sábado, 20 de outubro de 2018

Ugetsu / Contos da Lua Vaga (1953)

 

O cinema japonês clássico é uma das minhas paixões “secretas”. Não sei explicar porquê. Talvez porque são sempre relatos de crueldade e servidão em que a sensibilidade sobressai de forma mais pungente do que nos filmes ocidentais. Uma sensibilidade muito japonesa que ainda se nota nos filmes modernos, até nos de terror.
Tenho a certeza de que já tinha visto “Contos da Lua Vaga”, filme de Kenji Mizoguchi de 1953. (Recordo-me de um ciclo de cinema japonês eu passou na RTP2 há muitos anos, em que vi bastante filmografia da época.) Deve ter sido há demasiado tempo para lembrar e voltei a ver. Não me arrependi.
Não são filmes para toda a gente. Quem não conseguir abstrair-se do preto e branco e da actuação exagerada dos actores (como se estivessem no teatro), ou quem não conseguir “entrar” na cultura que serve de pano de fundo, dificilmente gostará do género. Nada aqui é Hollywood, e ainda bem.
“Contos da Lua Vaga” é um filme moral sobre a ambição e a ganância. Genjuro é um camponês pobre e humilde, casado e pai de um filho pequeno, que vive num casebre contíguo ao da sua irmã, Ohama, também casada com Tobei, igualmente camponês. A acção passa-se no século XVI, durante uma guerra civil. Genjuro domina a arte da olaria e aproveita a passagem dos exércitos para vender os seus trabalhos no mercado. Faz tanto dinheiro que nunca mais pensa nutra coisa. Por seu lado, o cunhado Tobei mete na cabeça que quer ser um samurai porque não quer ser pobre toda a vida. Ambas as esposas advertem contra a ambição em demasia mas, apesar dos riscos que correm em tempo de guerra, aceitam acompanhar Genjuro ao mercado para venderem mais olaria.
Fazem o caminho de barco, para evitarem os exércitos que andam a pilhar as aldeias, mas o rio também não é livre de perigos. Depois de avisados de que existem por ali piratas, Genjuro deixa a mulher e o filho em segurança, na margem do rio, e continua a viagem. Tobei e Ohama seguem com ele.
No mercado, fazem grande sucesso. A olaria de Genjuro é magnífica. Genjuro sonha em comprar sedas para presentear a sua esposa mas Tobei pega na sua parte e vai comprar uma armadura e uma lança que o permitam entrar ao serviço de um senhor da guerra. Ohama vai atrás dele, mas não o encontra. Perdida em terreno desconhecido, é emboscada por soldados que a violam. A cena da violação, que não se vê, é um dos exemplos desta sensibilidade nipónica de que falava a início. Ficamos na dúvida do que acontece, mas as dúvidas são esclarecidas quando um dos soldados lhe atira dinheiro como despedida. Acrescentado, ao abuso, injúria.
Entretanto, no mercado, Genjuro é abordado pela nobre dama Wakasa e sua aia que lhe fazem uma grande encomenda a ser entregue na casa senhorial. Quando Genjuro lá chega as coisas ficam estranhas. A dama Wakasa começa a seduzi-lo com cortesias e cantigas de requinte nobre e Genjuro não tem força para resistir. A aia ajuda-o a perceber o que tem de fazer: casar com Wakasa, imediatamente. Enfeitiçado, Genjuro esquece a mulher e o filho e fica sob o domínio de Wakasa. Nem repara, ao entrar na casa, que a entrada parece completamente abandonada. Sim, é uma casa assombrada. Wakasa, a aia, até as criadas, são todas fantasmas.
Entretanto, Tobei consegue tornar-se um homem importante ao serviço de um samurai. A sua única intenção é voltar a casa, para mostrar à mulher Ohama como está rico e prestigiado. Pelo caminho, os vassalos pedem-lhe que pare e descanse num bordel do caminho. Onde encontra Ohama, forçada à prostituição agora que ficou destituída de tudo pelos exércitos inimigos.
Ainda sob o efeito de Wakasa, Genjuro vai fazer mais compras para o seu novo lar quando encontra um sábio que o alerta. Incrédulo, descobre que todo o clã de Wakasa foi morto por inimigos e que a sombra da morte paira sobre ele também a não ser que fuja daquela assombração. Genjuro não consegue afastar-se do seu amor fantasma, mas permite que o sábio o exorcize. Quando regressa à casa senhorial, Wakasa está mais determinada do que nunca em levá-lo dali, agora que o considera seu marido, para a sua “terra natal”. Mas desta vez Genjuro está protegido do encantamento graças ao exorcismo que recebeu.
Não vou contar o fim. É digno de se ver e reserva ainda muitas surpresas. Os amantes do sobrenatural e do terror vão certamente gostar deste filme.

Para mais informações sobre o filme, em inglês, podem consultar o título original, Ugetsu.

15 em 15

sábado, 13 de outubro de 2018

Frozen / Pânico na Neve (2010)


Três jovens são acidentalmente esquecidos num teleférico de uma estância de esqui. É noite, a temperatura é negativa, há uma tempestade de neve. Mas o frio não é o maior problema deles. Este é um daqueles casos em que o título português se aplica melhor do que o original. Sim, o frio é um problema também, mas o filme nunca se centrou na eventualidade de morrerem de hipotermia. Pelo contrário, se as temperaturas fossem assim tão baixas a história teria acabado muito mais cedo. Esquecidos no teleférico, a descoberto, pendurados a demasiada altura do chão, eles sabem que a estância de esqui vai ficar fechada a semana toda. Ninguém virá procurá-los. Não têm telemóveis com eles. Têm de sair dali ou morrerão de sede, de fome ou de frio, consoante as condições climatéricas a que ficarão expostos.
É um pouco incerto se a distância do chão é suficiente para saltar. Um deles tenta e parte ambas as pernas. Como se não fosse já uma situação terrível, de repente aparece uma alcateia de lobos atraída pelo sangue…
A premissa do filme é muito simples, mas as consequências são dramáticas. Este é um daqueles “podia acontecer a toda a gente” nas circunstâncias erradas. Não precisamos de investir muito nas personagens. O que conhecemos delas antes do acidente é suficiente para percebermos que não são excepcionais. São apenas pessoas normais apanhadas numa situação extrema em que têm de encontrar maneira de sobreviver.
E sim, existem alguns problemas de credibilidade neste filme. Por exemplo, que jovens desta faixa etária não levassem os telemóveis, mesmo arriscando-se a parti-los. Se fosse gente mais velha ainda acreditaria. Gente desta idade, não. Desde quando é que o risco de partir o telemóvel os impede? (Papá compra outro.) Mas de certeza que o filme arranjaria maneira de tornar os telemóveis inoperacionais (falta de rede) e ia dar ao mesmo. Por isso não considero uma falha significativa. Menos credível é que uma estância de esqui estivesse fechada desde domingo à noite até sexta-feira, isto é, a semana inteira, em plena época alta. Há sempre gente de férias, especialmente as pessoas que gostam de esquiar e que marcam as férias de propósito neste período. Isto já faz menos sentido. Mas a presença dos lobos, que também é estranha num local tão frequentado, até pode ser explicada por este lapso regular de actividade da estância. Uma estância, aliás, que devia ser encerrada por motivos de segurança. Bastou balançar um bocadinho o teleférico para saltar o parafuso principal que o mantinha preso à estrutura!
Mas nada disto é impossível e pode resultar de uma simples confluência de azares. Os nossos jovens estavam no sítio errado à hora errada. A partir do momento em que compreendemos a situação ficamos irremediavelmente agarrados ao filme. À medida que o perigo aumenta, temos de ver o final. É impossível não torcer por eles.
“Frozen” é um bom filme de “terror situacional”. Curto, tenso, sem desvios desnecessários, de um suspense de cortar à faca. Gostei e recomendo. O título é que podia ter sido mais bem escolhido.

Nota: os amantes de gore vão preferir ver a versão em DVD, que mostra cenas (não vou revelar de que tipo) que no filme original apenas se ouvem. Pessoalmente, bastou-me ouvir. Aplaudo a decisão de não cair na tentação de mostrar. Neste caso, Adam Green, o realizador, fez uma boa escolha em deixar certos pormenores à imaginação.


15 em 20

sábado, 6 de outubro de 2018

Black Death / Morte Negra (2010)

O ano é 1348. O pano de fundo é o surto de peste bubónica na Inglaterra medieval. Eu esperava um drama histórico à volta da epidemia mas o filme anda mais no género Aventura a piscar o olho à Grimdark Fantasy.
O enredo é muito curto. A mando da igreja, um grupo de cavaleiros dirige-se para uma vila isolada em terreno pantanoso onde, segundo rumores, não só as pessoas são imunes à peste como existe um necromante que ressuscita os mortos. O que só pode significar que têm um pacto com o Diabo, obviamente. O objectivo do líder dos cavaleiros, Ulrich (Sean Bean, Boromir em “O Senhor dos Anéis” e Ned Stark em “Guerra dos Tronos”) é capturar e executar barbaramente esse herege. No caminho, alicia um jovem noviço como guia até à vila recôndita (Eddie Redmayne, que também conhecemos como protagonista da adaptação de ”The Pillars of the Earth”).



Chegando à vila em questão, é óbvio que algo de estranho se passa. Aqui não há pilhas de mortos a queimar ou enterrar. A igreja está abandonada ao pó e às teias de aranha e os residentes converteram-se ao paganismo. A pessoa mais importante da vila parece ser a bela Langiva (Carice van Houten, a Melisandre de “Guerra dos Tronos”). Obviamente, tem de ser uma bruxa.


O filme é brutal e cru do princípio ao fim. Morte não falta (natural ou provocada), violência muito menos, e outras nojices de revirar o estômago como os corpos cobertos de bubões purulentos. O filme salva-se à minha classificação de porno-tortura porque tem o bom gosto de não mostrar todos os pormenores tão explicitamente como podia ter feito. Nos instantes piores, a câmara afasta-se.
O que não quer dizer que este não seja um filme de violência gratuita, ou quase. Chegamos ao fim sem perceber qual era o objectivo. Afinal, por quem é que devíamos torcer? Os cristãos são fanáticos, maus e desleais. Os pagãos são desleais, maus e fanáticos. O jovem monge, o único que prometia ser uma pessoa decente, acaba tão mau como eles. A bruxa, afinal, é apenas uma curandeira que percebe de ervas e drogas. O piscar de olho à Fantasia, que o filme prometia desde o princípio, desfaz-se em explicações sherlockianas: não são ressurreições, são embustes (Teria sido muito mais interessante ter enveredado pelo sobrenatural.) O que sobra então deste filme? Todos são maus, a religião é má, a vida não é boa, a peste é pior. Tudo é negro como a peste.
Mesmo assim, o filme não é muito difícil de se ver graças ao bom gosto de evitar a porno-tortura. Promete mais do que oferece, mas oferece o bastante. No mínimo dos mínimos podemos regalar-nos com os cenários, o guarda-roupa, a fotografia. Tudo muito convincente do período histórico que representa, se não entrarmos em grande minúcia.
E os fãs da “Guerra dos Tronos” vão adorar o confronto entre este quase-Ned Stark e esta quase-Melisandre, disto tenho a certezinha absoluta. Eu, confesso, diverti-me.

13 em 20

sábado, 29 de setembro de 2018

Zero Dark Thirty / 00:30 A Hora Negra (2012)


“00:30 A Hora Negra” é a reconstrução realista da caça ao homem que resultou no assassinato de Osama Bin Laden em 2011. Baseado em testemunhos de pessoas envolvidas, acompanha os operacionais da CIA envolvidos na busca de uma década que terminaria em Abbottabad, Paquistão, onde o terrorista mais procurado do mundo se encontrava escondido.
O filme é isto e pouco mais do que isto. Quase um documentário. Os personagens nunca são aprofundados para além dos seus papéis profissionais. Se calhar porque se baseiam em pessoas reais, heróis americanos, e ainda era/é muito cedo para os mostrar como seres humanos? Talvez. O filme apresenta-nos os factos como eles se passaram, desde a tortura utilizada em prisioneiros nos anos de George W. Bush até à abordagem mais soft da administração Obama. Mas nunca se tenta moralizar o que vemos no écran. Não é esse tipo de filme. Este é um filme para quem quer conhecer mais pormenores do que realmente se passou em Abbottabad e como é que a CIA lá chegou.
É impossível não apontar as semelhanças com “Homeland”. Tal como na série, muito do jargão e técnicas de espionagem caem-nos em cima sem que ninguém os explique. Cabe ao espectador fazer o esforço de acompanhar. Se calhar não teria percebido tanto do filme se não visse a série. Assim, o filme pareceu-me quase um episódio de “Homeland”, apenas sem Carrie Mathison. Ou melhor, sem a Carrie Mathison bipolar, porque a protagonista, obcecada e frenética, lembra Mathison em tudo o resto.
Mas “00:30 A Hora Negra” não é um filme interessado em explorar personagens. É o que é, desde o 11 de Setembro à caça a Bin Laden e às pistas que levaram a CIA a encontrá-lo. Mesmo assim, esperava mais em termos factuais, nomeadamente as reacções das duas administrações da Casa Branca ao desenrolar dos acontecimentos. Sim, esperava ver os bastidores que conduziram a esta célebre foto:



O filme nunca nos mostra as presidências. Foca-se apenas na equipa de operacionais no terreno. Talvez seja muito cedo. Tenho a certeza de que ainda vamos ver uma melhor versão desta operação secreta, mais completa, por perspectivas mais humanas, quando tempo suficiente transformar as pessoas reais em personagens históricas. É uma questão de esperar.


(Este filme não tem nota porque não o encarei como entretenimento.)


sábado, 22 de setembro de 2018

Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche


Eu sou Zaratustra, o Sem-Deus. Pois não sabeis que Deus está morto?
Afirmações destas devem ter sido muito chocantes em 1883, ano em que “Assim Falou Zaratustra” começou a ser publicado. (Apesar de não parecer, o livro está incompleto. Nietzsche tencionava publicar a conclusão.)
A filosofia de Friedrich Nietzsche influenciou todo o pensamento moderno. Mas será que ainda faz sentido ler “Zaratustra”, hoje em dia que somos tão pós-tudo que “Deus está morto” só nos induz um encolher de ombros?

Um livro para todos e para ninguém
Por paradoxal que pareça, “Assim Falou Zaratustra” é uma leitura tão acessível como difícil. A obra é apresentada como um romance fictício da vida de Zaratrusta (Zoroastro). Li algures que Nietzsche escolheu este profeta por achá-lo o primeiro a apontar que todo o conflito ético se baseia numa luta entre o Bem e o Mal. Não devia ser isto exactamente que pregava o Zoroastro original, mas serviu muito bem como modelo. Em “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche utiliza-o como uma quase-farsa, uma sátira ao Velho e ao Novo Testamento, às vezes fábula assumida (quando Zaratustra fala com os seus animais, a águia e a serpente, personagens importantíssimos que também falam). Que Nietzsche tem um ódio especial à religião, e ao cristianismo em particular, reflecte-se logo na afirmação chocante “Deus está morto”.
Chega a ser irritante de tanto que nos martela com isto. Na altura fazia sentido, mas penso que actualmente estamos tão além do pensamento religioso e tacanho em que Nietzsche batia que se torna um bocadinho demais.
Mas que Nietzsche e filósofos semelhantes tiveram influência nota-se ainda: nas pessoas que persistem, e que conheço pessoalmente, em passar um atestado de estupidez a toda a gente que tem tomates de admitir que acredita em algo de divino ou sobrenatural. Aguentem-se, filhos, eu também tive um grande choque quando percebi que inteligência não é sinónimo de sensibilidade. (Até me parece que são características tendencialmente opostas, o que me choca ainda mais.) Da mesma forma, queridos intelectos iluminados, nem só de Razão vive o homem. Mas se no tempo de Nietzsche fazia sentido “abrir os olhos”, hoje em dia já não há desculpa nenhuma e já não tenho paciência para estas manias de superioridade.
O que me leva ao grande tema do livro, o Super-Homem. Zaratustra prega o Homem-que-se-supera, e como o homem se supera constantemente, o Homem-que-se-supera é sempre o homem de amanhã. Por causa deste conceito de super-homem, o livro (e o pensamento de Nietzsche em geral) têm sido acusados de ter contribuído para a doutrina nazi. Admito que também li por causa disso, na curiosidade de saber de onde vêm as coisas. Agora que li, acho esta acusação injusta. É claro que percebo como é que o conceito pode ter sido interpretado assim, mas o livro é tão subjectivo que a interpretação também acaba por ser. Talvez fosse mesmo esse o objectivo. Por alguma razão o subtítulo de “Assim Falou Zaratustra” é “Um livro para todos e para ninguém”.

Afinal, a Fé não está morta
Eu confesso-me o “ninguém” do subtítulo. Muitas vezes não consegui compreender o contexto e a mensagem de algumas passagens. Faltam-me referências filosóficas, nomeadamente as mais próximas do tempo de Nietzsche e em que este batia com ardor. (A tradução que li, anotada, foi muito útil neste sentido.) Noutras passagens, Nietzsche fala de personagens-tipo da sua época que pura e simplesmente já não existem. Actualmente já nem nas igrejas há “adoradores da morte” cujo grande “objectivo” é morrer e ir para o Céu. Talvez apenas existam em seitas de pouca expressão numérica. As grandes instituições religiosas têm e querem ter um papel activo “neste mundo”. (Se deviam ter ou não, não é para aqui chamado agora.) Assim, admito que não apanhei muitas das indirectas, certamente deliciosas à época. Curiosamente apanhei outras, ainda mais obscuras, como aquele curto parágrafo em que Zaratustra faz uma piada ao Espiritismo. Até pensei que tinha percebido mal, mas a anotação confirmou. O que nos diz que nós compreendemos muito bem o que conhecemos e nos interessa. Mas muito do que Nietzsche fala neste livro já não é reconhecível para mim.
A somar a isto, o estilo satírico também me deixou na dúvida muitas vezes. A maior perplexidade surgiu-me na passagem sobre o eterno retorno. Não percebi mesmo se  Zaratustra/Nietzsche estava a expor o conceito ou a gozar com ele. Nunca me preparo de antemão para ler um livro (nem mesmo para um livro de temas filosóficos complexos, como este é, porque gosto de pensar pela minha própria cabeça primeiro e só depois consultar as convenções) mas o conceito não me é desconhecido. Na verdade, cheguei a ele pela via espiritualista de inspiração oriental. Será que dizer isto faz com que Nietzsche (o anti-religião) ande às voltas na cova, ou o contrário? Não tenho resposta. O próprio posfácio do livro menciona o orientalismo no pensamento de Nietzsche como algo de incomum nos filósofos ocidentais da época.
Mas o conceito de eterno retorno é velho, muito velho. Veio do Oriente para os Gregos clássicos e chegou desta maneira ao pensamento filosófico ocidental, aparentemente “depurado” de espiritualices. Na minha opinião, só aparentemente. Dêem-se-lhe as voltas que dêem, o conceito nunca deixa de me parecer místico. Para um pensador aparentemente tão devoto à Razão que diz que Deus está morto, é uma tese paradoxal. Afinal, Zaratustra/Nietzsche passa o livro a criticar aqueles para quem “tudo está perdido, a vida não interessa, nada é novo” e aponta-lhes o homem-que-se-supera como objectivo último e grande esperança da humanidade. Mas se tudo se repete vez após vez, a Humanidade está destinada a correr sempre atrás do futuro sem nunca o atingir. Assim sendo, não têm razão aqueles para quem “tudo está perdido” e nada vale a pena, ou, pelo contrário, é a eterna busca que vale a pena? Mas acreditar que vale a pena é um acto de Fé, não de Razão. É acreditar que a Humanidade está destinada a evoluir e (também) que a Humanidade não regride mais do que já evoluiu.
Talvez a última parte da pregação de Zaratustra (incompleta) esclarecesse estes pontos sem sombra de dúvidas. Se é que precisam de ser esclarecidos. Para mim bastaram e achei “Assim Falou Zaratustra” uma leitura muito válida e provocadora ainda nos dias de hoje. Com algumas ideias concordei veementemente, de outras discordei furiosamente. Aqui e ali fez-me rir. E sobretudo fez-me pensar. Não sei se pensei o que Nietzsche queria que pensasse mas este também já não é o tempo de Nietzsche. Às vezes perguntei-me se ele não estava a dizer algumas das coisas que disse só para provocar. Porque são estes os nossos tempos. Os tempos dos “grandes desprezadores”. Como grande desprezadora que sou, talvez eu e Zaratustra pudéssemos ter sido bons amigos. Daqueles que andam sempre às turras. Eu também teria uma coisinha ou duas para lhe martelar aos ouvidos.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

New Moon / Lua Nova (2009)


Segundo capítulo das aventuras de Edward o-vampiro-que-cintila e Bella a-rapariga-que-só-pensa-no-Edward.
Um dos motivos porque a saga Twilight foi tão mal recebida pelos verdadeiros amantes de vampiros foi na verdade um equívoco gerado pelo marketing à série. Um desfasamento de expectativas. Embora tenha elementos sobrenaturais, Twilight pertence mais ao género romântico do que a qualquer outro. O facto de ter vampiros e lobisomens é quase irrelevante. Se os substituíssemos por grupos rivais o enredo seria exactamente o mesmo. Esta é, acima de tudo, uma história romântica, e os amantes de horror que não apreciam o género romântico não vão encontrar aqui satisfação.
As minhas razões para continuar a seguir a saga são mais obcecadas. Sou de tal forma uma viciada em vampiros que muito raramente consigo resistir e vejo tudo: do muito bom ao muito mau. Para quem não é alérgico a histórias românticas, a saga Twilight vê-se.

Sempre desconfiei de vampiros que brilham
Depois dos acontecimentos do primeiro livro, que puseram Bella em perigo, Edward decide finalmente fazer a coisa certa e deixar de andar atrás de miúdas de liceu. Mas fá-lo mal. Em vez de revelar os seus verdadeiros motivos, arma-se em “todo-bom” e diz a Bella que esta não é digna dele. Grande estafermo. Eu já não gostava do Edward, mas neste filme começo mesmo a detestá-lo. Sem mais explicações, desaparece, deixando a miúda bastante deprimida por uns meses. Mas na verdade Edward não rompeu completamente, como devia ter feito se era mesmo esse o objectivo. Continuou em contacto com Bella através da ligação psíquica, o que pessoalmente achei de muito mau gosto. (Se vais, vai. Não vás pela metade.) Desta forma, nunca lhe permite recuperar e ultrapassar a relação. O que é mais grave, Bella fica à mercê dos inimigos dos Cullen, na ausência destes, e começa a ser perseguida por vampiros vingativos. Outra má onda. Não a deviam ter deixado sozinha nestas circunstâncias. Nomeadamente Edward sabe o que se passa (através da tal ligação psíquica) e nem isso o leva a mexer o traseiro para ir resolver problemas que são da família dele. (Estão a ver porque é que o detesto?)

Vampiros vs lobisomens
Felizmente, Bella torna-se mais próxima de Jacob, o índio. Admito que sempre gostei deste personagem. Sempre que ele aparecia no livro original, era uma lufada de ar fresco. Jacob parece ser o único que pensa e diz coisas com pragmatismo, e além disso tem sentido de humor. É difícil não torcer por ele. (Mas só aqui entre nós acho que a Bella não o merece.)
Quando se aproximam, Jacob ainda não sabe que é lobisomem. Mas atingiu a idade e as transformações começam a acontecer. (Coitada da Bella, também admito que não pode haver rapariga mais azarada. Ou se apaixona por vampiros ou lobisomens.)
Os lobisomens de Twilight, à semelhança dos vampiros, também não obedecem aos cânones. Não precisam da noite nem da Lua Cheia para se transformarem. Não sei se o livro explica melhor, mas fiquei com dúvidas. Conseguem transformar-se quando lhes apetece ou apenas quando se enfurecem? A Lua Cheia terá alguma influência, ou nenhuma? E até que ponto têm consciência humana na fase lobo? Se percebi bem, são responsáveis por alguns homicídios que a polícia da terra andava a investigar. Mas Jacob parece reconhecer Bella na fase de lobisomem, o que é problemático do ponto de vista da consistência. (Se como “lobo” tem este grau de consciência, também é responsável pelos homicídios.) Também não cheguei a perceber porque é que há rivalidade entre vampiros e lobisomens. O filme não explica, simplesmente apresenta como facto. Nos Diários do Vampiro, pelo menos, são apresentados como inimigos naturais porque uma dentada de lobisomem mata um vampiro. Aqui, não percebo qual é a rivalidade (e não me quero pôr a conjecturar). Afinal, não são todos monstros? Até deviam dar-se bem, penso eu. No primeiro livro/filme já havia aversão dos índios para com os Cullen, mas pensei que se devia apenas a saberem que eram vampiros. Afinal a aversão é outra.
É Jacob que lá está quando é preciso salvar Bella. Começa a estabelecer-se entre eles uma relação maior do que amizade. E eu a torcer por ele, obviamente.
Mas a relação não chega a ter tempo de se desenvolver. Em busca de adrenalina, e porque é jovem e não pensa (e para tentar que Edward a contacte psiquicamente), Bella decide mergulhar de um penhasco. Alice, a irmã adoptiva de Edward e vampira médium, tem uma visão deste mergulho e julga que Bella se tentou suicidar. Aqui acontece uma peripécia um bocadinho forçada. Sem confirmar que Bella está morta, Edward acredita apenas na visão de Alice e decide ir entregar-se a um clã de vampiros na Itália, os Volturi, que matam aqueles que quebram as regras. A primeira de todas é que os vampiros não devem expor-se aos seres humanos (brilhando ao sol). Nesta tentativa de suicídio à Romeu (porque não consegue viver num mundo onde Bella não viva), Edward decide quebrar as regras para que o matem. Mas eu acho isto um pouco precipitado. A própria Alice diz que nem sempre vê tudo. Porque é que o Edward acredita numa visão sem se certificar? Pelo menos ia ao funeral, não? Mas assim é mais dramático.
Bella e Alice chegam mesmo a tempo de o salvar, mas os tais Volturi exigem que ela seja transformada porque sabe demais. Isso, ou morta. Mais uma vez, Edward arranja-lhe problemas. Bravo, Edward vampiro-brilhante! E a Bella deixou o Jacob para isto!
Estes Volturi lembram-me os vampiros de Anne Rice, no tempo do coven do Cemitério dos Inocentes e do Teatro dos Vampiros. A qualquer altura, esperava que o vampiro Armand entrasse pela sala.

 Armand, Lestat e Louis não estavam disponíveis para participar no filme.

Tal como os vampiros de Armand, também estes se julgam a autoridade vampírica e gostam das suas regrazinhas. São os piores. O filme consegue um momento de quase-terror quando um grupo de turistas é guiado para dentro do palácio dos Volturi para lhes servir de refeição. Como é que eles explicariam todos estes desaparecimentos, pergunto-me? Levantar suspeitas também é contra as regras. Mas o filme não é sobre isto.
O facto é que Bella quer ser vampira. Desde o início do filme, não fala de outra coisa. Até me perguntei: mas esta miúda nunca leu Anne Rice? Aparentemente não, porque no mundo de Twilight não existem as Vampire Chronicles. Bella não quer ser vampira para ser imortal, nem para ser jovem para sempre, nem para ter poderes especiais. Nada disso. Bella quer ser vampira para ficar mais próxima de Edward. A princípio ele rejeita a ideia (única coisa em seu favor) mas acaba por concordar (lá se foi a coisa).

E assim terminaram duas horas de filme. Não imagino quando verei a continuação. Acompanho por uma questão de curiosidade e cultura “geral”, como acompanhei o Harry Potter. (De outra forma, como é que ia perceber as referências culturais da gente mais nova?) Comparando entre ambos os fenómenos, desgosto menos do Twilight. Pelo menos tem vampiros. E pronto, é só isto.


13 em 20 (ponto extra porque os Volturi me lembraram outras vampiragens)