quinta-feira, julho 28, 2016

The Unborn / Espírito do Mal (2009)

 

Há muito tempo que não consigo fazer uma crítica a um filme de terror. Exactamente o mesmo tempo há que não vejo nada que mereça ser criticado. É verdade que cada vez é mais difícil produzir um filme deste género que seja completamente original e que cumpra o objectivo (terror = aterrorizar, assustar), mas não é também verdade que o objectivo é plenamente atingido em quase todos os episódios de The Walking Dead? Desconfio bem que os bons argumentistas se mudaram para a televisão: Breaking Bad, Lost, Wayward Pines, American Horror Story, Sobrenatural, só alguns nomes sem pensar muito. Onde os argumentistas estão muito melhor, na minha opinião. Não é estranho que dê por mim a preferir uma boa série a um filme medíocre de 90 minutos. Da mesma maneira que sempre preferi um romance de mil páginas a qualquer conto curto. Gostar de séries é uma sequência natural.
 The Unborn / Espírito do Mal também não merece grande crítica. Pelo menos fez algum sentido, que há muito tempo os filmes de terror que tenho visto nem se esforçam por fazer! A heroína começa a ser assombrada por um espírito errante que quer voltar ao mundo dos vivos e possuí-la. A primeira parte até é bem construída, promissora de algo interessante. Infelizmente, o filme perde-se muito depressa em sustos e gritos, e imagens de "meter medo" completamente previsíveis que acabam por não meter medo porque não têm consistência lógica em que se basear. Assim:


A rapariga grita muito, grita que se farta, grita demais, o fantasma grita quando a vê, as visões gritam também. Tive de baixar o som muitas vezes tal era a gritaria. As imagens de meter medo, como esta acima, faziam mais sentido na capa de um álbum de death metal ou coisa assim. E depressa o filme descambou num exorcismo, e aqui começou a desfilar a sucessão de clichés que toda a gente já viu um milhão de vezes. Até nazis o filme conseguiu meter! Dou-lhes um pontinho pela originalidade, ainda assim, porque supostamente foi um exorcismo hebraico. Não sei se foi ou não, só relato o que me venderam. (Mas nunca vi uma heroína gritar tanto durante um exorcismo sem que ninguém lhe estivesse a fazer mal nenhum. Este filme devia-se chamar "Screams", mas o nome já estava registado.)
Entristece-me dizê-lo mas este foi o menos pior filme de terror que vi em muitos anos. Pelo menos teve cabeça, tronco e membros, e entreteve-me durante os 90 minutos. Não é um filme de se que exija mais.

12 em 20


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quinta-feira, julho 21, 2016

Caixa Económica Operária: tradição de clandestinidade

 

Já lhe chamaram "um dos segredos mais bem escondidos da capital" mas se os edifícios tivessem alma, coisa em que não acredito, apesar de tudo o que parece, então a nossa (agora familiar) Caixa Económica Operária teria uma vontade própria para brilhar mais na obscuridade. Recentemente, no documentário da RTP2 "Antes da Pide", tomei conhecimento de que aqui se realizou o derradeiro congresso do Partido Comunista Português antes da ilegalização.
Na verdade, estou um pouco perplexa porque julguei que para escrever este artigo me bastaria ir buscar um link à Wikipedia, acrescentar uma frase ou duas, e feito. Para minha surpresa, tive de andar à procura dos factos a que o documentário remete, aqui:

«Aos vinte e nove dias de Maio de mil novecentos e vinte e seis, às vinte horas e quarenta e cinco minutos, na Rua Voz do Operário número sessenta e quatro primeiro, da cidade de Lisboa (1) reuniu-se em segundo Congresso a massa filiada no Partido Comunista Português secção da Internacional Comunista», tendo a saudação aos delegados sido feita pelo «camarada Rodrigues Loureiro, Secretário-Geral interino da Comissão Central» (2) . Assim começa a Acta que regista a abertura, há 80 anos, dos trabalhos do II Congresso do PCP, iniciado, portanto, um dia depois de os militares golpistas comandados pelo general Gomes da Costa se terem sublevado em Braga e iniciado a sua marcha para Lisboa, onde acabaram por chegar quando os trabalhos do Congresso estavam a terminar.


E aqui:

O II Congresso realiza-se em 29 e 30 de Maio de 1926, na Cooperativa Caixa Económica Operária, em Lisboa. (...) Com efeito, a ditadura desencadeia uma forte vaga repressiva contra os comunistas e as organizações e militantes democráticos e sindicais. Centenas de dirigentes operários e militantes comunistas são presos.


E nem mesmo aqui quiseram mencionar o local:

II Congresso
(1926)
O II Congresso inicia os seus trabalhos a 29 de Maio de 1926, em Lisboa, mas estes - que contavam com a participação de 100 delegados - são interrompidos em consequência do golpe militar reaccionário que irá conduzir à instauração da ditadura fascista.A repressão aos comunistas não se faz esperar e. em 1927, a sede do PCP é encerrada. O PCP entra na clandestinidade, Da primeira reorganização do Partido, em 1929, emerge a figura de Bento Gonçalves que virá a ser Secretário-geral do Partido.


Esta clandestinidade da Caixa interessa-me pessoalmente porque, segundo fontes familiares, era onde o meu pai se continuou a reunir com a célula do partido muito depois da ilegalização. Faz-me confusão que não exista mais informação disponível online, ou se calhar sou eu que já estou mal habituada, e eu ainda sou do tempo pré-histórico Antes da Internet, das bibliotecas e dos pedidos por favor que nos deixassem ver os arquivos. Mesmo assim, acho estranho que um edifício tão cheio de história não tenha mais páginas online a contá-la. Começo por fazer a minha parte, e cá está.


Actualmente é outra a "clandestinidade" da Caixa (mas ainda assim não menos clandestina, e ainda bem que o é, o tal segredo mais bem guardado de Lisboa) e são outros os subgrupos que a povoam. Curiosas as voltas que a História dá, que me encontrei a cruzar o caminho extinto dos passos do meu pai, noutros passos completamente meus.
Serve este artigo, pois, para chamar a atenção para a tradição de clandestinidade de um edifício, Rua da Voz do Operário nº 64, que parece ter alma própria e gostar pouco de ser falado. A avaliar pelo sucesso dos últimos anos, agora que outra Comissão gere a "clandestinidade" desta moderna CEO, o espírito da casa tem acolhido com aprovação os novos inquilinos. Uma imensa minoria, diria alguém, uma minoria ainda menos imensa, digo eu.
Mas termino com humor. Passou-me pela cabeça, ao conhecer o passado do lugar, o que aconteceria que se de repente ali se abrisse um portal espaço-tempo, como tão a propósito seria que acontecesse num edifício tão carregado de história, e de repente ficassem frente a frente os comunistas daquele tempo, e os PIDES daquele tempo, e os estupefactos visitantes de agora. E quase imagino comunistas e PIDES, daquele tempo, por única vez a concordar, de olhos esbugalhados: "Esta juventude está perdida!"
Perdida não, que encontrou onde se encontrar.


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quinta-feira, julho 14, 2016

As dez palavras mais “metálicas” de sempre

Eu não gosto de metal mas achei este artigo no Blitz interessantíssimo:

Um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal e fez um top 10 das palavras mais utilizadas

Tal como em qualquer outro género musical, o heavy metal pode falar de uma miríade de temas: do amor à filosofia, da política à natureza, ou, no caso do black metal, de Satanás.

Contudo, há palavras mais comuns do que outras - e um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal para tentar perceber quais as mais utilizadas por este tipo de artistas.

Recorrendo ao website Dark Lyrics, bem como a 222 623 letras de 7 364 bandas de metal, o cientista em questão elaborou posteriormente um top 10 das palavras mais usadas no metal: confira-a aqui em baixo, e leia aqui o artigo científico em questão.

1. Burn
2. Cries
3. Veins
4. Eternity
5. Breathe
6. Beast
7. Gonna
8. Demons
9. Ashes
10. Soul
O artigo original pode ser encontrado aqui: Heavy Metal and Natural Language Processing

Fiquei muito curiosa. Se alguém fizesse a mesma análise a uma boa amostra de músicas góticas, quais seriam as 10 palavras mais utilizadas? Assim de repente, sem pensar muito, eu apostaria em "dead", "lost", e, por alguma razão, "away". A quantidade de músicas que usam a palavra "away", não é?




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sexta-feira, julho 08, 2016

"A Metamorfose", de Franz Kafka

Imagem encontrada na net. Desconheço o autor.

Li "A Metamorfose" pela primeira vez quando tinha uns dezassete anos. Percebi imediatamente que este seria um dos meus livros preferidos de sempre, e para sempre. Mas às vezes duvidamos de nós próprios, e da nossa pouca idade, e recentemente voltei a ler "A Metamorfose". Acho que chorei, da primeira vez que li, e desta vez não chorei porque estava a ler em público. Mas apeteceu-me. E às vezes não devemos duvidar de nós próprios nem da nossa pouca idade.
Não vou repetir tudo o que já foi dito sobre Franz Kafka, e o famoso "O Processo", e "O Castelo", que também li. Não vou falar sobre o surrealismo de "A Metamorfose" porque desta vez percebi que não é surrealismo nenhum. Em forma, parece, mas em conteúdo chamar-lhe-ia mais simbolismo porque toda a história é uma grande metáfora. Não é a história de Gregor Samsa que acorda um dia transformado numa barata. É a história de como a família de Gregor Samsa o transformou numa barata. Melhor ainda, é a história de como a bondade de Gregor Samsa permitiu que a família (e o mundo também, mas principalmente a família) o transformasse numa barata.
A transformação de Gregor Samsa deu-se lentamente. Ele próprio o conta. Quando o negócio do pai faliu, deixando a família numa má situação financeira e cheia de dívidas, Gregor transformou-se num escravo do trabalho para sustentar pai, mãe e irmã. A ingratidão desta gente é inenarrável por palavras comuns. Para esta gente, Gregor, que os sustentava, era insignificante como um insecto. É especialmente repugnante a atitude do pai de Gregor, que afinal não era tão inválido como se fazia parecer enquanto o filho pôde trabalhar.
Curiosamente, da minha primeira leitura, fiquei com a ideia de que tinha sido a irmã, e não o pai, a atingir o Gregor-barata com a maçã que depois apodreceu no seu dorso e o matou. Agora percebo porque é que fiquei com essa impressão. A ingratidão da irmã pode não ser tão repugnante, mas a deslealdade é ainda mais repugnante. É ela a primeira a dizer que têm de se "livrar" daquela coisa. É dela a intenção de matar o irmão, o irmão que a adorava e que queria pagar-lhe a educação no conservatório de música. Nessa noite em que os ouviu dizer que o queriam ver fora daquela casa, Gregor Samsa até ponderou sair, mas ferido de morte com a maçã podre acabou por morrer imóvel e sozinho no chão do quarto, no escuro, como um insecto que ninguém quer ver. A criada desfez-se do corpo e a família saiu na manhã seguinte, para um passeio no campo, e fez planos para o futuro. Ninguém chorou Gregor.
No fim, Gregor perdeu a sensibilidade no corpo de insecto, e talvez a morte não tenha sido dolorosa. Mas a verdade é que Gregor já tinha perdido a sensibilidade à dor que aquela família lhe infligia, há muito tempo, tanto tempo que nunca pensou em sair, que não viu a ingratidão, que deixou que o transformassem num insecto insignificante. O amor demasiado que tinha à família foi também o amor que não teve a si próprio.
Eu chorei Gregor, da primeira vez e da segunda, e continuarei a chorá-lo para sempre. Foi uma sorte ter lido "A Metamorfose" tão cedo, embora não tenha percebido tudo tão claramente como percebi agora. Às vezes tenho medo de acordar e estar transformada numa barata. Foi uma sorte ter lido tão cedo sobre a ingratidão e a futilidade de insistir em estender bondade a quem não merece nada. Talvez me livre de acordar um dia e estar transformada numa barata também.

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sexta-feira, julho 01, 2016

Breaking Bad




Algo se passa de muito errado na minha vida se foi preciso o Dean do Sobrenatural falar desta série para eu perceber que Breaking Bad me ia interessar. (Errado, talvez, mas não é nada de novo. Acho que é mesmo karma.)
Breaking Bad também é uma história em que os personagens têm muitas oportunidades e razões para ponderar o que se passa de errado nas suas vidas.
A sinopse não é suficientemente esclarecedora. Não é apenas um professor de química que decide virar-se para o "dark side" e tornar-se traficante de droga. É muito mais do que isso! É simplesmente uma das melhores séries de todos os tempos, a nível de enredo, a nível de cinematografia, a nível de diálogos, a nível de personagens. A nível de tudo, mas mesmo de tudo! Não há elogios suficientes para descrever esta série.
A história começa quando Walter White, um pacato professor de meia-idade que lecciona química de liceu a alunos desinteressados e apáticos, descobre que tem cancro nos pulmões. O que não pode ser mais injusto porque o homem nunca fumou um cigarro em toda a sua vida. Mal pago e frustrado, Walt podia ter sido um químico brilhante e reconhecido, potencial candidato a um Nobel, mas por motivos de relacionamentos pessoais não participou do sucesso da empresa que co-fundou com os seus colegas de universidade. Um sucesso que não teria sido conseguido sem a genialidade de Walt, e nunca se percebe muito bem porque é que este se resigna à vida de professor de liceu quando podia ter sido tanto mais, mas esta é uma questão que não interessa a Breaking Bad aprofundar, ou que reserva ao espectador decidir.
Walter White, quando o conhecemos, parece pelo menos satisfeito com a sua vida de professor e com o seu casamento com Skyler, dona de casa. O casal, em tudo normalíssimo, tem um filho adolescente com paralisia cerebral e, de repente, um bebé-surpresa a caminho. Para manter o estilo de vida a que a família está habituada, Walt vê-se obrigado a arranjar um emprego depois das aulas a lavar carros para um chefe absolutamente execrável. E subitamente, o cancro, quando a situação financeira da família já é desastrosa. Mais do que com o cancro, Walt preocupa-se com o futuro da mulher e dos filhos. No que é uma crítica feroz ao sistema de saúde norte-americano, o seguro de saúde não cobre todos os tratamentos que precisa, e Walt pondera nem sequer tentar tratar-se. (A crítica repete-se mais tarde na série, quando volta a ser dinheiro da droga a suprir a fisioterapia de um agente do FBI, necessária após um ataque sofrido em consequência da profissão, cujo seguro não chega para cobrir.)
Coincidentemente, Walt é cunhado de Hank, polícia da DEA, casado com Marie, irmã de Skyler. Para animar o cunhado, Hank convida-o a acompanhá-lo numa rusga destinada a apanhar um fabricante de metanfetamina. Não o conseguem apanhar, mas Walt reconhece no meliante um seu antigo aluno. Vê-o fugir e não diz nada à polícia, porque de repente as rodinhas daquele cérebro já começaram a funcionar. Walt começou a fazer contas à vida, e ao dinheiro que não tinha, e aos empregos onde não lhe dão o devido valor que nem chegam para garantir que Skyler e os filhos tenham uma vida confortável após a sua morte, e entretanto descobre que a anfetamina dá dinheiro, muito dinheiro, até a anfetamina de má qualidade que circula nas ruas! Walt sabe que consegue fazer uma anfetamina melhor, genial, pura, científica, e as rodinhas do cérebro começam a girar.
Com a ajuda do antigo aluno, Jesse Pinkman, Walt inicia-se no processo de fabricar anfetamina e o produto, Blue Ice, pode ser descrito como o Nobel da droga. Os problemas começam quando Walt e Jesse têm de vender o produto. A princípio até é engraçado, quando "contratam" três estarolas como dealers, três atrofiados em quem eu não confiava nem para me comprarem o passe. Mas lá vai resultando, e Walt e Jesse fazem mais dinheiro do que alguma vez na vida tinham imaginado. E porque fazem dinheiro, e o Blue Ice se torna conhecido, e dão nas vistas, tornam-se imediatamente alvos: da polícia, e, pior, do cartel lá do sítio, mesmo ali ao lado da fronteira com o México!
E é aqui que as coisas começam a correr mal, muito mal, de mal a pior, como diz o Dean do Sobrenatural, é aqui que as coisas começam "a correr Breaking Bad", à medida que Walt e Pinkman se metem em situações ao mesmo tempo rocambolescas e arrepiantes que tanto nos fazem rir como nos põem a roer as unhas. Os amantes de humor negro não podem perder esta série, nem que seja por causa do casal de agarrados que rouba uma caixa de Multibanco, e depois a mulher zanga-se com o marido e... Só visto. Felizmente, não se "vê" exactamente, ou realisticamente, e é por isso que certas cenas de extrema violência, embora nunca tratada com leviandade, nos conseguem fazer rir. Por exemplo, o que acontece a Gus Fring, e que obviamente não vou revelar. Não me lembro de outra cena em filme ou televisão que me tenha feito reagir assim, sem saber se ficar em choque ou se desatar às gargalhadas. Breaking Bad é uma série assim tão boa!

Alguém se lembra desta senhora?
Até consigo imaginar Vince Gilligan, criador da série, a ver essa outra série igualmente genial que era Weeds, de cariz mais alternativo e humorístico, e pensar que o que faltava a Weeds era a versão hard. Breaking Bad é a versão hard da comédia soft de Weeds. Em Weeds, nada é tão dramático, nada é tão desesperado. Nancy Botwin, a dona de casa viúva e desesperada, mete-se no negócio da marijuana por motivos bem mais levianos do que Walter White. Nancy Botwin é uma sociopata, quer manter o estatuto e o nível de vida, mas fá-lo também por rebeldia anti-sistema, a hippie "crescida" que acredita que a marijuana deve ser legalizada. (De Nancy Botwin, ou dos autores da série, a grande mensagem é: legalizem já!) Não há ninguém naquela série que não fume o seu charro.


Breaking Bad, pelo contrário, é um hino anti-drogas. Com as devidas distâncias, porque não estamos a falar de drogas leves, basta ver aquela cena em que eles preparam heroína numa colher, com sumo de limão e tudo, para uma pessoa ponderar se quer mesmo enfiar aquela porcaria nas veias. Ou as cenas em que sob efeito da anfetamina Jesse Pinkman tem autênticos surtos psicóticos de paranóia, o que também não deve ser nada divertido. Admito, eu própria, que quando Walter começou a ter dificuldade em respirar, ou quando se via o cancro nas radiografias, me faltava o ar a mim também! E olhei para o meu cigarro aceso com pouca vontade o fumar, proeza que nenhum aviso, nenhum programa, nenhum documentário, consegue provocar-me! (Mas passou-me depressa.)
É impossível não comparar Weeds e Breaking Bad, mas atenção, as aventuras de Walter White e Jesse Pinkman não são só para rir, e não são para todos! Breaking Bad é acima de tudo uma série dramática, cheia de acção e humor, mas essencialmente dramática. Na minha opinião, alguns episódios até conseguem ser bastante aborrecidos, e refiro-me especialmente a todas aquelas partes da "vida em família", Walt e a mulher e o filho e os churrascos com a cunhada e o cunhado, que não é o motivo por que as pessoas vêem a série, mas até essas secas, que o são, vão ser fundamentais mais tarde quando todos esses personagens são sugados para o grande buraco negro que Walt andava a criar em laboratório.

A pseudo-gótica
Nesta série não faltam personagens interessantes. Pelo contrário, quase todas elas mereciam a sua própria série (como o conseguiu o advogado Saul Goodman, em "Better Call Saul", que ainda não vi mas obviamente tenciono ver.) Falarei apenas das que me interessaram mais.


Raramente odeio uma personagem como odiei a Jane, a quem não consigo parar de chamar Lydia porque tudo nela me lembra a miúda do Beetlejuice. (Mas da Lydia do Beetlejuice eu gosto, e parece-me que alguém naquela série também gosta porque mais tarde aparece uma personagem sinistra que realmente se chama Lydia. Coincidência? Não acredito.) Odiei a Jane assim que a vi! Foi visceral! Toda vestida de preto, armada em gótica, era só estilo, mas o que é que a menina ouve com o Pinkman? Hiphop. O que é que ela ouve sozinha? Não se sabe, nem sequer a vemos a ouvir música. Na vida real chamar-lhe-ia poseur, mas acredito piamente que os escritores da série não fazem a mais pequena ideia sobre a cena gótica mas acharam que era giro meter uma gótica na série, e saiu isto. Isto irrita-me, porque vem perpetuar uma série de estereótipos sobre os góticos. Que se vestem de preto por rebeldia contra os pais, que aquilo é tudo fachada, que são todos uns drogados. Ainda por cima numa série como Breaking Bad, uma série bem feita e realista, onde vários nichos da sociedade são bem retratados (desde a  cena hiphop, à vida de subsistência e criminalidade dos toxicodependentes lá do sítio, até à ritualidade religiosamente bizarra dos cartéis). Mas aqui, falharam. Mais uma vez, servem-nos uma pseudo-gótica a dar a entender ao mundo que ser gótico é vestir de preto, pintar o cabelo de preto, e ter uma atitude arrogante como o caraças! E ainda por cima, sob o efeito da droga, a moça é violenta a ponto de exibir tendências criminosas. Obrigadinha, Breaking Bad, pelo mau serviço!
Por outro lado, Jane "Beetlejuice" é uma toxicodependente em recuperação, o que pode desculpar em parte o "efeito poseur". Até concebo como realista que antes da droga Jane "Beetlejuice" tenha tido alguma simpatia pela cena gótica, mas quando a vemos na série a única coisa de gótico que ainda tem são as roupas que usa, e absolutamente mais nada! Acredito que alguém na série tenha conhecido alguém assim, ou aparentemente assim. Eu conheci alguém assim, antes e depois da droga, e o que vi não foi bonito. Quem sai já não é o mesmo que entrou. Parte da mente ficou por lá. As drogas fazem muito mal à cabeça, que ninguém se iluda! (Nunca é demais dizê-lo, não vá cair no esquecimento.)
Jane "Beetlejuice", por caricatura que seja, foi a parte mais irritante de Breaking Bad.

Skyler White
Passei a série toda a tentar decidir se devia odiá-la ou se me merecia empatia. Comecei logo por detestá-la. Skyler parecia-me uma espécie de Nancy Botwin com mais problemas de dinheiro, o mesmo tipo de dona de casa totalmente dependente do marido a nível financeiro, mas tão mandona e controladora que até a mim me irritava! Nas mãos dela, Walter White parecia um banana. Mas Walter White, como se vem a perceber, não é um banana, e durante muito tempo conseguiu manter a mulher na completa ignorância do que andava a fazer. Isto confundiu-me. O que é que um génio como Walt podia ter visto naquela parvalhona? Como é que aqueles dois podiam acabar juntos e permanecer juntos?! Bem, isto foi antes de ela descobrir tudo. (Desculpem o spoiler lá para o meio da série.) E então Skyler revela-se. A mulher é uma fera manipuladora! Pior do que o marido! Assim percebe-se o que é que viram um no outro e como é que se aturaram durante tanto tempo, Skyler a mandar, Walter a fingir que Skyler mandava. Entre um e outro, venha o diabo e escolha. 


Ainda assim, Skyler não é uma sociopata. Nunca o é, e somos levados tentar imaginar as suas motivações. Na minha opinião, a razão por que Skyler aceita participar em tanta coisa e durante tanto tempo é afinal a mais simples, e é esta:


O que nos leva imediatamente a tecer comparações com outra série notável, mas num registo mais trágico e sem o humor de Breaking Bad, que foi The Shield:

The Shield, a cena crucial em que Vic Mackey e colegas são corrompidos pela raiz de todo o mal. (Lamento a má qualidade da imagem, não consegui encontrar melhor.)

Não preciso de explicar o que salta à vista e não sou a única a fazer o paralelo. Sem revelar demais, posso até adiantar que os últimos episódios de Breaking Bad me lembraram os últimos episódios de The Shield. Qualidade trepidante até ao fim!
Tal como os polícias de The Shield, pelo menos a princípio, Walter e Skyler não agem por ganância. Não amam o dinheiro e não querem ficar ricos. São pessoas reais, normais, com empregos normais e contas para pagar, e salários que não chegam para pagar as contas. Pessoas reais, a quem de repente aparece à frente uma montanha de dinheiro. Vou fazer filosofia e perguntar se será mesmo a ganância a raiz de todo o mal, ou se não haverá um mal ainda pior do que o amor ao dinheiro, a necessidade do dinheiro? Não falo da mais mísera pobreza, nem é preciso. Falo da pobreza da sociedade moderna, em que a pobreza não é a falta de sapatos mas a necessidade de ter os sapatos adequados, o carro adequado, o telemóvel adequado, a escola dos filhos adequada, e todas essas "necessidades" que somos obrigados a satisfazer para não sermos párias, sem no entanto precisarmos delas. E de repente... uma montanha de dinheiro! A solução para todos os problemas que o dinheiro pode pagar.
Consigo censurar a Skyler? Não consigo. No lugar dela, apoiaria o Walt como ela apoiou e participaria em tudo o que ela participou? É fácil dizer que não. Mas eu não tenho uma montanha de dinheiro à minha frente.

Jesse Pinkman
Chegamos ao duo terrível. Tentei compreender Jesse Pinkman, prestei atenção aos episódios em que interage com os pais, o irmão, as namoradas, o filho da namorada, e não consigo compreender Jesse Pinkman. Isto não quer dizer que ache o personagem irrealista ou bidimensional, apenas que deve ser aquele tipo de pessoa com quem eu não me relaciono nem me passaria pela cabeça relacionar-me. Por outro lado, às vezes, Jesse não me parece assim tão estúpido como certas decisões dão a entender e fico com a sensação de que calhou à personagem Jesse ser "sacrificada" a bem do enredo, ora com atitudes impulsivas, quando a série precisa de acção, ora com abismos de depressão suicida lá pelo meio das temporadas em que são necessários episódios menos evolutivos. 


Parece-me que o personagem sofre com isto, embora  mal se note, mas nunca chego a perceber exactamente quem é Jesse Pinkman. Afinal ele queria o dinheiro, ou não queria o dinheiro? Ou queria, a princípio, e foi o primeiro a perceber que o dinheiro não traz a felicidade? Mas Jesse Pinkman não tem responsabilidades, não tem filhos, não tem contas para pagar. Jesse Pinkman é um miúdo crescido que queria dinheiro para comprar brinquedos e se fartou dos brinquedos que comprou. A montanha de dinheiro não exerce atracção em quem não precisa dela.

Walter White
Também passei a série toda a questionar-me se Walter White é um sociopata ou um homem desesperado numa situação desesperada. No fim, ele próprio o admite, fez tudo por si próprio, mas quando ele admite nós já sabíamos. O homem é um monstro!
Também aqui, como em Dexter, fomos manipulados a sentir empatia pelo pacato professor de liceu que tem cancro e só quer garantir uma vida confortável à família depois de morrer. Não imaginávamos, nos primeiros episódios, o que Heisenberg iria significar depois. Realisticamente, até se poderia conceber que Walter tenha sido um sociopata funcional a vida toda. Não sabemos, porque não vimos e se calhar não era nada de interessante para ver, mas há-os para aí muitos. Na sombra de Skyler, solar e controladora, até um Heisenberg em potencial podia passar perfeitamente despercebido. Não é implausível. 
Mas Walter White é um sociopata ficcional, tal como Dexter, e a ficção manipulou-nos. Desde o episódio em que o pacato professor de química desata a lançar bombas de fósforo no quartel-general do drug lord lá do sítio, e Heisenberg se auto-inventa, sabemos que estamos na presença de um super-herói. Mais tarde, percebemos que é um anti-herói. Um dos melhores super-anti-heróis que a ficção já imaginou! Este é o homem que sabe fazer veneno indetectável, mas também consegue detonar bombas à distância, e este é o homem que raramente precisa de matar com as próprias mãos porque consegue manipular alguém para o fazer por ele. Heisenberg é um dos personagens mais perigosos que já apareceram na ficção! Ainda mais perigoso porque ninguém desconfia dele, e ele sabe disso. Neste aspecto, recorda-me o mítico Keyser Söze de "Os Suspeitos do Costume" (os autores da série só foram buscar aos melhores), mas Heisenberg existe mesmo, em carne e osso.
Mas somos manipulados. Até ao fim, somos manipulados. Queremos sentir empatia pelo homem que tosse e que encara a morte de frente com coragem, queremos acreditar que é um homem desesperado que só quer deixar dinheiro à família. Queremos sentir empatia mesmo quando já sabemos que ele não sentiria empatia por nós, que sem pensar duas vezes nos metia também num barril cor-de-rosa. Queremos acreditar que é um homem desesperado mesmo quando temos à frente todas as provas em contrário, queremos acreditar que naquelas circunstâncias todos nós faríamos o que ele faz, que na face da morte há um Walter White à espera de despertar em cada um de nós, mas sabemos que não. Porque o homem é um monstro, mas nós não somos, e só conseguimos amar um monstro quando fechamos os olhos à sua monstruosidade. E é assim que Breaking Bad nos manipula, do primeiro ao último episódio, e encantados na canção do bandido deixamo-nos convencer.


 Obrigada, Dean do Sobrenatural




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quinta-feira, junho 30, 2016

40 anos de gótico em menos de 4 minutos

Imperdível!
Alguns exemplos do mais extremo que apareceu na moda gótica feminina nos últimos 40 anos.



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terça-feira, abril 26, 2016

“Christ The Lord Out Of Egypt”, de Anne Rice


Christ The Lord Out Of Egypt é uma novela de ficção de Anne Rice em que esta descreve os primeiros anos de Jesus, na primeira pessoa. Isto é, o próprio Jesus nos conta o relato intimista do período entre os seus 7 anos, idade em que voltou do Egipto para Nazaré, e durante o espaço do ano seguinte, até à visita ao Templo de Jerusalém onde, diz a Bíblia, Jesus teria ficado a discutir a Lei com os maiores sábios entre os Rabis.
Na verdade, a Bíblia não diz mais do que isto sobre a criança Jesus. Sabemos que após a matança dos inocentes Maria e José, avisados por um anjo num sonho de José, fugiram com o menino para o Egipto, de onde só regressaram após a morte do rei Herodes. Sabemos que Jesus aprendeu o ofício de carpinteiro, como José. Sabemos que a família visitou o Templo em Jerusalém onde Jesus ficou para trás, a debater com os Rabis do Templo, e quando a família, já desesperada, finalmente o encontrou, Jesus terá dito: "Porque me procuram? Não sabem que estive na casa do meu Pai?"
Anne Rice baseou-se também em evangelhos apócrifos, e inclui uma extensa nota em que descreve o grande trabalho de pesquisa que fez sobre a época e os trabalhos académicos e religiosos que consultou sobre a vida de Jesus enquanto criança. Para os não-crentes, este livro servirá, no mínimo, para acompanhar a vida de um rapazinho e sua família nessa altura conturbada da Palestina.
Eu sou crente (gosto de dizer que tento ser Cristã, e que "tento ser" porque ser Cristão é muito difícil) e quando ouvi dizer que Anne Rice ia pôr de lado os vampiros para se dedicar a escrever a vida de Cristo, que estava "farta de escuridão e queria escrever sobre a luz", até estremeci de medo. Demorei muito tempo a preparar-me psicologicamente para o que ia ler, se bem conheço Anne Rice, temendo encontrar nestas páginas os envolvimentos românticos e controversos entre Jesus e Maria Madalena, entre Jesus e João (o apóstolo), entre Jesus e Judas... Se bem conheço Anne Rice.
Foi uma agradável surpresa que este primeiro livro da série tenha sido completamente inocente de tudo isto que imaginei. Mas polémico o suficiente, como teria sempre de ser polémica uma qualquer interpretação da vida de Jesus, criança ou adulto.
A polémica começa logo na primeira frase. Jesus fala na primeira pessoa e diz-nos que naquela idade, aos 7 anos, "what did I know?". E aqui começa a controvérsia. Anne Rice apresenta-nos um menino completamente alheio à sua natureza divina. O que não é de somenos importância, porque o debate sobre a divindade do Cristo é um assunto muito sério entre os teólogos. Este menino Jesus que Anne Rice nos apresenta não é divino, na minha opinião, mas humano, completamente humano. Sentimos por ele a empatia que podemos sentir por qualquer outra criança na situação de tentar perceber os eventos trágicos que rodearam o seu nascimento, os segredos que a família prefere guardar dele, os seus esforços, finalmente recompensados, de encontrar respostas e compreender quem é.
Jesus não tem qualquer intuição de quem é. Intrigam-no os milagres que realiza, as curas, as ressurreições, os milagres menores como pedir que deixe de chover e a chuva lhe obedecer. Intriga-o que da sua família não encontre nenhuma explicação, que mais perplexos do que ele Maria e José o aconselhem a guardar em segredo o seu poder e a não falar dele a ninguém. Jesus é uma criança muito confusa. Em certas passagens, Jesus é um menino aterrorizado pela guerra que atravessa Israel na sequência da morte do rei Herodes. Não era esta a minha ideia de Jesus, nem em criança, mas a representação de Anne Rice parece-me razoável. (Mesmo assim, não sei se concordo. Não era assim que via Jesus e não será assim que passarei a vê-lo.) Mas reconheci Jesus em certas passagens. Quando chegam a Nazaré, e alheio aos horrores da guerra à sua volta o menino sente uma paz que transcende todo o pensamento: a paz de Cristo. Quando no regresso ao Templo Jesus deseja tanto entrar no Santo dos Santos, onde Jeová está presente, que os pensamentos o transportam até lá, numa viagem transcendental muito à maneira oriental, para lá do pátio, para lá do véu, para lá do Santo dos Santos, e ainda mais além, até Deus. Sem saber, sem imaginar, que naquele momento nada de existe de mais divino naquele Templo do que a sua pessoa, e que o Templo, que o Jesus-criança admira e acha tão glorioso, e que o Santo dos Santos, nada são perante o Rei dos Céus que se senta à direita do Pai. Como é que Jesus poderia não o saber, não o intuir? Como poderia faltar-lhe algo da omnisciência divina que vem do Pai? O Jesus-criança de Anne Rice é acima de tudo humano, um Jesus-humano que faz milagres sem querer, por quem todos nos podemos enternecer, mas Anne Rice deve saber (por muito bem intencionada, como eu completamente acredito que o estivesse, porque se sente na obra uma humildade e uma espiritualidade de quem acredita no que está a dizer) que esta não é uma interpretação livre de controvérsia.
Outro problema que encontrei nesta obra é a personagem de Maria. José é exactamente o que eu esperava dele, sem tirar nem pôr. Anne Rice preferiu enveredar pela tradição católica de Maria sempre virgem, indicando que o casamento com José nunca foi consumado, nem antes de Jesus nem depois de Jesus, e que os irmãos de Jesus, de que fala a Bíblia, são irmãos adoptivos, um deles do primeiro casamento de José e alguns outros primos órfãos que sendo criados por Maria podiam mais tarde ter sido chamados de irmãos de Jesus. Em suma, Maria, puríssima, nunca conheceu carnalidade. Ora... (Não, nem vou por aí.) O que direi de Maria, sem perceber se Anne Rice fez isto de propósito ou não, é que me parece uma jovem mulher à beira de um ataque de nervos. É certo que ela dá o consentimento ao anjo "Faça-se em mim conforme a vontade do Senhor", mas tudo o resto me dá a entender que Maria tem um calado rancor ao que lhe aconteceu, ao que lhe estragou a reputação e a vida, ao que lhe estragou o casamento. Tenho a sensação, à medida que vou lendo, que a qualquer momento Maria vai agarrar os cabelos e desatar a gritar histericamente. Não vejo nela, nada de nada, a Maria Sereníssima. Sinceramente, até tive pena da personagem. Não sabemos, da Bíblia, quem era Maria na intimidade, mas sempre a imaginei alguém profundamente religioso, uma jovem tão devotada a Deus que foi por isso a escolhida, a abençoada entre as mulheres, o que na Idade Média se chamava uma "mística", uma santa, com visões e tudo. A Maria de Anne Rice também não percebe muito bem o que lhe aconteceu. E a minha sensação, errada ou não, é de que não gosta do que lhe aconteceu.
Outro aspecto digno de nota, pela sua possibilidade de polémica, é a família de Jesus. Não faço ideia de como era a espiritualidade dos judeus na época de Cristo, mas a família de Jesus, segundo o livro, era tão religiosa que nos nossos dias lhe chamaríamos fanática. Toda a vida daquela família, das orações da manhã às orações da noite, revolvia em torno das Escrituras, da Lei, da sinagoga. Seria fácil, para os críticos, atribuírem àquilo que hoje nos parece fanatismo as visões de anjos, a influência religiosa no pequeno Jesus, a sua inevitável conclusão de que é o Filho de Deus, o seu delírio religioso que o levaria à execução como Rei dos Judeus. Partidários desta opinião considerarão que os milagres foram alucinações ou pura e simplesmente não aconteceram.
Mas arriscando tudo isto, a própria Anne Rice diz, na nota de autora:
 "I wanted to write the life of Jesus Christ. I had known that years ago. But now I was ready. I was ready to do violence to my career. I wanted to write the book in the first person. Nothing else mattered. I consecrated the book to Christ. I consecrated myself and my work to Christ. I didn't know exactly how I was going to do it."
Mas fez, e explica porque o fez, quase como numa necessidade, digo eu, de proclamar desta forma o evangelho, o que é um dever de todos os cristãos, da maneira que ela sabe fazer melhor, pela escrita.
Não sei, não faço ideia, se a leitura deste livro terá alguma influência nos não-crentes. Em mim, teve apenas a influência que aqui exponho, o confronto entre as minhas próprias ideias sobre a Sagrada Família e a interpretação de Anne Rice, mas a minha opinião quase não conta porque Anne Rice, no meu caso, está a pregar para o coro (eu já estou convertida). Não aconselho este livro aos leitores do trabalho mais bem conhecido de Anne Rice, as Vampires Chronicles, se acharam que os momentos religiosos não tinham ali razão de ser. Não aconselho a quem leu Memnoch e não gostou por achar o livro demasiado religioso. Christ The Lord Out Of Egypt é religioso e quem não estiver interessado em religião não poderá, acho eu, suportar as cerca de 120 páginas a contar a vida da criança-Jesus. Posso estar enganada, mas não me parece. Aconselho exactamente aos outros, aos que leram Memnoch e gostaram, aos crentes, aos que se interessam por religião.
Por falar em Memnoch, e como não podia deixar de ser, digo eu que conheço Anne Rice, um dos episódios mais empolgantes do livro é quando Jesus tem um sonho perturbador com um ser lindíssimo e alado que lhe coloca questões a que o próprio Jesus não sabe responder. O ser alado também não sabe quem ele é, o que demonstra o grau de afastamento entre Lúcifer e os planos divinos. Pois, claro, este ser alado é Lúcifer, e basta ele aparecer para reconhecermos o melhor de Anne Rice em todo o seu esplendor. Anne Rice escreve melhor sobre a escuridão. Nada a fazer.
Mas não sei se esta obra é exactamente o que ela disse, uma "obra sobre a Luz". Eu achei-a algo triste e até abaladora, aqui e ali. E pensei, quando vi o reduzido tamanho do livro, que era pequeno. Mas o conteúdo, estranhamente, tão intenso e tão profundo, torna-o grande, imenso. Fiquei convencida, e tenciono ler os livros seguintes desta série apesar de todas as minhas reservas quanto à interpretação pessoal da autora.




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sábado, abril 16, 2016

Ajuda e partilha

Preciso de ajuda com um projecto literário. Nem sei porque é que não me lembrei disto mais cedo, dizê-lo aqui, neste blog que já me deu tantas alegrias. Talvez só agora tenha chegado a esse ponto de cansaço (ou desespero).
Há alguns anos que ando a escrever uma história e sinto que perco demasiado tempo a fazer tudo sozinha. A escrita, a revisão, a espera até conseguir o suficiente distanciamento para nova leitura e nova revisão. Seria tão útil ter um par de olhos, isentos e frescos, que me apontassem o que muitas vezes me demora anos a ver. Desde gralhas a sobressaltos na transição de um parágrafo para outro, a proximidade do autor cega-o ao que salta à vista a um leitor experiente.
Então, a minha tentativa de não ter de fazer tudo sozinha. O meu pedido de ajuda.
Procuro pessoa, ou pessoas, que queiram ajudar. Pessoas que gostem de ler, que sejam leitores ávidos e de mente aberta, que saibam oferecer uma opinião fundamentada e uma crítica construtiva. Até preferia, não sendo essencial, que fosse pessoa ou pessoas que também escrevam, que saibam do que falo, que levem a escrita a sério, que queiram ajudar e ser ajudadas, que gostem de opiniões fundamentadas e críticas construtivas. Alguém a quem perguntar o que acha desta ou daquela frase, deste ou daquele parágrafo, deste ou daquele adjectivo. Uma partilha que ajudasse mutuamente em projectos presentes e futuros. Ou uma troca de ideias entre autor e leitor, frutífera e positiva.
Quem tiver essa disponibilidade e interesse, escreva-me para blog.gotika@gmail.com .
E tu aí, que estás a ler a isto, e que conheces alguém que te está sempre a azucrinar e a pedir que lhe dês opiniões sobre o que escreve, e tu que não gostas de dar opiniões, mostra-lhe este post.
Agora fica nas mãos do destino.

Deixo-vos com um excerto do que ando a escrever. Não uma das partes de que gosto mais, pelo contrário. É precisamente um excerto que me tem dado problemas. Um daqueles excertos para os quais preciso de olhos isentos e frescos que me digam de sua justiça. Este fica já aqui, aberto a considerações.




Eric tencionava um dia ir visitar a sua prima, mas não o fizera ainda porque os seus domínios eram de difícil acesso, numa região montanhosa e rodeada de cerrada floresta, longe de tudo, e o conflito não o levara nessa direcção. Ademais, nunca as gentes das Terras Verdes tinham levantado armas contra ele, apesar de serem, oficialmente, inimigos, pelo menos desde que os seus tios tinham conspirado para matar o rei. Aquela era uma situação que, de tão nebulosa, o próprio Eric fazia questão de adiar para depois da guerra, quando vencesse e se vencesse.
Um pouco antes de raiar a madrugada da grande batalha em que se percebeu que desta vez o exército do jovem rei ia enfrentar uma aliança de inimigos, tão numerosos que o próprio Ian se mostrava apreensivo, não obstante por essa altura já ter granjeado a alcunha de o Valente, os sentinelas trouxeram a notícia de um grupo de duas centenas de homens armados que se encaminhavam do norte naquele sentido, empunhando o estandarte do Unicórnio e declarando ter vindo combater nas suas fileiras.
Eric não os viu chegar, porque era ainda noite escura, mas quando alguns cavaleiros se aproximaram da luz das tochas reconheceu a bandeira que traziam, e impressionou-o a soberba com que apresentavam, direitos e orgulhosos nas suas montadas como se desprezassem o perigo para onde se dirigiam. E irritou-o, o imaculado fulgor daquelas armaduras brilhantes, quando o seu exército espelhava o desgaste enlameado e exausto de muitas batalhas.
– Não sabia que restava ainda um homem nobre capaz de montar a cavalo nas Terras Verdes! – exclamou, incapaz de conter-se nessa hostilidade, como se perguntasse ao líder quem era e porque tinha demorado tanto se tencionava lutar do seu lado. Mas os homens permaneceram em silêncio, e um cavaleiro mais pequeno, que todos julgaram um jovem rapaz, avançou enfim por entre a barreira de guardiões que pareciam assim colocados de propósito para o proteger.
– Tens razão. Não resta um homem nobre capaz de montar a cavalo. O meu pai sofre de paralisia. Quem aqui está sou eu, Hildegaard, a tua prima. – disse ela, e levantou a viseira do seu elmo, descobrindo os olhos verdes. Eric deixou cair o queixo. Um silêncio abismado calou as bocas de todos os presentes, e não era para menos. Hildegaard vinha pronta para lutar, de armadura e espada e arco e flechas a tiracolo. – Fomos atacados. Os nossos inimigos estão naquele exército. É por isso que lutaremos neste.
– Bruxa! É uma bruxa! – gritou um padre, um daqueles que acompanhavam sempre os exércitos para confessar os homens antes de cada batalha e dar-lhes a extrema unção em caso disso, erguendo um grande crucifixo perante ela. Hildegaard não pareceu estranhar a recepção mas não escondeu a raiva que tais palavras lhe causavam. – Ide de volta para os infernos! Não queremos aqui bruxas e demónios a lançar sobre as nossas cabeças a ira de Deus!
– Cala-te, desgraçado! – exclamou então Malkom, furioso, e com os seus cabelos cor de palha a esvoaçar cavalgou até ele e arrancou-lhe o crucifixo da mão. Por momentos pareceu a todos que ponderava seriamente bater com ele na careca do padre, mas em vez disso atirou-o para longe, como se temesse ceder a essa forte tentação. – A minha ira é que vai cair sobre a tua cabeça! Estamos em menor número e todos os que quiserem lutar são bem vindos, venha até o próprio Satã e todos os demónios do inferno! Mulheres, bruxas, padres! E se não vais lutar não fazes cá falta nenhuma! Aconselho-te a fugir porque isto não vai ser bonito assim que o sol raiar e essa batina não me parece grande armadura!
A partir daí, Malkom ficou definitivamente apelidado de o Cínico. Quem o conhecia imaginava-o perfeitamente capaz de cumprir a promessa e dar as boas vindas ao diabo se este estivesse do seu lado… ou corrê-lo a pontapé se não estivesse. E naquele momento era aquele padre que ameaçava ofender os recém-chegados, bruxos ou não, que traziam cavalos e armaduras e espadas, e em tudo aparentavam ser guerreiros de valor, e tendo em conta o exército que os esperava do outro lado da colina não era tempo de ser esquisito.
O padre levantou as mãos ao céu, horrorizado, e fugiu daquele blasfemo. Ninguém o tornou a ver até à manhã seguinte. Hildegaard ficou bem impressionada, e os homens que a ladeavam, e que por momentos tinham parecido dispostos a começar a batalha logo ali, tiraram as mãos do punho das suas espadas.
Eric reparou nisso, e que a sua prima era a senhora incontestada daqueles súbditos, e tentou disfarçar a perplexidade. Aquela não era a menina simpática de que se recordava! Se calhar essa menina não tinha mesmo passado de um sonho… Reconheceu-a, mesmo assim, pelos olhos verdes e pelos cabelos louros que lhe escapavam, presos num rabo de cavalo, da parte de trás do seu elmo. De tão atordoado, mal conseguiu pronunciar uma palavra enquanto aquela rapariga de bizarros costumes e aparência arrapazada lhe explicava rapidamente o que sucedera nas suas terras. Eric quase não a ouvia. Pensava apenas que afinal sempre lhe restava uma familiar, e que não sabia sequer como agir perante ela. Pois se até o facto de se declarar sua aliada era uma tão grande surpresa!... Tinha uma imensidão de perguntas a pôr-lhe, mas não houve tempo.
Aos primeiros clarões da aurora um temível exército inimigo avançou pelo vale. Eram tão numerosos os adversários, a pé e a cavalo, que um silêncio ansioso se instalou entre os homens. Dizia-se que o exército do jovem rei, cujos guerreiros lutavam por convicção, não obstante menor em proporção valia três vezes o seu número. Era agora que se provaria se mereciam a fama que tinham conquistado. As perspectivas eram sombrias, mas não havia ali ninguém que não estivesse preparado para o perigo que defrontavam e valentemente todos tomaram as suas posições. Só então Eric percebeu que a sua prima lançava mão das suas armas para se colocar entre os arqueiros.
– Não pensas mesmo ir combater, pois não?... – interpelou-a, com tal aflição que naquele momento, se houvesse tempo para tal, a teria amarrado de pés e mãos se preciso fosse. Hildegaard, contudo, não era mulher que se amarrasse.
– São aqueles os homens que atacaram o meu castelo? – perguntou apenas, apontando com o queixo os nobres que ao longe se alinhavam atrás das suas tropas, e Eric compreendeu que nada se interporia entre ela e a vingança. – Não deviam tê-lo feito.
Isto dito, Hildegaard juntou-se aos arqueiros e ergueu o arco ao lado deles. A partir daí, no iminente início da batalha, Eric não teve outro remédio senão aceitar que estavam todos entregues à sua sorte e a única coisa que podia fazer para proteger a sua prima era vencer.
Não era só ele a pensar assim, pois ao ser dado o sinal para que a cavalaria avançasse foram os homens de Hildegaard os primeiros a investir, e tão destemidamente o fizeram, apesar do seu pequeno número, que abriram uma clareira entre o exército inimigo. Eric meditou, ao vê-los irromper daquela maneira, que devia ter sido com tal ímpeto que a mão divina partira o mar em dois. Cavalos e cavaleiros pareciam imunes, envoltos na nuvem de poeira que levantavam atrás de si, e inspiravam todos os outros que os seguiam. Ninguém ali presente jamais esqueceria a coragem dos guerreiros das Terras Verdes.
Tinha começado uma batalha longa e sangrenta. Muito mais longa do que esperavam os adversários, que se odiavam entre si, aliados somente no propósito de reunir o número bastante que abatesse de vez o jovem rei e o seu exército. E o número teve o seu peso, e as suas consequências. Naquele dia o exército do rei provou que nenhum dos seus homens se deixaria cair sem levar consigo o triplo da sua vida. Teria sido uma batalha ainda mais sangrenta não fossem as incontáveis deserções do outro lado assim que se percebeu qual era a parte mais inabalável. Mas demorou tempo, e sangue e sacrifício. No pior caos do combate, Eric perdeu de vista a sua prima, e os seus amigos, e os capitães das suas tropas. Muitos que lhe eram próximos pereceram, entre eles o nobre que tinha sido inimigo e se tornara aliado. Mas ninguém parava de lutar, e cada morte era repetidamente vingada, e os grandes números vacilaram. Confundidos pela inesperada reviravolta, quando contavam com um triunfo esmagador, os oponentes decidiram bater em retirada.
Alguns capitães queriam persegui-los mas Eric impediu-os. Ainda eram em maior número e os homens estavam demasiado cansados, e a vitória final já não lhes escapava se apenas se poupassem até ao momento certo. Aquela tinha sido uma vitória decisiva, uma vitória que instalara medo no coração dos inimigos e que os quebraria da próxima vez que se confrontassem. Por agora deviam parar, e tomar fôlego e preparar-se para ganhar a guerra. Tinha-lhe parecido tão longe, e agora estava tão perto! Tão perto que se quase se podia estender a mão e agarrá-lo!

in "Elysion"


As opiniões são bem vindas.




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sábado, março 26, 2016

Battlestar Galactica (série TV)

Recentemente, fui engodada a ver a mini-série de 2003 e meia dúzia de episódios da primeira temporada da série de 2004 de Battlestar Galactica quando começaram a repetir no SyFy. Acho que esta série já passou entretanto num canal generalista (ou teria sido o Star Trek Nova Geração?) mas não vi nem quis ver. E ai de mim, porque é que eu me pus a ver isto?! Ainda há pouco tempo o disse aqui, até estremeço quando sei que vão fazer um remake de um filme ou série de sucesso. Não é que a série seja má (até porque temos de ter em conta que já é uma série com 12 anos!) mas o que eles fizeram ao original!!! Vi dois episódios e foi o que bastou para começar a torcer pelos Cylons! Sim, eu torço pelos Cylons!

Porque é que sempre que olho para esta imagem tenho a percepção de que se prepara ali uma orgia?...

Battlestar Galactica era simplesmente a minha série preferida em miúda. Refiro-me à série de 1978, que só passou aqui no início dos anos 80. Eu tinha uns 10, 11 anos. Ainda nem tinha uma televisão a cores! Ia a correr para casa da minha avó, depois da escola, aos sábados, porque ela tinha televisão a cores, só para ver a Galactica! Eu era FANÁTICA pela Galactica! Coleccionava todas as imagens que apanhava na TV Guia e nos jornais para o meu livro de recortes! Passava a semana na expectativa de ver a Galactica! Por isso não me venham cá com tretas, se alguém merecia uma Battlestar Galactica para adultos, era eu! Porque, convenhamos, a série original era para crianças. Reparem bem no requinte retro deste poster:

"Battlestar Galactica", 1978

E não me estou a queixar da surpresa de que Starbuck, nesta nova série, é uma mulher. É o que me rala menos. Mas outras pessoas poderão ainda suspirar por estes senhores:

Dirk Benedict "Starbuck" e Richard Hatch "Apollo" em "Battlestar Galactica", 1978

Todas as miúdas da escola tinham uma paixoneta assolapada pelo Starbuck! Mas eu não. Eu era a excepção. Eu gostava do Apollo, que era bonzinho, "certinho e direitinho" e bem comportado. Era a única miúda que gostava do Apollo! Sempre achei o Starbuck um gajo irresponsável, mulherengo, que passava as noites em bares a fumar e beber, um gajo com quem não se podia contar emocionalmente. A minha inclinação era toda para o outro, o responsável, o que casou com a Jane Seymour (a viúva "Serina") e adoptou o puto dela. Era um homem assim que eu queria para a minha vida, o meu ideal, porque eu também queria ser certinha direitinha, e era!, mas depois a vida trocou-me as voltas e transformou-me... num Starbuck! E como para doidivanas irresponsável só basta um, está tudo muito bem como está. As voltas que a vida dá!
De regresso à nova série. Passado o choque, até gostei de ver esta Starbuck no feminino! Possivelmente a melhor personagem desta versão de Batttlestar Galactica.
Porque os outros!... Ó deuses de Kobol, que gentinha mais má! Em todos os episódios que vi, até parece que há uma competição entre eles para ver quem consegue matar mais civis! "Estás com pena de ti própria porque mataste uma mulher e uma criança à frente do marido e do pai numa nave civil para lhes confiscares todos os recursos? Isso não é nada! Ainda ontem tive de explodir uma nave civil com umas 1500 pessoas a bordo só porque se desconfiava, nem se tinha a certeza, de que estava comprometida por Cylons! Por isso toca a levantar e seguir em frente e matar mais civis, muito mais civis!" E é isso que eles fazem. Aqueles militares hão-de conseguir dizimar a população civil mais depressa do que os Cylons! E agora já se percebe porque é que os Cylons se revoltaram! Eu também me revoltava!
Odeio, simplesmente odeio, aquela gente toda! Que os deuses de Kobol façam chover um dilúvio dentro daquela nave e que se afundem no espaço! Que os deuses de Kobol nunca permitam que aquela gente encontre a Terra! Que os deuses de Kobol os façam andar perdidos pelo espaço durante 40 anos e que no fim sejam engolidos por um buraco negro! Porque aquela gente era capaz de explodir a Terra sem provas nem certezas, bastava que alguém lhes dissesse que temos cá Cylons, e bum! Ó deuses de Kobol, protegei-nos desta gente! 

Quando ele é ela
O que me dói mais, porque as paixonetas da puberdade são muito a sério e doem, o que me dói mais, é que aquele impostor que se faz passar por Capitão Apollo não é nada o Apollo que eu conheci! Não é, não é, não é! Ela, a Starbuck, está fiel ao original, mas ele, que decepção! O meu Apollo nunca pediria ao Starbuck que ficasse para trás numa missão e se explodisse a si próprio com uma bomba nuclear! O meu Apollo não faria isso! Mais provável, o meu Starbuck ficava para trás contra a vontade do meu Apollo, e sem este saber, para ser um herói e poupar a vida ao amigo. Porque o meu Starbuck era assim. E este não é, não é, não é, este não é o meu Apollo!
Vou continuar a ver a série por puro e simples hate waching. Para quem não está familiarizado com o termo, significa isso mesmo, ver uma série só para odiar. É quase tão bom quanto ver uma série de que se gosta e foi assim que vi todos os episódios de "Under the Dome", que era tão mau que até me fazia rir de tão mau!
Que mais há a dizer de "Battlestar Galactica" 2.0? Adorava, adorava!, que a Starbuck fosse uma Cylon! Porque de toda aquela gente ela é única que parece minimamente humana, logo, deve ser uma máquina. (Ou todos eles são máquinas e ainda não sabem.) Honra lhes seja feita, é a única personagem imediatamente reconhecível da série original:



Quem diria, tantos anos depois, que um dia ainda ia ter uma paixoneta pelo outro, neste caso, pela outra! Cylon ou não, fofa, vem jogar comigo, e traz o charuto! Sem compromisso.


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quinta-feira, março 10, 2016

The X-Files, versão 2016: Eu não quero acreditar!

 

Eu não quero acreditar que foram exumar o cadáver dos Ficheiros Secretos ao altar incensado onde repousava em paz e sossego para toda a eternidade dos séculos e séculos... para isto!
Deixem-me dizer-vos: fui uma grande fã da série e nunca perdi um único episódio! E nem sequer me considero uma das maiores fãs da série. Havia fanáticos, na altura, que assobiavam o tema dos X-Files, fanáticos que usavam boné dos X-Files! Nunca fui dessas fanáticas, mas nunca perdi um episódio. Tive pelo menos duas bandas sonoras da série e do filme, em CD!, que ainda ouço hoje em dia. A minha experiência com os Ficheiros Secretos foi sentida e visceral, consumida com avidez cerebral e emocional, e por fim integrada nos arquivos do inconsciente activo onde sempre permanecerá como a memória difusa e vaga de algo que marcou e que passou.
Dentro deste tipo de ficção (sobrenatural, horror, fantástico) esta foi simplesmente a série mais importante dos anos 90, uma série que influenciou tudo o que vimos depois, desde "Lost" a "Sobrenatural", desde "Fringe" ao recente "iZombie", e a toda a miríade de séries e filmes, mais ou menos sérios, que despontaram das raízes de conteúdo, estilo e narrativa que "The X-Files" lançou. Mais ou menos subtil, a influência ramificou-se e nunca mais nada seria mesmo.
O primeiro filme ("The X-Files: Fight the Future", 1998) foi bom e no espírito da série. O segundo filme ("The X Files: I Want to Believe", 2008) estragou tudo. Como muitos outros fãs, senti-me defraudada e ludibriada em tudo o que me tinha sido dado a entender dos universos de Mulder e Scully, e não houve nada que me tenha irritado mais do que a revelação de que Mulder e Scully tiveram um filho, e que o tiveram por meios absolutamente naturais (afinal, tinham uma espécie de caso que "nós" nunca vimos), quando tudo na série nos levou a pensar que aquela gravidez era alienígena, e muito mais interessante que o fosse! O segundo filme, assim, abriu um problema muito maior: por que raio é que Scully deu o miúdo para adopção?! Mesmo que fosse um miúdo meio-alien, que raio de solução era essa?! E o Mulder, afinal, o pai biológico, não tinha nada a dizer sobre o assunto? Na minha opinião, grande asneirada da parte do filme.
Gozei aqui com o filme de 2008, e preferi esquecer que alguma vez tinha visto aquilo. O affair, a gravidez normal, a adopção. Nada daquilo fazia sentido. Melhor recordar a grandiosidade dos X-Files quando eram a vanguarda do género.

(Para quem se preocupa com o puto, esta mini-série continua a telenovela. Agora eles estão arrependidos de terem dado o puto para adopção e sentam-se de mão dada a pensar onde ele está. Como se não fossem o Mulder e a Scully, que até extraterrestres encontram se quiserem!... Vão lá procurar os puto e deixem-se de lamúrias, vocês dois!)

Até tremi quando ouvi rumores de que iam fazer uma mini-série. Esta mini-série, de que tratamos aqui. Sinto sempre estes tremores, este frio na barriga, quando me dizem que vão ressuscitar uma grande série ou fazer um remake de um grande filme. Soa-me sempre a vil metal, e a ideia de Chris Carter estar metido nisto ainda me aborreceu mais. Mas, no reverso da moeda, Chris Carter, metido nisto, foi motivo mais do que suficiente para dar o benefício da dúvida. Assim, dei.
E não quero acreditar no que vi! Sei que não estou a avisar os verdadeiros fãs dos X-Files porque esses, como eu, já viram obsessivamente estes seis novos episódios de 2016. Se tivesse de os avisar previamente, diria apenas: "preparem-se, porque é muito mau!" 
Porque é que é mau? Porque só uma grande história, um grande motivo, um grande enredo, justificaria arrancar esta série mítica do túmulo. É verdade que os zombies estão na moda, mas não era preciso fazer regressar os X-Files em versão zombie: ultrapassada, sem ideias, sem interesse, um cadáver que devia ter ficado em repouso. Só a grandeza justificaria o regresso dos X-Files, não esta paródia (?) sem sentido a que assistimos.
Não vou criticar o trabalho de Duchovny e Anderson, mas nem eles me convenceram. Como se nem eles estivessem grandemente convencidos do que estavam a fazer. Li por aí que ele parecia o mesmo personagem de "Californication" mas não posso comentar porque não vi. O que me parece, sem dúvida, é que Anderson ainda não tinha tirado a pele da Bedelia du Maurier de "Hannibal". Não acredito naquela Scully sofisticada, de saia travada e cheia de maquilhagem. O estilo da Scully era clean. Isto, para quem não sabe, significava, nos anos 90, maquilhagem que mal se notava. Não acredito nesta Scully que de repente tem medo do passar dos anos. Não é a minha Scully.
Mas voltemos ao enredo.
No primeiro episódio, contra tudo o que sabemos, Mulder decide deixar de acreditar numa conspiração alienígena! Depois de tudo o que ele viu, decide fingir que não viu nada?... Não se percebe nem é nada típico de Mulder. O Cigarette Smoking Man (que afinal não morreu) regressa ainda mais malévolo, ainda mais repulsivo, e ainda e sempre viciado. Uma das melhores ideias desta mini-série. Não podiam ser X-Files sem o Cigarette Smoking Man.

Não, isto não é a minha raiva à mini-série. Isto é o Mulder a pisar o poster dos X-Files! Não dá mesmo para acreditar!

No segundo episódio, o FBI reabre os Ficheiros Secretos e Mulder e Scully voltam a trabalhar juntos, também não se percebe muito bem porquê.
No terceiro episódio... Bem, o terceiro episódio foi engraçado. Uma paródia, mas engraçado. Gostei do Lagartomem, uma espécie de réptil que foi mordido por um homem e todas as luas cheias se transformava em ser humano. A experiência é bastante traumatizante para o pobre Lagartomem que só queria voltar a ser lagarto, o que é compreensível.
No quarto episódio... Não sei. Desliguei. Isto é, continuei a ver, mas, como naqueles episódios realmente interessantes dos Ficheiros Secretos como os conhecíamos, aconteceu-me um raro fenómeno de dissociação televisiva em que continuei a ver sem ver nada. Fui abduzida. O corpo ficou na cadeira em frente à televisão mas a mente já não estava lá. Só voltei a mim no último episódio, quando em matéria de 15 minutos acontece uma catástrofe pouco convincente (que não revelarei) e vi cenas de carros parados na auto-estrada e toda a gente a tentar fugir ao mesmo tempo sem conseguir ir a lado nenhum. Acordei, porque de repente julguei que estava a ver "The Walking Dead". E pensei:
Definitivamente, se era para trazer de volta os Ficheiros Secretos tinha de ser em grande, tinha de ser épico, tinha de ser superior a tudo o que existe agora como em tempos foi superior a tudo o que havia na altura! Tinha que ser para tornar os Ficheiros Secretos novamente na série preferida dos fãs, a série pela qual se anseia a semana toda, a série que provoca arrepios de antecipação e medo. Não era para fazer episódios a lembrar o "Sobrenatural", nem o "Fringe", nem o "Lost" (aquelas cenas fora da narrativa, de flashback, ou flashforward, ou sonho, ou fantasia, nem percebi) e muito menos a lembrar "The Walking Dead", e inferior! Tinha de ser superior, imensamente superior, ou mais valia não fazerem nada. Até o episódio do Lagartomem, que foi engraçado, não superou as melhores paródias de "Sobrenatural".
E para quê? Por nostalgia? Não. Por mais um punhado de dólares.

O que dizer mais quando o melhor episódio desta série de seis é uma paródia? É o melhor que podemos esperar dos novos Ficheiros Secretos? Comédia?

Não havia uma ideia suficientemente forte para trazer de volta os Ficheiros Secretos e pela estima que tenho à série original desejo sinceramente que a ressurreição fique por aqui. Entretanto, tenciono esquecer-me de tudo o que vi nestes episódios e não deixar que me poluam a recordação de uma das maiores séries de todos os tempos que foi The X-Files.


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domingo, março 06, 2016

Dark Matter (série TV)


Seis pessoas acordam numa nave espacial à deriva sem que tenham memória de quem são, de onde estão, de onde vêm e para onde vão. Não sabem se são a tripulação, não sabem sequer os seus nomes.
A premissa é suficientemente interessante mas, mal impressionada pela falta de qualidade do canal em geral (SyFy), não comecei a acompanhar imediatamente. Só apanhei a série na repetição, e fiquei agradavelmente surpreendida. Já aqui disse muitas vezes que não sou grande apreciadora de ficção científica, mas sei que a ficção científica tem servido, ao longo da existência do género e nos seus melhores exemplos, para criar obras de grande profundidade filosófica. Não estou a dizer que "Dark Matter" seja uma grande série do género, ou que a premissa seja original (na verdade não sei se é original ou não, não acompanho a produção de ficção científica o suficiente para poder afirmá-lo), mas fiquei agarradíssima desde o primeiro episódio! Parte por opção, parte devido ao baixo orçamento, é uma história que dá primazia às questões filosóficas e psicológicas em detrimento do aparato científico (que não existe, o que poderá desagradar aos fãs mais exigentes que querem ver efeitos especiais e criaturas de outros mundos, mas a mim não me incomoda nada).
A série vive do mistério e do suspense, principalmente do mistério, e para escrever esta crítica terei de fornecer mais elementos além da sinopse, mas acredito que não serão os suficientes para constituírem um spoiler significativo.
Voltemos, então, ao princípio. Seis pessoas (quatro homens, uma mulher e uma adolescente), acordam à deriva numa nave espacial sem saberem quem são e que fazem ali. Mal começam a perceber a sua situação quando um deles reanima uma andróide que encontra na nave, desconhecendo que esta está programada para matá-los. Conseguem travar e reprogramar a Andróide, mas esta reprogramação também lhe apaga a memória, colocando-a na mesma situação dos passageiros humanos. As únicas pistas que encontram são em vestígios de ficheiros apagados e corrompidos no computador central, que lhes confirmam que eles são de facto a tripulação da nave em que se encontram. Mais ainda, alguém, muito provavelmente um deles, utilizou um programa/vírus que apagou a memória a todos os outros e, talvez por erro, a sua própria.
Só este enredo bastava para um thriller de suspeita e tensão, em que todos os membros da tripulação se podiam acabar a matar uns aos outros. A série não foi por aí. Tudo isto aconteceu no primeiro episódio, quando de repente são atacados por um inimigo desconhecido, antes ainda de saberem quem são. O que os põe, imediatamente, e literalmente, no mesmo barco (nave). Os nossos passageiros amnésicos só têm tempo de respirar um pouco depois, quando entretanto a Andróide já tinha conseguido recuperar mais ficheiros apagados sobre as suas identidades. É o grande choque: quase todos são criminosos perigosos e procurados. Tirando a adolescente, todos eles são assassinos, ou assim dizem os ficheiros.
Tem sido uma das perguntas mais intrigantes da história da filosofia e da psicologia: a tábua rasa. Hoje sabemos que o ser humano não nasce uma "tábua rasa". No mínimo dos mínimos, o ser humano traz consigo uma herança genética. Ainda há muita controvérsia, no entanto, acerca de se o ser humano já nasce com uma personalidade ou se esta personalidade é moldada pela influência do meio. Da minha observação e experiência pessoais, sim, penso que o ser humano já nasce com uma "tendência de personalidade", por vezes até antagónica ao meio, mas há quem não acredite nisto, e, não sendo ético fazer experiências em seres humanos (desde bebés) de modo a prová-lo, o debate persiste.
O que esta série pergunta, neste momento crucial, é igualmente intrigante. Temos aqui cinco espécimes a quem é dito que são criminosos. Sem a memória de experiências passadas, sem a memória dos constrangimentos de infância e influências da adolescência, sem memórias da educação e dos princípios incutidos ao longo da vida, confrontados com a oportunidade de começar do zero, fazer tábua rasa, e mudar de vida, o que decidem fazer?
O que nos leva à pergunta mais intrigante, se não a mais importante de todas: o ser humano nasce inerentemente bom, ou inerentemente mau, ou as suas tendências morais dependem inteiramente da influência do meio?
A série parece defender a tese de que o ser humano nasce inerentemente bom, porque ao verem os ficheiros os nossos personagens reagem com perplexidade e choque, como se não pudessem ter ficado mais surpreendidos, se não mesmo ofendidos. Nenhum deles parece reconhecer-se nas acusações que lhes são imputadas. (Ou alguém ali finge muito bem!)


Mais tarde, têm a oportunidade de ajudar uns completos estranhos numa situação desesperada. É o primeiro teste. Virão à superfície as criaturas egoístas que alguém diz que são, ou reagirão com o altruísmo desinteressado que contradiz as acusações por que são procurados?
Certas escolas de pensamento defendem que ninguém nasce "mau", que é o meio que empurra o indivíduo para acções condenáveis. Um indivíduo neste momento de libertação, de "renascimento", um indivíduo que não se lembra do meio nem das experiências passadas, voltará ao seu estado inicial "bom", ou nada fará senão manifestar as mesmas más tendências que o conduziram onde terminou antes da perda de memória? Isto é muito interessante, e é a questão fulcral em "Dark Matter".
Um dos personagens destaca-se pelo seu egoísmo. Vou chamar-lhe o Egoísta (embora os personagens tenham sido "baptizados" pela ordem em que acordaram do hipersono: Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis, e a Andróide). Este é o Três, mas eu não gosto de chamar números às pessoas e Egoísta diz muito mais dele. Pois, a tripulação punha a hipótese de vender a nave e dividir o dinheiro por todos, mas a maioria opôs-se. O homem ficou irritado porque queria pôr-se dali para fora e depressa, e diz algo assim: "Mas temos de ficar juntos porquê?! Somos seis estranhos e um robô!" Era exactamente o que eu pensaria. Só a ideia de ficar fechada em qualquer lugar com cinco estranhos provoca-me um ataque de nervos. O Egoísta vai falar com o Samurai (Quatro), tão ou mais egoísta do que o Egoísta, na tentativa de obter apoio para a ideia de vender a nave, quando o Samurai lhe explica que também não tem interesse nenhum em ficar ali, com cinco estranhos e um robô, mas "ainda é muito cedo". O Samurai pretende ficar até conseguir descobrir mais sobre a sua identidade, e não vai deixar os outros enquanto acreditar que juntos têm mais hipóteses de perceber o que se passou. O que é razoável, e até o Egoísta concorda, mas pôs-me a pensar noutra dimensão existencial deste problema. Aquele instante, inicial, de liberdade do indivíduo, terminou no momento em que os personagens se confrontaram com o mundo. Independentemente de serem criminosos ou não, independentemente do que pensam das acusações que lhe são feitas, é aquilo que o mundo, aparentemente, pensa deles, que introduz consequências que imediatamente limitam a liberdade individual, e não durou muito o instante de libertação em que o indivíduo podia ser tudo o que desejava. O indivíduo, em contacto com a sociedade, apenas é livre interiormente. Não é livre da maneira como a sociedade o vê, justa ou injustamente, e a sociedade fatalmente cerceia a liberdade individual.
Então, porque é que as pessoas se juntam? Porque é que aturam a família, os colegas de escola, os colegas de trabalho, até alguns amigos de conveniência? Não, não é porque o ser humano é um animal gregário e gosta muito de companhia. Ficamos juntos porque precisamos uns dos outros. Para sobreviver. O ser humano é um animal gregário porque há força nos números, porque desde tempos primitivos era necessário uma tribo para caçar um mamute e proteger o território de outras tribos, e da mesma maneira ainda hoje nos submetemos a viver debaixo do mesmo tecto com famílias que detestamos, e frequentar escolas e cursos que abominamos, e ir trabalhar porque precisamos de um meio de sobrevivência. A liberdade total só existe em estado selvagem, na selva, que é possível mas dá muito trabalho.
Os nossos personagens continuam amnésicos e indefinidos, tendo ainda a liberdade individual de escolherem o futuro, mas o momento inicial de liberdade absoluta já tinha passado e agora forçosamente têm de resolver primeiro o passado, assim que o descobrirem.
É interessantíssimo assistir a como aquele grupo de estranhos começa imediatamente com os joguinhos que tornam a insuportável a coexistência humana: os segredinhos, os golpes de poder, a manipulação. Fantástico, e ainda antes de se conhecerem a si próprios muito menos uns aos outros! Só por isto já vale bem a pena ver e eu diverti-me imenso!
"Dark Matter" pode não ser uma série de excepcional qualidade (nem tem os meios para isso) mas está muito acima de outras séries medíocres que têm saído de origens mais respeitáveis: "Under the Dome", "Sleepy Hollow", "The Strain"...
Por falar em "The Strain", não podia ter tomado melhor decisão o actor Roger Cross ao deixar-se decapitar por Setrakian, porque o personagem dele não ia a lado nenhum (nem a série, convenhamos) quando o aguardava um melhor papel como Six em "Dark Matter". Até Natalie Brown, actriz que interpreta uma personagem principal em "The Strain" (é a mamã vampira), arranjou tempo para figurar como convidada especial num episódio de "Dark Matter", o que nos diz muito sobre o ritmo -a falta de ritmo- que "The Strain" impõe tanto aos actores como aos pobres espectadores. E quando comparamos o que em princípio nem devia ter comparação, "Dark Matter", pelo menos, consegue manter o suspense de um episódio para o seguinte. É daquelas séries que apetece ver toda de uma vez. Assistir a "The Strain", pelo contrário, já se tornou um castigo masoquista.

Não é mau, mas podia ser melhor, mas não é mau
A série acabou com um choque! Um choque tão mal explicado e imprevisto que foi um alívio saber que renovaram para uma nova temporada. Podia ter acabado assim, e os espectadores podiam ter ficado para sempre a tecer explicações e conjecturas, mas quem é que quer isso? Por outro lado, eu talvez preferisse que a série tivesse resolvido a história nos 13 episódios, e terminasse ali. Notou-se, nesta primeira temporada, que houve muito "encher de chouriços", embora efectivamente bem justificados e disfarçados nos episódios em que foi necessário desenvolver os personagens de quem não sabíamos nada (nem eles deles próprios!). Receio, por isso, que a segunda temporada se torne ainda mais arrastada, que tem sido um mal generalizado a certas séries que começam com uma boa ideia e que depois se põem a fazer render o peixe enquanto houver audiência, o que transforma a boa ideia numa seca insuportável.
Terminada, então, esta primeira temporada, posso dizer que ficou abaixo das minhas expectativas. Tudo aqui indicava um drama psicológico e filosófico (e podia tê-lo sido, ao nível das melhores obras do género), mas demasiadas vezes a série enveredou por cenas de acção "rambóides" (até zombies isto meteu!) que só serviram para baixar o nível. Pode ser uma opinião, mas é a minha. Já não me queixo, todavia, do sentido de humor desta série. Muitas das piadas são subtis ou acontecem quando menos se espera. Uma das minhas preferidas, por exemplo, quando um dos personagens diz a outro: "A raiva não adianta". E o outro pergunta: "Estás a falar comigo?" E o primeiro responde: "Não. Estou a falar com o banco passivo-agressivo vazio a teu lado." Não é toda a gente que percebe estas piadas, e eu gosto disso. Existe inteligência por trás desta série, por muito que mascarada pelas necessidade de acção que entretenha a audiência menos... intelectual.
Por fim, o  que não será exactamente um spoiler porque nunca passou de uma conjectura minha, sempre pensei que o título "Dark Matter" significava que eles teriam perdido a memória ao passarem inadvertidamente por um qualquer campo "magnético" (ou afins) ainda desconhecido da ciência que tivesse esse efeito no cérebro humano. Afinal não era nada disso, e parece que o próprio título "Dark Matter" é simbólico e se refere à obscuridade em que ainda não sabemos muito sobre o cérebro, nem sobre o que nele guarda a memória ou a identidade, aquilo a que se chama alma. Como diz um dos personagens: "Compreendo que alguns de nós foram conduzidos a isto devido às circunstâncias, mas há pessoas que já nascem más e nunca mudarão." E como diz outro personagem: "No fim, acabamos sempre por ser quem somos". Quem discordar que argumente.
"Dark Matter" tenta demonstrar isso mesmo, como da amnésia cada um dos personagens regressa à sua essência, seja ela qual for, boa ou má ou nem uma nem outra. Não é uma série excepcional, mas consegue prender-nos de episódio para episódio e eu estou em pulgas pela segunda temporada. Em termos de narrativa baseada no mistério e no suspense, é o mínimo que se pode pedir e recomendo.
Um último destaque, muito especial, para a cena inicial do primeiro episódio da série. Se ainda não viram, reparem. Se já viram e não repararam, observem outra vez. A nave à deriva no espaço, completamente apagada, sem qualquer sinal de vida, transmite vibrações de Nostromo, numa homenagem a "Aliens". Homenagem que não é única, a "Aliens" e a outras obras míticas da ficção científica, mas esta primeira cena em especial promete-nos que não vamos assistir a uma série qualquer. Podia ser melhor? Podia ser muito melhor, mas funciona.


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quarta-feira, dezembro 09, 2015

“Dexter” (série TV)


Nunca pensei vir a fazer uma crítica sobre Dexter. A verdade é que perdi o interesse na série algures durante a temporada 2 ou 3, e embora tenha continuado a ver (ainda dava na RTP2!), confesso que era mais hábito do que outra coisa. Isto por várias razões:
1, tornou-se repetitivo. Em todos os episódios, Dexter enrolava alguém em plástico e espetava-lhe uma faca no peito. Dois e três anos disto, convenhamos, aborrece. Aborrece tanto que não percebo porque é que ele não arranjou outro hobby entretanto. Eu não suportava o tédio de fazer sempre a mesma coisa, mas também não sou serial killer, sei lá eu!
2, aquela esquadra de polícia devia ter os polícias mais estúpidos do planeta! Certo, eram polícias normais, não eram profilers do BAU (“Mentes Criminosas”), mas por amor de Deus, nunca ninguém ali leu um livro de psicologia, ou teve uma sessão de formação sobre “Como reconhecer um sociopata”? Apesar de tanta inépcia, duas pessoas chegaram a desconfiar de Dexter, o detective Doakes, logo no princípio, e outra personagem que não vou mencionar para não estragar o suspense a quem ainda não viu as duas últimas temporadas, e ambas foram desacreditadas. A meio da série, um reputado profiler do FBI fez consultadoria com a esquadra (salvo erro, por causa do serial killer Trinity) e não suspeitou de nada (para o que deve ter contribuído o facto de que ele andava a dormir com a irmã de Dexter, mas ainda assim!...). E Rita, a mulher do Dexter! Que idiota não percebe que o marido é um serial killer?! Esta personagem era tão burra, e tão desinteressante, que quando alguém a matou eu encolhi os ombros. Já não serei tão dura quanto a Debra, irmã de Dexter, porque há uma certa cegueira entre parentes chegados que faz com que as pessoas não queiram acreditar nos próprios olhos, especialmente quando o pai de ambos fez os possíveis e impossíveis para esconder da filha a verdadeira natureza do irmão adoptivo. Mesmo assim, uma vez levantada a suspeita (e a suspeita foi levantada), não podia haver um único polícia naquela esquadra que não ficasse atento e de sobreaviso. Em vez disso, amnésia geral.
3, tirando o próprio Dexter, que nos informava dos seus processos mentais em monólogo interior e em conversas imaginárias com o pai falecido (James Remar como Harry Morgan, um dos papéis mais ingratos de uma vida porque nunca ninguém se lembra do personagem que “não existe” embora tenha aparecido do primeiro ao último episódio), todos os outros personagens eram superficiais, incultos, pouco inteligentes (como já expliquei) e de uma mediocridade psicológica de dar dó. (Aquele Masuka, valha-me Deus!...)
Não comecei este artigo com a sinopse de “Dexter” porque, por esta altura, não deve haver ninguém que não saiba quem ele é, mas na remota eventualidade de alguém mais distraído que nunca tenha ouvido falar da série, Dexter é um serial killer que trabalha como técnico forense numa esquadra de Miami. O que o distingue dos serial killers “normais” é que Dexter só mata pessoas que se enquadrem no código que lhe foi ensinado pelo seu pai: Dexter caça os criminosos, os violadores, os outros assassinos. O código de Harry permite a Dexter satisfazer a sua necessidade de matar sem vitimar inocentes contribuindo para a “limpeza” da sociedade (como ele diz, “deitar fora o lixo”).
O grande sucesso de “Dexter” deve-se ao código de Harry. Não acredito que os espectadores estivessem interessados em ver um serial killer matar inocentes, impunemente, semana após semana, temporada após temporada. Mas o que Dexter faz é vigilantismo. Dexter é um justiceiro das trevas que dá sumiço a muitos criminosos que a polícia não consegue apanhar por falta de provas. Dexter é o papão dos maus. (Surpreende-me, agora que penso nisto, que a série não tenha explorado esta vertente. Durante anos o Bay Harbor Butcher foi divulgado nos media, ainda que nunca correctamente identificado, e sabia-se qual era a sua vitimologia. Estranho que não se espalhasse o pânico entre os criminosos de Miami. Com a frequência com que Dexter matava, seria de esperar que esse “papão” fizesse tremer muita gente em certos meios... A série não se lembrou.)
O que Dexter faz encontra simpatia nosso sentido de Justiça, inato, que tanto mais nos atormenta quanto mais horrível o crime que escapa impune. Este sentido de Justiça permite-nos assistir a “Dexter” sem nos incomodarmos com o “método”. Ninguém lamenta as vítimas de Dexter, que não são vítimas nenhumas, que na maioria dos casos até são piores do que ele. Dexter é o grande anti-herói, mas Dexter é também um herói, no pleno sentido do termo, e a sua complexidade de super-anti-herói era o que nos mantinha presos à série, semana após semana.
Desde os primeiros episódios, questionei-me muito se um psicopata conseguiria seguir um código de conduta. Parece-me que não, porque os verdadeiros sociopatas são demasiado narcisistas para deixar de matar quem lhes apetece por causa de um código. Será Dexter realmente um psicopata, ou uma vítima de stress pós-traumático devido ao que assistiu na infância, a quem essa noção foi inculcada na cabeça por um pai adoptivo demasiado preocupado? A relação de Dexter com o pai não era falsa e vazia de afectos, tal como não são falsas e vazias de afectos as relações com a irmã e o filho. Não são relações oportunistas ou manipuladoras (mesmo tendo em conta que a princípio Dexter acredita que tem de mantê-las, unicamente, e ao emprego, e ao casamento, como disfarce de “pessoa normal”). Mas estas relações são autênticas, afectivas, e ele próprio o admite mais perto do final. Um psicopata não consegue sentir estas afeições profundas. As pessoas à sua volta são peões no seu jogo, nada mais, e a perda de uma é substituída por outra. (O que de certa forma aconteceu no caso de Rita, embora Dexter quase tenha sido “obrigado” a casar, à moda antiga.)
Outro “pormenor” importantíssimo para o sucesso da série é que Dexter não é um sádico. A maneira como mata é rápida (pelo menos nunca se viu o contrário): faca no coração. Se houvesse tortura e sadismo, muitos espectadores talvez não conseguissem suportar. A única “tortura” infligida na mesa de matança é psicológica, quando Dexter confronta a “vítima” com os seus próprios crimes. De certa forma, o que se passa é um julgamento em que é explicado ao condenado a razão por que foi escolhido para morrer. (Por isso escrevi “tortura” entre aspas, porque é uma espécie de "leitura da sentença", salvas as distâncias.) A execução, de seguida, é rápida e limpa. O que coloca mais questões quanto à suposta psicopatia de Dexter. Os serial killers têm prazer no acto de matar. Um prazer, especialmente quando é utilizada uma faca, que todos os peritos concordam ser de natureza sexual ou seu derivativo. Ao contrário, por exemplo, de um assassino contratado para quem abater o alvo é puramente profissional. Como é que a necessidade de Dexter se satisfaz com uma morte tão rápida? Não bate muito certo com o que sabemos de assassinos psicopatas.
Mas decidi fechar os olhos e admitir que Dexter, como personagem ficcional, tinha “licença criativa” para ser um psicopata “diferente”, mais “humano”, mas nunca realista, apenas ficcional, e aceitei o personagem como tal. Deu-me um certo gozo pessoal que na última temporada a Dra. Vogel (que o conhece desde pequeno) tenha começado a duvidar do seu diagnóstico ao analisar que as acções altruístas de Dexter para com a família, e amigos, e envolvimentos românticos, não encaixam no perfil de sociopata sem empatia. (O que vem dar-me razão, daí o gozo pessoal.) Depois de ver a série inteira, estou ainda mais inclinada para a hipótese de que Dexter possa não ser um sociopata. Se o fosse, e sem querer revelar o fim, Dexter não decidiria que não pode ficar com ninguém porque destrói (involuntariamente, mas destrói) a vida de todos os que lhe são próximos. E é verdade, destrói. E ele não deseja isso para a irmã, para a mulher que ama (Dexter ama) e muito menos para o filho. Ora, um verdadeiro sociopata estaria já a pensar como usar o puto para atrair as vítimas mais depressa. Um verdadeiro psicopata estar-se-ia nas tintas para os danos colaterais que provoca nos outros porque um verdadeiro psicopata só se preocupa com uma pessoa: ele mesmo. Um verdadeiro psicopata não se sacrifica pelos outros; sacrifica os outros por si.
Não acredito que seja possível na vida real, mas Dexter, personagem ficcional, pode pertencer a uma área cinzenta em que existem traços de psicopatia, sem dúvida, reforçados pela lavagem cerebral que lhe foi feita desde a infância: “És um monstro, não consegues controlar a necessidade de matar, tens de aprender a matar as pessoas certas sem seres apanhado”.



A última viagem do Dark Passenger?
Esta é uma série estreada em 2006, num outro tempo televisivo em que os espectadores se contentavam com programas de “polícias e ladrões”, um caso por episódio (“Law and Order”, por exemplo), nada de muito complicado e sem um enredo transversal a todos os episódios. Quando Dexter apareceu, relatando na primeira pessoa os pensamentos de um serial killer, foi refrescante e inovador. Mas o formato manteve-se quase o mesmo. Os enredos giravam em torno de Dexter e das personagens com quem se cruzava e com quem partilhava o segredo, terminando cada temporada ou mais ou menos da mesma maneira, com estas novas personagens a acabar na mesa forrada a plástico (com a rara excepção de Lumen, mais um exemplo da empatia de Dexter).
Sempre tive a sensação sobre esta série que os autores queriam mergulhar em águas profundas (como eram profundos os mergulhos na psique sombria de Dexter) mas nunca saíam da piscina dos pequeninos que o rodeava e onde a série chapinhava sem fim. Como se temessem que a introdução de mais do que uma personagem profunda fosse demasiado complicada para a audiência que se contentava com uma caçada por episódio. Durante seis temporadas a série chapinhou neste formato, a ponto de se tornar repetitiva e desinteressante.
O meu interesse só tornou a despertar na sétima e penúltima temporada, quando Debra descobre quem o irmão é. E então, sim, pelo menos quanto a Dexter e Debra, a série mergulhou em águas profundas. As restantes personagens nunca saíram da piscina dos pequeninos mas Dexter e Debra mergulham no poço sem fundo e perdem o pé, no bom sentido.


Penso que deve ter sido a primeira vez que a série me arrebatou, sempre que Debra confrontava Dexter, e a si própria, com a incredulidade, e a repulsa, e o questionar de tudo em que acreditava daquele irmão adoptivo que julgava perfeito, mais do que isso, que julgava um modelo a seguir! Grande performance de Jennifer Carpenter (Debra), tão mais emocional e de cabeça perdida quanto Michael C. Hall (Dexter) permanece impassível. Bem, já não tão impassível, porque pela primeira vez na vida importa-lhe, importa-lhe muito, o que Debra pensa dele. Pela primeira vez, Dexter não está a lidar com psicopatas como o Ice Truck Killer, ou o Trinity Killer, ou o Doomsday Killer, ou a outra maluca inglesa, ou o outro maluco que queria que Dexter o ensinasse a matar, ou com aquela pobre rapariga Lumen num estado psicológico feito em frangalhos. Desta vez Dexter estava a lidar com uma pessoa normal, uma pessoa com uma consciência moral, uma pessoa que lhe importava, a última pessoa que queria perder, a quem mais certamente perderia.
(Curiosidade: para meu grande espanto, Jennifer Carpenter e Michael C. Hall foram casados na vida real, enquanto a série decorria, e nunca uma pitada de química romântica transpareceu entre eles! Se não me tivessem dito eu não tinha desconfiado. Grandes actores, ambos!)


E aqui estamos, e gostei tanto das duas últimas temporadas da série, finalmente a interacção Dexter/Debra sem segredos!, que aqui estou a declarar o meu arrebatamento. Sei que muitos fãs não gostaram do último episódio, mas que se lixem, eu adorei o último episódio! Aquela cena em que pela última vez Dexter sai no Slice of Life e lança à água aquele corpo amortalhado num lençol branco, durante uma tempestade iminente, e o mar está negro, e o céu está negro, negro, negro, de meter medo, foi tão épico, foi tão gótico! Foi o mergulho em águas profundas de que a série andou à procura desde o princípio!


Sem querer deixar spoilers, li em comentários que muitos fãs ficaram piamente convencidos de que no último episódio Dexter desiste de matar. Quanto a isso só digo uma coisa: não me parece!
Aqueles que, como eu, se desapontaram com a série quando esta se tornou uma dança de psicopatas, fariam bem em dar a Dexter uma segunda oportunidade a partir da sétima série. Sei que vão ficar surpreendidos. Agradavelmente, espero eu.



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