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domingo, 11 de outubro de 2026

Lovecraft Country (2020)

Chama-se "Lovecraft Country" à região ficcional que H. P Lovecraft inventou para situar as suas histórias, parte imaginação e parte realidade da Nova Inglaterra. Este "Lovecraft Country", porém, é a adaptação do livro homónimo de Matt Ruff e não de H. P. Lovecraft como o título sugere.
O primeiro episódio até começa bem. Atticus é um veterano da guerra da Coreia que parte à procura do seu pai, misteriosamente desaparecido na remota localidade de Ardham (sim, como Arkham). Atticus e o seu tio são ávidos leitores do verdadeiro H. P. Lovecraft e perfeitamente bem preparados para investigar enigmas sobrenaturais, lutar contra monstros e traduzir livros escritos em línguas arcaicas. Isto prometia ser uma espécie de "Sobrenatural" encontra "Indiana Jones".
Mas não é. "Lovecraft Country" é um drama sobre uma família negra de Chicago nos anos 50 que enfrenta o racismo, a segregação e a violência racial da época. O drama está embrulhado em histórias inspiradas em H. P. Lovecraft que nem fingem querer meter medo. Quem está à espera de ver K'thulla, os alienígenas de Plutão, os híbridos de Dunwich, ou até mesmo o reanimador, esqueça, não há nada disso aqui.
Tive muitas vezes a sensação de estar a ver dois filmes diferentes. Por um lado, o drama histórico. Por outro, as aventuras dos protagonistas que se vêem envolvidos com a ordem secreta Filhos de Adão. Às vezes até estava a gostar mais do drama histórico, quando começava a "dar" o outro filme, e assim sucessivamente. Mas o "filme de terror" em "Lovecraft Country" é muito mau, com magia aleatória e CGI pobrezinho, e um enredo principal sem pés nem cabeça.
Faz uma pessoa perguntar-se: se queriam fazer um drama histórico, porque não o fizeram? Porque é que tinham de meter Lovecraft ao barulho? Tinham, e quiseram metê-lo, porque Lovecraft era muito racista (mais ainda na escrita não-ficcional do que nos contos), e esta é uma história sobre racismo. Na verdade, somos tão martelados com o racismo, constantemente e a torto e a direito, que saímos daqui a perceber: ah, ok, Lovecraft Country é a América. Lovecraft racista, América racista, território de Lovecraft! Podiam ser ainda um bocadinho mais explícitos? Não, não podiam. Podiam era ter sido um bocadinho mais subtis. "True Blood", também da HBO, era uma analogia com a homossexualidade, mas nunca deixou de ser uma história de vampiros. "Lovecraft Country" é um drama de época disfarçado de sobrenatural, e isso aborrece-me. Se não queriam levar o terror a sério, ninguém os obrigava a fazer terror. O título até podia ser o mesmo, bastava incluir o protagonista que gosta de Lovecraft, mas não vendiam gato por lebre para martelarem a mensagem na cabeça de mais gente. Mensagem essa que, se calhar, até seria transmitida com a seriedade que merece num drama igualmente sério. Se calhar este formato até é contraproducente para a mensagem.
E qual é a mensagem final? Chegamos ao último episódio e a mensagem é "todos os brancos são maus e racistas, vamos tirar-lhes a magia para sempre". Bonito, sim senhor. Uma mensagem racista a fechar uma série sobre racismo, se não mesmo um incitamento descarado à violência a julgar pela última cena de todas. Não era preciso dar a outra face e perdoar, mas aquilo foi bater no ceguinho.
Tirando a temática do racismo, a série só se debruça com igual atenção sobre uma temática gay e trans (com muito sexo explícito à mistura porque é a HBO). Aqui até se safaram melhor, com um sub-enredo sobre uma mulher negra a quem o amante dá uma poção para se transformar em mulher branca. Esta "mudança de corpo" é realmente inspirada num conto de Lovecraft e é sempre fascinante, mas melhor ainda quando ela descobre que o amante também é uma mulher que usa a mesma poção para se transformar em homem. Isto sim, é interessante, provocador, criativo, e subtil o suficiente (também não precisa de ser tão subtil que não se entenda), e não foi necessário martelar na tecla até à náusea. O espectador percebe, o espectador não é idiota.
"Lovecraft Country" é uma série de activismo e não deve ser vista como outra coisa. Quem gosta de H. P. Lovecraft pode evitar que não perde nada.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: drama histórico, True Blood, sobrenatural, H. P. Lovecraft

 

domingo, 27 de setembro de 2026

The Sandman (2022 - 2025)

Sandman é Morfeu, deus dos sonhos, senhor do reino do Sonhar, ou simplesmente Sonho. Sonho é um dos irmãos da Infinidade (the Endless) que igualmente personificam a Morte, o Desejo, o Destino, a Destruição, o Delírio. "The Sandman" é uma série baseada nos comics de Neil Gaiman, contos independentes passados neste universo. 
Tal como nos comics, a série conta histórias distintas em cada dois ou três episódios. De algumas histórias gostei, de outras não, e outras foram uma seca realmente digna de Sandman porque me deram sono. Não penso que tenha sido de propósito, mas esta sucessão de histórias pareceu-me efectivamente um conjunto de sonhos e pesadelos, em que nunca sabia o que ia ver a seguir, mas sem grande conexão entre eles. A conexão foi tentada, penso que artificialmente, introduzindo a família de Sonho como fio condutor, mas se era para fazer uma antologia teria sido melhor separar completamente as histórias sem forçar um enredo principal que muitas vezes se perde a meio.
Também dei por mim a pensar a que público é que isto se destina. O género oscila entre a Dark Fantasy e o Terror, com uma estética gótica a lembrar Tim Burton (quem se inspirou em quem, fica a questão). Há momentos muito infantis (têm um corvo falante, um cão falante, uma gárgula bebé, um pégaso, um dragão, um grifo, um cabeça-de-abóbora) e há outros momentos que parecem Stephen King (um congresso de serial killers, um coleccionador de olhos). Admito que pode haver pessoas que gostem da mistura, mas para mim não resulta. A fantasia e a leveza infantil, tipo Harry Potter, não encaixa com as histórias mais pesadas.
Foi pior ainda na segunda temporada, quando quiseram fazer drama. Delírio (que mais parece uma drogada) procura Destruição, um irmão que abandonou a família, e pede ajuda a Morfeu para o encontrar. Para este objectivo morre muita gente, Morfeu tem de matar o próprio filho (!), e com que resultado? Quando encontram Destruição, este serve um lanche aos irmãos e parte de novo para outra galáxia (juro que não inventei isto, mas com irmãos destes eu também dava de frosques).
E Lúcifer, o que foi aquilo com Lúcifer? (Sim, é exactamente o mesmo Lúcifer que inspirou este "Lucifer".) Lúcifer é o senhor do inferno, naturalmente, mas não tem nada a ver com estes entes da Infinidade. A certa altura Lúcifer abandona o inferno e decide reformar-se, assim sem mais nem ontem, e entrega-o a Sonho, que por sua vez o entrega de volta aos anjos e a Deus. Sim, a Deus, que também entra neste universo mas não percebi como. Contado assim até se supunha cómico, mas é mais de ficar de boca aberta com tanto absurdo.

Gwendoline Christie em "Wednesday"

Deste enredo deplorável salva-se a interpretação de Gwendoline Christie como Lúcifer, a tentar fazer o melhor dos diálogos miseráveis que lhe deram.
Se mesmo assim isto soa familiar, foi porque "Sobrenatural" foi inspirado no universo de Neil Gaiman, só que, na minha opinião, "Sobrenatural" transformou cacos em ouro e acertou no tom, na mitologia, no enredo, nas personagens, no drama, no humor, enfim, em tudo. Não posso avaliar "The Sandman" como adaptação, porque não conheço os comics (nem gosto de banda desenhada), mas como série aproveita-se a estética de encher o olho e pouco mais.
E nem sequer falei da máscara anti-gás que Sonho usa nos primeiros episódios. Para que é que era aquilo afinal? Era para o estilo? Cyber goth cósmico? O vosso palpite é tão bom como o meu, porque nunca foi explicado.
O melhor episódio foi mesmo "Dream of a Thousand Cats", um desenho animado de cerca de 20 minutos e uma história claramente inspirada no clássico "The Cats of Ulthar" de H. P. Lovecraft, mas, na minha opinião, muito mais pesado. Ninguém vai esquecer aquele final. Aconselho a todos os amantes de gatos, mas não me responsabilizo pelo trauma que causar.

PS: Por falar em interpretações, só em "The Sandman" é que percebi que Jacob Anderson, o Louis de "Entrevista Com o Vampiro", também foi Grey Worm em "Guerra dos Tronos"! Isto é um elogio para o actor, que consegue encarnar cada personagem a ponto de ficar irreconhecível.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: ir directamente para "Dream of a Thousand Cats", último episódio da primeira temporada

PARA QUEM GOSTA DE: Dark Fantasy, Neil Gaiman, Tim Burton, Harry Potter, Sobrenatural (série), Lucifer (série)

 

domingo, 13 de setembro de 2026

Domino Day (2024)


Domino Day, barista jovem e sexy, tem poderes que não controla e uma necessidade diária de se alimentar da energia vital de seres humanos. Domino usa uma app para marcar encontros com vítimas potenciais, mas um deles filmou-a e ameaça denunciá-la.
Um coven de bruxas detecta a magia de Domino e começa a segui-la para tentar avaliar que perigo ela representa. Não surpreendentemente, descobrem que Domino não é apenas uma bruxa, mas também uma Lamia. Isto significa que o conselho de Anciãos das bruxas e magos vai querer matá-la, uma vez que uma Lamia pode expor todas as criaturas mágicas. Mas as bruxas do coven compreendem o dilema em que ela se encontra e planeiam protegê-la, mesmo que isso signifique arriscar a sua magia e as próprias vidas por desobedecerem aos Anciãos.
"Domino Day" é uma série inglesa muito básica de Young Adult, Sobrenatural e Fantasia Urbana que promete um pouquinho mais do que dá (mas só um pouquinho porque também não promete muito). O world building não vai longe, mas também não precisa de ir porque assenta num imaginário já estabelecido por abundante ficção anterior. O enredo é super familiar, já o vimos muitas vezes, e não aquece nem arrefece. 
Mas chateou-me um bocadinho que Domino não saiba que é vampira. Foi preciso o coven explicar-lhe que ela é uma Lamia (espécie de demónio da mitologia grega que mais tarde passou a ser associado ao vampirismo, especialmente o vampirismo feminino e sedutor). Compreendo que nem toda a gente seja fanática por vampiros como eu sou, mas é impossível acreditar que Domino se sentisse compelida a sugar pessoas e nunca lhe tivesse passado a ideia pela cabeça. Isto foi fraquinho e faz a personagem parecer burra. Teria sido evitado se fosse a própria Domino a procurar ajuda para o seu "problema", até porque ela sabe que tem um problema e não consegue resolvê-lo. Não teria elevado muito o nível da série, mas pelo menos não parecia tão parvo.
Aconselho "Domino Day" como entretenimento ligeiro para quem gostou de "Os Diários do Vampiro", "Charmed" ou "Lost Girl". Vê-se bem, não é muito bom nem muito mau, não mete medo nem sangue e não há vítimas mortais (excepto os maus, mas os maus estão lá mesmo para isso).

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, bruxas, sobrenatural, Young Adult, The Vampire Diaries, Charmed, Lost Girl, Harry Potter, Buffy The Vampire Slayer, etc


domingo, 30 de agosto de 2026

Bardot (2023)

Biografia dramatizada incompleta que retrata a vida de Brigitte Bardot como estrela do cinema francês, desde adolescente até 1960.
Nunca fui de me interessar pela intimidade e romances dos famosos do meu tempo, muito menos de estrelas passadas. Só prestei atenção a Brigitte Bardot quando ela se dedicou à causa animal. Sim, as focas. Eu não sabia sobre as focas. Brigitte Bardot expôs a crueldade e comoveu o mundo. Não sei se ainda matam assim as focas, mas duvido que o façam tão impunemente. Com esta campanha, Bardot foi também uma das celebridades que impulsionaram o movimento anti-peles que teria uma expressão muito visível na esfera da moda e das passerelles. Muita gente gozou e resistiu, mas hoje já não é cool aparecer com um casaco de peles (verdadeiras). Brigitte esteve na linha da frente desta luta quando ainda era considerado mais uma excentricidade de uma mulher excêntrica. Só por isso, independentemente de tudo o resto, tem o meu respeito. Na minha sensibilidade, isto foi a coisa mais importante que Brigitte Bardot fez na vida.
Mas esta mini-série não chega a esse período. Pergunto-me se terá sido porque Brigitte Bardot ainda era viva e porque a biografia completa teria de incluir o seu apoio de décadas à extrema-direita de Le Pen. Que desilusão deve ter sido para os fãs desta sex symbol que desafiou a moralidade rígida dos anos 50, sendo precursora da revolução sexual e do feminismo, talvez até um pouco hippie antes dos hippies, vê-la na idade madura a votar em fascistas. 
Este exemplo novamente me recorda do que foi um dos maiores choques da minha vida. Até certa altura, acreditei intuitivamente que sensibilidade e inteligência eram indissociáveis. Que uma pessoa sensível tinha forçosamente de ser inteligente, porque a sensibilidade e a empatia até lhe permitiriam compreender melhor os factos e as pessoas. E que uma pessoa inteligente, que compreendia os factos e as pessoas, tinha por isso, forçosamente, de ser sensível. Qual não foi o meu espanto quando percebi que algumas pessoas muito sensíveis, empáticas ao outro e ao seu sofrimento, só têm coração e não usam os neurónios, e que algumas pessoas inteligentes são tão frias como a Inteligência Artificial. Comecei a observar isto com atenção e actualmente até estou convencida de que o fenómeno é o contrário do que eu acreditava: a inteligência e a sensibilidade tendem a ser inversamente proporcionais. Se conhecem alguém que seja inteligente e sensível, dêem-lhe valor porque é uma raridade.
Isto dito, a contradição de Brigitte Bardot não me surpreendeu. Ainda por mais porque a extrema-direita populista do século XXI é um bicho. Entra, infecta, e traz ao de cima o pior das pessoas. Todos conhecemos casos, figuras públicas e não só.
Tive de mencionar o activismo animal e o apoio à extrema-direita porque falar de Brigitte Bardot sem estas duas facetas não é completo. Compreendo que a série se tenha querido cingir aos anos de estrelato, mas por outro lado não deixou de incluir cenas em que os animais se vão tornando cada vez mais importantes na vida de Brigitte. Gostei muito disto, mas também queria ter visto pistas que ajudassem a perceber como é que a rapariga rebelde acaba a apoiar fascistas, e isso não vi.
Na verdade, a série não trata Brigitte muito bem. A acreditar no que nos é mostrado, Brigitte é egoísta, infiel, uma drama queen que não se importa de destruir a vida dos homens que a amam, exigindo-lhes dedicação absoluta e fingindo amá-los para sempre... até o próximo aparecer. Julia de Nunez tem um papelão em "Bardot", a ponto de me fazer esquecer que estava a ver outra pessoa. Para além das parecenças, a actriz consegue capturar a sensualidade vulcânica da estrela francesa.
Mas Brigitte Bardot não era feliz. Segundo a série, tinha pavor de ficar sozinha. Dá mesmo a entender, digo eu, que trocava de homem antes que fosse trocada, mas isto pode ser a minha interpretação pessoal. O que se torna muito óbvio é que Brigitte vai percebendo que não está sozinha, e que a companhia não está na cama. A cena do suicídio, seguida e acompanhada pelos seus cães, trouxe-me lágrimas aos olhos. Pode não ter sido aqui nem ter sido isto, mas há um momento na vida dos amantes de animais em que o animal de estimação se torna um companheiro e um amigo, um membro da família. Para muitas pessoas, uma companhia melhor do que qualquer humano.
Lembro-me de a minha mãe comentar, algo trocista, "agora a Brigitte Bardot diz que gosta mais de animais do que de homens". Nessa altura eu não sabia que tinha havido assim tantos homens na vida de Brigitte Bardot, nem me interessava, mas quanto ao resto só tenho a perguntar "e qual é o espanto?". Basta substituir "homens" por "pessoas", e já naquela altura, ainda inconscientemente, sem sequer pensar no assunto, eu já sabia que gostava mais de animais do que de pessoas.
Alguém disse a Brigitte Bardot, como insulto, "vais acabar sozinha com os teus cães". Ainda há gente a dizer isto, tentando insultar. Vais acabar sozinho/a com os cães, com os gatos, com os periquitos. Mas muita coisa mudou desde o tempo de Brigitte Bardot, e, também graças a ela e à sua influência na causa animal, são cada vez mais os que respondem: Isso era um insulto? Acabar sozinho/a com os gatos é o sonho, é mesmo o SONHO!
Não sei até que ponto é que "Bardot" é realista e espelha a pessoa verdadeira, mas, apesar de todos os defeitos da senhora, espero que Brigitte tenha, pelo menos, acabado a viver o sonho. 

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: séries de época, biografia, cinema, animais

 

domingo, 16 de agosto de 2026

Silo (2023 - ?) [primeira temporada]

10 mil pessoas vivem no Silo, uma cidade subterrânea com 144 níveis. O ar lá fora está envenenado. O Silo é o único refúgio para sobreviver. Tirando isso, ninguém sabe quem construiu o Silo, nem quando. Os habitantes do Silo só sabem que há 140 anos houve uma rebelião de insurrectos que queriam abrir a porta ao exterior. Antes disso não há memória e a História está proibida. Até certos objectos quotidianos, como relógios e lupas, a que chamam Relíquias, podem ser interditos. As consequências são sérias para quem possui Relíquias ilegais. 
Isto já é muita informação, mas "Silo" transmite-a sem pesar num primeiro episódio em que acompanhamos o drama do xerife Becker e da sua mulher Allison, que são autorizados a ser pais (a natalidade está condicionada). A tentativa falha e Allison, que trabalha no departamento de informática, começa a questionar as regras e a proibição de fazer perguntas. Um encontro com George Wilkins, técnico de hardware e traficante de Relíquias, leva-a a fazer uma descoberta avassaladora num disco rígido antigo. Impedida de a partilhar com o marido, Allison toma a decisão mais extrema: pede para sair do Silo.
Sair do Silo é suicídio, mas a regra número um do Silo é mesmo essa: um pedido para sair é irrevogável. Quem sai não sobrevive três minutos lá fora. Os habitantes do Silo podem assistir à saída (e à morte) através de uma câmara no exterior. Para suavizar este procedimento, o Silo chama a isto Limpeza: quem sai leva um pano de lã para limpar a câmara, beneficiando assim os que ficaram.
Becker está chocado com a decisão da esposa, mas o que ela lhe diz antes de sair deixa-o intrigado e também ele começa a procurar respostas. Meses depois, é o próprio Becker quem pede para sair.
A saída/suicídio de Becker é atribuída ao desgosto de perder a mulher, mas antes disso ele tinha passado o "testemunho" a uma engenheira do departamento de mecânica, Juliette Nichols, que se vai tornar a protagonista. Juliette era namorada de George Wilkins, o dos computadores, e acredita que ele foi assassinado, embora a versão oficial seja que se suicidou. É assim que Becker e Juliette se conhecem, na sequência da investigação. Mas investigar a morte de George Wilkins esbarra com os segredos do Silo. Será mesmo verdade que o ar lá fora está envenenado? Os écrans que exibem o exterior mostram de facto a realidade, ou imagens falsas? E se não há perigo em sair do Silo, quem é que teria interesse em manter esta situação?
Obviamente, isto é uma sociedade distópica e totalitária, com perseguições, repressão, manipulação da História e da narrativa, e até uma polícia do regime. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que não é um regime tão brutal como o contexto nos levaria a crer. As pessoas aceitam e obedecem porque acreditam que é a única maneira de sobreviver, as tais Limpezas são voluntárias (não são execuções), e as autoridades são bem-intencionadas. Mais ainda, até a polícia do regime, aparentemente, faz o que faz para proteger o Silo. Só é reprimido, no interesse do bem comum, quem põe em causa as regras. Mas há segredos e contradições gritantes. Os tais rebeldes são acusados de destruir todos os livros e discos rígidos que guardavam a História antes da rebelião, e no entanto quem procurar essa História e esses artefactos é preso ou mandado "voluntariamente" "limpar". É de caras, estes rebeldes míticos são um vilão muito conveniente para manter as pessoas na ignorância. Mas os habitantes do Silo que se apercebem da falta de lógica desta narrativa também preferem manter as suspeitas para si e seguir com a sua vida normal. Porque, afinal, não há vida fora do Silo. Ou haverá?
O mistério não fica esclarecido na primeira temporada. O último episódio é muito chocante e faz-nos dar voltas à cabeça a tentar perceber o que se passa realmente. Somos impelidos a continuar a ver. No entanto, nós que levámos a vacina "Lost" ficamos logo de pé atrás sempre que um mistério dá lugar a um mistério ainda maior. Mas "Silo" é baseado na série de livros do autor Hugh Howey, e isso costuma ser indicador de um enredo com pés e cabeça. Por um lado, não são argumentistas a inventar um episódio por semana; por outro, se os livros foram adaptados é porque alguma coisa têm de bom. (O que não invalida os casos em que os argumentistas adaptam mal, mas há que ter esperança.)

Muita coisa para pensar
Não posso falar mais do enredo, porque a partir daqui quase tudo é um spoiler, mas quero alertar sobre algumas fraquezas da série que podem levar os mais impacientes a desistir. Não desistam. Vale a pena. Contudo, "Silo" talvez tenha ficado melhor no papel. No terceiro episódio, especialmente, em que Juliette e a sua equipa estão a reparar o gerador descomunal que alimenta o Silo, a ciência vai pela janela fora. Eu não acredito mesmo nada que aquela coisa, grande que seja, consiga alimentar uma cidade de 144 x 5 metros = 720 metros de profundidade no mínimo (é uma estimativa minha), ou mais, porque alguns níveis são mais altos do que os outros e debaixo deles há todo um outro subterrâneo não habitado. Aquele gerador deve ser alimentado a magia, porque, para além das necessidades fundamentais, toda a gente tem janelas com falsa luz solar e vitrines decorativas iluminadas. As janelas até percebo, por questões de saúde e sanidade, mas há energia suficiente para iluminar vitrines e tudo? Há outras coisas tão erradas neste episódio que basta ter mais de 12 anos para as detectar. 
Por falar em funcionar, como é que eles conseguem ter energia e espaço suficientes para vários níveis dedicados ao cultivo de cereais e criação de animais, só com aquele gerador, e dar de comer a toda a gente? Não há escassez no Silo, uma cidade enterrada um quilómetro debaixo do solo. Se calhar eu nem me punha a fazer estas contas de cabeça se não tivesse visto o gerador. Às vezes mais vale não mostrar e deixar que as pessoas imaginem.
Ao mesmo tempo, à medida que a série coloca o mistério principal em segundo plano e envereda pela investigação do homicídio/suicídio de Wilkins, pode parecer um simples policial num cenário pós-apocalíptico. Foi o que me pareceu, durante uns episódios, e algumas pessoas até deixaram de ver por causa disso. Não deixem de ver. O fim recompensa!
A mim chateou-me um bocadinho uma tendência de que já falei aqui, a "Mary Sue", a mulher super-heroína que é boa a tudo, mesmo a tudo. Juliette Nichols é uma boa engenheira mecânica, tudo bem, mas depois é feita xerife sem perceber nada do assunto e age com a confiança de quem trabalha há uns 10 anos nas forças da ordem. Isto não é culpa da actriz, coitada, que faz o que lhe mandam, e muito menos da personagem, mas totalmente dos escritores que a conceberam assim. Juliette, tal como a Claire de "Outlander", é muito boa a tudo ou quase tudo. Tenho a certeza de que até seria uma boa astronauta, treinadora de golfinhos, vendedora de castanhas. Por favor, parem de escrever personagens destas. São falsas e irritantes.
Por outro lado, "Silo" é uma série subtil em que os pormenores contam. Custa acreditar que as pessoas pura e simplesmente tenham perdido a memória da História em apenas 140 anos, mas torna-se menos absurdo quando sabemos que o Silo tem uma droga que efectivamente faz as pessoas esquecer. O que novamente nos leva a questionar quem poderá estar por trás disto, e, se há uma droga envolvida, não poderá ser tudo uma simulação ou alucinação? O controlo de natalidade, igualmente, é um método de eugenia para extinguir o gene da curiosidade. Será que o Silo existe mesmo no mundo real, ou será uma experiência? As lupas são proibidas porque permitem ler as letras pequeninas nos discos rígidos antigos, mas porque é que proibiram os elevadores? Será apenas para manter as pessoas mais separadas por níveis (e classes), ou haverá razões mais sinistras? 
Gostei principalmente das cenas em que os habitantes do Silo observam os outros a sair. Todos sabem o que vai acontecer, mas noto-lhes uma esperança de que seja diferente dessa vez, de que o ar já esteja puro, de que o "limpador" sobreviva, de que seja o sinal para abandonar o Silo. Estas pessoas aceitam e obedecem, mas querem mudança.
"Silo" é daquelas histórias que permitem muitas analogias com a actualidade, desde os confinamentos, ao populismo e à IA, e até com a espiritualidade (será que existe vida após a morte, ou só queremos acreditar nisso para não ficarmos tão deprimidos?). Não é uma série perfeita, mas há aqui muita coisa para pensar.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: distopia, ficção científica, pós-apocalíptico


domingo, 2 de agosto de 2026

The Murder Network / O Médico Assassino Na Paris Nazi (2022)


Fiquei muito surpreendida ao ver este documentário por não ter lembrança de ouvir falar de Marcel Petiot, médico francês, serial killer e psicopata em geral que cometeu dezenas de homicídios, inclusive durante a ocupação nazi. É uma história tão macabra e inacreditável que até me espanta ainda não terem feito um filme de Hollywood a sério sobre ele (embora algumas personagens tenham sido inspiradas neste assassino).
Marcel Petiot é o típico sociopata sádico, narcisista e manipulador, mas ao mesmo tempo carismático e capaz de enganar quem não o conhece bem, a ponto de ter sido eleito presidente da câmara da cidade onde morava e onde já tinha começado a matar.
A ocupação nazi deu-lhe a oportunidade de se fazer passar por membro da Resistência que supostamente ajudaria judeus e outros refugiados a escaparem, só para os assassinar friamente no seu apartamento de Paris. Petiot não fazia isto só para se divertir, uma vez que aproveitava para roubar valores que os fugitivos levavam com eles. Aliás, Petiot também desviou dinheiro da câmara onde foi presidente, revelando uma completa ausência de consciência moral. Roubar, envenenar, e ainda fingir que matava as pessoas ao serviço da Resistência, todo esse discurso mirabolante fazia sentido na sua cabeça e quase que o absolveria em tribunal se as provas contra ele não fossem tão esmagadoras e incontestáveis (matou, inclusive, crianças).
Serial killers há muitos, mas o que mais nos choca em Petiot foi como ele foi capaz de aproveitar a situação em proveito próprio e cometer muitos mais homicídios do que seria provável em tempos normais. Os pobres desgraçados que confiavam nele para fugir aos nazis acabavam desmembrados e enfiados na fornalha do prédio. Entre os nazis e um serial killer, é caso para dizer que para estes tinha mesmo chegado a sua hora. 
Os acontecimentos tornam-se ainda mais caricatos. Uma vez que Marcel Petiot fingia pertencer à Resistência, foi preso pela Gestapo e torturado, mas não revelou nada, nem sobre a (falsa) "rede de fuga" nem sobre os crimes. Por sua vez, a polícia francesa não o apanhou mais cedo precisamente por julgar que algumas actividades suspeitas de Petiot se deviam ao seu (falso) envolvimento na Resistência. Verdadeiramente, um homem capaz de usar as circunstâncias para manipular e ludibriar toda a gente.
Vale muito a pena ver "The Murder Network" para compreender os meandros e os pormenores, mas advirto que o documentário contém cenas muito pesadas.


domingo, 19 de julho de 2026

Wednesday [segunda temporada] (2022 - ?)


O que nós aprendemos na segunda temporada de "Wednesday":

1. Wednesday é literalmente alérgica à cor, não era exagero
2. Os Addams são ricos porque comem ratos, insectos e outras coisas nojentas; sempre é dinheiro que poupam no supermercado
3. Os Párias não são secretos, são conhecidos pelos Normais (mas admito que se calhar fui eu que estava distraída na primeira temporada)
4. Morticia é uma autora de literatura romântica/soft porn (grande Morticia, é preciso coragem para escrever coisas dessas)

"A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada", do filósofo Voltaire, é um lema para Wednesday, e até resultava melhor se ela não gostasse tanto de se meter em sarilhos. Quando Wednesday regressa a Nevermore para o segundo ano lectivo, problemas novos e antigos não lhe vão dar paz. Mas, na verdade, é mesmo isso que ela quer. Uma vida sem sarilhos é muito aborrecida para qualquer adolescente, e Wednesday nem sequer é uma adolescente qualquer.
Já ia no segundo visionamento quando me apercebi de que não retive nada do enredo. É difícil prestar atenção à história quando Morticia está a comer bolachas cobertas de aranhas (?) vivas. A série é uma tal festa para os olhos, um tal espectáculo de Tim Burton, que o enredo até distrai. Pode dizer-se que esta segunda temporada tem três sub-enredos, e um deles, se calhar o menos provável, vai ganhando predominância até se revelar o principal. 
Entretanto, Wednesday perde os poderes mediúnicos por abusar deles. Em contrapartida, ganha uma aliada na sua ex-stalker Agnes, outra aluna de Nevermore que idolatra Wednesday e que tem o poder da invisibilidade. Mas a relação de Wednesday e Enid está periclitante. Numa das suas últimas premonições, Wednesday pressagia a morte de Enid, o que a leva a deixar a amiga lupina fora dos seus planos. Sem saber que a sua vida está em risco, e descontente com a dinâmica que se estabelece entre Wednesday e Agnes, Enid sente-se compreensivelmente posta de lado. 
A nível da evolução das personagens principais, contudo, o sub-enredo mais dramático é a aproximação entre Ajax e Bianca quando esta enfrenta uma crise familiar. As coisas nunca se tornam românticas, até porque Bianca está com demasiados problemas para pensar nisso, mas seria bonito se esta amizade desinteressada se transformasse em algo mais no futuro.
A Mão (Thing) continua a ser um personagem preferido de muita gente, eu inclusive. Como é que é possível, como?, transmitir-se tanta personalidade num "ser" que não passa de uma mão? Adorei a cena em que a Mão e outras partes de corpos têm uma reunião do tipo Partes-de-Corpos Anónimos. Estão lá, do que eu percebi, duas mãos, duas pernas, um pé, um braço, dois olhinhos e uma orelha, todos com personalidades bem perceptíveis. A sério, quem é que consegue prestar atenção ao enredo, e até aos diálogos, quando os dois olhinhos e a orelha batem palmas? Os nossos olhinhos e orelhas também batem palmas ao festim visual e auditivo que nos é servido.
Que mais? Adorei tudo do Pilgrim World, adorei Morticia a alimentar plantas carnívoras, adorei Catherine Zeta-Jones como Morticia (na minha opinião a melhor Morticia de sempre), adorei o zombie que se vai regenerando à medida que come cérebros, adorei o romance entre Fester e Louise da cantina, adorei Lady Gaga como Raven, adorei Gwendoline Christie como Larissa Weems e Christina Ricci como Marilyn Thornhill. Nesta segunda temporada passamos muito mais tempo com a família Addams inteira, o que algumas pessoas não apreciaram porque a série centra-se em Wednesday, mas eu não me importei nada.
E depois há as danças. Vou cometer um spoiler. Se virem por aí uma Wednesday estranhamente colorida e efusiva a dançar, não é Wednesday. Num dos melhores episódios da série, Wednesday e Enid trocam involuntariamente de corpo. Ambas as actrizes dão um show a interpretar-se uma à outra. Até a voz conseguem adaptar de tal maneira que muita gente (e eu) pensou que tivesse havido dobragem, mas nem foi preciso.
Noutro episódio, Enid tem uma coreografia de dança em dueto com Agnes, a rapariga invisível, mas desta já não gostei tanto porque não vi metade. (Perceberam a chalaça? Não vi metade porque ela é invisível. Ehm... Avançando.)
No meio deste desvario absoluto, às vezes a série perde a noção da realidade. Como no caso em que o Hyde pega em Marilyn Thornhill (que é humana) pelo pescoço, eleva-a do chão e atira-a contra uma parede como se fosse uma boneca de borracha, e não há sequer uma costela partida. Isto é coisa de desenhos animados que na minha opinião não devia ter aqui lugar. Noutros casos, sacrifica-se a credibilidade, como quando Agnes vê Wednesday ser enterrada viva no bosque, vai a correr até à escola pedir ajuda a Enid, e nenhuma delas se lembra de levar uma pá ou qualquer ferramenta. E para quê? Para que Enid tenha de se transformar nesse momento dramático em que salva a amiga.
Mas pergunto, alguém reparou nisto sequer? Duvido, e duvido que alguém se importe. A série pode fazer tudo o que lhe apetece entre o realismo, o desenho animado e a fantasia porque "Wednesday" é um clássico instantâneo e estou convencida de que o será para sempre enquanto existir televisão.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes, e ninguém vai escapar a ver isto na internet 

PARA QUEM GOSTA DE: A Família Addams, Young Adult, Fantasia


domingo, 5 de julho de 2026

Mozart Mozart / A Irmã de Mozart (2025)

"Mozart Mozart" é uma série alemã que reimagina as personagens dos jovens Amadeus Mozart e sua irmã Maria Anna, no mesmo período histórico, mas qualquer semelhança com a realidade é coincidência.
Amadeus é um rock star que usa brinco e óculos escuros, e que, como qualquer rock star, é adorado pelas fãs. Maria Anna é a sua irmã mais velha, tão talentosa quanto ele, mas remetida à obscuridade por ser mulher. Em Viena, ambos tentam libertar-se das restrições sociais que forçariam Maria Anna a um casamento arranjado. A ideia é conseguirem um contrato na corte do imperador José II, que lhes encomenda uma "ópera para o povo". Contudo, uma vez que Amadeus sofre de dores no pulso que o fazem recorrer ao láudano e ao álcool, Maria Anna tem de se disfarçar e fazer-se passar por ele para manter o contrato. Amadeus acaba mesmo por ser internado e é Maria Anna quem compõe "O Rapto do Serralho". Em suma, é uma ópera de Mozart, de Maria Anna Mozart, e é isso que significa o título "Mozart Mozart", uma Fantasia Young Adult sobre uma jovem a tentar afirmar-se na medida em que os tempos lhe permitiam.
Entretanto, Amadeus tem um affair com Maria Antonieta (sim, essa), irmã de José II, que está de visita em Viena, e Maria Anna envolve-se com Antonio Salieri (sim, esse, o rival de Amadeus), mas não se preocupem que acaba tudo bem e são felizes para sempre. (Excepto a pobre Maria Antonieta e o suposto filho de Amadeus, o pobre Delfim de França, que não acabaram nada bem. Acho que a série se meteu por caminhos sombrios, neste aspecto, que não faziam aqui falta nenhuma.)
E música, há música? Haver, há, mas não sei até que ponto é que estão a adaptar composições de Mozart (não sou fã) ou outra coisa qualquer, porque na maior parte parece mais música do século XXI para Britney Spears ou Taylor Swift (também não sou fã). Reconheci partes do Réquiem e já foi bom. No fim sempre tocam "O Rapto do Serralho", que depressa se torna na versão Enya com sintetizadores e tudo. Fica o aviso aos puristas da música clássica, para não morrerem do coração. Não desgostei da versão Enya, por acaso. Antes Enya que Taylor Swift.
Posto isto tudo, gostei? Sim, gostei, achei muito levezinho e divertido, e também não me parece que a série tivesse mais ambição do que criar uma coisa bonita para entreter e salientar o papel das mulheres talentosas esquecidas nas sombras.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, Fantasia, Mozart


domingo, 21 de junho de 2026

Homens de Honra (2026)


"Homens de Honra" é a história dramatizada de Álvaro Cunhal e Mário Soares, e de como se encontraram, convergiram e divergiram. Mostrar como as coisas se passaram, apesar do aspecto ficcional que o género biográfico envolve, é muito importante para a preservação da nossa memória histórica à medida que estas figuras vão ficando cada vez mais distantes das gerações que já não as conheceram.
Gostei muito até aos últimos dois episódios. O episódio da fuga de Peniche, tenso e cheio de acção e perigo, dava um filme inteiro a não ficar atrás de "Prison Break". "Homens de Honra" seria interessante até apenas como série de época, mesmo com personagens fictícias.
Não gostei nada da substituição por actores mais velhos nos dois últimos episódios e não vejo a necessidade de o ter feito. Romeu Vala estava a arrasar como Álvaro Cunhal. Obviamente que não conheci a pessoa na juventude (nem eu, nem o actor) mas a interpretação é tão bem decalcada da personalidade mais velha que me convenceu completamente de que aquele podia ter sido o jovem Álvaro Cunhal, faceta Don Juan e tudo. Na verdade, nem conhecia esses pormenores da vida privada de Cunhal porque nunca gostei de meter o nariz, mas acredito plenamente que toda aquela aura de espionagem/clandestinidade/idealismo/liderança/perigo podia muito bem ter sucesso com o sexo feminino.
Alexandre Carvalho já não ficou tão parecido com Mário Soares, nem ele nem o actor que o substituiu, Tónan Quito, porque Mário Soares tinha particularidades físicas muito próprias e seria sempre difícil recriá-las, nem é isso que está aqui em causa, muito menos as interpretações dos quatro actores. O que está em causa é que assim que identifiquei os personagens com os actores, os personagens passaram a ter aquelas caras. Eram as caras que eu reconhecia e em que estava investida. A substituição das caras deu-me a sensação de que estava a ver outra série, em que a dinâmica criada pelos actores substituídos se perdeu a meio. Talvez tivesse resultado se os actores tivessem sido substituídos mais cedo e durante mais episódios, para poderem criar uma dinâmica própria com o espectador, mas assim sendo pareceu-me abrupto e desnecessário. Eu, pelo menos, como espectadora, teria preferido ver os actores originais envelhecidos, mesmo que ficasse um bocadinho forçado. Afinal, desde o primeiro episódio que é forçado: este é Cunhal, este é Soares. A substituição obrigou a forçar outra vez, e a minha paciência como espectadora não acompanhou a mudança. Nem sequer tentei perceber quem eram as novas caras de todos os outros substituídos.
Sem desprimor ao actor Tónan Quito, também não achei que a substituição tenha sido benéfica. Fisicamente, o actor é mais parecido com Ricardo Salgado do BES (se ainda não fizeram a série, podiam fazer) e em vez de ver Soares via Salgado, o que nem vou comentar mas que foi "algo" aflitivo. Também acho que o actor Tónan Quito é fisicamente mais parecido com José Sócrates. Pela minha saúde, sem desprimor absolutamente nenhum. Até deixo aqui a sugestão, e seriam, tanto Salgado como Sócrates, dois papelões do caraças.
Também a nível das parecenças, e numa nota humorística, não reconheci João Soares. Pensei que era Vasco Pulido Valente ou Fernando Rosas, por causa do colete de malha.* Mania de usarem todos o mesmo. Por outro lado, pensei que Daniel Proença de Carvalho era Marcelo Rebelo de Sousa tal e qual me lembro dele, barbicha e tudo. Já Maria Barroso não ficou nada parecida, tenho de dizer, pelo menos da altura em que a conheci. O que me fez cair o queixo foi o general Ramalho Eanes do actor João Tempera, arrepiante de tão igualzinho, até na voz e na maneira de falar.
Quando escrevi aqui sobre "Ena, A Rainha Vitória Eugénia", salientei que a série não explica os factos históricos em profundidade, é mais dirigida a quem já os conhece. Achei o mesmo de "Homens de Honra". Gostei da voice over que ia guiando o espectador em certas passagens, mas penso que no futuro ainda vamos precisar de mais voice over e legendas. Por exemplo, só identifiquei o general Humberto Delgado quando ele disse "obviamente, demito-o". Tudo isto foi antes de mim, e o que é antes de mim é História, um rumor de outros tempos que nos chega dos mais velhos.
Já não tive esta desconexão com os factos que vivi, embora os dois últimos episódios não os retratem como me lembro deles (o que é natural, porque já entramos no campo do subjectivo). Fiquei muito surpreendida que a série não tenha mencionado o "engolir do sapo". Tendo em conta que "Homens de Honra" retrata a relação entre Cunhal e Soares, o "sapo" é relevante e pensei que estavam a guardar para o clímax. Mas não, nada sobre o assunto. 
Por último, e vou ter muito cuidado ao escrever isto, acho que "Homens de Honra" não fez justiça ao legado de Álvaro Cunhal, e não porque a série seja tendenciosa mas se calhar exactamente por não o ser e por se ter cingido aos factos. Chegamos ao fim e podemos ser levados a conjecturar que o único legado válido de Álvaro Cunhal, que nunca admite os crimes da União Soviética e que aparece como um homem ultrapassado pelo tempo, foi a Festa do Avante, onde a malta hoje vai beber umas cervejas e ver umas bandas, enquanto que Mário Soares foi eleito presidente da República. Um perdeu, o outro ganhou. Ou se calhar sou eu que estou a ser tendenciosa, ainda que inconscientemente, a ler coisas que não estão lá. Não parto do princípio de que tenha sido isto que a série tenha querido dizer, ou sequer que tenha querido fazer qualquer tipo de comentário, mas penso que podia ter sido dedicada mais profundidade ao legado de Cunhal. 
Tudo o que aconteceu nos últimos dois episódios me pareceu apressado, uma montagem de acontecimentos políticos que podia ter vindo do arquivo das televisões, sem o dramatismo que me fez investir nos personagens Álvaro e Mário, cada um com os seus ideais e motivos.

* O colete de malha pode ser imaginação minha. Pesquisei as fotos das pessoas mencionadas no Google e de facto não os encontrei de colete de malha, mas a ideia deve-me ter vindo parar à cabeça de algum lado. Afinal, quem é que nunca usou um colete de malha nos anos 70 e 80? Nem eu escapei.

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PARA QUEM GOSTA DE: História, séries de época, política, biografia

domingo, 7 de junho de 2026

Talamasca: The Secret Order (2025)


A Talamasca é uma organização secreta e milenar que estuda o sobrenatural, nomeadamente as bruxas e vampiros do universo de Anne Rice. A Talamasca sempre foi fascinante, mas descobrir a sua verdadeira origem, nos últimos livros das Vampire Chronicles, tornou-a ainda mais interessante. (Um nome apenas: Gremt)
Fiquei muito entusiasmada quando descobri esta outra série criada a partir dos livros da autora. A Talamasca é uma organização que vamos conhecendo ao longo das Vampire Chonicles e Mayfair Witches e, ao contrário destas, não tem nenhum livro que lhe seja dedicado. Isto permite uma liberdade criativa única. Os argumentistas podem desenvolver personagens dos livros ou, pelo contrário, criar personagens e histórias completamente novas.
Foi o que aconteceu neste caso. Guy Anatole, um jovem advogado com poderes telepáticos, é abordado por Helen, uma operacional da Talamasca, para que se junte à organização. Guy não tem qualquer motivo para fazê-lo até perceber que a sua mãe, que ele julgava morta, era na verdade uma agente da Talamasca que por alguma razão teve de fugir e esconder-se. Guy aceita a missão na tentativa de encontrar a mãe, o que o leva à sede da Talamasca em Londres, onde o vampiro Jasper usurpou o poder. Jasper e Helen andam à procura do misterioso 752, que poderá ser um livro, ou um microfilme, ou um artefacto completamente diferente, que reúne todo o conhecimento que a organização compilou durante séculos.
Jasper também tem estado a criar uma espécie de vampiros "imperfeitos", mais "zombificados" e acéfalos, que Anne Rice introduziu no primeiro livro, "Entrevista Com o Vampiro". Anne Rice desinteressou-se deste tipo de vampiro, aparentemente, porque nunca mais o retomou, e se calhar fez muito bem porque os temas das Vampire Chronicles são mais profundos do que isto, mas o facto é que estes monstros resultam muito bem na televisão.
Do que sei, sem ter lido as Mayfair Witches, e do que vi nas críticas, são todos personagens novos (excepto dois, que só entram em curtas passagens, que também aparecem em "Interview With The Vampire"). O subplot de Helen recorda vagamente o enredo das gémeas e de Jesse Reeves em "The Queen of the Damned", mas apenas como paralelismo. A série desenrola-se como uma história de espionagem/policial, sem que isso interfira com o aspecto sobrenatural das personagens. E gostei, gostei muito, mesmo sem conhecer os personagens de lado nenhum.
Fiquei sinceramente chocada e perplexa quando soube que a série foi cancelada após apenas a primeira temporada. De todo o universo de Anne Rice adaptado pela AMC, "Talamasca: The Secret Order" era a série que tinha mais potencial de desenvolvimento. Como disse, a Talamasca é uma organização que estuda o sobrenatural há mais de mil anos. Os personagens podiam ser novos ou conhecidos, ou uma mistura de ambos, interagindo igualmente com os imortais dos livros ou outros que viessem a ser apresentados, incluindo até flashbacks a outros séculos. Só o manancial de criaturas e fenómenos sobrenaturais que podiam ser abordados é inesgotável. Basta pensar que a Talamasca é uma mistura de X-Files com os Homens de Letras de "Sobrenatural", mas com todo um requinte académico e britânico, e que os próprios membros da Talamasca incluem vampiros, espíritos, bruxas, telepatas e outros mortais com poderes especiais. Acresce a isto que a Talamasca tem casas-mãe em várias partes do mundo, o que até daria panos de fundo diversificados e internacionais se fosse esse o objectivo.
Não sei o que aconteceu, se "Talamasca: The Secret Order" não teve audiência suficiente ou se a AMC estava com problemas de orçamento e preferiu investir nas Vampire Chronicles ou nas Mayfair Witches. Não encontro nenhuma razão para cancelar esta série, fosse com um enredo derivado da primeira temporada ou adoptando um formato de antologia nas seguintes. Com uma organização como a Talamasca, até o monstro-da-semana resultava (embora eu, muito pessoalmente, esteja farta desse formato e não o recomende). A questão é que não faltavam histórias, opções e personagens. E nem sequer estou a falar de Gremt, mas adorava tê-lo visto.

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PARA QUEM GOSTA DE: Anne Rice, Vampire Chronicles, Mayfair Witches, vampiros, bruxas, sociedades secretas, espionagem, policial, sobrenatural, terror


domingo, 24 de maio de 2026

The Witcher (2019 - ?) [quarta temporada]

Depois de elogiar aqui a terceira temporada pela maior clareza do enredo, aborrece-me ter de dizer que a história de "The Witcher" continua a estar mal contada. Durante esta quarta temporada andei tão perdida e confusa que acabei por ir à internet apanhar o fio à meada.
Admito que possa ser culpa minha. Primeiro que tudo, não li os livros. A história não é de todo desinteressante mas nunca me agarrou a ponto de ver com muita atenção. Depois houve o interregno da pandemia e esqueci bastante das temporadas anteriores. As personagens são às catadupas e, tirando um ou outro caso, são tão bidimensionais que não me ficam na memória. O próprio formato da série, que oscila entre episódios focados em personagens e/ou desenvolvimento do enredo, mas muitas vezes empata em monstros-da-semana, também não ajuda. A quarta temporada, por exemplo, não avançou um milímetro na narrativa. Geralt, Yennefer, Vilgefortz e Emhyr andam à procura de Cirilla, e no fim continuam todos sem imaginar onde ela possa estar. Isto não me incomoda pessoalmente. Eles é que sabem a quantidade de enredo que têm e quantos chouriços precisam de encher, e "The Witcher" é uma série de Fantasia que se vê exactamente para encher o olho.
O que me confundiu muito foi o enredo de Emhyr, imperador de Nilfgaard. Na temporada anterior já tinha suspeitado que ele era o pai de Cirilla, suspeita que nesta se confirma. O que não me tinha passado pela cabeça é que ele quisesse Cirilla para casar com ela, devido a uma qualquer profecia de que o filho de ambos vai ser um homem muito poderoso que vai conquistar os reinos todos e trazer glória a Nilfgaard, etc. Isto confundiu-me tanto, e a série explica tão mal, que fui pesquisar para ficar a saber de uma vez por todas. Deixo aqui um resumo escorreito do que descobri, para não ter de ir pesquisar novamente. 
A história é longa e cabeluda. Muitos anos antes, Emhyr, também conhecido por Lord Urcheon ou Duny, salvou a vida ao avô de Cirilla, rei de Cintra, e invocou como recompensa a Lei da Surpresa. Esta surpresa foi a Criança-Surpresa Pavetta, filha do rei de Cintra e da sua esposa, a rainha Calanthe. Entretanto, Emhyr foi amaldiçoado para se transformar em porco-espinho. É este Porco-Espinho que conhecemos como Duny na primeira temporada, a quem Geralt ajuda a quebrar a maldição. Em troca, Geralt também invoca a Lei da Surpresa. Duny/Emhyr reclama Pavetta e casa-se com ela, desta união nascendo Cirilla. Cirilla é assim a segunda Criança-Surpresa, para confundir ainda mais, a quem Geralt tem direito. Alegadamente (agora questiono o que realmente aconteceu), Duny/Emhyr e Pavetta morreram num naufrágio, mas afinal Emhyr sobreviveu. Como é pretendente ao trono de Nilfgaard, deixa Cintra, nunca mais quer saber da filha Cirilla e decide ir tomar a coroa que lhe pertence. Anos mais tarde, já imperador de Nilfgaard, ataca Cintra de surpresa, sem que (aparentemente) ninguém o reconheça como Duny, marido de Paveta, pai de Cirilla, apenas alguns anos passados do casamento com Pavetta.
Ora, isto levanta-me tantas perguntas a que "The Witcher", já na quarta temporada, insiste em não responder. Começo pela mais óbvia. Como é que ninguém em Cintra reconheceu Emhyr como imperador de Nilfgaard? Não houve um espião, nem um mercador, nem um viajante, que tenha passado por Nilfgaard e pensado "caramba, este fulano é mesmo cuspido e escarrado a cara do pai da princesa Cirilla!". Só essa curiosidade teria levado as pessoas a falar do assunto. Mas não. Ou, pelo menos, na série, ninguém sabia que Duny e Emhyr eram a mesma pessoa. Nem sequer Geralt, um homem tão viajado, que conhece outros homens tão viajados.
Segundo, Emhyr não deve ser muito esperto. Sendo pai da única herdeira ao trono de Cintra, não teria sido muito mais lógico e eficiente ter-se aproximado da filha, talvez até para a controlar e manipular e tornar-se regente de Cintra quando chegasse a altura? Talvez até para a convencer da tal profecia? Não era muito mais prático ter anexado Cintra dessa maneira em vez de invadir o reino pela força? Nem sequer é uma questão de maquiavelismo, é apenas senso comum. Porque é que ele fingiu que estava morto se lhe era muito mais conveniente ser o pai da princesa de Cintra?
A partir daqui é especulação. Será que Emhyr já conhecia a profecia antes de casar com Pavetta? Será que o naufrágio não foi um acidente? Será que Emhyr nunca quis conhecer Cirilla como criança para não ter problemas em casar com ela depois? Quem tem de responder a isto é a série, e até agora o enredo principal tem saído a conta-gotas. O que me aborrece é que as gotas não estavam a fazer sentido e tive de ir pesquisar para perceber o que se estava a passar. Também não ajuda que Geralt pareça muito mais novo do que realmente é (na série, supostamente, Geralt tem cem anos ou mais) e não me lembro nada da cara de Emhyr quando era Duny o Porco-Espinho. Não me incomoda que o enredo se desenvolva lentamente mas chateia-me quando as coisas não fazem sentido e a história de Emhyr não faz sentido. Ou então o personagem é mesmo muito burro, o que também dava uma boa história, mas não me parece que a série o esteja a retratar assim.
Não sei quantas temporadas vêm a seguir, mas durante estes oito episódios Geralt andou em vão à procura de Cirilla, arranjou uma espécie de "Irmandade do Anel" com dois anões, um gnomo, o bardo, a rapariga da floresta e um vampiro, contou-se a história deles, a irmandade desfez-se a meio do caminho porque alguns decidiram ir à vida deles, Geralt descobriu que afinal nem sabia onde estava Cirilla, e acabou assim. Mas tivemos uma batalha de bruxas e magos com muitas bolas de energia, isso tivemos, e uma batalha numa ponte a lembrar a ponte de Khazad-dûm com uma espécie de Balrog e tudo, e se calhar não é para pedir mais, mas, ao mesmo tempo, esta série podia ser tão melhor se resolvesse os problemas de narrativa. Até dá dor de alma.
Adorei Laurence Fishburne como vampiro, por esta não esperava. Era capaz de ver uma série inteira só com os vampiros lá do sítio, mas vocês já me conhecem.
Curiosamente, o actor que faz de Geralt mudou e não notei que isso tivesse afectado negativamente a temporada. Notei que Geralt diz muito menos "fuck" do que dizia, o que é decepcionante.

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domingo, 10 de maio de 2026

The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]

[não contém spoilers relevantes]

Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?


Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.

Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.

❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗

Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.


Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 ou 3 vezes

PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico


domingo, 26 de abril de 2026

Outlander: Blood of My Blood (2025 - ?)


"Outlander: Blood of My Blood" é uma prequela de "Outlander" e dirigido aos fãs do original. Vinte anos antes de Claire passar pelo Círculo de Pedras e encontrar-se na Escócia do século XVIII, o mesmo aconteceu aos pais dela. Henry e Julia Beauchamp conheceram-se por correspondência durante a Primeira Guerra Mundial, casaram e tiveram uma filha, e decidiram ir passear à Escócia numa viagem romântica a dois. Como se percebe em "Outlander", a capacidade de viajar no tempo através das Pedras parece ser hereditária. Por acidente, Henry e Julia deparam-se com as Pedras e são transportados para o século XVIII, exactamente para o local onde Claire vai chegar mais tarde.
Na última temporada de "Outlander" (isto é, a última que eu vi) questionei-me muito sobre como é que funcionava a viagem no tempo através das Pedras. No início achei que era aleatória ou sobrenatural, isto é, que levava as personagens até ao seu "destino", e também não quero que isto se torne científico (precisamente 200 anos antes) porque estraga o romantismo. Mas é o que acontece em "Outlander: Blood of My Blood", em que Henry e Julia são transportados para o tempo de juventude de muitas personagens mais velhas de "Outlander", como Murtagh e Jocasta. Infelizmente para mim, já não me lembrava das primeiras temporadas de "Outlander" e com certeza perdi muitos pormenores sumarentos destas personagens importantes na família e amigos de Jamie.
Henry e Julia chegam separados e ficam separados durante muito tempo. Estariam a poucos quilómetros de distância, mas isto, no século XVIII, podia significar que duas pessoas nunca mais se encontrassem. Henry chega a acreditar que Julia morreu. Julia está grávida e tem de se sujeitar a ser uma serva na casa do laird para proteger a vida do seu filho.
Entretanto, desenrola-se um novo romance. Ellen MacKenzie, filha solteira de um laird falecido recentemente, apaixona-se por Brian Fraser, filho bastardo de outro nobre. A paixão já seria proibida o bastante porque os irmãos de Ellen a querem casar por aliança com outro clã, mas é pior porque os clãs MacKenzie e Fraser são inimigos. Uma espécie de Romeu e Julieta com muito soft-porn.
Henry e Julia vão conseguir reencontrar-se? Ellen e Brian vão ser forçados a abdicar do amor que os une?
"Outlander: Blood of My Blood" é uma série romântica, como o original, e é só para quem gosta destas coisas. É claro que também há a reconstrução histórica, os sotaques, a música folk e as gaitas-de-foles, as paisagens, os castelos, os trajes de época, que enchem o olho e o ouvido, mas é acima de tudo uma história ultra-romântica, onde o realismo fica em segundo plano, e deve ser vista como tal.
Pessoalmente, achei que o enredo é um pouco apressado e que os acontecimentos são muito mais forçados do que no original, mas quem gosta de "Outlander" não vai sair daqui desiludido. Fiquei surpreendida porque comecei a ver a série julgando que seria uma única temporada (não estava a imaginar enredo para mais, tendo em conta o original) mas vai continuar. Que venham então mais mancebos de kilt e donzelas de espartilho sobre a camisa interior branca, kilt e camisa desapertados por dedos sôfregos durante encontros secretos em casebres de pedra rústica nas colinas verdejantes, e... 

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PARA QUEM GOSTA DE: Outlander, séries de época, História, romance

domingo, 12 de abril de 2026

The Last of Us (2023 - ?) [segunda temporada]

Eu nem ia falar mais sobre "The Last of Us", mas gostei muito de um dos episódios.
Se a primeira temporada me decepcionou, da segunda ainda gostei menos. Continuo a achar a miúda embirrante, desmiolada e insuportável, pondo tudo e todos em risco sem pensar duas vezes. Joel faz muita falta. Na falta de Joel, a série enveredou por um romance adolescente em que uma das miúdas pergunta à outra "como é que avalias o meu beijo de 1 a 10?" Oh, pelo amor da santa.
Infectados continuam a ser escassos. Temos um confronto muito tenso com os cabeças-de-fungo logo nos primeiros episódios e fica por aí. Se calhar fomos mal habituados por "The Walking Dead" com zombies em todos os episódios, mas, por outro lado, isto também é uma série de zombies.
Só estou a escrever sobre a segunda temporada porque o sexto episódio, "The Price", é mesmo muito bom. É um episódio dramático e humano que podia estar numa série completamente diferente, mas é bom, mesmo sem Infectados.

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PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, Young Adult, mundos pós-apocalípticos

 

domingo, 29 de março de 2026

Interview With The Vampire (série TV, 2022 - ?) [segunda temporada]


Gostei mais da segunda temporada de "Interview With The Vampire" e vou dizer porquê. Se a primeira temporada parecia outra adaptação do livro ponto por ponto, só que um século mais tarde e com personagens ligeiramente diferentes, na segunda já se percebe que é toda uma adaptação das Vampires Chronicles, incluindo "The Vampire Lestat", "The Vampire Armand", e até livros posteriores como "Merrick" ou "The Queen of the Damned". Assim já se compreende que tenham sido tomadas bastantes liberdades de modo a tornar o fluir da narrativa mais adequado a uma série de televisão, mas questiono algumas escolhas que deturpam e desvirtuam o original.
A começar pela própria natureza dos vampiros. Não consigo aceitar a opção de sexualizar os vampiros como se isto fosse um Young Adult qualquer, quando aquilo que sempre distinguiu os vampiros de Anne Rice foi a sua existência transcendente e "fora da natureza", o que é um aspecto importante e distintivo deste universo vampírico. Igualmente importante é a questão de abdicar do prazer sexual em troca da vida imortal, o que é compensado pelo êxtase superior do sangue, inimaginável para nós humanos. Isto é tão importante que Marius pergunta explicitamente a Armand, antes de o transformar, se está disposto a viver sem o prazer carnal. Não há sexo entre os vampiros, e humanizá-los é banalizá-los. Se calhar é preciso ter lido os livros para compreender a relevância deste ponto no original, mas tenho a certeza de que também funcionaria na série tal como funcionou no filme. Até já ouvi a teoria de que Anne Rice não incluiu homossexualidade explícita para não ser censurada. Balelas. "Entrevista Com o Vampiro" foi publicado em 1976, um livro para adultos, e Anne Rice sempre incluiu o sexo que quis. Aliás, basta ler os livros.
Quanto à adaptação em geral, na segunda temporada algumas coisas são fiéis ao original, outras não, e algumas até me confundiram e tive de ir consultar o enredo dos livros para tirar as dúvidas. Por exemplo, não me lembrava dos diários de Claudia, e com razão, porque só aparecem em "Merrick". Foi uma boa opção inclui-los no contexto da entrevista com Daniel Molloy.
Por outro lado, Louis e Claudia fazem a viagem pela Europa que foi excluída do filme. Depois de atacarem Lestat, Louis e Claudia vão em busca de outros vampiros que lhes ensinem o que Lestat lhes escondeu, e começam precisamente pelas terras da Roménia e arredores, onde há mitos de vampiros. Não me lembro muito bem do que aconteceu no livro porque é quase uma nota de rodapé, mas efectivamente encontraram um tipo de vampiros "imperfeitos" e monstruosos. Isto não foi muito importante no livro, mas na série a viagem acontece durante a Segunda Guerra Mundial, o que fornece logo um pano de fundo bastante mais interessante. 
Quase se pode considerar que a série é uma espécie de história alternativa com os mesmos personagens, ou, em alguns casos, personagens inspirados nos originais.
Por falar nisso...

Lestat
Sam Reid é o melhor Lestat até ao momento. E não é fácil interpretar Lestat, um personagem complexo que tanto seduz como intimida. Tom Cruise conseguiu capturar o aspecto frívolo e narcisista que Louis descrevia, Stuart Townsend fez um bom trabalho como rock star, mas Sam Reid consegue de tal modo encarnar a totalidade do personagem que até arrepia vê-lo no écran. A presença felina de um leão. Encantador, fluido, letal, convencido, poderoso, atormentado, vulnerável, Lestat é tudo isto e mais. Pergunto-me se Sam Reid leu os livros todos ou de que outro modo se preparou, e queria mesmo saber e fazer-lhe a pergunta.
Quanto a Louis, e alguns fãs que me perdoem se preferiam um Louis menos macambúzio, o verdadeiro Louis foi mesmo encarnado por Brad Pitt e contra factos não há argumentos. Nesta segunda temporada também temos o incêndio no Teatro dos Vampiros, mas nada bate a imagem icónica de Brad Pitt entre as chamas.

Louis / Armand / Lestat
Louis e Armand fazem um casal muito fofinho e adorável, mas nunca aconteceu. Depois do Teatro dos Vampiros, Louis e Armand realmente fogem juntos e são companheiros por umas décadas, e acabou. Algumas décadas, em anos de vampiro, é o equivalente a um ano ou dois, se tanto. Se a relação foi mais do que amizade, e é tão irrelevante que nem me lembro, não teve qualquer importância. Louis e Armand estavam ambos fragilizados e a precisar de um ombro amigo. Não me lembro de Armand alguma vez ter expressado paixão assolapada por Louis, e Louis sempre esteve noutra (noutro) e nunca deixou de estar. Nos últimos livros, Louis está efectivamente a viver na casa de Armand em Nova Iorque, mas com isto quero dizer "abancar" e não "viver juntos", aliás, como outros vampiros da intimidade de Armand que também lá moram por ser mais prático. Lestat tinha regressado a New Orleans, e, se bem me lembro, Louis não queria voltar a viver lá, precisamente por causa das memórias de Claudia, embora estivessem ambos de boas relações.
Por falar em Lestat, se alguma vez Lestat e Armand foram amantes teria sido "uma por piedade" da parte de Lestat. Este é um dos conflitos mais relevantes das Vampires Chronicles e central à motivação que levou aos acontecimentos de "Entrevista". Armand conheceu Lestat no século XVIII e ficou muito impressionado, talvez até apaixonado, ou pelo menos apaixonado pelo ideal de liberdade que Lestat representava, mas Lestat não correspondeu. Armand, por despeito, e talvez ciúme de Louis e Claudia, faz o que faz para atingir Lestat. Por seu lado, Lestat sempre escondeu a existência dos vampiros europeus de Louis e Claudia precisamente para os proteger. Só sabemos isto nos livros posteriores a "Entrevista".
Nos livros, Lestat chama a Armand "a harpia", o que é bastante revelador. A série mostra um pouco desta faceta "harpia" de um dos personagens mais perigosos e maquiavélicos das Vampires Chronicles, mas nada que se compare aos livros. Até acho o Armand da série bastante simpático, alguém que age por amor e com quem é fácil empatizar.
Aqui, Armand é na verdade Arun, de Nova Deli (ele diz Deli e não conheço outra), mas nos livros Armand é Andrei, de Kiev. Isto pode não ser relevante se a série preferir não abordar os traumas religiosos de Armand como devoto da Igreja Ortodoxa. Aliás, foi esta cultura cristã que o levou a defender as ideias medievais de que o coven Children of Darkness, o seu clã antes do Teatro dos Vampiros, tinha por missão divina servir a Deus praticando o caminho do Diabo.
De certa forma, compreendo que fazer de Louis e Armand um casal que só se desfaz no fim da entrevista com Molloy, levando Louis a regressar a Lestat, é uma opção narrativa como qualquer outra que funcione num contexto de série. Nos livros, tudo isto demorou séculos. Mas o que vemos na série não é a história original, e, em certos pontos importantes, na minha opinião, afasta-se demasiado dela e perde muito ao fazer isso. Ninguém vai ficar a conhecer a história e a compreender os livros a partir desta série, nem lá perto.

Teatro dos Vampiros e Claudia
E por falar em Teatro dos Vampiros, tinha muitas dúvidas de que isto resultasse num pós-guerra do século XX, mas a série conseguiu mostrar um teatro entre o burlesco e o avant-garde, e o facto é que fiquei convencida. O actor Ben Daniels (a quem eu já conhecia de "O Exorcista", série) faz um papelão como Santiago e vende aquilo tudo.
Já quanto a Claudia, continuo não convencida. Tal como referi na critica à primeira temporada, não faz sentido que o argumento de Armand e dos outros vampiros seja "demasiado nova para existir por conta própria". Aqui Claudia tem 14 anos e o próprio Armand foi transformado algures antes dos 17, motivo pelo qual lhe chamam "o querubim eterno" (e motivo pelo qual Antonio Banderas foi um erro de casting). O argumento não colhe. Podiam ter explorado melhor o conflito precedente que expus acima, mas aqui a série andou completamente a patinar. Afinal, Armand queria ficar com Louis ou estava-se nas tintas se ele fosse condenado à morte? Porque se queria ficar com Louis, Armand, a harpia, o mestre manipulador, teria traído o coven todo antes que o coven pensasse em traí-lo. Não se manipula Armand; Armand é que manipula tudo e todos. A série não está a fazer justiça ao personagem.

Akasha
E aqui está outro mau exemplo de manobrar a história para a "comprimir". A certa altura, na série, Armand e Louis vão os dois matar Lestat. Isto nunca aconteceu. Lestat diz-lhes que não lhe podem tocar porque ele tem o sangue de Akasha. Isto muito menos. Eles sabem que ele tem o sangue de Akasha. Estavam lá os três e quase morreram todos. E Akasha nunca mais é mencionada nem explicada, ainda por cima, a Rainha dos Malditos que tem dois livros, um filme, uma das melhores bandas sonoras jamais realizadas, e milhares de pessoas pelo mundo inteiro a porem o seu nome aos animais de estimação. E Akasha é assim tão vilmente descartada numa cena que nunca aconteceu nem tinha razão para acontecer. Mais um momento em que a série andou a patinar.
Se Lestat já tinha o sangue de Akasha na altura, isso significa que ela já tinha despertado, ou talvez Lestat tivesse sido levado ao Santuário por alguém como Marius? Isto é importante porque ter conhecimento acerca de Akasha (que Lestat não tinha na altura) altera a dinâmica das Vampire Chronicles. Será que ainda vamos ver Akasha despertar (como no filme), ou será que vão transformá-la numa personagem completamente diferente para nos trocar as voltas? E as gémeas? Confesso, neste caso gostava que as gémeas tivessem uma história diferente porque nunca fui grande fã delas nos livros. Mas aquela história no Egipto, isso é para manter! Duvido que mantenham porque é muito chocante. E já agora também podiam dar mais profundidade a Akasha. Sempre achei que aquela motivação de vilã de "matar os homens todos menos Lestat e ser adorada como rainha do Céu" era muito fraquinha. Aliás, "A Rainha dos Malditos", apesar de ter tanta acção, é um dos livros mais fraquinhos da saga. Ora aqui está um caso em que a série me podia agradar e surpreender se desse mais tridimensionalidade às personagens.

Anne Rice só houve uma
Apesar de tudo, não estou completamente pessimista para a terceira temporada. A série teve boas ideias, como o hobbie de fotografia de Louis (se ele desistiria tão facilmente é que já não acredito) ou a presença de um agente da Talamasca. Eu não esperava um agente da Talamasca, mas quando Daniel Molloy pergunta "a que agência é que você pertence, é demasiado pálido para ser Mossad", cheguei logo lá. Isto é ser uma ultra-fã ou, como dizem os miúdos agora, uma nerd. Este agente da Talamasca é Raglan James, e não vou dizer mais nada por causa dos spoilers. Eu queria ver isto, queria mesmo ver isto, embora eu própria concorde que o livro em causa não pode ser adaptado sem modificações.
Se a segunda temporada foi melhor, em abrangência e tom, será que a terceira acerta? Também não estou assim tão optimista. As histórias de Anne Rice são o chamado "character driven", histórias conduzidas pela personalidade da personagem e não ao contrário, e quanto mais alteram as personagens mais riscos correm de criar inconsistências com o original se não partirem para uma história completamente alternativa (o que foi o problema no caso de Claudia, que ficou mal vendido). Criar uma boa história alternativa com estas personagens não é impossível, mas não é para toda a gente. Façam o fan fic que quiserem, mas façam-no bem, e sim, esta série é completamente fan fic. Como disse aqui de outra série, ou vai ser muito bom ou vai ser muito mau. A culpa não vai ser do original.
Por último, regresso a Santiago para sublinhar uma coisa que a série fez bem. Para quem nunca leu os livros, reparem em como Santiago e Armand oferecem a morte como uma tentação sedutora. A vítima deixa de o ser e entrega-se voluntariamente à ideia de que uma morte consciente, uma morte suave e sem dor, é melhor do que uma vida de sofrimento. Os vampiros não fazem isto com hipnose mas com factos e filosofia. E naquele momento o visado rende-se e deseja a morte, e foi esta perspectiva sombria, mas lúcida, que fascinou milhões de fãs das Vampire Chronicles. Não é para toda a gente, mas a série conseguiu transmitir isto.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez, mas eu vi duas

PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Anne Rice, Vampire Chronicles, Interview With The Vampire, The Vampire Lestat, The Vampire Armand, etc

 

domingo, 15 de março de 2026

The Leftovers (2014 - 2017)

2% da população mundial desaparece sem deixar rasto: novos, velhos, crianças. Algumas famílias não perdem ninguém, algumas pessoas perdem a família toda. Embora a sinopse nos tente com este mistério, a série é principalmente um drama sobre os sobreviventes.
Ouvi falar de "The Leftovers" em comentários muito elogiosos, mas comecei a perceber que nunca ia ter respostas nenhumas aí pelo terceiro ou quarto episódio, especialmente quando reparei no nome Damon Lindelof nos créditos (criador da série e também de "Lost"). Não costumo deixar histórias a meio mas desta vez ponderei seriamente parar de ver, o que já diz muito. Por descargo de consciência vi a primeira temporada até ao fim. Depois fui ler em mais críticas que efectivamente não há respostas nas três temporadas da série. Então de onde é que vêm os elogios? Bem, para quem quiser um bom drama sobre fé e luto, com personagens da "vida real", complexos e falíveis, a série funciona. Para quem, como eu, foi atraído pelo mistério (e nem vou falar da desonestidade de prometer um mistério destes sem a menor intenção de o resolver), vai ser uma decepção.
Não tenho nada contra um bom drama, ou até um bom drama num qualquer ambiente não realista que sirva apenas de pano de fundo, mas o que me chateou em "The Leftovers" (assim que percebi do que a casa gastava) até nem foi isso. 
O drama centra-se em torno de uma família que não tem nada de tão interessante que o mereça excepto precisamente o facto de estar a reagir ao fenómeno do Desaparecimento. A mãe tornou-se niilista e juntou-se ao culto do "Senhor, Dá-me Um Cancro Depressa", uma seita que se veste de branco, faz voto de silêncio e fuma cigarros atrás de cigarros, os Remanescentes Culpados, cujo intuito é não deixar que os Desaparecidos sejam esquecidos.
Aliás, não é o único culto. Por alguma razão, as pessoas estão convencidas de que o Desaparecimento foi o Rapture (uma crença evangélica do Arrebatamento dos justos, em vida, para o Céu), o que também me deixou um pouco perplexa. Ninguém pensou em abdução colectiva por extraterrestres? A certa altura uma personagem (de ainda outro culto) levanta a hipótese de armamento secreto, mas só a deixam dizer uma frase. Neste estado de coisas, um padre trava uma batalha solitária para provar que não foi o Rapture porque algumas das pessoas "levadas" não eram boas. E ainda existe outro culto em torno de um homem que promete curar a dor em troco de compensação monetária.
Isto já são muitos cultos em menos de seis episódios e eu considerei que era americanice a mais para o meu gosto, mas achei piada aos suicidas "passivos" da seita do tabaco. Como fumadora, até a mim fez impressão a quantidade de cigarros que esta gente fumava. Felizmente, muitos dos cigarros estavam apagados e os actores só fingiam que fumavam. Confesso que gostei de Ann Dowd, a Tia Lydia de "The Handmaid's Tale", como líder do culto. Ann Dowd é uma grande actriz e tem jeito para fanática. Se calhar não tinha chegado ao fim da temporada se não fossem os maluquinhos dos cigarros.
Mas o que me chateou mesmo foi a questão dos cães. Com o desaparecimento de alguns donos, os cães abandonados começaram a formar matilhas selvagens. Um homem anda a matá-los a tiro, justificando que "já não são os nossos cães". Ora, isto remete-nos para o excelente princípio de "The Thing", e deixa no ar a hipótese sinistra de que algo de maléfico está a possuir os cães, muito possivelmente relacionado com o Desaparecimento. Mas afinal não. As matilhas caçam nos bosques, nem atacam as pessoas, um dos cães até volta a ser doméstico no fim, e o gajo andava só a praticar tiro ao alvo por desporto. Como sei que a maioria das pessoas não gosta de ver matar cães, e que não havia razão nenhuma para os matar, isto foi só para o efeito de choque e, mais uma vez, a promessa de outro mistério. Como não há mistério nenhum, não estou para levar com crueldade gratuita.
Teria sido melhor e mais honesto, na minha opinião, fazerem um drama sem mistérios, sobrenaturais ou outros, sobre uma família em crise, uma mãe que perdeu o marido e os filhos, um padre em cruzada, um curandeiro, um gajo que mata cães por desporto, e os maluquinhos dos cigarros. Até ficava uma coisa interessante tipo "Twin Peaks" ou "Fargo". Sendo assim, tenho melhor para ver.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: não se perde nada se não se vir, mas muita gente tem a opinião contrária

PARA QUEM GOSTA DE: Lost, mistério, drama, ficção científica (?), sobrenatural (?)