a trocar o que ia na carrinha.)
"Rabo de Peixe" foi renovado para uma segunda temporada, e confesso que estou apreensiva. Esta foi uma grande história, bem contada, e, na minha opinião, bem resolvida. Receio muito a "maldição" da segunda temporada.
Agora uma nota sobre a banda sonora. Ganda bosta de banda sonora. Mas não culpo quem a escolheu. Isto era efectivamente a música que se ouvia na rádio na altura (na sua maioria). Compare-se com a banda sonora de "Yellowjackets", tudo êxitos dos anos 90, e temos aqui um bom exemplo do declínio da música mainstream a partir do ano 2000. (E não estou a falar de cenas alternativas, estou mesmo a falar da música dos tops de vendas, da música de massas.) Mas a série não tem culpa disto.
"Rabo de Peixe" é uma série de qualidade acima da média que merece o sucesso que teve e que nos pode deixar muito esperançosos quanto ao futuro da ficção televisiva.
(Para quando algo do tipo "Midnight Mass" à portuguesa? É que depois de ver isto, até dava, é que dava mesmo. Não estou a sugerir uma cópia, estou só a dar ideias.)
E aprendi quatro ou cinco palavrões que não conhecia, entre eles blica e naião, para não me esquecer.
E outra que eu também não sabia: rapexinho, natural de Rabo de Peixe.
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PARA QUEM GOSTA DE: acção, drama, policial, Breaking Bad, Pulp Fiction
domingo, 3 de agosto de 2025
Finisterra (2025)
No barlavento algarvio, em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, um avião aliado despenha-se e a neutralidade de Portugal é questionada.
Isto é muito interessante, mas, lamento, isto não tem quase relevância nenhuma para o enredo. O aviador inglês (ou seria americano, já não sei) é devolvido, fim da história da guerra. Tirando alguém que é espião, mas isto também não tem relevância nenhuma, é só pano de fundo.
"Finisterra" é a história de Celeste, que é considerada bruxa pela superstição local, a ponto de ela própria se questionar se tem o "mal". Isto também é interessante, mas a série foi-me vendida como sobrenatural. Ora, lamento, de sobrenatural isto não tem nada. O que se passa aqui é uma bruxa/vidente de província, aparentemente com um livro de São Cipriano e veneno de formigas, a liderar um culto daquilo que na altura se apelidava de satânico, com orgias e bebidas perigosas, mas de verdadeiro satânico também não tem nada. O problema das pessoas deste tempo é que não tinham televisão, nem sequer rádio, nem sabiam ler, e inventavam estas coisas para se entreterem, e quem os pode censurar.
Não estou a dizer que não gostei da série. "Finisterra" criou toda uma atmosfera do que a representação da realidade podia ter sido, sem ser exactamente realista. O fim também foi inesperado, não estava nada à espera daquilo. As cenas da gruta foram um bocadinho "isto deve ter caído aqui de outro filme", mas aceito. No final de cada episódio temos um testemunho verdadeiro de pessoas que viveram na época. Penso que os criadores tentaram inventar uma história que englobasse esses testemunhos.
Os meus problemas com a série não têm a ver com o enredo mas com a execução. Aconteceu-me muitas vezes não perceber o que estava a acontecer. Antes que me venham com desculpas, ter clareza de narrativa não é "guiar o espectador pela mão", é mesmo clareza de narrativa. Por exemplo, ouvimos bombas a cair mas não as vemos, e custou-me perceber que a casa do monte tinha sido atingida. Também não parecia uma casa atingida por uma bomba, para ser franca. Parecia mais chamuscada pela queima de lenha ou algo assim. Isto pode ser por questões de orçamento, e compreendo, mas nesse caso talvez fosse boa ideia ter alguém a verbalizar que a casa foi atingida. Como isso me escapou completamente, perdi partes importantes da lógica das consequências e tive de voltar atrás para ver de novo. Outras coisas não percebi mesmo. Por exemplo, naquele monte algarvio não crescia nada e Celeste era acusada de ser a causadora disso, por ser bruxa. Mas a certa altura vemos a madrinha dela a pôr qualquer coisa no chão, seria sal? Ou seria apenas a viúva a demonstrar o seu ódio pela terra? Sinceramente, não percebi e desisti de perceber. A relação de parentesco também é esquisita. Há aqui muitos pais e muitas mães desaparecidos, e quem era mesmo o pai da outra e do outro afinal, etc.
Mas o que me chateou a sério foram os diálogos que não consegui perceber. Depois de ponderar muito se seria problema de som ou de dicção, uma vez que consegui perceber perfeitamente as palavras de Salazar na rádio, e que até consegui perceber melhor os testemunhos com sotaque e com mau português, e que percebi tudo o que diziam alguns actores, como Miguel Guilherme, tenho de concluir que o problema é mesmo a dicção dos outros actores. Estou a dizer isto como crítica construtiva, a dicção é importante. A naturalidade das falas não as pode tornar incompreensíveis. Já não é a primeira vez que bato nesta tecla, mas faço isto com boas intenções. Afinal, quem beneficia de boas séries sou eu, a espectadora. Custou-me muito acompanhar os diálogos dos actores principais e tenho a certeza de que isto contribuiu para perder o fio à meada da narrativa (isto, e as deficiências da narrativa).
Outro exemplo foi quando os homens andavam a fazer a mó. Desculpem a ignorância, mas só percebi o que eles estavam a fazer no testemunho do final. Durante a cena, porque nunca tinha visto nada semelhante, passou-me pela cabeça se andavam a colocar ou a tirar uma mina (por causa da guerra) ou se estavam a fazer um altar ritual (por causa da bruxaria). Enquanto tentava decifrar o que eles andavam a fazer, e porquê, e como é que se relacionava com o resto, entretanto já tinham passado 10 minutos e mais enredo a que não consegui prestar a atenção devida. Uma vez que isto é uma coisa antiga, talvez pudesse ter sido explicada a espectadores mais novos e citadinos. Por falar nisso, também me custou perceber o que é que o padrinho de Celeste lá andava a fazer com eles, porque não era o trabalho dele. Se bem compreendi, ele andava a tentar ganhar dinheiro em biscates porque o campo dele não produzia. Ora, juntando a minha ignorância quanto à mó, os diálogos que não percebi, à tentativa de estabelecer ligações entre o enredo da guerra e das bruxas, fiquei ali à nora.
Até aconteceu uma coisa um pouco cómica. Existe um personagem, penso que chamado o Parvo (lá está, custou-me perceber o que lhe chamavam), que vive como maluco selvagem nas grutas da praia. Quando ele apareceu, logo de início, pensei que era outro aviador naufragado antes e afectado das ideias. Quando Celeste o manda ir embora, pensei que estava a mandá-lo esconder-se de alguém que andasse à procura dele para o entregar aos alemães. Inventei isto tudo, admito, porque estava a tentar encontrar um fio condutor entre a história da guerra e a história da protagonista (mas não há fio condutor). Este personagem desaparece completamente e volta a aparecer no fim, quando já não me lembrava dele. Mas ainda estava convencida de que era um aviador naufragado. O Parvo é o único que tem desculpa para não falar como deve ser, mas a parte engraçada é que pensei que ele estava a falar inglês (e eu também não compreendia). Na realidade ele estava a dizer "o mar bate na terra". Mas isto fez-me rir. Esta coisa do aviador escondido também pode ter vindo do "Alô Alô" e de filmes de náufragos, confesso.
A série podia ter sido mais agradável de ver se não fosse isto tudo. Vou ser muito honesta, "Finisterra" pareceu-me, para o bem e para o mal, um daqueles filmes experimentais do cinema português em que o valor artístico é mais importante do que a lógica. Mesmo assim, gostei dos temas principais, da ambiência da época, das partes bem feitas, e acho que vale muito a pena.
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domingo, 25 de maio de 2025
A Travessia (2025)
Esta é uma série de grande qualidade sobre a primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Demorei um bocadinho a "entrar" na história porque conheço muito pouco sobre o período histórico (1922) e quase zero sobre aviação (sobre a exactidão técnica da travessia têm de ir ler outra pessoa). Na minha ignorância, confesso, e também falta de interesse, sem desmerecimento dos aviadores, tinha a ideia de que Gago Coutinho e Sacadura Cabral tinham voado para o Brasil numa questão de horas, como hoje. A ignorância é minha, mas é mais uma grande razão para fazer e ver esta série.
Disse que conhecia muito pouco sobre o período histórico, mas mais correctamente devia ter dito que conheço muito pouco sobre este Portugal da alta sociedade dos anos 20, com jornalistas, ministros, aviadores, clubes de Charleston. O que me chegou do Portugal deste tempo, via família, foi miséria, analfabetismo, ignorância, pés descalços, fome e obscurantismo. Este é um Portugal que os meus avós nunca conheceram e nunca puderam transmitir-me.
Sacadura Cabral queria ir mais longe e empreender uma circum-navegação mas não teve financiamento do Governo porque se estava em crise e "o povo tinha fome". Este já é um Portugal que eu reconheço, com a puta da crise crónica e os concursos públicos feitos "à medida", os muito pobres que mal podiam comprar um burro e os muito ricos que queriam comprar hidroaviões. No fim das contas, não foi feita circum-navegação nenhuma e o povo continuou com fome. Há qualquer coisa de muito errado com este país.
Regressando à ficção, adorei a atenção aos pormenores nesta série, desde o guarda-roupa à mobília e à loiça. Muitas peças desta loiça, aliás, que não era loiça cara, era o equivalente da loiça do Continente hoje em dia, ainda me chegou como "antiguidade" a preservar porque ainda era da "mãe da avó". O guarda-roupa lembra-me as fotos de família, e respectivos amigos e colegas, em dias de "tirar fotografia", todos no melhor traje e nos uniformes bem aprumados. Ainda tive um professor de liceu que se vestia assim.
Vou só apontar uma criticazinha picuinhas. Pareceu-me que as cenas no avião precisavam de mais vento. Sei que em Hollywood têm umas máquinas de vento que fazem voar os cabelos, mas imagino que isso deva ser muito caro. Também presumo que a barulheira no avião devia obrigar os aviadores a gritar uns para os outros para serem ouvidos, o que deveria implicar legendas. Não sei, digo eu.
"A Travessia" é uma série imperdível para quem gosta de História recente e deixa-me muito optimista quanto ao futuro da produção portuguesa de ficção. Se calhar ainda vou ver uma série de terror de jeito feita por cá, falando muito a sério.
Última nota: então a festa do Neptuno, que eu vi em "Das Boot", existia mesmo! Será que ainda existe? Alguém me esclarece nos comentários, por favor?
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domingo, 18 de maio de 2025
Solum (2019)
Realizado por Diogo Morgado, “Solum” é um filme português que se aventura por um género pouco (ou nada?) explorado entre nós, a ficção científica. Os actores são portugueses mas o filme é falado em inglês (se não os consegues vencer junta-te a eles…), o que me leva a concluir que havia ambições de singrar no estrangeiro. Li algumas críticas de “cá” que não são muito favoráveis, mas eu não achei o filme assim tão mau, se calhar porque estou habituada a muito pior no canal Syfy e “Solum”, apesar do orçamento reduzido, até não se safa muito mal.
Mas vamos ao enredo, que é o que interessa. Oito concorrentes participam num reality show numa ilha deserta (as paisagens são dos Açores). O último a desistir é o vencedor do concurso. (Muita gente comparou esta premissa aos “Hunger Games”, mas eu ainda me lembro de um concurso semelhante chamado “Survivor” nos anos 90 e acho que os “Hunger Games” não são para aqui chamados.) Depressa os concorrentes percebem que de facto estão ali para sobreviver, e com mais gravidade do que pensavam. Entretanto, dois deles parecem saber mais do que os outros, e um deles decide mesmo eliminar a competição com um arco e flechas. Este pode parecer tresloucado, mas no fim acaba por dar uma explicação plausível, concorde-se ou não.
A parte que os concorrentes não sabem (e que nós também não compreendemos muito bem) é que o planeta Terra foi destruído (vemos muito ao de longe uma bomba nuclear (?) cair na Europa) e que o jogo está a ser organizado por extraterrestres que estão a “seleccionar” os melhores espécimes para… levar para o planeta deles?…
Aqui é que o filme se torna realmente confuso. Este “reality show” está mesmo a acontecer na realidade, numa ilha deserta, ou é completamente virtual e os concorrentes estão metidos em pods algures numa nave espacial e não sabem?
“Solum” acaba por resumir-se a uma “moral da história” muito batida, isto é, será que os seres humanos merecem uma segunda oportunidade depois de destruírem o seu próprio planeta? Nesse caso direi que o filme é demasiado optimista. Não vai haver nenhuns extraterrestres para nos salvar. Teria sido uma melhor premissa.
12 em 20
domingo, 30 de março de 2025
Irreversível (2024)
Uma rapariga de 17 anos aparece morta numa praia. Ao mesmo tempo, Rita, jovem ex-toxicodependente, procura a filha bebé que lhe foi levada por uma suposta assistente social que nunca mais deu notícias. A princípio, esta série portuguesa de grande qualidade parece um mistério de crime do tipo "quem matou Laura Palmer", mas, tal como em "Twin Peaks", o importante aqui é o drama que guia e conecta as personagens.
Sobre o crime propriamente dito não posso revelar nada, mas devo confessar que a investigação é muito interessante e que os culpados não são quem imaginaríamos ser. Deste modo recomendo bastante esta série quando a RTP1 decidir repeti-la.
Dito isto, houve algumas coisas que me irritaram, nomeadamente os personagens principais.
Comecemos por Sara, uma adolescente apaixonada pela rapariga que morreu. Não estou a dizer que a culpa é da actriz (nunca tinha visto a actriz em lado nenhum) mas Sara é uma miúda insuportável e egocêntrica, uma autêntica drama queen. Sei que os adolescentes podem ser exagerados, mas nos primeiros episódios só desejei que alguém lhe desse um par de estalos. Felizmente a personagem acalma lá para o meio e torna-se menos visível.
Depois temos Júlia, a psicóloga, uma daquelas pessoas que conhecemos da vida real que se julgam as únicas pessoas equilibradas que existem, e que na verdade costumam é ser as mais desequilibradas de todas. Júlia tem um peixe num aquário e, juro, a certa altura receei que o peixe fosse acabar vivo na frigideira. (Pessoas que fumam tabaco aquecido mas têm a lata de dizer que fumar faz mal a quem fuma cigarros normais são pessoas em extremo estado de negação, o que se aplica aqui como uma luva).
Rita, a ex-toxicodependente, até é uma personagem simpática, mas alguns aspectos irrealistas tiraram-lhe credibilidade. Aliás, aproveito para dizer que se um estrangeiro visse esta série ia pensar que vivemos todos em belas casas suecas com janelas para o mar, que é precisamente o caso de Rita, ex-toxicodependente sem família que trabalha em limpezas. Ora, lamento, mas a bota não bate com a perdigota.
- se Rita é pobre e sem família (como é indicado quando ela vai pedir ajuda ao sogro) e herdou a casa, tanto ela como o pai da filha, igualmente drogado, já teriam vendido a mobília toda, incluindo o frigorífico;
- se Rita pertence a uma família da classe média/média-alta, não acabava a fazer limpezas de certeza; metiam-na num centro de reabilitação (ou vários) ou directamente no conselho de administração de qualquer empresa, drogada ou não, ou, em casos mais modestos, a trabalhar na mercearia dos pais; viver numa tenda no Casal Ventoso é para os desgraçados que nem têm nada para roubar em casa.
A série foi filmada, salvo erro, na zona da Figueira da Foz. Será que a droga é mais barata por lá?... Da minha observação lisboeta, entre os carochos sem-abrigo e os betos da Linha com grandes carrões estacionados à entrada do Casal Ventoso a impedirem a passagem do autocarro 12, Rita vive muito bem para ex-drogada. Como toda a gente nesta série vive muito bem, depreendo que alguém julgue que todos os portugueses vivem mesmo assim e que nem outra coisa lhes passe pela cabeça. Ou, então, isto é de facto uma série para consumo estrangeiro, que não quer mostrar a miséria real do país (embora tenham retratado o antro de droga de forma muito realista, curiosamente). Não percebi esta duplicidade de critérios e acho que Rita teria resultado melhor como personagem se a realidade fosse tida em conta.
Outro problema da série é o actor que faz de detective principal. Não consegui perceber 85% do que ele diz, o que é irritante numa personagem que fala tanto. A certa altura tive de parar de me esforçar por perceber porque era demasiado cansativo. Vou deixar este apontamento como crítica construtiva: o actor precisa mesmo de melhorar a dicção.
Por outro lado, quero dar os parabéns a quem filmou aquele plano do casal Anabela/Henrique na janela, como figuras espectrais e sinistras, o que convinha ao enredo. Por falar nisso, fiquei bastante impressionada com a actuação de Ana Cristina de Oliveira (Anabela), principalmente no último episódio.
Em resumo, gostei da forma como "Irreversível" nos agarrou ao mistério do princípio ao fim, mantendo sempre um nível dramático muito elevado e intenso. Só preferia que a série fosse menos um espectáculo de gente rica para gente pobre ver (como são as telenovelas) e que a realidade do país estivesse mais bem retratada, especialmente no caso de Rita.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Twin Peaks, crime, mistério, drama, cinema português
terça-feira, 30 de abril de 2024
Balada da Praia dos Cães (1987)
Baseado no romance homónimo de José Cardoso Pires, nunca tinha visto o filme nem lido o livro e fiquei agradavelmente surpreendida.
A acção inicia-se quando o corpo de um homem é encontrado por cães semi-enterrado no areal de uma praia. Trata-se do major Dantas, foragido de uma prisão militar que escapou com a ajuda da jovem amante e de dois cúmplices. Curiosamente, a PIDE culpa os comunistas (como sempre) mas entrega o caso à Polícia Judiciária, embora tudo indique que terá sido um assassinato político. Geralmente associamos Raul Solnado a papéis cómicos, mas aqui este é Elias Santana, chefe de brigada, que tem de reconstituir e interpretar os elementos contraditórios que rodeiam a fuga.
Não li o livro, mas o filme não tem nada a ver com a PIDE (embora um dos cúmplices possua de facto uma lista de nomes anti-regime que nunca é aprofundada) ou com a luta anti-fascista. O major tem de facto ideias revoltosas e mirabolantes mas não passam de delírios à Napoleão, a quem este chega a mencionar.
Sem querer revelar mais do enredo, o crime foi passional. Quem matou o major Dantas, e porquê? Achei o filme uma mistura de Agatha Christie com film noir com uma femme fatale e tudo, mas à portuguesa, e resultou muito bem. Deu-me vontade de ler o livro.
Só não percebi porque é que se recorreu a actores estrangeiros em 1987. Certamente algo que me escapa.
20 em 20
domingo, 9 de julho de 2023
Aristides de Sousa Mendes - O Cônsul de Bordéus (2011)
Aqui há uns tempos houve um programa de televisão que promoveu a eleição do maior português de Portugal. O voto era por chamada telefónica de valor acrescentado, o que significa que quem vota mais vezes (e tem posses para o fazer) consegue ganhar.
Quem se lembra deste episódio infeliz recordará que acabou num empate entre António Salazar e Álvaro Cunhal. (Tipo os comentários do Observador…)
Eu votei neste homem, Aristides de Sousa Mendes, sem dúvida o maior português do século XX. Como cônsul de Bordéus durante a Segunda Guerra Mundial, Sousa Mendes emitiu 30 mil vistos de passagem para Portugal contra as ordens do regime, salvando, inclusive, 10 mil judeus. Por isso é hoje reconhecido pela comunidade judaica como um Justo Entre as Nações (gentios que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar vidas de judeus do extermínio pelo nazismo), o que não é para todos.
Esta é a história de como Sousa Mendes ignorou as directivas de Salazar, obedecendo antes à sua consciência extremamente católica (ironicamente). Uma das cenas mais tensas do filme é quando o cônsul recebe um telegrama directamente do Professor Salazar, e mesmo assim persiste em passar vistos a eito, até não poder mais, inclusive numa mesa de café, já os alemães invadiam a França. Com isto, Sousa Mendes salvou 30 mil vidas.
É claro que desconheço os pormenores da intimidade do cônsul (interpretado por Vítor Norte), mas o filme dá a entender que numa primeira fase Sousa Mendes acreditava que Salazar ia “compreender”. O que lhe aconteceu foi acabar a vida na miséria.
O filme é maioritariamente contado através da perspectiva de um miúdo judeu que sobreviveu graças a Sousa Mendes. É interessante, mas roubou-nos muito do que aconteceu depois ao cônsul caído em desgraça.
Ficou na ruína e na miséria… e depois? Aristides de Sousa Mendes tinha 14 filhos, era rico. O que significa a ruína para um homem destes? Vou fazer o papel de advogado do Diabo e vou ser muito directa. Ser generoso, quando se é rico, quando nunca se passou privações na vida nem se sabe o que isso é, quando sempre se teve mansão onde morar e criados a servir, não é a mesma generosidade (nem a mesma miséria) de quem nasceu pobre e tem de fazer das tripas coração para sobreviver. Não estou de modo algum a diminuir o heroísmo de Sousa Mendes, mas o que significou a ruína para ele, exactamente, e para os filhos dele? Foram impedidos de estudar por falta de posses? Acabaram como carpinteiros, cerzideiras, mecânicos, cozinheiras? Passaram fome? Faltou-lhes roupa para vestir? Passaram frio de inverno? Esta foi a parte do filme que eu queria ter visto e que não foi abordada. Bastavam uns 10 minutos no fim, até menos. Uma reflexão do protagonista sobre o que fez e o que perdeu também seria interessante.
Este ainda não foi o filme sobre Aristides de Sousa Mendes que eu queria ter visto, mas é melhor do que nada.
14 em 20
domingo, 16 de abril de 2023
O Rei das Berlengas ou A Independência das Ditas (1978)
A data diz tudo. Este é um filme satírico pós-25 de Abril, quando já se podia dizer tudo o que não tinha sido dito antes. Artur Semedo (realizador) e Mário Viegas criticam ferozmente um Portugal que muitos leitores mais novos não reconhecerão, e de que apenas me lembro vagamente e mais pelo que leio do que pelo que vivi. Pergunto-me até que ponto este filme terá influenciado o outro, “Recordações da Casa Amarela”, de João César Monteiro.
O enredo é engraçado. Muito antes do condado portucalense, os Alves de Midões já eram reis das Berlengas, Estelas e Farilhões, território que lhes foi conquistado por D. Afonso Henriques. Se eu fosse monárquica reconhecia-lhes a pretensão ao trono das Berlengas. D. Lucas Telmo de Midões foi educado nos resquícios nobres da família deposta para reconquistar o trono perdido, o que o traz à capital e, inevitavelmente, ao manicómio.
Tudo é gozado e desconstruído (ou retratado sem piedade). A História de Portugal, Salazar, a beata/santa Sãozinha, a ocupação espanhola, o Marquês de Pombal: “O povo é sereno! Isto é só o terramoto de 1755!”.
Sinceramente, não sei se uma audiência mais nova poderá redescobrir este filme e reconhecer-lhe a vertente cómica e surreal. É caso para experimentar.
Mário Viegas
Falecido em 1996 aos 47 anos, Mário Viegas nunca foi muito conhecido (ou reconhecido), nunca teve o super-estrelato de um Herman José. (Embora faça uma mulher mais bonita, como se pode ver neste filme, e agora Herman José vai odiar-me.) Do que conheci dele, pareceu-me uma pessoa muito acessível, que gostava de se misturar. Encontrei-o numa madrugada no Bairro Alto na companhia de dois adolescentes metaleiros genuínos (daqueles que gostam de Iron Maiden), numa discussão sobre qualquer coisa como se fosse um deles. Eu própria adolescente, não tive lata de ir lá apertar a mão e cumprimentar. Quem é que gosta de ser abordado na rua por um fã?, pensei. Um actor, talvez? Se calhar devia ter ido, mas preferi respeitar a privacidade. Não sei se os metaleiros o conheciam. Mário Viegas era ilustre nos meios artísticos e intelectuais, mas não era nenhum fenómeno de popularidade entre as massas. Se queria andar anónimo, deixei-o andar anónimo.
De volta às Berlengas
Resta-me convidar os leitores mais novos a experimentarem este filme. Verão que está datado e que o orçamento era mínimo. 1978, não havia dinheiro para nada. Mas “O Rei das Berlengas ou A Independência das Ditas” continua válido pela sátira cortante a um Portugal atrasado, bafiento, beato, queque, desigual (nisso não mudou nada), obcecado por um Império dos livros de História. Acima de tudo, sobressai a forte mensagem política final: ”Fome, fome, fome”, gritam os pobres de todos os séculos. “Come, come, come”, traduzem os ricos nos seus palácios privilegiados de janelas fechadas. Não sei se a fome envergonhada começou antes ou depois, só sei que ela anda aí, muito caladinha, despercebida.
13 em 20
domingo, 19 de fevereiro de 2023
O Querido Lilás (1987)
Como é que este filme me escapou? Tenho a certeza de que nunca o tinha visto antes ou lembrar-me-ia. Deve ter sido daqueles que ficou na lista “tenho de ver isto” e nunca vi.
Estou triste com algumas críticas que colocam este filme como um dos piores filmes portugueses de sempre.
Herman José é o maior actor cómico/humorista da minha geração e não há nada que ele faça que não me ponha a rir às gargalhadas. Não posso falar dos anteriores (Vasco Santana, Ribeirinho, etc) porque antes do 25 de Abril ninguém tinha a liberdade de fazer o que Herman fez depois. Herman José não é apenas um humorista que escreve umas piadas em stand up ou uns textos engraçados nos jornais. Herman é um actor completo, e um actor cómico, ainda mais difícil do que um actor dramático, na minha opinião. Neste filme, e no resto da sua carreira, Herman encarna verdadeiramente algumas personagens inesquecíveis, e digo isto porque as encarna mesmo, como se fossem reais.
“O Querido Lilás” é a história de uma diva do teatro português, Beladona (Herman José), que tem um filho de pai incógnito que lhe é retirado 6 minutos depois do parto (dizem-lhe que morreu), para manter as aparências de respeitabilidade. A criança é levada para ser criada por uma mãe adoptiva.
27 anos depois, Querido Lilás (é o nome do filho, também interpretado por Herman José), conhece a mãe numa casa de fados enquanto esta andava a ensaiar a peça “A Tragédia da Rua das Flores” de Eça de Queirós, e ambos se apaixonam sem terem culpa.
Não posso dizer que passei o filme inteiro a rir, até porque o objectivo de uma comédia é deixar os espectadores relaxar antes da próxima gargalhada, mas há uma cena inesquecível que me fez rir às bandeiras despregadas: Beladona, num recital de poesia, a assassinar “Balada da Neve”. Também me ri bastante naquela parte em que Querido Lilás está a traduzir o fado em alemão, e naquela outra passagem em que Beladona se quer atirar à lareira para morrer “queimadinha como a Joana d’Arc”. Isto só podia sair da mente mirabolante de Herman José, embora a direcção seja de Artur Semedo.
É claro que é um filme propositadamente kitsch, e que Herman José é tão exagerado como em algumas outras personagens posteriores (?). Maximiana (?), por exemplo. Aqui o problema não é o som, mas como Beladona grita histericamente a ponto de não se perceber o que diz, mas também é de propósito.
Eu, pelo menos, ri-me à fartazana e ainda gostava de ver aquela “Balada da Neve” outra vez.
Só achei que o filme foi demasiado longo por causa dos fados. Não desgosto, mas também não aprecio, especialmente o fado castiço. E agora toda a gente relacionada com este filme me vai odiar: detesto musicais. O filme não é um musical, graças a Deus, mas foram mesmo demasiados fados.
Recomendo a toda a gente que gosta de Herman José.
14 em 20
domingo, 18 de dezembro de 2022
Kiss Me (2004)
Foi um sacrifício ver este filme. Sem exagero, demorei umas duas semanas a assistir a uns 15 minutos de cada vez porque não conseguia aguentar mais. Lembro-me vagamente de ter lido críticas arrasadoras a “Kiss Me” na altura em que estreou. Por uma questão de cultura geral, insisti em ver até ao fim.
Havia aqui muita coisa para explorar se fosse esse o objectivo. Cheguei ao fim do filme sem perceber muito bem que objectivo era esse.
Esta é a história de Laura, que foge da sua terra (Alentejo, parece-me) por ser maltratada pelo marido. Aqui temos o cenário da pequena mentalidade de aldeia dos anos 50/60 e uma história bastante vulgar. Laura vai para Tavira, onde fica a viver com uma tia muito sofisticada que morou na América e gosta de dizer umas palavras em inglês em cada frase só para mostrar que sabe. (Também não percebi muito bem como é que esta tia, irmã da mãe de Laura, conseguiu sair da terrinha e tornar-se uma mulher tão diferente da pacóvia da irmã, mas se calhar não é importante. Não é a história dela.) A tia ensina Laura a transformar-se numa grande P-U-T-A que se aproveita dos homens. Ou talvez não. A tia ensina-a a ser sedutora; a putice é opcional. Influenciada pela tia, Laura apaixona-se pela actriz Marilyn Monroe a ponto de pintar o cabelo e de se vestir como ela. A partir daqui, desata a seduzir este e aquele, um porque é bom na cama, outro porque daria um marido conveniente, outro porque lhe paga as contas. O filme é passado nestas seduções de femme fatale de cliché a quem os homens não conseguem resistir porque sabem que vão ter cama. E vão mesmo ter cama.
Conheci muitas Lauras ao longo da vida. Isto não é liberdade nem emancipação feminina, é simplesmente putice. O filme ainda se mete por um sub-plotezinho com a PIDE, mas tão mal exploradinho que mal se dá conta de que ele existe (e isto não é o “Até amanhã, camaradas”, antes fosse).
Não consegui empatizar com a personagem, achei o enredo (?) longo e chato, não percebi o propósito. No fim, Laura casa com o homem mais velho que lhe banca as contas. Podia ter logo casado com ele e acabava o filme mais cedo. Ah, mas precisávamos de umas cenas de cama para encher.
De facto, Laura é daquelas pessoas que me dá urticária e de quem só quero distância. Uma drama queen, sem querer parecer a tia dela. A cena do carro, por exemplo. Para pedir a um dos amantes que prove que a ama, Laura manda-o atirar um carro novo de um penhasco abaixo. Isto não me entra na cabeça. Para lá de ser irresponsável (já não digo anti-ecológico porque naquele tempo ninguém pensava nestas coisas), um carro novo custa dinheiro. Não se atira de um penhasco abaixo. Vende-se, por exemplo. Para provar que a ama, o gajo deixava a mulher dele e casava com ela (o que não faz, porque só a quer para a cama). Então, o que é que Laura ganha com isto? O dramalhão de telenovela e o sexo, se calhar? Porque afinal não é ela quem ultimamente se aproveita dos homens, mas o contrário. À excepção do sr. Almeida, que a aceita e lhe paga as contas porque já não tem idade para grandes escolhas. Laura paga-se bem, quanto a isso não há nada a dizer. Já que todos se aproveitam, estão bem uns para os outros. Cada qual tem o que merece.
E assim esta é a história de uma Marilyn de salão de cabeleireiro que quer ser uma mulher fatal mas parece mais outra coisa. THE END.
Só tenho algo de bom a dizer deste filme. Ao contrário das produções nacionais mais recentes, em ”Kiss Me” não notei os problemas de som de que me tenho vindo a queixar ultimamente. Parece que é mesmo coisa de há poucos anos para cá.
10 em 20
domingo, 20 de novembro de 2022
O Convento (1995)
Nunca tinha visto o filme nem lido nada sobre ele (como prefiro fazer sempre). Vi recentemente e vi logo duas vezes seguidas. Primeiro, porque nem acreditava no que estava a ver; segundo, porque queria tentar compreender o final. Consegui o primeiro, não consegui o segundo.
Um casal em crise, Hélène (Catherine Deneuve) e Michael Padovic (John Malkovich) visitam um convento na Arrábida onde este investigador julga poder encontrar provas de que Shakespeare teria ascendência espanhola. A recebê-los, o curador do convento, que se apresenta apenas por Baltar (Luís Miguel Cintra) manifesta imediatamente uma atracção por Hélène. É também este quem lhes apresenta o assistente Baltazar (João Bénard da Costa) e a governanta Berta (a conhecida astróloga Heloísa Miranda num papel delicioso). Para ajudar o professor, Baltar chama também a conservadora dos arquivos, a recatada e religiosa Piedade (Leonor Silveira).
E depois começam a acontecer coisas estranhas. Baltazar e Berta são adoradores do Diabo em pleno convento. Baltar, ele próprio, parece ser o Diabo, ou apenas um demónio, que, qual Mefistófeles a Fausto, quer tentar o orgulho do professor Padovic a aspirar à imortalidade.
Como em todos os filmes de Manoel de Oliveira, há aqui demasiada filosofia para resumir numa crítica curtinha, mas pergunto-me que Mefistófeles teria ainda algum poder para desencaminhar um homem moderno e científico para quem a alma é uma abstracção simbólica.
Nada expressa melhor esta ideia do que a conversa entre Hélène e Baltar, quando este a leva à Floresta das Bruxas (como ele lhe chama) e fala dos tempos em que não havia diferença entre o Bem e o Mal. “Como agora?”, provoca ela, cinicamente. “É melhor agora, porque agora faz-se o Mal sem qualquer escrúpulo", responde ele.
Enquanto Baltar tenta seduzir Hélène, um outro romance começa a despontar entre o professor Padovic e a sua assistente Piedade. Mas será mesmo um romance, ou uma relação de admiração de uma filha para com um pai, como esta confessa a Baltar? Quem está a dizer a verdade, quem está a ser manipulado? Hélène, alegando ciúmes, “promete-se” a Baltar se este levar Piedade à Floresta das Bruxas e a “perder completamente”. O próprio Baltar hesita perante isto, porque reservava outro destino a Piedade: perdê-la num “grande pecado”. Mas aceita o desafio para conquistar Hélène.
Entre as conversas filosóficas, as estátuas de santos mutilados, a adoração demoníaca num convento, o jogo de manipulação, a possibilidade de Baltar ser o próprio Diabo (e parece que é), a música dissonante e estridente a lembrar um filme de terror, eu estava quase a dar 20 em 20 ao filme, quando o fim se torna confuso.
Piedade e Baltar vão à floresta, mas não me parece que este a consiga “perder”. “Tenho saudades de Deus”, diz ela, e o suposto demónio quase tem um ataque de depressão. Entretanto, no convento, o professor Padovic pensa que vê a mulher, Hélène, entrar na sala de arquivos com a aparência de Piedade. Hélène deixa-lhe um livro aberto sobre Helena de Tróia. Subitamente, Padovic decide que Helena de Tróia tinha o poder da ubiquidade, e vai encontrar Hélène na praia. Não conto mais, mas a nível de resolução não temos mais do que isto.
Que significa este final? Que Hélène e Piedade eram uma só e a mesma? Mas como, se foi Baltar quem apresentou Piedade ao casal e já a conhecia antes? E se Hélène já estava no convento muito antes de Padovic chegar (graças à tal ubiquidade), terá sido tudo isto para reconquistar o marido?
Não percebi. E, ao contrário de outros espectadores que gostam de especular, até mesmo aquilo que não tem especulação possível, eu prefiro os finais que oferecem uma explicação lógica. Ou melhor, uma explicação qualquer, mesmo que não seja lógica. Isto não significa que eu tenha preguiça de pensar, ou mesmo de especular. Muito pelo contrário. Gosto da explicação do autor para posteriormente lhe analisar os méritos e deméritos.
Sem dúvida que “O Convento” é um grande filme, sem dúvida que gostei tanto que vi duas vezes de seguida, mas não me encheu as medidas todas. Tal como Baltar e Piedade, também a história se esfumou em nevoeiro quando tudo até ao momento se prometia materializar com um estrondo.
Por último, um elogio. Tenho-me queixado repetidamente, como AQUI e AQUI e AQUI, dos problemas de áudio nas produções portuguesas mais recentes. Caros técnicos de som, ponham os olhos neste filme. Ou melhor, os ouvidos. Mesmo com a música incessante e estridente, mesmo com as personagens a falar em línguas diferentes, mesmo com os sons de fundo, nunca em “O Convento” se notam problemas de áudio e dicção. Percebe-se tudo, ouve-se tudo, sem ter de se andar com o comando a levantar e a baixar o som constantemente. Para bom entendedor meia palavra basta e está tudo dito.
18 em 20
domingo, 31 de julho de 2022
Snu (2019)
Este foi um filme que adiei ver, e um filme que me custou a ver com imparcialidade. Por esta razão, vou pôr as cartas todas na mesa. Tinha apenas 8 anos quando Sá Carneiro morreu, mas a verdade é que já nessa idade nunca gostei da pinta dele. Também é verdade que raramente gosto da pinta de qualquer político, mas este em particular, que era primeiro-ministro e que eu via na televisão todos os dias, não me dava boas vibrações. Nem sequer estou a falar da ideologia que o político preconizava porque era demasiado nova para a compreender. Estou a falar do homem, da antipatia que sentia por ele. (Embora eu esteja perfeitamente convencida de que o homem foi de facto assassinado, mesmo que a bomba não fosse para ele. Veja-se sobre isto outro filme controverso, “Camarate”.)
Em 1980 não sabia nada da Snu Abecassis, nem tinha idade de saber. Tínhamos acabado de sair da ditadura, não era coisa que se falasse na Crónica Feminina. Os mais velhos também não falavam do assunto, e depois de Sá Carneiro morrer muito menos, para “não falar mal dos mortos”. Só descobri já na adolescência.
Mas este filme não é sobre política, mas sobre a história de amor entre Sá Carneiro e Snu. Mesmo assim, tive muita dificuldade em abstrair-me das ideias políticas, ainda por mais quando o filme mostra constantemente intervenções reais do verdadeiro Sá Carneiro na televisão da altura. Numa delas, ele dizia que o PPD estava a fazer tudo para que os “mais jovens tivessem um futuro melhor”. Eu ri-me, ri-me às gargalhadas. Não por culpa dele. Se calhar ele até estava a ser sincero (não tenho razão para pensar o contrário). Mas tanta gente se colou a ele, tanto energúmeno ao longo da história do PPD/PSD, incluindo o senhor Passos que mandou os jovens saírem da zona de conforto e imigrarem. Se calhar Sá Carneiro não merecia lapas destas agarradas à sua memória, mas os mortos não falam. A verdade é que, para além da antipatia que eu já sentia por ele, Sá Carneiro me lembra todos estes figurões que vieram a desfilar depois dele pelo PPD/PSD e foi difícil ver o filme sem ter isso sempre presente.
Mas vou pôr a política de lado e vou tentar.
“Snu” funciona como um documento histórico preciso, tão preciso que me irritou. Irritou-me aquela gente rica toda, aqueles betos que tratam os paizinhos por você e vice-versa, aquela gente de famílias opulentas que tinha grandes casas de banho onde tomar banho ou duche numa altura em que o povo passava mal, mesmo muito mal, e ainda se lavava num alguidar. Lá está, novamente, a dificuldade em avaliar o filme de forma imparcial. Ver o filme deu-me vontade de arrancar os cabelos, o que só significa que está muito bem feito. Foi pena não termos ao mesmo tempo a outra face da moeda: aquela gente pornograficamente rica enquanto o povo vivia na miséria.
Mas esta é uma história de amor trágico. Ainda antes da tragédia propriamente dita, o casal teve de enfrentar o grande problema das mentalidades. Nos anos 80, O PPD ainda cheirava a igreja. Este cheiro foi progressivamente passando para o CDS (RIP) e por lá ficou. (Sim, eu não queria falar de política, e estou a conter-me, mas é difícil quando o protagonista foi um antigo primeiro-ministro.) Na altura, PPD e CDS mal se distinguiam, daí a AD (Aliança Democrática) com outro partido improvável visto do nosso tempo: o PPM (Partido Popular Monárquico). Este era um Portugal profundamente salazarento, pidento, todo ele a cheirar a igreja católica. Um primeiro-ministro não podia apaixonar-se, e muito menos divorciar-se. (Ainda há alminhas, em Portugal de 2022, que não querem divorciar-se porque é pecado, tenhamos isto em atenção! O cheiro a igreja impregna-se no cérebro e depois custa a sair, quando alguma vez sai.)
Snu e Sá Carneiro, ambos casados, tiveram o azar de se apaixonarem naquela altura. Não chegou a ser um escândalo público porque, tragicamente, não houve tempo para que toda a gente soubesse. Algumas notícias em alguns jornais, mas nunca o falatório que seria agora.
O filme chama charmoso a Sá Carneiro bastantes vezes. Ora, eu não podia discordar mais. A carantonha que aparecia na televisão era tudo menos charmosa. Mas, quem sabe? O que somos em público é muito diferente do que somos em privado, e o que somos na intimidade ainda pode ser mais charmoso. Snu e Sá Carneiro eram um amor proibido para a altura, o que talvez ainda os tenha aproximado mais. A eterna tragédia de Romeu e Julieta.
Se nunca achei Sá Carneiro charmoso, não posso dizer o mesmo do actor que o representou, Pedro Almendra. Tão charmoso que se calhar até me convencia a votar nele! A personagem Snu (nunca conheci, nem sequer vi a pessoa real) faz um retrato muito convincente de alguém que se apaixona por um homem pelo seu ideal. Não é o meu ideal, mas compreendo. Até compreendo todas as boas intenções daquele tempo, embora discorde delas profundamente.
Sá Carneiro quer casar com Snu, mas isso implica divorciar-se da mulher que é a mãe dos seus não-sei-quantos-filhos. De acordo com a mentalidade da época, a mulher não lhe quer dar o divórcio. Acredito que seja daquelas que ainda hoje não daria o divórcio. Aqui posso fazer também o meu juízo de valor e perguntar-me porque é que um homem de visões mais largas casou com alguém de visões tão estreitas? Porque dava jeito ter uma esposa “bem”, muito honrada e católica? Reparem, não estou a falar mal dos mortos. Estou a dizer que sempre, em todas as épocas, a gente se deita na cama que faz. Às vezes há quem se deite na cama que parece mais fácil só para descobrir que é uma cama de picos. Vamos esquecer que estas personagens são pessoas reais. Vamos imaginar que são ficcionais. Quando ele casou com ela, como ela diz, colocou-lhe um anel no dedo e disse-lhe que era até que a morte os separasse, sabendo bem que ela levava essa promessa muito a sério. Também compreendo que algumas pessoas mudam, divergem, e não se tornam a encontrar. Mas aqui há culpa para toda a gente e para ninguém. E sim, sei que estou a dizer isto do conforto de 40 anos depois. E, mesmo assim, ainda há quem não tenha percebido estas coisas básicas: as pessoas mudam, divergem. Nada é para sempre. Que este filme sirva ao menos para abrir alguns olhos ainda embaciados de incenso de sacristia.
A nível das interpretações tenho de dar dois grandes parabéns:
À actriz Ana Nave, que fez uma Natália Correia tão real que até me esqueci de que não era a própria. (A Natália Correia eu tive muitos anos para conhecer.) Trabalho extraordinário. Até fiquei arrepiada.
À actriz Joana Brandão, que fez uma Manuela Eanes exactamente como eu me lembro dela. Fiquei igualmente arrepiada.
Já outros personagens não foram tão bem conseguidos. Só percebi que era Mário Soares quando Snu lhe chama Mário. Maria Barroso, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles, Helena Roseta, etc, etc, não os reconheci. Mas o filme também não era sobre eles.
Tirando tudo isto à parte, este é um documento histórico (e político) sobre a vida da alta sociedade portuguesa à saída dos anos 70. Reconheci tudo, vi tudo. Do outro lado da história, mas vi. De tal forma que é difícil fazer as pazes com o que se passa aqui, por muito que queira. A história de amor é bonita e trágica, Romeu e Julieta, que não tinha de acabar assim, e não devia ter acabado assim porque ninguém o merece. Mas este era também um mundo bafiento e fechado, um mundo que Snu e Sá Carneiro, na maturidade das suas vidas, queriam arejar. Era inevitável abrir as janelas.
Uma das melhores partes do filme é quando se mostram imagens reais da Revolução de Abril misturadas com filmagens actuais e “envelhecidas” de Snu e Sá Carneiro. Portugal precisava dessa Revolução de Abril, mas ainda precisava mais da outra, da revolução de mentalidades que seriam Snu e Sá Carneiro. Que ainda precisa, 40 anos depois. Se foi isto que o filme quis fazer, e acredito que foi, então fez bem.
(Não vou dar nota ao filme porque não consigo ser imparcial.)
domingo, 22 de maio de 2022
A Passagem da Noite (2003)
Embora tenha tido conhecimento deste filme desde que estreou, e que desde logo me interessou, consegui evitar vê-lo até agora no receio de que os temas tocassem demasiado perto. E na verdade tinha razão. Poucos anos me separam da adolescente Mariana que podia ter sido eu se tivesse tido azar.
Todo o ambiente do filme me traz más recordações, como se eu pudesse estar algures lá dentro. Aquele apartamento de classe média, embora já em 2003, cheira todo a anos 80. Até os pais da miúda cheiram a anos 80, se não a anos 70 ou 60.
Era a altura em que os nossos amigos morriam de overdose antes de poderem sequer morrer de SIDA. Num dia estavam no Bairro Alto, no outro dia eram encontrados mortos na mata de Monsanto. Estes jovens não eram violadores. Estavam sempre demasiado mocados para conseguirem fazer alguma coisa a esse nível e só pensavam na dose seguinte. Mas vou dar de barato que certas misturas os “espertavam”. Foi o que aconteceu a Mariana, de 17 anos, violada na praia de Carcavelos num dia de Março. (Isto também desafia a credibilidade, porque mesmo em Março há sempre gente na praia, nem que fosse a fazer surf e a passear o cão. Mas avancemos.)
Eram outros tempos. Reparem como aquela mãe controla a menstruação da filha pelos pensos higiénicos que encontra no lixo. Privacidade era coisa que não havia. (Será que já há?) O horror daqueles pais era a vergonha de uma filha aparecer grávida em casa. Mariana quer esquecer, mas a gravidez não o permite. O aborto, ilegal, está acima das suas posses. Mariana decide então esconder. Conheci dois casos semelhantes. Uma que conseguiu disfarçar sempre a gravidez, para não enfrentar os pais, até ao dia em que deu à luz. A outra não sei se abortou ou se deu para adopção: o bebé nunca apareceu.
Este filme é a história dos obstáculos que Mariana tem de vencer, sempre calada e em segredo, até ao último dia. E a verdade é que conseguiu lixar o gajo bem lixado. Pode não ter servido de muito, mas vingança é vingança.
Para mim, “A Passagem da Noite” é sobretudo o documento de uma época que eu vivi, com “personagens” com que convivi pessoalmente (outros, claro, mas aqui os personagens são tão genéricos que podiam ser os que conheci).
A nível do filme propriamente dito, talvez seja essa a minha maior crítica. Os personagens são estereótipos. Basta dizer que o tema é tratado como um policial, da perspectiva de um polícia cínico e batido, outro enorme cliché. Mariana tem diálogos de boneca telecomandada: sim, não, quero, não quero. A prostituta não precisava de dizer tantas vezes “porque sou puta”. A gente percebe! O drogado/violador não tem qualquer profundidade. O namorado também não. A amiga também não. Os pais podiam ter saído dos Batanetes, mas sem graça nenhuma.
Evitou-se o drama por todos os meios, e evitou-se mal. Acaba-se o filme com a sensação de que tanto podia ter sido explorado e aprofundado, e não foi. Enfim, fica o documento de época.
13 em 20
domingo, 10 de abril de 2022
Pedro e Inês (2018)
“Pedro e Inês”, adaptação do romance de Rosa Lobato Faria “A Trança de Inês”, retrata a lendária paixão de D. Pedro e D. Inês de Castro (ou melhor, do mesmo Pedro e da mesma Inês) em três momentos temporais distintos: o século XIV, quando tudo aconteceu, o presente, e uma sociedade distópica que tanto pode ser o presente como o futuro, mas que me cheirou fortemente a África ou América do Sul e aos cultos tipo Jim Jones.
Em todos estes universos a paixão proibida de Pedro e Inês repete-se de maneiras diferentes, transmitindo um fatalismo trágico que os apaixonados não conseguem superar em nenhuma das três “vidas” distintas. Terá sido uma alusão a uma relação kármica tão forte que nem a reencarnação a consegue resolver? Ficará a cargo do misticismo de cada um.
Gostei principalmente da reconstrução histórica no séc. XIV, muito embora toda aquela cena tétrica tão bem nossa conhecida, o desenterrar de Inês e a sua coroação e beija-mão post-mortem, segundo alguns historiadores, nunca terá acontecido. Terá sido uma lenda fabricada em narrativas espanholas a partir do séc. XVI. A lenda sobreviveu porque queremos acreditar nela, porque é romântica, trágica e chocante, digna de uma “Guerra dos Tronos” se se escrevesse Fantasia Grim Dark na altura.
Por falar nesta cena, é de todas a mais artística do filme. Enquanto D. Pedro imagina uma Inês adormecida e bela, toda a corte a vê como o cadáver apodrecido que realmente está sentado no trono.
Gostei, sinceramente, dos monólogos do Pedro da nossa época enquanto internado no hospital psiquiátrico. Acreditem ou não, as palavras de Rosa Lobato Faria soam-me a Mão Morta no melhor da poesia de Adolfo Luxúria Canibal. Só por isso já vale a pena ver o filme, que recomendo vivamente.
O problema crónico do som
Este filme sofre do mesmo problema que já apontei aqui em “Perdidos”. Ora o som está muito alto (quando há música) ou está muito baixo (nos diálogos). Estive eu a fazer o papel de Normalizer, com o comando na mão, ora levantando o som, ora baixando, até quase ficar com uma tendinite. Amiguinhos, eis o conselho de uma amadora destas coisas dos Editores de Som: existe um efeito, chamado Normalizer, que coloca o som dentro de parâmetros inferiores e superiores. É só usar! Se a mancha de som estiver muito larga, é porque o som está muito alto; se a mancha estiver estreita, é porque está muito baixo.
Vão dizer-me que é um efeito propositado e uma opção estética. Estética uma ova; inestética e irritante, isso sim. Os únicos filmes que utilizam esta técnica de propósito são os filmes de terror que usam o som para pregar sustos, e isto são os filmes maus! Escutem os bons filmes e digam-me lá se o espectador precisa de andar a fazer de Normalizer com o comando!
Felizmente, a narração de Pedro está no volume ideal, o que salva esta desgraça sonora. A narração de Pedro é mesmo o melhor do filme.
(14 em 20, que podia ter sido mais, mas o problema do som foi irritante e amador e arrancou-me demasiadas vezes ao filme)
domingo, 7 de novembro de 2021
Variações (2019)
“Pela minha música, vou ao fim do mundo”
A primeira vez que vi António Variações foi no programa do Júlio Isidro, Passeio dos Alegres, em 1981. Não recordo a canção ou canções, mas jamais me poderei esquecer do impacto. António Variações era um dos artistas mais extravagantes que eu já tinha visto na vida. Também, na verdade, não tinha visto muitos. A nossa sociedade era fechada e pequenina, pouco receptiva à diferença. E continua a ser, a verdade é essa, agora um bocadinho mais disfarçado.
Não podia compreender, aos nove anos, a importância que Variações iria ter na música portuguesa, nem percebia o que ele estava a fazer. Nem tive oportunidade de vir a compreender no seu tempo de vida, infelizmente. Não era o meu tipo de música, nem nunca será, mas Variações abriu as portas a muita música de fusão folk / fado / pop que se faz actualmente. Teria sido assim sem ele?
A Lisboa de Variações é uma Lisboa anterior à minha. Meia dúzia de anos nos separam no tempo e nos espaços, os mesmos espaços ou outros semelhantes, e é como se todo um mundo novo se tivesse aberto entretanto.
Estava muito curiosa quanto ao filme porque nunca conheci nada de Variações excepto o pouco que se escrevia nas revistas, e isso era mesmo muito pouco e fortemente censurado. Falava-se da roupa, do turbante, não se falava da homossexualidade. E muito menos da SIDA.
Os leitores mais novos não imaginam o que foi o pânico da SIDA. Não imaginam, principalmente, o estigma associado à SIDA. Primeiro considerada uma doença de homossexuais, prostitutas e drogados, ter SIDA implicava que se pensasse que o infectado fosse um dos três. Acho que o filme podia ter explorado melhor este aspecto, o secretismo e a discriminação que existiam em volta da doença.
De resto, adorei conhecer melhor esta personalidade marcante, compreender como as origens provincianas jamais poderiam satisfazer este homem cosmopolita, como Lisboa era ainda demasiado pequena para horizontes tão vastos.
Acabei o filme a chorar copiosamente.
Parece-me que há umas polémicas sobre a maneira como a personagem foi retratada e como certas coisas se passaram. Nestes casos tão recentes, não é grave. Ainda há muita gente viva que dê o seu testemunho sobre os acontecimentos e sobre a pessoa real que conheceu em carne e osso. Não há filme biográfico em que a personagem seja igual ao original, até para efeitos de dramatismo. Faz parte.
Recomendo este filme, principalmente, a quem nunca conheceu António Variações.
Não vou dar nota porque também não conheci a pessoa que aqui é personagem. Não posso avaliar.
domingo, 13 de dezembro de 2020
Perdidos (2017)
“Perdidos” é a versão portuguesa do filme “Open Water 2: Adrift” (2006). Seis amigos embarcam num iate e decidem dar um mergulho no oceano. Mas o dono do barco, irresponsável, esquece-se de descer a escada. Agora as pessoas na água não conseguem escalar o barco. A escapadinha entre amigos transforma-se em tragédia.
“Perdidos” é de tal modo a “tradução” do filme original que, tendo gostado do segundo, também tenho de gostar da primeira. É quase tudo igual. As únicas referências à cultura portuguesa são Porto Santo (de onde partem) e a canção de Sérgio Godinho “O Primeiro Dia”. De facto, logo ao chegar, um dos personagens vai trauteando a canção, com o conhecido refrão “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Achei esta utilização do clássico demasiado óbvia (dentro de um dia ou dois o personagem está morto) e não vejo nada de literal na canção de Godinho para a trivializar assim, apenas como presságio num filme de terror. Ainda por cima um filme de terror que já toda a gente viu. Sinceramente, não gostei.
Tem-se colocado em questão a própria necessidade de filmar este mesmo enredo em português, tendo em conta que “Open Water 2: Adrift” é bastante recente, e este filme já é o aproveitamento do sucesso de ainda outro filme, igualmente uma tragédia no mar, “Open Water” de 2003. (Ora aqui está algo que eu só descobri a pesquisar para este artigo. Os dois filmes originais são perfeitamente autónomos, também não percebo porque é que quiseram relacionar os títulos.) A melhor explicação é que a costa portuguesa tem o cenário perfeito para o filme (fica barato nesse aspecto), e somos um povo de velejadores. Tudo bem. Mas podiam ter inserido algo mais original, ou da nossa cultura ou a nível das personagens ou do próprio enredo. Eu, pelo menos, esperava esse toque de originalidade.
Por falar nas personagens, confesso que estas vão ser menos esquecíveis para mim do que as do filme original, que ainda eram mais bidimensionais. O jovem casal com o bebé em plena crise conjugal, o ex-namorado que tem dinheiro e é um “merdas” (epíteto que lhe dão no filme e que não podia ser melhor escolhido), a namorada deste (que não tem nada a ver com os amigos dele), e os dois amigos “fixes” que podem ou não estar num relacionamento. Não falta aqui conflito e o filme sabe explorá-lo como deve ser. Tal como no original, o que aconteceu a estes “portugueses” é perfeitamente realista, principalmente com o conflito à mistura. Logo, tenho de gostar.
Há um problema técnico com este filme, que é o som. Não preciso de ser grande especialista para o identificar. Não percebi a maior parte do que eles diziam, especialmente o personagem Vasco (mas os outros também), e muitas vezes dei por mim a olhar para o rodapé da televisão à procura das legendas. Isto tornou-se mais frustrante nas partes mais tensas. Por exemplo, quando o merdas pega na mulher que tem fobia à água e se atira com ela para o mar. Ele diz-lhe alguma coisa, mas escapou-me. Era interessante saber que justificação é que ele lhe está a dar. Assim foi como ver uma cena de filme mudo.
Outra coisa mal explicada é a presença da faca dentro de água. No filme original esta questão não se me pôs, o que significa que a presença da faca foi explicada ou mostrada de forma tão natural que eu não achei estranho. Aqui não, e perguntei-me “de onde raio saiu a faca”?
Também há uma cena de micro-segundo, no fim do filme, em que se vê que a escada é accionada, mas isto foi tão rápido que já li algumas críticas a dizerem que perderam este pormenor. Confesso que tive de voltar atrás e rever, e se não tivesse visto o filme original se calhar também não percebia.
Gostei da última cena, longa e focada nas reacções faciais da sobrevivente, um bocado mais na linha da tradição cinematográfica portuguesa. Nunca ninguém me vai ouvir elogiar cenas demasiado longas, mas acho que aqui fez todo o sentido. Foi um toquezinho de classe à filme europeu que me agradou bastante neste contexto. Pena ter sido o único.
14 em 20 (não posso dar mais porque o filme é uma cópia)














