Dizia eu que só acreditaria em spin offs de “The Walking Dead” quando as visse, mal sabendo que já estavam a ser filmadas. E parece mesmo que vêm aí mais. A qualidade é que não é nada por aí além, tirando os próprios zombies, e é por causa dos excelentes zombies de Nicotero que ainda se conseguem ver estas séries. Esta é outra igual.
“World Beyond” é a versão adolescente de “The Walking Dead”. Enquanto que, na Virginia, Carl andava a comer comida de gato e a enfrentar famílias canibais, noutros lados do país as coisas parecem ter-se aguentado melhor depois do apocalipse zombie. É o caso da cidade de Omaha, de Portland, e do campus da Universidade do Nebraska, onde vamos encontrar os protagonistas de “World Beyond”. Isto causa alguma estranheza para quem viu a sociedade desaparecer e a anarquia reinar em “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”, mas aparentemente ainda há comunidades onde sobreviveu o mundo como o conhecemos. O que coloca desde logo a questão: como é que os sobreviventes ainda não sabem uns dos outros, 10 anos passados desde o apocalipse, uma vez que em “Fear the Walking Dead”, e mais ultimamente em “The Walking Dead” também, toda a gente usa o rádio para comunicar? Estas comunidades sobreviventes não saberiam já da existência umas das outras? Mas no universo “Walking Dead” é melhor não fazer muitas perguntas.
Hope e Iris são duas irmãs (adoptadas) que frequentam a universidade, junto com outros jovens como elas que eu não sei de onde apareceram nem onde vivem os seus pais. Omaha, Portland? Mas lá estou eu a fazer muitas perguntas. O importante é que estes jovens do campus passaram pelo apocalipse num ambiente seguro e resguardado onde sabem que fora dos seus muros existem zombies mas nunca tiveram de se confrontar com eles. O início da série é quase o nosso mundo, e estes jovens do campus estão a ser educados para trazer de volta a civilização.
O pai de Hope e Iris é um cientista que dá aulas nesta universidade pós-apocalíptica até ser recrutado pela sinistra Civic Republic Military. (Como chamar a isto em português, Milícias da República Cívica? República Cívica Miliciana? Parece-me mais a segunda opção. Mas uma República não contém já o conceito de “cívica”, e “militar” não é um dos ramos de poder em que assenta uma república?) A princípio nada nos diz que esta República Cívica seja sinistra, mas há sempre esse suspense de algo pesado no ar quando os helicópteros aparecem. A localização das bases da República Cívica é secreta (o que faz sentido num mundo dominado pela anarquia e o saque) e o tal cientista não está autorizado a comunicar para fora delas, mas antes de partir ele arranja uma maneira de estabelecer contacto com as filhas. Hope e Iris recebem uma mensagem do pai em que este as informa de que corre perigo, e decidem ir salvá-lo (sozinhas contra um exército, porque acham que conseguem). Com elas vão outros dois jovens da mesma idade, Elton e Silas. Nenhum deles alguma vez teve de sobreviver sozinho fora dos muros e não sabem sequer matar um zombie.
Dois dos seguranças do campus, Felix e Huck, vão à procura dos miúdos e conseguem encontrá-los, mas, cada um pelas suas razões, estes recusam regressar. Foi a sorte deles, porque, por algum motivo que ainda não faz sentido, a República Cívica destruiu o campus universitário.
Esta série é sobre os primeiros adolescentes a crescer num apocalipse zombie, mas a República Cívica acaba por ser o enredo (neste caso, sub-enredo) mais interessante. É que foram estes misteriosos helicópteros que levaram Rick Grimes e Anne/Jadis (personagem também conhecida por “senhora da lixeira”, que afinal era uma agente infiltrada). É por isso principalmente, e por outros encontros com a República Cívica em “Fear the Walking Dead”, que os espectadores do universo “Walking Dead” sabem que esta gente não é boa e recorre a métodos chocantes. Por muito que estes digam que o objectivo é o “futuro”, o “bem maior”, reestabelecer a civilização, ficamos perplexos quando destroem um campus universitário onde estava a ser preparada a próxima geração com esse mesmo objectivo em mente. Eu, por exemplo, a princípio nem percebi o que tinha acontecido, de tão contraditório que isto é. E na verdade não se viu acontecer, mas foi dado a entender e toda a gente percebeu assim. Afinal, quem é esta República Cívica e qual é o seu verdadeiro desígnio? Mas a série só nos deu migalhas porque não vai ser aqui que se vai descobrir.
Hope e Iris, e os companheiros Elton e Silas, partem numa daquelas viagens de auto-descoberta e de descoberta dos outros típicas da adolescência. Não digo isto como crítica mas como constatação, é um drama adolescente com temáticas adolescentes, em que os quatro miúdos têm de aprender coisas como conduzir ou matar o primeiro zombie. (Experiências que Carl, na série-mãe, começou a ter na infância.) Há muita conversa e o ritmo pode ser considerado demasiado lento para a grande parte dos espectadores. Cada episódio parece uma aventura separada e os miúdos nunca se encontram em grande perigo como acontece na série original. Só nos últimos dois episódios é que acontece algo minimamente empolgante.
“World Beyond” não é série que se compare às melhores temporadas de “The Walking Dead”, mas pelo menos a história não é o caos sem nexo em que se tornou “Fear the Walking Dead” (já não percebo o que se passa por lá). Vê-se bem, sem grandes expectativas, e só estão anunciadas duas temporadas, o que nos promete um enredo com princípio, meio e fim. Quem esperar mais do que isto vai ficar desiludido.
domingo, 23 de maio de 2021
The Walking Dead: World Beyond
domingo, 18 de abril de 2021
The Twilight Zone / A Quinta Dimensão (2019, segunda temporada)
Não sei o que se passa com esta nova edição de “The Twilight Zone”, mas o facto é que parece não ter impacto. Se na primeira temporada os episódios eram quase panfletários, tão preocupados com a mensagem política e social que estavam a tentar transmitir que as histórias acabavam por ser relegadas para segundo plano, já não podemos dizer isso da segunda.
Desta vez “The Twilight Zone” cingiu-se às histórias, mas nem por isso estas tiveram o impacto com que a velhinha “A Quinta Dimensão” de 1959, a preto e branco, ou até a edição de 1985, a cores, nos marcou para sempre. Serão as histórias menos boas? Seremos nós que já vimos tanta coisa que não é qualquer história que nos atinge? A verdade é que depois de cada episódio dei por mim a encolher os ombros, sem que me aquecesse ou arrefecesse.
Quase basta dizer que o meu episódio preferido foi “8”, em que o protagonista é um polvo assassino. Sim, leram bem, um polvo assassino, nem sequer um polvo gigante (embora bastante grande), mas muito inteligente. O episódio passa-se na Antártida, onde um grupo de cientistas estão isolados a estudar, supostamente, os efeitos das alterações climáticas, quando algo os começa a matar um a um. Este é um enredo à “Alien” e “The Thing”. Nunca me passou pela cabeça que o vilão fosse mesmo o polvo que os cientistas encontram escondido dentro de uma arca. Mas acontece que os cientistas, afinal, não estão ali com boas intenções. O que eles querem é apanhar o espécime para a indústria farmacêutica e coisas piores. Só que o polvo é mais esperto do que eles e lixa-os. E o pior é que nós aplaudimos. Existe uma cena perturbadora como há muito tempo não via. O polvo consegue camuflar-se de tal maneira que fica invisível em cima de um dos membros da equipa que acabou de matar. Foi arrepiante, confesso.
Algumas histórias têm o seu interesse, mas destaco também “You Might Also Like”, uma invasão extraterrestre pelos mesmos aliens do original “To Serve Man” que acaba por ser uma paródia pouco subtil ao consumismo.
Os outros episódios são francamente esquecíveis e se a série for renovada e a qualidade continuar assim, penso que vai ser a última crítica que faço a esta nova “Twilight Zone”.
domingo, 11 de abril de 2021
Sinbad (2012–2013)
Depois de tão escaldada e irritada por séries juvenis como “Merlin” e “Atlantis”, comecei a ver “Sinbad”, outra série feita no Reino Unido, na quase certeza de que era mais uma para criticar sem piedade. Surpresa das surpresas, até gostei. Ao contrário das outras duas, e tendo em consideração que é um produto infanto-juvenil, esta pelo menos faz sentido. Mas há muito mais para gostar.
Não sei até que ponto é uma série para crianças. Reparei num quadradinho azul-claro no canto do écran com o número 7. O que é isto? Como não costumo ver séries para crianças, não sei, mas desconfio que é para maior de sete? Sim, a história é simples de acompanhar e até aparece um grifo no segundo episódio que ajuda os protagonistas, mas não sei se às vezes não é muito pesado para sete anos. Como daquela vez, por exemplo, em que um monstro comeu o braço a alguém e se vê o “braço decepado”, osso e sangue à mostra. Eu achei um bocadinho realista demais para um público infantil, mas se calhar agora os putos até vêem “A Guerra dos Tronos”. Por outro lado, apesar da simplicidade da história, os personagens não são tão bidimensionais como é costume e não sei se um miúdo desta idade tem capacidade de lhes compreender as nuances. Eu aconselharia a uma idade entre os 10 e os 13, mas já volto a este ponto.
Sinbad é mesmo Sinbad o Marinheiro. Um jovem irresponsável, vive de expedientes até ter o azar de matar acidentalmente o filho de um nobre importante num antro de luta a dinheiro. Este nobre importante, Lord Akbari, não é outro senão Naveen Andrews, o Sayid Jarrah de “Lost”, e que bem que este homem faz de vilão atormentado. Tão atormentado, na verdade, que não sei até que ponto uma criança ia compreender isto. No mundo infantil há os bons e os maus, não existe a área cinzenta em que um vilão pode ter alguma razão.
Cego de vingança, Lord Akbari manda matar o irmão de Sinbad, que este adora, para que Sinbad sinta a dor que ele sente. Quando isto acontece, a avó de Sinbad, furiosa por este ter sido o causador da morte do irmão bom e responsável, põe-lhe uma maldição: Sinbad tem de andar no mar durante um ano, com um colar ao pescoço que o estrangula se passar mais de um dia em terra. A avó é uma feiticeira, como é óbvio, e não faz isto por malvadez. Quer que Sinbad aprenda a lição de que os seus actos têm consequências. Entretanto, Lord Akbari sofre pela morte do único filho e decide que a vingança não bastou. Agora quer matar Sinbad também, e decide persegui-lo até aos confins do mundo. Para tal, pede ajuda à feiticeira Taryn, cujas práticas estavam banidas da Pérsia por ordem do soberano, irmão de Akbari, que não gosta de magia.
Aqui, confesso, cheirou-me tanto a “Merlin” que enjoou (“Merlin” terminou em 2012, ano de estreia de “Sinbad”), mas a série afastou-se desse enredo depressa, talvez por perceber que já ninguém tinha paciência para ver o mesmo outra vez. Foram espertos.
A única ligação à Pérsia é mesmo o ponto de partida, porque de resto “Sinbad” é uma série de Fantasia com um world building próprio muito bem feito em que somos mergulhados num tempo e espaço ficcionais sem outras semelhanças com a realidade histórica. (Alguns críticos não perceberam que estavam a ver Fantasia. É triste mas ainda acontece.) Perseguido por Lord Akbari, Sinbad tem de fugir num navio que quase naufraga durante uma tempestade. Os únicos sobreviventes, que se tornam companheiros de Sinbad, são meia dúzia de personagens que não podiam ser mais diferentes, alguns bons até ao tutano, outros de passado e presente duvidosos.
Todos os episódios são uma aventura diferente e a série aproveita para desenvolver cada um dos personagens, contando-lhes a história. Dei por mim a ficar interessada. Não deslumbrada, nem nada que se pareça, mas é uma boa série para ver ao fim do dia, com sono e um copo de vinho, sem ter de pensar muito, mas ainda nos fazendo pensar um bocadinho. O enredo principal vai sempre acompanhando as aventuras dos amigos náufragos, e nunca temos a sensação de episódios que só ali estão a encher “chouriços”.
Acabada a primeira temporada de 10 episódios, perguntei-me se havia segunda. Para meu espanto, não havia. Foi cancelado. E digo “para meu espanto” depois de cinco intermináveis temporadas de “Merlin” e duas de “Atlantis”, que eu já só via por hate watching. Isto intrigou-me e fui investigar. Li algumas críticas. E as minhas suspeitas confirmaram-se. “Sinbad” foi vítima de ser demasiado pesado para crianças e demasiado leve para adultos, um pouco o que aconteceu também a “Atlantis” no fim. As crianças não conseguem compreender os personagens e os adultos acham-nos demasiado estereotipados. O world building de Fantasia está muito bem feito mas pedia mais drama a encher este cenário. Numa altura em que competia com “A Guerra dos Tronos”, não tinha qualquer hipótese.
Vou dar o exemplo do segundo episódio, em que os náufragos vão parar a uma ilha de ladrões canibais. Que são canibais é a princípio só insinuado mas lá para o meio do episódio torna-se muito claro: vão ser comidos. A rainha dos canibais escolhe um dos homens para dormir com ela (antes de o comer mesmo, isto é), e Sinbad oferece-se em vez dele para tentar descobrir como escapar. Ora, meus amigos, isto é violação. Se fosse um homem a escolher uma mulher para dormir com ele sob ameaça de morte, o que não teriam gritado os pais das criancinhas a quem a série era supostamente destinada. Sinbad vai para a cama com a rainha dos canibais porque não tem outra escolha se a quer “empatar”. É a vida dele e dos amigos que está em jogo. Não me parece um enredo infantil. Mas este é precisamente o episódio que acaba com a ajuda do grifo. A rainha dos canibais tem um grifo aprisionado a quem Sinbad liberta. O grifo ajuda por gratidão. Ora, este já é um enredo infantil. Mas o episódio andou ali entre o pesadíssimo e o infantil como se água e azeite se misturassem. Eu assisti de boca aberta a perguntar-me: quem é o público-alvo desta série? É que não dá para ser leve e pesado ao mesmo tempo. Acaba por não agradar a ninguém, nem aos miúdos nem aos graúdos. Na minha opinião foi isto que ditou a curta carreira de “Sinbad”, que, dirigido a um público mais adulto, ou o contrário, a um público mais infantil, podia ter sido uma série mais satisfatória.
Assim, ficou ali no morno e não foi quente nem frio. Mas como morno que é, aconselho a adultos ensonados antes de dormir.
E já falei no Naveen Andrews como vilão? Por onde é que o homem tem andado? As saudades que eu tinha dele.
domingo, 7 de fevereiro de 2021
The Man in the High Castle (2015–2019)
[contém spoilers]
E se os Nazis tivessem ganhado a guerra? É esta a premissa da série, adaptação do livro homónimo de Philip K. Dick, publicado em 1962. Mas a adaptação vai para além do livro e vale muito a pena.
Esta é uma daquelas séries que até se viam só pelos cenários. A América ocupada pelos dois invasores vitoriosos, a Alemanha Nazi e o Império Japonês, e todas as alterações que isso provoca no quotidiano, na arquitectura, na cultura, nas pessoas. É um mundo que nós reconhecemos mas que ao mesmo tempo nos arrepia, como ao vermos a suástica em tudo e alguma coisa, desde os alfinetes de lapela aos candeeiros de sala.
Muito deste world building começa logo no genérico, por si só uma obra prima. O genérico explica-nos como é que a guerra foi ganha pelo lado errado e de que forma a América está dividida entre alemães e japoneses. Faz muita impressão vermos a águia Nazi sobreposta na águia americana derrotada.
A Estátua da Liberdade a assistir ao filme da bomba atómica a deflagrar é uma imagem igualmente poderosa. Por falar em Estátua da Liberdade, desde “O Planeta dos Macacos” que não há um filme ambicioso de ficção científica em que esta não seja derrubada estrondosamente. Aqui isto acontece (lá para as últimas temporadas) e é tão bom como promete.
Mas “The Man in the High Castle” é principalmente História Alternativa. Pessoalmente, não me importava nada que não tivesse ficção científica. Um mundo em que os Nazis ganharam e em que a Resistência tem de os combater já é suficientemente interessante. Mas parece que o aspecto dos universos paralelos vem mesmo do livro (não li e não é o meu género) e tiveram de lidar com eles. Na minha opinião podiam ter feito melhor, especialmente o fim (que, admito já, não percebi). Mas também não vi a série por causa dos universos alternativos, mas pelo desafio politico-sociológico que nos apresenta.
Afinal, quem é o Man in the High Castle?
É melhor pensar nesta história como um longo filme (e com episódios igualmente longos, por falar nisso, daqueles de 60 minutos). Não consegui chegar a uma conclusão quanto ao seu significado antes de ver mesmo tudo. É claro que isto se pode aplicar a qualquer série, mas eu diria que se aplica mais nesta. Só quando conhecemos a totalidade das escolhas que os personagens foram fazendo ao longo das quatro temporadas é que percebemos completamente o que a história nos quis dizer. Confesso que fiquei agarrada do princípio ao fim, sempre a torcer para que alguns “maus” se redimissem.
Alguns críticos de TV reagiram muito incomodados quando perceberam que as personagens principais não são as mais importantes. É que não são mesmo. Juliana, Joe, Frank, são estereótipos. Juliana é a jovem que viu a irmã ser assassinada à sua frente pela kompetai (a polícia política japonesa que aterroriza Los Angeles, e que me lembrou muito a PIDE) e que se envolveu na Resistência quase sem querer depois de ver um dos filmes misteriosos em que os Aliados ganham a guerra. Daqui para a frente, Juliana é uma “figura de acção”, que faz o que tem de fazer porque a série precisa de uma protagonista que o faça. Joe é o agente Nazi com dúvidas, que pode ou não mudar de lado por amor ao conhecer Juliana. Frank é o namorado de Juliana, um judeu que só quer passar despercebido (e tem razão para isso) até que a kompetai lhe gaseia a irmã e os dois sobrinhos só para o obrigar a falar das actividades de Juliana na Resistência. A partir daqui, Frank tem poucas alternativas senão envolver-se na Resistência também.
A história não é sobre eles. Eles são os eixos em que o enredo se apoia para nos revelar as personagens interessantes: o terrível inspector Kido, do lado japonês, e o implacável Obergruppenführer John Smith, americano que chegou às mais altas patentes do regime Nazi.
Comecemos por Kido. E aproveito aqui para dizer que a série só se torna realmente boa a partir do sexto episódio (opinião que tenho encontrado como unânime). Os cinco primeiros episódios não fazem muito sentido nem são muito bons. Os diálogos são péssimos. Por exemplo, temos o inspector Kido, depois de assassinar uma mulher e duas crianças, a dizer a Frank: “Eu não sou um monstro”. Pior um pouco, temos Frank (o irmão da mulher assassinada) a responder: “Agora, quando quiser matar um judeu, já sabe onde eu moro”. A resposta devia ter sido: “Meu caro senhor, se está assim tão aborrecido por eu o deixar ir para casa, não se incomode. A gente mata-o já também.” Kido não podia matá-lo logo no primeiro episódio porque a série precisava de Frank, mas os diálogos não precisavam de ser tão maus.
Então, Kido é um monstro? Da perspectiva da cultura ocidental, sim. Da perspectiva japonesa, Kido é um homem de honra, um samurai patriota dos tempos modernos que estava efectivamente disposto a enfiar uma espada na barriga se o Império sofresse qualquer revés por sua culpa. Gostei principalmente do fim que ele teve, um fim desonroso que para Kido é infinitamente pior do que a morte. Fins assim dão gozo.
E depois temos o vira-casaca John Smith, oficial do exército norte-americano que se vendeu aos Nazis quando eles ganharam. Ou, pelo menos, é o que parece. À medida que as temporadas se desenrolam percebemos que Smith não é nem nunca foi um Nazi, que começou por fingir que o era por necessidade e que para mal dos seus pecados se deu tão bem a fingir que chegou ao topo da hierarquia. Se Smith tem um defeito, é a ambição brutal que o cega. Mas Smith tem um calcanhar de Aquiles: o amor à família. Se houver redenção, é por aí. Mas haverá, ou John Smith já foi longe demais para mudar aquilo em que se tornou? Esta é a história mais interessante em “The Man in the High Castle”. Eu diria mesmo que este tal Homem do Castelo é John Smith.
Um niquinho abaixo do sublime
Haveria muito para comentar na riqueza destas quatro temporadas, mas prefiro voltar a instar que o espectador não se deixe desencorajar pelos primeiros cinco episódios. São de facto mauzinhos. Por exemplo, a princípio Juliana é incumbida de levar o filme ao agente da Resistência conhecido por The Man in the High Castle (daí o título aparente) para que este não chegue a Hitler, que quer deitar as mãos a todos estes filmes misteriosos que andam a aparecer e que considera uma ameaça ao regime. Mas depois é-nos dito que quem distribui os filmes é mesmo este Man in the High Castle. Um personagem da Resistência chega mesmo a verbalizar: “Porque é que íamos mandar um filme ao Man in the High Castle se os filmes vêm dele?” E a gente fica: OK, agora é que não percebi nada. Esta grande confusão dos cinco primeiros episódios explica-se assim: a Amazon mandou fazer a série e estava a ver se tinha audiências. Como teve audiências, decidiu continuar, mas a história foi alterada. Por isso é que os episódios iniciais parecem cartas fora do baralho. Espectadores potenciais, ignorem-nos. Vejam-nos só para perceberem o universo da série, na certeza de que o que vem a seguir vale a pena sofrê-los.
“The Man in the High Castle” é uma grande série, que só não é ainda melhor porque preferiu reduzir os protagonistas a pouco mais do que figuras de acção. Não posso deixar de pensar no festim que Vince Gilligan (“Breaking Bad”, “Better Call Saul”) faria com estas mesmas personagens. Mas não se pode ter tudo.
Recomendo vivamente e vou ver de novo. Aproveito para advertir que há cenas muito pesadas e de grande brutalidade (a execução dos judeus, por exemplo, mas há outras) que só devem ser vistas com a necessária preparação psicológica.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Better Call Saul
[contém spoilers de “Breaking Bad”]
Que série tão boa! Deve ser a primeira vez que faço a crítica a uma série antes de acabar de ver a primeira temporada. É que já estou convencida e ainda não vi o último episódio.
“Better Call Saul” é um spin off e uma prequela de “Breaking Bad”, a história do homem que viríamos a conhecer por Saul Goodman, advogado amoral e sem escrúpulos.
Em “Breaking Bad”, Saul Goodman era em todas as suas aparições o comic relief de uma tragédia. Por isso também parti para esta série enganada, à espera talvez de uma série humorística. E de facto “Better Call Saul” tem momentos verdadeiramente hilariantes, mérito do actor Bob Odenkirk e dos criadores Vince Gilligan e Peter Gould, mas afinal é a história dramática do homem chamado Jimmy McGill. Aproveitamos para aprofundar também outra personagem de peso de “Breaking Bad”, Mike Ehrmantraut, que nunca chegámos a conhecer verdadeiramente porque não era pessoa de muitas falas e muito menos confidências.
Vimos “Better Call Saul” e perguntamo-nos: como é que nunca se percebeu a grande personagem que aqui estava em Saul Goodman? Fácil. Porque em “Breaking Bad” todas as personagens eram grandes, mas nenhuma conseguia brilhar ao lado da estrela poderosa Walter White. Walter White, como um buraco negro, sugava todas as atenções. De tal modo que ver “Better Call Saul” me levou a visionar algumas partes de episódios de “Breaking Bad” e decidi ver esta última série outra vez. O apelo de Walter White é demasiado magnetizante para olharmos para o lado.
Mas aqui, Saul Goodman, ou melhor, Jimmy McGill, pode brilhar à vontade. Esta é uma série completamente focada nas personagens, que nos consegue manter interessados mesmo quando eles estão a discutir pormenores da lei e casos de tribunal de que não percebemos nada. As personagens são tão realistas que quase sinto que as conheço. Por exemplo, a relação de amizade entre Jimmy e Kim, que às vezes parece a de dois ex-namorados, outras vezes nem parece ter chegado tão longe. São apenas dois amigos que mandam bocas um ao outro e se ajudam mutuamente, lealmente, quando é necessário. Amizade pura, muito mais interessante do que qualquer envolvimento romântico.
Jimmy McGill pode não ser o génio científico que Walter White era, mas não deixa de ser um génio à sua maneira.*
[*Aliás, e perdoem-me outra referência e spoiler de “Breaking Bad”, que Saul Goodman seja um génio não é de admirar. Só uma inteligência acima da média conseguiria escapar com vida (literalmente, com vida) à devastação nuclear que a implosão de Whalter White provocou em seu redor.]
Sempre um grande espertalhão, passou uma juventude de expedientes e burlas até decidir seguir as pisadas do irmão mais velho, a quem põe num pedestal, e tira um curso de Direito por correspondência. Ou melhor, agora chama-se “à distância”, como ele nos recorda. E é então que aparece McGill o advogado, ainda sem os cartéis mas já o animal feroz que viremos a conhecer como Saul Goodman.
Jimmy McGill vive nas traseiras de um salão de beleza, nuns arrumos, a sua “casa” e “escritório”, e faz das tripas coração para se assumir na profissão, licitamente, a ganhar uma ninharia como defensor público. E Jimmy McGill é um advogado genial, mas tem sempre algo a travá-lo.
Nesta primeira temporada percebemos que foi uma traição que o impediu de progredir, uma traição de partir o coração. Uma traição cheia de ingratidão, que Jimmy McGill não merecia. A traição de quem mais tinha o dever de estar do seu lado.
Nem preciso de mais nada para perceber como é que o bem-intencionado Jimmy McGill se transforma no cínico Saul Goodman que conhecemos na série original. Está explicado. Mas isto não acaba aqui. “Better Call Saul” já vai na quinta temporada, um verdadeiro sucesso tendo em conta que começou como spin off e prequela. Episódios tão bem equilibrados entre o dramatismo e o humor são coisa de verdadeiro génio. Esta é uma série para ver e para rever. Por esta altura, já não espero outra coisa do criador Vince Gilligan.
domingo, 22 de novembro de 2020
Bates Motel [segunda temporada]
Quando fiz aqui a crítica à primeira temporada, questionei-me até que ponto a série ia conseguir convencer-nos de que este puto adorável, Norman, se ia transformar num serial killer. Nesta segunda temporada começamos a chegar lá. A mente de Norman está cada vez mais fragmentada, os episódios dissociativos são cada vez mais frequentes e graves. E continuamos a sentir simpatia por ele porque, afinal de contas, Norman não sabe o que faz. No seu estado normal, Norman não era capaz de fazer mal a uma mosca. Mesmo assim, quando Norman está zangado, o actor Freddie Highmore transfigura-se e mete medo. Ele semicerra os olhos, as pestanas escuras a encobri-los, de uma maneira que os próprios olhos parecem ficar totalmente negros, tudo isto sem efeitos especiais, ao mesmo tempo que contorce os lábios num esgar de raiva que pode rebentar a qualquer momento. Não admira que o jovem actor tenha conseguido este papel. Quando ele faz isto vimos o verdadeiro Norman Bates, aquele que é capaz de matar. Nesta segunda temporada somos levados a crer que ele já matou durante um dos seus apagões dissociativos, e não vou revelar quem, ou pelo menos ele está convencido disso devido a memórias que recordou. A questão é que também não podemos confiar nas memórias de alguém que frequentemente tem alucinações. Continuo sem saber se de facto ele já matou alguém ou se apenas fantasiou essa “memória”. Na série ainda não o vimos cometer o acto propriamente dito, excepto em legítima defesa ou para defender a mãe.
Mas começa a ser óbvio que Norman está a piorar. Se ainda não matou, pouco falta.
Norma
Esta série podia chamar-se “The Vera Farmiga’s” show. Norma continua a mesma de sempre, quando mais esbraceja mais se afoga. Não conhecia esta actriz e fico boquiaberta com a versatilidade com que ela faz tudo, dos apontamentos cómicos às cenas dramáticas mais pesadas. Graças a Vera Farmiga e Freddie Highmore, conseguimos ver a relação cada vez mais imprópria desenrolar-se entre mãe e filho e perceber como é que eles chegaram até ali. O que mesmo assim não se torna menos desconfortável quando os vemos discutir como um casal de namorados, ou deitarem-se lado a lado na cama e dormirem abraçadinhos, ou quando dançam juntos, ou aquele beijo nos lábios com que Norma beija o filho. Para eles é tudo tão puro e platónico que nem se apercebem de como aquela relação já ultrapassou todos os limites do que é saudável, pouco a pouco, um gesto e uma palavra de cada vez.
Dylan, o xerife Romero, e os outros bandidos
Nesta segunda temporada a série já não comete erros como os das escravas sexuais chinesas. Finalmente encontrou o seu espaço e sabe onde pisa. O sub-plot do tráfico de droga e da cidade em que toda a economia vive de actividades ilegais está lá apenas como pano de fundo, mas graças a Dylan, irmão mais velho de Norman, acaba por se integrar nos problemas da família, magnificando-os.
A primeira temporada enganou-me quanto ao xerife Romero. Podia ter jurado que era ele próprio o grande chefão da droga, acima de todos os chefões. E de certa forma não me enganei assim tanto. Romero não é um criminoso, mas é ele quem manda em todas as actividades ilegais de White Pine Bay para que elas não passem de certos limites. E quando é preciso o xerife não olha a meios para atingir os fins, mesmo que não sejam os meios mais legais. De outra forma, como ele diz, toda a cidade estava atrás das grades. Romero quer impedir isso. Dylan está em White Pine Bay há pouco tempo, mas até ele percebe que com Romero não se brinca. O xerife é mesmo o chefão lá do sítio.
Mas isto é cenário. Tudo o que interessa e empolga nesta série acontece entre quatro paredes, na casa dos Bates, onde a família continua a aprofundar uma dinâmica disfuncional que psicólogo nenhum já poderia resolver.
Apesar de a primeira temporada ter andado ali um bocado aos tropeções, “Bates Motel” está cada vez melhor e recomendo vivamente.
Tenciono voltar a comentar aqui a série inteira depois de ver as cinco temporadas.
domingo, 1 de novembro de 2020
Maria Theresia (2017–2019)
domingo, 11 de outubro de 2020
Dawn of the Dead / O Renascer dos Mortos (2004)
Não vi “Dawn of the Dead” mais cedo porque sempre pensei, pelo título, que este era o filme de 1978. Afinal é um remake, desta vez dirigido por Zack Snyder. Até parece que George A. Romero não teve nada a ver com este filme, apesar de ser mencionado nos créditos como escritor do original. O filme de 1978 é um clássico, mas na minha opinião tão mauzinho, comparado com o fantástico “Night of the Living Dead” (1968), que nunca me passou pela cabeça que quisessem fazer um remake.
Não sei o que teria pensado deste filme de 2004 se o tivesse visto na altura. É oficial, “The Walking Dead” estragou-me todos os filmes de zombies que já vi depois da série. A qualidade de “The Walking Dead” deteriorou-se, é verdade, e a série actualmente tem dificuldade em viver à altura das primeiras temporadas, mas essas primeiras temporadas foram tão marcantes, e deixaram uma mitologia tão bem estabelecida, que tudo o que se fez antes e depois me faz encolher os ombros.
Com a excepção do primeiro dos filmes, “Night of the Living Dead”, de 1968, a preto e branco, que ainda prefiro não ver sozinha porque aquilo é mesmo de meter medo.
Este “Dawn of the Dead” de 2004 é mais um para ver e esquecer. Primeiro que tudo, este foi um daqueles em que alguém achou que os zombies metiam mais medo se fossem mais rápidos. Isto deu em “zombies de corrida”, como já disse aqui mal suficiente em “World War Z”. Neste filme os zombies também correm e saltam (de esconderijos no tecto, ainda por cima) atrás dos sobreviventes. A certa altura parecia que estavam a ser perseguidos por um bando de gente enfurecida em vez de zombies. Ora, por alguma razão o filme de 1968 foi tão eficaz. Porque os zombies são lentos, aparentemente pouco perigosos e acéfalos, mas quando são muitos é que a porca torce o rabo. “The Walking Dead” percebeu isto desde logo, que o clássico é que era bom, e foi assim que se tornou um clássico também.
“The Walking Dead” foi buscar outra coisa à mitologia de “Night of the Living Dead”, e explorou-a. Todos têm o vírus, todos se transformam em zombies depois de mortos. Isto agora já me parece tão óbvio que fiquei desapontada quando neste filme de 2004 só os mordidos por zombies se transformam em zombies. Assim é muito menos perigoso. Em “The Walking Dead” não há mortos “seguros”. Todos têm de levar uma facada no cérebro, até amigos e família, para aumentar o drama.
Mas “The Walking Dead” foi buscar coisas a este filme também, em que uma meia dúzia de sobreviventes se refugiam num supermercado à espera que os venham salvar. Em frente ao supermercado há um prédio onde um jovem está a observar tudo do telhado, com binóculos, e a dar conselhos aos outros sobreviventes. Este jovem, não há volta a dar, pareceu-me o Glenn que salva a vida a Rick Grimes em Atlanta.
Por outro lado, “The Walking Dead” não esconde as suas influências. Em “Dawn of the Dead” os sobreviventes escrevem nas paredes: HELP ALIVE INSIDE. O que se torna, no hospital onde Rick Grimes acorda do coma, no enigmático:
DON’T DEAD
OPEN INSIDE
Já a deixar antever que esta não ia ser apenas mais uma série de zombies em que não era preciso pensar muito, como começava a ser expectável dos filmes do género pós-“Night of the Living Dead”.
Diria mesmo que o melhor que o remake “Dawn of the Dead” conseguiu foi dar ideias a “The Walking Dead”. De resto é um filme esquecível. Um filme até a querer mais ser um slasher do que um filme de zombies, como mostra a parte da serra eléctrica, completamente dispensável. Personagens estereotipados, alguns até pouco credíveis não obstante o estereótipo, os bons e os maus e os heróis, um enredo previsível. No fim, como num bom slasher, morrem todos à mesma, apesar dos grandes esforços para escapar, ou pelo menos é isso que se dá a entender. Mas a verdade é que não há aqui um único personagem por quem a gente se interesse, e aquele que ainda nos interessa mais já tem o destino traçado ainda antes da fuga final. Isto não é bom drama, nem o pretendia ser. Mas o público já estava preparado para mais do que isto, e “The Walking Dead” teve o mérito de ir explorar os personagens em vez dos zombies, a sociedade a desmantelar-se em poucos dias em vez das serras eléctricas. O público estava preparado para “The Walking Dead”.
Ver “Dawn of the Dead” agora parece-me um exercício injusto, um filme que mirrou à sombra de uma série que o suplantou. Recomendo apenas aos grandes fãs do género. A quem quiser ver um filme antigo de zombies que mete mesmo medo, recomendo “Night of the Living Dead” (1968).
14 em 20 (mais alguns pontos porque deu tantas ideias a “The Walking Dead”)
domingo, 4 de outubro de 2020
The Walking Dead [décima temporada]
[contém spoilers; não revela o final;
nem podia revelar porque, no momento em que escrevo, o último episódio ainda nem foi filmado]
E assim aconteceu que o apocalipse zombie durou tanto tempo que foi atropelado pelo apocalipse Covid. Mas não percamos a esperança. Já aí está o Covid. Talvez ainda venham os zombies.
Comecei a ver esta temporada sem saber que não tinham conseguido filmar o último episódio devido à pandemia. Curiosamente, quando acabou o penúltimo episódio também não me preocupei muito que não existisse o próximo. A qualidade da série melhorou, sim senhor, a olhos vistos, depois da saída de Scott M. Gimple (que foi estragar “Fear the Walking Dead”). Mas já tenho muita dificuldade em acompanhar o que se passa e, principalmente, em importar-me com as caras novas que só conheço há meia dúzia de episódios. Para fazer esta crítica estou a usar a cábula dos resumos dos episódios do IMDB, porque assim de repente nem me lembro de nada. Quando uma série atinge este ponto (e uma série que já foi inesquecível) é doloroso falar dela.
Pois a Michonne lá se foi embora também, o que não é um spoiler para quem acompanha as notícias em torno da série. Michonne não morreu. Simplesmente abandonou os filhos (Judith e o pequeno Rick Jr.) em Alexandria e foi atrás de uma ténue pista de que Rick possa estar vivo. Alguma vez a Michonne que eu conheço agiria assim, abandonar dois filhos no meio do apocalipse zombie? Mas nem pensar. A Michonne que eu conheço ficou enlouquecida quando o filho dela morreu. Não ia abandonar os filhos por uma pista obscura.
As personagens vão tendo flutuações de personalidade conforme o enredo (e os contratos) obrigam, e a certa altura até as personagens que já conhecemos há muito tempo começam a agir “out of character”. Isto cria um fosso, uma dissonância entre o espectador e as personagens, como se subitamente elas fossem possuídas por extraterrestres (mas menos interessante), em que já nem as reconhecemos. Este novo “Walking Dead” é uma série diferente, e até compreendo a necessidade de evolução, mas transformar as personagens numa coisa que elas não são arranca-nos a última âncora que nos agarrava à história. Hoje em dia vejo “The Walking Dead” e já não sei muito bem o que estou a ver.
Muitos problemas foram resolvidos com a direcção de Angela Kang, mas alguns dos mais irritantes persistem. O mais irritante de todos, julgo que é opinião unânime, é a mania de pôr os personagens a fazer coisas estúpidas para avançar o enredo.
Sim, as pessoas cometem erros e os personagens ficcionais não são diferentes, mas os acessos de estupidez momentânea dos personagens de “The Walking Dead” já são lendários. Desta vez calhou a sorte a Carol (uma das personagens mais respeitadas exactamente por estar sempre um passo à frente dos outros) de se comportar como uma imbecil. Isto porque perdeu o outro miúdo, Henry, a quem deviam dar um prémio qualquer por ter conseguido ser o personagem mais estúpido de todo o cast de “The Walking Dead”, e não apenas momentaneamente (o miúdo era constantemente imbecil). Mas Carol é uma personagem que já perdeu muito, que já perdeu tudo, e aguentou-se. Que não ia perder a cabeça agora, a esta altura do campeonato. Foi doloroso de assistir.
E depois temos Negan, uma batota completa. O Negan que nós conhecemos era um sociopata sem remorsos. Este Negan está cada vez mais bonzinho. Querem à força que a gente esqueça como ele esmagou à cacetada os crânios de Abraham e de Glenn com a Lucille. Aliás, já nem se fala da Lucille, para as pessoas não se lembrarem. E como se não bastassem os homicídios e a megalomania, ainda houve aquela vez em que ele queimou vivo um médico só porque desconfiou que este se andava a fazer a uma das suas “esposas”, “esposas” estas todas obrigadas a serem esposas de Negan, mercê de ameaças às famílias delas. E é este o personagem que querem reabilitar. Negan não tem redenção possível. A única vez que concordei com Carol nesta temporada foi quando ela disse: “O Negan também podia desaparecer”. Ah, se podia. Esta é que é a Carol que eu gosto. Admito que o Negan tenha uma qualidade redentora. Sempre foi bom com miúdos e adolescentes, o que se manifestou logo quando ele interagiu com Carl. Isto faz parte da personagem como ela nos foi apresentada. O resto é fabricação para ver se conseguimos começar a suportá-lo. (Ó Rick, para onde te levou a senhora da lixeira, que não vens enfiar um balázio na cabeça deste gajo?)
Pelo menos não sou a única que não esquece. Aaron e alguns outros habitantes de Alexandria também não esquecem. Negan só está vivo porque eles estão a honrar a “última vontade” de Rick, a quem julgam morto, de que Negan deve ser preso e não executado sumariamente, porque eles são “melhores do que isso”.
Estranhamente, Negan e Alpha foram protagonistas da cena de sexo mais explícita que já se viu na série toda. Uma cena pervertida como só podia acontecer entre Alpha e Negan, mas aconteceu. Até os vimos aparentemente nus, ao longe. “The Walking Dead” nunca quis perder tempo com isso, mas nesta última temporada temos algumas cenas de sexo, incluindo entre duas lésbicas. Definitivamente, a série está mesmo a mudar com uma mulher ao leme.
Por falar em sexo. Outra batota, o padre Gabriel. Onde é que este personagem é o mesmo que a gente conheceu na temporada cinco? Andar com a Rosita deve ter-lhe feito muito bem à auto-estima. O homem agora parece um autêntico Rick Grimes. Até manda e fala grosso.
E por falar em Rosita, que tem uma filha com Siddiq. O que aconteceu a Siddiq foi uma manobra bem orquestrada como eu já não via há muito tempo em “The Walking Dead”. Não estava mesmo à espera daquilo, se bem que o espião dos Whisperers me tenha parecido uma pessoa implausível de sofrer uma lavagem cerebral por parte da Alpha. Mas os Whisperers, percebemos nesta temporada, já não eram simplesmente um grupo de sobreviventes, eram acima de tudo um culto. E nós sabemos o que os cultos fazem à cabeça das pessoas, e aquela Alpha era sinistramente carismática, portanto até vou admitir que deu a volta à cabeça ao médico Dante.
A nível de choques, penso que o Siddiq foi mesmo o choque da temporada. Conseguiram que a gente gostasse dele (não havia muito para não gostar, tirando o facto de que foi praticamente responsável pela morte de Carl por causa de um disparate de matar walkers para respeitar uma crença da mãe de Siddiq de que matar zombies era libertar-lhes as almas). Conseguiram que tivesse impacto. Isto acontece cada vez menos em “The Walking Dead”.
Do mal o menos, o nosso Daryl continua o mesmo de sempre. O disparate de adulterar a personalidade das personagens consoante convém ao enredo ainda não o atingiu. (Mas temo que venha a atingir.) Algumas das melhores cenas são entre Daryl e Carol, os veteranos da série, a conversar e a fumar um cigarro e a mandar bocas um ao outro como nos velhos tempos. O que só nos lembra de como esta série era boa quando o núcleo de protagonistas era sólido e coeso, mas já não é nada disso.
Houve alturas em que tive de fazer um esforço para me lembrar de quem era aquela cara que ali aparecia, de tal maneira já nem sei quem é que está na série e quem é que já morreu ou se foi embora. Por exemplo, não me lembrava nada que a Enid e a Tara tinham morrido na última “leva”, na temporada anterior, de tão insignificantes se tornaram os seus papéis. (Ou se calhar foram as actrizes que pediram para sair.)
O penúltimo episódio podia chamar-se “O gato que traiu Alexandria”. Sim, houve um gato, e ficou muito mal explicado como é que o Beta percebeu que o gato significava onde estavam os sobreviventes. Boo! Má escrita! Devíamos ter visto que havia um espião exclusivamente designado para espiar o gato, e aquele gato, pela sua importância, devia ter sido um personagem mais desenvolvido. Por exemplo, qual é a relação do gato com a Carol, com o Daryl, com o cão do Daryl, Dog? Como é que o Beta sabe que o gato é amigo de Lydia? Ou será que não é? A Lydia falou do gato de forma tão ambígua que eu fiquei na dúvida. E o Negan, a quem a Lydia falou do gato, o que é que ele sente pelo felino? Despertar-lhe-á pesadelos com Shiva, a tigra, que em tempos lhe comeu bastantes Salvadores? Tudo mal explicado. Aquele gato nunca se tornou um personagem tridimensional. Mal o deixaram dizer um mio. Nem sabemos se o vamos ver outra vez. Oportunidade desperdiçada de mergulhar na mente do cão do Daryl e de aprofundar o conflito com o gato, cujo nome deve ser Cat.
E assim acabamos mais uma temporada de “The Walking Dead”, que não chegou a terminar, na paródia. Já não dá para ver de outra maneira. É aceitar ou procurar outra série. Mas os zombies de Nicotero continuam tão bons, é difícil parar de ver.
§
Já depois de escrever este artigo li a notícia de que ”The Walking Dead” tem finalmente uma data marcada para acabar, lá para 2022 se a pandemia não atrapalhar. Talvez isto seja bom. Talvez a série desenvolva, agora que há um fim à vista.
Também li por alto que estão planeadas mais spin offs, mas já houve tantos anúncios neste sentido, sem que se concretizassem, que nessas só acreditarei quando as vir.
domingo, 23 de agosto de 2020
Atlantis (2013–2015)
“Atlantis” foi escrito pela mesma gente que criou “Merlin” e, para não destoar, é igualmente mau. Menos mau do que “Merlin” pela única razão de que só durou duas temporadas e foi logo cancelado porque a BBC não quis dar mais pão a malucos. Eu pergunto mesmo como é que deixam estas pessoas escrever para a BBC?... Cunhas, só pode. Tanta incompetência não se explica de outra maneira.
Mesmo assim, custa-me perceber como que é coisas destas acontecem (ou alguém as deixa passar) a um nível profissional, numa cadeia de televisão de prestígio. Os problemas começam logo no primeiro episódio. Jasão é um jovem dos nossos dias que se mete num submarino para investigar o local onde o barco do pai dele naufragou. Aparentemente, Jasão tem dúvidas de que o pai esteja morto, ou algo assim, porque só passámos cinco minutos com isto. Quando estava no fundo do mar, uma luz (portal?) suga-o de repente e Jasão acorda numa praia, nu da silva, que já é uma praia de Atlantis. É a Atlântida, mas até me custa chamar Atlântida àquela cidadezinha perfeitamente banal da Antiga Grécia, a lembrar Creta. Imediatamente, Jasão, vindo dos nossos dias, começa a falar perfeitamente Grego Antigo (é inglês, mas vocês percebem o que quero dizer com isto). O que nem é o pior, porque Jasão sente que finalmente chegou a um local que sempre lhe foi familiar e isto podia ter sido explicado de várias formas. Mas não foi. Jasão mete-se logo em apuros e acaba por ser salvo por dois amigos, Hércules e Pitágoras. Hércules, não sei que piada parva quiseram fazer com o Hércules mitológico, é um bêbedo gabarolas (interpretado por Mark Addy, o rei Robert Baratheon da Guerra dos Tronos, mas não o reconheci). Já Pitágoras é mesmo o Pitágoras, esse mesmo, o do Teorema. Ou, pelo menos, no episódio piloto deram a entender que sim, mas parece que também abandonaram essa ideia (?).
Ora, isto é a típica história do homem do futuro que viaja ao passado, não é? Não. Porque nunca –NUNCA– mais se fala do pormenor de que Jasão veio do futuro. Para todos os efeitos, Jasão podia ter chegado a Atlantis vindo de uma vilarota qualquer, da mesma maneira que Merlin chegou a Camelot. Exactamente da mesma maneira. O que aconteceu é que devem ter achado que a premissa do episódio piloto era demasiado ambiciosa e abandonaram-na. É como se nunca tivesse acontecido. É como se esperassem que os espectadores fossem tão imbecis que nunca mais se lembrassem desse “pormenor”.
Isto não é escrita profissional, nem em televisão nem em lado nenhum. Estas decisões tomam-se antes de o primeiro episódio ir para o ar. Em caso de dúvida, algumas séries até são visionadas por uma audiência beta que testa os primeiros episódios. Os senhores criadores de “Atlantis” decidiram simplesmente passar-nos um atestado de estupidez.
Eu nem sabia que “Atlantis” era dos mesmos autores. À medida que os episódios se foram passando, no entanto, e o facto de Jasão ser do futuro nunca mais ter sido mencionado, e aquilo começar a ser “três amigos vão em aventuras, derrotam os vilões e voltam para casa”, as semelhanças com “Merlin” saltaram à vista. Fui investigar e pronto, lá está, a explicação. “Atlantis” era para ser uma série como “Merlin”, com episódios só para encher até acontecer alguma coisa ao enredo nos últimos episódios da temporada. O que se justificava se a temporada fosse longa, mas são apenas 12 episódios. Não se justifica o encher de chouriços.
Até porque “Atlantis”, ao contrário de “Merlin” no princípio, até tem um enredo. Jasão, personagem que ficou sempre bidimensional do princípio ao fim, é aparentemente o herdeiro legítimo ao trono de Atlantis. Mas o trono está ocupado por um usurpador, o rei Minos, casado com a rainha Pasífae, madrasta da bonita-boazinha-inteligente-corajosa-e-perfeita-em-todos-os-sentidos princesa Ariadne. Pasífae é má como as cobras e quer matar o marido e a enteada para ficar ela no trono. Jasão e Ariadne apaixonam-se um pelo outro.
Os mitos vão com as urtigas, como já tinha acontecido com “Merlin”. Estes autores estão convencidos de que fazem melhor do que os mitos arturianos e gregos. Não me importava de um bocadinho de mistura, de modo a ser Jasão a matar o Minotauro e a apaixonar-se por Ariadne (em vez de Teseu), mas demais é demais. E demais foi mesmo a história de Medusa, que os próprios autores devem ter achado tão estúpida que não sabiam o que fazer com ela. Medusa, aqui em “Atlantis”, era uma mulher normal que trabalhava no palácio. Mas, quando ela abriu a caixa de Pandora, olhou lá para dentro e transformou-se na Górgona Medusa, a tal com serpentes em vez de cabelos.
Pára tudo! Medusa, uma das três irmãs Górgonas? A Caixa de Pandora, de onde vem o mito ocidental que a última coisa a perder é a esperança? O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Pois, não sei, mas os autores da série acharam que era giro trucidar dois mitos da cultura ocidental ao mesmo tempo. Mas estes são os mesmos autores que acharam giro que Jasão viesse dos nossos dias, no primeiro episódio, para abandonarem a ideia logo a seguir. A ideia de Medusa também deve ser resultado de um fim de tarde no pub, todos a beberem pints e a comerem peixe frito. Na altura, se calhar, pareceu-lhes muito original e interessante. Depois de se meterem no buraco, para agravar um pouco mais, a única solução que encontraram foi matar uma personagem que até era simpática e não merecia aquele fim.
A intriga palaciana não chegou, e os autores transformaram Pasífae numa bruxa com poderes iguais aos de Morgana em ”Merlin”. Foi como estar a ver a mesma série mas com outros personagens. Ariadne, igualmente, como Guinevere e Morgana, não é uma princesa qualquer, mas uma princesa que sabe lutar, cozinhar, fazer curativos, e ainda tem jeito para a governação e a política. Podiam tê-la feito ainda um bocadinho mais perfeita? Mais uma temporada e aposto que Ariadne ia desenvolver poderes mágicos também.
Se calhar o aspecto mais interessante dos episódios filler foram as lutas na arena. Desta vez os autores foram atrás do sucesso de “Spartacus” e nem lá faltou o Batiatus, para não termos dúvidas mesmo nenhumas (o actor John Hannah, a quem reconheci imediatamente a cara odiosa de “Spartacus”, mesmo com a maquilhagem de leproso, aqui na personagem de pai de Jasão). Muitas das aventuras dos três amigos (e de Medusa e Ariadne) eram desculpas para termos Jasão a lutar em jogos vários, na arena, de vida ou de morte. E houve morte, houve sim senhor, e, honra lhe seja feita, em “Atlantis”, como não acontecia em”Merlin”, até temos sangue nas espadas (quando a produção não se esquecia de o pôr lá). Até temos a aparição do Touro de Bronze, uma das formas de execução mais cruéis e horripilantes de que tenho conhecimento. Havia aqui muito a explorar, muito mesmo. Acima de tudo, havia a explorar o desaparecimento da Atlântida, que devia ter sido o enredo final numa série chamada Atlantis… mas não chegámos lá.
Duas temporadas e o enredo continuou em passo de caracol no meio do filler, com muitos sub-plots que não adiantavam nada ao avanço da história, exactamente à “Merlin”, um passo para a frente e dois para trás e tudo na mesma. No final da segunda temporada, que eu já sabia que ia ser a última, pensei que finalmente ia ver o fim da história. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que os autores estavam a pensar na renovação, que só agora é que iam pôr o Jasão e os argonautas em busca do Tosão de Ouro! Tiveram tanto tempo. Mas quiseram fazer render o peixe. Desta vez a BBC, ou as audiências, fartaram-se. Acabou mesmo assim, a meio da história. Não considero isto um spoiler porque nunca houve fim para contar. Enfim, mais uma série mal feita e frustrante.
Notei uma ligeira diferença em relação a “Merlin”, mesmo assim. Se “Merlin” andou sempre num registo infanto-juvenil (até ao fim, que foi emocionalmente brutal), “Atlantis” correu mais riscos. Tanto a nível de violência (as passagens com o Touro de Bronze, embora nunca tenha sido usado, foram de facto arrepiantes) como de outro teor. Nos últimos episódios, Pitágoras e Ícaro apaixonam-se. Isso mesmo, o génio e o mito. Até temos um beijo nos lábios, o primeiro beijo nos lábios entre dois homens que vi numa série com este registo juvenil. Não julguei que eles fossem lá, mas parece que os tempo já o permitem. Foi interessante, admito, mas questiono a intenção. Aquela paixão apareceu ali muito depressa, como algo de desesperado para dar interesse à série e pôr as pessoas a falar –e aqui estou eu, a falar da série– mais do que para abordar a homossexualidade. Ou seja, o que podia ter sido bastante inovador pareceu-me mais um sub-plot de encher chouriços enquanto o verdadeiro enredo não se desenredava.
Ícaro chegou à série através do inventor Dédalo, seu pai, e também não esperava que fizessem mesmo a passagem das asas de cera. Ora cá está, a prova de que os mitos não duram milhares de anos se não forem mesmo bons mitos. Por uma vez, os autores seguiram o mito e até tivemos um momento de humor genuíno, graças talvez ao actor Robert Lindsay (Dédalo), que muitos se recordarão da série cómica “A minha família”. Dédalo avisa o filho de que as asas de cera podem derreter ao sol, mas desta vez Ícaro não voa de encontro ao sol, porque, “pai, é de noite”. Gostei, foi giro, e uma abordagem ao clássico que não assassinou o mito como no caso de Medusa. Isto sim, é uma boa adaptação com uma reviravolta inesperada.
Então, se “Merlin” durou cinco longas, aborrecidas, excruciantes temporadas, o que é que aconteceu aqui que a BBC cancelou mesmo a meio? Não tenho a certeza. Terá “Atlantis” sido cancelado porque foi longe demais ao pisar o risco do sexo e da violência no que se pretendia uma série infanto-juvenil, ou, pelo contrário, porque não foi suficientemente longe? Ou porque nunca conseguiu decidir, como o seu antecessor “Merlin”, o que é que queria ser, o que é que queria fazer e a quem se destinava? Ou uma mistura disto tudo?
O grande mistério, para mim, foi o simples facto de as duas séries, na sua totalidade, terem sido exibidas durante sete temporadas antes que alguém se apercebesse da incompetência por detrás delas.
Não recomendo isto a ninguém, excepto talvez os dois últimos episódios, os do beijo e das asas de cera, e em que Pasífae ressuscita dos mortos. Que foi o mesmo que já disse de “Merlin”, só os últimos episódios é que se salvam.
domingo, 16 de agosto de 2020
Spides
Não consigo perceber o que é que na sinopse me levou a ver esta série, mas acho que foi a palavra “droga”. Qualquer coisa sobre um polícia a investigar uma nova droga chamada Blis. Não ajuda muito a captar a atenção do público alvo. “Spides” é a história de uma invasão extraterrestre em que a tal droga permite aos alienígenas apoderarem-se das pessoas e transformá-las em autómatos sem vontade, ou melhor, em zangões de uma colmeia em que o propósito é servir o invasor extraterrestre, uma espécie de insecto. Como se diz a certa altura, “seremos todos um só”.
A ideia não é nova, mas o enredo chega lá de forma diferente, através do tal polícia que começa a investigar uma série de homicídios e raptos relacionados com a tal droga. Alguém chamou à série um policial de ficção científica, e não posso discordar.
Sem saber muito bem o que ia ver, e tendo em conta que “Spides” passou no canal Syfy, a primeira cena deu-me logo vontade de desistir. Pensei que ia ser uma daquelas séries de ficção científica típicas do canal Syfy, com muitos monstros, muitas naves espaciais, muitos cenários extraterrestres, muitos efeitos especiais manhosos, muito cliché e nenhuma substância. Felizmente não sou de desistir facilmente. Mesmo assim, demorou-me uns dois ou três episódios para ficar investida na história e nos personagens. Os personagens são mesmo o grande calcanhar de Aquiles desta série. Nota-se que houve algum esforço para os desenvolver, mas não chegou. São todos clichés bidimensionais, desde a protagonista Young Adult que é muito boazinha e muito corajosa, até ao polícia do departamento de Estupefacientes que perdeu o parceiro e está em risco de tornar-se alcoólico e também drogado, até aos vilões que não podiam ser 100% mais vilões, até à melhor amiga que é mesmo isso e apenas isso, a melhor amiga. Em “Spides” só os vilões ou criminosos é que fumam, e fumam mal, ainda por cima, sempre com um véu de fumo à frente dos olhos para mostrar que fumam e que são vilões.
O curioso é que apesar disto tudo a história começou a cativar-me e dei por mim a ficar cada vez mais interessada de episódio para episódio. A todo o momento esperava que se abrisse um plot hole do tamanho de uma cratera, mas o enredo aguentou-se. O que parecia irrealista num episódio acabava por ser explicado no seguinte. É um daqueles casos em que a paciência é recompensada. Cada episódio me fazia confiar mais na série e deixar-me conduzir para onde o enredo me queria levar sem me ralar muito com os personagens bidimensionais. Afinal, quanto aos personagens bidimensionais, já vi muito, muito pior.
Mas havia algo nesta série que não parecia bater certo. “Spides” passa-se em Berlim e tem qualquer coisa de cheirinho a produção europeia, mas é falado em inglês. Segundo o IMDB, a série foi efectivamente escrita em alemão, mas foi rejeitada e tiveram de a traduzir para a venderem à NBC. Ora, eu acho que se calhar esta série fazia mais sentido em alemão, até para se perceber logo que não ia ser uma série completamente à Hollywood. Se calhar os diálogos até melhoravam porque, a juntar às personagens bidimensionais, os diálogos soam um bocado aos clichés adolescentes de “Os diários do vampiro”. Faltava aqui mais peso, mais profundidade. Não muito, só mais um bocadinho. Uma coisa menos óbvia, ainda mais europeia, só aqui ficava bem a fazer companhia ao cenário de Berlim.
Mesmo assim, nota-se que é um produto europeu na medida em que pisa certos riscos que nunca passariam em Hollywood. Como aquela cena do gajo a ver pornografia com o papel higiénico na mão. Tendo em conta o público alvo jovem e a ligeireza da série, até estou embasbacada que a NBC não tenha censurado. Se calhar não viram ou não perceberam.
“Spides” é daquelas coisas que se vêem bem sem esperar demais, uma série que quis ser ambiciosa mas que soube moderar a ambição para nunca dar passos maiores do que a perna.
Não vou dizer nada sobre o fim, mas parece-me que o objectivo era continuar por mais temporadas. O IMDB não é claro quanto a se a série foi renovada ou se está em aberto, mas admito que até via a continuação. Sempre conseguiram fazer-me interessar pelas personagens. Mas se acabar assim também não acaba mal e não nos deixa aquela sensação de série incompleta. Recomendo, sem grandes expectativas.
domingo, 9 de agosto de 2020
Beyond (2016–2018)
“Beyond” é daquelas séries de que eu não esperava muito, mas admito que esperava que ao menos fizesse sentido. Um rapaz é apanhado num bosque por uma luz intensa e branca (que nos leva logo a pensar em extraterrestres) e fica num coma de que só acorda doze anos depois. Estranhamente, durante esses doze anos os músculos não atrofiaram e não se notam sequelas neurológicas. É como se ele tivesse acordado de uma soneca. Os médicos não conseguem explicar mas os pais estão radiantes. Parece interessante, não parece? E até é, até o mistério começar a ser “explicado”.
Este é daqueles casos em que não sei se os escritores sabiam como a história ia acabar quando começaram a escrever, ou se foram improvisando por ali fora, à “Lost”. Inclino-me mais para esta última hipótese porque de facto a série tem um cheirinho a “Lost”: em todos os episódios aparece mais um mistério, e mais um, e outro, e os episódios vão-se acumulando sem que nada seja devidamente explicado. Até era melhor que não fosse, porque quando há tentativas de explicação a coisa descamba muito.
Parece que, durante o coma, a consciência de Holden (o tal rapaz) foi para um plano de existência diferente a que a série chama O Reino, uma espécie de mundo de Fantasia com templos de abrigo e espectros maléficos. Afinal aquilo da luz branca era só para enganar, não eram encontros imediatos nem Ficheiros Secretos. E até seria fácil de compreender se eles tivessem mantido a versão de Fantasia de O Reino, mas depois meteram água. Quiseram complicar e meter religião à mistura, e afinal O Reino é o Além, a vida depois da morte. Ora, não é que me importasse que o Além fosse uma espécie de Senhor dos Anéis com espectros e super-heróis e cenários de Fantasia, mas não me parece.
E depois havia este outro personagem misterioso que também estava em coma e que dizia a Holden, telepaticamente, para voltar ao Reino e fazer qualquer coisa que nunca se percebeu muito bem, e o Holden até fez isso no final da primeira temporada, mas na segunda temporada parece que afinal ele ainda fez pior e agora os espectros maléficos do Além estão a passar para o nosso mundo para o destruir. Sim, estamos mesmo a falar do Além religioso, afinal não é um mundo de Fantasia, e os espectros não sei o que são, perguntem à série, mas acho que a série também não sabe.
É difícil explicar até que ponto o enredo sobrenatural é mau, medíocre. É preciso ver para crer. Porque em “Lost”, pelo menos, os autores conseguiram manter-nos agarrados temporada após temporada (e eu devo ter sido a única pessoa que gostou do fim), mas aqui a coisa descambou logo passados cinco ou seis episódios.
Do que é que eu gostei nesta série? Exactamente tudo o que não devia ser o mais importante numa série de sobrenatural. Afinal o grande forte de “Beyond” são as personagens e as relações entre elas. Logo no começo, quando Holden acorda, encontra toda a família feliz e unida de que se lembra dos seus tempos de infância. Mas um ou dois episódios mais tarde sabe-se que afinal os pais dele já nem estão juntos, há muitos anos, que o coma do filho acabou por levá-los à separação, que toda aquela cena familiar era uma encenação para que Holden não sofresse um grande choque. O amor dos pais pelo filho que acordou do coma, a ponto de fingirem que nunca se separaram e que nada mudou, é muito humano e algo que nos comove. Holden tem um irmão mais novo, Luke, que era uma criança quando Holden ficou em coma, mas agora é Luke quem tem de ensinar ao irmão mais velho tudo aquilo que ele não aprendeu durante a adolescência. Pode não ser muito original, mas é sempre interessante de ver. E é assim que eles nos agarram nesta série, estratégia telenovela. Mas a parte sobrenatural era efectivamente tão má que a certas alturas preferi que se esquecessem dela e se ficassem pelo drama familiar do rapaz que acorda do coma e tem de se adaptar a um mundo que já não conhece.
Mas a série lá vai cavando buracos onde se enterrar, de buraco em buraco até ao buraco final. Não fiquei surpreendida quando foi cancelada depois da segunda temporada. Fiquei surpreendida por ter sido renovada depois daquela parvoeira do Além e dos espectros maléficos tipo Senhor dos Anéis. No momento em que escrevo esta crítica ainda não vi o último episódio mas já estou a adivinhar que nada disto vai ser resolvido e que os autores da série julgam que vão conseguir renovar mais algumas temporadas se o último episódio acabar noutro mistério por explicar. Se estiver enganada, tenho de escrever um fim diferente para esta crítica. Se tiver razão, volto aqui e acrescento “eu não dizia?”.
Eu não dizia?
Fui procurar à net e encontrei uma curiosidade. “Beyond” foi cancelada pelo canal Freeform que nessa mesma semana decidiu apostar antes em “Siren”. Uma excelente aposta, na minha opinião, e um upgrade de vários níveis acima de “Beyond”.
domingo, 19 de julho de 2020
Stranger Things
[crítica à segunda e terceira temporadas; não revela o fim]
Confesso que passei a segunda temporada de “Stranger Things” com um encolher de ombros. Os autores prometeram que a história se ia tornar mais negra, mas afinal foi mais do mesmo e já sem o impacto da novidade da temporada inicial. A fórmula funcionou e apenas se repetiu a fórmula, mais monstros, os miúdos a caçar os monstros, muita nostalgia, música dos anos 80 (e não a melhor música nem a mais conhecida, ainda por cima. Neste aspecto a última temporada de “American Horror Story: 1984” esteve muito melhor e realmente passava as músicas que eu me lembro de ouvir em todo o lado e a toda a hora na rádio e na TV).
Mas há que admitir, os autores de “Stranger Things” são exímios contadores de histórias, gente que sabe tudo o que funciona para nos viciar. E para nos manipular. Se há coisa em que são ainda mais peritos é em manipular as nossas emoções. E o pior é que nós sabemos que estamos a ser manipulados e já vamos para lá à espera dos altos e baixos emocionais, como quem compra um bilhete para a montanha russa da última temporada, que tanto nos fazem rir como nos fazem chorar. Mesmo que às vezes haja batota pelo meio.
Por exemplo, na segunda temporada Dustin encontra um bichinho estranho e em forma de lesma que parece um girino, mas ao mesmo tempo não é nada como ele alguma vez tenha visto, e nós todos já estamos fartos de saber que aquilo veio do Upside Down e não vai acabar bem. Dustin também teria obrigação de saber, porque Dustin é tudo menos parvo, mas aqui fazem que ele esqueça o que passaram todos a lutar contra o Demogorgon. Leva o bichinho para casa, mete-o no terrário da tartaruga, e começa a alimentá-lo. Há quem discorde, mas a verdade é que até eu achei o bicho fofinho. Especialmente quando certa vez este acorda e se espreguiça, e estica as patinhas de trás à gato. Sim, claro que foi à gato para nos manipular, para ficarmos viciados no bichinho. Só que depois o bicho cresce e transforma-se numa espécie de Demogorgon e mesmo assim não paramos de ser manipulados. Há uma cena em que o bicho, já crescido, anda atrás de Dustin, mas nunca o vemos tentar atacá-lo. O bicho anda atrás de Dustin como qualquer animal de estimação anda atrás do seu cuidador. Isto é mesmo para nos partir o coração, porque já sabemos qual vai ser o destino deste pobre monstro que se calhar até gostava de Dustin. Os autores são ainda mais espertos, porque vemos uma última cena ternurenta no penúltimo ou último episódio, mas nunca vemos o que acontece realmente ao pet de Dustin, porque senão ficávamos todos com um grande amargo de boca. Dustin levou o bichinho para casa, tomou conta dele, e quando ele cresceu e se tornou perigoso expulsou-o, primeiro, e deixou que o matassem depois. Não queríamos pensar isto de Dustin, por isso a série fez batota e não nos deixa ver o que aconteceu ao Demogorgon domesticado que apesar de adulto ainda comia à mão de Dustin.
Outras manipulações são mais corriqueiras. Quando, por exemplo, nos apresentam um personagem novo que não faz parte do cast central, e passamos algum tempo com ele até nos importarmos com o que lhe acontece. E já sabemos o que isso significa, não sabemos? É claro que vai ser ele/ela a morrer para não ser preciso matar nenhum dos protagonistas. “Stranger Things” sabe-a toda e nós fingimos que não percebemos porque também queremos ser entretidos e também não queremos que nenhum dos protagonistas morra. Mas, no reverso da medalha, a certa altura todo o perigo que eles enfrentam perde as consequências porque já sabemos que não lhes vai acontecer nada. Isto priva-nos do nervosismo de roermos as unhas e sentirmos o coração apertado sempre que um dos protagonistas está em grandes apuros. A série pode agradar mais assim a certos espectadores, mas não a todos, e o que ganha em leveza perde em dramatismo.
Não há muita história nova para contar nestas duas temporadas. Os monstros do Upside Down continuam a conseguir passar-se para o nosso lado e os nossos heróis continuam a conseguir derrotá-los com muito custo e sacrifício (mas nunca o sacrifício deles).
Mas na terceira temporada, finalmente, os miúdos deixaram de ser tão infantis e começaram a entrar na puberdade. E a puberdade é muito gira, desde que não sejamos nós a passar por ela. Will, pobre puto, ainda quer jogar ao Dungeon & Dragons, mas os amigos entretanto encontraram um interesse que arruma qualquer jogo a um canto: agora têm namoradas! Will ainda não partilha esse tipo de interesse e sente-se posto de lado. Mas Mike e Lucas também só começaram a jogar este novo “jogo” há poucos meses, e sentem-se uns peixes fora de água. Alguns dos diálogos são hilariantes e lembram-me coisas que nós dizíamos uns aos outros quando éramos da idade deles. “Não sabes que as mulheres são uma espécie diferente?”, pergunta Lucas a Mike, quando Eleven cortou com Mike mas Mike quer reatar, e Lucas fala como se já soubesse tudo sobre as mulheres porque tem mais um ou dois meses de experiência, o que já o torna algo perito no assunto: “As mulheres não são racionais. Eu já deixei de andar com a Max uma meia dúzia de vezes e sempre consegui que ela fizesse as pazes comigo. Queres saber como voltar para ela? Quanto dinheiro tens? Tens de comprar-lhe um presente.” Confesso que ri às gargalhadas com as certezas deste miúdo, quando tudo era tão simples e fácil de resolver.
Mas não é, que o digam Joyce e Hopper, os adultos com a experiência toda que nem mesmo assim conseguem entender-se numa relação romântica. “Oh, poupem-me! Parem de discutir e vão fazer sexo, já, porque já ninguém vos atura!”, diz-lhes alguém, e foi a cena em que mais me ri. Não foi só isto que me fez rir, há todo um contexto que não interessa contar porque não há nada como ver.
Mas do que gostei mesmo, mesmo, foi da relação que se estabeleceu entre Hopper e Eleven, desde que ele a acolheu em segredo no fim da primeira temporada. Eleven pode ser uma miúda com super poderes, mas não passa de uma miúda que precisa de uma figura paternal, e Hopper pode ser um polícia empedernido e durão, mas é também o homem que perdeu uma filha. Quando, na segunda temporada, Eleven chega a casa já de noite, depois de sair sem dizer (ela tem doze anos, afinal, tem de pedir permissão), e vê ao longe, no alpendre, a luz do cigarro de Hopper, sentado no escuro, a fazer-lhe uma espera para lhe dar o arroz, e Eleven se sente comprometida como se nem fosse super-poderosa, é já uma dinâmica pai/filha que está a acontecer. Uma dinâmica nascida não de relações de sangue, mas mais forte ainda do que estas porque é uma dinâmica que surge do amor, da vulnerabilidade de um e de outro, ambos tão fortes e senhores de si e ambos tão necessitados da relação familiar que nunca tiveram ou que foi interrompida cedo demais.
Na terceira temporada, Hopper já age como um pai de facto, um pai à antiga, e um pai atarantado porque agora tem uma filha que namora com um rapaz (um rapaz, sozinhos no quarto dela!), e Hopper impõe regras e regras que Eleven, como qualquer miúda da sua idade, faz questão de não cumprir, e tudo isto o coloca à beira de um ataque de nervos de fumar cigarros um atrás do outro e arrancar os cabelos.
Esta série tem nostalgia que baste para todos, mas esta foi a relação que mais me interessou, uma relação entre pai e filha que é verdadeiramente original porque Eleven não é uma miúda qualquer. Este pai adoptou uma filha na mesma medida em que a filha adoptou um pai.
E por falar em nostalgia, aquela conversa entre os adolescentes Steve e Robin no chão da casa de banho do centro comercial, ambos completamente pedrados, que começa numa discussão filosófica sobre o filme “Regresso ao Futuro” e acaba com ela a confessar que gosta de miúdas, quando Steve já estava a avançar para outras águas que não as da amizade. Isto sim, trouxe-me memórias, de outras casas de banho, de outras conversas, de outras pedradas, de outras confissões.
E é assim que “Stranger Things” nos agarra. Há ali algo para todos, como na feira popular da terceira temporada, e nem começo a contar-vos a nostalgia que me bateu ao lembrar a nossa velhinha Feira Popular, onde toda a gente ia e onde toda a gente se divertia, e as saudades que eu tenho dela nas noites de verão…
“Stranger Things” vai provocar-nos no âmago das nossas recordações e são as nossas recordações, nem mais nem menos, que fazem o sucesso desta série. A fórmula resulta e não faço a mínima ideia de quanto mais tempo possa durar.
Na terceira temporada, referências e homenagens a “Terminator” (não era um Terminator, mas que parecia, parecia), a Parque Jurássico e a Alien. Fora as outras todas que eu não apanhei ou que nunca vi porque não eram o meu género.
domingo, 12 de julho de 2020
The Terror: Infamy
“The Terror: Infamy” é a temporada seguinte na sequência do excepcional “The Terror”. Digo “seguinte” e não “segunda” porque a história não tem nada a ver com a da primeira. Nem a história nem a qualidade. Na minha opinião, e não sou a única a pensar assim, era bem melhor terem feito uma série diferente sem acartar o peso da temporada original. Comparar esta temporada à inicial (uma das melhores séries de terror que já vi na vida, senão a melhor) não faz nenhuns favores a “Infamy”, pelo contrário.
Não é que eu não estivesse preparada para a decepção. “Infamy” tinha uma tarefa quase impossível, estar à altura de uma série que é praticamente perfeita, a que eu só não daria 20 em 20 por ser picuinhas e pelo CGI do tuunbaq deixar muito a desejar. Dava-lhe 18 em 20, mesmo assim. A “Infamy” posso dar 14 em 20 pela parte histórica e pela cinematografia; não posso dar mais porque não merece.
“Infamy” passa-se nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, logo após o ataque a Pearl Harbor, quando os residentes japoneses foram declarados inimigos de guerra e presos em campos de concentração. Esta é uma passagem da História da América que só recentemente começou a ser discutida abertamente, e é actualmente considerada uma infâmia. Não foram aprisionados apenas os imigrantes japoneses como também a segunda geração, isto é, cidadãos plenamente americanos nascidos e criados nos Estados Unidos. Todos foram arrebanhados das suas casas e enfiados em barracas sem condições nem dignidade, em campos com arame farpado sob custódia do exército, a lembrar os judeus na Alemanha mas sem as câmaras de gás. Nesta série participaram muitas pessoas que estiveram nesses campos eles próprios, ou que são descendentes. O tema de ”Infamy” é muito bom e teria sido melhor fazerem um drama histórico em vez de uma série de terror porque, honestamente, foi a parte de terror que estragou tudo.
O que se salva em ”Infamy” são precisamente os pontos que tem em comum com a temporada original. Tal como no caso das tripulações do HMS Terror e do HMS Erebus no mar árctico, estas pessoas também já estão a viver um filme de terror sem ser preciso o sobrenatural a piorar a situação.
Tal como em “The Terror”, o sobrenatural é exótico e tem a ver com a cultura dos protagonistas. O tuunbaq, no primeiro caso, o yurei aqui, um espírito vingativo que consegue levantar o próprio cadáver da sepultura ou possuir pessoas conforme isso sirva o seu objectivo.
E, tal como em “The Terror”, existe o uso das fotografias distorcidas a indicar que algo de sobrenatural e ameaçador está prestes a acontecer. Temos até uma explicação para estas fotografias em ambas as temporadas. Chester Nakayama, o protagonista, pergunta ao seu professor de fotografia porque é que as fotos saíram assim e este diz-lhe que a máquina fotográfica é a maneira como o fotógrafo se relaciona com o mundo. Isto é, que as fotos saíram distorcidas porque o fotógrafo pressentia uma distorção na sua realidade. Gostei desta explicação, um pouco poética e um pouco psicológica, e não preciso de explicação melhor. Gostei que a explicação também se aplicasse às imagens distorcidas captadas pelo doutor Goodsir em “The Terror”. E gostei das cenas com os pescadores japoneses a pescar em águas geladas, tal como em “The Terror”, e tudo o que me lembrava da primeira temporada só me fazia saltar à vista que não estava a assistir a uma história com a mesma qualidade, e a comparação ainda prejudicava mais o que já não era bom.
O primeiro episódio até promete. A primeira morte é arrepiante, se calhar porque ainda não sabemos o que se passa. O drama dos japoneses nos campos de concentração, a desconfiança e o ódio dos americanos para com aqueles que até há pouco tempo eram seus vizinhos, é cativante e vale a pena. O romance de Chester Nakayama com uma mulher de outra minoria, Luz Ojeda, filha de mexicanos, também ajuda a estimular o interesse. As primeiras aparições do yurei, o espírito vingativo, na forma de uma japonesa lindíssima e, por esse motivo, mais enganadora e perigosa, também são intrigantes. Onde é que tudo isto falha? É na continuação. Afinal o yurei queria a alma de Chester, mas depois já não queria e qualquer alma de criança lhe servia, mas depois já queria os filhos de Chester, e entretanto acho que já nem o yurei sabe o que quer. Não me perguntem, eu também percebi muito pouco. E uma história tem de fazer sentido. Aqui até parece que quem começou a escrever não sabia como acabar e desatou a improvisar às três pancadas. Não correu nada bem. A história tornou-se cada vez mais errática, tanto a nível do yurei como a nível das personagens humanas (num episódio Luz já não quer ver Chester à frente, mas 30 minutos depois já quer viver com ele, sem que nada tenha acontecido para a fazer mudar de ideias) e começou a ser um bocadinho doloroso de assistir.
Existem algumas partes que realmente espelham qualidade, como o Além onde o yurei está aprisionado, uma espécie de Céu e de Inferno ao mesmo tempo, e toda a envolvente histórica, e os episódios em Guadalcanal que nos mostram o horror real da guerra, mas depois parece que tudo isto foram cenas escritas separadamente umas das outras e que alguém teve de as coser numa manta de retalhos que saiu assimétrica e feia. As cenas de terror propriamente dito, que deviam ter sido arrepiantes como foi a primeira, simplesmente não tiveram o impacto que deviam porque a certa altura já não sabemos o que se passa, nem temos a certeza se nos interessa saber, e é como assistir a um desenho animado em que os personagens não são de carne e osso. Havia aqui bastante material para agarrar o espectador, mas foi desbaratado.
Alguém mais mauzinho do que eu disse que “infâmia” é chamar “The Terror” a esta temporada. Eu também acho que é melhor esquecer essa parte do título e ver isto como uma tentativa falhada de criar algo verdadeiramente pungente. Se calhar o problema foi esse, como no caso da expedição perdida do HMS Terror, ambição a mais.

















