domingo, 19 de agosto de 2018

Blog em obras



Após anos de resistência, finalmente decidi experimentar um template mais interactivo. Aqui está ele. Com mais funcionalidades, maior facilidade em seguir posts mais antigos, procurar por etiquetas, lista de updates dos blogs que sigo, essas modernices todas.
Não estou muito satisfeita com o resultado estético. Os templates disponíveis não deixam mudar tudo o que se deseja. Por exemplo, o título do blog. Nem sequer posso escolher pô-lo à direita, à esquerda ou ao meio. No texto e links abaixo dos posts também não consigo mexer. É frustrante.
Assim, o blog vai andar em obras até eu conseguir olhar para ele sem me chatear.
Como é tradição nacional, não é para fazer; é para ir fazendo.
 

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Final Destination 2 / O Último Destino 2 (2003)


Não é todos os dias que podemos dizer que uma sequela é melhor do que o original. É precisamente o caso com O Último Destino 2. Neste, já não encontramos as falhas de lógica que prejudicaram o primeiro filme. Tudo é surpreendente e faz sentido. Mas conseguirão enganar a morte?
Nesta sequela, uma jovem tem a visão de um sangrento choque em cadeia. Petrificada, já não consegue prosseguir viagem, e assiste ao concretizar da sua visão: acidente na estrada, mortos e feridos. A primeira surpresa acontece logo com os amigos que a acompanham no carro. Julgamos que vão ser eles a ser perseguidos pela Morte quando subitamente um camião os cilindra a todos ainda no local do acidente. (Eu não esperava isto, confesso). Chega-se depois à conclusão de que desta vez a Morte está a corrigir o seu desígnio em ordem contrária: do último que devia morrer ao primeiro. O que torna a jovem da visão a última vítima.
Desta vez aparece também o cangalheiro sinistro, mas pelo menos já nos dizem que ele “sabe muito destas coisas”. Isto torna-o mais do que um cangalheiro e o personagem faz mais sentido do que fazia no primeiro filme.
O Último Destino 2 vê-se muito melhor do que o original. Se calhar ajuda a interpretação de A.J. Cook (que conhecemos de “Mentes Criminosas”, aqui tão nova e rechonchuda, no bom sentido, que me custou reconhecê-la). As mortes continuam a ser rebuscadas, mas não tão delirantes, o que só reforça a credibilidade.


Apesar de achar que este filme é melhor do que o primeiro, acabo por dar-lhe a mesma nota porque o princípio da série sempre tinha o ponto da originalidade.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Land of the Dead / A Terra dos Mortos, de George A. Romero (2005)


O título deste filme podia ser “A Fúria do Herói Zombie”. Um dos heróis do filme é mesmo um zombie revoltado com a maneira indigna com que os vivos tratam os da sua espécie. O que por si só já nos diz que este não vai ser um filme de zombies igual aos outros.

Os novos zombies
É praticamente um facto sociológico: o imaginário do zombie, como o conhecemos, surgiu numa época de inquietação existencial perante a alienação das massas cada vez mais passivas. Os anos 60 e 70 foram as décadas em que a geração dos Baby Boomers chegou à idade adulta. Os Baby Boomers nasceram nos anos após a segunda guerra mundial (em que houve um verdadeiro baby boom, daí o nome). Em relação à geração anterior, que teve de suportar a Grande Recessão, o rescaldo da Primeira Guerra Mundial e a Segunda, e as várias misérias decorrentes da situação internacional, os Baby Boomers foram uns privilegiados. A vida era simples e o caminho bem definido: escola, emprego, casa e filhos. Os salários eram razoáveis, havia emprego para toda a vida. Toda a gente tinha carro e dinheiro para gastar no passeio semanal ao supermercado. Instalou-se o consumismo. A vida era estável. Melhor do que na geração anterior, melhor do que na geração seguinte (nós, os Generation X, e nem falo dos Millenials, nem sabemos o significado de estabilidade). Era a geração que se podia “dar ao luxo”. A vários luxos, na verdade, como a alienação voluntária do flower power e do make love not war. Mas até os hippies assentavam, mais tarde ou mais cedo, para engrossar as massas consumistas e alienadas de uma rotina sempre igual.
Contudo, o medo existia, latente, cinematograficamente espelhado nos filmes de terror: o Twilight Zone, as invasões alienígenas, os insectos gigantes resultantes de experiências nucleares, e os zombies. As próprias massas mortas vivas a devorarem-se/consumirem-se a elas próprias.
Comparemos estes zombies iniciais com o que temos agora. Em The Walking Dead, feito para gerações em que a palavra “estabilidade” já nem existe, o importante é sobreviver. Subsistir mais um dia, à precariedade, às contas a pagar, a tentar viver debaixo de um tecto sem acabar na rua. Sobreviver aos energúmenos que nos acusam de viver “acima das nossas possibilidades” quando na verdade vivemos abaixo das nossas potencialidades. Talvez sejamos zombies também, meio vivos e meio mortos de cansaço, a geração no future que já sabia que nunca o ia ter, mas somos uns zombies diferentes. Os nossos heróis anti-zombie já não se limitam a fugir e a esconder-se e a esperar pelas autoridades. Os nossos heróis anti-zombie só contam consigo próprios.
Land of the Dead, de 2005, é algo na transição entre os filmes de zombies invasivos e os filmes de sobrevivência feroz em que da sociedade como a conhecemos já só sobram resquícios. No apocalipse zombie as ameaças vêm de todos os lados. Os vivos são muito mais perigosos do que os mortos. Land of the Dead vai nesse caminho, mas ainda não chega lá.


Os zombies também se revoltam
Comecei a ver este filme com zero expectativas. O filme que iniciou o universo zombie de George A. Romero, “Night of the Living Dead”, de 1968, foi um dos mais assustadores que já vi na vida. Apesar de ser a preto e branco, ou mesmo por causa disso (a televisão da altura era a preto e branco, o que quase lhe atribuía uma aura de “documentário”); apesar da pouca caracterização dos mortos-vivos, dando-lhes um aspecto mais realista de “cadáveres frescos”; apesar da explicação de que a “ressurreição dos mortos” era causada por uma contaminação radioactiva no cemitério (lá está, o medo latente da Guerra Fria). Os restantes filmes de Romero, lamento dizê-lo, aqueles a cores e com muito ketch up, começaram a tender para o exagero e a palhaçada. Interessantes para ver sem pensar muito. Maus efeitos especiais, zombies a invadir supermercados e a conduzir carros. Com estas memórias, também não esperava muito de “Land of the Dead”. Tendo em conta estas expectativas fiquei agradavelmente surpreendida.
Em Land of the Dead, já estamos em pleno apocalipse zombie, com todas as regras que conhecemos. Mas ainda não é a sociedade esfarrapada de The Walking Dead. Os vivos vivem em cidades bem vedadas e defendidas. Equipas bem preparadas vasculham os arredores abandonados em busca de provisões. Numa dessas excursões de busca, o nosso herói “vivo” (Simon Baker do “Mentalista”) repara que um dos zombies manifesta inteligência acima da média zombiesca. Este nosso herói zombie, a que o filme chama Big Daddy, está cada vez mais indignado com os massacres que os vivos infligem aos zombies. Esquecendo, é claro, que os vivos matam os zombies porque os zombies comem os vivos. Mas este zombie está muito revoltado, se calhar com as indignidades com que os vivos chacinam zombies sem distinção: velhos, mulheres e crianças. Os outros zombies não são tão espertos, mas Big Daddy consegue liderar uns quantos numa marcha de indignados para se vingarem dos vivos “maus”.
Isto parece palhaçada mas o filme consegue fazer-nos empatizar com estes zombies maltratados. Até temos pena deles.
Do lado dos vivos também há grandes injustiças. Uma elite de poderosos, ricos e privilegiados, vive num arranha-céus com tudo do bom e do melhor enquanto uma maioria de pobres e excluídos subsiste das sobras nos “subúrbios” da torre. Também alguns destes excluídos se encontram indignados e a planear uma revolta. Estas intenções valem-lhes repressão brutal por parte do chefão das elites.
Este é um mundo onde o dinheiro ainda existe e vale bastante. Um dos membros da equipa consegue juntar o suficiente para comprar um lugar no arranha-céus mas é rejeitado com desculpas. Mas ele sabe, e nós sabemos, que está a ser rejeitado porque é hispânico. Não faz parte da elite, não tem qualquer possibilidade de ascender na vida. Revoltado, também este jura vingança. Já o nosso herói do lado dos vivos só deseja comprar um carro que o leve para bem longe, para onde não haja zombies nem pessoas. (Amigo, como te compreendo! Era exactamente o que eu fazia!)


Todo este ambiente de tensão resulta na destruição da cidade. O zombie Big Daddy aprende por acaso a disparar uma metralhadora e consegue ensinar os outros a fazer o mesmo. [Zombie Rambo] Também os ensina a atravessar um rio, simplesmente caminhando debaixo de água já que não precisam de respirar. [Zombie ninja] Não se vê claramente, mas é ele e o seu exército zombie que consegue fazer explodir as defesas da cidade. É a fúria do herói zombie.


O final é estranho. O nosso herói vivo, relutante mas bonzinho, decide poupar estes zombies espertos. Porque o faz é um mistério. Se calhar porque compreende neles uma consciência de si próprios? Se calhar porque os considera também excluídos, como a grande massa de gente viva nas mesmas condições?
Claramente, a preocupação social do filme já não deriva do consumismo e da apatia, como os originais, mas de uma preocupação com a desigualdade que em 2005 já deve ser gritante. A América já não era a terra das oportunidades. Até os zombies se revoltam, e com razão.


É um filme diferente dos zombies de até então, com algumas cenas perturbadoras que me surpreenderam. Já não julgava que depois de tantos filmes do género ainda alguma coisa me impressionasse, mas aquela cena do umbigo faz mesmo impressão.
The Walking Dead criou outro patamar de qualidade que filmes anteriores não conseguem alcançar (tirando o original “Night of the Living Dead”, de 1968, que é realmente arrepiante), mas este Land of the Dead é um filme cheio de acção que merece ser visto. Gostei de encontrar motivações em todos os personagens, até nos zombies. As diferentes perspectivas conseguem criar-nos empatia e dividir-nos entre a ameaça colocada pelos mortos-vivos e as dúvidas que Big Daddy nos suscita.
Não é uma obra prima, mas vê-se bem.


Curiosidade: neste filme os mortos-vivos já são chamados de “walkers” e “stenchers”. Julguei que “walkers” era originalidade de The Walking Dead, mas enganei-me. É do mestre Romero.


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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Final Destination / O Último Destino (2000)

 

(crítica ao primeiro filme da série “Final Destination”)

Este filme podia ter sido muito melhor do que é. Tendo em conta o género, a princípio quase nos convence de que vai ser um filme de qualidade. Mas depois começa o disparate.
Um jovem em viagem de finalistas tem um sonho/visão em que o avião em que vai viajar se vai despenhar. Já dentro do avião, entra em pânico, gera-se uma comoção, e a tripulação acaba por expulsar toda a gente que está de pé nesse momento. O avião descola e explode em minutos. A seguir ao desastre, a professora e alunos que foram expulsos do avião começam a morrer, um a um, em acidentes bizarros.
A sequência do desastre do avião é aterradora. Só por ela já vale a pena ver o filme. (Mas previno que pode fazer muita gente pensar duas vezes antes de entrar novamente num avião.)
A seguir à tragédia, o filme é sério e sóbrio. Os personagens reagem como pessoas normais nestas circunstâncias. Começamos a ficar convencidos de que estamos a ver um filme que nos vai marcar para sempre. E lá potencial ele tem.
A primeira morte está muito bem feita. Até nos fazem acreditar, durante longos segundos, que o personagem tem alguma hipótese de se safar.
E depois começa o disparate. O tal jovem das visões sabe da morte do amigo e deduz, sem mais nem ontem, que se ele morreu todos os que escaparam ao acidente de avião vão morrer também. Não há qualquer lógica a substanciar esta conclusão. Não há sequer ninguém que conteste que pode ter sido apenas uma coincidência. O filme tem tanta pressa em chegar lá que toma um atalho desnecessário e evitável. Bastava que só se começasse a desconfiar que não era coincidência à segunda morte. Assim já fazia sentido. (Curiosamente, já vi “O Último Destino” 2 e 3 e em ambas as sequelas esta questão foi tratada com a lógica devida. Só começaram a suspeitar que eram “perseguidos” quando tal se tornou óbvio.) Infelizmente, é aqui que o filme começa a derrapar. E nunca mais pára.
O tal jovem e outra sobrevivente decidem entrar na morgue à socapa, porque ele quer ver  corpo do amigo para perceber se podia ter “antevisto” o perigo. Ora, isto é gente de 17 ou 18 anos, não são miúdos da primária. Já deviam ter tino para não andarem a arrombar morgues se, afinal, até podiam ver o corpo durante o funeral. Mas a este arrombamento idiota segue-se uma cena ainda mais idiota, em que aparece um sinistro cangalheiro a avisá-los de que “a Morte tem um desígnio”. Eles enganaram esse desígnio por acaso mas a Morte não os vai deixar escapar. As palavras e o comportamento do cangalheiro são tão estranhos que ficamos a pensar que esta é uma qualquer figura sobrenatural ligada à “maldição”, ou até a própria Morte. Se calhar era isso que o argumentista queria explicar mais tarde, mas não houve tempo no filme (?) e o cangalheiro aparece ali como uma personagem absurda. Nunca mais o vemos.
A seguir, uma série de mortes, cada uma mais rebuscada e implausível do que a outra. Admito que são imaginativas, mas tão delirantes que nos lembram de que afinal é só um filme. E ao lembrarem-nos de que é só um filme arrancam-nos dele, onde nos tinham conseguido submergir com o bom início. Nunca mais conseguimos levar o filme a sério. O que é pena, porque a ideia é boa e tinha potencial para meter medo.
Mas depois pensei melhor e cheguei à conclusão de que foi feito assim de propósito. Este é um daqueles filmes a que chamam essa coisa odiosa de “filmes para adolescentes”, como se os adolescente não fossem capazes de apreciar um filme sério e sombrio. Para não assustar muito os “meninos”, o filme torna-se disparatado para os tranquilizar de que nada daquilo é realidade.
Confesso que até achei estranho que um filme deste tipo tenha posto os personagens a trocar diálogos existenciais sobre a brevidade da vida e a inevitabilidade da morte. Tudo muito levezinho, mas as questões filosóficas não deixam de ser abordadas. Um ponto extra por isso.
O final é fraquinho. Seis meses depois de tudo acalmar, a Morte volta ao ataque. O próprio filme admite que deixou pontas soltas que não chegou a explicar, mas a maior de todas é esta: o que andou a fazer a Morte durante seis meses? Foi de férias?
Ressalvo, no entanto, que este não era o fim original. Antes deste, tentaram fazer não apenas um mas dois finais que foram rejeitados pela público-teste por serem demasiado pesados. Este final não era o que os criadores do filme tinham em mente. Foi o final que “passou” nos testes de audiência. Melhor que o filme tivesse acabado cinco minutos mais cedo.

Em suma, se Final Destination tivesse mantido o tom sério do início e se as mortes não desafiassem a credibilidade, este podia ter sido um excelente filme. Mesmo assim recomendo a todos os apreciadores de terror, nem que seja pelo conceito e pelas influências futuras no género. Quem ainda não viu pode contar com uma hora e quarenta minutos de entretenimento.
E sempre tiramos do filme esta pérola de sabedoria prática: beber vodka de uma caneca é muito perigoso. Pela garrafa é que é.


Curiosidade: Já no fim do filme, quando os protagonistas estão em Paris, vê-se em background um cantor de rua. Este ilustre desconhecido, que nem sequer é mencionado nos créditos, é nem mais nem menos do que Alessandro Juliani, o bem conhecido Tenente Felix Gaeta de Battlestar Galactica.


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segunda-feira, 9 de julho de 2018

O Livro dos Médiuns / O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec


Como diz o próprio Allan Kardec, "O Livro dos Médiuns" foi publicado como sequência a "O Livro dos Espíritos". Se "O Livro dos Espíritos" expõe a doutrina, "O Livro dos Médiuns" dá largos passos no sentido de estabelecer o espiritismo como religião, com tudo de formal que isso acarreta.
Não haja dúvidas, este é um livro religioso. Tal como "O Evangelho Segundo o Espiritismo", também de Allan Kardec, interessará a quem deseje aprofundar os conceitos espiritualistas do que se convencionou chamar Espiritismo. Não aconselho "O Evangelho Segundo o Espiritismo" a quem não se interesse por religião (e pelo cristianismo em particular) ou a quem tenha ideias religiosas dogmáticas. Aos outros, apresentará perspectivas interessantes.
Quanto ao "Livro dos Médiuns", centra-se sobretudo na comunicação com os espíritos e será de pouca relevância para quem não conhece a doutrina.



terça-feira, 3 de julho de 2018

In the Mouth of Madness / A Bíblia de Satanás, de John Carpenter (1994)


Gravei este filme na dúvida de já o ter visto ou não. Se vi, absolutamente nada me recordou de já ter visto. Mas este é daqueles filmes que se esquecem. 24 anos depois é possível que não reste a mais leve memória.
O título português é enganoso e leva em erro. Não há aqui nada de Bíblia nem de Satanás. Assumidamente inspirado em Lovecraft, a começar pelo título que nos remete imediatamente para o conto At the Mountains of Madness, a ameaça vem de uns seres Antigos que querem deixar os “abismos inomináveis e tenebrosos” [palavras minhas] e tomar conta do mundo. São os Antigos de H. P. Lovecraft. Tentar adaptar ideias de Lovecraft é sempre uma ideia interessante, mas falha na execução.
No filme, um escritor de sucesso no género do terror (a lembrar Stephen King) desaparece com o manuscrito do seu último livro. Um investigador de seguros (Sam Neill), especializado em fraudes, é contratado pela seguradora da editora lesada para o encontrar. Segundo este, o desaparecimento do escritor é um golpe de marketing e uma fraude à seguradora. (O que não faz muito sentido, pensando nisso. Se a editora estivesse a par do marketing não chamaria a seguradora. Mas avançando.) Seguindo as pistas dos livros, o agente de seguros convence-se de que a cidade ficcional onde se passam as histórias do autor é de facto real, e segue o escritor até lá após transpor um portal que existe na estrada. Ao chegar, descobre que os habitantes da cidade já começaram a ser possuídos pelos Antigos, exibindo deformações físicas como tentáculos e cometendo actos de grande violência. Entretanto, no mundo lá fora, os leitores dos livros anteriores do mesmo autor também estão a enlouquecer. O medo que o filme quer transmitir é que qualquer pessoa que leia os livros ou veja o filme (este filme) também enlouquecerá.
Como é fácil de perceber, o filme não convence. Se calhar é o início prosaico, que mais parece um policial, que nunca nos submerge num ambiente de terror minimamente credível. A citação de certos trechos de Lovecraft, neste contexto de modernidade, até nos soa a má escrita. Nada mais injusto. A linguagem literária de Lovecraft é de facto antiquada e rebuscada, mas é também por isso que resulta. Cria toda uma atmosfera que nos faz deslizar, sem nos apercebermos, para dentro de um universo que nos vai inquietando a cada palavra. Quando Kthullu aparece, acreditamos. É esta submersão que o filme nunca consegue, nem de longe.

Trilogia do Apocalipse
Quando acabei de ver fui novamente verificar se era um mesmo um filme John Carpenter (razão por que o gravei) ou se me tinha enganado. Mas é mesmo um filme de John Carpenter, mestre do terror que muito aprecio e respeito. O argumento não é dele mas de Michael De Luca, mas John Carpenter gosta deste filme e considera-o a terceira parte da sua “trilogia do apocalipse” (a seguir a The Thing e Prince Of Darkness). É difícil, a esta distância, recordar a relevância na altura dos temas que são abordados, nomeadamente o descrédito da religião e a vontade das massas em tomar a fantasia por realidade. Tudo isto agora nos parece tão batido. Tão quotidiano, tão fake news. Sem precisarmos sequer de monstros a ajudar. O final até é interessante, com o agente de seguros a sair do hospital psiquiátrico em que tinha sido internado, um dos únicos sobreviventes à loucura que toma conta da humanidade. Mas depois de ver Rick Grimes acordar do coma e sair do hospital para um mundo apocalíptico de zombies, esta cena já não tem o impacto que teria se a tivesse visto primeiro. (Será que vi? Será que os criadores do comic The Walking Dead viram? Não faço ideia. A cena é semelhante.)


Quanto aos efeitos especiais, é injusto falar deles 24 anos depois e sem alertar que o filme é de baixo orçamento. Os efeitos especiais são muito maus, vistos hoje em dia, a lembrar as criaturas de plástico dos piores filmes do canal SyFy. Isto também não ajuda a convencer-nos quando finalmente vemos os monstros.


Se era eficiente em 1994? Lembro-me de ter visto muito melhor, até antes, mas também não consigo dizer se estes efeitos especiais eram abaixo da média para a altura. Se calhar até não eram. Não me lembro assim tão bem dos filmes medianos. Só me lembro dos bons, um deles The Thing, do mesmo realizador, que é de arrepiar ainda hoje.
Este é um filme datado que não sobreviveu ao teste do tempo. Reparei, por exemplo, que o agente de seguros se acha no direito de tratar a protagonista como se fosse um objecto sexual só porque é atraente (Julie Carmen). A personagem feminina também parece achar muito normal que ele lhe chame “querida” e se atire a ela descaradamente, num ambiente de trabalho, sem a conhecer de lado nenhum. O cúmulo foi quando chegaram à tal cidade fictícia e ele só alugou um quarto para os dois. (O que raio foi isto?! Eles não estavam numa relação.) Em tempos de movimento “Me Too”, é difícil de acreditar.
Mas fez-me igualmente questionar, enquanto estava a ver, se devia estar a prestar mais atenção a estas coisas, num filme de terror, do que à acção propriamente dita.
Li várias críticas ao filme, das piores às melhores. Alguns fãs (certamente) chamam a este o melhor filme de Carpenter pelas questões filosóficas que aborda. Não, nem pensar. Nem assim. Este é o senhor que nos deu The Thing, Assalto à 13ª Esquadra, Christine, Halloween, O Nevoeiro. Este filme não está minimamente à altura destes outros títulos. Também não direi que é o pior filme de John Carpenter, mas é de certeza um dos piorzinhos. Culpo principalmente o enredo que nunca nos consegue convencer, muito menos perturbar.

(Como curiosidade, reparei logo, no genérico, no nome de um desconhecido Gregory Nicotero nos efeitos especiais de maquilhagem. Hoje em dia milhões de pessoas o reconhecem como Greg Nicotero do genérico de The Walking Dead. Os efeitos de maquilhagem ainda são dos melhores que o filme apresenta. Nada ao nível que estamos habituados hoje em dia, mas é injusto comparar.)

Achei este filme tão datado, a todos os níveis, que não vou dar nota. 24 anos depois é fácil ser injusto para com um filme que na altura podia ser apenas mediano e que hoje nos parece simplesmente mau.



terça-feira, 19 de junho de 2018

São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza em Portugal

OCDE. São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico publicou esta sexta-feira um relatório sobre a mobilidade social. De acordo com o estudo, Portugal está entre os países com quadros mais negativos.

A baixa mobilidade social significa que uma família portuguesa com rendimentos mais baixos precisa de 125 anos – cerca de cinco gerações – até que descendentes atinjam um salário médio.

"Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se no estudo.


A análise desenvolvida pela OCDE compara a mobilidade social com uma escada ou elevador. Afirma-se no documento que uma criança que nasce numa família desvantajosa tem mais dificuldades em “subir a escada”. “Ter crescido com familiares com pouca ou mesmo nenhuma riqueza e ter pais com pouca riqueza são os dois fatores principais para a própria pobreza".

"Riscos que contam"

Em Portugal, os números dizem que 24 por cento dos filhos de pais com baixos rendimentos têm mais dificuldades em atingir salários mais elevados e acabam também por ter baixos rendimentos.

Já 39 por cento das crianças provenientes de uma família com rendimentos elevados conseguem subir mais rapidamente a escada e também elas passam a ter rendimentos mais altos.

O rendimento que os filhos virão a receber é uma das maiores preocupações por parte dos pais. Segundo a agência Lusa, a OCDE realizou ainda este ano um outro relatório, denominado "Riscos que contam”, onde se comprova que 58 por cento dos pais portugueses colocam entre as três principais preocupações o risco de os filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

O estudo revela ainda que 33 por cento das pessoas consideram que a educação dos pais está relacionada com a capacidade para se ser bem-sucedido.

Em declarações à Antena 1, o sociólogo Manuel Carlos Silva, da Universidade do Minho, defende que a ascenção social é muitas vezes mal compreendida.


Para a OCDE, a baixa mobilidade social em Portugal pode estar relacionada com os elevados níveis de desemprego e a segmentação do mercado laboral. A organização conclui que a falta de mobilidade social não é um aspeto irreversível e podem ser tomadas medidas com o objetivo de aumentar a mobilidade entre gerações. Entre os principais objetivos, a OCDE destaca o apoio a crianças de meios desfavorecidos, o combate ao desemprego e o aumento do nível de qualificações através da educação para adultos.

É o que eu ando a dizer há estes anos todos.