domingo, 22 de março de 2020

The Twilight Saga: Breaking Dawn - Part 2 / Amanhecer - Parte 2 (2012)


[contém spoilers; revela o fim]

Quinto e último episódio de Edward-o-vampiro-que-brilha e Bella-a-rapariga-que-nasceu-para-ser-vampira (diz ela). Este foi o melhor dos filmes Twilight e não apenas pela razão mais óbvia: acabou! Estou livre! Adeus!
Não, “Breaking Dawn Part 2” surpreendeu-me porque pela primeira vez desde que vejo os filmes desta série não achei uma autêntica seca, e teve uma batalha e tudo… isto é, mais ou menos. Mas para não estragar nada, e se ainda houver uma alminha que não conheça o final, é melhor parar de ler JÁ e voltar a esta crítica depois de ler/ver o fim. Não digam que não avisei.
Mas agora sem ironia, este foi realmente o meu filme preferido da série, e tudo por causa dos Vulturi. Os Vulturi é que deram vida (e morte) a esta seca toda.
Mas antes disso, tudo aquilo em que me enganei na crítica anterior:
Julguei que o ponto alto desta segunda parte de “Breaking Dawn” fosse o momento em que Bella teria de explicar ao pai o crescimento anómalo de Renesme. Pois bem, isto nem sequer foi abordado como deve ser. Disseram ao pai de Bella que a menina era uma sobrinha, e ele também não achou estranho que a miúda crescesse como se tivesse sido feita em laboratório. Nem quando Jacob lhe mostra que existem lobisomens aquele palerma decide perguntar à filha se Bella era agora uma lobisomem (lobismulher?) também. Que decepção, ó pai da Bella! Julgava-te muito mais esperto!
Outra coisa em que me enganei foi ao supor que os Vulturi estavam interessados na Renesme. Nada mais errado. Eles estavam interessados era na Alice, a tal que tem os poderes psíquicos de ver o futuro. Ora, eu nem me tinha apercebido de que a Alice era uma personagem importante! Imaginem o meu choque!
Mas o enredo principal centra-se mesmo em torno de Renesme (a quem Jacob, seu auto-nomeado protector, dá a alcunha de Ness, o que leva Bella a zangar-se com ele por lhe ter dado a alcunha do monstro de Loch Ness... Ora, Bella, e mesmo assim é muito mais bonito do que o nome que puseste à tua filha, ó criatura com falta de gosto!).
E aqui, meus amigos, temos um enredo “Claudia”. Uma vampira que eu nunca vi na vida mas que é a Althea de “Fear the Walking Dead”, e aparentemente parente dos Cullen (?), vai visitá-los e fica chocada ao ver uma criança entre eles. Imediatamente, vai fazer queixinhas aos Vulturi de que os Cullen fizeram uma criança vampira. Isto é proibido e os Vulturi partem de imediato para destruir a criança e os Cullen também (excepto a Alice, a quem querem capturar devido aos seus dons).
Ora, isto é o enredo de “Entrevista com o Vampiro”, parte Claudia, com algumas variações. Se até aqui eu desconfiava que os Vulturi tinham sido inspirados no vampiro Armand de Anne Rice, agora tenho a certezinha absoluta. E que se tirem daqui as devidas conclusões. Também me enganei ao julgar que os Vulturi iam ter alguma curiosidade científica quanto a Renesme. Não, isto é mesmo e apenas “Armand do Thèâtre des Vampires quer esturricar Claudia porque é proibido fazer vampiros tão jovens”.


Mas não me enganei quanto ao facto de Renesme não ter sido a primeira “híbrida”. Era óbvio que não podia ser. Desde quando é que, na possibilidade de existir sexo entre humanos e vampiros, este não seria experimentado? O inverosímil é que nem os Cullen nem os Vulturi (nem qualquer outro dos “antigos”) tivessem conhecimento de casos anteriores. É que não devia haver apenas um ou dois ao longo dos milénios. Devia haver dúzias. Tudo isto foi mal pensado e abre mais um buracão na história.
Renesme não é exactamente uma vampira***, e o equívoco podia muito bem ser resolvido com uma conversa se os malvados Vulturi estivessem para isso. Mas não estão, e segue-se uma batalha entre eles e os amigos dos Cullens, com a ajuda dos lobisomens.
Aqui encontrei mais uma incoerência. Jacob diz que as alcateias vão querer lutar, mas por alma de quem? Porque “nunca tiveram medo de vampiros”, diz ele, e é verdade, mas não seria muito mais lógico que não se envolvessem e deixassem os vampiros matarem-se uns aos outros? Afinal, ainda no filme passado eram eles quem queria destruir a abominação Renesme… Porque é que mudaram de ideias? Jacob é agora o lobo alfa (o que manda) e ninguém nos informou? Não se percebe.
***Quanto a Renesme, a ideia é que a miúda é metade-vampira metade-humana. O que é que isto significa? Que ela tanto pode viver de sangue como de comida? Mas precisa de sangue ou não precisa? Porque se não precisa não é vampira. Mas se é, e se deixar de beber sangue, perde os poderes vampíricos? Sinceramente, não sei nem quero saber. E espero bem que não haja uma sequela a contar as aventuras de Renesme.
Então, de volta ao filme, chegamos à batalha e as coisas ficam bastante graves. Quando eu vi a cabeça decepada do Carlisle Cullen julguei que ia ser muito a sério. E pensei: “Tu queres ver?! Que morre o Edward, que morre a Bella, que morrem todos e só se safa a Renesme porque é salva pelo Jacob?” E de repente tudo se tornou mais empolgante. Suficiente para redimir a saga inteira. Começou a batalha. Parecia uma batalha dos “Vikings”, com tantas cabeças cortadas. Morreram vampiros importantes. Morreram lobos. Lágrimas vieram-me aos olhos e o meu coração partiu-se… Mas, afinal, nada disto aconteceu. Exactamente assim: não houve batalha nenhuma. Foi tudo uma visão que a tal Alice inspirou ao líder dos Vulturi. No fim vão-se embora antes que haja batalha.
Também já na última versão dos “Ficheiros Secretos” fizeram o mesmo: ah, não era o fim do mundo, era só uma visão. Truque baixo que defrauda as expectativas do espectador. Pior que isto só o sonho infame de “Dallas”, em que uma temporada inteira foi um sonho.
E assim terminou a saga Twilight… Ah, não, há mais. Outra coisa que eu esperava ansiosamente era que o Jacob finalmente se libertasse da Bella e disto tudo. Em vez disso, torna-se protector da filha da Bella, o que já é suficientemente doentio. Mas no fim, mesmo no fim, Alice tem outra visão. Jacob e Renesme abraçados, ela já adulta, tão juntinhos que me pareceram um casal. Eu não quis acreditar no que vi. E pensei: “Desliga lá a mente ordinária, que isto que viste foi só fraternal”. Mas fiquei tão incomodada que fui à internet procurar. E então não é mesmo verdade que o Jacob espera que a Renesme cresça (sete anos apenas, porque ela cresce depressa) e se tornam um casal romântico?! Uma coisa é o Edward andar atrás da Bella que é 80 anos mais nova do que ele, mas até fecho os olhos. Muito diferente é alguém que tem sobre uma criança o papel paternal de um tio e que a certa altura deixa de ser paternal para se tornar… o quê? Já seria suficientemente mau que ele esperasse pela filha na impossibilidade de ter a mãe, mas acompanhar essa criança desde bebé? Sou só eu, ou acontece aqui algo de muito errado? Pelo menos podiam separá-los e podiam encontrar-se muito tempo depois, sem que o Jacob alguma vez lhe tivesse mudado a fralda. Pobre Jacob, o que fizeram à personagem dele, uma das mais interessantes da saga. Desde o primeiro livro (aquele que li), Jacob sempre me pareceu o único com alguma coisa na cabeça. Eu estava a torcer para que ele se libertasse desta relação a três (ou a quatro?) mas nem essa sorte eu tive.
Não admira que Twilight tenha dado origem a coisas mais doentias ainda (50 Sombras de Grey e sabe-se lá mais o quê).

Este abraço

E assim acabou a saga com um sabor a pedofilia que era completamente dispensável. Vou fingir que não vi isto. Melhor, vou fingir que nunca vi esta saga. E vou dar mais um pontinho porque é o último filme:

13 em 20

Acabou! Acabou!


domingo, 8 de março de 2020

Bates Motel


[crítica à primeira temporada]

Quando ouvi falar de uma série chamada “Bates Motel” e baseada no filme “Psycho”, pensei que o enredo seria: um episódio, um hóspede, um homicídio. Tipo “Dexter”.
A série tenta ser muito mais ambiciosa do que isso. O problema é se consegue atingir o que se propôs. Acabei de ver a primeira temporada e ainda não estou convencida.
“Bates Motel” pretende ser uma prequela de “Pshyco”, anacronicamente passada nos nossos dias, com um Norman Bates adolescente antes de ser o serial killer que conhecemos de Hitchcock. E qual é a figura chave na vida dele que o tornou assim? A mãe, claro está. Esta história é tanto sobre Norma Bates (a mãe), se não mais, como sobre Norman. Os próprios nomes, óbvios, dizem-nos como Norma é possessiva para com o filho. Norman é dela, Norma, e de mais ninguém. Mas esta Norma da série não é a bruxa má que se adivinha do filme (já explicarei porque digo isto).
Na primeira cena da série, o pai de Norman está morto na garagem num acidente muito suspeito. Como consequência desta morte, Norma e Norman mudam-se para a pequena vila costeira de White Pine Bay, onde ela pretende reconstruir a sua vida explorando o motel que comprou com o dinheiro do seguro de vida. Este é logo o primeiro mistério da série. A morte do pai de Norman parece tudo menos um acidente e o dinheiro do seguro dá muito jeito. Como sabemos quem é Norman Bates a nossa tendência é pensar que foi ele… até conhecermos a mãe. E Norma começa a matar, embora em legítima defesa, logo no primeiro episódio.
Não há volta a dar, Norma torna-se uma personagem ainda mais fulcral do que Norman. A interpretação de Vera Farmiga é uma força da natureza. Norma é manipuladora, emotiva, dramática e algo destrambelhada. É o próprio Norman quem a descreve melhor, numa cena em que exasperado lhe grita: “Tu és maluca!” E ela é maluca. Sabem aquelas pessoas que quanto mais se querem desenvencilhar de uma má situação, mais se embrulham? É o caso.
Mas se Norma é maluca, quem sai aos seus não degenera: Norman é mais maluco do que ela. Norman é tão “maluco” que nem sabe que é maluco. Tal como no filme, o adolescente Norman já sofre de episódios dissociativos com “apagões” em que não se lembra do que fez, à mistura com alucinações que muitas vezes nos fazem questionar se aquilo que estamos a ver está mesmo a acontecer ou se se passa apenas na cabeça dele. (Se calhar a intenção da série não era criar esta ambiguidade, mas a partir do momento em que o protagonista alucina conversas e situações a nossa dúvida é inevitável.) O domínio de Norma sobre ele é tanto manipulativo como impróprio. Norma não se parece aperceber (ou não quer admitir) que o filho já tem 17 anos. Prestes a perder o controlo sobre tudo na sua vida, Norma usa Norman como o seu ponto de apoio, quando devia ser ao contrário, ao mesmo tempo que este Norman quase adulto quer fazer tudo para ajudar a mãe, criando entre ambos uma relação de co-dependência com que muitos espectadores se vão identificar de certeza (excepto, espero eu, a parte em que Norma se vai deitar na cama com o filho como se este tivesse 3 anos).


Como se não bastasse todo este drama (direi mesmo patologia) que mãe e filho trazem com eles, White Pine Bay também não é um lugar muito seguro onde se viver. Aparentemente uma vila pacata à beira-mar, toda a economia de White Pine Bay gira em torno de criminalidade em vários graus, desde o cultivo de marijuana ao tráfico de escravas sexuais. E tudo, parece, com o conhecimento do xerife Romero (Nestor Carbonell, o Richard Alpert de “Lost”), que sabe muito mais do que dá a entender. Há até teorias de que é ele o grande Chefão do crime todo, o que nunca é confirmado na primeira temporada mas não me admiraria mesmo nada. Esta “vila pacata cheia de segredos” tem feito com que “Bates Motel” seja comparado a “Twin Peaks” e até a “Breaking Bad” (por causa das actividades criminais em cada canto), mas na minha opinião as semelhanças começam e acabam aí.

Várias séries dentro da mesma série, mas no mau sentido
Um dos grandes problemas da primeira temporada, embora com certeza tenha sido feito de propósito não fossem os espectadores aborrecerem-se, é que às vezes parece que estamos a ver séries diferentes na mesma série.
Se não, vejamos. Nesta versão, Norman tem um meio-irmão mais velho, Dylan, filho de Norma e de um relacionamento anterior ao pai de Norman (este relacionamento também é um mistério). Dylan, no meio desta maluquice toda, é um gajo normal. E por ser normal, saiu de casa o mais cedo possível e tem uma relação distante e conflituosa com a mãe. Mas, ao perder o emprego, vê-se obrigado a ir morar com ela em White Pine Bay. Nota-se que Dylan é um jovem desenrascado, mas talvez por pobreza (ele próprio se queixa que nunca tinham dinheiro para nada) não parece ter estudos. Ao chegar a White Pine Bay arranja um trabalho justamente com o gangue da marijuana, e é tão bom no que faz que é logo promovido. Mas apesar da sua ocupação criminal, Dylan acaba por revelar-se um jovem sensível e amigo do irmão, talvez a única influência normal na vida dele, que quer afastá-lo da influência tóxica de Norma. É impossível não gostar de Dylan. O próprio Norman começa por não gostar muito dele (especialmente porque Dylan odeia Norma) mas Dylan acaba mesmo por conquistá-lo com amizade, conselhos e companheirismo. Acompanhar Dylan é como ver outra série, uma série de drama e crime em que um jovem tenta desenrascar-se como pode.
Depois, temos um sub-enredo Young Adult à volta da escola nova de Norman. As miúdas populares da escola, por alguma razão, engraçam com ele, e uma delas, Bradley, até dorme com ele num momento vulnerável da vida dela. Norman julga que é o início de uma relação séria, mas afinal o sexo não significou nada para Bradley. (Alerta Norman Bates: aos 17 anos já foi seduzido, usado e descartado por uma rapariga bonita e inacessível… o que obviamente o deixa magoado. Mas magoado a ponto de querer matar todas as mulheres bonitas? Ainda não.) Ao mesmo tempo, Norman conhece Emma, uma rapariga com uma doença pulmonar grave, que, esta sim, tem um grande fraquinho por Norman, embora não seja correspondida. É através dela que Norman se envolve na descoberta das escravas sexuais chinesas que são traficadas em White Pine Bay, sendo que o motel era uma base de operações para os traficantes. Todo este sub-enredo é típico de Young Adult, em que os adolescentes se metem em aventuras que são areia a mais para a camioneta deles.


E depois temos toda a maluquice de Norma, que contagia quem contracena com ela e que muitas vezes transforma a série numa comédia negra (ou apenas comédia?). O problema é que não se percebe se o objectivo destas cenas era mesmo serem cómicas, ou se ficaram tão disparatadas que nos deixam a pensar se é para rir ou não.
Todos estes sub-enredos podiam funcionar perfeitamente, mas em “Bates Motel” simplesmente não encaixam muito bem, criando a tal sensação de que foi tudo ali pespegado com fita-cola e que estamos a ver “filmes” diferentes no mesmo filme.

Um sub-enredo muito falhado
Mas ainda sobre as escravas sexuais, foi onde a série meteu mesmo a pata na poça. Um assunto grave como este devia ser tratado com a maior seriedade, mas “Bates Motel” tratou-o com uma leviandade quase cómica. Quando deixou de interessar ao enredo principal, o sub-enredo das escravas sexuais desapareceu num instante. A escrava sexual foi, aparentemente, abatida a tiro nos bosques por um dos vilões, sem que víssemos a morte, sem que nunca mais ninguém se importasse com ela nem em descobrir o seu corpo. Pobre escrava sexual, não passou de um filler para encher episódios. Muito mau, muito mau.
O actor que faz de Deputy Shelby, o traficante de escravas, também não podia ter sido mais mal escolhido. É nada menos do que Mike Vogel (que eu conheço principalmente como protagonista de outra péssima série, “Under the Dome”; quando é que dão um papel como deve ser a este actor, que merecia muito melhor do que isto?).


Ora, basta olhar para Mike Vogel. Isto não é um homem que precise de manter uma escrava chinesa presa na cave. Isto é um homem que deve ter uma fila de mulheres à porta daqui até à China. [Sim, também estou a ser leviana, mas não resisti à piada.] Na vida real, a procura de escravas sexuais não tem nada a ver com necessidades e/ou atractivos físicos dos abusadores, mas com factores muito mais desviantes, entre eles o desejo de domínio absoluto sobre a vítima e o sadismo. Este Deputy Shelby devia ser um tipo asqueroso e sádico, mas não é nada do que vemos aqui (ou não tivemos tempo de ver porque a personagem nunca chegou a ser desenvolvida como devia ser.) O pobre actor bem tenta, o melhor que pode, transmitir este factor asqueroso à sua personagem, mas nunca teve muito com que trabalhar. Em vez de um traficante de pessoas, os seus diálogos eram mais adequados a um criminoso vulgar, um traficante de droga, por exemplo. O Deputy Shelby foi a personagem mais mal conseguida num cast que, pelo contrário, nos apresenta personagens bastante sólidas e credíveis. Mais valia terem arranjado antes uma rede de exploração de trabalho de imigrantes ilegais, o que é igualmente mau, mas não tão mau como o rapto e violação de mulheres.
Este sub-enredo das escravas sexuais foi tão mal feito, e as críticas foram tantas, que se calhar os autores da série nem o quiseram corrigir e acabaram com ele abruptamente.

Os bons momentos superam os maus
O que funciona muito bem é a dinâmica entre Norma e Norman, e até mesmo Dylan, quando a família disfuncional se encontra dentro de portas.


Aqui nota-se que “Bates Motel” foi pensado a partir de “Psycho”, com o infame cenário exterior e interior da casa e do motel, e os personagens vestidos num guarda-roupa tão retro que podia bem passar pelos anos 60, e principalmente aquelas televisões antiquíssimas onde Norman gosta de ver filmes a preto e branco. [O maior mistério da série, na minha opinião, é como é que eles conseguem manter aquelas televisões a funcionar quando há muito tempo que a minha pifou e mandar arranjar uma televisão daquelas fica mais caro do que comprar um plasma, já para não falar que essas televisões não tinham entrada para cabo nem gravador de vídeo, só para antena analógica, então como é que Norman consegue ver os filmes a preto e branco se não tem um canal “Memória”?] O pai de Emma é também um taxidermista que ensina Norman a embalsamar animais, o que faz sentido com o filme. E algumas vezes os realizadores da série filmam certas cenas com um toquezinho de Hitchcock que resulta muito bem, como daquela vez em que Norma encontra um cadáver autopsiado na sua cama e desata a gritar histericamente, algo que podia ter feito parte do filme original ou de filmes da mesma época, ou a cena em que Bradley rejeita Norman, sozinhos, rodeados de nevoeiro, e não deve ter havido um espectador que não tenha pensado que era ali, que era já, que Norman a estrangulava de raiva.
Mas Norman é um miúdo adorável, por quem torcemos, com quem não é difícil empatizar porque sabemos que durante os episódios dissociativos ele não tem consciência do que faz. Por exemplo, Norman encontra uma cadelinha abandonada e quer logo ficar com ela, mesmo quando Norma não aprova. Quando a cadela morre atropelada (isto foi para manipular os nossos sentimentos) Norman fica devastado e leva-a ao pai de Emma para a embalsamar. Como é que não se gosta de um miúdo assim?
E depois existe ainda um outro sub-enredo, em que uma professora de Literatura de Norman, de trinta anos no máximo, bonita e sexy, se interessa demasiado por ele. Em todas as cenas em que estão juntos sempre me pareceu que aquilo era ainda mais impróprio do que a relação super imprópria de Norman com a mãe. Abraços e festinhas na cara? Isto, comigo, e esse professor/professora era logo denunciado ao Conselho Directivo. Não admira que o pobre Norman fique traumatizado com as mulheres. É preciso ter azar com tantas malucas na vida dele. No fim da temporada, esta professora aparece degolada depois de uma cena em que Norman a vê mudar de roupa (talvez de propósito à frente dele), expondo uma lingerie super sexy. Mas se pensam que isto é um spoiler, pois não é! Porque antes disto a vemos ter uma violenta discussão ao telefone com um ex-namorado que parece estar a ameaçá-la (e que, segundo outras pistas, também deve estar ligado às actividades criminais da terra). Norman estava em casa da professora antes de ela morrer e volta para casa muito perturbado, com um dos seus “apagões”, mas nada nos garante que tenha sido o seu primeiro homicídio. Conhecendo a série e as suas voltas e reviravoltas, não me admirava nada que tivesse sido antes o tal ex. Mas esse é um mistério para a segunda temporada.
A verdade é que “Bates Motel” devia ser a prequela de como Norman Bates se transforma num assassino e estamos todos à espera do momento inevitável em que ele comece a matar. O maior problema da série é que não se está a ver como é que vão transformar aquele miúdo adorável num serial killer. Não é preciso ser um grande psicólogo para perceber que o problema do Norman Bates do “Psycho” era a repressão sexual e a educação puritana que recebeu. Aquela cena do duche, a faca e a mulher nua, tudo aquilo é sexualidade reprimida. E não é difícil de imaginar a Norma Bates do filme como uma daquelas mulheres para quem o sexo é algo de sujo e pecaminoso, sempre a dizer ao filho “aquelas ordinárias, olha como se comportam agora, sem decência nenhuma, isto não é de boas raparigas, não dês o desgosto à tua mãe de andar com essas galdérias, etc”. Ora, a Norma da série não é nada disto e repressão sexual é coisa que não existe naquela casa. Pelo contrário, eu diria mesmo que existe descontracção sexual a mais. Tanto da parte de Norma, sexualmente muito activa sem o esconder dos filhos, como da miúda da escola que dormiu com Norman e não significou nada, como da parte da professora que anda sempre vestida como uma mulher fatal. A temática sexual paira sempre sobre o enredo nas suas formas mais extremas (desde a parte das tais escravas sexuais até às alusões ora subtis ora explícitas de incesto, passando pela violação mostrada logo no primeiro episódio e muito realista), às vezes de forma dramática e bem feita, outras vezes não tão bem conseguida. Será por aí que a psique frágil de Norman vai ser afectada? É que uma mãe destrambelhada não chega para fazer um serial killer. A própria série o prova com o caso de Dylan, filho da mesma mãe e criado na mesma maluquice.
“Bates Motel” é uma série com muitos desequilíbrios e altos e baixos, mas estranhamente viciante, talvez devido à solidez dos personagens. Os momentos bons superam os maus e conseguimos seguir a história com interesse por muitos desvios mal pensados que nos surjam ao caminho. Além disso, a série vale a pena nem que seja só pela performance fantástica de Vera Farmiga, que eu não conhecia (embora o nome não me fosse estranho uma vez que conheço a irmã mais nova, Taissa Farmiga, de “American Horror Story”). Fiquei fã.

domingo, 1 de março de 2020

La Morte Amoureuse (1836) / Clarimonde, de Théophile Gautier


“Clarimonde” (publicado inicialmente em 1836 com o título “La Morte Amoureuse”)  é um conto clássico a não perder por todos os amantes de vampiros. Nunca nos é dito claramente quando se passa, mas tudo aponta para o século XIX, talvez mais cedo. Um jovem padre, no momento da sua ordenação, é fascinado pela bela Clarimonde que o observa na igreja. A partir daí, cada vez mais enredado pelos seus encantos (ou encantamentos?), o jovem, já ordenado, começa a viver com ela um estranho idílio: quando dorme, ele é o nobre Romuald, rico e dissoluto, vivendo com a sua amante em Veneza; quando o nobre dorme, volta a ser de novo o pobre presbítero. Como diz o protagonista, Romuald deixa de saber se é um nobre a sonhar que é padre, ou um padre a sonhar que é nobre. Mas a verdade é que são felizes. Uma felicidade apenas perturbada por escura sombra quando Romuald percebe que de noite Clarimonde lhe bebe o sangue, mantendo assim a sua vida e beleza eterna. Pois Clarimonde já morreu há muito tempo.
Não posso contar mais nada porque o conto é muito curto, mas o fim é à Van Helsing. Recorda-nos vividamente o momento em que os personagens de “Drácula” descobrem Lucy, morta-viva, no túmulo, e a destroem.
Ou melhor, o Van Helsing de Bram Stoker é que poderá ter sido inspirado aqui, uma vez que “Drácula” é de 1897, sessenta anos posterior a “Clarimonde”. Isto não quer dizer que o conto de Théophile Gautier tenha sido fonte de inspiração para Stoker, nem é obrigatório que o seja, visto que muitas vezes duas histórias semelhantes podem ter sido inspiradas por outra ainda mais antiga (geralmente do folclore) sem que qualquer dos autores conheça a obra um do outro. De qualquer das formas, as semelhanças saltam à vista.
“Clarimonde” está disponível em inglês no Projecto Gutenberg.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O Céu e o Inferno, de Allan Kardec


“O Céu e o Inferno” é o quarto livro de Allan Kardec na explanação da doutrina Espírita, seguindo “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
[Aproveito para fazer desde já o disclaimer do costume: não conheço nem jamais tive contacto com a religião Espírita dos nossos dias, pelo que não posso ter qualquer opinião sobre esta. Este artigo (tal como os anteriores) debruça-se unicamente sobre os livros e a doutrina neles apresentada sob um ponto de vista filosófico moderno.]
Allan Kardec era um homem de intelecto brilhante e um escritor talentoso. Neste livro, é um verdadeiro prazer como ele prova por A mais B (teologicamente) o absurdo que é o Inferno de fogo onde as almas ardem sem se consumir. Eu até consegui rir-me.
Mas depois Kardec sai-se com esta:
Sem nos remontarmos aos tempos primitivos, olhemos em torno a gente do campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela despertam o esplendor do Sol nascente, do firmamento a estrelada abóbada, o trino dos pássaros, o murmúrio das ondas claras, o vergel florido dos prados. Para essa gente o Sol nasce por hábito, e uma vez que desprende o necessário calor para sazonar as searas, não tanto que as creste, está realizado tudo o que ela almejava; olha o céu para saber se bom ou mau tempo sobrevirá; que cantem ou não as aves, tanto se lhe dá, desde que não desbastem da seara os grãos; prefere às melodias do rouxinol, o cacarejar da galinhada e o grunhido dos porcos; o que deseja dos regatos cristalinos, ou lodosos, é que não sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou sem Flores.
Ò Kardec, ias tão bem! Então o homem do campo é um bruto sem sensibilidade artística que não sabe apreciar o canto das aves, a beleza do nascer do sol, o suave burburinho dos regatos? Nunca ouviste, ò Kardec, as músicas e os poemas da gente do campo, mesmo analfabeta, passados oralmente de geração em geração?
Só por causa disso, ficas já condenado a uma vida no campo para corrigires esse snobismo que só te fica mal. E como a vida no campo até é bem pacata e saudável, de certeza que até vais gostar e não te condeno a nada de desagradável. (Muito boa gente paga férias em quintas, a tratar da galinhada, para descontrair do stress da cidade.)
Mas encontramos este snobismo de classe alta parisiense do século XIX muitas vezes ao longo do livro, uma marca inequívoca da época. Um dos Espíritos que se comunica com a sociedade de Paris, depois de exortar à caridade, diz mesmo algo assim: “abstende-vos de vícios e de luxos no vosso trajar, cingindo-vos ao necessário à vossa posição…” Isto é, quem tem posição social pode gastar mais um bocadinho em roupa, a caridade que se lixe, para não fazer má figura na “boa” sociedade. Já o pobre, que não tem “posição” a manter, pode andar todo esfarrapado que não faz mal. Ó Espírito, Espírito, olha nem sei que te dizer. Há muito bom Espírito aqui encarnado que também acha que a caridadezinha o há-de salvar, com conta peso e medida, que uma pessoa de posição não pode andar por aí de ténis chineses e sem roupa de marca.
Enfim, fica o reparo, e avancemos. O Espiritismo não aceita a ideia de um inferno de fogo (Kardec prova a sua impossibilidade) nem de um Céu de eterna contemplação com anjinhos a tocar harpa.
Sobre o inferno, Kardec diz algo que a minha mãe sempre disse também: “naquele tempo os homens eram tão maus que tinham de ser assustados com o inferno para não fazerem tantas maldades”. É o que Kardec diz, que numa fase anterior de progresso Deus permitiu que as ideias do inferno de fogo se mantivessem porque os homens ainda não tinham capacidade de compreender conceitos mais abstractos.
Segundo Kardec, o Purgatório é aqui na Terra. Permito-me discordar. Isto aqui é mais do que o Purgatório; é o Inferno mesmo. Mas Kardec não viu. Sempre houve horrores, em todas as épocas, mas Kardec não viu as duas guerras mundiais. Não viu os campos de extermínio. Não viu Hiroxima e Nagasaki. Não viu o Vietname e o Cambodja. Não viu a Síria e o Estado Islâmico. Não viu os glaciares a derreter, os fogos na Austrália. Estes sim, verdadeiros infernos, de fogo e tudo.
Depois de ler já bastantes livros de Kardec, confesso que gostaria imenso de ter com ele uma conversa pós-isto-tudo e pós-existencialismo. Os acontecimentos do século XX fizeram muita gente voltar as costas a Deus de forma irreversível. Tenho percebido, dos livros, que Kardec estava convencido de que o Espiritismo ia tornar-se uma doutrina de massas. Não tornou, mas por outro lado nunca antes a ideia da reencarnação (e do karma, por via oriental) foi tão generalizada. O que eu dava para saber a opinião de Kardec sobre isto também. E quem sabe, se a teoria de Kardec é verdadeira, um dia ainda teremos essa conversa.
Em suma, no Espiritismo não existe o inferno de fogo mas existem expiações, no mundo material e no mundo espiritual, consoante as más obras do Espírito, algumas tão difíceis que nada devem às do inferno clássico. Os Espíritos mais aperfeiçoados não vão para um Céu de contemplação e de inércia, antes têm missões e ocupações na manutenção do universo.
Explicados os pontos doutrinais, chegamos à parte mais interessante do livro (direi mesmo de todos os livros de Kardec) que são as comunicações dos Espíritos. Algumas delas davam romances. Uns dizem-se felizes, outros estão em sofrimentos vários, outros estão assim-assim. Mas o que mais me interessa é a condição dos suicidas. O Espiritismo não podia ser mais severo para com eles, quase como se fosse o maior pecado que uma pessoa possa cometer. Se eu fosse de censurar livros, toda esta secção sobre o suicídio podia bem ser extirpada porque se chega às mãos de uma pessoa deprimida ainda lhe inspira o suicídio mais depressa. Temos de entender esta parte à luz da época, antes da Psicologia. O suicida é o mais severamente censurado porque perdeu a esperança, porque não acreditou na Bondade de Deus. É mais censurado, acredite-se, do que o ateu que não acredita sequer em Deus. Porque acreditar em Deus e perder a esperança na sua Bondade é considerada a afronta mais grave ao Altíssimo. (A eutanásia, mesmo em casos de grande sofrimento, é igualmente condenada porque o sofrimento é considerado uma prova a suportar com resignação para que o Espírito consiga expiar faltas passadas e progredir.)
Ora bem, sendo assim, e como já sei que me está reservado um “lugarzinho” no abismo e nas trevas e no isolamento, vou aproveitar para falar agora enquanto me deixam. Se eu acreditasse em Deus à luz desta e de outras doutrinas semelhantes (a católica incluída), também acharia que Deus é um grande sádico. Vejamos, Deus cria uma alma imperfeita já no intuito de a submeter a diversas e dolorosas provações para que esta se aperfeiçoe e atinja a perfeição, sem lhe dar hipótese de abandonar o “jogo”. Enquanto Ele, Deus, assiste. Oh, sim, Deus dá o livre-arbítrio ao homem de se aperfeiçoar ou não. O homem tem toda a liberdade… para fazer o que Ele quer. Se não fizer, leva na cabeça até aprender que Deus é Bom e se submeter à sua Bondade. Malta que não acha que Deus é Bom, malta que acha que Deus não existe ou que não precisa Dele, para o abismo das trevas com eles, que é uma espécie de solitária com privação sensorial. Não, estas ideias de Deus já não fazem sentido nos dias de hoje. Hoje, o homem exige escolher uma determinada via porque a deseja (mesmo que seja a via do Bem) e não admite a imposição de Deus. Pode, inclusive, desejar seguir a via do Bem sem aceitar qualquer deus, cristão ou outro.
A Justiça de Deus é muito bonita quando falha a dos homens, mas nada disto resolve a questão de fundo, que é a de um Criador originar criaturas imperfeitas para as submeter a provas e castigos (com ou sem o conceito do Pecado Original e da Queda, que ao fim de contas vai dar ao mesmo argumento). Nem explica como é que um Deus de Bondade cria um mundo em que tudo o que vive tem de se alimentar de tudo o que vive para sobreviver. Quem é que achou que isto era uma boa ideia? Que mal fizeram os bichinhos para serem comidos vivos, para por sua vez alimentar outros bichinhos? Que Mal fizeram eles a Deus? Outra pergunta que os Espíritas do século XIX não acharam relevante. Como se dizia acima, “os homens eram tão maus, etc”. Os do século XIX ainda tinham muito caminho a percorrer também.
Por outro lado, na altura não se conhecia o que se conhece agora sobre psicopatas sem empatia, e eu adoraria ouvir o que é que os Espíritos “modernos” têm a dizer a isto.
Quanto ao Céu, nesta doutrina, ou melhor, a progressão de um Espírito a um ponto em que já não é obrigado a encarnar, também tenho algumas dúvidas. Este estado só seria atingido quando o Espírito está depurado de todas as imperfeições. Ora, não sendo imperfeito pode ter ganhado qualidades, mas perdeu as imperfeições inerentes à natureza humana. E de facto a doutrina classifica estes Espíritos mais como na categoria dos anjos (ou quase, conforme o depuramento), o que implica o fim da sua humanidade e o começo de uma nova forma de existência. Onde é que fica a individualidade nisto tudo? O que é o Espírito depois de ser humano quando já não o é? Tem ainda livre-arbítrio, na prática, ou só consegue fazer o Bem? E perdendo todas as imperfeições, tem ainda a capacidade de escolher o Mal? E se ainda tem capacidade (livre-arbítrio) para o Mal, poderá mesmo considerar-se perfeito em virtude? É que não é simples.
O Céu segundo o Espiritismo é muito mais apelativo do que o clássico, beatitude e contemplação eternas que, convenhamos, seria uma seca. Tal como existem diversos níveis de expiação, também existem vários níveis de Além “menos mau” onde se agregam os Espíritos em semelhantes fases de progresso. E todos me suscitam dúvidas. Não sei, não sei mesmo, se quero passar a eternidade rodeada de pessoas. Já dizia o outro, “o Inferno são os outros”, e a ideia de sair daqui para continuar rodeada de pessoas, que só servem para me provocar cólicas e cabelos brancos, subitamente faz-me achar o tal “lugarzinho” um local mais agradável. Porque também já dizia o outro, “antes o Inferno contigo do que o Céu sem ti”. O que eu quero mesmo, e muitas outras pessoas também, Deus está farto de saber. Nos dias em que este livro foi escrito isso nem era considerado uma possibilidade. Mas eu confio que as coisas mudaram, e agora que ninguém me venha acusar de falta de Fé e de duvidar da Bondade de Deus.
Mas há dias, confesso, em que desejo que os ateus tenham razão e não haja nada depois da morte, nem Céu, nem Inferno, nem reencarnações. Só o desligar do cérebro e o fim. Eu dou-me bem com esta ideia, mas há quem não a suporte (especialmente se a vida é madrasta) e qualquer religião que forneça esperança é melhor do que a falta dela.

“O Céu e o Inferno” de Allan Kardec, para além de documento histórico valioso, oferece motivos de reflexão às pessoas sem ideias dogmáticas que se interessam por estas coisas da espiritualidade. Às outras, não dirá nada.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

João Moura maltrata animais

O choque! O horror! Ouvi ontem esta notícia e não consigo conter-me de vir aqui falar disto. Geralmente não se dá pontapés em alguém que já está no chão, mas este caso merece todas as farpas que o ferrem (e mais coisas que o f….).
Então não é que o homem fazia criação de galgos e que os tinha num estado que faria chorar de piedade o mais insensível? Oh choque! Oh espanto! Um senhor tão famoso, tão rico, com uma herdade e tudo! Quem diria que um homem que ganha a vida a torturar animais fosse capaz desta brutalidade? Estou chocada, chocada!
Em depoimentos não sei a quem, outra organização que tortura animais como ele, João Moura disse que os “cães estão magros”. É verdade, mas, pelo contrário, o farpilheiro João Moura está gordo.


E com o melhor interesse do senhor em mente, visto que a obesidade não é saudável e provoca morte precoce, sugiro desde já a dieta ideal a aplicar-lhe. Chamo-lhe a dieta “copo de água” e é infalível para perder peso. Um copo de água ao pequeno-almoço, um copo de água ao almoço, um copo de água ao jantar. (Só copos de água, nada mais, nem sequer chá ou café.) À noite não bebe nada para não abusar das calorias. Em dois meses, no máximo, garanto que João Moura ficará em forma como nunca antes. Com alguma sorte, a dieta até acaba antes dos dois meses.
Tudo pela saúde alheia, porque eu sou boazinha.
Podia também receitar uma dieta para ganhar empatia e vergonha na cara, mas neste caso não fariam efeito enquanto houver tanta porcaria gordura a bloquear os neurónios do paciente. Fica pois a dieta de água, a aplicar até fazer efeito definitivo.

https://sicnoticias.pt/pais/2020-02-20-Associacao-divulga-video-dos-caes-do-cavaleiro-Joao-Moura







domingo, 9 de fevereiro de 2020

Seventh Son / O Sétimo Filho (2014)


Durante os primeiros 5 ou 10 minutos ainda julguei que este podia ser um filme sério. Bem, depende do que se entende por “seriedade”, porque “O Sétimo Filho” é um filme dirigido a uma camada infanto-juvenil e nesse aspecto faz o que deve e merece esta críticazinha.
Papás e mamãs, este filme é ideal para miúdos entre os 8 e os 13, com umas pipocas e uma coca-cola (sem açúcar), e não é tão infantil que não possa ser visto pela família toda. É Fantasia, os efeitos especiais mais parecem um jogo de vídeo, as mortes não são realistas, o sexo é implícito mas não se vê nada, não há sangue, os personagens caem de um precipício umas três vezes (sem exagero) e nem sequer torcem um tornozelo.
Mas, como dizia, cheguei a pensar que isto ia ser um filme sério devido à presença de Julianne Moore, aqui a fazer de rainha das bruxas, e quando Julianne Moore aparece rouba a cena inteira. É certo, não lhe dão muitos desafios com esta “rainha das bruxas”, mas Julianne Moore, muito profissionalmente, quase consegue transformar este “desenho-animado” numa personagem de carne e osso. O outro protagonista (o caçador) é Jeff Bridges.
Da mesma forma, Kit Harington (sim, esse, o Jon Snow da “Guerra dos Tronos”) também faz aqui uma aparição durante os primeiros minutos do filme. Não dura muito, coitado, pois é apanhado pela rainha das bruxas que tem o poder de se transformar em dragão, e aqui é Jon Snow quem se lixa. (Fez-me rir, admito.)
A história é do mais cliché que há. Um velho caçador de monstros (tipo Van Helsing), último representante de uma ordem de cavaleiros criada para esse fim, procura um novo aprendiz que tem de ser o sétimo filho de um sétimo filho. O seu último aprendiz (o tal “Jon Snow”) demorou dez anos a treinar mas agora o caçador não tem tempo para estar com “formações” porque se aproxima a Lua Vermelha, altura em que a rainha das bruxas e outros monstros têm mais poder e se preparam para fazer Maldades. Nunca nos é dito que Maldades exactamente, excepto que Julianne Moore se quer vingar das cidades que queimam bruxas; e as cidades queimam bruxas porque estas atacam as cidades; e as bruxas atacam as cidades porque estas queimam bruxas… e já estão a ver a pescadinha de rabo na boca. A missão do caçador e do aprendiz é destruir a Bruxa Má e seus lacaios antes que estes façam as tais Maldades.
Honra lhe seja feita, o filme tentou dar alguma complexidade aos personagens. Vem-se a descobrir que afinal o caçador esteve perdidamente apaixonado pela rainha das bruxas mas não resultou (drama!) e o novo aprendiz é filho de uma bruxa (Boazinha) e também se apaixona por uma jovem bruxa (igualmente Boazinha). Mas nenhum destes conflitos é aprofundado, fica tudo pela rama. Já o final não é tão cliché como é costume nestes casos. Quem acaba por derrotar a rainha das bruxas não é o caçador mas sim a própria irmã dela (mãe da jovem bruxa) para proteger a filha.
Em suma, é um enredo que pode ser acompanhado pela família toda sem nunca traumatizar os miúdos e sem aborrecer muito os adultos. A performance de Julianne Moore salva isto tudo, e entre os maus efeitos especiais até temos um que é interessante, um dos Maus que é inspirado num deus hindu e que tem quatro braços, e consequentemente luta com quatro espadas. Foi algo que nunca tinha visto.
E é tudo. “O Sétimo Filho” é um filme decente para uma matiné e não há mais nada a dizer.

12 em 20 (para miúdos dos 8 aos 13 anos)



domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.