quinta-feira, julho 06, 2017

Outcast


A primeira coisa que li sobre Outcast é que esta é uma série que efectivamente mete medo. Do mesmo criador de The Walking Dead, Robert Kirkman, e tendo como personagem principal um exorcista, claro que fiquei extremamente entusiasmada! Bem, culpa minha. Por esta altura já deveria saber que um artigo escrito por um espectador normal não traduz “meter medo” da maneira que eu entendo “meter medo”. E quanto a “meter medo” fiquei bastante desiludida. Mas já lá vamos.
Esta é a história de Kyle Barnes, um homem aparentemente perseguido por demónios desde infância. Os motivos por que é perseguido, porque é que os demónios possuem toda a gente que lhe está próxima, não são explicados, pelo menos até ao fim da primeira temporada (a que esta crítica se reporta). E tenho de começar logo aqui a dizer mal, quando eu até queria gostar desta série.
Para dez episódios, a série segue num ritmo demasiado lento para o meu gosto, mas admito que a história se centra em personagens que nunca me conseguem cativar e com as quais não me identifico. Grande parte dos episódios é sobre estas personagens e o seu quotidiano, tentando, ao mesmo tempo, interessar-nos pelos seus problemas e traumas, o que pode resultar muito bem com o tipo de público que estas representam. Para mim as personagens pouco representam e muitos dos episódios foram, lamento dizê-lo, quase uma seca. Só os demónios os salvaram.
O mesmo sintoma se aplica, curiosamente, a The Walking Dead. As personagens são de uma pobreza intelectual generalizada, insuportável se apresentada num enredo sem zombies. Deduzo que seja mesmo esse o objectivo: personagens que representam um certo público alvo com que este se pode identificar facilmente. Admito que resulte, mas eu não pertenço a este público alvo. Mesmo assim, as personagens de The Walking Dead ainda conseguem ser intelectualmente superiores às de Outcast, o que não é difícil. Mas as personagens de The Walking Dead estão ali para servir de papa para zombie e eu sou da opinião de que não é conveniente que o espectador se identifique muito com personagens de uma história de terror.
Já não se passa o mesmo com Outcast. Com Outcast, uma história muito mais lenta e centrada nos personagens, seria importante que nos importássemos com eles. Infelizmente, isso não aconteceu, e acabei a primeira temporada sem saber de cor do nome do protagonista (que fui consultar para esta crítica). O que diz tudo. Pior do que a pobreza intelectual dos personagens são algumas das suas escolhas e comportamentos, do estúpido ao ainda mais estúpido. (O que também é comum a The Walking Dead, curiosamente.) Nem o reverendo se safa. Se calhar por defeito cultural de influência católica, tenho a tendência de olhar para os responsáveis religiosos como pessoas cultas. Esta série recorda-me constantemente o que de menos culto existe na América profunda do “Jesus Belt”, em que o pastor só precisa de saber citar a Bíblia e interpretá-la como lhe dá mais jeito.
Cada vez que estes personagens abrem a boca entra demónio ou sai asneira, e não há como suportá-los.
Falemos então do único motivo por que vejo esta série: os demónios.

Os demónios
Mas serão mesmo demónios? Após dez episódios, tenho razões para duvidar. Foi realmente muito estranho assistir ao comportamento destes demónios. Na verdade, quem nos diz que são demónios é o reverendo, que não diria outra coisa. Mas o reverendo não consegue exorcizá-los com a Bíblia e a cruz e água benta, o que também poderia não significar nada excepto pelos poderes do tal Kyle Barnes, que nem sabe que os tem. Com a simples imposição das mãos, Kyle Barnes consegue expulsar estas entidades das pessoas possuídas (se estão mesmo possuídas?...). A entidade, composta de parte etérea como fumo (à Sobrenatural) e parte óleo negro (como o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos) sai pela boca do possuído, roda em espiral em direcção ao tecto, e dissolve-se. Do ponto de vista da cultura cinematográfica, parece uma possessão demoníaca. Os possuídos exibem comportamentos alterados, no mínimo estranhos e nos piores casos capazes de violência extrema, o que também é consentâneo com possessão. As imagens iniciais do genérico (o panorama invertido que sobrevoa a cidade) evocam a noção de que o universo demoníaco é invertido (por que motivo, honestamente, nunca me dei ao trabalho de pesquisar, mas compreendo o conceito). Até aqui, tudo nos leva a pensar que se tratam efectivamente de demónios. Mas depois há outras coisas que não fazem qualquer sentido no contexto em que os conhecemos. Ou são demónios muito esquisitos, ou não são demónios de todo.
Primeiro, o tal óleo negro. Ora, toda a gente sabe que o Diabo só se vê quando ele quer mostrar-se, e o mesmo dos seus capangas. De diabos transformados em óleo negro nunca ouvi falar. Mas vamos considerar que são diabos originais.
Segundo, está a haver uma verdadeira infestação de diabos na gente daquela cidade. Das conversas entre estes diabos, que são tudo menos incompreensíveis e crípticas como se esperaria destas entidades, parece mesmo que o objectivo é possuir o maior número possível de pessoas sem dar nas vistas. (E esta parte de “sem dar nas vistas” é importante porque o objectivo da possessão demoníaca sempre foi o de testar a fé dos crentes, nunca a de passar despercebida.) Os diabos estão a chegar em catadupa para um evento em grande escala que o reverendo interpreta como o Apocalipse, mas eu não vejo nada ali que se assemelhe ao Apocalipse. Antes pelo contrário. No Apocalipse, o Anticristo manifesta-se, não se esconde.
Terceiro, que eu saiba, o grande chefe dos diabos não anda por aí em forma de gente, de fato escuro e chapéu de gangster, a mutilar reverendos. Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas. (É mais do que gozo, se é que é gozo, mas não vamos entrar em pormenores doutrinais.) O objectivo é arrebatar almas para o Inferno. Não vale possuí-las todas ou levá-las à força ou ameaçá-las à naifada. Há regras!


Por último, finalmente reparei no grande poster “X-Files: I want to believe” que o tal Kyle Barnes tem no quarto, bem visível, desde o primeiro episódio. The Walking Dead já nos habituou a deixar pistas, e eu até já tinha percebido sozinha que o tal óleo negro parecia o vírus extraterrestre dos Ficheiros Secretos, mas pensei que o poster era apenas uma homenagem.
Chegando ao fim da primeira temporada, pergunto-me se é mais do que isso. Aquela infestação de diabos e as conversas entre eles levam-me mais a pensar numa invasão extraterrestre (tipo “Body Snatchers”) do que demónios.
De qualquer das maneiras, o resultado é mau. É mau se a série prometeu demónios e exorcistas durante toda uma primeira temporada para depois nos dizer que são extraterrestres. É mau se forem extraterrestres porque nunca se percebe ao certo que o são, e até a pista, se o for, é uma extrapolação da minha parte que pode estar certa ou errada. Em qualquer dos casos, considero mau resultado chegar ao fim da primeira temporada sem perceber exactamente o que estou a ver. Nos primeiros episódios? Sim. Uma temporada inteira? Demasiado. (Lá tenho de me lembrar outra vez da pior temporada de Lost, quando tentaram convencer as pessoas de que a ilha tinha uma explicação científica.) Mas cheguei mesmo ao fim da temporada na dúvida, a saber muito sobre personagens que não me interessam nada e muito pouco sobre os demónios que podem não ser demónios.

O que mete medo
O que mete “medo”, em Outcast, são as cenas de violência real. A mãe a espancar o miúdo, o homem que viola e assassina a mulher do melhor amigo, os animais mutilados. Tudo coisas imputadas ao diabo, mas todos sabemos que neste caso o diabo tem as costas largas. Não é preciso diabo para as pessoas fazerem estas coisas, o que é mais triste do que assustador.
A única cena que mete medo é quase uma cópia do “Exorcista”. Um miúdo possuído a fazer exactamente as mesmas coisas que faz a miúda possuída do “Exorcista”. Não considero um plágio mas uma homenagem. Se mete medo? Claro que mete medo. Não é por nada que o “Exorcista” é considerado um dos filmes mais assustadores de sempre.


As possessões seguintes tornam-se cada vez menos assustadoras e cada vez mais violentas, e já não causam o mesmo efeito. Quanto mais a série se afasta dos temas demoníacos e se foca na banalidade da violência real, cada vez menor o efeito. O que nos assusta no “Exorcista” funciona a nível inconsciente. Temos medo do que não vemos, do que nos pode controlar contra a nossa vontade, da possessão. Se os demónios nem parecem demónios, não produzem o efeito de demónios.
A melhor possessão da série, tenho de dizê-lo, é quando alguém que não vou identificar mata o marido assim que a entidade entra dentro dela. E foi a melhor possessão porque a entidade dentro dela a faz parecer um zombie. Acreditei, a certo momento, que ela ia começar a comer o cadáver do marido. Da maneira como deambula pelas ruas, desgrenhada e descalça, podia ter aparecido em The Walking Dead e ninguém dava pela diferença. A melhor possessão da série funciona porque nos lembra da outra série, com tudo o que isso implica.


Ainda não comecei a ver a segunda temporada*, e ainda tenho esperança de mudar de ideias, mas até agora Outcast não me consegue convencer como a grande série que esperava que fosse e que podia ter sido. Se ao menos os personagens fossem mais interessantes (e inteligentes), se ao menos os demónios fossem mais demónios e menos outra coisa que não se percebe.
Espero bem que estas entidades não sejam afinal um vírus extraterrestre que visita o planeta Terra ocasionalmente desde a mais remota pré-História, dando assim origem ao mito dos demónios (e dos vampiros). Se há uma coisa que me irrita é a “mistura” de científico com sobrenatural. Nunca vi nada que saísse bem feito dessa mistura. Porque é que as pessoas insistem?


* Entretanto, depois de escrever este artigo, já vi o primeiro episódio da segunda temporada. O mistério quanto às entidades continua a arrastar-se, a arrastar-se, a arrastar-se... Com alguma sorte, pensam os criadores da série, para espremer dez temporadas disto.
Eu já estou desapontada e ainda vou no décimo primeiro episódio. O início da segunda série não augura  melhoria. Se vou continuar a ver? Claro que vou. Demónios ou extraterrestres ou gambuzinos, onde há terror lá estou eu. Que a série podia ser muito melhor do que é? Sim, podia. O que é que a série pretende alcançar? Não faço ideia. Por esta altura, acredito que os criadores também não fazem.




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terça-feira, junho 13, 2017

Mad Dogs (2016)

 

Quem tem saudades de Breaking Bad não deve perder esta série. Não é a mesma coisa mas o tema e o ritmo alucinante certamente agradarão ao mesmo público.
Um empresário do imobiliário, aparentemente bem sucedido, convida os seus quatro amigos de juventude para umas férias no seu espectacular chalé no Belize. Por chalé, entenda-se uma vila de dois andares, pátio interior com piscina, extensa propriedade privada em volta e praia privada. Uma casa de sonho! Os amigos ficam deslumbrados! Embora percebam que o amigo do Belize os convidou para ostentar. Mas que é isso entre amigos? E de férias?


Depois de um dia de banhos de mar e jogos de bola na areia, sentados à mesa, o bom anfitrião muda subitamente de atitude e desata a criticar impiedosamente cada um deles, apontando-lhes os falhanços pessoais e profissionais. Antes que possam responder, um homem encapuzado entra no chalé e troca algumas palavras com o dono da casa. Não gostando das respostas, o encapuzado dá-lhe um tiro na cabeça. Assim mesmo, sem mais!


Os quatro amigos, em choque, são também ameaçados. O assassino julga-os cúmplices dos negócios obscuros do amigo do Belize e exige-lhes que entreguem aquilo que o primeiro não quis entregar. Para lhes complicar ainda mais a vida, arranja maneira de os incriminar pelo homicídio. Agora em estado do pânico, os quatro amigos percebem a armadilha em que caíram e pensam em fugir. Mas, incriminados pelo homicídio, e por serem estrangeiros num país de legalidade duvidosa, tomam a precaução de esconder o corpo. O que não vai ser tão fácil como julgavam...
Começa assim uma série de aventuras rocambolescas e alucinantes em que um advogado, um gestor financeiro, um professor e um empreiteiro se vêm a fugir a uma chefe de polícia corrupta, a um cartel de droga, a personagens tenebrosas com ligações à CIA, e até ao FBI. Fora do seu ambiente, sem recursos nem conhecimentos, sem saberem no que se meteram, rodeados pelas paisagens tão belas quanto perigosas da selva tropical, como é que se vão safar? Confrontados com circunstâncias de vida ou de morte, a amizade que antes os ligava pode não passar de uma fantasia inexistente quando o instinto de sobrevivência fala mais alto. Qual deles trairá os outros primeiro? Qual deles, tendo a oportunidade de escapar, deixará os outros para trás?

Mad Dogs é a adaptação de 2016 da série britânica homónima de 2011. As semelhanças com Breaking Bad são evidentes, tanto no tema, como na cinematografia (os planos da piscina, por exemplo), como nas cenas de acção e no humor negro. Mas a história é bastante diferente e não existe um Walter White com soluções geniais de último minuto. São só pessoas normais numa situação extrema, e desde o primeiro momento sentimos que podia acontecer-nos a nós.
Num panorama televisivo recheado de histórias mal-amanhadas, Mad Dogs surpreendeu-me pela inteligência e pelo humor. Recomendo vivamente.




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quinta-feira, maio 25, 2017

O que o gótico (ainda) é

quinta-feira, maio 11, 2017

Ministério do Tempo

 

Sempre que a televisão portuguesa se lança na produção de um género ficcional mais arriscado, eu acompanho com muita atenção. O mesmo aconteceu com este “Ministério do Tempo”, a história de um ministério secreto do governo português que tem por missão certificar-se de que a História não é alterada. A partir das revelações de um rabino do tempo de D. João II (se não me engano), os governantes de Portugal sempre tiveram acesso às portas do tempo que, como diz o nome, permitem aos agentes do ministério viajar entre séculos quando surge uma ameaça ou alguém mal intencionado que quer mudar a História.
Logo aqui, podíamos começar já a fazer perguntas existenciais: não mudar a História?! Raios, o que deviam fazer era precisamente mudar a História, começando logo por impedir D. Sebastião de partir para a tragédia nacional que foi Alcácer Quibir e que colocou o Império Português em mãos espanholas e de mão beijada!
Mas cá estou eu a pensar muito. Esta série, que promete abordar a História de Portugal como nunca foi abordada, não é para pensar muito. Na verdade, é preciso desligar metade do cérebro antes de ver, o que é pena, porque tinha potencial dramático que não foi aproveitado.
Sou toda a favor do humor! Confesso que me ri da primeira vez que apareceu a piada de “ir chatear o Camões” literalmente. Foi giro. À segunda vez é que já não teve graça nenhuma. O espectador tem metade do cérebro desligado, mas o cérebro ainda lá está para apanhar uma piada repetida que perde a graça. Depois de alguns primeiros episódios em que dei o benefício da dúvida, o meu medo era que o humor se transformasse em palhaçada. Desgraçadamente, o episódio do Napoleão andou mesmo pela piada revisteira do “cozinho, cozinho, cozinho todos os dias”, e não havia mesmo necessidade de desaproveitar o talento da actriz Carla Andrino dos “Malucos do Riso” numa piadola pior do que os “Malucos do Riso” numa série que não precisa disto para existir. Não havia necessidade, realizadores da série, porque o vosso público alvo não é este! O vosso público alvo é inteligente, culto e exigente, um público que lê fantasia, fantástico, ficção científica, terror. Não é o grupo alvo que se ri das piadolas do Quim Barreiros.
Nesta tentativa de agradar a todos com um género que reconhecidamente só interessa a uma minoria, aconteceu o que eu mais temia: a série, por alguma razão emitida em horário nobre na RTP1, não se leva a sério. E todos os problemas desta série andam em torno desta mesma enfermidade que a sabota a partir de dentro: a série não se leva a sério. Nem ao enredo nem aos personagens. O que é pena, porque as melhores partes do “Ministério do Tempo” acontecem quando as personagens finalmente ganham profundidade e nos começamos a identificar com elas, como numa série a sério. Pena que esta não seja uma série a sério e que os fãs deste género sejam tratados pela série como idiotas que pouco se importam se entra este e sai aquele sem qualquer motivo, se o enredo dá meia volta e deixa de fazer sentido, se o vilão do princípio do episódio é o grande amigo nos últimos cinco minutos sem que nada tenha acontecido para isso, e outras que tais.
(Pessoalmente, achei o episódio do Eusébio de mau gosto. Não vos parece muito cedo? A mim parece.)
Em suma, gostava de poder apreciar mais esta série, com menos palhaçada, com mais pés e cabeça, mas a série não me deixa. Continua a tratar-me aos pontapés. E lamento, porque tinha potencial para ser uma série de culto (como o “Duarte & Companhia”, assumidamente humorístico) e vou lembrá-la como uma manta de retalhos de um produtor que queria fazer alguma coisa diferente mas tinha medo das audiências e resolveu “apimentar” com piadas de mau gosto e um enredo atabalhoado que insulta a inteligência dos potenciais espectadores.
As séries são como as pessoas. Ninguém gosta delas se não gostarem de si próprias, e esta série tem grandes problemas de auto-estima.


Deixo uma dica sobre o realismo dos cenários. Em todas as cenas em tempos passados, especialmente na Idade Média, as pessoas e casas aparecem muito limpas e a cheirar a novo. Já estive em tascas no Bairro Alto mais sujas e peganhosas do que certas tabernas que aparecem na série. Por uma questão de realismo, não custava nada melhorar isto.

E por último, se deveras quiserdes continuar a usar o vós, usai-o bem. Estudai as formas verbais! Fica aqui um sítio fiável e grátis onde podeis consultá-las à vontade antes de escreverdes os diálogos:

conjuga-me.net



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segunda-feira, maio 01, 2017

Aftermath


Estranhamente, esta série não é má. Estranhamento, porque a estrambólica mistura de elementos assim o sugere: meteoritos, vulcões, vórtices misteriosos que sugam pessoas para o céu, pragas apocalípticas, skin walkers (espíritos que possuem pessoas), metamorfos (espíritos que tomam o aspecto de pessoas), dragões, seres mitológicos… Que série é esta? É o fim do mundo ou é o “Sobrenatural”?
O enredo vai fazendo cada vez menos sentido. A cada episódio um novo mistério é introduzido. E a cada novo episódio eu ia-me perguntando se era desta vez que desistia de ver a série. Estranhamente, a catadupa de elementos novos e imprevisíveis (de tão absurdos) mantiveram-me a ver. Episódio após episódio, semana após semana, lá estava eu à espera do que ia acontecer desta vez. E por isso a série nunca me aborreceu e não é má.
Acredito que a excelência da realização também tenha a ver com isto. Ao contrário de outras produções de baixo orçamento, e o orçamento desta não pode ter sido muito maior, os efeitos especiais e, principalmente, a fotografia, funcionam e provocam momentos de realismo belo e terrível como o daqueles fragmentos da Lua a avançarem no espaço em direcção à Terra. Há muitos outros, e igualmente agradáveis aos olhos. No que o enredo e as personagens não convencem, a envolvência compensa.


Vista a primeira temporada, a explicação pseudo-científica aparece muito de repente e sem grandes fundamentos. (Devo ter sido a única pessoa a gostar do fim de “Lost”, assim que se afastou do lamaçal de pseudo-ciência em que andou atolado.) Mas o facto é que a série me entreteve até ao fim. Se gostaria que fosse renovada? Sinceramente, não. Se continuaria a ver, se renovassem? Por curiosidade, sim, mas o enredo e o ingrediente de sucesso que foi o “factor  surpresa” já foram esticados até ao limite e não acredito no que viria depois.


Aftermath não deixa de ser uma série curiosa que se vê sem grandes profundidades e sem grandes exigências. Mas tendo em conta os elementos que envolveu podia ter sido muito pior e só por ter conseguido que resultasse já não é uma série medíocre.



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sábado, abril 22, 2017

Victoria


Admito que conhecia muito pouco da vida pessoal da rainha Vitória, à parte as máculas da era a que se viria a chamar vitoriana.
(E dos vestidos, é claro! Os vestidos! E os decotes! E as capas! E os coletes! E as gravatas! E as cartolas!... Mas vou tentar controlar-me.)
Desde já tenho um grande elogio a fazer a esta série: a precisão histórica que tentou sempre respeitar. Isto não devia ser um elogio, devia ser um requisito obrigatório quando se trata de uma série de ficção que pretende retratar a vida de personagens históricas e reais, mas ultimamente os argumentistas enveredaram pela mania irritante de alterar pessoas e factos ao serviço do que consideram (na cabeça deles) um enredo mais “chocante”. Exemplos: Os Tudors, Os Borgias... Não só não há qualquer necessidade, como há quem deteste estas liberdades, como há outras maneiras de contar uma história diferente da realidade (Fantasia, meus amigos, Fantasia!).
Não é doença que tenha contagiado esta “Victoria”, e nem que fosse só por isso já teria amado a série. Adorei, no fim de cada episódio, ir pesquisar sobre cada uma das personagens que me chamaram a atenção e descobrir que foram efectivamente reais e que a vida desta gente foi muito mais interessante do que eu tinha imaginado. (George III, avô de Vitória, teve 15 filhos legítimos da mesma mártir consorte, dois dos quais foram reis, mas por capricho do destino a descendência feminina de dois dos herdeiros à coroa quase tornava inevitável que fosse uma rainha a chegar ao trono, como aconteceu, como já tinha acontecido antes, como acontece agora. Destino da Inglaterra?...)

Série histórica à antiga
A série segue a vida da jovem Victoria desde o momento em que se torna rainha. Muito do encanto desta personagem se deve à interpretação da bela e talentosa Jenna Coleman, que ajuda a transformar esta história num verdadeiro conto de fadas. Por opção, a realização opta pelo estilo estético da época, o Romantismo em todo o seu esplendor, sem que tal retire qualquer realismo à narrativa histórica. Não podia ter sido uma melhor decisão!
Não contente com isso, a série desenvolve em paralelo algumas das histórias dos criados do palácio. O contraste é brutal. Aqui já temos o Realismo de Dickens (ainda um Realismo muito Romântico, na minha opinião), nas ruas esquálidas, sujas, escuras e nevoentas por onde estes se movimentam fora do ambiente palaciano, ruas onde crianças roubam e pedem esmola e vendem fósforos e mulheres sem escolha se prostituem nos cantos e becos mal iluminados, ruas onde se adivinha a passagem de um Jack Estripador, casas frias e miseráveis e roupas gastas até ao farrapo. Tudo isto era a outra face do Romantismo, a outra face do progresso que arrancou aos campos toda esta massa de indigentes cuja melhor oportunidade na vida seria uma posição como criados da casa real. É esta grande ambição que consegue Ms. Skerrett, personagem mais interessante, talvez, do que a própria Victoria, que confrontada entre a promessa de amor romântico (e incerto) e a independência financeira invejável como camareira da rainha, opta por desconfiar do amor e apostar na carreira, uma opção inteligente mas ainda assim amarga. Ms. Skerrett, e outras como ela, não se podiam dar ao luxo de acreditar no Romantismo.


Como num conto de fadas, a série termina com o nascimento da primeira filha de Vitória e Alberto, esposos amantíssimos e felizes para sempre. Desconheço, de momento, se há intenções de renovar a série, mas seria uma excelente ideia. O reino de Victoria foi longo e cheio de acontecimentos, e eu sempre gostaria de ver se a continuação permite o mesmo Romantismo do início ou se, forçosamente, se lhe sobreporá o iminente Realismo que se segue.


Depois de escrever este texto, descobri que a série foi mesmo renovada. A ver vamos, então.



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sábado, abril 15, 2017

A Cabana/The Shack, de WM. Paul Young


Cheguei a este livro pela curiosidade que me causou a sinopse, prova de que uma boa capa e uma boa sinopse podem prometer mais do que vem na embalagem. Parece que este livro é um best seller, e nem todos os leitores vão enganados como eu.
O começo até é interessante. Um homem, cuja filha de seis anos é barbaramente assassinada por um serial killer, recebe um bilhete (aparentemente) de Deus a marcar um encontro na cabana onde as roupas ensanguentadas da menina foram encontradas.
Toda a parte do romance que relata a viagem de férias em que a menina foi raptada é intensa e envolvente. Conseguimos compreender muito bem a angústia daquele pai que perde a filha (talvez a preferida), e aqui o romance assemelha-se ao policial. Da mesma forma, identificamo-nos com o desgosto, o luto e a culpa dos meses posteriores, em que Mackenzie, o pai, mergulha em profunda depressão.
Um dia, Mackenzie encontra um bilhete dactilografado na caixa do correio, supostamente de Deus, a convidá-lo para o tal encontro na cabana de montanha onde a sua filha foi assassinada. Mackenzie pensa que o bilhete pode ter três origens: uma brincadeira de mau gosto, um desafio do próprio assassino, ou uma autêntica mensagem divina. Todavia, Mackenzie decide ir ao encontro, e ir armado. Todo este enredo é de um suspense irresistível.
Não é todos os dias que se recebe um bilhete de Deus. A questão é, e ELE aparece?



***CONTÉM SPOILERS***

E a Justiça, Senhor?
Eu nunca tinha ouvido falar de "ficção cristã", mas agora que ouvi vou fugir dela como o Diabo da cruz. Não porque eu seja o Diabo, mas porque, a avaliar por este exemplo, é uma literatura muito má, tendenciosa e acrítica. O que me parecia uma boa premissa, o encontro entre Deus e um pai enraivecido e revoltado, perde-se num instante assim que Deus aparece. Sim, Deus aparece ao encontro! Li algumas críticas ao livro, que não conseguiram passar desta parte: a manifestação física de Deus. Que Deus não é assim, que não é assado. Eu quero lá saber como é que Deus se manifesta fisicamente, eu queria era saber o que Ele ia dizer àquele pai!
Ficção cristã ou não cristã, quando um autor se mete na aventura de falar por Deus, das duas uma: ou é brilhante, ou se espalha ao comprido. WM. Paul Young espalhou-se ao comprido. Assim que Deus aparece, acontece um efeito sedativo em Mackenzie, a quem, de repente, já não apetece estrangular Deus pela injustiça e crueldade que Este permitiu que acontecesse à sua filha. Fica grato, fica contente, fica eufórico de alegria. O que até faria sentido se Deus (este Deus de WM. Paul Young) conseguisse explicar a velha questão que atormenta toda a gente que pensa nestas coisas: porque é que um Deus de amor permite que o Mal aconteça? Este Deus de “A Cabana” é efectivamente um Deus de Amor, que proclama o afecto e prega o perdão. Mas então e a Justiça?
O resto do livro, que me recusei a abandonar, não passa de uma fantasia mística de um homem que parece estar numa trip de ácidos a ver Jesus, o Espírito Santo, uma rave de auras iridescentes das almas já partidas e um coro de anjos. Mackenzie, o homem revoltado em quem eu tinha posto tantas expectativas de conseguir colocar a Deus as perguntas difíceis, parece que fica pedrado no êxtase divino. Só porque Deus diz: “Eu gosto de ti”.
Ah sim? E Missy? A menina assassinada? Que justiça existe para Missy? Mas não faz mal, diz “Deus”, porque agora Missy está no Céu, com Jesus, e não podia estar melhor. Ah sim? Não podia estar melhor? Então o que é que andamos cá a fazer? Eu também quero ir para Jesus! Vamos todos suicidar-nos para irmos para Jesus mais depressa! E não se preocupem, se “Deus” perdoa o homem que matou uma menina de seis anos (e sabe-se lá que mais lhe fez) também perdoa um suicídiozinho.
Fiquei doente e deprimida durante uma boa semana depois de ler este livro. Não aconselho este livro a ninguém, especialmente a pessoas inteligentes. Faz mal ao cérebro e faz mal à alma.

O livro que recomendo, embora às vezes se perca em explicações pseudo-científicas que não faziam lá falta nenhuma, é “Conversations with God”, de Neale Donald Walsch (sim, os três volumes!). Não finge que é um romance, faz pensar, apresenta respostas lógicas, abre-nos a mente para outras perspectivas, e, acima de tudo, põe-nos um sorriso nos lábios.




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sábado, janeiro 28, 2017

Andrew Eldritch prometeu novo álbum se Trump fosse eleito

Já não é exactamente uma notícia fresquinha, mas pode ser que a eleição de Donald Trump ainda nos dê uma alegria (?????...). Exactamente! Como diz o título, Andrew Eldritch prometeu que os Sisters of Mercy lançariam um novo álbum se Donald Trump fosse eleito. Será?...
Eu cá esperava sentada, mas sei que os Sisters of Mercy têm suficiente trabalho não publicado para um novo álbum da qualidade dos anteriores (já ouvi, é excelente!). Os novos temas têm sido tocados nas muitas digressões desde "Vision Thing", embora a banda se recuse a editar por considerar que actualmente a música não produz lucro que compense o custo.

Um bom artigo sobre o assunto no Side Line:

(By Mandy Coldrun) Many people have been perturbed by the fact that the Sisters of Mercy band is not in the business of recording albums anymore. The last recording ever done by this group in a real studio happened sometime in the 90s. 25 years down the line, the group still sings but won’t release an album whatsoever. The reason why they chose to go radio silence – no one knows. Even their fans know nothing as to why this group has never released an album even though they command the attention of the world wherever they go.

Speculations on whether or not they may release an album this time round
No one understands the reason behind this group going on strike against their record label. It is actually hard to get them recording an album, despite their fans complaining about it. It has actually come to a point where people can bet about it, and those who say that the group won’t release an album in the next couple of years will always win.Waiting for this band to release an album is like betting against the odds of a slot machine random number generator. You will always lose money when you say this group will finally record an album.
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quinta-feira, janeiro 12, 2017

(falta de) Literatura fantástica em Portugal

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Festival Entremuralhas 2017

Já tem data marcada e um cartaz que é uma obra de arte!


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Animais de Rua - Projecto de Esterilização e Protecção de Animais Sem Lar

União Zoófila

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