domingo, 17 de fevereiro de 2019

Daughter of the Forest / A Filha da Floresta, de Juliet Marillier


[contém spoilers!!!]

"Daughter of the Forest" é uma história é inspirada no conto infantil em que a madrasta má transforma os enteados em cisnes, mas este é tudo menos um livro para crianças.
Fiquei com sentimentos contraditórios após ler esta história. Por um lado tem partes brilhantes que me fazem querer gostar muito mais do que gostei, e depois tem inconsistências que simplesmente não me deixam apreciar o enredo e as personagens como teria desejado. De 1 a 5 não lhe daria 3 nem 4 mas 3,5. E é pena porque queria ter gostado mais.

A protagonista é demasiado nova
Primeiro que tudo, esta história teria sido infinitamente melhor se a protagonista fosse uns dois anos mais velha. Sorcha, a irmã mais nova que tem por missão salvar os seis irmãos do encantamento que os transformou em cisnes, tem apenas 12 anos quando a história começa. Apesar disso, é uma curandeira respeitada por toda a gente. A história começa logo aqui a desafiar a credibilidade. Sorcha é uma menina nobre e diz que encontrou livros de medicina esquecidos algures (isto eu aceito), e também se informou junto de mulheres sábias da povoação. Pois bem, se havia mulheres sábias porque é que toda a gente recorre a uma fedelha de 12 anos? Nem é a questão dos conhecimentos que ela pudesse ter, é mesmo a questão da autoridade, e nestas coisas da saúde as pessoas só confiam em quem tem autoridade (mesmo que tenha menos conhecimentos). Mas a autora leva isto ao cúmulo quando após ajudar a um parto Sorcha faz respiração boca-a-boca a um recém-nascido que não respirava. Ora, ainda nos anos 70 a solução para isto era dar uma palmada nas nalgas. Como é que uma fedelha de 12 ou 13 anos, dos confins da floresta céltica irlandesa do século IX, sabe mais do que médicos e parteiras do século XX? (Ou éramos nós assim tão atrasados?) Estas coisas arrancaram-me completamente à Fantasia e fizeram-me revirar os olhos. Teria sido bem diferente se Sorcha fosse mais velha e tivesse mais experiência com partos, ou, noutras circunstâncias, se tivesse crescido com uma familiar que era parteira e tivesse aprendido com ela. Assim, Sorcha é demasiado competente para a experiência e idade que tem. Mais dois anos de idade teriam feito maravilhas pela credibilidade da personagem sem interferir com a história.
Há mais incoerências. Quem costuma ler aqui o blog já sabe que me chateia muito quando a bota não bate com a perdigota. Neste caso, acho que a autora se agarrou demasiado ao conto infantil em pontos em que não devia. Quando contamos uma história às criancinhas sobre uma menina e seis irmãos, as criancinhas não questionam. Quando se conta um conto de fadas aos adultos, as perguntas começam a surgir umas após outras. Que idade tem a mais nova, que idade tem o mais velho? Do que percebi, se Sorcha tem 12 anos o mais velho deve andar pelos 18 ou 19 anos, no mínimo. Logo a princípio, quando ele fica noivo e a noiva o vem visitar, este mancebo casadoiro ainda se mostra tão juvenil que se reúne com os irmãos, todos num círculo de mãos dadas como um grupo de putos wiccans. Mas Liam (o mais velho) não é nada juvenil. Não faz sentido nenhum que em vez de querer estar com a noiva (às escondidas, se preciso fosse) preferisse encontrar-se com meia dúzia de fedelhos. Contraria tudo o que conheço da vida. Rapazes desta idade com uma noiva que lhes interessa já não andam com miúdos pré-púberes a não ser para tomarem conta deles (e a maior parte das vezes a fazer um grande frete obrigados pelos pais). Tive de fazer um grande esforço para fingir que acreditava nestes rituais de infância ainda observados por sete jovens em fases da adolescência tão díspares. Todos eles às vezes parecem muito adultos (Sorcha principalmente, apesar dos 12 anos, quando discursa sobre a unidade que os assemelha aos sete ribeiros que dão nome a Sevenwaters) e às vezes portam-se como criancinhas.
A pior destas incoerências relativas à idade da protagonista é quando Sorcha conhece alguém que se apaixona por ela, Red, e ele próprio não sabe se lhe há-de chamar criança ou rapariguinha. Como é que é, Red? Criança ou rapariga? É que não sou eu que estou a inventar estas coisas. Estão explícitas na história quando ele se refere a ela como “criança”. Não sei a idade dele e quero acreditar que não tenha ainda 20 anos (mas neste caso quanto mais velho pior porque ela só tem 13) mas não me parece que um homem (mesmo jovem) que tenha sentimentos românticos por uma rapariga lhe chame criança em nenhuma circunstância. Se a Sorcha fosse apenas uns dois anos mais velha tudo faria muito mais sentido.

O feitiço
Lady Oonagh, a madrasta má, quer livrar-se dos enteados para que o filho dela herde o domínio de Sevenwaters. Até aqui bate certo. Mas depois transforma-os em cisnes e deixa-os ir à vida deles. Não seria muito mais lógico apanhá-los e fazer empadas? (A ideia não é minha, é de uma tragédia grega.) Foi imediatamente em que pensei ao ler algumas críticas que alertavam que este livro tem muito sofrimento, que é muito pesado, etc. É tudo relativo. Habituada como estou a doses descomunais de porno-tortura, esperava muito mais perversidade. A autora podia ter lá ido, e a certas alturas noto-lhe uma perversidade subtil e até perturbadora (ver Finbar) mas não é tão pesado como podia ser sido.
Sorcha consegue escapar por pouco ao feitiço. Eis quando lhe aparece a figura da fada madrinha na Senhora da Floresta que lhe ensina como reverter o encantamento. Tem de fazer seis camisas de uma planta espinhosa que tem de apanhar, fiar e tecer ela própria, tudo isto sem pronunciar uma única palavra ou sequer um som até terminar a tarefa. As camisas têm de ser vestidas aos irmãos exactamente ao mesmo tempo, quando todas estiverem prontas. Duas noites por ano, no solstício de verão e no solstício de inverno, os irmãos escapam ao encantamento e transformam-se de novo em homens desde o anoitecer ao amanhecer.
Admito que a princípio embirrei com a Sorcha. Ela é mimada, convencida, sabichona e, o pior de tudo, daquelas pessoas muito positivas e optimistas porque nunca passaram por nada. Assim que lhe é pedido que se submeta a esta tarefa excruciante, Sorcha responde imediatamente que é “forte” e que vai conseguir tudo e mais alguma coisa, o que ainda me fez embirrar mais. Só comecei a simpatizar com ela quando admitiu que afinal podia não ser tão forte como pensava e que nem tudo na vida está dentro do nosso controlo. Aí sim, deixou de ser uma menina privilegiada e tornou-se uma personagem com que consegui empatizar.
Mas demorou. Tenho de dar os parabéns à autora por ter escrito tão vividamente o sacrifício que implicou toda esta tarefa com a planta espinhosa. A planta é chamada starwort. Pesquisei mas não consegui encontrar o nome em português nem sei se a planta existe entre nós. [Se alguém souber, deixe nos comentários, por favor.] Mas foi tão bem descrito que imaginei o que conheço, aqueles cactos que deitam uns espinhos fininhos, quase invisíveis, que se espetam debaixo da pele e dentro da carne e têm de ser tirados à pinça. Ao ler tantas vezes como era doloroso fiar esta planta, e como as mãos dela incharam e se deformaram, a certa altura também comecei a sentir picadas nas mãos. Verídico. É preciso escrever muito bem para causar esta impressão no inconsciente do leitor. Este foi um dos momentos brilhantes do livro que nos provam que a autora tem grande talento, se bem que nem sempre os enredos mais bem construídos, mas lá voltaremos de novo.
Não percebi, sinceramente, a necessidade de silêncio. A Sorcha está proibida de falar, mas aparentemente só não pode dizer nada sobre o encantamento e não pode explicar a tarefa. De resto, ela comunica por linguagem gestual e “fala” de tudo e mais alguma coisa e até comunica telepaticamente com alguns dos irmãos. Batota! Isto faz com que a Sorcha tenha a vida muito mais facilitada do que se não pudesse mesmo comunicar de forma nenhuma, o que muito possivelmente a colocaria em situações ainda mais periclitantes do que já acontece. Mas, sendo assim, ela podia muito bem falar normalmente e dizer “sobre isso não me perguntem” em relação ao assunto proibido. A Senhora da Floresta também é uma grande sádica e ainda teve o desplante de lhe dizer “não sou eu que invento estes feitiços”. Então quem é, Senhora da Floresta? Sorcha, porque não lhe perguntaste isto?
Por último, a Lady Oonagh diz aos irmãos que não devem contar com a ajuda da Senhora da Floresta porque ambas são “uma só”. Ora, eu acho que isto devia ser explicado. O encantamento é o enredo principal do livro. E ao chegar ao fim da história também conclui que as Fadas (os Fair Folk, no livro) a que a Senhora da Floresta pertence também não são de fiar. Mais uma razão para esta questão ser explicada. Compreendo que a Lady Oonagh pode estar a querer dizer que a magia negra/má e a magia branca/boa são duas faces da mesma moeda, mas a Lady Oonagh é humana, não é Fada (ou será?).
Algo que me deixou perplexa durante o livro todo é que nunca, nem por um instante, Sorcha ou os irmãos pensam em aprender magia também para derrotar a Lady Oonagh. A certa altura (não direi quando) decidem ir confrontá-la os sete sem terem qualquer plano. Isto não foi inteligente. A mulher já os tinha transformado em cisnes, podia transformá-los noutra coisa qualquer ou fazer muito pior. Não me importa que eles tivessem um bom plano ou um mau plano, desde que o tivessem. Convenientemente, a Lady Oonagh sabe da vinda deles e foge. O que não faz sentido nenhum. Agora ela já tinha conseguido tudo o que queria. É uma mulher poderosa capaz de transformar pessoas em cisnes (e não pode ser a única coisa que é capaz de fazer) e foge? Só há uma “desculpa” para esta resolução insatisfatória, e essa é que a autora planeasse desenvolver esta história noutro livro mais dedicado à Lady Oonagh. Não sei se o fez ou não, mas compreendo que o quisesse fazer. Não considero esta ponta solta muito grave mas irritou-me que os sete irmãos não tivessem um plano.

Finbar o Gótico
Finbar é o meu personagem preferido. Um dos irmãos do meio, é o mais próximo de Sorcha e partilha com ela uma ligação telepática. Finbar tem algumas qualidades “vampirescas” que dão logo nas vistas aos “entendidos”. Não só consegue transmitir pensamentos telepáticos (conversas inteiras, com efeito) como consegue transmitir também imagens. Tem dons proféticos. Consegue aproximar-se das pessoas sem fazer barulho como se aparecesse “do ar”. E depois tem alguns traços nitidamente góticos, como o pacifismo, a melancolia e a visão pessimista da vida. E a rebeldia.
Tudo começa com ele, na verdade, quando se revolta contra o pai. Há muito tempo que dura uma guerra com os Bretões (a acção passa-se no século IX, tempo do rei Aethelwulf, mas não o de Vikings em que a série aglutina dois séculos numa única linha temporal). Os três irmãos mais velhos participam na guerra com entusiasmo, mas Finbar prefere aderir à Amnistia Internacional e quando um prisioneiro de guerra é capturado e torturado pelos homens de armas do pai decide libertá-lo. O que até nos dias de hoje é considerado traição. (Aliás, aquela revolta toda contra o pai caiu ali de pára-quedas. Lord Colum, o pai, é um homem distante dos filhos desde que a esposa que amava morreu de parto quando Sorcha nasceu, mas tirando isso não merecia aquela hostilidade toda em frente dos seus súbditos.) Finbar quer o fim da guerra e o começo de negociações (mas a guerra nunca é algo realmente relevante na história, apenas pano de fundo). Lord Colum e os irmãos mais velhos nem querem ouvir falar do assunto. Novamente a tal inconsistência. Por muito que Sorcha fale de unidade e façam rodinhas wiccans de mãos dadas, não há unidade. A própria Sorcha o diz, que os irmãos mais velhos iam ficar muito zangados se suspeitassem do que Finbar quer fazer. Lá se vai a unidade dos sete ribeiros, não, Sorcha? Direi mesmo mais. A verdadeira unidade entre eles só acontece depois do feitiço que sofrem juntos, não antes.
Finbar recruta Sorcha para lhe preparar uma beberagem que põe os guardas a dormir e lá conseguem libertar o prisioneiro, Simon. Outra grande inconsistência. No decorrer da história percebemos que toda a gente reconhece que Sorcha tem conhecimentos médicos. Que toda a gente recorre a ela quando é necessário. (Passe a falta de credibilidade que isto tem.) E no entanto ninguém desconfia que foi ela quem drogou os guardas? Muito estranho. Seja como for, Finbar e Sorcha conseguem tratar o prisioneiro e dar-lhe uma hipótese de sobreviver e escapar. O começo da história (principalmente toda esta parte em que Sorcha é a enfermeira de Simon) pode ser considerado algo lento para quem gosta de mais acção, mas eu não me importei porque acho que vale a pena esperar pelas partes boas e deixo ao autor a liberdade de me guiar até elas como lhe parecer melhor. Nunca pensei que Simon regressasse, e muito menos que Simon também se tenha apaixonado por Sorcha quando ela ainda era uma miúda. É algo que deve ser de família, gostar delas aos 12 anos, e não digo mais nada.
Finbar personifica um dos momentos mais perturbadores da história. Mais perturbador do que a cena da violação e a morte de alguém que não vou revelar, mais perturbador do que a cena da fogueira. Como cisne, Finbar tem uma “esposa” cisne e dois patinhos. Em forma humana, lembra-se deles e atormenta-o tê-los abandonado. Ora, nem sei o que devo sentir perante isto. Tristeza? Repulsa? Pena? Acabei por decidir-me pela tristeza e foi uma das coisas mais amargas que já li na vida. Entre dois mundos, Finbar não consegue pertencer a nenhum porque está demasiado dividido. O que ele resolve no fim (e desconfio que sei o que é) faz todo o sentido. No final, Finbar é completamente gótico, um espírito atormentado que anseia libertar-se do seu estado humano.

Os vilões
A história tem dois vilões e ambos são apresentados a preto e branco, o que raramente faz personagens cativantes.
Mesmo assim, Lady Oonagh é uma vilã bem conseguida. Talvez seja até a personagem mais bem conseguida da história toda. Todos nós já conhecemos uma Lady Oonagh, pelo menos. Tive o azar de me cruzar com várias e conheço bem a peça. Marillier também a deve conhecer e nota-se na perfeição com que a retrata. Faz-me ficar em pulgas para ler mais sobre ela. Quem era, de onde veio, para onde foi, onde aprendeu as artes mágicas, quem a ensinou. Se não houver um livro sobre a Lady Oonagh vou ficar muito desapontada.
E depois temos outro vilão, Lord Richard, que já não me convenceu. Lord Richard é execrável em vários sentidos. É o tipo de vilão irredimível que ali está para o odiarmos sem reservas. Prefiro vilões complexos e “cinzentos”, mas no que toca às intenções da autora, foram bem conseguidas. A caracterização da personagem, contudo, não foi tanto. Lord Richard revela-se um homem extremamente sádico quando Sorcha recusa os seus avanços. Cheio de orgulho ferido (e com outras motivações adicionais que não vou revelar) arranja maneira de a condenar à fogueira sob várias acusações, uma delas de feitiçaria. Não contente com isto, durante as semanas em que a mantém aprisionada delicia-se a torturá-la psicologicamente com os pormenores da morte que a espera: a construção da fogueira, o fogo, a dor, tudo com tanto detalhe e malvadez que raramente encontrei um vilão tão sádico. Um nível de sádico acima do Hannibal Lecter, acreditem ou não, que ao menos anestesiava as vítimas. É este nível de sadismo que não me convence. Este nível de sadismo não se desenvolve da noite para o dia e não se consegue esconder das pessoas mais íntimas (que são as principais vítimas). Uma rejeição amorosa também não o explica. Um sádico assim começa na infância, e se for narcisista também (e geralmente são) por esta altura já todos conheceriam a peste que ali estava. Das duas uma, ou já teriam cortado relações ou, se não pudessem, viveriam aterrorizados por ele. Não é nada disto que acontece com a família de Lord Richard, que o acha simplesmente desagradável. Não, um sádico destes não é apenas desagradável. É um terror. A família é a primeira a sofrer. Aqui, Marillier errou ou exagerou. Funciona, mas não me convence.

A autora
Juliet Marillier consegue criar uma Fantasia Romântica com uma leve base histórica que resulta muito bem a esse nível. Mas não se espere daqui um romance histórico porque não o é. Aqui reina a Fantasia. Sorcha, na floresta, ouve as fadas das árvores, o que pode parecer algo infantil. Mas há outros seres sobrenaturais. Não há nada de infantil no momento de Dark Fantasy em que as sereias aliciam Sorcha, desesperada e traumatizada, a juntar-se a elas no mundo aquático “onde não há mais dor”. Por um instante temi que Sorcha cedesse à tentação de as ouvir e pusesse fim à vida. Esta é das tais passagens brilhantes que quase nos fazem esquecer as inconsistências.
Mas os momentos mais impressionantes são a violação (muito gráfica, muito pormenorizada, muito traumática) e a fogueira, que realmente nos arrepia. Toda a relação de Sorcha com a floresta é igualmente bonita e bem descrita.
Só tenho algo a apontar à forma como Sorcha, em primeira pessoa, “justifica” ter de contar a violação como “algo que determina” tudo o que aconteceu depois. Não, não determina nada, nem a autora tem de se justificar. A violação é uma coisa que acontece, independente do enredo, e que tem uma influência marginal nos acontecimentos seguintes. Sorcha vivia escondida numa gruta da floresta enquanto se dedicava à sua terrível tarefa, mas a sua subsistência tinha-se tornado insustentável. Mais tarde ou mais cedo teria de procurar um abrigo mais seguro e confortável. Com ou sem violação. Eu sempre pensei que a violação estaria mais ligada ao enredo mas afinal é algo que acontece à margem.
Não é a primeira vez que através da primeira pessoa a autora nos tenta manipular a concordar com o desenvolvimento da narrativa. Eu dispensava estas manipulações que a certa altura se tornam demasiadas, desnecessárias e justificativas. Especialmente quando Sorcha diz “nos contos tradicionais tudo acaba bem, os vilões são castigados, não há pontas soltas, mas esta é a minha história, etc”. Completamente desnecessário e manipulativo. A autora não tem de pedir desculpa.
Outro pormenor que me irritou, mas parece que os autores anglo-saxónicos não prestam tanta atenção a estas coisas como nós, foi a quantidade de anacronismos linguísticos que fui apanhando na história. O pior, o uso da palavra "piquenique", duas vezes!, pela protagonista. Não, não, não. Nem era necessário. Pergunto-me se não foi uma palavra ali inserida pelos editores, uma vez que a autora até respeita a linguagem da época. Aquele “piquenique” e outras que tais destroem a nossa imersão na Fantasia e tornam o livro desleixado. É uma pena.
Outro ponto negativo é o recurso ao deus ex machina, e por duas vezes! Da primeira, quando Red está mesmo prestes a ser morto na floresta e Sorcha se lembra de pedir ajuda aos Fair Folk. (E porque não pediste também antes e depois, Sorcha?) Da segunda, quando Sorcha já está na fogueira e aparece alguém que estava ausente no preciso instante em que a salva por uma unha negra. Ainda estou para encontrar alguém que goste de deus ex machinas, e eu também não gosto. Na segunda vez nem seria necessário porque os irmãos estavam presentes e podiam tê-la salvo sozinhos.
E por falar nisso, lamento dizer que fomos roubados do verdadeiro clímax da história. A autora não “mostra” o fim do feitiço, antes o descreve pela boca de personagens que ainda por cima são secundárias. Não percebi esta opção (a autora tem talento de sobra para mostrar a cena) e senti-me defraudada. Também não achei graça nenhuma àquela ideia de a camisa voar no vento e ir parar por artes mágicas onde era necessária. Com ou sem influência dos Fair Folk. Não era isto que eu queria ver. E acaba por funcionar como outro deus ex machina, fazendo três, e somando dois na mesma cena.
São estas coisas que me fazem não gostar tanto do livro como podia ter gostado. A todo o momento queria acreditar que não iam aparecer mais coisas destas, que eram só um percalço, mas os “percalços”, mesmo os de menor importância, foram-se avolumando uns em cima dos outros e acabaram a criar uma montanha de percalços. Uma montanha, passe a poesia, cuja sombra obscureceu os momentos brilhantes que o livro efectivamente tem. E é pena. Quando é preciso, a autora tem um tipo de escrita vívida e sensível, às vezes poética, de que gostei muito. Também gostei dos momentos perturbadores e jamais esquecerei Finbar e a sua família de cisnes.
Se é um livro que vou ler duas vezes? Não. Não gostei o suficiente. Mas gostaria de dar outra oportunidade a esta escritora (parece que este é o livro de estreia) e perceber se as inconsistências desaparecem noutras histórias ou se se tornam norma.
Desaconselho este livro a toda a gente que detestar Fantasia e Fadas e encantamentos e enredos românticos em geral. Aconselho vivamente a quem gostou de “As Brumas de Avalon”. Não é tão bom, nem por sombras, mas às vezes parece umas Brumas de Avalon menos pesadas.

domingo, 27 de janeiro de 2019

The Twilight Saga: Eclipse (2010)


Terceiro episódio de Edward o-vampiro-que-brilha e Bella a-rapariga-que-só-quer-ser-vampira. E agora também temos Jacob o-lobisomem-que-quer-comer-a-Bella-no-melhor-dos-sentidos.
Fiquei um pouco confusa logo a começar. Nunca me passou pela cabeça que a situação com a vampira Victoria (a ruiva que aprendeu a correr por entre as árvores num ângulo de 90º como na Matrix) não estivesse já resolvida. Isto é que é tenacidade. Victoria quer mesmo muito vingar-se por causa de coisas que aconteceram no primeiro livro/filme e de que eu já não me lembro. Mas recordo que foi o bando da Victoria que se meteu com os Cullen por isso ela não tem razão nenhuma. As pessoas têm mesmo de aprender a desprender-se e partir para outra. Victoria precisa de ler um livrinho de auto-ajuda.
Victoria continua obcecada em matar Bella para que Edward sinta a dor de perder um amor, como ela sentiu. E também dá muito jeito ao enredo principal, porque obriga os vampiros e os lobisomens a fazer uma aliança para se revezarem a proteger Bella.
Entretanto, e depois sabemos que foi Victoria também, alguém cria um exército de vampiros recém-transformados (a quem chamam recém-nascidos) para atacar os Cullen em grande escala. Na mitologia de Twilight os vampiros são fisicamente mais fortes quando são transformados há pouco tempo. Geralmente é o oposto, o que faz com que os vampiros muito antigos sejam praticamente invencíveis. Esta ideia de maior fragilidade física mas de aquisição de outras capacidades é interessante e foge aos lugares comuns do mito do vampiro.
Por falar em mitologia, neste filme temos um flashback que nos explica como começou a animosidade entre os lobisomens e os vampiros. Mas temos também a resposta à questão que coloquei na crítica ao filme anterior, New Moon: os lobisomens têm consciência do que fazem enquanto lobos? Sim, têm. E conseguem, efectivamente, transformar-se quando querem, sem qualquer influência lunar. Até há uma cena em que os lobisomens vão a um encontro com os vampiros em forma de lobos porque se sentem mais seguros assim. (É uma cena algo ridícula, se não mesmo infantil, em que de repente temos os vampiros a combinar estratégia com os lobos silenciosos -- também era melhor se falassem! -- enquanto Bella faz festinhas ao lobo Jacob. Por falar nisso, o CGI dos lobos não é nada realista. Parece um desenho animado para crianças.)

 Eu também gosto muito de animais.

Ora, como dizia na crítica anterior, isto é problemático. Se os lobisomens têm consciência do que fazem como lobos são tão maus como os vampiros e não têm autoridade moral para se sentirem superiores. Duvido que esta questão existencial alguma vez seja abordada no universo Twilight mas fica a minha nota.
Também disse que estava a torcer pelo Jacob, mas neste filme o jovem lobisomem está a passar pela fase “parva” e não podia estar a sair-se pior com a Bella. Mas que outra coisa esperar? O rapazinho tem 16 ou 17 anos, ainda tem muito que aprender sobre como encantar o sexo oposto. O Edward tem 90 anos de lábia e anda atrás de uma miúda do liceu. Desculpem, fãs, factos são factos. Pobre Jacob, não tem a mínima hipótese.
O envolvimento dos Vulturi é, como sempre, o que mais gosto na saga. Porque me lembram os vampiros Riceanos, claro está. Armand ficaria orgulhoso destes Vulturi.
Não percebi, no filme, de que matéria são feitos os vampiros. Pedra, gelo, é por isso que brilham? É o que parece no filme, ou é culpa dos efeitos especiais. (Akasha foi durante séculos uma vampira “petrificada” mas isso era porque não se alimentava. Quando voltou à “vida” parecia completamente de carne e osso.) Quando os vampiros de Twilight são decapitados não há sangue a jorrar e carne à mostra. Parecem objectos partidos, o que lhes retira a humanidade. Como é que podemos ter pena de uma boneca partida? É isto que Bella quer ser?
Por último, nunca é explicado o título do filme. Qual eclipse? Penso que se referem ao exército que era liderado por um testa-de-ferro aparentemente criado por Victoria. Desta forma, ela estava “eclipsada” atrás dele. Será? Eu acho rebuscadíssimo mas não encontro outra explicação. Talvez o livro tenha explicado melhor.

12 em 20

domingo, 20 de janeiro de 2019

The 9th Life of Louis Drax / O Misterioso Louis Drax (2016)


[contém spoilers]

Louis Drax parece ser o miúdo mais azarado do mundo. Quando desta vez cai de um precipício, a equipa médica pronuncia-o morto. Algumas horas depois, na morgue, quase a ser colocado numa arca frigorífica, Louis acorda por momentos e de seguida mergulha num coma profundo. Para investigar o fenómeno, é chamado o dr. Allan Pascal, especialista em coma infantil.
A acreditar na mãe do miúdo, a bela e frágil Natalie, tudo indica que foi o pai de Louis quem o empurrou do precipício durante um piquenique em que celebravam o aniversário do filho. O casal estava separado e após o acidente o pai do miúdo desaparece, o que convence toda a gente da sua culpa.
Entretanto, um romance desenvolve-se entre Natalie e o médico, cujo casamento também já não andava bem. É então que coisas estranhas começam a acontecer.
“The 9th Life of Louis Drax” apresenta-nos um mistério que merece ser desvendado, mas não é o que promete. Na verdade, o filme é uma salada russa de realismo mágico (muito devendo a “Pan’s Labyrinth” e ao mais recente “A Vida de Pi”), investigação policial e promessas de sobrenatural. Infelizmente, nada disto se interliga de forma satisfatória e o filme falha redondamente. Saliento aquela cena em que o médico segue um monstro marinho pelos corredores do hospital. Isto é tenso e digno de um filme de terror. Mas nunca percebemos qual é o objectivo desta cena porque afinal o médico acorda e não passa de um pesadelo. Era só para nos assustar gratuitamente. Estas coisas repetem-se constantemente no filme. É para acreditarmos que o miúdo em coma possuiu o médico enquanto este dormia, e que o fez escrever mensagens? Porque neste caso a coisa ainda é mais sinistra.
Gostei da revelação de quem é o “monstro marinho” (Aaron Paul, conhecido como Jesse Pinkman em “Breaking Bad”), a projecção psicológica em que Louis encontra a verdade.
A verdade, infelizmente, não podia ser mais prosaica. Não me importo de a dizer aqui uma vez que a meio do filme já toda a gente percebeu menos o médico. Até é bastante interessante observar como ele é manipulado. Nem o intelecto o salva. Enfeitiçado pelo charme da femme fatale Natalie, é o último a acreditar que foi ela quem causou os “acidentes” ao filho. Isto chama-se Munchausen by proxy. [Há tradução em português?] Munchausen by proxy é também uma patologia praticamente desconhecida entre nós, o que torna este filme acima de tudo educativo e recomendo a toda a gente.
Afinal o miúdo não era misterioso. Todo o ambiente surrealista que o rodeia (alucinação, técnica cinematográfica, sonho?) acaba por não ter relevância narrativa. Sim, é verdade, no fim o monstro marinho explica tudo em termos mais simples para o miúdo perceber. Mas nada que não tenhamos percebido já.
Esta foi uma tentativa ambiciosa e alternativa de abordar uma patologia ainda pouco conhecida. É de louvar, mas não funcionou tão bem como devia.

13 em 20

domingo, 13 de janeiro de 2019

Os três valentões e a velha (Histórias da minha avó)

Ao contrário de “O Touro Azul”, versões desta história já não são tão difíceis de encontrar. Mas aqui vou contá-la como me foi contada na infância, como a reconheço e como gosto dela.
“Os três valentões e a velha”, título que lhe dei, é uma história divertida com um elemento de sobrenatural de meter medo a criancinhas de outros tempos. Hoje em dia já nem as criancinhas têm medo de tão pouco.

-§-


Era uma vez o João Valentão. Antes de ganhar esta alcunha, o João era um menino como os outros. Como a mãe não tinha leite, em pequenino teve de mamar nas tetas de uma burra. Chamavam-lhe o Mama-na-Burra, mas talvez por isso tenha adquirido uma força tão sobre-humana que ao chegar à idade adulta não havia quem a igualasse. Para mostrar como era forte, João Valentão Mama-na-Burra mandou fazer um cacheiro de ferro que erguia no ar como se nada pesasse.
Mas João Mama-na-Burra sentia-se só, o único com essa força que o separava dos seus semelhantes. Na esperança de conhecer alguém igual a ele, decidiu correr mundo.
Depois de muito andar, encontrou um homem igualmente forte, que com uma única cavadela arrasava uma montanha. Chamavam-lhe o Arrasa-Montanhas.
– Tu és forte como eu. – disse-lhe o João Valentão. – Porque não vens correr mundo também e talvez encontremos outros como nós?
O Arrasa-Montanhas concordou e acompanhou o Mama-na-Burra.
Correram e correram mundo até encontrarem outro como eles. Era um homem tão forte que arrancava um pinheiro do solo só com uma mão. Chamavam-lhe o Arranca-Pinheiros. Igualmente interessado em conhecer o mundo, o Arranca-Pinheiros seguiu viagem com eles.
Chegando a uma aldeia, precisaram de um sítio onde pernoitar e perguntaram às gentes da terra onde podiam passar a noite. Falaram-lhes de uma casa abandonada onde podiam ficar à vontade, se tivessem coragem. Porque a casa estava assombrada por uma velha que lá aparecia à noite e ninguém se atrevia a chegar perto. Os três valentões riram-se dos aldeões e instalaram-se na casa abandonada.
Enquanto os outros dois iam à caça, o Arranca-Pinheiros ficou ao fogão a preparar a ceia. Estava ele a fazer sopa no caldeirão quando a velha lhe bateu à porta.
– Ai que frio! Ai que frio! – disse a velha, e aproximou-se do fogão. Mas quando chegou perto do lume, pegou numa mão cheia de cinza e atirou-a para dentro do caldeirão, estragando a comida.
– Ah velha duma figa! – exclamou o Arranca-Pinheiros, e atirou-se a ela para lhe bater.
Mas a velha deu-lhe uma coça tão grande que quando os seus dois amigos chegaram a casa o encontraram todo aleijado, deitado na cama sem se poder mexer. Muito envergonhado, contou-lhes que tinha sido a velha a pô-lo naquele estado.
– E onde está essa velha? – perguntaram os outros. Mas o Arranca-Pinheiros não sabia. Era como se ela se tivesse evaporado no ar.
A noite passou-se, e no dia seguinte ficou o Arrasa-Montanhas ao fogão. Novamente apareceu a velha.
– Ai que frio! Ai que frio!
O Arrasa-Montanhas já estava avisado, mas mesmo assim a velha se chegou ao fogão, pegou numa mão cheia de cinzas e atirou-a para dentro do caldeirão. Também o Arrasa-Montanhas não teve melhor sorte do que o amigo na véspera. Levou uma tareia tão grande que ficou de cama.
– Amanhã fico cá eu. – disse o João Valentão.
E ficou, com o cacheiro de ferro a seu lado enquanto aquecia o caldeirão. Só que desta vez a velha não bateu à porta. Apareceu-lhe já dentro de casa, pendurada da chaminé.
– Ai que eu caio! Ai que eu caio! – disse velha, e caiu-lhe uma perna. – Ai que eu caio! Ai que eu caio! – e caiu-lhe um braço.
O João Mama-na-Burra já estava à espera dos truques da velha e não se deixou intimidar.
– Ó velha, não caias aos bocados! Cai lá toda de uma vez!
A velha assim fez. Caiu da chaminé e pegou na cinza para atirar ao caldeirão. Já lhe conhecendo a manha, o Mama-na-Burra deu-lhe com o cacheiro de tal feição que lhe arrancou uma orelha.
A velha gritou, porque afinal não era assim tão fantasmagórica que nada a aleijasse, e desapareceu tão de repente que o João Valentão não viu para onde ela se escapuliu. Mas como a velha foi deixando pingas de sangue por onde passou, conseguiu seguir-lhe o rasto até um buraco no chão.
Quando chegaram os seus dois amigos, decidiram descer todos pelo buraco a ver onde ia dar. O primeiro foi o Arranca-Pinheiros. O Mama-na-Burra e o Arrasa-Montanhas ficaram a descê-lo com uma corda, só com a força dos braços porque não precisavam de outros apetrechos. Mas quando ia a meio do buraco, o Arranca-Pinheiros foi atacado por numa nuvem de mosquitos. Picavam tanto e tão ferozmente que o Arranca-Pinheiros teve de gritar para o tirarem dali. Assim eles fizeram, e de seguida desceu o Arrasa-Montanhas. Não se deu melhor e também não suportou os mosquitos.
Mas o Mama-na-Burra estava tão furioso com a velha que nada o faria desistir. Por muito que sofresse, não pediria ajuda. E como pensou melhor fez. Padeceu os mosquitos e chegou ao fundo do poço.
No subterrâneo encontrou toda uma série de aposentos, como se alguém ali morasse. Já muito espantado, ainda mais espantado ficou quando lhe apareceram três meninas.
– Viveis aqui? – perguntou-lhes.
– Sim, vivemos. Mas estamos à guarda de uma velha que não nos deixa sair.
Percebendo que as meninas estavam encantadas, o Mama-na-Burra resolveu logo ajudá-las. Uma a uma, mandou-as subir pela corda.
Lá em cima, o Arranca-Pinheiros e o Arrasa-Montanhas ficaram tão embasbacados ao ver surgir as três bonitas meninas que se esqueceram do amigo e foram-se embora com elas.
O Mama-na-Burra esperou e esperou, mas ninguém descia a corda. Ficou por ali, a pensar no que fazer, e começou a explorar o subterrâneo à procura de saída. Mas passou-se tanto tempo que a certa altura teve fome e não encontrava que comer. Lembrou-se então da orelha da velha, que tinha enfiado no bolso. Cheio de repugnância, acabou por decidir que sempre era melhor comer a orelha do que morrer de fome.
Assim que lhe deu uma dentada, apareceu-lhe a velha à frente, implorando:
– Ai não me comas! Faço tudo o que quiseres, mas não me comas!
– Ah é assim, velha d’um raio? Então leva-me já daqui para fora!
A velha tomou-o às cavalitas e subiu com ele pelo buraco acima até à superfície. (Porque a velha, é bem de ver, era o Diabo.)
– Agora leva-me aos meus amigos! – exigiu João Mama-na-Burra.
– Ai, mas não posso, não posso! – desculpou-se a velha.
– Olha que eu como-te a orelha! – ameaçou de novo o Mama-na-Burra.
Num esfregar de olho, a velha amansou e levou-o até aos amigos e às meninas. O Mama-na-Burra estava zangado com eles, mas o tempo tudo fez perdoar.
E assim se acabou o encantamento. Conta-se que cada um dos amigos se casou com uma dessas meninas e viveram felizes para sempre.
Não se sabe onde pára a orelha da velha.

FIM


Análise
Como eu gostaria de saber a origem deste conto. Cheira-me que tal como n’“O Touro Azul” há aqui qualquer coisa de “As Mil e Uma Noites”. A explicação do Diabo foi inserida depois para explicar o elemento de maravilhoso aos ouvintes cristãos. Outras versões que vi ainda carregam mais neste tom de sermão, transformando as meninas em tentadoras que insistem em seduzir os três amigos com maçãzinhas de ouro. (Como Eva.) A mulher é representada como a encarnação do Mal, e quanto mais velha mais sabida e ardilosa. A velha, então, só pode mesmo ser o Diabo.
Gosto mais da "nossa" versão, em que se contava que “a velha era o Diabo” como um piscar de olho, como quem diz “vamos fingir que sim para isto fazer sentido mas não é para levar a sério”.

domingo, 6 de janeiro de 2019

O Touro Azul (Histórias da minha avó)



"O Touro Azul" era uma das minhas histórias preferidas de infância. Em parte porque combina elementos de duas outras histórias infantis, A Branca de Neve (o arquétipo da madrasta má) e A Gata Borralheira (o arquétipo da jovem pobre e/ou que perde tudo e acaba a casar com um príncipe). Mas o que mais gosto nesta história é a parte triste. A parte que me fazia vir lágrimas aos olhos. O sacrifício. Nunca achei que este sacrifício tivesse valido a pena e sempre pensei, ainda antes de saber que pensava, que este é um conto sombrio e cruel.
Aqui há uns anos andei à procura deste conto na internet e não o consegui encontrar. Decidi um dia escrevê-lo eu e publicar aqui. São contos da oralidade, passados de avós para mães para netas, que facilmente se perdem se ninguém os registar e divulgar. Desta vez, quando tive tempo, procurei e encontrei. O blog Contos da Minha Terra teve a iniciativa de o publicar. É de lá que o transcrevo, acrescentando outros pormenores da versão da história como eu a ouvi e conheço. E já se sabe como é. Quando ouvimos uma história em crianças só há uma versão possível e é a nossa. É a versão sagrada da nossa infância e não admitimos que se altere uma linha. Esta versão, no geral, está muito perto daquela que eu conheço.
Vou fazendo os apontamentos e a análise ao longo do conto.

Era uma vez  um rei e uma rainha, os quais tinham cada um, uma filha. Como ambos eram viúvos, resolveram casar-se, e assim fizeram.
A filha do rei era muito formosa, muito bonita e boa para toda a gente do reino. Ao contrário, a filha da madrasta era muito feia, muito desajeitada e muito malcriada para com toda a gente do palácio. Ninguém gostava  dela. Entregava-se o rei muito ao exercício da caça, e enquanto por lá andava, era a sua filha que o representava, sendo por isso o ídolo dos habitantes do reino.
A madrasta ardia de ciúmes por esta preferência e jurou por sua alma vingar-se da filha do marido. Nesse intento, numa ocasião em que o marido teve de se ausentar , ordenou a madrasta à enteada que fosse guardar um touro azul, que o pai desta comprara e que era muito bravo.


Na nossa versão da história não havia reis nem rainhas. Eram gente do povo, mas gente abastada, porque não compraram só um boi mas uma boiada toda, onde vinha o Touro Azul. 


A boa menina, toda transida de medo, cumpria as ordens da madrasta, recebendo desta uma pequena merenda para comer todo o dia.


A nossa versão é mais perversa. A madrasta entregava à enteada um pão inteiro mas exigia-lhe que o trouxesse para casa intacto. O objectivo era mesmo matar a enteada à fome. Com a ponta do corno, o Touro Azul fazia um buraquinho na côdea por onde a menina podia comer o miolo. Assim, a menina comia e o pão regressava exteriormente intacto. E lá iam resistindo à madrasta.
Para a proteger dos outros touros, o Touro Azul (que obviamente não é um animal mas alguém sob encantamento) deixava que ela o montasse quando estavam no campo.

Contra a sua expectativa o touro não só não a maltratou, mas até a olhava serenamente. No dia seguinte, voltou a menina, e quando se dirigiu para o touro, este ajoelhou-se diante dela e disse-lhe:
-“ Tira o guardanapo , que tenho por detrás da orelha, e estende-o no chão que logo te aparecerá comida e bebida consoante a tua condição.” A princesa fez o que o touro lhe ordenou, e logo viu na sua presença os melhores manjares. Satisfeito o apetite, tornou a colocar o guardanapo atrás da orelha do touro, que em seguida, se retirou, cortejando-a.

Esta parte também me parece estranha. Não me lembro de o Touro Azul cortejar a menina. Lembro-me de ele a ajudar porque tinha pena dela e porque se tinham tornado amigos.

E assim, se passaram alguns dias. A rainha admirada que o touro não atentasse contra a enteada e de que esta parecesse viver satisfeita, ordenou a um pagem que espreitasse a enteada. Em breve, este se certificou de toda a verdade e a comunicou à rainha.
Entretanto, voltou o rei da caça, e a rainha fingiu-se doente, de cama. Ficou o rei muito aflito e mandou chamar os médicos, que declararam achar-se a rainha muito enferma. A rainha fingiu grande fastio, mas como instassem com ela para que comesse, resolveu pedir um caldo da carne do touro azul. Ficou a filha do rei muito magoada com aquela exigência, e antes que o pai mandasse matar o touro azul, foi ela preveni-lo. Pela calada da noite, dirigiu-se à tapada onde logo viu o touro azul.
-“Já sei a que vens aqui: a rainha quer matar-me. Vem comigo, senão ela dá cabo de ti.” – disse o touro azul
E ambos fugiram. Depois de terem andado toda a noite e todo o dia seguinte, disse o touro:
- “Agora vamos entrar nesse jardim, onde há muitas flores de cobre. È guardado por um gigante com quem brigarei, e como ele é muito forte, talvez me mate. Tu repara se cai alguma flor.”

Outra diferença. Na nossa versão da história o Touro lutava contra um feiticeiro (não que altere o efeito ou o resultado). E entravam em pomares, não em jardins. Mas o Touro prevenia a menina para não tocar em nada e não fazer cair uma única folhinha. Dava-se a entender que haveria graves consequências se isso acontecesse.
Sem querer, a menina fazia sempre cair uma folha, e depois de o mal estar feito o Touro Azul dizia-lhe que a recolhesse no avental: "Avisei-te que tivesses cuidado. Mas já que aconteceu, guarda a folha no avental." Esta sequência de acidentes ou descuidos aparentam ser um "quebrar de regras" por culpa da personagem que faz adivinhar um desfecho trágico.


Apesar das súplicas da princesa, o touro encaminhou-se para o jardim. Logo aos primeiros passos viu a menina cair uma flor.
-“ Guarda-a no teu avental:” – disse-lhe o touro.
E a princesa assim fez. Quase ao mesmo tempo, apareceu o gigante e começou a lutar com o touro. Este ficou vencedor, mas muito ferido.
-“ Tira um frasquinho, que o gigante aí morto tem à cintura, e deita-me sobre as feridas o óleo nele contido.”- disse o touro
A menina cumpriu a ordem, e o touro ficou completamente sarado.
Mais adiante, chegaram a outro jardim em que as pétalas das flores eram de prata. Nele também havia um gigante, que foi morto pelo touro, sendo as feridas que ele recebera, curadas com o licor contido no frasquinho que pendia da cinta do gigante. Aqui, também caiu uma pétala de prata que a menina recolheu no seu avental..
Mais adiante, apareceu outro jardim em que as pétalas eram de ouro. De guarda estava um formidável gigante que trazia à cinta um frasco e uma faca de mato. Lutou o gigante com o touro e este matou o gigante.
Então disse o touro à princesa: -“ Deita-me nas feridas o líquido do frasco e guarda a faca de mato.”
A menina assim fez. Mais adiante pararam, e disse-lhe o touro: - “ Que vês acolá?”
-“ Vejo uma ribeira e lá no cimo do monte uma casa” – respondeu a menina
O touro azul disse-lhe: - “A casa que vês é um palácio; aí vive uma rainha com o seu filho. Agora farás o seguinte: com a faca que trazes tira-me a pele, guarda nela as três pétalas que apanhaste, e vai meter tudo debaixo daquela lage ali ( aponta-lha), a qual às três pancadas, se levantará. Depois suja-te na ribeira e vai-te oferecer como criada àquele palácio. Quando ouvires dizer que há aqui perto alguma festa, faze-te parva e pede que te deixem lá ir. Debaixo da lage encontrarás o que desejares para te vestires.”
Bem contra a sua vontade, a menina fez o que o touro lhe ordenou.

Esta é a parte mais dramática do conto e aqui é apresentada quase sem relevância nenhuma. Na nossa versão, não é a menina que mata o touro. O Touro Azul venceu a batalha com o último feiticeiro mas desta vez ficou tão ferido que já não consegue recuperar. Sabendo-se a morrer, dá indicações à menina de onde se dirigir. A menina não o quer deixar, mas ele convence-a. Porque é que o Touro Azul morre? Porque enfrentou feiticeiros a mais? Porque demasiadas regras foram quebradas? Porque já não é possível reverter o encantamento? O que o levou a ir enfrentar estes adversários? Tanto na versão aqui transcrita como na que conheço, a história nunca dá resposta. E a que dá não me convence, como explicarei no fim. Mas a verdade é que por amizade ou amor o Touro Azul desiste de si próprio e sacrifica a sua vida pelo futuro da menina.

Foi enfim a princesa suja e com os cabelo em desalinho, oferecer-se por criada ao palácio, dando-se o nome de Maria.
Foi recebida por criada. Daí a dias, pediu o príncipe um pente. Foi a criada levar-lho. Ele atirou fora o pente dizendo:
-“Já não tinham por quem mandar o pente, senão pela Maria Suja!...”

A nossa versão da história era mais bruta. O príncipe não atirava só o pente como atirava também a Maria Suja pela escada abaixo.
Mas temos também outro pormenor mais bizarro. Ao despedir-se, o Touro Azul dá à menina um fato todo de pau, bem como sapatos de pau. (Debaixo da lage encontrarás o que desejares para te vestires.) Quando o príncipe a atira pelas escadas abaixo ela não se aleija devido a este fato protector, mas a queda faz um grande barulho.
De onde terá vindo este pormenor? Não foi de certeza invenção da minha avó. A contaminação (de outro conto?) terá sido anterior. Será que este fato de pau estapafúrdio e todo o episódio de rolar pelas escadas abaixo, e a barulheira, servia como comic relief para distrair e divertir as crianças depois da morte do Touro Azul? Actualmente não acho graça nenhuma. Pelo contrário. Isto do fato e da violência lembra-me algo entre o BDSM consentido e o abuso explícito.

Passado tempo, realizou-se naqueles arredores uma festa. À custa de muitos pedidos, deixaram ir a criada à festa. A criada dirigiu-se à lage e logo, diante dela, surgiu uma carruagem de cobre e juntamente uma vestimenta completa do mesmo metal. Maria dirigiu-se na carruagem às festas, onde deu nas vistas de todos, sem excepção do príncipe, seu amo, que lhe perguntou de onde era.
-“ Da terra dos pentes!” – respondeu-lhe a Maria
De outra vez, mandaram pela mesma criada ao príncipe uma toalha que ele pedira para se limpar. O príncipe recusou a toalha dizendo:
-“ Não quero toalhas da Maria Suja!”
Daí a poucos dias, houve outras festas às quais a criada Maria, seguindo os processos indicados, se apresentou em carruagem de prata e vestida do mesmo metal.
- “ De onde é? – perguntou o príncipe
-“ Da terra das toalhas.” – respondeu a Maria
Numa outra ocasião, o príncipe pediu um copo e foi a Maria levar-lho. Este , muito enojado por ver que quem lhe trazia o copo era a Maria Suja, disse que não o queria.
Dias depois, houve outra festa a que Maria assistiu vestida de ouro, em carruagem do mesmo metal e toda coberta de jóias de grande valor.
O príncipe, com os seus ares mais namorados e respeitosos, perguntou-lhe de onde era.
“Sou da Terra dos copos “– respondeu a Maria e começou a fugir da festa
Desta vez o príncipe não ficou calado nem pasmado. Correu atrás dela e conseguiu apanhar-lhe o sapato que ela tinha deixado cair, levou-o para o palácio, como uma relíquia preciosa.

Da mesma forma, a nossa versão da história não termina com o sapatinho da Gata Borralheira. Esta é uma contaminação mais óbvia. Na nossa versão o príncipe acaba por perceber sozinho que a menina dos copos e das toalhas é a criada do palácio e casa com ela. E acaba assim.

Convocou todas as princesas daqueles arredores, resolvendo casar com aquela a quem o sapato servisse. Entre as diversas princesas apareceu a filha da madrasta de Maria Suja . Ela calçou o sapato e disse que lhe ficava bem, embora a magoasse a ponto de lhe rasgar a pele do pé, deixando-o todo ensanguentado.
Como o sapato lhe servia, foi logo ali marcado o casamento. Sucedeu porém, haver no palácio uma pega, que foi a razão de se descobrir o engano. Com efeito, quando os dois noivos estavam já dentro da igreja, entrou a pega na igreja dizendo: “ – Olha como ela vai toda inchada com o sapato que pertence à Maria Suja!”
Parou imediatamente a cerimónia e o príncipe tratou de se certificar se o que a pega dissera, era verdade. Todos verificaram que o sapato não servia àquela princesa, que agora o calçava. Chamaram a Maria Suja e verificaram que ela o calçava muito bem, pois era dela o sapato. Em visto de tudo isto, o príncipe casou com a Maria Suja, pois que o príncipe era nem mais nem menos que o touro azul.

FIM

Revista A Tradição Setembro 1901(texto adaptado)

Aqui está a parte que não me convence. Como é que este príncipe besta, fútil e arrogante pode ser o Touro Azul que sacrificou a vida por amor e amizade?
Nem vamos tão longe. Como é que um pode ser o outro se nunca nos é dito que o príncipe esteve desaparecido ou ausente do palácio enquanto estava encantado como Touro Azul? Enorme plot hole.
É claro que por artes mágicas tudo é possível. O príncipe pode ter sido "desdobrado" num duplo Touro Azul. E aqui teríamos duas hipóteses:
1, ou o príncipe se lembra da experiência quando o encantamento é quebrado, o que não parece ser o caso porque não reconhece a Maria Suja;
ou,
2, o príncipe não se lembra de nada e foi como se não tivesse acontecido com ele. O que nos leva à estaca zero: de uma forma ou de outra, o príncipe e o Touro Azul não são a mesma pessoa. Este fim foi ali metido à martelada para justificar a morte injustificável do Touro Azul.
Sempre me perguntei se não haveria mais pormenores nesta história que de geração em geração se foram perdendo. O conto lembra-me muito "As Mil e Uma Noites". A origem do Touro Azul (quem é, de onde veio, quem o encantou e porquê, porque tem de morrer) parece um desses contos que continuam de outros anteriores. A minha teoria, baseando-me só no que a história apresenta, é que o Touro Azul era ele próprio um feiticeiro que foi castigado/derrotado pelos outros três. Afinal, ele sabe muito bem onde ir e como se vingar. Mas isto é apenas uma conjectura.

O conto é infeliz. No fim, todos perdem. A madrasta ganha (livra-se da enteada). O Touro Azul morre. E até a menina acaba casada com uma besta de um rapazinho fútil que só repara nela quando está coberta de ouro. Que ela melhora a sua condição social? Talvez melhore. Mas que aceitação tão cínica pressupõe este conto. Os bons não vão longe. O dinheiro, a posição social e as aparências são o que mais conta. O sacrifício altruísta não tem qualquer recompensa. Aposto que no futuro, com aquele marido, a menina foi muito infeliz apesar de coberta de ouro.
Não posso considerar um final feliz nem nada que se pareça. "O Touro Azul" é uma história triste, desencantada, cínica e deprimente. E é se calhar por isso que era uma das minhas histórias preferidas na infância.


domingo, 30 de dezembro de 2018

Pompeii / Pompeia (2014)

 

Neste tipo de filmes-desastre, geralmente, o personagem principal é o desastre em si. Tudo o resto são personagens secundárias que só ali estão para enfrentar a calamidade. Foi uma surpresa que Pompeia não tenha sido assim. A história é tão interessante que a certas alturas até me esqueci completamente do Vesúvio.
Tive muitas vezes a sensação de estar a assistir a um épico à antiga, daqueles dos anos áureos de Hollywood, com perseguições em quadrigas e tudo. E não é todos os dias que vemos Jack Bauer vestido de Senador romano. Elegantíssimo, e malvadíssimo, como fica tão bem a Kiefer Sutherland.


A história não é original. Milo é o único sobrevivente de uma revolta Celta esmagada pelos invasores Romanos. Feito escravo, é agora um gladiador famoso a quem levam precisamente para a arena de Pompeia nas vésperas da erupção do Vesúvio. Por coincidência, Pompeia é visitada nessa mesma altura pelo homem que massacrou a sua tribo e os seus pais. Assim que o vê, Milo só pensa em vingança.
Nota acerca dessa cena inicial em que Milo, ainda criança, assiste à decapitação da sua mãe. É sempre difícil dizer se foi propositado ou não, mas é tão semelhante que não pode deixar de lembrar o início de “Conan o Bárbaro” (o de 1982, com Arnold Schwarzenegger). Muitas partes do enredo podiam também ter saído da série "Spartacus". O dono dos gladiadores chega mesmo a dizer: “Estes trácios só dão problemas.” E de facto, 100 anos antes, um certo trácio conhecido por Spartacus deu água pela barba aos romanos. Mas sabemos como isso acabou. Na arena, os gladiadores já não falam em revolta. Atticus, o campeão, acredita mesmo (ou quer acreditar) que lhe falta apenas uma vitória para lhe ser concedida a liberdade. Para tal, tem de combater com o Celta (Milo) e derrotá-lo. Nenhum dos dois tem qualquer interesse em matar o outro, mas é a vida de um gladiador.
Este enredo é bastante interessante por si só. Mas sabemos que um personagem “oculto” não tarda a intervir e a estragar os planos a toda a gente. Nesta altura estamos a torcer para que o vulcão expluda e safe os dois gladiadores.
A história é cativante mas isto não quer dizer que os personagens sejam muito desenvolvidos. Num filme-desastre, histórico, cheio de acção e efeitos especiais de grande magnitude, alguma coisa teria de ficar para trás. Os personagens são apenas desenvolvidos o suficiente para contar a história mas não deixam de ser bidimensionais. Os vilões são maus como as cobras. As personagens dividem-se entre opressores e oprimidos. A família aristocrática de Pompeia, para ser mais simpática ao espectador, é também oprimida pelo poder imperial. Cássia, a heroína, manifesta-se contra os jogos na arena, para sabermos que alguns romanos são “bonzinhos”. Não há tempo para muito mais.
Lamento dizer que os efeitos especiais me desapontaram, nomeadamente os da destruição da cidade e os da tsunami. Nota-se que é feito por computador, e quando se nota é mau. (Se nos lembrarmos da destruição da arena em "Spartacus", por exemplo, foi muito mais realista do que aquilo que acontece aqui.) Os efeitos especiais do vulcão, ao menos isso, já são realistas o bastante. Mesmo assim esperava mais.
Também não gostei dos clichés debitados a torto e a direito. Já basta que as personagens sejam bidimensionais. Os diálogos não precisavam de ser tão fracos.
O final surpreendeu-me. Não pensei que tivessem coragem de acabar assim. Neste aspecto, o filme diverge muito do fim “clássico”.
Pompeia não será certamente um dos filmes da minha vida mas vê-se bem e é mais original do que dava a entender a princípio.


14 em 20

domingo, 23 de dezembro de 2018

Midnight, Texas


[crítica à primeira temporada]

Sobrenatural, vampiros, sangue, sexo tórrido. Era o que eu esperava de “Midnight, Texas”, série baseada na colecção homónima de Charlaine Harris, autora dos livros que deram origem a “True Blood”. Nem acredito que estou a dizer isto, mas a “Midnight, Texas” talvez falte mesmo o sexo tórrido para a acção abrandar. Tudo acontece a um ritmo tão alucinante que nem temos tempo para conhecer devidamente os personagens, muito menos envolvermo-nos com eles.
Por exemplo, a história de Manfred, o protagonista. Um verdadeiro médium, mas também capaz de “aldrabar” os seus dons para agradar a clientes ricas. Por causa de uma dívida contraída para pagar os tratamentos da avó com cancro, é obrigado a fugir para a pequena terriola de Midnight na esperança de escapar ao credor. Este credor promete ser um vilão terrível, mas afinal dão conta dele num só episódio. Tudo é assim em “Midnight, Texas”. A série é uma sucessão de monsters-of-the-week e tudo se resolve no próprio dia. Fez-me pensar que se calhar queriam rivalizar com “Sobrenatural”, mas a diferença é que em “Sobrenatural” os personagens são extraordinários: interessamo-nos por eles, sofremos por eles. Em “Midnight, Texas” mal os conhecemos. Nem parece haver muito para conhecer. Todos os personagens são bidimensionais.
Há o vampiro bonzinho, Lemuel, um antigo escravo que encontrou a liberdade no vampirismo. Esta podia ser uma história boa e dramática, mas não merece mais do que cinco minutos de flashback.
A outra fulana (a Lexi de “Diários do Vampiro”, mas nesta série nem lhe consegui fixar o nome), assassina profissional com um passado pesadíssimo, também nunca é desenvolvida a esse nível.
Depois temos o Reverendo, que é um tigromem. (Lobisomem, mas em versão tigre.) Este deve ter uma história bem interessante, se alguma vez a conhecermos.
Entretanto há também um casal gay, ele um anjo e ele um demónio, e amam-se. Mais outra história fofinha de que nunca conhecemos nada. Eu ia adorar assistir a como é que estes dois se apaixonaram e decidiram assumir um amor tão proibido.
E finalmente temos a bruxa Fiji, cujo gato é um familiar (espírito familiar) que fala. O gato é o meu personagem preferido. Nem querem imaginar a minha raiva quando em certo episódio decidiram sacrificar o gato. Sim, é verdade que foi o gato que pediu que o sacrificassem num acto altruísta e heróico, e que este não é um gato “normal”, mas com a ignorância e a maldade que ainda existem neste mundo preferia não ver estas atrocidades em obras de ficção. Felizmente, por qualquer razão que não fez sentido nenhum, o sacrifício não matou o gato. Pelo menos isso.
Tirando estes personagens “sobrenaturais” e/ou complicados, existem os normais. E os normais ainda são menos interessantes do que os outros e nem merecem que os mencione.
O verdadeiro enredo da série, afinal, não é a dívida que levou Manfred a Midnight. Midnight é daqueles locais em que o “véu” entre este mundo e o outro é mais ténue, e este véu está a ficar cada vez mais fino. O anjo prevê que quando este véu se romper o inferno passará através dele para reinar na terra. (Um enredo muito “Sobrenatural”.) Mas existe uma profecia, de que apenas um homem que fala com os vivos e os mortos pode deter o inferno. Este é Manfred, e esta é a verdadeira razão da sua presença em Midnight.
Contado assim até parece interessante, mas deviam ver o demónio medíocre que aparece em representação do inferno. Se calhar sou eu que estou mal habituada. Já vi tão melhor!
Se ao menos as personagens fossem profundas e cativantes a série ainda se aproveitava. Não basta deitar lá para dentro um sortido de criaturas sobrenaturais e julgar que basta. Não basta. É preciso que nos interessemos por elas. Se a série acabasse agora nunca mais pensava nesta gente.
“Midnight, Texas” é uma série para ver sem interesse nem expectativas. Daquelas que servem para olhar para a televisão e pensar noutras coisas. Para ser muito sincera, nem percebo como é que foi renovada.
Do mal o menos, resta-nos François Arnaud (César Bórgia de “Os Bórgias”) que me levava para todo o lado se eu tivesse a idade dele. Mal empregado neste papel.