domingo, 17 de janeiro de 2021

Mary Shelley's Frankenstein / Frankenstein, de Mary Shelley (1994)

Sinceramente não me lembro se já tinha visto este filme. Mas aposto que daqui por vinte anos também não me vou lembrar de o ter visto agora. Lembro-me de ler uma crítica na altura que chamava “histérico” a Kenneth Branagh (protagonista Victor Frankenstein e realizador). Na altura ri-me, mas agora concordo. Não é só Branagh que é histérico, todo o filme é histérico.
Como o título indica, este filme tenta ser (?) a adaptação fiel do livro de Mary Shelley, mas a sensação que me deu é que foi buscar mais inspiração aos clássicos de monstros de Hollywood dos anos 30: "Frankenstein" (1931), "The Bride of Frankenstein" (1935). O guarda roupa e cenários são igualmente anacrónicos e mais próprios de um qualquer filme de fantasia de Tim Burton do que de um filme realista de época. (Mas se todo o mal fosse esse até não era grave.)
“Frankenstein” de Mary Shelley não é um livro histérico. Pessoalmente, nem o considero um livro de terror. Considero-o um drama filosófico que me fez chorar de empatia com o “monstro” que não pediu para existir.
O monstro, que não tem nome, ou Criatura, chamemos-lhe antes assim (interpretado por um Robert De Niro irreconhecível), foi mesmo o melhor momento do filme e o mais fiel ao livro. Mas durou pouco, na ganância de mostrar muitos efeitos especiais, muita electricidade a faiscar, muitas morgues e pedaços de cadáveres e outros elementos de gosto duvidoso. O livro da autora é subtil e convida-nos a simpatizar com a Criatura, e é por isso que é um clássico. Este filme não consegue fazer nada disso (a Criatura transforma-se demasiado facilmente num homem malvado e caprichoso), e é por isso um filme esquecível.
Recomendo antes a leitura do livro, melhor e mais interessante.

14 em 15, para ser generosa 



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A Revolta de Tuong, de Armando Frazão

“A Revolta de Tuong” é um livro de ficção científica hard que vai agradar a quem gosta de acção, especialmente acção militar.
A história passa-se no futuro. O capitão Andrew MacGregor, ou Tuong, como lhe chamam os extraterrestres, é um oficial humano que se voluntaria para ser “modificado” por tecnologia alienígena de modo a combater melhor os movimentos anarquistas que ameaçam a paz do Estado Mundial. Os alienígenas, Tuarianos, tinham chegado à Terra para oferecer ajuda, mas com o tempo Andrew MacGregor apercebe-se de que têm uma agenda muito mais sinistra. Só lhe resta, a ele e ao seu batalhão, iniciar uma revolta para os desmascarar. Mas a tecnologia alienígena é muito mais avançada do que a terrestre e terão de usar de toda a astúcia para atingir os seus fins. Conseguirão, ou serão derrotados?
Acima de tudo, esta é uma história que opõe o engenho humano à tecnologia superior. Uma boa leitura para quem gosta de ficção científica, extraterrestres e acção.

“A Revolta de Tuong” pode ser adquirido aqui: www.amazon.co.uk/Revolta-Tuong-Armando-Frazão/dp/B08Q6NZZBR

Tudo sobre o livro no blog do autor, aqui: armandofrazao.wordpress.com/2021/01/06/a-revolta-de-tuong-press-release


domingo, 10 de janeiro de 2021

A História de Lisey, de Stephen King

Embora conheça a obra de Stephen King através dos filmes, dele só tinha lido "Salem's Lot", publicado em 1975, e não fiquei bem impressionada com a escrita a ponto de querer ler mais. Para um autor competente, mas com personagens bidimensionais, os filmes chegavam muito bem.
Este livro de 2006, “A História de Lisey”, é outra conversa. É outra escrita. É grande literatura. É certo que se passaram 31 anos desde “Salem’s Lot”, e muita evolução como escritor, sem dúvida, mas há aqui uma liberdade de linguagem, de narrativa, até de construção, que só o estatuto permite a Stephen King. Uma editora nunca publicaria este livro a um autor desconhecido, muito menos sendo um livro de “género”. Num livro de Terror espera-se que o autor conte a história decentemente, provoque alguns sustos, e acabe depressa, para consumo rápido. “A História de Lisey” é tudo menos consumo rápido e não é para leitores impacientes ou que gostam de muita acção e muitos sustos.
Mas aos leitores que gostam de boa escrita, de uma estrutura fora-da-caixa, de personagens bem construídos, de uma viagem ao psiquismo de cada um deles, este livro é para vocês.
Começa logo com o tamanho. O formato do livro que li é dos mais pequenos e tem 600 páginas, mas as letras são minúsculas. Isto noutro formato talvez não chegasse às seiscentas, mas andaria igualmente pelas quinhentas e muitas.
Durante um terço do livro não acontece praticamente nada. Lisey é a viúva de um escritor de sucesso, Scott Landon, e dois anos após a morte dele ainda não decidiu o que fazer com o espólio do marido, apontamentos, livros, teses, jornais e revistas, e nem sabe se existe no meio daquela tralha toda um romance inédito. Lisey não é exactamente uma intelectual e nunca acompanhou de perto a obra do marido. Pior um pouco, ela própria admite que nunca gostou muito dos livros dele (Terror, dá-se a entender), e ele sabe disso. Lisey diz a certa altura que “Atracção Fatal” é que é um filme como deve ser que já viu muitas vezes, “nada daquelas tretas suecas com legendas”. Esta admissão diz-nos tudo o que precisamos de saber sobre a personagem. Questionei-me muito por que motivo tinha um intelectual casado com uma pessoa com encanto zero, na minha opinião, e não vou explicitar as conclusões a que cheguei.
Duzentas páginas a ler sobre uma personagem assim é violento. Lisey tem três irmãs (não percebi se são mesmo três ou quatro, era preciso ler de novo, o que não vai acontecer) e as primeiras duzentas páginas são quase só isto, drama familiar entre elas, memórias do marido, a exasperação de Lisey perante os interessados no espólio que ela nunca mais se decide a partilhar. O que nos prende é a maneira como King nos manipula, transformando-a numa narradora não confiável. A certa altura ela começa a falar com o marido. Em pensamentos, ou ouve mesmo a voz dele? E ouve a voz dele porque está a pirular? Lisey é uma mulher de meia-idade, não é nenhuma garota. Pode bem estar a pirular. O que eu não senti dela, nesta fase, foi desgosto. Só consegui sentir desgosto no fim, seiscentas páginas depois. O que me passou dela foi uma mulher banal, sem saber o que fazer à vida sem o marido (não tem qualquer ocupação), e ainda por cima demasiado preguiçosa para arrumar as coisas dele. Dois anos passados!
A primeira coisa que acontece que é digna de meter medo, é certa passagem em que ela julga que o marido possuiu o corpo da irmã, catatónica, para falar com ela. Mas por esta altura já a julgamos tão maluquinha que temos dificuldade em acreditar nisto. Se não fosse um livro de Stephen King nem me passaria pela cabeça que o que estava a acontecer podia de facto ter origem sobrenatural. E não haveria nada de errado nisto. Stephen King tem todo o direito de escrever um drama familiar com uma personagem a perder a sanidade.
Por esta altura também, já no segundo terço do livro, Lisey começa a ser perseguida por um fã obcecado e tresloucado, que a quer obrigar a abdicar do espólio do marido, seja por que meios forem. O fã obcecado é uma imagem de marca de Stephen King (“Misery”) que me faz pensar como é que ele não tem medo de escrever. Outra imagem de marca, infelizmente, é a mulher que vive em função do marido. É que Stephen King também é um homem “antigo”. Cresceu com mulheres a viver em função dos homens na sua vida. Mulheres como Lisey.
O que realmente mete medo é o que acontece lá para o meio, quando sabemos que tanto o pai como o irmão de Scott sofriam de alguma doença e/ou maldição que os transformava em monstros a certa altura das suas vidas. Quase como lobisomens, mas não são lobisomens. Sim senhor, meteu medo, e os leitores de Terror não vão sair deste livro defraudados.
A partir daqui, as coisas tornam-se mirabolantes. Não apenas uma, como várias personagens, têm o “poder” de ir a uma dimensão paralela apenas ao fecharem os olhos e quererem lá ir. Stephen King já escreveu tantos livros que desconheço se a explicação está algures na sua obra prolífica, mas mesmo assim eu acho que uma coisa destas merecia uma explicação aqui. Ficou inexplicado e é pena, porque por aquela altura eu já estava convencida de que estávamos a viver completamente no mundo de fantasia da cabeça de Lisey. Não me teria surpreendido se ela acabasse por revelar que tinha sido ela a matar o marido (o que a tinha levado a pirular), ou que Lisey fosse uma personagem numa história de Scott (o marido também não batia bem da bola), ou que Lisey acabasse no manicómio com todas as irmãs a olharem para ela com piedade, ou outra coisa ainda mais estrambólica. Neste aspecto, fiquei decepcionada com o fim. Pelo menos compreendi o título, e porque é que se chama “A História de Lisey” em vez de só “Lisey”, mas mesmo assim o motivo não me convenceu muito.
“A História de Lisey” vale sobretudo pela escrita e pela estrutura não-linear, complexa, que nos obriga a ir completando o puzzle por nós próprios. Stephen King atinge aqui uma maturidade como autor que até lhe permite ir tecendo comentários sobre o mundo da literatura e da escrita que muito provavelmente só outros escritores vão compreender na sua totalidade. “A realidade é o Ralph” foi uma das que me fez rir para dentro.
Só lamento que a protagonista seja tão desenxabida (sem gracinha nenhuma). Mas a realidade é o Ralph, e as desenxabidas desta vida, e Stephen King retratou-a muito bem.


domingo, 3 de janeiro de 2021

Better Call Saul

[contém spoilers de “Breaking Bad”]

 

Que série tão boa! Deve ser a primeira vez que faço a crítica a uma série antes de acabar de ver a primeira temporada. É que já estou convencida e ainda não vi o último episódio.
“Better Call Saul” é um spin off e uma prequela de “Breaking Bad”, a história do homem que viríamos a conhecer por Saul Goodman, advogado amoral e sem escrúpulos.
Em “Breaking Bad”, Saul Goodman era em todas as suas aparições o comic relief de uma tragédia. Por isso também parti para esta série enganada, à espera talvez de uma série humorística. E de facto “Better Call Saul” tem momentos verdadeiramente hilariantes, mérito do actor Bob Odenkirk e dos criadores Vince Gilligan e Peter Gould, mas afinal é a história dramática do homem chamado Jimmy McGill. Aproveitamos para aprofundar também outra personagem de peso de “Breaking Bad”, Mike Ehrmantraut, que nunca chegámos a conhecer verdadeiramente porque não era pessoa de muitas falas e muito menos confidências.
Vimos “Better Call Saul” e perguntamo-nos: como é que nunca se percebeu a grande personagem que aqui estava em Saul Goodman? Fácil. Porque em “Breaking Bad” todas as personagens eram grandes, mas nenhuma conseguia brilhar ao lado da estrela poderosa Walter White. Walter White, como um buraco negro, sugava todas as atenções. De tal modo que ver “Better Call Saul” me levou a visionar algumas partes de episódios de “Breaking Bad” e decidi ver esta última série outra vez. O apelo de Walter White é demasiado magnetizante para olharmos para o lado.
Mas aqui, Saul Goodman, ou melhor, Jimmy McGill, pode brilhar à vontade. Esta é uma série completamente focada nas personagens, que nos consegue manter interessados mesmo quando eles estão a discutir pormenores da lei e casos de tribunal de que não percebemos nada. As personagens são tão realistas que quase sinto que as conheço. Por exemplo, a relação de amizade entre Jimmy e Kim, que às vezes parece a de dois ex-namorados, outras vezes nem parece ter chegado tão longe. São apenas dois amigos que mandam bocas um ao outro e se ajudam mutuamente, lealmente, quando é necessário. Amizade pura, muito mais interessante do que qualquer envolvimento romântico.
Jimmy McGill pode não ser o génio científico que Walter White era, mas não deixa de ser um génio à sua maneira.*
[*Aliás, e perdoem-me outra referência e spoiler de “Breaking Bad”, que Saul Goodman seja um génio não é de admirar. Só uma inteligência acima da média conseguiria escapar com vida (literalmente, com vida) à devastação nuclear que a implosão de Whalter White provocou em seu redor.]
Sempre um grande espertalhão, passou uma juventude de expedientes e burlas até decidir seguir as pisadas do irmão mais velho, a quem põe num pedestal, e tira um curso de Direito por correspondência. Ou melhor, agora chama-se “à distância”, como ele nos recorda. E é então que aparece McGill o advogado, ainda sem os cartéis mas já o animal feroz que viremos a conhecer como Saul Goodman.
Jimmy McGill vive nas traseiras de um salão de beleza, nuns arrumos, a sua “casa” e “escritório”, e faz das tripas coração para se assumir na profissão, licitamente, a ganhar uma ninharia como defensor público. E Jimmy McGill é um advogado genial, mas tem sempre algo a travá-lo.
Nesta primeira temporada percebemos que foi uma traição que o impediu de progredir, uma traição de partir o coração. Uma traição cheia de ingratidão, que Jimmy McGill não merecia. A traição de quem mais tinha o dever de estar do seu lado.
Nem preciso de mais nada para perceber como é que o bem-intencionado Jimmy McGill se transforma no cínico Saul Goodman que conhecemos na série original. Está explicado. Mas isto não acaba aqui. “Better Call Saul” já vai na quinta temporada, um verdadeiro sucesso tendo em conta que começou como spin off e prequela. Episódios tão bem equilibrados entre o dramatismo e o humor são coisa de verdadeiro génio. Esta é uma série para ver e para rever. Por esta altura, já não espero outra coisa do criador Vince Gilligan.


domingo, 27 de dezembro de 2020

Siglo XX, ilustres desconhecidos


Os Siglo XX são uma banda belga formada em 1978. Uma banda que só descobri graças, mais uma vez, ao festival Extramuralhas do ano passado. Não posso dizer que nunca tinha ouvido falar deles, porque afinal até tenho um tema dos Siglo XX na compilação “Fuck Yeah Goths Mix One” (2010), mas simplesmente não lhes tinha prestado a atenção que merecem. Desde o Extramuralhas 2019, que lhes descreve o género musical como Coldwave, Gothic Rock, Darkwave e Post-Punk, fui finalmente aprofundar a discografia desta excelente banda. E fiquei perplexa de como é que me passaram ao lado este tempo todo. Mas mais vale tarde do que nunca.
Um dos motivos para isto, suspeito, é que a música dos Siglo XX não é exactamente dançável (pode ser, mas é mais para ouvir do que para dançar, no meu gosto pessoal) e passa muito discretamente no meio de outras bandas do mesmo género. Não é banda em que se repare numa disco ou bar, por exemplo, enquanto se conversa com amigos.
Às vezes os temas lembram-me Joy Division, outras Bauhaus, outras ainda Siouxie and The Banshees, e Sisters of Mercy e Nick Cave do início, e até Dead Can Dance do primeiro álbum. Como é que é possível perdê-los?
Os Siglo XX fazem um som subtil e envolvente, com letras fortes e sombrias, que merecia ser mais conhecido. Recomendo que os vão já descobrir se eles também vos passaram ao lado.

domingo, 20 de dezembro de 2020

O fantástico som Pioneer

Deixem-me contar-vos a história de como me apaixonei pelo som Pioneer.
Mas antes, deixem-me dizer-vos que este post não foi de forma alguma patrocinado pela marca. Este é um post de amor. E um post que já devia ter escrito há muito tempo, mas que foi ficando para “depois”.
Nos anos 80 e 90, quando eu despertei para a música, comprar Pioneer era impensável. Era uma marca cara, inacessível a gente que ainda andava na escola. Habituei-me a comprar Sony, que naquele tempo era a marca que oferecia melhor relação preço/qualidade.
Aqui há uns anos valentes, o meu amplificador Sony deu o berro e dirigi-me a uma loja para comprar outro. Foi aí que tive a sorte de os Sony estarem esgotados e de ver um amplificador Pioneer ao mesmo preço. Como tinha pressa (viver sem música não é uma opção), comprei o Pioneer. Mas não estava convencida. Achei que era um produto abaixo do Sony, para bolsas pobres.
Quando cheguei a casa e experimentei, foi como pela primeira vez ter ouvido o som do paraíso. Límpido, cristalino, um som em que se percebem todas as palavras cantadas e todas as subtilezas instrumentais, mas ao mesmo tempo potente, forte, com uma batida de nos fazer estremecer. Eu nunca julguei que as duas coisas fossem possíveis. Em amplificadores deste preço, tudo isto é uma amálgama de ruído. Sei-o agora porque já ouvi o som como ele devia ter sido sempre ouvido, a preço acessível.
Fiquei completamente apaixonada pelo som Pioneer e grata por a marca ter finalmente decidido competir com a concorrência preço/qualidade. E o amplificador tem durado tanto que já nem sei quando o comprei. Nunca os meus aparelhos anteriores duraram tanto.
Quando foi a altura de substituir os meus auscultadores, experimentei uns Pioneer também, não muito mais caros do que uns Sony. E como é que eu posso descrever esta experiência? O som límpido e forte do amplificador ficou ainda mais forte e límpido com os headphones. É de viciar um melómano.
Desde aí tenho comprado auscultadores da gama SE-MJ500, destes que mostro na imagem, que são leves e cómodos e dobráveis (mas eu não os dobro para não desgastar), e com uma potência e sensibilidade superior a todos os outros que experimentei antes. Recentemente tive de comprar novos headphones e apercebi-me que muitos destes modelos foram descontinuados, o que é pena. E se calhar é isso que me faz agora escrever este post atrasado.
Consegui mandar vir (de Espanha!) o modelo SE-MJ512, On Ear (mas como tenho orelhas pequenas faz o efeito de Over Ear e são muito mais leves), um modelo com uma qualidade de som superior a alguns da mesma gama que se lhe seguiram e que também experimentei. E mesmo assim os de qualidade inferior superavam, largamente, qualquer outro headphone em preço/qualidade.
Vou ficar fiel à marca até esgotar todos os exemplares disponíveis. Foi bom, mas não sei se vai continuar. O único defeito destes auscultadores são os fios, finos e pouco resistentes, que se enrolam facilmente e começam a fazer mau contacto. Se não fosse isso não seria preciso substituir os headphones tão frequentemente. Assim, para uma utilizadora intensiva como eu que os usa umas 12 horas por dia, só duram dois anos com sorte. Mas como não são caros, nem considero um problema. Valem muito bem o preço. Ainda fica mais barato do que muitos auscultadores de 100 euros e mais que se calhar duram o mesmo tempo.
Como disse, este post não foi patrocinado, mas se a Pioneer passar por aqui e me quiser oferecer uns headphones como agradecimento pela publicidade gratuita, o meu email está ali ao lado. E quem diz headphones diz outros aparelhos ao critério da marca. Meus amigos, aceito tudo e ainda faço crítica!

Link para os Pionner SE-MJ512 aqui, com todas as especificações e modelos.


domingo, 13 de dezembro de 2020

Perdidos (2017)

“Perdidos” é a versão portuguesa do filme “Open Water 2: Adrift” (2006). Seis amigos embarcam num iate e decidem dar um mergulho no oceano. Mas o dono do barco, irresponsável, esquece-se de descer a escada. Agora as pessoas na água não conseguem escalar o barco. A escapadinha entre amigos transforma-se em tragédia.
Perdidos” é de tal modo a “tradução” do filme original que, tendo gostado do segundo, também tenho de gostar da primeira. É quase tudo igual. As únicas referências à cultura portuguesa são Porto Santo (de onde partem) e a canção de Sérgio Godinho “O Primeiro Dia”. De facto, logo ao chegar, um dos personagens vai trauteando a canção, com o conhecido refrão “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Achei esta utilização do clássico demasiado óbvia (dentro de um dia ou dois o personagem está morto) e não vejo nada de literal na canção de Godinho para a trivializar assim, apenas como presságio num filme de terror. Ainda por cima um filme de terror que já toda a gente viu. Sinceramente, não gostei.
Tem-se colocado em questão a própria necessidade de filmar este mesmo enredo em português, tendo em conta que “Open Water 2: Adrift” é bastante recente, e este filme já é o aproveitamento do sucesso de ainda outro filme, igualmente uma tragédia no mar, “Open Water” de 2003. (Ora aqui está algo que eu só descobri a pesquisar para este artigo. Os dois filmes originais são perfeitamente autónomos, também não percebo porque é que quiseram relacionar os títulos.) A melhor explicação é que a costa portuguesa tem o cenário perfeito para o filme (fica barato nesse aspecto), e somos um povo de velejadores. Tudo bem. Mas podiam ter inserido algo mais original, ou da nossa cultura ou a nível das personagens ou do próprio enredo. Eu, pelo menos, esperava esse toque de originalidade.
Por falar nas personagens, confesso que estas vão ser menos esquecíveis para mim do que as do filme original, que ainda eram mais bidimensionais. O jovem casal com o bebé em plena crise conjugal, o ex-namorado que tem dinheiro e é um “merdas” (epíteto que lhe dão no filme e que não podia ser melhor escolhido), a namorada deste (que não tem nada a ver com os amigos dele), e os dois amigos “fixes” que podem ou não estar num relacionamento. Não falta aqui conflito e o filme sabe explorá-lo como deve ser. Tal como no original, o que aconteceu a estes “portugueses” é perfeitamente realista, principalmente com o conflito à mistura. Logo, tenho de gostar.
Há um problema técnico com este filme, que é o som. Não preciso de ser grande especialista para o identificar. Não percebi a maior parte do que eles diziam, especialmente o personagem Vasco (mas os outros também), e muitas vezes dei por mim a olhar para o rodapé da televisão à procura das legendas. Isto tornou-se mais frustrante nas partes mais tensas. Por exemplo, quando o merdas pega na mulher que tem fobia à água e se atira com ela para o mar. Ele diz-lhe alguma coisa, mas escapou-me. Era interessante saber que justificação é que ele lhe está a dar. Assim foi como ver uma cena de filme mudo.
Outra coisa mal explicada é a presença da faca dentro de água. No filme original esta questão não se me pôs, o que significa que a presença da faca foi explicada ou mostrada de forma tão natural que eu não achei estranho. Aqui não, e perguntei-me “de onde raio saiu a faca”?
Também há uma cena de micro-segundo, no fim do filme, em que se vê que a escada é accionada, mas isto foi tão rápido que já li algumas críticas a dizerem que perderam este pormenor. Confesso que tive de voltar atrás e rever, e se não tivesse visto o filme original se calhar também não percebia.
Gostei da última cena, longa e focada nas reacções faciais da sobrevivente, um bocado mais na linha da tradição cinematográfica portuguesa. Nunca ninguém me vai ouvir elogiar cenas demasiado longas, mas acho que aqui fez todo o sentido. Foi um toquezinho de classe à filme europeu que me agradou bastante neste contexto. Pena ter sido o único.

14 em 20 (não posso dar mais porque o filme é uma cópia)