quinta-feira, março 08, 2018

A Brief History of Goth: em desenhos animados!

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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

iZombie


Durante a primeira temporada de "iZombie", não sabia exactamente o que pensar desta série. Parece-me que os seus criadores também não sabiam se queriam fazer uma série dramática com momentos cómicos ou uma série assumidamente cómica com momentos dramáticos. Felizmente, ao longo da segunda e terceira temporadas, acertaram: série assumidamente cómica, em forma de policial, com momentos dramáticos e alguma comédia romântica. Mas não é um humor de sketches e gargalhadas. É um humor subtil e inteligente, cheio de referências e trocadilhos, que me faz sorrir mais do que rir. A bagagem dramática era excessiva no início, mas deu o peso suficiente às personagens que são tudo menos caricaturas.
Liv Moore, a nossa adorável protagonista, tinha a vida perfeita. A carreira perfeita em Medicina, a família perfeita, o noivo perfeito, a melhor amiga perfeita. Tudo era perfeito. Até que Liv vai ao sítio errado no dia errado e é contagiada pelo vírus que a transforma em zombie. Da vida perfeita Liv passa para uma morte clandestina que a força a consumir cérebros humanos para que o seu estado não se deteriore num zombie dos filmes de Romero (terminologia da série). Adeus à grande carreira. Liv tem de arranjar um emprego inferior na morgue da Polícia onde pode furtar cérebros à vontade. Esta mudança de... "circunstâncias", e de aparência física, obriga-a também a cortar laços com a família perfeita, e com a melhor amiga perfeita, e com o noivo perfeito.
Quando uma porta se fecha abre-se uma janela, porque na mesma morgue da Polícia trabalha também Ravi, outro médico brilhante que igualmente se teve de contentar com um emprego abaixo das suas habilitações após ter sido despedido do CDC por ter métodos geniais que não lhe são reconhecidos.
E aqui já começamos a ver um padrão, mas é quando o noivo perfeito de Liv, Major, se transforma também em zombie, que compreendemos definitivamente a mensagem de "iZombie": é quando as vidas perfeitas vão por água abaixo que os verdadeiros heróis se revelam. Liv, Ravi, Major, eram daquelas pessoas que tinham o Facebook cheio de sucessos fáceis, mas só a adversidade os tornou heróis. O mesmo pode ser dito do vilão, Blaine, com a sua quota parte de drama familiar a explicar-lhe o comportamento. (Pergunto-me porque é que resta ainda a perfeita Peyton, que eu positivamente odeio de tão perfeita que é. A torcer para que se transforme em zombie também e talvez ganhemos outra heroína que tem de se erguer das cinzas. Assim como é, Peyton nunca teve de se erguer de nada porque tudo lhe caiu do céu. Demasiado fácil para se conseguir torcer por ela. Peyton já tem tudo, não há nada por que torcer.)
Sim, a série encantou-me nesta abordagem de que as personagens só se transcendem quando perdem "a vida perfeita". Liv perdeu quase tudo, mas, com as suas visões induzidas pelo último cérebro consumido, descobriu uma nova vocação ao ajudar o detective Clive a resolver crimes. Ravi, similarmente, só se deparou com um desafio à sua altura ao tentar encontrar a cura para o zombismo (terminologia da série). Major, que já era um gajo porreiro, revelou-se um verdadeiro herói ao tentar travar a ameaça zombie (contra muitos zombies e contra si próprio, igualmente zombie). Até Blaine, o vilão, conseguiu transcender a sua vilania. Não há como não gostar destes personagens. (Excepto Peyton, blarg, que coisinha sem sal.)
A série não prende o interesse na parte de resolver crimes, alerto. Mas também não é por isso que vemos uma comédia sobre zombies, pois não? Queremos ver zombies que nos façam rir, e nesse aspecto a série tem vindo a superar-se de temporada para temporada.
Tenho de admitir que não percebo porque é que a Liv e o Major ainda não estão juntos outra vez, mas quero crer que seja o grande final feliz do último episódio da série. Ou eu vou ficar muito zangada!


Nem acredito no que digo, mas parece que ando a ver uma comédia romântica, e a gostar! (Que vergonha. Não digam a ninguém.) Mas também não é todos os dias que o nosso par romântico são ambos zombies e estão tão bem um para o outro. É impossível não lhes desejar que casem e façam muitos zombinhos e sejam felizes para sempre. E como já estão mortos, talvez seja mesmo para sempre.
Às vezes não é preciso uma vida perfeita, basta uma vida. Como diz o próprio nome da protagonista, liv moore: vive mais, antes que se acabe.



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sábado, janeiro 20, 2018

"A Relíquia", de Eça de Queirós


Li “Os Maias” duas vezes. A primeira, por curiosidade, aos dez anos. A segunda, já no liceu, para tentar perceber o que me tinha escapado em tão tenra idade. No meu percurso académico devo ter estudado “Os Maias” umas três vezes.
Perguntem-me pela história? Dois irmãos que não sabem que são irmãos têm uma relação incestuosa. Isto é o primeiro e o último capítulo, mais coisa menos coisa. O resto? Uma estopada insuportável que me fez renegar Eça de Queirós para todo o sempre. 
Até que me deram este livro. Foi efectivamente uma oferta e a sinopse conseguiu interessar-me: Teodorico Raposo, órfão e pobre, vê na fortuna da Titi o futuro de uma vida de luxo e gozo. Mas a Titi é ultra-beata e Teodorico tem de fingir sê-lo também para que a herança não lhe escape. Tanta falsa beatice leva-o a uma peregrinação na Terra Santa com a incumbência de trazer de lá à Titi a sagrada relíquia que a cure das suas enfermidades. E Teodorico encontra de facto a mais santa das “relíquias”, mas as coisas correm-lhe mal…
Ler esta “relíquia” foi para mim uma surpresa e conseguiu divertir-me do princípio ao fim. Quase me perguntava, ao começar o livro, mas porque é que não dão “A Relíquia” na escola em vez dos bocejantes “Maias”? Respondi a mim própria. Porque apresentar este livro cheio do sexo mais sórdido (“onde Vénus mercenária arrasta as chinelas”) diante de uma turma de adolescentes imberbes seria missão impossível.
Mais à frente, outra questão me assaltou e ainda me intriga: como é que este livro passou durante o Estado Novo? Não deve ter passado bem. Digamos apenas que só agora compreendo a estátua do Eça de Queirós na Rua do Alecrim, no familiar caminho do Cais do Sodré para o Bairro Alto. E este tempo todo a pensar que a mulher nua representava a Musa literária… Também sou muito inocente, sou.


Pior do que a Vénus mercenária, queridos leitores, este livro ainda hoje é susceptível de provocar ataques cardíacos a muito boa gente. Este livro, escrito nos idos 1887, diz que Cristo não ressuscitou. Diz que a morte na cruz foi uma farsa (e explica como) e que foram os apóstolos quem tirou o corpo do Mestre do túmulo que viria a aparecer vazio. Isto, na América de hoje, século vinte e um, era caso para queima do livro em cultos evangélicos. E tenho de me perguntar que reacção teriam as senhoras e senhores beatos do Estado Novo perante “A Relíquia”. Se calhar não era assim tanta porque só muito poucos sabiam ler, e “seleccionados” de “famílias certas”.
Mas a sensação que tenho ao ler este livro é de que as mentalidades estão a regredir à medida que o tempo avança, o que é preocupante. Não significa isto que concorde ou deixe de concordar com o furto do corpo de Cristo, nem vem ao caso. O que vem ao caso é escrever isto em 1887 e chegarmos a 2018 e ainda ser polémico que alguém escreva isto!

Teodorico é um tarado sexual
Devia ser fácil simpatizarmos com o pobre órfão Teodorico Raposo, obrigado pela necessidade de se fazer à vida a fingir-se um extremoso beato para agradar à Titi. A Titi, tão amiga da virtude que prefere deixar à Igreja a sua herança sem que lhe passe pela cabeça que a caridade e a virtude começam em casa, a isso obriga. Teodorico faz-se e desfaz-se em rezas e missas e águas bentas para provar à senhora que é suficientemente santo para merecer a fortuna.
Mas não é possível simpatizar com este Raposo, de tão falso, de tão ignorante, de tão tarado sexual. Homem feito e experiente, chega mesmo a ser apanhado a espreitar uma mulher nua por um buraco de fechadura. Mais tarde, durante uma viagem de barco, até uma monja lhe atiça o apetite. Já para não falar no putedo. Putedo chique e putedo baixo nível, Raposo nem sequer quer vinho verde, só quer mesmo as putas.
Como se não bastasse, nunca passa pelo miolo desta alminha trabalhar para ganhar a vida. Perfeito sociopata, quando lhe falha o grande golpe da relíquia falsa, torna-se em Lisboa vendilhão de relíquias acabadinhas de trazer da Terra Santa. Quando estas se esgotam, impinge frasquinhos de água da torneira como sendo do Jordão. Um cúmplice bem lhe diz: “Indecente!” Além da água do “Jordão”, Teodorico vende cacos do cântaro que Nossa Senhora levava à fonte, palhinhas do presépio, tabuinhas aplainadas por São José, ferraduras do burrinho que transportou a Sagrada Família para o Egipto. Catorze ferraduras, nem mais nem menos, do mesmo burrinho!
Eça de Queirós devia ter um profundo ódio à Igreja e à religião. A mim causa-me mais nojo tarados sexuais que vão ao Egipto e à Palestina (quando ainda não havia bombas e entifadas) e em vez de respirar o pó da História se metem num hotel com a primeira puta que encontram. São nojos, e o meu é este.
Escusam de me vir cá com “mas é uma personagem de sátira, não precisa de ser simpático, tem de ser é engraçado e interessante”. Teodorico não é simpático, nem engraçado, nem interessante. É uma besta. O gozo que me deu o livro foi torcer para que o Teodorico se desse mal, e de facto dá-se mal, e ainda se devia dar pior. Mas já lá vou.
Agora vamos ao que realmente me empolgou n’”A Relíquia” e me fez desejar que Eça tivesse escrito antes Fantasia.

A relíquia n’A Relíquia
Na Palestina, Teodorico tem um sonho. Não se percebe logo que é um sonho, truque usada por Eça para nos introduzir subitamente num relato surrealista que transporta os dois personagens, Raposo e o historiador alemão Topsius, seu companheiro de viagem, à fatídica Páscoa em que Jesus é crucificado.
E de repente é épico, é grandioso, é bíblico! É um narrador omnisciente disfarçado por trás do Raposo a contar-nos coisas que o ignorante bacharel de Coimbra jamais poderia saber, são personagens maiores do que a vida que parecem saídos d’O Senhor dos Anéis, é todo um mundo que nos é revelado como se fosse novo (de tão antigo) e que nos é estranho e intrigante como a mais moderna Fantasia. E que o Eça era capaz disto, não, eu não sabia. Durante páginas e páginas li, boquiaberta, e reconheci as influências de semelhantes obras estrangeiras do século dezanove com que aprendi a ler o que gosto.
Não é inocente que para a grandiosidade brilhar Raposo teve de se calar. E mesmo assim, em pleno Templo de Salomão na celebração da Páscoa, ainda consegue abrir a boca e dizer porcaria, que nada mais sai do meio daquelas barbas. Foi aqui que eu desejei que Eça tivesse antes escrito Fantasia, e abandonasse definitivamente o Portugalzinho dos diminutivozinhos, e as camisinhas da Mary, e as Adélias desta vida. Que desperdício!
O que me leva à célebre epígrafe com que o próprio Eça, em jeito de subtítulo, se achou obrigado a justificar esta obra: “Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia”. Não é a coberto de nenhum manto nem é diáfano, nem devia haver necessidade de justificar o surrealismo e o fantástico desta obra. O que me dói, porque prova que vem de longe esta mania da literatura portuguesa de que só o que é realista é que é bom, quando por outras paragens Horace Walpole já tinha publicado “O Castelo do Otranto” um século antes (1764).
É a este público de leitores de Fantasia e Fantástico que dedico esta crítica. A sátira do Eça já toda a gente conhece, tivemos de a estudar na escola, mas só por causa desta sequência na Terra Santa no tempo de Cristo vale a pena ler “A Relíquia”, é uma pena não ler a “A Relíquia”! Subitamente é outro escritor que se nos revela, é outro nível, é outra literatura. É a literatura que nos falta por todas as razões que aqui e aqui já debatemos. E por tudo isto foi uma agradável surpresa.

Terminado o sonho, lá voltamos ao Portugalzinho, à Lisboazinha, aos diminutivozinhos, aos jantarinhos da Titi, à reliquiazinha. À vidinha triste deste Raposo que arranja emprego na firma de um amigo de escola. (Lá está a cunhazinha.) Raposo não conseguiu a fortuna da Titi e por algum tempo parece emendar-se. Mas não se emenda. No fim do livro, ainda e sempre congemina as mentiras que devia ter dito mas não se lembrou de dizer quando as coisas deram para o torto. Raposo é incorrigível. Acabei com pena da Jesuína, a coitada com quem casou por interesse. Tirando esta, ninguém fica bem neste retrato excepto o tal douto Topsius, historiador alemão. Todas as personagens portuguesas são arrasadas. Excepto a Jesuína, poupada ao sarcasmo, talvez pela sua inocência.
Posto tudo isto, apesar do brilhantismo e do génio, começa-me a parecer que a sátira do Eça já denota a idade. É o destino de toda a boa sátira, trágico como a vida. Tem piada na altura, mas o tempo é implacável. Este já não é o mesmo Portugal, muitas ironias subtis já nos escapam, já não reconhecemos as personagens no nosso dia-a-dia. Ainda é divertido, mas cada vez menos. Vai chegar o dia em que a sátira precisará de ser explicada (como Gil Vicente tem de ser explicado para ser percebido), e esse será o dia em que a sátira morre. Triste fim mas bom sinal. Restará sempre deste livro, como de todo o realismo, um documento histórico que nos conta as verdades secretas de um Portugal extinto.
Mas por seu turno, o Fantástico não morre. Não importa que a sequência se passe na Páscoa de Cristo ou num qualquer mundo fantasioso sem tempo nem lugar. Fora do tempo e do espaço, a Fantasia vive na imaginação de quem se embrenha nela.
A cena em que Raposo encontra a árvore anuncia já que algo mágico vai acontecer muito em breve:

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração—não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi—então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos—então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio—como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Isto não vai morrer nunca. É aqui que está a relíquia.






[Li a versão pós-Aborto porque o livro foi oferecido e a cavalo dado não se olha o dente. Publico a capa da blasfémia como advertência.]


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sábado, janeiro 13, 2018

Fórum Beta Readers Portugal


O Fórum Beta Readers Portugal, ainda praticamente recém-criado, tem como objectivo ser uma plataforma de contacto entre escritores e beta readers.
Mas o que é um beta reader? Algo de quase desconhecido em Portugal, um beta reader é um primeiro leitor que lê e opina sobre um manuscrito no intuito de ajudar a melhorá-lo. O beta reading é muito praticado nos países anglo-saxónicos, e não apenas em regime de reciprocidade!, e até os nossos co-falantes brasileiros já lhe descobriram os benefícios. Aqui entre nós, quando procurei, não havia nada. Não existe o hábito, não se conhece a utilidade, não se consegue encontrar. O Fórum Beta Readers Portugal foi criado para preencher essa lacuna.
Nas palavras do fórum, "beta-readers são leitores e criticam o conteúdo da obra. Avaliam personagens e descrições, cenários e diálogos. Apreciam a criatividade, os pontos de vista e o encadeamento de ideias. Procuram buracos na intriga, coisas que não façam sentido e mostram que emoções sentem durante a leitura".
E não, "o melhor amigo, a mãe e o namorado não são bons beta-readers, porque gostam demasiado do autor e não lhe vão criticar a obra de forma objetiva". Ponto muito importante!
Outro ponto importantíssimo que é preciso desmistificar é que um beta reader não é um corrector gramatical e ortográfico. Muitas pessoas têm receio de que o escritor esteja à espera de um revisor! Não é esse o papel de um beta reader. Citando novamente o fórum, "não é suposto um beta-reader corrigir gramática e ortografia e reescrever passagens do texto. Isso é o trabalho de um revisor de texto".
Precisamente. Um bom beta reader critica, no sentido neutro da palavra crítica (que pode ser positiva ou negativa mas sempre fundamentada). Deve ser alguém que gosta de ler e de opinar e de explicar porque é que opina. Dizer "gosto" ou não gosto" ou, pior, não dizer nada, não ajuda o autor. O que ajuda é a opinião honesta e fundamentada. Neste caso, preferencialmente, e se possível, a opinião deve sempre ser construtiva. Um beta reader não lê para “dizer mal”.
Mas também não é preciso ter um curso em Literaturas e Linguísticas para comentar um texto. Esse é outro mito. Um bom beta reader reage e explica porque é que determinada história (ou passagem ou parágrafo ou frase) não funcionam para ele. Porque é que as acções de uma personagem lhe parecem incoerentes. Porque é que o enredo lhe parece confuso ou pouco credível. E porque tudo isto é subjectivo, é bom que o beta reader tenha um mínimo de simpatia pelo género que se propõe ler. De outra forma, é um sacrifício para o beta reader e de pouca valia para o autor, senão mesmo contraproducente.
Por exemplo, o que é que importa ao George Lucas que eu ache o Star Wars insuportável e infantil? Nada. Eu não sou o público alvo do Star Wars. A minha opinião é irrelevante. Como beta reader, jamais me ofereceria para ler um manuscrito do Star Wars. Embora pudesse opinar e explicar porque é que não gosto, de certeza que as minhas opiniões e explicações são exactamente o contrário do que os fãs pensam da saga.
Daí a importância de diferentes beta readers para diferentes géneros, e de uma plataforma onde os encontrar. A maioria dos beta readers são outros autores, e um regime de reciprocidade tem grandes vantagens em termos de disponibilidade, empenho e dedicação. Mas um bom leitor pode ser um excelente beta reader.
Para quem ouve isto tudo e pensa "trabalho", bem, não digo que não dê, mas também existem os benefícios:
Do ponto de vista do escritor, não há melhor maneira de melhorar o próprio trabalho do que analisar o trabalho de outros. Não sou eu que o digo, são pessoas com décadas de experiência em beta reading. Mas confirmo inteiramente.
Do ponto de vista do leitor também é muito gratificante. Ler (e até influenciar) uma obra por publicar num género de que se goste, não é trabalho: é prazer.
Para as pessoas que se interessam pela escrita e pela leitura, fica o link. Para visitar e divulgar. E talvez, quem sabe, participar? Só se perde o que fica por experimentar.

Fórum Beta Readers Portugal




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sábado, dezembro 23, 2017

O Exorcista (série)

[crítica à primeira temporada]

E depois da banhada que foi "Outcast", nada como uma série com demónios a sério, padres a sério, exorcismos a sério. Esta série não engana. É o que é, com muita acção e algumas surpresas!
Não vou estragar as surpresas. Direi apenas que é uma verdadeira sequela do filme e não tem vergonha de o ser. Se é uma boa ou má sequela, isso agora é outra questão.
Uma mulher católica e devota, Angela Rance, está convencida de que uma das suas filhas está possuída por um demónio e pede ajuda ao padre da paróquia, Tomas Ortega. Este, moderno e novato, começa por dizer-lhe que o Diabo é uma metáfora. Mas uma visita à casa de Angela fá-lo mudar de ideias.
Desde o início, a série é cheia de surpresas. Quem está possuído não é a irmã deprimida, como a mãe de ambas julgava, mas a outra, a que espalha felicidade. Muitas mais surpresas se seguem.


Se é uma série à altura do filme homónimo? Não. Nem por sombras. Tentou-se criar um ambiente semelhante, sombrio e ameaçador, mas nunca nos arrepia como o filme de 1973. Culpo principalmente os truques cinematográficos de fazer dar um salto na cadeira, que não passam disso, um susto gratuito e vazio, e efeitos especiais que nunca convencem, só prejudicam. Em certa medida, alguns destes efeitos especiais podiam estar no "Sobrenatural", especialmente aquele em que os demónios se manifestam como entidades de fumo que entram dentro do possuído pela boca. Tão Sobrenatural que quase esperávamos que ali entrassem os irmãos Winchester! Em vez deles, temos a minha cena preferida, a única que realmente me surpreendeu e empolgou.
Paralelamente à possessão que se passa na casa da família católica, onde já foi chamado também o exorcista puro e duro que é o padre Marcus porque era demais para o padre Tomas, os demónios da cidade têm em marcha uma conspiração para matar o Papa. (Parece ou não parece o Sobrenatural?) Um outro padre, o padre Bennet, entra sem aviso num desses antros de capangas possuídos… e eu pensei que ia acabar muito mal para o padreco. Pois não é que o padreco é um durão e dá uma valente coça aos possuídos? Mas não pareceu nada engraçado na altura. Foi de roer as unhas.
Entretanto, o nosso bem conhecido Pazuzu lá continuava a fazer as diabruras dele e a ameaçar torcer pescoços, mas nunca conseguiu ser a ameaça tenebrosa que nos deu pesadelos ao ver o filme original. Continua ordinário, continua porcalhão, continua a ser um bully, mas como todos os bullies ordinários e porcalhões já só nos causa desprezo, não medo. A série falhou, aqui, como sequela. As sequelas cinematográficas do primeiro filme conseguem reinventar Pazuzu e criar o mesmo ambiente de terror que nos desconforta e perturba. No Exorcista, série, já sabemos que aqueles padres durões vão dar uma coça ao Pazuzu e tudo terminará bem.
Mais interessante é mesmo a conspiração, mas quanto a esta é a motivação que falha. Por que diabo quereriam os diabos matar o Papa? Tal como disse aqui a respeito de "Outcast":
Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas.
E é mesmo de acreditar que o assassinato do Papa por um padre possuído, transmitido em directo, causasse assim tanto choque numa era em que vemos ataques terroristas a torto e a direito? Não. Eu sei isto, vocês sabem isto, os diabos também sabem isto.
O Exorcista, série, não é portanto uma obra de excelência, mas vê-se com todo o prazer na sua simplicidade de não fugir às regras. Os diabos são maus, os padres são bons, as rapariguinhas são inocentes.
E repito, os padres são bons. Consoante a preferência, tanto o Tomas, como o Marcus, como o Bennet. Há para todos os gostos. Eu até já começava a ter um fraquinho pelo Marcus quando descobri que afinal o super-padre joga no outro campo. Sorte a minha! Escolho-os mesmo bem!...


Mas que dizia?... Ah pois, não dizia, porque não quero revelar mais nada. Recomendo aos amantes d’O Exorcista e a todos os amantes do terror em geral, não que esperem medo, mas entretenimento que baste com alguns apontamentos tétricos que não vão desiludir.
Eu cá vou ver a segunda temporada. Os padres Tomas e Marcus vão começar a trabalhar juntos e prevêem-se mais exorcismos a sério, demónios a sério, possessões a sério. Às vezes o prazer está nas coisas simples da vida.



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sábado, dezembro 02, 2017

Medici, Masters of Florence

 

Tudo o que disse aqui sobre o rigor histórico de “Victoria”, não poderei dizer sobre “Medici, Masters of Florence”. Desta vez, e para meu desgosto, em vez de uma representação verídica dos Medici, e se há bastante a dizer sobre os Medici!, novamente enveredaram por uma versão fantasiada e falseada sobre uma das famílias mais importantes do Renascimento. É pena. É sempre pena.
Pelo menos não deliraram a figura de Cosme de Medici como o fez “Da Vinci’s Demons” (série que eu via por masoquismo e na esperança de que o Da Vinci da série conseguisse chegar a Marte metido num barril de madeira movido a vapor de água, que foi só o que faltou) mas mesmo assim transformaram de tal maneira personagens, inclusive matando um deles que não morreu assim na vida real e cuja descendência se sentou no trono de França, o que não é coisa pouca, que mais valia terem feito uma série ficcional sobre uma família de nome parecido, os Mellinis ou algo que o valha, inspirada na vida dos Medicis.  Era mais honesto e menos irritante.
Para começar, Giovanni de Medici, pai de Cosme, nunca é assassinado, o que deita por terra todo o drama “policial” de descobrir quem o matou. E isto foi só o início. Desgosta-me assistir a séries históricas que não respeitam a História, e desgosta-me ainda mais quando o objectivo é criar um enredo mais violento, supostamente mais interessante, para ver se capta a audiência da Guerra dos Tronos.
Não bastou que o actor de Cosme seja Richard Madden, o Robb Stark King in the North da Guerra dos Tronos, como ainda foram buscar David Bradley, o Walder Frey da mesma Guerra dos Tronos, para fazer o papel do pai da sua noiva, Contessina, e combinar o casamento entre ambos numa cena fria e desagradável, levando toda a gente a pensar, inevitavelmente, no Red Wedding.

[Por falar em Guerra dos Tronos, quem tem saudades da Lady Olenna pode ver a actriz Diana Rigg na segunda temporada de “Victoria” como Duquesa of Buccleuch, num papel quase igual ao da Lady Ollena embora menos dramático e mais humorístico.]

Eu tinha muito interesse nesta série devido à importância que banqueiros como os Medici tiveram no despontar do Renascimento. Vi algo disto, mas queria ver mais. E havia mais para ver. Não havia necessidade de assassinatos que nunca aconteceram e de drama fantasioso. A realidade foi suficientemente interessante, e ainda nem chegámos ao Maquiavel!
Encontrei este artigo sobre todas as imprecisões da série, para quem quiser comparar: Medici Masters of Florence. Truth and Fiction in the TV series

Se nos conseguirmos esquecer disto tudo, é uma série que entretém. Mas não educa.

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terça-feira, novembro 28, 2017

Requiem

Mais uma madrugada nasce só para ti
Um novo dia e ainda estás aqui

Vem ver, oh vem ver, o sol brilha para ti
Vem ver, amanhã, um novo dia contigo
Fica só mais um dia, mais um dia comigo

Agora partiste e já não estás aqui.
O sol nasce mas já não nasce para mim.

Ó linda, minha linda, levou-te a noite sem fim.





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sexta-feira, novembro 03, 2017

Metropolis reabre no mesmo espaço

O bar Metropolis vai reabrir no mesmo espaço, Centro Comercial Imaviz, nas Picoas, a 17 de Novembro. Segundo post do Facebook, a reabertura deve-se aos muitos apelos dos clientes desde que encerrou a 30 de Setembro. No entanto, permanece em aberto a mudança de espaço, que pode ser "mais morosa que o desejado".

Boas notícias!

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quarta-feira, novembro 01, 2017

Life of Pi / A Vida de Pi (2012)


Únicos sobreviventes de um naufrágio, um rapaz e um tigre têm de aprender a viver em conjunto até chegarem a porto seguro.
É esta a premissa do filme e, apesar das improbabilidades, o filme convence. Eu sou daquelas que aceitam que aquilo que o filme mostra é aquilo que o filme me quer contar. A não ser que o filme me comece a dar sinais do contrário.
Pelo menos até ao aparecimento da ilha, estive perfeitamente convencida de que a história se centrava na simbiose forçada entre um rapaz e um tigre. O rapaz, Pi, náufrago e perdido no Pacífico, porque precisava da companhia do tigre (ou de salvar a vida ao tigre) para ter uma razão para viver e não desistir; o tigre, porque depois do primeiro mergulho fora do barco compreende muito bem que não consegue regressar ao barco sozinho, e que a criatura humana tem maneiras de o ajudar a sobreviver desde que não a coma. Os animais são inteligentes. E, com o tempo, os animais são capazes de estabelecer uma relação de igual para igual com o ser humano em que a ideia de o comer já não se põe. O humano e o animal tornam-se dois companheiros, na tal relação de simbiose a que alguns de nós gostamos de chamar "amizade" na falta de termo melhor. Só o sabe quem já o teve. Alguns, e a pena que tenho deles, nunca o tiveram nem vão ter (nem merecem tê-lo).
Acredito completamente que a partir do momento em que o tigre percebeu que o rapaz era capaz de pescar, para comerem ambos, o tenha passado a olhar como fonte de comida em vez de refeição. Pensando bem, o tigre não era 100% selvagem. Era um tigre de jardim zoológico já habituado a ver no ser humano a mão que dá a comida. Comida menos boa, agora que é peixe e não carne, mas comida, e água, que sem o humano o tigre não consegue obter sozinho. Quero acreditar que um tigre não é menos inteligente do que um gato doméstico que não consiga fazer esta dedução. Outro dado a ajudar à plausibilidade são as histórias verdadeiras de amizades improváveis entre homem e animal selvagem. Acontece. 
E, até aqui, eu estava completamente convencida.


À medida que a situação se torna mais desesperada, a beleza das imagens arrebata-nos a alma. Este é um filme que vale a pena ver só pela beleza com que captura e recria a natureza, o mar, os animais marinhos, o céu, as estrelas, as tempestades, a luz, as nuvens. Tudo é sublime. Talvez até tão sublime que toca a fantasia, mas vale a pena ver mesmo assim.
(Alguém acredita que o tigre não é verdadeiro? O tigre não é verdadeiro. Só por causa disso o filme mereceu todos os Óscares, mas o filme tem mais do que imagens bonitas. E tem mais do que uma história bonita.)
 
 

Comecei a desconfiar quando os dois náufragos encalham no que parece ser uma ilha verde e misteriosa, e flutuante, repleta de sericatas (?!!!). Nesta altura, tanto o rapaz como o tigre já estavam muito desidratados e exauridos. Julguei que era um sonho ou uma alucinação. Algo na ilha não batia certo. É a nossa grande pista para nos perguntarmos se estamos a ver uma história verdadeira. Ou uma história verdadeira com uma alucinação pelo meio? Também é possível. 
Desde o início sabemos que o rapaz sobreviveu. É este, já adulto, quem conta a história. Toda a nossa preocupação reside, agora, no tigre. Não tenhamos dúvidas, o tigre é a grande estrela de "Life of Pi".


O grande senão deste filme é que coloca muitas perguntas e não lhes dá nenhuma resposta. Afinal, esta é a história da amizade entre um rapaz e um tigre, ou é a alegoria de algo mais sombrio? Não sabemos, fica ao nosso critério.
Da mesma forma, o filme tenta colocar questões espirituais que nem sequer me atingem, nem ao de longe. O tio do rapaz, após este ter sobrevivido, conta a um escritor que o sobrinho tem "uma história que nos vai fazer acreditar em Deus". Lamento, mas não vi Deus nenhum aqui. A amizade entre rapaz e tigre não é um milagre. Nem sequer a sobrevivência é um milagre. O rapaz sobrevive, mas e os outros, o navio inteiro com a tripulação, os outros animais do jardim zoológico, a família de Pi? Todos estes morreram. Não houve milagre nenhum. É certo que durante o tempo em que está perdido Pi se dirige muitas vezes a Deus, uma das quais, delirante, em que julga ver Deus nos relâmpagos de uma tempestade e quase afunda o barco à conta desse momento de insanidade, mas não é nada estranho. "Não há ateus nas trincheiras", diz o ditado, e desde miúdo que Pi tinha genuíno interesse na religião. Nada de misterioso aqui.

O que eu penso que o filme tentou fazer foi isto: da mesma forma que Pi procurou muitas religiões para chegar a Deus, assim também nós devemos escolher em que história preferimos acreditar. Como Pi diz no fim, "é a mesma coisa com Deus".
Ora, isto pode ser um abre-olhos para alguém que nunca pensou em nada vagamente espiritual, ou para alguém que sempre considerou que só havia uma religião "certa" e esta era a sua, mas a mim soa-me uma mensagem pobrezinha, muito pobrezinha, miserável de tão pobrezinha.
E se a história verdadeira era a outra, e em vez disso Pi prefere relatar um conto de fadas para crianças, qual é a mensagem que tiramos disto? Que Pi não suportou a verdade e se refugiou na fantasia? Se a história era a outra não havia maneira melhor de a contar? (E aqui lembro-me de "Pan's Labyrinth" de Guillermo del Toro, para dar um exemplo do que quero dizer sem spoilers a este filme.)
Em suma, fiquei sem saber que mensagem o filme queria transmitir, e após duas horas de aflição e lágrimas senti-me ludibriada e de barriga tão vazia como o pobre do tigre, que pode ou não existir.


Como as outras perguntas ficam sem resposta, prefiro acreditar na história do tigre. É aquela que me diz alguma coisa.
Se me queriam contar uma história diferente, tivessem contado.


15 em 20



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terça-feira, outubro 24, 2017

Minha linda

Tanto sofrimento, minha linda, tanto sofrimento. Alguns de nós não nasceram para ser felizes.
 

Dorme agora com os anjos, minha linda. Que eles te façam a companhia que de mim foi roubada.



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