terça-feira, junho 19, 2018

São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza em Portugal

OCDE. São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico publicou esta sexta-feira um relatório sobre a mobilidade social. De acordo com o estudo, Portugal está entre os países com quadros mais negativos.

A baixa mobilidade social significa que uma família portuguesa com rendimentos mais baixos precisa de 125 anos – cerca de cinco gerações – até que descendentes atinjam um salário médio.

"Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se no estudo.


A análise desenvolvida pela OCDE compara a mobilidade social com uma escada ou elevador. Afirma-se no documento que uma criança que nasce numa família desvantajosa tem mais dificuldades em “subir a escada”. “Ter crescido com familiares com pouca ou mesmo nenhuma riqueza e ter pais com pouca riqueza são os dois fatores principais para a própria pobreza".

"Riscos que contam"

Em Portugal, os números dizem que 24 por cento dos filhos de pais com baixos rendimentos têm mais dificuldades em atingir salários mais elevados e acabam também por ter baixos rendimentos.

Já 39 por cento das crianças provenientes de uma família com rendimentos elevados conseguem subir mais rapidamente a escada e também elas passam a ter rendimentos mais altos.

O rendimento que os filhos virão a receber é uma das maiores preocupações por parte dos pais. Segundo a agência Lusa, a OCDE realizou ainda este ano um outro relatório, denominado "Riscos que contam”, onde se comprova que 58 por cento dos pais portugueses colocam entre as três principais preocupações o risco de os filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

O estudo revela ainda que 33 por cento das pessoas consideram que a educação dos pais está relacionada com a capacidade para se ser bem-sucedido.

Em declarações à Antena 1, o sociólogo Manuel Carlos Silva, da Universidade do Minho, defende que a ascenção social é muitas vezes mal compreendida.


Para a OCDE, a baixa mobilidade social em Portugal pode estar relacionada com os elevados níveis de desemprego e a segmentação do mercado laboral. A organização conclui que a falta de mobilidade social não é um aspeto irreversível e podem ser tomadas medidas com o objetivo de aumentar a mobilidade entre gerações. Entre os principais objetivos, a OCDE destaca o apoio a crianças de meios desfavorecidos, o combate ao desemprego e o aumento do nível de qualificações através da educação para adultos.

É o que eu ando a dizer há estes anos todos.

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sábado, maio 26, 2018

“Emperor of Thorns”, de Mark Lawrence



(crítica ao volume final da trilogia “The Broken Empire”)


CONTÉM ALGUNS SPOILERS


Fiz batota. Não é meu costume, mas em vez de começar pelo primeiro livro da trilogia “The Broken Empire”, preferi ignorar “Prince of Thorns” e “King of Thorns” e passar logo ao último capítulo, “Emperor of Thorns”. Já não é a primeira vez que leio uma série fora de ordem e não é por isso que não fico fã. Neste caso, não me arrependo nada de ter lido primeiro o último livro e não vou ler os anteriores.
Fiquei curiosa em relação ao personagem principal, Jorg, que em criança assistiu impotentemente ao assassinato da mãe e do irmão enquanto estava preso numa árvore de espinhos. A experiência deixou-lhe cicatrizes no corpo e no espírito. Compreensivelmente, Jorg irá procurar vingança.

Protagonista irredimível
Foi esta a sinopse que me interessou. Confesso que esperava um daqueles personagens de que eu gosto, um personagem profundo, melancólico e atormentado. Saiu-me um sociopata irredimível. Jorg não é atormentado. Jorg atormenta. Sofrer na infância não é sinónimo nem desculpa para o egoísmo, a falta de empatia, a falta de remorsos. Jorg vive na culpa de não ter podido fazer nada para salvar o irmão e a mãe, mas até essa culpa é relativa a si próprio: culpa-se porque ele falhou, porque ele não conseguiu cumprir o seu dever, porque ele era fraco. Tudo gira, narcisisticamente, em torno dele, até a culpa. Como qualquer sociopata, o que Jorg não suporta é o seu falhanço (real ou percepcionado, pois naquela idade não poderia fazer grande coisa). Em livros anteriores, o próprio pai de Jorg o tenta matar. Sem conhecer a criatura, isto faz-nos ter pena dele. Conhecendo, faz-nos pensar se o pai dele não terá razão. Mas como são acontecimentos de livros anteriores não posso opinar muito.
Jorg, como protagonista, é difícil de suportar. Pior ainda porque a narração é feita na primeira pessoa e estamos sempre na cabeça dele. E tudo é egoísta e retorcido na cabeça dele. Acabei o livro a precisar de uma desintoxicação. Este é o tipo de personagem que testa o limite do leitor, principalmente em primeira pessoa em que temos a sensação de que o personagem está a falar directamente connosco. É um risco escrever uma história em primeira pessoa em que o narrador é moralmente mau e nada empático. Muitos leitores deverão desistir logo nas primeiras páginas.
A mim ninguém pode acusar de não estar habituada a personagens menos bonzinhos. Pelo contrário. Um dos meus preferidos, Lestat, é um assassino. Mas Lestat é atormentado por remorsos e questões existenciais. Lestat é fascinante. Jorg não é. Desisti completamente do personagem quando percebi que perante qualquer dificuldade a primeira coisa que lhe passa pela cabeça é “quantas pessoas vou ter de sacrificar para conseguir o que quero?”. Numa pessoa normal, inclusive num líder, esta devia ser a última alternativa. Jorg nem pensa em alternativas, vai logo pelo caminho mais fácil que é atirar alguém para debaixo do comboio. Mesmo entre os que lhe são leais. Com o tempo, Jorg podia muito bem ter o destino de Júlio César, “também tu meu filho Brutus?” É o destino dos tiranos. A facada vem de perto, não de longe.
Não há qualquer traço redimível neste personagem. O ingénuo leitor que acredite mesmo que por vezes ele se sacrifica, pense melhor. Jorg faz tudo o que faz por si próprio, nunca pelos outros. Não há sacrifício nenhum; há egoísmo, tirania e irresponsabilidade. Só não me alargo mais sobre isto porque não quero revelar o fim.
Por falar em fim, a narração em primeira pessoa leva-nos enganosamente a acreditar que o narrador sobrevive à história (para no-la contar). Em literatura, não é necessário que assim seja. A meio do livro comecei a torcer contra Jorg e a desejar que as últimas palavras da história fossem: “Azar, morri.” (O que até era frase que podia sair dos lábios dele, acreditem ou não.) Digamos que não fiquei satisfeita nem insatisfeita. Jorg nunca se redime. Fiquei satisfeita porque o livro acabou.
Resumindo e concluindo, Jorg é insuportável. O autor bem tenta dar-lhe uma imagem de humanidade nas raras vezes em que introspectivamente o personagem pondera as suas mágoas e motivações, mas Jorg é daqueles que quanto mais fala mais se enterra. As intenções são sempre egoístas, quando não são puramente malvadas e tirânicas. Algumas motivações até são aceitáveis, mas nem sempre consistentes. As tiradas filosóficas são interessantes, mas quase todas discutíveis. Não consigo encontrar nada que me faça empatizar com o personagem e foi um alívio ver-me livre dele.

Porno-tortura em terras de Espanha
A história divide-se, estruturalmente, em dois momentos narrativos: a acção no presente e a acção no passado.
No presente, Jorg dirige-se ao congresso de líderes onde pretende fazer-se eleger imperador. Pelo caminho vai matando culpados e inocentes a torto e a direito. Sacrificar inocentes para atingir os seus objectivos mais depressa é algo que nem o faz pestanejar. Atrás dele, segue uma figura enigmática que nos é apresentada como Rei dos Mortos (Death King), uma entidade poderosa e maléfica que comanda um exército de zombies. Só no fim do livro percebemos a finalidade deste Rei dos Mortos, por isso não vou falar dele por agora.
Na acção no passado, Jorg conta-nos da viagem que empreendeu por várias partes do império, sempre guiado por Fexler, o fantasma/holograma. Fexler e as máquinas são o enredo mais interessante, mas antes de falar deles uma palavrinha para a porno-tortura neste livro.
“Emperor of Thorns” é Grim Fantasy. O leitor vai encontrar morte e tortura gratuita e explícita quase a cada página. Nenhuma parte de tortura é tão descarada como o ataque, algures em terras de Espanha, por um bando de salteadores que não deviam andar por ali.
Mas deixem-me explicar um pouco do espaço que rodeia a história. A saga passa-se no “nosso” futuro, num mundo um milénio (milénios?) posterior ao nosso depois de uma guerra nuclear. O planeta foi devastado. A sociedade regrediu e medievalizou-se. Da tecnologia do passado restam algumas máquinas (computadores, ou algo mais avançado) ainda a funcionar, mas já ninguém sabe operá-las. A guerra nuclear transformou partes do mundo em desertos radioactivos. Porque é que a Península Ibérica é um destes desertos, aparentemente mais bombardeados do que os outros, quando centros de decisão como Viena não parecem tão afectados, não me perguntem.
É na Península Ibérica que acontece uma das cenas de tortura mais explícitas e brutais. E possivelmente gratuita. Um bando de malfeitores vive à beira de um deserto radioactivo. É estranho, porque ninguém lá passa e mal se consegue subsistir naquele sítio. É este bando que ataca Jorg e os seus companheiros e que revela grande prazer em torturas físicas e prolongadas. Isto funcionaria se soubéssemos que estes malfeitores tinham seguido Jorg e companheiros desde a cidade mais próxima no intuito de os roubar. Mas isto não nos é dito. O que nos é dito é que o bando tem acampamento montado no meio de nenhures, como se ali estivessem de propósito à espera que algum incauto lhes caísse nas garras para o torturar. Mais estranho ainda é que aparentemente estes malfeitores até eram conhecidos na região. Ora, a guia de Jorg, que devia ser uma perita no local, nunca lhe fala deles. É muito conveniente que eles apareçam ali, do nada, só para termos uma cena de tortura (com esfolamento, arrancar de olhos, ferros em brasa) completamente dispensável ao enredo. Para quem não sabe o que é Grim Fantasy: é isto. Sempre que há desculpa, e mesmo quando não há, as coisas ficam brutais. Não é para todos.

[Por curiosidade, acrescento que neste mundo pós-apocalíptico o nosso Portugalzinho está lá. A sul do Tejo chama-se Lisboa, a norte é Port Gull. Não sei o que o autor pensa de nós e se nos conhece, mas achei giro. Está aqui o mapa.]

Os exterminadores implacáveis
O enredo mais interessante do livro, e possivelmente de toda a saga, é o que tem a ver com as máquinas. Antes do conflito nuclear, a humanidade estava tão avançada que conseguia digitalizar a consciência de um indivíduo e preservá-la para sempre. A estas “consciências digitalizadas” que aparecem em forma de “holograma”, os novos habitantes da Terra, devido ao retrocesso, chamam fantasmas. Um destes “fantasmas”, Fexler, que parece ter tido grandes responsabilidades na destruição do mundo (pelo menos foi o que eu percebi), é a verdadeira causa do sucesso de Jorg. Não li os livros anteriores mas Jorg utilizou tecnologia dos antigos (chamados Builders), bombas nucleares ou o que delas resta que ainda funciona, para conquistar o poder. Graças a Fexler, que o apoia.
Os Builders são uma versão mais avançada da nossa civilização. Sabemo-lo porque esta civilização criou “uma roda que faz os pensamentos tornarem-se realidade”. Sabemos também que fomos nós que eventualmente destruímos o mundo. Não percebi se a tal “roda” teve a ver com isso. No tempo de Jorg, um milénio (milénios?) depois da destruição, esta roda está activa e está a fazer com que as pessoas criem magia. A magia do Rei dos Mortos, por exemplo, que faz levantar os zombies, só é possível porque a roda existe.
Ora, os Builders, a quem vou chamar máquinas por uma questão de simplicidade, não estão satisfeitos com esta nova civilização. Uma facção das máquinas quer reconstruir a sociedade como era antes da destruição; outra facção quer pura e simplesmente destruir a humanidade de vez (conhecendo Jorg, não censuro esta facção). As bombas estão prontas e nos seus lugares. A qualquer momento podem ser accionadas. Basta que as facções se entendam.
É esta a grande e verdadeira ameaça no mundo de Jorg. E é também o enredo mais interessante e filosófico da saga. Preferia que o autor tivesse explorado mais estes resquícios dos seres humanos extintos e nos explicasse melhor o que é a roda e com que finalidade foi originalmente criada/construída. Não foi para fazer magia, de certeza, porque os Builders têm horror ao mundo mágico que entretanto se desenvolveu.
Quando comecei a ler não sabia que o livro tinha esta componente de ficção científica e assim que me apercebi dela comecei logo a torcer o nariz. Pareço um disco riscado, mas quantas vezes é que já disse aqui que misturar ficção científica e sobrenatural não funciona? Na maior parte do livro a ficção científica não causa problemas, até que chegamos ao fim.

Afinal era psicológico
Depois de toda esta cavalgada épica (e mais épica ainda para quem leu os três livros), o fim desaponta. O confronto com o Rei dos Mortos é no mínimo anticlimático e no máximo ridículo. Não vou revelar mais do que isto, mas o Rei dos Mortos é uma criança de sete anos. Depois de morta. É este o grande estratega militar que comanda o exército de zombies. Ora, eu acho que este é um pormenorzinho que exige uma grande explicação. A explicação fornecida não convence.
No fim, Jorg nunca passou de uma marioneta nas mãos de Fexler. Tudo o que é preciso para resolver isto é girar uma roda imaginária. O quê?!, perguntarão. Eu também perguntei. Não era preciso nada disto para girar uma roda imaginária. Podiam tê-la girado logo na primeira ou segunda página do primeiro livro e lá se ia a história toda por água abaixo. Por isso, o fim é mau e ilógico.
A magia pode ser inventada mas as máquinas e as bombas são bem reais. Esta roda devia ser uma criação física e tangível, a ser desligada num interruptor e não em “pensamentos”.
Aliás, e para começar, por que raio é que as máquinas se importam com a existência da magia? Estão todos mortos, não passam de hologramas, que lhes importa o que se passa no mundo dos vivos? Que problemas lhes causam a magia? A meu ver, nenhum.
E por que raio é que Fexler precisa que Jorg seja imperador para girar a roda? Qualquer pessoa serve. Esta parte não percebi. Não estou a ironizar. Acabei o livro e não percebi o fim. Depois de conjecturar, lembrei-me de um parágrafo ou dois lá para o fim em que o autor nos quer convencer de que os súbditos do império desejam um imperador mais do que tudo, que seria este poder da vontade e dos pensamentos dos súbditos que permitiriam ao imperador, e a ele apenas, girar a roda. Ora, o problema é que durante todo o livro o autor nos convence do contrário: o povo raramente aparece na história e quando aparece é para lamentar os problemas que a nobreza lhes causa. Até o Grande Comandante da Guarda olha com menosprezo os nobres que visitam Vyene. Tudo nos leva a crer que aquela pobre gente sob o jugo de vários tiranos só quer que os deixem em paz nas suas vidinhas e que a existência de um imperador lhes é indiferente. Logo, o motivo por que Jorg teria de ser imperador não pega, ou não foi bem explicado.

O autor
Devem ter reparado que aquilo que mais me interessou no livro não foi o protagonista e as suas aventuras mas as máquinas, os resquícios da nossa civilização. O resto foi uma história que me deixou frustrada, vazia, intoxicada, mal disposta com tanta violência gratuita.
Atrever-me-ia a ler outro livro de Mark Lawrence? Depende. A escrita do autor é dinâmica e vívida, as descrições são excelentes, a estrutura narrativa é interessante. Por outro lado, não gostei de certos truques à Agatha Christie, em que se passam coisas off-screen que o leitor não tem maneira de saber só para ser surpreendido com uma reviravolta. Assim como quando Poirot reúne todos os suspeitos numa sala e começa a debitar factos que os leitores não conhecem para identificar quem é o assassino. O pobre leitor jamais lá chegaria porque não sabe tudo o que Poirot sabe. Não gosto, não leio Agatha Christie por causa disto, e também não gostei disto aqui (a bomba no deserto é o exemplo mais grave). Sou daquelas leitoras que gostam de saber sempre tudo o que está a acontecer para viver a história como o protagonista a vive.
As personagens secundárias não aparecem muito desenvolvidas, especialmente as mulheres próximas ao protagonista, mas quanto a isto não vou opinar porque é possível que tenham sido exploradas nos livros anteriores.
O que menos gostei na escrita de Mark Lawrence foi o que ele não escreveu. Fiquei com a sensação de que foi um daqueles desgraçados a quem martelaram na cabeça com o mito “show not tell” a um ponto em que não conta tudo o que é preciso. (Infelizmente, o mesmo nota-se bastante nos autores mais recentes que foram formatados neste mito odioso de que o autor não tem de contar nada, que basta mostrar para que o leitor perceba tudo. Não é verdade.) O maior problema disto, como referi, foi o fim. Todo o enredo assenta em Fexler e nas máquinas. Quem são ou foram, exactamente, estas pessoas/resquícios? O que são as facções e como se formaram? Que responsabilidades tiveram na destruição do mundo? O que é a roda? O livro não só nunca dá resposta a estas questões como nem sequer as coloca. O fim quase leva a pensar que o autor não fazia ideia de como acabar a saga e inventou qualquer coisa às três pancadas, ou, pior um pouco, julgou que estas questões não interessavam nada e não mereciam ser resolvidas. Isto, ou Mark Lawrence está a guardá-las para um novo livro no mesmo universo.
Se eu lia esse livro ou outro livro do mesmo autor? Depende. Com protagonistas por quem torcer, com maior aprofundamento de personagens e motivações, sem porno-tortura, talvez lhe desse outra oportunidade. Ia depender muito das críticas que lesse antes. Por si só, “Emperor of Thorns” não me convenceu. Não me conseguiu envolver, não me entreteve. Aconselho este livro a quem gosta da brutalidade de uma "Guerra dos Tronos". Aos outros, aconselho que procurem longe daqui.



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terça-feira, maio 22, 2018

Enid (2009)

"Enid" é a biografia da escritora Enid Blyton. Os mais velhos lembrar-se-ão da adaptação à TV de "Os Cinco" e os mais novos lembrar-se-ão do Noddy. Ambos criação de Enid Blyton, prolífera autora de livros infantis e juvenis.
A princípio foi estranho ver Helena Bonham Carter neste papel. Associo sempre a actriz a papéis góticos, principalmente nos filmes de Tim Burton, ou em papéis em que é mais ou menos vilã. Afinal o papel até não diferiu muito porque segundo o filme a mulher era uma megera. Enid Blyton, ao que parece, gostava mais de receber o correio das crianças que a liam do que das próprias filhas. Mas o filme adverte que os acontecimentos foram romanceados.
Não há muito para dizer deste filme, pouco pretensioso e feito para a televisão. A única coisa que se pede de um filme biográfico é que o seja, e neste aspecto fez o que lhe competia.
Enid Blyton, no filme, perante a separação dos pais ainda na infância, aprendeu a refugiar-se no mundo encantado da infância de onde sempre iria tirar inspiração para os seus livros. Achei muito interessante, porque para escapar à minha infância infeliz eu fiz exactamente o contrário: desde muito pequena, procurei sempre o trágico e o assustador. Talvez para me convencer de que as coisas eram más mas se tivessem lobisomens e vampiros ainda seriam piores? Ainda hoje, só um bom enredo de terror me consegue abstrair de tudo.

Enid é um filme simples para quem se interessar por conhecer a vida da autora. Gostei e recomendo.

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sábado, maio 05, 2018

Vikings


(crítica às primeiras duas temporadas)


Como diria Kurt Vonnegut, um elemento primordial de uma boa história é ter pelo menos um personagem por quem torcer. Não precisa de ser o protagonista. Até pode ser o vilão. Há casos em que os personagens são todos tão maus, moralmente falando, que uma pessoa torce pelo vilão que tem mais hipóteses de acabar com eles. Como na Guerra dos Tronos, em que estou a torcer pelos zombies desde a primeira temporada. E depois há casos em que o vilão é mais interessante e moralmente superior do que os protagonistas, como Battlestar Galactica, em que igualmente comecei torcer pelos Cylons desde a primeira temporada.
E depois há coisas como Vikings, em que não se consegue torcer por ninguém. Ninguém. Ninguém. Nem protagonistas nem vilões, ninguém merece nada de mim. São todos tão maus, moralmente falando, que dou por mim a ver a série como visita de estudo ao século VIII: as roupas, as casas, a tecnologia (ou falta dela). E pouco mais. Vikings, série original do canal História, foi promovida como reconstrução histórica mas já me causou dúvidas bastantes para não a considerar assim tão rigorosa que se deva levar muito a sério.
Não me refiro ao protagonista. Ragnar Lothbrok é uma figura tão histórica como mítica. Tudo indica que existiu um Ragnar, mas os pormenores são tão lendários (até contraditórios) que não se sabe onde acaba a realidade dos relatos e começa a ficção dos sucessivos cronistas. Um pouco como o nosso Viriato. Existiu (?...), mas não se sabe quase nada sobre ele. O tipo de personagem histórica e lendária completamente propícia a ser romanceada.
O que me causa perplexidade é a tentativa de fazer os vikings tão monstruosos que custa ver seres humanos naquela gente. Um pouco como noutros séculos se descreviam os selvagens canibais. Tenho encontrado críticas bizarras em que se dizem coisas do género “a sociedade viking é-nos completamente estranha, mas conseguimos reconhecer nas personagens traços humanos e comuns como a luxúria, a inveja, a ambição”. Estas coisas são ditas para sublinhar a humanidade dos personagens. Isto é que é bizarro. Parece que estamos a ver uma série sobre alienígenas que até têm algumas coisas em comum connosco, humanos. Mas a verdade é que as críticas são bizarras porque a série se presta a isso. Tal é o exagero que é preciso esgravatar muito para encontrar nestes vikings alguma coisa que nos lembre que são seres humanos e não um qualquer povo ficcional de uma obra de Fantasia (eu diria Orcs, só que mais bonitos). E é por isso que não consigo “ir à bola” com a série. Demasiadas coisas em que a bota não bate com a perdigota.
Comecei a investigar, e descobri que o criador desta série, Michael Hirst, é um meu “conhecido”. Este foi o mesmo que tornou Os Tudors em tal porno-tortura que me estragou todo o prazer em ver a série. Muito antes de Guerra dos Tronos, muito antes de Spartacus, Os Tudors foram a primeira série de televisão em que vi porno-tortura descarada. Desconfio que este senhor tenha alguma coisa a ver com as tendências televisivas que se seguiram e que me têm estragado o prazer como espectadora. (Pode não ter sido só ele, mas *também foi ele*, motivo suficiente de rancor.) Mesmo assim, Vikings ainda não conseguiu ser tão psicologicamente doloroso como Os Tudors, o que é dizer qualquer coisa. E se calhar não conseguiu precisamente porque, ao contrário d'Os Tudors, baseado em pessoas reais, estes personagens quase nem parecem humanos. É como ver Orcs a chacinar outros Orcs. Ou seja, a série não me consegue afectar tanto emocionalmente porque os personagens estão tão mal concebidos que me custa interessar por eles. A juntar à porno-tortura, é basicamente porno-tv.
Apesar da pornografia sangrenta, a série consegue ver-se porque o enredo é minimamente interessante e baseado em acontecimentos reais.
Mas passo a explicar melhor porque é que a bota não bate com a perdigota.


Athelsthan
Oh, Athelstan, que grande desilusão me saíste! Athelstan podia ter sido o meu personagem preferido (o único por quem torcer). Monge raptado num saque viking e levado para casa de Ragnar como escravo, Athelstan foi os “nossos” olhos na sociedade pagã para que foi transportado, em que todos os valores são diferentes, alguns até opostos, à civilização cristã que é a dele (e a nossa, salvo os séculos que nos separam). Na estupefacção de Athelstan, no horror e repulsa que lhe causa o que observa, reconhecemos o nosso horror e repulsa. Sabemos que a vida de Athelstan pode estar por um fio e temos de torcer por ele. Mesmo quando, desenvolvendo um gigantesco caso de Síndrome de Estocolmo [se eu quisesse fazer uma chalaça chamar-lhe-ia Síndrome de Kattegat], Athelstan começa a “tornar-se” viking também. Inclusivamente participa numa batalha em que o pacato ex-monge se atira à chacina como antes se dedicava aos pergaminhos do mosteiro. Incoerente? Se Athelstan tivesse alguma inclinação pelas armas não teria escolhido uma ordem monástica de monges guerreiros? Talvez não, porque este seu novo “papel” na sociedade viking lhe garante a sobrevivência e, por último, a liberdade. Até aqui tudo consistente.
Mais tarde, Athelstan acompanha Ragnar a um saque na Inglaterra e por lá permanece, onde conhece o rei Ecbert. Começa logo aqui a inverosimilhança histórica. Acusado de ser um herege (devido à sua “conversão” ao modo de vida viking) a igreja decide crucificá-lo. Crucificá-lo, a um herege, como a Cristo, quando segundo a lenda até São Pedro pediu que o crucificassem de cabeça para baixo porque não merecia morrer como Ele?! Os criadores da história juram que encontraram pelo menos um relato de crucificação de um herege, e tendo em conta que era o século VIII e a informação não circulava muito bem, até acredito que um bando de energúmenos nunca tenha ouvido falar do caso de São Pedro (cuja morte não é contada na Bíblia) e tenha achado boa ideia crucificar um herege com a morte de Cristo. É possível. Improvável, mas possível.
Em Wessex, o rei Ecbert novamente coloca uma espécie de Síndrome de Estocolmo sobre a cabeça de Athelstan: salva-lhe a vida em troca de este traduzir pergaminhos romanos enquanto Athelstan mantiver o trabalho em segredo, uma vez que a igreja não aprovaria este interesse por literatura pagã. (Nem me parece que a ameaça fosse necessária porque o próprio Athelstan sabe os riscos que corre, mas vamos considerar que assim a série mantém o conflito aceso.) Athelstan está, portanto, nas suas sete quintas, a traduzir palavras dos filósofos e imperadores romanos.
Eis quando Ragnar aparece outra vez e lhe diz: “Quero que voltes”. E Athelstan volta só porque Ragnar pediu.
Oh Athelstan, que parvoíce foi essa?! Ragnar queria sacrificar-te aos deuses nórdicos, Athelstan! E tu trocas o trabalho histórico com os pergaminhos romanos por uma cultura de analfabetos?! Por uma vez na vida faço minhas as palavras do Floki, quando viu Athelstan de regresso a Kattegat: “Porque voltaste? Ninguém te quer aqui!” Nem mais! Athelstan, sei que não estavas muito bem em Wessex, e que vivias num mundo medieval e brutal, mas entre Wessex e Kattegat foi como saltar da frigideira para o lume. Não percebo e perdi todo o respeito por ti. Um homem como tu, aberto a novas culturas e não completamente avesso a pegar em armas, devia era ter fugido para a Península Ibérica sem olhar para trás. Foge, Athelstan, foge para a Moirama! Converte-te ao Islão (pelo menos têm o mesmo Deus), arranja um harém de odaliscas, treina o sabre, e verás o manancial de conhecimento que os Árabes guardavam nesse tempo e como apreciariam um monge que sabia falar latim, possivelmente grego, inglês (da época), francês (da época), e a língua viking. Athelstan, até te chamavam um figo! Em vez de fugires para onde te apreciem, vais de cavalo para burro de volta para a barbárie. Enfim, que dizer? És uma desilusão e não posso torcer por quem não torce por si próprio.
Até tenho a teoria de que secretamente o que Athelstan mais procurava era tornar-se mártir, o que explica também a sua fascinação pelo bilhete directo para o Valhalla oferecido pela cultura viking. Athelstan, como bom monge cristão, também quer um bilhete directo para o Céu.
Apesar de tudo, Athelstan continua a ser o personagem que mais me interessa. Foi extremamente divertido vê-lo alucinar, especialmente o diabo debaixo da cama. (Há muitos espectadores que detestam visões e alucinações, mas não me conto entre esses. Quanto mais visões e alucinações melhor.)


Floki
A minha antipatia por este personagem foi imediata, instintiva e visceral. Chamem-lhe elitismo, mas ver um gajo sanguinário apresentado com um visual de gótico drogado do início dos anos 80 não me caiu bem. Nem sequer foi a questão de que Floki me pareceu, desde a sua primeira aparição, como estando sempre em alta trip de cogumelos. Nem sequer a de parecer completamente alucinado mesmo sem cogumelos, isto é, maluquinho da cabeça. É mesmo a questão de ser sanguinário. Isto se calhar não me incomodava tanto se os outros vikings usassem maquilhagem semelhante, mas não usam (excepto os sacerdotes, mas Floki não é um sacerdote), e não percebo o que é que os criadores da série queriam com aquilo. Conquistar uma audiência gótica? A esta gótica conseguiram foi criar repulsa.
Por alguma razão que me ultrapassa, Floki tornou-se imediatamente um favorito do público (do público que se calhar nunca viu e delirou com o artigo original). Eu não gostei de ver imagética gótica misturada com violência (nada existe menos gótico do que a violência) e nada me tira daqui.
Considerações pessoais à parte, também neste personagem a bota não bate com a perdigota. Floki é apresentado como um pagão fanático e anti-cristão, o que soa estranhíssimo. Nunca foram os pagãos que tiveram problemas com os cristãos. Os pagãos adoravam vários deuses e conseguiam sempre admitir mais um. (Os Romanos, por exemplo, tinham uma estátua ao Deus Desconhecido.) Foram sempre os cristão a ter problemas com o panteão de deuses pagãos e a tentar impor o Único. Acredito que com o passar do tempo, e ao conhecer o fanatismo cristão, os pagãos tenham ganhado ódio aos cristãos (e com razão). Mas aqui bate o ponto. No início da série Floki não tinha tido contacto suficiente com a cultura cristã (e muito menos com o seu pior) para a odiar como a odeia. Este ódio fanático é inexplicável (o que é que ele tem contra o deus dos cristãos, afinal?), anacrónico (antes do tempo) e inversamente reflectido (são os cristãos que querem converter todos os pagãos, não ao contrário). O ódio religioso de Floki aparece sobretudo como motivo de conflito para a série, mas peca pela inexactidão histórica. Afinal a série era histórica ou nem por isso?


Lagertha
Quem é que não gosta de Lagertha? Lagertha é a boa mãe, a boa esposa, a boa soberana, a boa guerreira, a boa viking, e, não bastando, ainda é boa como o milho. Só é pena ser hipócrita.
Nota-se, principalmente na primeira temporada, uma tentativa dos criadores da série de tornarem mais simpática ao público moderno esta cultura bárbara de gente que matava, pilhava e violava. Lagertha é um grande exemplo desta tentativa, a personagem feminina forte,  independente e “sexualmente liberada” que forçosamente agrada às espectadoras do séc. XXI. Infelizmente, ao fazê-lo, os criadores criaram-lhe uma inevitável incoerência. Durante um saque, Lagertha chega a matar um dos seus próprios companheiros quando o apanha a tentar violar uma mulher saxã. O que só lhe fica bem. Mas qual é a verosimilhança de que Lagertha se importasse, se de facto participasse frequentemente em pilhagens e ataques? Ou Lagertha só se importa quando acontece à frente do seu nariz? Muito improvável, tudo isto. Ou Lagertha é hipócrita ou fecha os olhos quando não lhe convém ver. Mesmo admitindo que haveria entre os vikings mulheres guerreiras (facto não consensual na comunidade histórica) estas deveriam ser tão impiedosas como os homens (ou tal não seria a discussão no acampamento viking!). A existirem, estas mulheres deveriam estar habituadas a ver as vítimas como um “outro” não-humano, como presa (um pouco como se faz militarmente em que se usam os termos “alvo” e “danos colaterais” para não falar de pessoas). A posição de Lagertha contra a violação de outras mulheres, que a torna apelativa ao público, é ao mesmo tempo o que a torna hipócrita. A série bem quer, mas não consegue fazer milagres. E novamente não bate a bota com a perdigota.


Ragnar
Ragnar sofre das mesmas incoerências que apontei a Lagertha. Na tentativa de estabelecer um mínimo de empatia entre o protagonista e a audiência, Ragnar nunca é visto a cometer os actos piores a que os vikings se entregam. Quer sejam pilhagens, violações, torturas aos saxões indefesos, Ragnar mantém-se sempre à parte e bem longe dos pormenores mais sádicos e mesquinhos. No mundo real, os próprios companheiros o acusariam de se achar superior, mas na série tal afastamento nunca é colocado em questão. Por vezes, até parece bondade a mais. Lembro-me da cena em que se vê o bonzinho Ragnar a tentar esconder uma criancinha do barbarismo dos seus companheiros. Aqui, Ragnar está infectado da mesma hipocrisia que cega Lagertha. Enquanto salva a criancinha, não se preocupa que muito perto os pais da criancinha estão a ser chacinados e não se sabe se haverá mais alguém que tome conta dela num mundo em que ser órfão era dos piores destinos possíveis. Mas a cena funciona e até pensamos “que homem tão bom, tão ternurento!”. Só é pena ser um carniceiro.
Se durante os saques Ragnar é higienizado para consumo moderno, entre vikings não há qualquer escrúpulo em mostrá-lo como é de facto.
Qualquer vestígio de simpatia que o personagem me tivesse conseguido conquistar foi-se com o enredo envolvendo o seu inimigo Jarl Borg. Nem sequer foi a execução pornograficamente brutal, foi a falta de palavra. Ragnar convida o seu inimigo a sua casa prometendo-lhe tréguas. De boa fé, Borg aceita. Na calada da noite, Ragnar vai buscá-lo à cama, na presença da sua mulher grávida, e prende-o até ao dia em que decide executá-lo. Ora, Borg não é nenhum santinho, mas a má-fé e a desonestidade de assassinar um convidado debaixo do tecto do anfitrião não me podia cair pior. Pode ser a minha matriz ocidental judaico-cristã e pós-Romântica, mas tudo isto me pareceu desonestidade, cobardia e estupidez.
Mesmo esquecendo a minha cultura e tentando compreender a deles, continua a não fazer sentido. Se os golpes baixos eram tão comuns e tão socialmente aceites, Jarl Borg teria sabido disto e não teria aceitado o convite-armadilha de tão boa-fé. O facto de que aceitou (não sendo um anjinho nem um idiota) prova que este tipo de armadilhas não era comum. Ou era, e foi mostrado como se não fosse, o que em termos narrativos ainda é pior. (Novamente, a bota não bate com a perdigota.)
Mas voltando a Ragnar. Ao fazer isto, o personagem mostra não ter palavra (mau, muito mau!), e mostra cobardia (péssimo num líder viking, e ainda por cima injusto para o personagem, porque Ragnar consegue o seu título de Jarl precisamente num duelo corpo-a-corpo com o Jarl da altura e basta olhar para o físico dele para termos a certeza de que também dava cabo do Borg da mesma maneira), e mostra estupidez (vamos admitir que Ragnar quer ser maquiavélico: melhor do que assassinar um inimigo dentro de casa é mandá-lo matar na viagem, sem dar aspecto de mau anfitrião e de homem sem palavra, e sem sujar as mãos). Mas acho que era mesmo isto que os criadores da série queriam: mãos sujas, sangue a jorros, choque e porno-tortura. Não importa que o personagem pareça incoerente, mentiroso, desleal, cobarde e não muito inteligente. Na minha opinião, Ragnar até não merecia isto. Carniceiro sim, mas tudo o resto não.
Outra das falhas da série, na minha perspectiva, foi nunca terem explicado para que é que os vikings querem o ouro roubado. Ragnar diz, logo no primeiro episódio, que não adianta continuar a pilhar as terras a leste porque “são tão pobres como nós”. É esta a motivação que o impele a dirigir-se para oeste, de onde se ouve falar de tesouros fabulosos. Numa altura em que o dinheiro é praticamente inexistente, isto leva-nos a pensar que o saque tem de ser comerciado com alguém. Infelizmente, nunca vemos este comércio. Na minha opinião, seria mais interessante e educativo do que mais uma cena de porno-tortura.

Concluindo, esta é uma série que vejo por interesse mórbido, e para poder vir para aqui dizer mal. Não há uma única personagem com quem me consiga identificar minimamente (até o Bjorn, enquanto puto, se mostrava tão sanguinário como o pai) e por mim podiam bem morrer todos que o mundo até ficava melhor. Como não tenho por quem torcer, estou a torcer contra todos. Se calhar também sou uma grande sádica.

Uma última nota para os penteados: com aquelas rastas e aquelas tranças, a maioria dos personagens parece preparado para ir ao Festival Sudoeste. Excepto o Floki, que está sempre pronto para o Entremuralhas. Visualmente muito giro; historiamente delirante.

Mas falando de música, a música é boa. Adoro a canção “If I had a heart” dos Fever Ray e os temas folk dos Wardruna. Aconselho toda a gente a dar-lhes um ouvidela mesmo que não vejam a série.

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quarta-feira, abril 25, 2018

The Walking Dead

[crítica à oitava temporada da série: temporada da guerra contra o Negan, para quem já se perdeu]

!!! CONTÉM SPOILERS !!!




 
Rick Grimes na 101ª temporada de The Walking Dead.

O que é que fizeram a esta série? The Walking Dead já foi a minha série preferida. Uma série que me assombrava a nível inconsciente, que me causava pesadelos. Actualmente o meu maior pesadelo é que tencionem prolongá-la indefinidamente.
Quanto aqui falei de The Walking Dead, ainda sem perceber que ia ser o fenómeno de massas em que se tornou, aventei que o único que se ia safar naquele novo mundo apocalíptico era o miúdo. Mal sabia eu que a série ia durar tanto tempo que o miúdo cresceu e já tem idade de ir para a universidade. Nem teria passado pela cabeça de ninguém que acontecesse o que aconteceu, uma vez que na banda desenhada em que a série se baseia Carl é o futuro. Mas já torno a esse assunto.

A austeridade chegou ao apocalipse zombie?
The Walking Dead tem sido criticado por tudo e o seu oposto: acção a menos, acção a mais, desenvolvimento psicológico a mais, desenvolvimento psicológico a menos, exposição a mais, exposição a menos, falsas bases científicas do vírus zombie (o que eu me rio sempre que alguém começa com essa conversa como isto não fosse ficção), realismo, irrealismo, e, a minha preferida, “telenovela com zombies”. É normal que as opiniões sejam tão extremadas, até mesmo contraditórias. É uma série vista por milhões de pessoas em todo o mundo, um verdadeiro fenómeno global. Impossível seria agradar a todos.
Mas agora a esmagadora maioria das críticas concorda: a oitava série é um descalabro. Diria mesmo que é o maior descalabro que já vi em televisão numa série deste nível.
É caso para uma pessoa se perguntar: onde estão os criadores da série, os do início, os que tornaram uma série de zombies que nada prometia numa série de qualidade artística, filosófica, psicológica? O que se passou com esta série?
De tão decepcionada, fui investigar. Os motivos não são bons. Tudo indica, e vê-se na série, que o objectivo é fazer um produto o mais lucrativo possível ao menor custo possível. Série baratucha para ganhar dinheiro. (E isto nota-se, penosamente, no episódio em que só aparecem meia dúzia de zombies carunchosos a dominar um tigre. Não houve dinheiro para mais figurantes? O resultado é completamente absurdo e inverosímil, de dar vontade de atirar o comando à televisão. E é apenas o exemplo que na minha opinião foi o mais escandalosamente mau e que estragou completamente uma cena dramática que podia ter resultado. Assim, ninguém ficou convencido. Vi esta parte nas tiras do comic e percebi como é que aí funcionou: mais zombies, muitos mais zombies. A série quis fazer o mesmo em versão low cost.)

Pobre Shiva! Só apareceste para espremer dos espectadores as lágrimas que já ninguém derrama pelos outros animais que andam na série.

Mas pelo menos tivemos a cena possivelmente mais genuína e comovente da série inteira, que foi esta:



O descalabro
Há uma forte corrente de opinião que aponta o início do descalabro à temporada sete (a que começa com Negan a matar Glenn) e até à temporada seis (chegada a Alexandria). Na minha perspectiva, a série atingiu o seu pico com o horror de Terminus e nunca mais se conseguiu igualar. A partir daí tem sido uma curva decrescente. Aponto como causas a má adaptação do enredo/personagens da banda desenhada à televisão. Não gosto de banda desenhada e sou suspeita para falar, mas sei que toda a série se baseia no comic e durante as primeiras temporadas o enredo funcionou. Não sem alterações, mas funcionou. Não vou aqui discutir se o enredo/personagens teriam igualmente funcionado sem estas alterações, noto apenas que as alterações resultaram. Noto também que desde que a série começou a seguir o enredo do comic ponto-a-ponto, tudo descambou. Nomeadamente, desde que Negan apareceu. Negan é um péssimo vilão. A personagem que saiu do comic não foi adaptada à televisão. O que pode parecer giro no comic (se é que alguma coisa parece gira, porque não gosto de nada) aparece como caricatural no écran.
O que é nem o pior de tudo. O Governador foi o último vilão tridimensional da série (e nem tridimensional por aí além; apenas mais um sociopata). Depois vieram os Wolfs (o que é que eles queriam mesmo?), e antes deles os canibais do Terminus (com motivações muito pouco convincentes que não vou aqui analisar). Negan é apenas mais um vilão bidimensional como os anteriores e não lhe atribuo todas as responsabilidades.
Culpo mesmo é a falta de direcção do enredo, que de episódio para episódio tem transformado boas personagens em marionetas inconsequentes que chegam a mudar de ideias três vezes por temporada e acabam exactamente como começaram. E repete e repete de novo.
O que eu mais gostava nesta série (fora os zombies, claro) era mesmo do desenvolvimento psicológico das personagens. Até os erros estúpidos que se tornaram imagem de marca da série podiam ser compreendidos em função do stress resultante das condições extremas que têm de enfrentar. Personagens incoerentes é que não! Infelizmente, os fãs tiveram quota-parte de culpa nesta desastrosa opção “criativa” ao criticarem o desenvolvimento de personagem como “telenovela”. Não sei se são a maioria, mas lá que são barulhentos online, são.
O que aconteceu nesta temporada é que os autores decidiram (?) calar estas críticas transformando a série numa coisa acéfala. Conseguiram mesmo tornar a guerra contra o Negan numa seca insuportável e interminável, o que é uma proeza considerando a quantidade de tiroteios e pancadaria: cenas de acção mal filmadas em que nem se percebe onde é que estão os personagens (no espaço e no tempo) e quem está a disparar contra quem, falta de munições num dia e desperdício de munições no outro, estratégias que não fazem sentido nenhum. Nem os maiores fãs conseguiram tragar o que se passou nesta temporada.
O exemplo mais flagrante, a cena em que Negan e todos os seus tenentes estão à frente das forças de Rick, apenas a poucos metros, sem qualquer obstáculo entre eles, e estes disparam contra tudo menos Negan. Ou, pelo menos, foi assim que vimos a cena. (Já para não falar das duas outras vezes em que Rick está em perfeitas condições de matar Negan e falha “inexplicavelmente”. Isto é, a explicação é que ainda faltavam muitos episódios para acabar a temporada. Mas o falhanço não precisava de ser tão idiota.)

 Lucille também é à prova de fogo.

Zombificação
Alguns episódios conseguiram recordar-nos pequenos vestígios do que fez esta série grande, mas nada que a consiga tornar “grande outra vez”. O desnorte é absoluto. Não se vislumbra qualquer movimento em direcção a um fim. Os autores ameaçam espremer enredo e personagens enquanto a galinha continuar a pôr ovos de ouro. O problema é que a qualidade, muito graças à  produção low cost, desceu a um nível de filme B. E as audiências desceram a níveis que a série só teve nas primeiras temporadas (ironicamente, quando a série era excelente mas ainda desconhecida). Parece que a galinha parou de pôr ovos de ouro.
Em desespero de causa, pensei eu [*], decidiram matar Carl. E ainda por cima mataram-no mal. Carl teve um momento em que podia ter morrido como um herói, matando Negan, mas não dava jeito ao plot. Em vez disso, a morte de Carl arrastou-se numa série de monólogos que me puseram a olhar para o relógio. Ora, eu até sou sensível e tudo, e compreendo que tenha sido feito para apaziguar os fãs, mas aquela morte foi efectivamente esticada para lá do limite. A todo o momento esperava que alguém se distraísse e que Carl se transformasse. Não seria menos estúpido do que o mais estúpido que já vimos na série e teríamos a satisfação de ver o zombie Carl. Afinal o miúdo estava a planear dar um tiro na cabeça. Se era assim, Carl, o que está perdido perdido está, porque é que não deste um tiro ao Negan quando ele foi bater à porta de Alexandria?
Mas, para dizer a verdade, o cérebro do miúdo já estava a ficar zombificado, ou não se compreenderia como é que lhe passava pela cabeça perdoar Negan. Perdoar Negan?! Negan é irredimível! Carl, que estás no Céu, lembras-te do Glenn? Já nem falo do Abraham e dos outros todos, mas o Glenn, lembras-te? O teu pai não te contou a história do tanque, em Atlanta, quando estava completamente à rasca e foi o Glenn que o safou? Sim, sei que nessa altura tinhas ido acampar com a mamã e o tio Shane, mas o pai não te contou? Que foi Glenn quem lhe salvou a vida? Pobre Carl, ainda estavas vivo e já estavas a ficar cerebralmente zombificado!
[* Pensei eu que foi em desespero de causa, e que a série se estava a afastar do enredo do comic porque não estava a resultar em televisão, mas as más línguas de Hollywood têm outra versão. A princípio dizia-se que Chandler Riggs podia ter de sair da série para ir para a universidade (bom para ele). Mas depois veio à tona que o contrato do actor tinha de ser renegociado por este fazer 18 anos, o que implicaria pagar-lhe mais. E soube-se que mesmo antes de sair da série Chandler Riggs tinha acabado de comprar uma casa perto do local de filmagens. Isto é, nem ele nem a família estavam a prever que o actor saísse da série, e os pais reagiram publicamente muito mal. Quem quiser que investigue a fundo e tire as suas próprias conclusões. Mas não deixa de ser curioso que por esta altura do campeonato se discuta mais os bastidores – quem sai e quem fica e porquê – do que a série propriamente dita.]
O preocupante, aqui, é que a decisão de matar Carl pode não ter sido motivada pela necessidade de melhorar o enredo, mas pelos motivos comerciais mais ridículos. Esta é, afinal, uma das séries mais lucrativas dos últimos anos (direitos de transmissão, publicidade, digressões, merchandising…). Não faz qualquer sentido. Nem acreditaria se não visse, mas efectivamente a série está a cortar no orçamento. Nota-se nos cenários repetidos, na escassez de filmagens exteriores que nos dêem a percepção do espaço, até na falta de figurantes. A partir da oitava temporada a desorçamentação começou a prejudicar a qualidade e é no mínimo triste assistir a isto de uma série como esta.

Adeus puto. Eras o futuro.

Levanta-te e acaba!
Mas de volta à ficção.
Então, mataram Carl. E agora? Carl era o futuro, o miúdo que já cresceu no mundo apocalíptico e melhor adaptado que ninguém a estabelecer a civilização do futuro. Este símbolo fulcral desapareceu. Pensarão, porventura, em transferir o símbolo para Judith? Durante temporadas e temporadas e temporadas de The Walking Dead até que ela cresça? Sou fã, mas já chega.
A única coisa que ainda pode salvar esta série é uma resolução, e depressa: que apareça uma cura para o vírus, que comecem a reconstruir a sociedade, que morram todos e ganhem os zombies. Qualquer coisa, desde que acabe! Pode ter-se tornado um cliché dizer isto mas efectivamente The Walking Dead é um zombie televisivo e precisa de ser abatido. Já foi suficientemente penoso observar a série arrastar-se durante a oitava temporada. A série não merecia isto e os fãs não mereciam isto. Que ao menos o fim valha a pena.


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quinta-feira, março 08, 2018

A Brief History of Goth: em desenhos animados!

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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

iZombie


Durante a primeira temporada de "iZombie", não sabia exactamente o que pensar desta série. Parece-me que os seus criadores também não sabiam se queriam fazer uma série dramática com momentos cómicos ou uma série assumidamente cómica com momentos dramáticos. Felizmente, ao longo da segunda e terceira temporadas, acertaram: série assumidamente cómica, em forma de policial, com momentos dramáticos e alguma comédia romântica. Mas não é um humor de sketches e gargalhadas. É um humor subtil e inteligente, cheio de referências e trocadilhos, que me faz sorrir mais do que rir. A bagagem dramática era excessiva no início, mas deu o peso suficiente às personagens que são tudo menos caricaturas.
Liv Moore, a nossa adorável protagonista, tinha a vida perfeita. A carreira perfeita em Medicina, a família perfeita, o noivo perfeito, a melhor amiga perfeita. Tudo era perfeito. Até que Liv vai ao sítio errado no dia errado e é contagiada pelo vírus que a transforma em zombie. Da vida perfeita Liv passa para uma morte clandestina que a força a consumir cérebros humanos para que o seu estado não se deteriore num zombie dos filmes de Romero (terminologia da série). Adeus à grande carreira. Liv tem de arranjar um emprego inferior na morgue da Polícia onde pode furtar cérebros à vontade. Esta mudança de... "circunstâncias", e de aparência física, obriga-a também a cortar laços com a família perfeita, e com a melhor amiga perfeita, e com o noivo perfeito.
Quando uma porta se fecha abre-se uma janela, porque na mesma morgue da Polícia trabalha também Ravi, outro médico brilhante que igualmente se teve de contentar com um emprego abaixo das suas habilitações após ter sido despedido do CDC por ter métodos geniais que não lhe são reconhecidos.
E aqui já começamos a ver um padrão, mas é quando o noivo perfeito de Liv, Major, se transforma também em zombie, que compreendemos definitivamente a mensagem de "iZombie": é quando as vidas perfeitas vão por água abaixo que os verdadeiros heróis se revelam. Liv, Ravi, Major, eram daquelas pessoas que tinham o Facebook cheio de sucessos fáceis, mas só a adversidade os tornou heróis. O mesmo pode ser dito do vilão, Blaine, com a sua quota parte de drama familiar a explicar-lhe o comportamento. (Pergunto-me porque é que resta ainda a perfeita Peyton, que eu positivamente odeio de tão perfeita que é. A torcer para que se transforme em zombie também e talvez ganhemos outra heroína que tem de se erguer das cinzas. Assim como é, Peyton nunca teve de se erguer de nada porque tudo lhe caiu do céu. Demasiado fácil para se conseguir torcer por ela. Peyton já tem tudo, não há nada por que torcer.)
Sim, a série encantou-me nesta abordagem de que as personagens só se transcendem quando perdem "a vida perfeita". Liv perdeu quase tudo, mas, com as suas visões induzidas pelo último cérebro consumido, descobriu uma nova vocação ao ajudar o detective Clive a resolver crimes. Ravi, similarmente, só se deparou com um desafio à sua altura ao tentar encontrar a cura para o zombismo (terminologia da série). Major, que já era um gajo porreiro, revelou-se um verdadeiro herói ao tentar travar a ameaça zombie (contra muitos zombies e contra si próprio, igualmente zombie). Até Blaine, o vilão, conseguiu transcender a sua vilania. Não há como não gostar destes personagens. (Excepto Peyton, blarg, que coisinha sem sal.)
A série não prende o interesse na parte de resolver crimes, alerto. Mas também não é por isso que vemos uma comédia sobre zombies, pois não? Queremos ver zombies que nos façam rir, e nesse aspecto a série tem vindo a superar-se de temporada para temporada.
Tenho de admitir que não percebo porque é que a Liv e o Major ainda não estão juntos outra vez, mas quero crer que seja o grande final feliz do último episódio da série. Ou eu vou ficar muito zangada!


Nem acredito no que digo, mas parece que ando a ver uma comédia romântica, e a gostar! (Que vergonha. Não digam a ninguém.) Mas também não é todos os dias que o nosso par romântico são ambos zombies e estão tão bem um para o outro. É impossível não lhes desejar que casem e façam muitos zombinhos e sejam felizes para sempre. E como já estão mortos, talvez seja mesmo para sempre.
Às vezes não é preciso uma vida perfeita, basta uma vida. Como diz o próprio nome da protagonista, liv moore: vive mais, antes que se acabe.



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sábado, janeiro 20, 2018

"A Relíquia", de Eça de Queirós


Li “Os Maias” duas vezes. A primeira, por curiosidade, aos dez anos. A segunda, já no liceu, para tentar perceber o que me tinha escapado em tão tenra idade. No meu percurso académico devo ter estudado “Os Maias” umas três vezes.
Perguntem-me pela história? Dois irmãos que não sabem que são irmãos têm uma relação incestuosa. Isto é o primeiro e o último capítulo, mais coisa menos coisa. O resto? Uma estopada insuportável que me fez renegar Eça de Queirós para todo o sempre. 
Até que me deram este livro. Foi efectivamente uma oferta e a sinopse conseguiu interessar-me: Teodorico Raposo, órfão e pobre, vê na fortuna da Titi o futuro de uma vida de luxo e gozo. Mas a Titi é ultra-beata e Teodorico tem de fingir sê-lo também para que a herança não lhe escape. Tanta falsa beatice leva-o a uma peregrinação na Terra Santa com a incumbência de trazer de lá à Titi a sagrada relíquia que a cure das suas enfermidades. E Teodorico encontra de facto a mais santa das “relíquias”, mas as coisas correm-lhe mal…
Ler esta “relíquia” foi para mim uma surpresa e conseguiu divertir-me do princípio ao fim. Quase me perguntava, ao começar o livro, mas porque é que não dão “A Relíquia” na escola em vez dos bocejantes “Maias”? Respondi a mim própria. Porque apresentar este livro cheio do sexo mais sórdido (“onde Vénus mercenária arrasta as chinelas”) diante de uma turma de adolescentes imberbes seria missão impossível.
Mais à frente, outra questão me assaltou e ainda me intriga: como é que este livro passou durante o Estado Novo? Não deve ter passado bem. Digamos apenas que só agora compreendo a estátua do Eça de Queirós na Rua do Alecrim, no familiar caminho do Cais do Sodré para o Bairro Alto. E este tempo todo a pensar que a mulher nua representava a Musa literária… Também sou muito inocente, sou.


Pior do que a Vénus mercenária, queridos leitores, este livro ainda hoje é susceptível de provocar ataques cardíacos a muito boa gente. Este livro, escrito nos idos 1887, diz que Cristo não ressuscitou. Diz que a morte na cruz foi uma farsa (e explica como) e que foram os apóstolos quem tirou o corpo do Mestre do túmulo que viria a aparecer vazio. Isto, na América de hoje, século vinte e um, era caso para queima do livro em cultos evangélicos. E tenho de me perguntar que reacção teriam as senhoras e senhores beatos do Estado Novo perante “A Relíquia”. Se calhar não era assim tanta porque só muito poucos sabiam ler, e “seleccionados” de “famílias certas”.
Mas a sensação que tenho ao ler este livro é de que as mentalidades estão a regredir à medida que o tempo avança, o que é preocupante. Não significa isto que concorde ou deixe de concordar com o furto do corpo de Cristo, nem vem ao caso. O que vem ao caso é escrever isto em 1887 e chegarmos a 2018 e ainda ser polémico que alguém escreva isto!

Teodorico é um tarado sexual
Devia ser fácil simpatizarmos com o pobre órfão Teodorico Raposo, obrigado pela necessidade de se fazer à vida a fingir-se um extremoso beato para agradar à Titi. A Titi, tão amiga da virtude que prefere deixar à Igreja a sua herança sem que lhe passe pela cabeça que a caridade e a virtude começam em casa, a isso obriga. Teodorico faz-se e desfaz-se em rezas e missas e águas bentas para provar à senhora que é suficientemente santo para merecer a fortuna.
Mas não é possível simpatizar com este Raposo, de tão falso, de tão ignorante, de tão tarado sexual. Homem feito e experiente, chega mesmo a ser apanhado a espreitar uma mulher nua por um buraco de fechadura. Mais tarde, durante uma viagem de barco, até uma monja lhe atiça o apetite. Já para não falar no putedo. Putedo chique e putedo baixo nível, Raposo nem sequer quer vinho verde, só quer mesmo as putas.
Como se não bastasse, nunca passa pelo miolo desta alminha trabalhar para ganhar a vida. Perfeito sociopata, quando lhe falha o grande golpe da relíquia falsa, torna-se em Lisboa vendilhão de relíquias acabadinhas de trazer da Terra Santa. Quando estas se esgotam, impinge frasquinhos de água da torneira como sendo do Jordão. Um cúmplice bem lhe diz: “Indecente!” Além da água do “Jordão”, Teodorico vende cacos do cântaro que Nossa Senhora levava à fonte, palhinhas do presépio, tabuinhas aplainadas por São José, ferraduras do burrinho que transportou a Sagrada Família para o Egipto. Catorze ferraduras, nem mais nem menos, do mesmo burrinho!
Eça de Queirós devia ter um profundo ódio à Igreja e à religião. A mim causa-me mais nojo tarados sexuais que vão ao Egipto e à Palestina (quando ainda não havia bombas e entifadas) e em vez de respirar o pó da História se metem num hotel com a primeira puta que encontram. São nojos, e o meu é este.
Escusam de me vir cá com “mas é uma personagem de sátira, não precisa de ser simpático, tem de ser é engraçado e interessante”. Teodorico não é simpático, nem engraçado, nem interessante. É uma besta. O gozo que me deu o livro foi torcer para que o Teodorico se desse mal, e de facto dá-se mal, e ainda se devia dar pior. Mas já lá vou.
Agora vamos ao que realmente me empolgou n’”A Relíquia” e me fez desejar que Eça tivesse escrito antes Fantasia.

A relíquia n’A Relíquia
Na Palestina, Teodorico tem um sonho. Não se percebe logo que é um sonho, truque usada por Eça para nos introduzir subitamente num relato surrealista que transporta os dois personagens, Raposo e o historiador alemão Topsius, seu companheiro de viagem, à fatídica Páscoa em que Jesus é crucificado.
E de repente é épico, é grandioso, é bíblico! É um narrador omnisciente disfarçado por trás do Raposo a contar-nos coisas que o ignorante bacharel de Coimbra jamais poderia saber, são personagens maiores do que a vida que parecem saídos d’O Senhor dos Anéis, é todo um mundo que nos é revelado como se fosse novo (de tão antigo) e que nos é estranho e intrigante como a mais moderna Fantasia. E que o Eça era capaz disto, não, eu não sabia. Durante páginas e páginas li, boquiaberta, e reconheci as influências de semelhantes obras estrangeiras do século dezanove com que aprendi a ler o que gosto.
Não é inocente que para a grandiosidade brilhar Raposo teve de se calar. E mesmo assim, em pleno Templo de Salomão na celebração da Páscoa, ainda consegue abrir a boca e dizer porcaria, que nada mais sai do meio daquelas barbas. Foi aqui que eu desejei que Eça tivesse antes escrito Fantasia, e abandonasse definitivamente o Portugalzinho dos diminutivozinhos, e as camisinhas da Mary, e as Adélias desta vida. Que desperdício!
O que me leva à célebre epígrafe com que o próprio Eça, em jeito de subtítulo, se achou obrigado a justificar esta obra: “Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia”. Não é a coberto de nenhum manto nem é diáfano, nem devia haver necessidade de justificar o surrealismo e o fantástico desta obra. O que me dói, porque prova que vem de longe esta mania da literatura portuguesa de que só o que é realista é que é bom, quando por outras paragens Horace Walpole já tinha publicado “O Castelo do Otranto” um século antes (1764).
É a este público de leitores de Fantasia e Fantástico que dedico esta crítica. A sátira do Eça já toda a gente conhece, tivemos de a estudar na escola, mas só por causa desta sequência na Terra Santa no tempo de Cristo vale a pena ler “A Relíquia”, é uma pena não ler a “A Relíquia”! Subitamente é outro escritor que se nos revela, é outro nível, é outra literatura. É a literatura que nos falta por todas as razões que aqui e aqui já debatemos. E por tudo isto foi uma agradável surpresa.

Terminado o sonho, lá voltamos ao Portugalzinho, à Lisboazinha, aos diminutivozinhos, aos jantarinhos da Titi, à reliquiazinha. À vidinha triste deste Raposo que arranja emprego na firma de um amigo de escola. (Lá está a cunhazinha.) Raposo não conseguiu a fortuna da Titi e por algum tempo parece emendar-se. Mas não se emenda. No fim do livro, ainda e sempre congemina as mentiras que devia ter dito mas não se lembrou de dizer quando as coisas deram para o torto. Raposo é incorrigível. Acabei com pena da Jesuína, a coitada com quem casou por interesse. Tirando esta, ninguém fica bem neste retrato excepto o tal douto Topsius, historiador alemão. Todas as personagens portuguesas são arrasadas. Excepto a Jesuína, poupada ao sarcasmo, talvez pela sua inocência.
Posto tudo isto, apesar do brilhantismo e do génio, começa-me a parecer que a sátira do Eça já denota a idade. É o destino de toda a boa sátira, trágico como a vida. Tem piada na altura, mas o tempo é implacável. Este já não é o mesmo Portugal, muitas ironias subtis já nos escapam, já não reconhecemos as personagens no nosso dia-a-dia. Ainda é divertido, mas cada vez menos. Vai chegar o dia em que a sátira precisará de ser explicada (como Gil Vicente tem de ser explicado para ser percebido), e esse será o dia em que a sátira morre. Triste fim mas bom sinal. Restará sempre deste livro, como de todo o realismo, um documento histórico que nos conta as verdades secretas de um Portugal extinto.
Mas por seu turno, o Fantástico não morre. Não importa que a sequência se passe na Páscoa de Cristo ou num qualquer mundo fantasioso sem tempo nem lugar. Fora do tempo e do espaço, a Fantasia vive na imaginação de quem se embrenha nela.
A cena em que Raposo encontra a árvore anuncia já que algo mágico vai acontecer muito em breve:

Rondando então em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: «Anda, monstro, dize! És tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabeça coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá… Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as caricias da oração—não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com tenção de curar a titi—então fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!… Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e não interromperes a appetecida decomposição dos seus tecidos—então vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram… Falla, monstro!»

O monstro não fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communicação esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio—como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse… E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Isto não vai morrer nunca. É aqui que está a relíquia.






[Li a versão pós-Aborto porque o livro foi oferecido e a cavalo dado não se olha o dente. Publico a capa da blasfémia como advertência.]


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sábado, janeiro 13, 2018

Fórum Beta Readers Portugal


O Fórum Beta Readers Portugal, ainda praticamente recém-criado, tem como objectivo ser uma plataforma de contacto entre escritores e beta readers.
Mas o que é um beta reader? Algo de quase desconhecido em Portugal, um beta reader é um primeiro leitor que lê e opina sobre um manuscrito no intuito de ajudar a melhorá-lo. O beta reading é muito praticado nos países anglo-saxónicos, e não apenas em regime de reciprocidade!, e até os nossos co-falantes brasileiros já lhe descobriram os benefícios. Aqui entre nós, quando procurei, não havia nada. Não existe o hábito, não se conhece a utilidade, não se consegue encontrar. O Fórum Beta Readers Portugal foi criado para preencher essa lacuna.
Nas palavras do fórum, "beta-readers são leitores e criticam o conteúdo da obra. Avaliam personagens e descrições, cenários e diálogos. Apreciam a criatividade, os pontos de vista e o encadeamento de ideias. Procuram buracos na intriga, coisas que não façam sentido e mostram que emoções sentem durante a leitura".
E não, "o melhor amigo, a mãe e o namorado não são bons beta-readers, porque gostam demasiado do autor e não lhe vão criticar a obra de forma objetiva". Ponto muito importante!
Outro ponto importantíssimo que é preciso desmistificar é que um beta reader não é um corrector gramatical e ortográfico. Muitas pessoas têm receio de que o escritor esteja à espera de um revisor! Não é esse o papel de um beta reader. Citando novamente o fórum, "não é suposto um beta-reader corrigir gramática e ortografia e reescrever passagens do texto. Isso é o trabalho de um revisor de texto".
Precisamente. Um bom beta reader critica, no sentido neutro da palavra crítica (que pode ser positiva ou negativa mas sempre fundamentada). Deve ser alguém que gosta de ler e de opinar e de explicar porque é que opina. Dizer "gosto" ou não gosto" ou, pior, não dizer nada, não ajuda o autor. O que ajuda é a opinião honesta e fundamentada. Neste caso, preferencialmente, e se possível, a opinião deve sempre ser construtiva. Um beta reader não lê para “dizer mal”.
Mas também não é preciso ter um curso em Literaturas e Linguísticas para comentar um texto. Esse é outro mito. Um bom beta reader reage e explica porque é que determinada história (ou passagem ou parágrafo ou frase) não funcionam para ele. Porque é que as acções de uma personagem lhe parecem incoerentes. Porque é que o enredo lhe parece confuso ou pouco credível. E porque tudo isto é subjectivo, é bom que o beta reader tenha um mínimo de simpatia pelo género que se propõe ler. De outra forma, é um sacrifício para o beta reader e de pouca valia para o autor, senão mesmo contraproducente.
Por exemplo, o que é que importa ao George Lucas que eu ache o Star Wars insuportável e infantil? Nada. Eu não sou o público alvo do Star Wars. A minha opinião é irrelevante. Como beta reader, jamais me ofereceria para ler um manuscrito do Star Wars. Embora pudesse opinar e explicar porque é que não gosto, de certeza que as minhas opiniões e explicações são exactamente o contrário do que os fãs pensam da saga.
Daí a importância de diferentes beta readers para diferentes géneros, e de uma plataforma onde os encontrar. A maioria dos beta readers são outros autores, e um regime de reciprocidade tem grandes vantagens em termos de disponibilidade, empenho e dedicação. Mas um bom leitor pode ser um excelente beta reader.
Para quem ouve isto tudo e pensa "trabalho", bem, não digo que não dê, mas também existem os benefícios:
Do ponto de vista do escritor, não há melhor maneira de melhorar o próprio trabalho do que analisar o trabalho de outros. Não sou eu que o digo, são pessoas com décadas de experiência em beta reading. Mas confirmo inteiramente.
Do ponto de vista do leitor também é muito gratificante. Ler (e até influenciar) uma obra por publicar num género de que se goste, não é trabalho: é prazer.
Para as pessoas que se interessam pela escrita e pela leitura, fica o link. Para visitar e divulgar. E talvez, quem sabe, participar? Só se perde o que fica por experimentar.

Fórum Beta Readers Portugal




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sábado, dezembro 23, 2017

O Exorcista (série)

[crítica à primeira temporada]

E depois da banhada que foi "Outcast", nada como uma série com demónios a sério, padres a sério, exorcismos a sério. Esta série não engana. É o que é, com muita acção e algumas surpresas!
Não vou estragar as surpresas. Direi apenas que é uma verdadeira sequela do filme e não tem vergonha de o ser. Se é uma boa ou má sequela, isso agora é outra questão.
Uma mulher católica e devota, Angela Rance, está convencida de que uma das suas filhas está possuída por um demónio e pede ajuda ao padre da paróquia, Tomas Ortega. Este, moderno e novato, começa por dizer-lhe que o Diabo é uma metáfora. Mas uma visita à casa de Angela fá-lo mudar de ideias.
Desde o início, a série é cheia de surpresas. Quem está possuído não é a irmã deprimida, como a mãe de ambas julgava, mas a outra, a que espalha felicidade. Muitas mais surpresas se seguem.


Se é uma série à altura do filme homónimo? Não. Nem por sombras. Tentou-se criar um ambiente semelhante, sombrio e ameaçador, mas nunca nos arrepia como o filme de 1973. Culpo principalmente os truques cinematográficos de fazer dar um salto na cadeira, que não passam disso, um susto gratuito e vazio, e efeitos especiais que nunca convencem, só prejudicam. Em certa medida, alguns destes efeitos especiais podiam estar no "Sobrenatural", especialmente aquele em que os demónios se manifestam como entidades de fumo que entram dentro do possuído pela boca. Tão Sobrenatural que quase esperávamos que ali entrassem os irmãos Winchester! Em vez deles, temos a minha cena preferida, a única que realmente me surpreendeu e empolgou.
Paralelamente à possessão que se passa na casa da família católica, onde já foi chamado também o exorcista puro e duro que é o padre Marcus porque era demais para o padre Tomas, os demónios da cidade têm em marcha uma conspiração para matar o Papa. (Parece ou não parece o Sobrenatural?) Um outro padre, o padre Bennet, entra sem aviso num desses antros de capangas possuídos… e eu pensei que ia acabar muito mal para o padreco. Pois não é que o padreco é um durão e dá uma valente coça aos possuídos? Mas não pareceu nada engraçado na altura. Foi de roer as unhas.
Entretanto, o nosso bem conhecido Pazuzu lá continuava a fazer as diabruras dele e a ameaçar torcer pescoços, mas nunca conseguiu ser a ameaça tenebrosa que nos deu pesadelos ao ver o filme original. Continua ordinário, continua porcalhão, continua a ser um bully, mas como todos os bullies ordinários e porcalhões já só nos causa desprezo, não medo. A série falhou, aqui, como sequela. As sequelas cinematográficas do primeiro filme conseguem reinventar Pazuzu e criar o mesmo ambiente de terror que nos desconforta e perturba. No Exorcista, série, já sabemos que aqueles padres durões vão dar uma coça ao Pazuzu e tudo terminará bem.
Mais interessante é mesmo a conspiração, mas quanto a esta é a motivação que falha. Por que diabo quereriam os diabos matar o Papa? Tal como disse aqui a respeito de "Outcast":
Aniquilar a “concorrência” vai contra o objectivo. Sem concorrência, como é que se corrompem as almas? A concorrência é necessária. Quanto maior e melhor a concorrência mais gozo em corromper as almas.
E é mesmo de acreditar que o assassinato do Papa por um padre possuído, transmitido em directo, causasse assim tanto choque numa era em que vemos ataques terroristas a torto e a direito? Não. Eu sei isto, vocês sabem isto, os diabos também sabem isto.
O Exorcista, série, não é portanto uma obra de excelência, mas vê-se com todo o prazer na sua simplicidade de não fugir às regras. Os diabos são maus, os padres são bons, as rapariguinhas são inocentes.
E repito, os padres são bons. Consoante a preferência, tanto o Tomas, como o Marcus, como o Bennet. Há para todos os gostos. Eu até já começava a ter um fraquinho pelo Marcus quando descobri que afinal o super-padre joga no outro campo. Sorte a minha! Escolho-os mesmo bem!...


Mas que dizia?... Ah pois, não dizia, porque não quero revelar mais nada. Recomendo aos amantes d’O Exorcista e a todos os amantes do terror em geral, não que esperem medo, mas entretenimento que baste com alguns apontamentos tétricos que não vão desiludir.
Eu cá vou ver a segunda temporada. Os padres Tomas e Marcus vão começar a trabalhar juntos e prevêem-se mais exorcismos a sério, demónios a sério, possessões a sério. Às vezes o prazer está nas coisas simples da vida.



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