Gotika
Diário pessoal do terror quotidiano.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
NOS4A2 / Nosferatu
Ao contrário do que o título indica, não é uma série de vampiros. Também não é um anúncio à NOS [eheh, não resisti]. O título é um trocadilho como se usa nas matrículas americanas. Lendo as letras em inglês temos algo como NOS-four-A-two, que soa quase a “nosferatu”. Não é um trocadilho muito bom e na minha opinião é um daqueles títulos que parecem giros em teoria mas que na prática nos levam a pensar em tudo menos no tema da história. Eu pensei, sinceramente, das primeiras vezes que vi o título, que ia ser uma série de espionagem e que NOS4A2 era um código qualquer. ("NOS4A2" é um livro original de Joe Hill.) Felizmente tive curiosidade em perceber que raio significava aquilo porque a série é interessante. Mas na minha opinião é um título francamente mau, e daqui não saio.
Também é um título mau pela razão óbvia que já referi: não é uma história de vampiros, pelo menos no sentido tradicional. É uma história sobre pessoas com poderes psíquicos (a que a série chama “criativos fortes” e que eu também acho uma designação péssima, por isso aqui vou só chamar-lhes “criativos”) que podem ser usados para o bem ou para o mal. Charlie Manx, o vilão, usa os seus dons para fazer muito mal. Este “criativo” descobriu uma maneira de usar os seus poderes para viver para sempre: alimentando-se de almas de crianças, que, uma vez “sugadas”, se tornam uns monstros pálidos de longos dentes. Mas não vampiros, porque comem a carne das suas vítimas. Manx é que chama nosferatu a si próprio (a petulância!) ao usar o tal NOS4A2 na matrícula do carro. Manx é velho, muito velho. Nunca é dito ao certo mas dá a entender que tem pelo menos 100 anos, se não mais. E é um “criativo” mais poderoso do que todos os outros que já o tentaram travar até ao momento. Para começar, Manx criou um espaço ficcional, mas real (é preciso ver para compreender), chamado Natalândia (Christmas Land), que usa para atrair as crianças. Esta Natalândia, baseada em temas natalícios e fofinhos, é um local sinistro a lembrar o filme “Nightmare Before Christmas”. Ora, eu odeio o Natal e deu-me gozo. Aconselho vivamente a toda a gente que também odeia o Natal.
Charlie Manx tem outra ajuda sobrenatural, um carro com vida própria, tipo “Christine”, que aprisiona pessoas no banco de trás e se conduz sozinho. Este carro deve ser o elemento mais sinistro de toda a série. Penso mesmo que o “nosferatu” é o carro porque é dentro e através do carro que as almas são sugadas e o espírito vital é transferido para Manx. Por motivos que não são explicados, a vida de Manx está “ligada” ao carro e quando o carro é atingido Manx fica às portas da morte. Chatices de viver para sempre a qualquer custo.
Este vilão anda a raptar crianças há quase um século (isto é, tendo em conta a data de lançamento do carro, mas ninguém nos diz que ele não começou antes) quando desta vez leva uma miúda ligada a outra “criativa”, Vic McQueen, que decide fazer-lhe frente.
Por vezes esta série toca perigosamente na treta dos super-heróis, Super-Fulano que tem o poder de fazer X, Super-Fulana que tem o poder de fazer Y, mas felizmente não cai completamente nisto. A série mantém sempre um bom nível de cenas perturbadoras, algumas bastante inesperadas como aquelas que incluem Bing, o ajudante de Manx, e que me surpreenderam pela perversidade sexual digna de um “Pshyco” numa série que é praticamente Young Adult de terror e em que a maioria dos protagonistas é adolescente.
Para além do terror e do sobrenatural, a história segue o drama bem mais prosaico da jovem Vic McQueen, que por si só valia uma série de outro tipo. Vic é filha de pais pobres e separados, ele mecânico de motas, a mãe empregada de limpeza. O género de pais que casaram muito jovens por causa da gravidez acidental e que nunca ultrapassaram esse ressentimento de abdicarem dos seus sonhos. Vic quer ir para a faculdade mas é difícil libertar-se desse ciclo de pobreza. Por exemplo, quer pedir um empréstimo para estudar mas nem sequer tem declarações de rendimentos dos pais porque ambos são pagos em dinheiro para se esquivarem aos impostos. Desta forma, Vic não consegue provar a sua necessidade de apoio. Para se candidatar ao empréstimo tem de falsificar documentos. Identifiquei-me com os problemas dela e o final deixou-me com um sabor amargo. Afinal, Vic não teve de desistir dos seus sonhos por causa do sinistro Charlie Manx ou devido a motivos sobrenaturais, mas por sua própria culpa. E tive pena. Queria mesmo vê-la entrar na faculdade e quebrar o ciclo, mas no meio disto tudo ela perdeu de vista os objectivos.
“NOS4A2” nunca é uma série tão arrepiante como podia ter sido e nunca me conseguiu arrebatar, mas vê-se com prazer (ou inquietação, neste caso). O terror nunca nos assusta mas a história vale mais pela dimensão humana do que por qualquer pseudo-nosferatu.
Deixo uma última nota à maquilhagem e aos efeitos especiais, esses sim verdadeiramente excepcionais, que conseguem convencer-nos de que Zachary Quinto é mesmo um velho centenário. Também gostei do truque em que a rapariga enfia o braço no saco das peças de scrabble e o braço parece mesmo desaparecer lá dentro. Até chega a fazer alguma impressão. E gostei de todas as cenas em que Vic atravessa a ponte, de mota, com os morcegos a esvoaçar e a imagem a inverter-se no écran. O tipo de cena que nunca mais se esquece. Nem que seja só por estes pormenores, é uma série que merece ser vista. Mas sem demasiadas expectativas.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
Millennium 1 - Os homens que odeiam as mulheres (2010)
Mikael Blomkvist é um jornalista de investigação contratado por um milionário para descobrir o que aconteceu à sobrinha deste, a adolescente Harriet, que desapareceu misteriosamente nos anos 60. Com a ajuda da jovem hacker Lisbeth Salander, Mikael começa a aperceber-se de que o desaparecimento de Harriet se relaciona com uma série de homicídios cujo padrão esta descobriu. Mas a verdade é que o serial killer está mais perto do que a distância de quarenta anos levaria a crer.
Esta é uma mini-série sueca com uma sensibilidade própria e europeia e cenas de violência (especialmente sexual) que não se vêem neste tipo de thrillers nos filmes de Hollywood (excepto em raros casos, conhecidos exactamente por essa violência). Lisbeth é uma personagem carismática e misteriosa que merecia ser mais desenvolvida. De salientar que Lisbeth é interpretada por Noomi Rapace, a mesma arqueóloga de "Prometheus”, aqui analisado há pouco tempo, e como ela está diferente e mais bonita com mais alguns quilos em cima. Porque em “Millennium 1” a rapariga estava tão magra que eu não percebi logo se era um homem ou uma mulher. Às vezes as pessoas melhoram com o tempo, como o vinho.
Recomendo esta mini-série, diferente das de Hollywood, mas muito bem feita.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
The Passage
Admito que é cada vez mais difícil escrever sobre vampiros de maneira original. É que já se fez tudo, tudinho, de uma forma ou de outra. “The Passage”, valor lhe seja reconhecido, consegue ser original durante todos os episódios… excepto o último.
Cientistas à procura da cura para a gripe das aves ouvem falar de um homem de 200 anos nas florestas da Bolívia a quem os nativos chamam “jararaca” (vampiro). Os cientistas não acreditam em nada de sobrenatural e vão visitar este homem na tentativa de compreender a sua longevidade. Só que este homem é um vampiro, e como os cientistas não dão ouvidos aos avisos, o vampiro acaba mesmo por morder um deles. Como toda a gente sabe, quem é mordido por um vampiro torna-se um vampiro.
Os cientistas não desistem. Recusam-se a acreditar em vampiros e começam a fazer experiências em condenados à morte com o ADN do cientista infectado, sempre em busca de criar o elixir da imortalidade sem os efeitos secundários do vampirismo. Manipulando geneticamente o ADN dos sujeitos, a quem eles chamam “virais” porque se recusam chamá-los vampiros mesmo quando alguns elementos da experiência já lhes chamam o que eles são, os cientistas descobrem que quanto mais jovem for o “sujeito” menos “efeitos secundários” manifesta. Estes efeitos secundários são mais que óbvios 100% vampiro: aspecto de nosferatu, intolerância ao sol, força sobre-humana, poderes psíquicos, e, claro está, os “virais” alimentam-se de sangue e matam sem pensar duas vezes. Para os controlar, os cientistas têm-nos detidos sob grandes medidas de segurança, inclusive a opção de os irradiar com luz do dia, e até têm uma carga de explosivos suficiente para detonar todo o laboratório se for preciso. Mas as experiências com pessoas cada vez mais novas estão a funcionar, e os cientistas têm a “grande ideia” de testar com uma criança. Entra em cena a nossa protagonista, Amy, a miúda órfã de uma mãe toxicodependente, a quem ninguém sentiria a falta se “desaparecesse”. A miúda é esperta e tenta fugir, e consegue mesmo que o agente que a rapta tome o seu lado e a ajude, mas nem mesmo assim têm hipótese. Todo o governo apoia esta experiência clandestina e a miúda é caçada como se fosse uma foragida e é mesmo levada para o laboratório onde é inoculada com o ADN do vampirismo.
Aqui começa a minha grande crítica à série (baseada no livro homónimo de Justin Cronin, mas não conheço o livro e não sei se a série o segue à letra). Os cientistas justificam o que estão a fazer com uma “ameaçadora” pandemia de gripe das aves, mas a série nunca nos mostra nada que nos convença da necessidade do sacrifício de uma miudinha. Pelo contrário, fora do laboratório está tudo normal, ninguém está doente, ninguém está a morrer. O que torna os cientistas nuns monstros maiores do que os vampiros por muito que digam que é para o Bem Maior, blá blá blá.
Estranhamente, apesar de a miúda acabar mesmo por se transformar em vampira, isto nunca tem a gravidade que devia ter. Os cientistas sempre tinham razão, o ADN funciona de forma mais “benéfica” numa criança e Amy é uma vampira diferente, mas nunca percebemos ao certo que tipo de vampira ela é e quais são os seus poderes e vulnerabilidades. Ou até mesmo se precisa de sangue para sobreviver/manter-se forte. E digo que é estranho porque a miúda é a personagem principal, contudo a série chega ao fim e não sabemos exactamente em que é que ela se tornou.
Gostei da parte da série que se passa no laboratório. Gostei principalmente da maneira que os vampiros usam para escapar, não recorrendo à força bruta, como costuma acontecer nestas coisas, mas usando em seu benefício a relutância dos seus captores em acreditar em vampiros. Foi muito original e inteligente. Até a mim me apanhou de surpresa. Sem dúvida o melhor momento da história.
E foi assim, a série prometia, até chegarmos ao último episódio. Nunca me passou pela cabeça que isto se transformasse em mais uma versão de The Walking Dead, com flechas e tudo. Vou fingir que a série acabou um episódio antes, quando ainda era interessante e original. Em resumo, uma série “que se vê bem” sem esperar grande coisa.
Labels:
crítica tv,
The Passage,
The Walking Dead,
vampiros
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
“Solstício”, conto de D. D. Maio, disponível em papel
Para os leitores à antiga, que gostam de tomar um livro nas mãos e afagar-lhe as páginas, “Solstício” já está disponível também em papel, na Bubok:
www.bubok.pt/livros/12040/Solsticio
O site Bubok permite o preview da capa e das páginas iniciais.
Para os amantes do e-reader, “Solstício” continua disponível para download gratuito em formato epub, aqui:
www.bubok.pt/livros/11942/Solsticio
“Solstício” é um drama romântico no género Low Fantasy. A acção centra-se em torno das celebrações do solstício de inverno em terras pagãs.
Sinopse
A noite mais longa do ano. Eric, o imperador, visita a sua prima Hildegaard nas Terras Verdes em busca da família que nunca teve e da esposa que quer vir a ter. Em terra de bruxas, sem acreditar nelas, espera-o confrontar-se com as suas próprias raízes num mundo isolado e proscrito que nunca conheceu, que nunca será o seu, e de que sempre fará parte.
segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Operador de Call Center, de H.M.S. Pereira
Encontrei este livro por acaso, na editora Bubok, já há alguns anos. Na altura estava disponível para fazer download gratuito. Fiz. Olhei para as primeiras páginas, achei a escrita decente, e guardei até ter oportunidade de ler. Actualmente parece-me que o livro só está disponível para venda em papel, mas posso estar enganada.
Admito que o que me atraiu imediatamente foi o título, operadora de hell center que sou também, mas o livro acabou por ser mais interessante do que esperava dele.
Esta é a história das peripécias de Henrique Pissada, jovem que desistiu dos estudos por desilusão com os cursos e que acabou a trabalhar na “LusoCabo” porque foi o que encontrou primeiro. Asseguro que todos os horrores descritos são verdade: os contratos renovados mensalmente pelas empresas de trabalho temporário, os subsídios de férias e Natal incluídos no “ordenado” para parecer às pessoas que ganham mais, o supervisor (único que não é sub-contratado) que passa lá o dia de manhã à noite, a mudança de instalações mês sim mês não, o trabalho em part time porque falar como um robô durante oito horas por dia é de uma violência que só quem já teve a experiência consegue compreender. Óptimo livro para quem nunca trabalhou num call center ficar a conhecer o que se passa com os desgraçados que atendem o telefone.
Mas não se pense que este é um livro “triste”. Pelo contrário, é uma sátira divertida a uma geração entre a minha e a seguinte, a geração dos que tiraram um curso e nunca tiveram oportunidade de trabalhar no que estudaram, dos que moram com os pais ou amigos ou desconhecidos, em quartos alugados, porque trabalham mas não têm independência financeira, dos sonhos acalentados mas inúteis, das noites no Bairro Alto à toa pelas ruas. Toda uma geração completamente à toa.
Henrique Pissada é um protagonista que nos faz rir. Directo, cínico, vai relatando as suas peripécias com uma linguagem autêntica, exactamente como se fala, até mesmo um pouco como se escreve num call center (Existe uma linguagem própria de call center. É como entrar numa realidade paralela.) Henrique Pissada é preguiçoso, indiferente, egoísta, algo desonesto, anti-social, e porco. Daqueles que só toma banho e muda de roupa porque tem de aparecer minimamente apresentável no trabalho. Só mesmo minimamente. Este gajo é tudo o que uma mulher detesta num homem e ainda se pergunta porque é que não tem vida sexual. Mas não é que lhe importe muito, porque acha que tê-la não compensa o trabalho que dá.
Também Henrique Pissada anda à toa, vivendo de dia para dia sem se preocupar com um futuro mais longínquo. E com razão, porque não há futuro longínquo no horizonte. O futuro acaba ao fim do mês, com a renovação ou não do contrato. Depois, não se sabe. Continua-se à toa.
Não julgava que ia gostar tanto deste livro, especialmente considerando o protagonista. Mas admito que também gostei do livro por causa do protagonista. Henrique Pissada despe-se, na primeira pessoa, e mostra-nos quem é, e diz as coisas que se calhar até todos pensamos às vezes sem nunca admitir. Eu admito que Henrique Pissada me fez rir para dentro muitas vezes, e uma ou outra vez até para fora.
Recomendo vivamente a toda a gente que gosta de sátira e não se importa de ler umas verdades.
Não sei se o autor escreveu mais livros, ou até mesmo a continuação das aventuras de Henrique Pissada, mas em caso afirmativo gostava de conhecer mais obras de H. M. S. Pereira.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
Alien: Covenant (2017) / Prometheus (2012)
Alien: Covenant (2017)
Como faço muitas vezes, comecei a ver este filme sem saber quase nada sobre ele. Nem que era de Ridley Scott, nem que era um filme da série Aliens, nem que era a sequela de “Prometheus”. (Da sinopse e título pensei que era a história de colonos espaciais que encontram uma civilização alienígena hostil.) Não saber nada de um filme (ou livro) permite-me absorver a obra sem expectativas ou ideias preconcebidas. E admito que fiquei agradavelmente surpreendida quando percebi que ia ser um filme da série Aliens. Até cerca de metade do filme gostei bastante. E de repente o filme tornou-se confuso. Comecei a ter a sensação de que tinha perdido um episódio. Efectivamente, perdi, porque ainda não tinha visto “Prometheus”.
Então a história é esta. A nave espacial Covenant dirige-se a um sistema solar distante na intenção de o colonizar. Mas, durante o caminho, recebe uma transmissão humana, vinda de um planeta tão propício à vida que é completamente compreensível que a missão decida investigar e, talvez, estabelecer-se mesmo ali.
Mas a transmissão é uma armadilha. E de quem? Ora, é esta a parte em que seria preciso conhecer o que aconteceu em “Prometheus” e em que comecei a ficar confusa.
“Alien: Covenant” começa muito ao estilo de “Odisseia no Espaço” (ou filmes semelhantes da altura, até nas roupas que parecem ter saído dos anos 70) com o criador de um andróide muito evoluído, e este próprio andróide, David, a terem uma discussão altamente filosófica sobre quem devia servir quem uma vez que o andróide é eterno e o criador é mortal.
Muda a cena, estamos na nave Covenant. Esta nave tem um andróide, que eu julguei que era o tal David (são iguais) mas afinal não era. Instala-se a confusão na minha cabeça.
A tripulação da nave desce ao tal planeta, onde começam a ser infectados pelo nosso alien do costume (afinal não fui assim tão enganada pela sinopse, simplesmente o alienígena hostil não é um desconhecido) através de esporos que entram pelo nariz, boca, ouvidos e outras reentrâncias do corpo humano. Mas a maneira como sai é a mesma: buraco entre as costelas e lá vai ele.
Entretanto, já andam pelo menos dois aliens adultos à solta ainda antes que a pobre tripulação perceba muito bem o que lhe está a acontecer. Quando estão a ser atacados, eis que entra em cena o primeiro andróide, David, o tal da primeira cena, com armamento que afugenta os aliens.
E aqui parece que o filme deixou o universo Aliens e entrou no universo O Senhor dos Anéis. David vem coberto com uma manta encapuzada à elfo, de longos cabelos loiros, no papel do estranho misterioso e cheio de poderes sobre-humanos que oferece ajuda.
Só percebi que era um andróide quando ele se volta para o andróide da nave e lhe chama “irmão”, e só aí percebi que o andróide da nave não era o mesmo do princípio.
Ok, avançamos. A tripulação é levada para as ruínas de uma cidadela completamente rodeada de cadáveres carbonizados (a lembrar Pompeia) e ninguém se lembrou de perguntar ao tal David o que raio se tinha passado ali. Entretanto, este explicava que era o único sobrevivente da nave Prometheus, dada como perdida, e a fonte da transmissão que leva ali a tripulação da Covenant.
O filme continua dividido em dois a partir daqui: por um lado, os recém-chegados da Covenant protagonizam um filme Aliens como estamos habituados, eles a fugir, os aliens a comê-los, enquanto que os dois andróides se retiram para mais uma conversa filosófica como se nada se passasse lá fora.
E aconteceu-me outro momento de grande confusão. O novo andróide, o tal David, subitamente aparece de cabelo preto e cortado, e quase igual ao outro, e durante toda a cena eu não percebi que era o mesmo actor a contracenar consigo próprio! Aqui tenho de dar os parabéns ao actor Michael Fassbender que me convenceu completamente de que era duas personagens diferentes a ponto de enganar os meus olhos. (Mas deixem-me explicar o motivo principal da minha confusão, que foi o cabelo loiro. Isto é explicado no filme anterior, “Prometheus”. Quem conhece os andróides de Aliens não lhes nota qualquer vestígio de vaidade ou vontade de ser diferente. Mas David, aparentemente, foi o primeiro andróide a ser criado e é muito mais humanizado do que os outros, o que se revela um problema. Sim, David decidiu mudar de visual. E isto baralhou-me tanto que passei o filme a tentar perceber quem era quem. Mas lá consegui apanhar o fio à meada e até adivinhei a reviravolta final.)
Fazendo justiça a Ridley Scott, se eu tivesse visto “Prometheus” primeiro esta confusão não se punha porque David é completamente inesquecível. O que só vem reforçar a ideia de que os filmes são episódios e precisam um do outro, e não aconselho ninguém a ver “Alien: Covenant” antes de “Prometheus”. A sensação de “episódio perdido” persiste até ao fim do filme. Comecei a ficar com a impressão de que “Alien: Covenant” se tinha passado antes mesmo do primeiro Alien, que este tal David é que tinha manipulado geneticamente a raça de aliens até estes se transformarem nos aliens que viemos a conhecer nas aventuras da Ripley, mas tudo isto apenas como hipótese e sem lhe conhecermos as motivações. Este David, neste filme, aparece como um Dr. Frankenstein apaixonado pelo seu monstro, um filme dentro de outro filme. Mas um filme que termina no Aliens “habitual”, com todas as reviravoltas que esperamos desta saga. Se alguém tem o direito de inovar é mesmo Ridley Scott, realizador do “Alien” original, mas parece-me que ele tentou fazer a sua “Odisseia no Espaço” ao mesmo tempo que dava à audiência a dose de aliens de que esta estava à espera. Se resultou? Bem, é uma boa dose de aliens com todos os condimentos habituais, mas “Alien: Covenant” continua a parecer dois filmes que só por coincidência se interceptam e no meu caso com um “episódio perdido” pelo meio. Por este motivo, culpa minha que não vi “Prometheus” antes, abstenho-me de dar nota por agora.
Prometheus (2012)
“Prometheus” não é a dose habitual de Aliens. É um filme filosófico e ambicioso sobre a origem da vida, especialmente sobre os motivos do criador e a sua relação com as criaturas que concebeu.
O filme começa quando uns arqueólogos, na Terra, descobrem gravuras rupestres que apontam para uma raça estelar semelhante à humana e para um sistema solar longínquo que, segundo estes acreditam, é o lar dos nossos Criadores, a quem chamam os Engenheiros. Esta descoberta leva-os a uma viagem ao tal planeta dos Engenheiros, na esperança de conhecerem a espécie que deu origem à raça humana.
Enquanto a tripulação dorme na nave que a transporta até lá, voltamos a encontrar o andróide David (o mesmo de “Alien: Covenant”) e percebemos porque é que ele pinta o cabelo. David pinta o cabelo de louro depois de ver “Lawrence da Arábia”, o seu herói. E um andróide com um herói é um andróide com personalidade. David é, indubitavelmente, o personagem principal, um andróide com um complexo de superioridade em relação aos seres humanos que o criaram e que o tratam como a um robô sem sentimentos nem intelectualidade. David está chateado e tem motivos para estar chateado.
Ao chegarem ao planeta dos supostos Engenheiros, hominídeos gigantes que nos teriam criado à sua imagem, mas agora aparentemente extintos, David encontra, primeiro que todos, uma outra criação dos Engenheiros, uns estranhos micróbios cuja finalidade desconhece. Mas começa imediatamente a testá-los nos humanos, especialmente nos humanos que o tratam pior.
Há muitas cenas arrepiantes neste filme, mas na minha opinião a pior de todas é a operação à barriga. Não faltam outras, igualmente de arrepiar os cabelos. Ninguém vai sair deste filme insatisfeito nesse departamento. Os efeitos especiais são particularmente convincentes.
Mas como este não é um filme de aliens qualquer, a nossa curiosidade é conduzida para esta raça de gigantes que supostamente nos criou. Após pesquisarem as instalações que os Engenheiros deixaram no planeta, a tripulação da Prometheus percebe que este não é um lar mas uma base militar, e carregadinha de armas de destruição maciça (o micróbio alien). Visualizando gravações de imagens, percebem que os Engenheiros se preparavam para voltar à Terra com o objectivo de destruir a humanidade que eles próprios criaram.
Mas se dúvidas houvesse, David o andróide descobre que um dos Engenheiros ainda está no complexo, vivo, numa câmara de hipersono. A tripulação acorda-o e tenta estabelecer comunicação com ele, mas o gigante não quer conversas e desata a matar toda a gente que apanha. Não bastando fugir dos aliens, agora têm de fugir dele também.
Voltemos ao princípio. Filme filosófico e ambicioso em que a humanidade se confronta com o seu criador. Este criador, aparentemente, mudou de ideias e resolveu destruir a sua criação. Que moral, ensinamento, conclusão tiramos daqui?
“Porque é que queres saber porque é que eles mudaram de ideias? É irrelevante. Não compreendo.”, pergunta David à arqueóloga.
“Não compreendes porque tu és um robô e eu sou um ser humano”, responde ela.
Ainda bem que eu também sou um ser humano porque eu também queria muito saber porque é que os Engenheiros se deram ao trabalho de criar a humanidade para depois a destruir. Isto é, posso tecer milhentas conjecturas sozinha, mas o filme não oferece nenhuma. Temos de ficar com esta ideia “interessa-nos porque somos seres humanos”. Fraquinho, muito fraquinho. Eu esperava, no mínimo, uma teoria. Um motivo. Afinal ficamos na mesma.
De igual forma, não percebi o Engenheiro suicida que se mata com uma dose de micróbios alien no princípio do filme enquanto vê a nave do seu povo afastar-se. Dá ideia de que foi o único que ficou no planeta, mas afinal não, porque havia outro em hipersono. A única pista sobre este suicida é uma menção no genérico final como aquele que se “sacrifica”, o que ainda é mais confuso. Do que vimos nas tais imagens deixadas por eles, tiveram de fugir à pressa porque as experiências com aliens não correram bem. (A única parte que se percebe perfeitamente, conhecendo nós os aliens como os conhecemos.) Então quando é que isto (o suicídio/sacrifício) aconteceu? Terá sido neste planeta, como parece dar a entender, ou no deles, ou na Terra, ou noutro lado qualquer? Mais uma vez podia pôr-me aqui a tecer conjecturas, mas o filme não dá respostas. “Alien: Covenant”, a sequela, também não nos explica mais sobre esta raça de gigantes excepto o massacre que se vê na tal cidadela de que falei acima. E que mais uma vez nos deixa sem saber nada.
As únicas respostas que temos, tanto em “Prometheus” como em “Alien: Covenant”, são sobre a origem dos aliens. Afinal começaram como micróbios (ou esporos, não percebi bem) e foram sendo geneticamente manipulados (e evoluindo por eles próprios, igualmente, com a ajuda dessa manipulação), primeiro pelos Engenheiros e depois pelo próprio David, antes de serem o alien que conhecemos da nave Nostromo. Uma coisa é certa, no entanto: até como micróbios os aliens eram extremamente mortíferos, se não mais, porque não se viam a olho nu e mesmo assim entravam no corpo do hospedeiro e faziam aquilo que se sabe.
Gostei mais de “Prometheus” do que de “Alien: Covenant”, e gostei mais ao segundo visionamento. A primeira vez que vi fiquei confusa, a perguntar-me o que me tinha escapado. Afinal não me escapou nada, mas estes dois filmes têm ar de trilogia incompleta. As intenções são claras, fazer um paralelo entre a nossa criação, ou mitologia dessa criação, com a criação dos aliens, e de como acabamos todos por ser espécies a competir pela vida num universo indiferente, abandonados por um Criador que não se importa. Muito existencialista. Mas parece-me que Ridley Scott queria dizer mais e ainda não foi desta que conseguiu. A existência e motivação dos Engenheiros é interessante e misteriosa e merecia um filme só para eles. Até sem aliens.
Também gostei muito de toda a imagética criada em “Prometheus”, a começar pela primeira cena. Só é pena deixar tantas perguntas a que a sequela também não responde.
Fiquei interessada e fui investigar. Parece que Scott prevê realizar outro filme ainda só denominado “Untitled Alien Prequel". Por mim, que venham mais. Que venham todos.
Alien: Covenant
14 em 20
Prometheus
15 em 20
segunda-feira, 14 de outubro de 2019
Noah / Noé (2014)
Esta é a história bíblica de Noé e do dilúvio, versão Senhor dos Anéis com preocupações ecológicas.
Qualquer filme sobre acontecimentos bíblicos é um filme altamente escrutinado. Quem os faz também sabe disto. Depois é uma questão de perceber se o realizador quer seguir tudo à letra (“A Paixão de Cristo”) ou ser “criativo”. Aqui foram um bocadinho mais criativos, na minha modestíssima opinião, do que um filme bíblico devia ser. Não é que não compreenda as preocupações ecológicas para tornar o filme actual e relevante, mas não era preciso pôr esta gente antediluviana a disparar armas de fogo.
Há mais. Por exemplo, os anjos caídos (sim, os tais que seguiram Lúcifer) transformaram-se em pedregulhos animados a lembrar os Entes de Tolkien (porquê, oh, porquê?) e ajudaram Noé a proteger a Arca dos maus. (Se Jeová soubesse que Noé estava a ser ajudado por demónios nem Noé se safava.) Matusalém (Anthony Hopkins, com a sua cara sinistra de Anthony Hopkins), na Bíblia o homem que viveu mais anos em toda a humanidade (969 anos, não é brincadeira) e avô de Noé, tem poderes mágicos que fariam inveja a um Gandalf. Se calhar aprendeu-os dos demónios? Ai se Jeová soubesse disto tudo, Deus os livrasse! É só ler o Velho Testamento para perceber que Jeová Deus dos Exércitos não gostava nada de magias nem de feiticeiros. Mas quem fez o filme não se ralou nada com isso.
Quando se vê um filme sobre Noé, é natural esperar grandes efeitos especiais em duas vertentes principais: os animais e o dilúvio propriamente dito. E com isto falo de efeitos especiais de grande envergadura, daqueles tão caros que obrigam a que só se faça um filme sobre Noé de 50 em 50 anos. Nos animais, fiquei decepcionada. Muito pouco, poucochinho. Poucos animais, pouco detalhados, vistos ao longe. Eu queria ver os bigodes dos leões e os pêlos nas trombas dos elefantes. Fiquei desapontada. Já o dilúvio, a princípio não se distingue de uma chuvada normal. Fica um bocadinho melhor com os geisers (as águas da terra) e as vagas que finalmente cobrem o horizonte. A imagem da Terra vista do espaço, completamente envolta em furacões, como se fosse uma fotografia de satélite, também foi algo de inesperado e original num filme inspirado em temas bíblicos.
Porque convenhamos, um filme destes, quando não segue a história à letra, fica reduzido aos efeitos especiais. Todo aquele drama que acontece dentro da Arca, com Noé a querer matar as netas recém-nascidas (Jesus, que homem tão mau), armado em mais jeovista do que Jeová, completamente fanático e tarado, tipo líder de culto que decide matar todos os seguidores, isso nunca acontece na Bíblia nem nada que se pareça. Aquilo foi tudo para dar que fazer à miúda do Harry Potter. Só para repor a verdade, todos os filhos de Noé já tinham esposas antes de entrarem na Arca. E não entrou nenhum “homem mau” na Arca a matar os animais. Se isso acontecesse, na Bíblia, aparecia-lhe logo um daqueles anjos exterminadores de Sodoma e Gomorra e da Páscoa do Egipto que lhe ensinaria o significado da expressão “o temor de Deus”. Melhor gente foi fulminada por muito menos. A mulher de Ló, transformada numa estátua de sal só porque olhou para trás. Nunca, mas nunca, o Criador permitiria que se destruísse parte da sua criação que ele já tinha deliberado salvar. (Na altura Deus intervinha. Agora é que não.)
A única coisa em que o filme conseguiu acertar foi em convencer-nos da maldade dos contemporâneos de Noé. Existe uma cena bastante perturbadora que parece mesmo uma visão do inferno em todo o seu esplendor medieval, com fogo e tudo. Mais apropriada num cenário pós-apocalíptico mas completamente eficaz.
Onde o filme errou completamente foi na caracterização de uma das “personagens” principais desta história, o Deus do Velho Testamento, aquele que mandou o dilúvio. De forma alguma aqueles demónios seriam perdoados e admitidos de volta ao Céu. Basta ler o Génesis, o Êxodo, e quem não gosta do Velho Testamento que leia os Evangelhos e atente no que Jesus diz de Lúcifer e afins, culminando no Apocalipse/Revelação (o lago de fogo). Que história é que estavam mesmo a contar, afinal?
“Noé” não seguiu o relato bíblico e o fim soou mais vazio do que era claramente a intenção. A grande história de Noé e do dilúvio é a explicação da relação de Deus com os homens. De como Deus perdeu a cabeça com a humanidade e decidiu destruir quase tudo para começar de novo, e no fim arrependeu-se. É este o significado do arco-íris. Mas, ao arrepender-se, foi o momento em que Deus começou a decidir parar de intervir, e, consequentemente, a começar a afastar-se. Foi dado livre-arbítrio à humanidade, mas que faz a humanidade com esse livre-arbítrio quando Deus se afasta? Este é que é o grande tema filosófico do dilúvio, mais filosófico até do que religioso porque não é preciso ser-se crente para o compreender.
“Noé”, o filme, deixou Deus de lado e reduziu tudo isto a um duelo entre maus e menos maus. Ainda por cima a armar-se ao Senhor dos Anéis.
Sinceramente, não gostei.
12 em 20 (os pontos são para os efeitos especiais)
Subscrever:
Mensagens (Atom)








