sábado, janeiro 20, 2018

"A Relíquia", de Eça de Queirós


Li “Os Maias” duas vezes. A primeira, por curiosidade, aos dez anos. A segunda, já no liceu, para tentar perceber o que me tinha escapado em tão tenra idade. No meu percurso académico devo ter estudado “Os Maias” umas três vezes.
Perguntem-me pela história? Dois irmãos que não sabem que são irmãos têm uma relação incestuosa. Isto é o primeiro e o último capítulo, mais coisa menos coisa. O resto? Uma estopada insuportável que me fez renegar Eça de Queirós para todo o sempre. 
Até que me deram este livro. Foi efectivamente uma oferta e a sinopse conseguiu interessar-me: Teodorico Raposo, órfão e pobre, vê na fortuna da Titi o futuro de uma vida de luxo e gozo. Mas a Titi é ultra-beata e Teodorico tem de fingir sê-lo também para que a herança não lhe escape. Tanta falsa beatice leva-o a uma peregrinação na Terra Santa com a incumbência de trazer de lá à Titi a sagrada relíquia que a cure das suas enfermidades. E Teodorico encontra de facto a mais santa das “relíquias”, mas as coisas correm-lhe mal…
Ler esta “relíquia” foi para mim uma surpresa e conseguiu divertir-me do princípio ao fim. Quase me perguntava, ao começar o livro, mas porque é que não dão “A Relíquia” na escola em vez dos bocejantes “Maias”? Respondi a mim própria. Porque apresentar este livro cheio do sexo mais sórdido (“onde Vénus mercenária arrasta as chinelas”) diante de uma turma de adolescentes imberbes seria missão impossível.
Mais à frente, outra questão me assaltou e ainda me intriga: como é que este livro passou durante o Estado Novo? Não deve ter passado bem. Digamos apenas que só agora compreendo a estátua do Eça de Queirós na Rua do Alecrim, no familiar caminho do Cais do Sodré para o Bairro Alto. E este tempo todo a pensar que a mulher nua representava a Musa literária… Também sou muito inocente, sou.


Pior do que a Vénus mercenária, queridos leitores, este livro ainda hoje é susceptível de provocar ataques cardíacos a muito boa gente. Este livro, escrito nos idos 1887, diz que Cristo não ressuscitou. Diz que a morte na cruz foi uma farsa (e explica como) e que foram os apóstolos quem tirou o corpo do Mestre do túmulo que viria a aparecer vazio. Isto, na América de hoje, século vinte e um, era caso para queima do livro em cultos evangélicos. E tenho de me perguntar que reacção teriam as senhoras e senhores beatos do Estado Novo perante “A Relíquia”. Se calhar não era assim tanta porque só muito poucos sabiam ler, e “seleccionados” de “famílias certas”.
Mas a sensação que tenho ao ler este livro é de que as mentalidades estão a regredir à medida que o tempo avança, o que é preocupante. Não significa isto que concorde ou deixe de concordar com o furto do corpo de Cristo, nem vem ao caso. O que vem ao caso é escrever isto em 1887 e chegarmos a 2018 e ainda ser polémico que alguém escreva isto!

Teodorico é um tarado sexual
Devia ser fácil simpatizarmos com o pobre órfão Teodorico Raposo, obrigado pela necessidade de se fazer à vida a fingir-se um extremoso beato para agradar à Titi. A Titi, tão amiga da virtude que prefere deixar à Igreja a sua herança sem que lhe passe pela cabeça que a caridade e a virtude começam em casa, a isso obriga. Teodorico faz-se e desfaz-se em rezas e missas e águas bentas para provar à senhora que é suficientemente santo para merecer a fortuna.
Mas não é possível simpatizar com este Raposo, de tão falso, de tão ignorante, de tão tarado sexual. Homem feito e experiente, chega mesmo a ser apanhado a espreitar uma mulher nua por um buraco de fechadura. Mais tarde, durante uma viagem de barco, até uma monja lhe atiça o apetite. Já para não falar no putedo. Putedo chique e putedo baixo nível, Raposo nem sequer quer vinho verde, só quer mesmo as putas.
Como se não bastasse, nunca passa pelo miolo desta alminha trabalhar para ganhar a vida. Perfeito sociopata, quando lhe falha o grande golpe da relíquia falsa, torna-se em Lisboa vendilhão de relíquias acabadinhas de trazer da Terra Santa. Quando estas se esgotam, impinge frasquinhos de água da torneira como sendo do Jordão. Um cúmplice bem lhe diz: “Indecente!” Além da água do “Jordão”, Teodorico vende cacos do cântaro que Nossa Senhora levava à fonte, palhinhas do presépio, tabuinhas aplainadas por São José, ferraduras do burrinho que transportou a Sagrada Família para o Egipto. Catorze ferraduras, nem mais nem menos, do mesmo burrinho!
Eça de Queirós devia ter um profundo ódio à Igreja e à religião. A mim causa-me mais nojo tarados sexuais que vão ao Egipto e à Palestina (quando ainda não havia bombas e entifadas) e em vez de respirar o pó da História se metem num hotel com a primeira puta que encontram. São nojos, e o meu é este.
Escusam de me vir cá com “mas é uma personagem de sátira, não precisa de ser simpático, tem de ser é engraçado e interessante”. Teodorico não é simpático, nem engraçado, nem interessante. É uma besta. O gozo que me deu o livro foi torcer para que o Teodorico se desse mal, e de facto dá-se mal, e ainda se devia dar pior. Mas já lá vou.
Agora vamos ao que realmente me empolgou n’”A Relíquia” e me fez desejar que Eça tivesse escrito antes Fantasia.

A relíquia n’A Relíquia
Na Palestina, Teodorico tem um sonho. Não se percebe logo que é um sonho, truque usada por Eça para nos introduzir subitamente num relato surrealista que transporta os dois personagens, Raposo e o historiador alemão Topsius, seu companheiro de viagem, à fatídica Páscoa em que Jesus é crucificado.
E de repente é épico, é grandioso, é bíblico! É um narrador omnisciente disfarçado por trás do Raposo a contar-nos coisas que o ignorante bacharel de Coimbra jamais poderia saber, são personagens maiores do que a vida que parecem saídos d’O Senhor dos Anéis, é todo um mundo que nos é revelado como se fosse novo (de tão antigo) e que nos é estranho e intrigante como a mais moderna Fantasia. E que o Eça era capaz disto, não, eu não sabia. Durante páginas e páginas li, boquiaberta, e reconheci as influências de semelhantes obras estrangeiras do século dezanove com que aprendi a ler o que gosto.
Não é inocente que para a grandiosidade brilhar Raposo teve de se calar. E mesmo assim, em pleno Templo de Salomão na celebração da Páscoa, ainda consegue abrir a boca e dizer porcaria, que nada mais sai do meio daquelas barbas. Foi aqui que eu desejei que Eça tivesse antes escrito Fantasia, e abandonasse definitivamente o Portugalzinho dos diminutivozinhos, e as camisinhas da Mary, e as Adélias desta vida. Que desperdício!
O que me leva à célebre epígrafe com que o próprio Eça, em jeito de subtítulo, se achou obrigado a justificar esta obra: “Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia”. Não é a coberto de nenhum manto nem é diáfano, nem devia haver necessidade de justificar o surrealismo e o fantástico desta obra. O que me dói, porque prova que vem de longe esta mania da literatura portuguesa de que só o que é realista é que é bom, quando por outras paragens Horace Walpole já tinha publicado “O Castelo do Otranto” um século antes (1764).
É a este público de leitores de Fantasia e Fantástico que dedico esta crítica. A sátira do Eça já toda a gente conhece, tivemos de a estudar na escola, mas só por causa desta sequência na Terra Santa no tempo de Cristo vale a pena ler “A Relíquia”, é uma pena não ler a “A Relíquia”! Subitamente é outro escritor que se nos revela, é outro nível, é outra literatura. É a literatura que nos falta por todas as razões que aqui e aqui já debatemos. E por tudo isto foi uma agradável surpresa.

Terminado o sonho, lá voltamos ao Portugalzinho, à Lisboazinha, aos diminutivozinhos, aos jantarinhos da Titi, à reliquiazinha. À vidinha triste deste Raposo que arranja emprego na firma de um amigo de escola. (Lá está a cunhazinha.) Raposo não conseguiu a fortuna da Titi e por algum tempo parece emendar-se. Mas não se emenda. No fim do livro, ainda e sempre congemina as mentiras que devia ter dito mas não se lembrou de dizer quando as coisas deram para o torto. Raposo é incorrigível. Acabei com pena da Jesuína, a coitada com quem casou por interesse. Tirando esta, ninguém fica bem neste retrato excepto o tal douto Topsius, historiador alemão. Todas as personagens portuguesas são arrasadas. Excepto a Jesuína, poupada ao sarcasmo, talvez pela sua inocência.
Posto tudo isto, apesar do brilhantismo e do génio, começa-me a parecer que a sátira do Eça já denota a idade. É o destino de toda a boa sátira, trágico como a vida. Tem piada na altura, mas o tempo é implacável. Este já não é o mesmo Portugal, muitas ironias subtis já nos escapam, já não reconhecemos as personagens no nosso dia-a-dia. Ainda é divertido, mas cada vez menos. Vai chegar o dia em que a sátira precisará de ser explicada (como Gil Vicente tem de ser explicado para ser percebido), e esse será o dia em que a sátira morre. Triste fim mas bom sinal. Restará sempre deste livro, como de todo o realismo, um documento histórico que nos conta as verdades secretas de um Portugal extinto.
Mas por seu turno, o Fantástico não morre. Não importa que a sequência se passe na Páscoa de Cristo ou num qualquer mundo fantasioso sem tempo nem lugar. Fora do tempo e do espaço, a Fantasia vive na imaginação de quem se embrenha nela.
A cena em que Raposo encontra a árvore anuncia já que algo mágico vai acontecer muito em breve:

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração—não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi—então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos—então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio—como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Isto não vai morrer nunca. É aqui que está a relíquia.






[Li a versão pós-Aborto porque o livro foi oferecido e a cavalo dado não se olha o dente. Publico a capa da blasfémia como advertência.]


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sábado, janeiro 13, 2018

Fórum Beta Readers Portugal


O Fórum Beta Readers Portugal, ainda praticamente recém-criado, tem como objectivo ser uma plataforma de contacto entre escritores e beta readers.
Mas o que é um beta reader? Algo de quase desconhecido em Portugal, um beta reader é um primeiro leitor que lê e opina sobre um manuscrito no intuito de ajudar a melhorá-lo. O beta reading é muito praticado nos países anglo-saxónicos, e não apenas em regime de reciprocidade!, e até os nossos co-falantes brasileiros já lhe descobriram os benefícios. Aqui entre nós, quando procurei, não havia nada. Não existe o hábito, não se conhece a utilidade, não se consegue encontrar. O Fórum Beta Readers Portugal foi criado para preencher essa lacuna.
Nas palavras do fórum, "beta-readers são leitores e criticam o conteúdo da obra. Avaliam personagens e descrições, cenários e diálogos. Apreciam a criatividade, os pontos de vista e o encadeamento de ideias. Procuram buracos na intriga, coisas que não façam sentido e mostram que emoções sentem durante a leitura".
E não, "o melhor amigo, a mãe e o namorado não são bons beta-readers, porque gostam demasiado do autor e não lhe vão criticar a obra de forma objetiva". Ponto muito importante!
Outro ponto importantíssimo que é preciso desmistificar é que um beta reader não é um corrector gramatical e ortográfico. Muitas pessoas têm receio de que o escritor esteja à espera de um revisor! Não é esse o papel de um beta reader. Citando novamente o fórum, "não é suposto um beta-reader corrigir gramática e ortografia e reescrever passagens do texto. Isso é o trabalho de um revisor de texto".
Precisamente. Um bom beta reader critica, no sentido neutro da palavra crítica (que pode ser positiva ou negativa mas sempre fundamentada). Deve ser alguém que gosta de ler e de opinar e de explicar porque é que opina. Dizer "gosto" ou não gosto" ou, pior, não dizer nada, não ajuda o autor. O que ajuda é a opinião honesta e fundamentada. Neste caso, preferencialmente, e se possível, a opinião deve sempre ser construtiva. Um beta reader não lê para “dizer mal”.
Mas também não é preciso ter um curso em Literaturas e Linguísticas para comentar um texto. Esse é outro mito. Um bom beta reader reage e explica porque é que determinada história (ou passagem ou parágrafo ou frase) não funcionam para ele. Porque é que as acções de uma personagem lhe parecem incoerentes. Porque é que o enredo lhe parece confuso ou pouco credível. E porque tudo isto é subjectivo, é bom que o beta reader tenha um mínimo de simpatia pelo género que se propõe ler. De outra forma, é um sacrifício para o beta reader e de pouca valia para o autor, senão mesmo contraproducente.
Por exemplo, o que é que importa ao George Lucas que eu ache o Star Wars insuportável e infantil? Nada. Eu não sou o público alvo do Star Wars. A minha opinião é irrelevante. Como beta reader, jamais me ofereceria para ler um manuscrito do Star Wars. Embora pudesse opinar e explicar porque é que não gosto, de certeza que as minhas opiniões e explicações são exactamente o contrário do que os fãs pensam da saga.
Daí a importância de diferentes beta readers para diferentes géneros, e de uma plataforma onde os encontrar. A maioria dos beta readers são outros autores, e um regime de reciprocidade tem grandes vantagens em termos de disponibilidade, empenho e dedicação. Mas um bom leitor pode ser um excelente beta reader.
Para quem ouve isto tudo e pensa "trabalho", bem, não digo que não dê, mas também existem os benefícios:
Do ponto de vista do escritor, não há melhor maneira de melhorar o próprio trabalho do que analisar o trabalho de outros. Não sou eu que o digo, são pessoas com décadas de experiência em beta reading. Mas confirmo inteiramente.
Do ponto de vista do leitor também é muito gratificante. Ler (e até influenciar) uma obra por publicar num género de que se goste, não é trabalho: é prazer.
Para as pessoas que se interessam pela escrita e pela leitura, fica o link. Para visitar e divulgar. E talvez, quem sabe, participar? Só se perde o que fica por experimentar.

Fórum Beta Readers Portugal




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sábado, dezembro 23, 2017

O Exorcista (série)

[crítica à primeira temporada]

E depois da banhada que foi "Outcast", nada como uma série com demónios a sério, padres a sério, exorcismos a sério. Esta série não engana. É o que é, com muita acção e algumas surpresas!
Não vou estragar as surpresas. Direi apenas que é uma verdadeira sequela do filme e não tem vergonha de o ser. Se é uma boa ou má sequela, isso agora é outra questão.
Uma mulher católica e devota, Angela Rance, está convencida de que uma das suas filhas está possuída por um demónio e pede ajuda ao padre da paróquia, Tomas Ortega. Este, moderno e novato, começa por dizer-lhe que o Diabo é uma metáfora. Mas uma visita à casa de Angela fá-lo mudar de ideias.
Desde o início, a série é cheia de surpresas. Quem está possuído não é a irmã deprimida, como a mãe de ambas julgava, mas a outra, a que espalha felicidade. Muitas mais surpresas se seguem.


Se é uma série à altura do filme homónimo? Não. Nem por sombras. Tentou-se criar um ambiente semelhante, sombrio e ameaçador, mas nunca nos arrepia como o filme de 1973. Culpo principalmente os truques cinematográficos de fazer dar um salto na cadeira, que não passam disso, um susto gratuito e vazio, e efeitos especiais que nunca convencem, só prejudicam. Em certa medida, alguns destes efeitos especiais podiam estar no "Sobrenatural", especialmente aquele em que os demónios se manifestam como entidades de fumo que entram dentro do possuído pela boca. Tão Sobrenatural que quase esperávamos que ali entrassem os irmãos Winchester! Em vez deles, temos a minha cena preferida, a única que realmente me surpreendeu e empolgou.
Paralelamente à possessão que se passa na casa da família católica, onde já foi chamado também o exorcista puro e duro que é o padre Marcus porque era demais para o padre Tomas, os demónios da cidade têm em marcha uma conspiração para matar o Papa. (Parece ou não parece o Sobrenatural?) Um outro padre, o padre Bennet, entra sem aviso num desses antros de capangas possuídos… e eu pensei que ia acabar muito mal para o padreco. Pois não é que o padreco é um durão e dá uma valente coça aos possuídos? Mas não pareceu nada engraçado na altura. Foi de roer as unhas.
Entretanto, o nosso bem conhecido Pazuzu lá continuava a fazer as diabruras dele e a ameaçar torcer pescoços, mas nunca conseguiu ser a ameaça tenebrosa que nos deu pesadelos ao ver o filme original. Continua ordinário, continua porcalhão, continua a ser um bully, mas como todos os bullies ordinários e porcalhões já só nos causa desprezo, não medo. A série falhou, aqui, como sequela. As sequelas cinematográficas do primeiro filme conseguem reinventar Pazuzu e criar o mesmo ambiente de terror que nos desconforta e perturba. No Exorcista, série, já sabemos que aqueles padres durões vão dar uma coça ao Pazuzu e tudo terminará bem.
Mais interessante é mesmo a conspiração, mas quanto a esta é a motivação que falha. Por que diabo quereriam os diabos matar o Papa? Tal como disse aqui a respeito de "Outcast":
Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas.
E é mesmo de acreditar que o assassinato do Papa por um padre possuído, transmitido em directo, causasse assim tanto choque numa era em que vemos ataques terroristas a torto e a direito? Não. Eu sei isto, vocês sabem isto, os diabos também sabem isto.
O Exorcista, série, não é portanto uma obra de excelência, mas vê-se com todo o prazer na sua simplicidade de não fugir às regras. Os diabos são maus, os padres são bons, as rapariguinhas são inocentes.
E repito, os padres são bons. Consoante a preferência, tanto o Tomas, como o Marcus, como o Bennet. Há para todos os gostos. Eu até já começava a ter um fraquinho pelo Marcus quando descobri que afinal o super-padre joga no outro campo. Sorte a minha! Escolho-os mesmo bem!...


Mas que dizia?... Ah pois, não dizia, porque não quero revelar mais nada. Recomendo aos amantes d’O Exorcista e a todos os amantes do terror em geral, não que esperem medo, mas entretenimento que baste com alguns apontamentos tétricos que não vão desiludir.
Eu cá vou ver a segunda temporada. Os padres Tomas e Marcus vão começar a trabalhar juntos e prevêem-se mais exorcismos a sério, demónios a sério, possessões a sério. Às vezes o prazer está nas coisas simples da vida.



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sábado, dezembro 02, 2017

Medici, Masters of Florence

 

Tudo o que disse aqui sobre o rigor histórico de “Victoria”, não poderei dizer sobre “Medici, Masters of Florence”. Desta vez, e para meu desgosto, em vez de uma representação verídica dos Medici, e se há bastante a dizer sobre os Medici!, novamente enveredaram por uma versão fantasiada e falseada sobre uma das famílias mais importantes do Renascimento. É pena. É sempre pena.
Pelo menos não deliraram a figura de Cosme de Medici como o fez “Da Vinci’s Demons” (série que eu via por masoquismo e na esperança de que o Da Vinci da série conseguisse chegar a Marte metido num barril de madeira movido a vapor de água, que foi só o que faltou) mas mesmo assim transformaram de tal maneira personagens, inclusive matando um deles que não morreu assim na vida real e cuja descendência se sentou no trono de França, o que não é coisa pouca, que mais valia terem feito uma série ficcional sobre uma família de nome parecido, os Mellinis ou algo que o valha, inspirada na vida dos Medicis.  Era mais honesto e menos irritante.
Para começar, Giovanni de Medici, pai de Cosme, nunca é assassinado, o que deita por terra todo o drama “policial” de descobrir quem o matou. E isto foi só o início. Desgosta-me assistir a séries históricas que não respeitam a História, e desgosta-me ainda mais quando o objectivo é criar um enredo mais violento, supostamente mais interessante, para ver se capta a audiência da Guerra dos Tronos.
Não bastou que o actor de Cosme seja Richard Madden, o Robb Stark King in the North da Guerra dos Tronos, como ainda foram buscar David Bradley, o Walder Frey da mesma Guerra dos Tronos, para fazer o papel do pai da sua noiva, Contessina, e combinar o casamento entre ambos numa cena fria e desagradável, levando toda a gente a pensar, inevitavelmente, no Red Wedding.

[Por falar em Guerra dos Tronos, quem tem saudades da Lady Olenna pode ver a actriz Diana Rigg na segunda temporada de “Victoria” como Duquesa of Buccleuch, num papel quase igual ao da Lady Ollena embora menos dramático e mais humorístico.]

Eu tinha muito interesse nesta série devido à importância que banqueiros como os Medici tiveram no despontar do Renascimento. Vi algo disto, mas queria ver mais. E havia mais para ver. Não havia necessidade de assassinatos que nunca aconteceram e de drama fantasioso. A realidade foi suficientemente interessante, e ainda nem chegámos ao Maquiavel!
Encontrei este artigo sobre todas as imprecisões da série, para quem quiser comparar: Medici Masters of Florence. Truth and Fiction in the TV series

Se nos conseguirmos esquecer disto tudo, é uma série que entretém. Mas não educa.

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terça-feira, novembro 28, 2017

Requiem

Mais uma madrugada nasce só para ti
Um novo dia e ainda estás aqui

Vem ver, oh vem ver, o sol brilha para ti
Vem ver, amanhã, um novo dia contigo
Fica só mais um dia, mais um dia comigo

Agora partiste e já não estás aqui.
O sol nasce mas já não nasce para mim.

Ó linda, minha linda, levou-te a noite sem fim.





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sexta-feira, novembro 03, 2017

Metropolis reabre no mesmo espaço

O bar Metropolis vai reabrir no mesmo espaço, Centro Comercial Imaviz, nas Picoas, a 17 de Novembro. Segundo post do Facebook, a reabertura deve-se aos muitos apelos dos clientes desde que encerrou a 30 de Setembro. No entanto, permanece em aberto a mudança de espaço, que pode ser "mais morosa que o desejado".

Boas notícias!

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quarta-feira, novembro 01, 2017

Life of Pi / A Vida de Pi (2012)


Únicos sobreviventes de um naufrágio, um rapaz e um tigre têm de aprender a viver em conjunto até chegarem a porto seguro.
É esta a premissa do filme e, apesar das improbabilidades, o filme convence. Eu sou daquelas que aceitam que aquilo que o filme mostra é aquilo que o filme me quer contar. A não ser que o filme me comece a dar sinais do contrário.
Pelo menos até ao aparecimento da ilha, estive perfeitamente convencida de que a história se centrava na simbiose forçada entre um rapaz e um tigre. O rapaz, Pi, náufrago e perdido no Pacífico, porque precisava da companhia do tigre (ou de salvar a vida ao tigre) para ter uma razão para viver e não desistir; o tigre, porque depois do primeiro mergulho fora do barco compreende muito bem que não consegue regressar ao barco sozinho, e que a criatura humana tem maneiras de o ajudar a sobreviver desde que não a coma. Os animais são inteligentes. E, com o tempo, os animais são capazes de estabelecer uma relação de igual para igual com o ser humano em que a ideia de o comer já não se põe. O humano e o animal tornam-se dois companheiros, na tal relação de simbiose a que alguns de nós gostamos de chamar "amizade" na falta de termo melhor. Só o sabe quem já o teve. Alguns, e a pena que tenho deles, nunca o tiveram nem vão ter (nem merecem tê-lo).
Acredito completamente que a partir do momento em que o tigre percebeu que o rapaz era capaz de pescar, para comerem ambos, o tenha passado a olhar como fonte de comida em vez de refeição. Pensando bem, o tigre não era 100% selvagem. Era um tigre de jardim zoológico já habituado a ver no ser humano a mão que dá a comida. Comida menos boa, agora que é peixe e não carne, mas comida, e água, que sem o humano o tigre não consegue obter sozinho. Quero acreditar que um tigre não é menos inteligente do que um gato doméstico que não consiga fazer esta dedução. Outro dado a ajudar à plausibilidade são as histórias verdadeiras de amizades improváveis entre homem e animal selvagem. Acontece. 
E, até aqui, eu estava completamente convencida.


À medida que a situação se torna mais desesperada, a beleza das imagens arrebata-nos a alma. Este é um filme que vale a pena ver só pela beleza com que captura e recria a natureza, o mar, os animais marinhos, o céu, as estrelas, as tempestades, a luz, as nuvens. Tudo é sublime. Talvez até tão sublime que toca a fantasia, mas vale a pena ver mesmo assim.
(Alguém a acredita que o tigre não é verdadeiro? O tigre não é verdadeiro. Só por causa disso o filme mereceu todos os Óscares, mas o filme tem mais do que imagens bonitas. E tem mais do que uma história bonita.)
 
 

Comecei a desconfiar quando os dois náufragos encalham no que parece ser uma ilha verde e misteriosa, e flutuante, repleta de sericatas (?!!!). Nesta altura, tanto o rapaz como o tigre já estavam muito desidratados e exauridos. Julguei que era um sonho ou uma alucinação. Algo na ilha não batia certo. É a nossa grande pista para nos perguntarmos se estamos a ver uma história verdadeira. Ou uma história verdadeira com uma alucinação pelo meio? Também é possível. 
Desde o início sabemos que o rapaz sobreviveu. É este, já adulto, quem conta a história. Toda a nossa preocupação reside, agora, no tigre. Não tenhamos dúvidas, o tigre é a grande estrela de "Life of Pi".


O grande senão deste filme é que coloca muitas perguntas e não lhes dá nenhuma resposta. Afinal, esta é a história da amizade entre um rapaz e um tigre, ou é a alegoria de algo mais sombrio? Não sabemos, fica ao nosso critério.
Da mesma forma, o filme tenta colocar questões espirituais que nem sequer me atingem, nem ao de longe. O tio do rapaz, após este ter sobrevivido, conta a um escritor que o sobrinho tem "uma história que nos vai fazer acreditar em Deus". Lamento, mas não vi Deus nenhum aqui. A amizade entre rapaz e tigre não é um milagre. Nem sequer a sobrevivência é um milagre. O rapaz sobrevive, mas e os outros, o navio inteiro com a tripulação, os outros animais do jardim zoológico, a família de Pi? Todos estes morreram. Não houve milagre nenhum. É certo que durante o tempo em que está perdido Pi se dirige muitas vezes a Deus, uma das quais, delirante, em que julga ver Deus nos relâmpagos de uma tempestade e quase afunda o barco à conta desse momento de insanidade, mas não é nada estranho. "Não há ateus nas trincheiras", diz o ditado, e desde miúdo que Pi tinha genuíno interesse na religião. Nada de misterioso aqui.

O que eu penso que o filme tentou fazer foi isto: da mesma forma que Pi procurou muitas religiões para chegar a Deus, assim também nós devemos escolher em que história preferimos acreditar. Como Pi diz no fim, "é a mesma coisa com Deus".
Ora, isto pode ser um abre-olhos para alguém que nunca pensou em nada vagamente espiritual, ou para alguém que sempre considerou que só havia uma religião "certa" e esta era a sua, mas a mim soa-me uma mensagem pobrezinha, muito pobrezinha, miserável de tão pobrezinha.
E se a história verdadeira era a outra, e em vez disso Pi prefere relatar um conto de fadas para crianças, qual é a mensagem que tiramos disto? Que Pi não suportou a verdade e se refugiou na fantasia? Se a história era esta não havia maneira melhor de a contar? (E aqui lembro-me de "Pan's Labyrinth" de Guillermo del Toro, para dar um exemplo do que quero dizer sem spoilers a este filme.)
Em suma, fiquei sem saber que mensagem o filme queria transmitir, e após duas horas de aflição e lágrimas senti-me ludibriada e de barriga tão vazia como o pobre do tigre, que pode ou não existir.


Como as outras perguntas ficam sem resposta, prefiro acreditar na história do tigre. É aquela que me diz alguma coisa.
Se me queriam contar uma história diferente, tivessem contado.


15 em 20



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terça-feira, outubro 24, 2017

Minha linda

Tanto sofrimento, minha linda, tanto sofrimento. Alguns de nós não nasceram para ser felizes.
 

Dorme agora com os anjos, minha linda. Que eles te façam a companhia que de mim foi roubada.



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domingo, outubro 08, 2017

"Prince Lestat", de Anne Rice


Já me tinham avisado de que este livro é uma desilusão, mas recusei-me a acreditar antes de ler. E depois recusei-me a acreditar antes de chegar ao fim. E agora que acabei de ler também não adjectivaria o livro como uma desilusão, mas como um manancial de ideias mal aproveitadas que até podiam ter dado um grande livro se tivessem sido exploradas como Anne Rice nos habituou. Infelizmente, este não é um livro da qualidade a que Anne Rice nos habituou. De todas as minhas queixas, a principal é mesmo essa. O que mais gosto na escrita de Anne Rice é que nos mergulha na psique dos personagens e nos faz compreender todas as suas motivações. Infelizmente, é o que mais falha em "Prince Lestat". Nunca consegui compreender as motivações dos personagens, dos já conhecidos e dos que são apresentados neste livro. Muitas das suas decisões e personalidades pareceram-me até incoerentes, como se durante o hiato em que Anne Rice pôs de lado as Vampire Chronicles se tenha esquecido de quem estes personagens são.

Para explicar estes motivos de insatisfação, terei de incluir spoilers. Quem ainda não leu e pretende ler, pode preferir interromper a leitura aqui e regressar mais tarde.


!!!CONTÉM SPOILERS!!!


Rowan? Qual Rowan? Quinn e Mona, idem
A minha primeira insatisfação é a falta de continuidade com o último livro da série, “Blood Canticle”. No fim deste, Lestat e Rowan, das Mayfair Witches, estão completamente apaixonados. Lestat até pensa em dar o Sangue a Rowan, mas decide adiar porque acha que ela ainda tem muito que fazer como humana. (Esta ideia é importante para este livro.) Mas ficamos a pensar que o romance vai ser retomado, se é que chega a ser interrompido.
Neste livro, eu talvez esperasse continuar a partir daí. Mas mesmo não continuando, nunca imaginei que aconteceria o que aconteceu: Rowan desaparece como se nunca tivesse existido. Nem uma palavra é dita sobre ela. 
Mona e Quinn, personagens de "Blackwood Farm" e "Blood Canticle", também não são mencionados, como se nunca tivessem acontecido, como se Anne Rice se tivesse arrependido de escrever esses dois últimos livros.
Mas Mona e Quinn (apesar de nunca terem sido personagens de que eu goste particularmente, especialmente a fútil Mona) são agora vampiros. Tendo em conta o enredo desta história, eles deviam ter aparecido, mais ainda, deviam ter estado sempre ao lado de Lestat. Incompreensivelmente, desapareceram também.

Os vampiros cientistas e o bebé-proveta
Parece o título de uma comédia, mas aconteceu mesmo. Lestat conhece uns vampiros que são igualmente cientistas e que se dedicam a estudar a fisiologia da espécie a que pertencem (outros vampiros). Até aqui tudo bem e normal. Conseguem convencer Lestat a participar nestas experiências, ao que ele acede porque lhe parecem interessantíssimas, e por meios que nem vale a pena explicar devolvem-lhe temporariamente a capacidade sexual. (Como os leitores das Vampire Chronicles sabem, os vampiros de Anne Rice perdem qualquer capacidade de desejo ou actividade sexual, sendo esta completamente substituída pelo desejo de sangue.) Lestat consegue assim envolver-se numa relação sexual com uma cientista humana, para fins científicos. Quando a coisa termina e o efeito da experiência passa, a Lestat apetece imediatamente "exanguinar" a parceira, o que não deixa de ser engraçado.
Ainda bem que não o fez, porque o sémen aproveitado deste encontro é utilizado para criar em laboratório um bebé 100% humano! Isto é, Lestat é pai! Lestat tem um filho! Humano! Eu adorei esta parte, imaginando que tipo de pai poderia Lestat tornar-se, como o poderia fazer evoluir e transformá-lo.
Que desilusão! Por razões que me ultrapassam, os cientistas acham melhor esconder a criança do pai, embora o miúdo saiba, desde sempre, que é filho do famoso vampiro Lestat.
Ora, isto não me entra na cabeça. Custava alguma coisa que um deles lhe tivesse telefonado:
“Lestat, pá, como vai isso?”
“Hã, assim assim.”
“Pá, nem vais acreditar no que aconteceu. Lembras-te daquela experiência, com a cientista boazona, no laboratório? Pá, és pai, pá! Vem cá já ver o puto! Mas não o comas, fixe? ”
Nada disto aconteceu. Lestat só toma conhecimento deste filho quando este já tem 18 anos. E não se percebe porquê, porque Lestat e os cientistas ficaram amigos e não havia razão para que não participasse na paternidade. O que Lestat teria para ensinar a um miúdo humano!
O que é que Anne Rice estava a pensar, pergunto-me? Que oportunidade desperdiçada.

A insuportável Rose
Em vez disso, somos apresentados a mais uma protegida de Lestat, uma miúda órfã chamada Rose a quem este decide “adoptar”, apresentando-se como tio Lestan. A história de Rose não me diz nada. A miúda foi tão protegida por amas e seguranças que nunca conseguiu aprender a safar-se sozinha no mundo. Cresceu uma flor-de-estufa, uma mosquinha morta. Uma daquelas donzelas do século XIX que choram e desmaiam e precisam de ajuda para atravessar a rua. Uma coisa que já não existe, graças a Deus.
Resultado: Rosa mete-se em problemas atrás de problemas e não sabe sair deles sozinha. Rosa nem sequer tem um grupo de amigos, nem um único. Só podia correr mal!
Em vez desta insuportável Rose, eu queria ver o Lestat ser um pai para o filho verdadeiro. Como é que alguma vez Rose poderia ser relevante, quando subitamente Lestat tem um filho biológico e humano com quem nunca o vemos relacionar-se? Rose não era necessária para nos mostrar que Lestat tem tendências paternais (sabemo-lo desde Claudia de "Entrevista com o Vampiro") e ainda por cima não desempenha qualquer papel influente no enredo. O que Rose fez na história foi ocupar espaço que devia ter sido usado com Viktor, o filho de Lestat.

A ameaça
"Prince Lestat" é a história de como a comunidade vampírica enfrenta a maior ameaça desde que Akasha ("A Rainha dos Malditos") decidiu destruir todos os vampiros (ou quase). A ameaça, suspeito, é a mesma, porque desta vez é o espírito Amel (o espírito que vivia no corpo de Akasha e origem de todos os vampiros) que após milénios de dormência toma consciência de si próprio e decide que existem demasiados vampiros no mundo. Amel possui um corpo (espiritual, mas um corpo) que também tem limitações, e a proliferação de vampiros esgota-o e enfraquece-o. Desta forma, Amel começa a convencer os vampiros mais velhos, os que já adquiram o Fire Gift, a incinerarem os mais novos. A maneira como os atormenta até que lhe façam a vontade nada deve à possessão. Amel é tão cruel que ameaça os resistentes: se não fazem o que lhes manda, mandará outros matá-los a eles.
Descobri muito depressa de quem era esta Voz que sussurrava ao ouvido dos vampiros, mas não penso que o livro tenha feito dela grande mistério, de propósito ou não, porque Lestat e outros vampiros também já desconfiavam ainda antes de começarem a falar disto uns com os outros.
A Voz, que mais tarde se veio a confirmar ser Amel, é o enredo fulcral desta nova história das Vampire Chronicles. O final, sem querer revelar, foi bastante imprevisto.
Mas que faz Lestat ao conhecer o perigo que enfrenta? Lestat vai buscar um pequeno machado e começa a usá-lo dentro do casaco. Sim, leram bem, um machado! E pequeno! Ora, desde quando é que o vampiro Lestat anda com um machado? E para quê? O que é que Lestat fazia com um machado se lhe aparecesse à frente um vampiro de 6000 anos com intenções de o transformar em cinzas? Esta parte é tão estúpida que até dói. O pior é que Anne Rice nem tenta explicar. Podia ter havido uma explicação plausível, algo do género, “sei que um machado não me protege mas era o que eu usava quando era humano e de alguma forma irracional conforta-me andar com ele neste momento de perigo”. Se era isto que Anne Rice queria transmitir, não transmitiu. Mas o machado acabou por ser muito conveniente quando foi preciso um machado e Lestat o tinha dentro do casaco… Ele há conveniências que só as necessidades do enredo podem explicar.

Lestat superstar
Por falar em vampiros de 6000 anos, esta história apresenta-nos uns quantos que ainda não conhecíamos. O que também é bastante interessante. O que não faz qualquer sentido é que até estes concordem que Lestat deva ser o novo líder de todos os vampiros.
Exactamente, o líder! Por razões que me são incompreensíveis, todos os vampiros do mundo (Armand incluído) decidem que Lestat é o homem perfeito para os liderar. Lestat passará a ser o príncipe dos vampiros! Ora, isto não faz sentido nenhum, nem para o próprio Lestat. Ele mesmo o diz, a certa altura, como é que o vampiro que mais regras quebrou ficará agora encarregado de as estabelecer?! (Boa pergunta, Lestat! E olha, já agora, como e porque é que mudaste de ideias? Foi a tua vaidade, não foi? Mas não explicaste, maroto! Dantes costumavas ser mais sincero. Cuidado, não te transformes mesmo num político.)
Mas é assim que Anne Rice apresenta o mundo dos vampiros. De repente, vampiros antiquíssimos, vampiros de primeira geração, vampiros que já viveram milénios, decidem achar que Lestat é presidenciável, ou realeza, ou algo assim, porque… Ah, é verdade. Não se percebe porquê. Porque teve uma banda rock? Porque expôs os vampiros ao mundo (e não foi ele, foi Louis quem o fez primeiro)? Porque os vampiros mais novos o consideram um vampiro superstar? Pela sua bela “juba de cabelo loiro”? Isto era como se um líder político fosse escolhido por ser um fenómeno de popularidade. Até estaria disposta a aceitar se fossem apenas um ou dois vampiros fascinados com Lestat, mas todos? Não. 

As gémeas estavam a mais
Esta fascinação por Lestat também deu muito jeito no caso de Mekare, e em como Anne Rice se livrou das duas gémeas no mesmo livro. (Grande spoiler: as gémeas foram-se, excepto se regressarem como fantasmas.) Mas novamente não faz sentido. Não me lembro exactamente qual era o estado mental de Mekare no fim de "A Rainha dos Malditos", mas é-nos dito neste livro que o cérebro de Mekare está praticamente morto devido a ter passado milénios sem contactar com ninguém. Ora, nesse caso, Akasha, que “petrificou” durante milénios seguidos, não teria ficado no mesmo estado? E não poria isso em causa a capacidade de regeneração vampírica da mitologia destes vampiros? Mas fechando os olhos a estes pormenores (que até não são pormenores, mas adiante), o cérebro de Mekare, dizem-nos, não funciona. Mekare não é capaz de um pensamento racional. Mekare é um vegetal. Muito bem, aceitamos isto. Como é que então Mekare subitamente dá a entender a Lestat que quer morrer? A mesma Mekare que não teve a capacidade mental de perceber que a sua irmã Maharet tinha sido assassinada quase debaixo do seu nariz? Não faz sentido. O cérebro de Mekare funciona ou não funciona, ou só funciona quando dá jeito ao enredo? 
Que mal Anne Rice tratou Mekare, e as gémeas. As gémeas que eliminaram Akasha, que souberam o que fazer para impedir a destruição de todos os vampiros que a morte de Akasha implicava! A única maneira de redimir a falta de cerimónia com que as gémeas foram despachadas seria mesmo fazê-las regressar como espíritos. (Neste livro, somos informados de que alguns fantasmas aprenderam a criar um corpo físico para si próprios. Não sei se gostei disso.) Algo me diz que Anne Rice não o fará, que as gémeas morreram porque a autora se fartou delas, e nota-se. Esta parte, a parte em que se nota, é que me incomoda.

O filho (invisível) de Lestat
E por último, voltamos à tristeza que foi o desperdício deste filho biológico, Viktor. A pobreza que foi aquela primeira conversa: 
“Sou o teu filho Viktor”
“Pois, parece que sim”
Nem foi tão engraçado como isto, foi muito pior. Foi seco, foi forçado, foi artificial. Absolutamente nenhuma emoção, nem boa nem má. E depois Viktor diz ao pai que também quer ser vampiro. (Aqui, recordemos que Lestat não transformou Rowan por achar que ela ainda tinha muito que fazer como humana.) O que faz Lestat? Aceita! Sim, filho, vamos já tratar disso. Marius, transforma-me aqui o puto, se faz favor.
Não Lestat! O que devias ter-lhe dito era o que ele precisava de ouvir: “Queres o quê?! Ser vampiro? Qual vampiro qual carapuça! Quantos anos tens, 18? Pensa mas é em ir para a escola, tirar um curso, arranjar um emprego! Vai viver a vida! E dá-me um neto, já agora! E depois, quando fores um homenzinho, logo se pensa no assunto.” 
Não. Lestat aceita transformar um adolescente em vampiro, antes de ter oportunidade de experimentar a vida, antes ainda de sair de casa dos pais. Isto não me entra na cabeça. Lestat não aprendeu a lição de Claudia?!?!... Por falar em Claudia, o único que ainda tem algum juízo, valha-nos isso, continua a ser Louis. Foi o único que disse ao miúdo que o vampirismo não é vida, é não-vida. Que para ser vampiro Viktor tem de morrer antes. Não adiantou nada. 
Rose apaixonou-se por Viktor e também quis ser vampira. O que não interessa nem ao menino Jesus, porque nunca se viu um romance tão forçado e artificial e conveniente (?) como o destes dois. Detesto tanto esta personagem que quando a autora dá entender que por pouco Rose não sobrevivia à transformação, torci para que não sobrevivesse mesmo. Se esta série de livros é para continuar, Rose tem de desaparecer ou ser remetida para um lugar muito nas sombras, ou ter qualquer papel relevante que não seja ser apenas a filha adoptiva de Lestat que é namorada do filho biológico de Lestat, e que também é vampira.
Nunca julguei dizer isto, mas uma personagem como Rose fez-me desejar que Mona regressasse.
Quanto a Viktor, não sabemos nada dele excepto a sua aparência física e que tem medo de espaços subterrâneos (relevância? não sei). O livro não achou interessante debruçar-se sobre a personalidade do único filho biológico do protagonista. Escolhas curiosas, estas. Este podia ter sido um enredo tão interessante como o enredo de Amel, se não mais, mas Anne Rice desperdiçou-o tão completamente que não percebo por que motivo decidiu que Lestat devia ter um filho. Não é todos os dias que um vampiro deste universo consegue ter um filho biológico, faria todo o sentido que um acontecimento destes fosse explorado à altura.

Não bastando todas estas queixas, ainda tenho outra. No final, Anne Rice tenta convencer-nos de que Louis, subitamente, se livrou da melancolia. Que subitamente decidiu que é feliz. Oh horrores, oh injúria! Se ao menos não soasse a falso! Mas cada vez estou mais convencida de que Anne Rice odeia o personagem Louis e se quer livrar dele. Se não fisicamente, transformando-o noutra coisa. Talvez não fosse assim quando escreveu "Entrevista com o Vampiro", mas depois disso Louis desapareceu e começou a ser cada vez mais maltratado pelas Chronicles. Neste aspecto, "Prince Lestat" não destoa da tendência anti-Louis.

Pela primeira vez desde que leio as Vampire Chronicles terminei este livro sem qualquer vontade de o ler outra vez. Não sei se é uma desilusão, para mim pessoalmente, porque "Blackwood Farm" e "Blood Canticle" já não me agradaram tanto como os anteriores. Confesso que não esperava todos os motivos de queixa que apontei acima, o mais grave de todos a falta de importância que é dada à paternidade de Lestat.
No fim do livro, parece que Lestat decide que os vampiros têm de deixar de pensar mal de si próprios, que não são monstros (não, que ideia!), que já não se devem referir a si próprios como The Damned ou ao vampirismo como The Devil’s Road. Em suma, querem ter orgulho em si próprios como "povo". A minha vontade de ler livros posteriores vai depender disto. O mais interessante nas Vampires Chronicles era o perpétuo dilema dos vampiros entre a necessidade de matar e o remorso, entre a imortalidade e a nostalgia da vida mortal, entre o Bem e Mal. Se este dilema acaba, se até Louis resolve decidir que não podia estar melhor como está, que apelo poderá restar nesta série? Não sei, e talvez leia o próximo livro ("Prince Lestat and the Realms of Atlantis") para só para chegar a uma opinião definitiva.
Mas neste momento as Vampire Chronicles estão a perder-me.
Com outra escritora, diria que este livro foi escrito porque a autora precisava do dinheiro para pagar as contas. (Parece que a série sobre Cristo não vendeu o que se esperava.) Anne Rice, do que sei, não precisa do dinheiro. Mas, talvez por sorte, nunca li dela um livro tão desinspirado como este. É como se, ao decidir deixar de escrever sobre as Trevas e começar a escrever sobre a Luz, ela tenha delirado que as Vampire Chronicles também podiam pertencer à Luz. Fechando os olhos ao crime e à morte, porque os vampiros se alimentam de “malfeitores”. Mas até os malfeitores têm direito a julgamento, e nunca um só homem ou vampiro se deve encarregar de fazer justiça pelas próprias mãos e achar que pertence à “Luz”.
Honestamente, não sei que caminho levam as Vampires Chronicles mas não estou a gostar do sentido em que se dirigem. É possível que este tenha sido o último livro que leio desta série. Para já, não me apetece nada ler o próximo.

Por outro lado, descobri no site da Anne Rice que há planos para transformar as Vampires Chronicles numa série de TV, abrangendo toda a história desde o início. Esta sim, é uma ideia brilhante, que adoraria ver em prática. Que venha ela!





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quinta-feira, outubro 05, 2017

Metropolis encerra portas

O bar Metropolis encerrou no dia 30 de Setembro. Segundo o post abaixo, no Facebook, está previsto um "novo Metropolis".
O Metropolis, nas Picoas, em Lisboa, inaugurou a 7 de Junho de 2008.
Nove anos de memórias.

Mais uma má notícia para a comunidade.

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