quarta-feira, março 24, 2010

Lançamento da revista "Abismo Humano" n.3

Sábado 3 de Abril, Espaço Nimas, Lisboa



Desta vez, o lançamento da 3ª edição da revista Abismo Humano vai ser acompanhado do evento diversificado de se reproduzem os respectivos flyers.
Nas eloquentes palavras da associação:

Fraternos participantes da revista número 3,
No dia 03 de Abril faremos, no Espaço Nimas, Saldanha, um lançamento da revista número 3 em grande, para despedida antes de vir ai a 4.
O lugar leva 200 pessoas e até a televisão foi chamada. Apareçam. Quem não pode, passe a palavra. Esta é uma obra nossa. E serve para mostrar que existe de facto uma cultura entre nós, algo que nos une, uma voz singular com muitas cores e nuances. Existimos e não estamos assim tão dispersos, e muito menos é pouco aquilo que temos a dizer, sem precisar de o dizer em grito, sim com arte, seja desenho, pintura, filosofia, música, escultura, teatro ou literatura.

A apresentação do lançamento começa às 21 horas, com uma declamação/encenação de Ricardo Barbosa, um actor, a representar os contos "Túmulos" que podem encontrar na número 3 (autoria de Gotikraal), e som de fundo atmosférico da amiga Babalith. Nesse dia vai também estrear a exposição "Once Upon a Time in the XIX Century" de Ricardo dos Reis e, a seguir ao nosso lançamento gratuito, começa o espectáculo de Lobotomia Ilusória, "História do Mentalismo".

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terça-feira, março 23, 2010

"Os Dez Mandamentos" (2006) mini-série



Nesta altura pré-pascal já é costume que as estações de televisão exibam filmes e séries de teor bíblico. Há pouco tempo assisti a uma mini-série intitulada "Os Dez Mandamentos" que relata vida de Moisés desde que é salvo pela princesa egípcia até à descida do Monte Sinai com as pedras da Lei. Devo confessar que o que me chamou mais à atenção, logo no genérico, foi o nome de Naveen Andrews, que conheço muito bem de outros "delírios". Naveen Andrews é o Sahid de "Lost". Aqui, interpreta o irmão adoptivo egípcio de Moisés, e é a ele que cabe uma das frases mais importantes, logo após a praga da morte dos primogénitos, e que de alguma forma estabelece a perspectiva pela qual é analisado todo enredo: "Que Deus cruel deve ser esse!". É o Deus vingativo do Velho Testamento, Yahvee, Senhor dos Exércitos, cujo anjo exterminador corre as ruas do Egipto e ceifa a vida de crianças e velhos, homens e animais. Moisés assemelha-se muitas vezes a Cristo, nos momentos de crise em que vê a sua vida individual sacrificada aos desígnios superiores do Divino e deseja que afastem dele essa "taça", em que deseja não ter sido ele "o Escolhido".
Desde o início, os hebreus combatem pelo seu direito de existir como povo livre... e matam. No fim, divididos quando ao Deus que devem seguir, hebreus chacinam-se uns aos outros, homens, mulheres, crianças. Matam-se uns aos outros por causa de Deus, esse Deus que não se vê.
É difícil assistir a esta mini-série e não ficar indisposto, e muito zangado com Deus e com a religião, seja ela qual for. Certamente não é o louvor edificante que estamos habituados a ver por esta altura. Mas já dizia o Mestre "conhece a verdade e a verdade libertar-te-à". Antes a verdade que as mentiras do costume.

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sexta-feira, março 19, 2010

"O Conde de Monte Cristo", por Alexandre Dumas (pai)

"O Conde de Monte Cristo" é uma história que conheço desde infância, até porque uma das suas adaptações à televisão foi filmada em parte na minha rua, o que ainda me aguçou mais a curiosidade, mas a leitura da obra propriamente dita foi sendo constantemente adiada. Até ao dia, mais vale tarde do que nunca, em que saquei o livro do Projecto Gutenberg. É um tradução em inglês, e tão difícil de ler que só se pode concluir que o francês original é soberbo.
Por esta razão, as citações que porventura venha a fazer, supremo sacrilégio, serão em inglês.


A história é sobejamente conhecida mas vale a pena fazer um resumo. Edmond Dantes é um jovem promissor acabado de ser promovido a capitão do navio mercante Faraó, onde era, até então, imediato. Ao desembarcar em Marselha, onde mora com o velho pai, a sua primeira preocupação é visitá-lo, para contar as boas notícias, e de seguida vai procurar a jovem catalã Mercedes, com quem pretende casar nos próximos dias. Tudo corre bem para Edmond Dantes e o futuro parece sorridente.
Senão pela inveja e pelo ciúme, que congeminaram a sua desgraça. Danglars, o contabilista do navio, odeia o jovem capitão. Caderousse, o seu vizinho, rói-se de inveja do seu sucesso. Fernand Mondego, talvez o que mais razão tem para odiar Edmond, é primo de Mercedes e tem por ela uma paixão avassaladora. Uma vez que Mercedes não o corresponde, tudo faria para afastar o seu rival. São estes três que conspiram uma denúncia anónima, implicando Edmond Dantes numa conspiração bonapartista (da qual é inocente). Em sequência da acusação, no próprio dia do feliz casamento, Edmond Dantes é preso, e levado perante o procurador Villefort. Este condena-o, embora saiba que é inocente, pois a carta em poder Edmond coloca em risco o pai do próprio Villefort, bonapartista ferrenho numa altura em que Napoleão está no exílio.
Por este motivo, Villefort "junta-se" ao trio de conspiradores, e prende Edmond Dantes numa masmorra do terrível Castelo d'If, destinado a presos políticos, onde este permanecerá 14 anos, sem direito a julgamento nem sentença, e ignorante dos motivos que o condenaram.
É no cárcere que conhece outro prisioneiro político, o fascinante e erudito abade Faria, que lhe ensina tudo o que Dantes jamais aprendera, e lhe fala do enorme tesouro escondido dos Spada, de que conhece a localização na insuspeita ilha de Monte Cristo, e a ensina a Edmond. O abade Faria nunca verá o seu mirabolante tesouro, porque entretanto morre na prisão, e acaba por ser essa morte a libertação de Dantes, pois, numa fuga espectacular, e em completo desespero, toma o lugar do morto dentro da sua mortalha e assim é lançado ao mar.
Edmond Dantes encontra o fabuloso tesouro dos Spada e torna-se o Conde de Monte Cristo. Quando regressa a Marselha, apercebe-se de que o seu pobre pai morreu de fome. A sua noiva, Mercedes, depois de anos à sua espera, tinha acabado por ceder à vontade do primo e com ele se casou, sendo agora a Condessa de Morcef. Danglars é barão e um rico banqueiro. Villefort foi promovido na sua carreira até se tornar procurador do Rei. De Edmond Dantes, o infeliz e inocente prisioneiro, já ninguém se lembra. A partir daí, ninguém escapará da sua implacável e maquiavélica vingança. Danglars, Caderousse, Fernand, e Villefort, todos terão o que merecem.
Esta é, sem dúvida, uma das histórias mais cativantes e poderosas de todos os tempos, e tão relevante que ainda hoje serve de inspiração, não fosse o seu tema tão universal e primitivo como a vingança. [Por exemplo, em "Prision Break", num dos episódios em que Michael Scofield se encontra na prisão sul-americana de Sona, este contempla a hipótese da evasão segundo o "método Dantes": fazer-se passar por morto. Mas os guardas, conhecendo ou não a obra de Dumas, certificam-se de dar uns tiros aos cadáveres antes de estes saírem da prisão. Scofield abandona o plano, mas a sombra de Dantes permanece.]

Comentarei as partes que achei mais curiosas nesta obra impregnada do Romantismo da época em que foi escrita. Para começar, esse mesmo Romantismo, tão agradável mas ao mesmo tempo tão irrealista, prova-nos que o leitor do século XX (e muito mais o do século XXI), já não se satisfaz sem uma análise psicológica das personagens. E depois há aqueles maneirismos que na altura eram altamente vanguardistas mas que hoje me fazem ranger os dentes. Diz o narrador, assim no meio da narrativa: "Deixemos Madame Fulana de Tal entregue ao seu boudoir e penetremos na sala de Monsieur de Sicrano, já antes apresentada ao leitor..." Ora, talvez seja de uma cultura demasiadamente formatada pela linguagem cinematográfica, mas a verdade é que para o leitor se acaba ali toda a ilusão em que tão confortavelmente estava instalado. Ou, como se diria noutras andanças, "I want to believe". Não quero narradores a lembrarem-me que estou a ler um livro. Para a realidade tenho o telejornal, obrigada.
Compreende-se, portanto, sob um prisma totalmente novo, este vanguardismo Romântico, a cruzar-se com uma certa linguagem teatral: não tinham telejornal a estragar tudo.
Como eram ingénuos esses tempos, em que Dumas afirma que a carruagem de Monte Cristo atinge a velocidade de "um estonteante meteoro"! Seria quanto, 20, 30km/hora? Era puxada por chitas? Nem por isso, apenas quatro cavalos. Isto de fazer metáforas com a tecnologia, principalmente nos tempos que correm, pode sair muito perigoso.
Mas este era o século XIX, e Dumas não fugiu ao seu século, nem o leitor deste clássico tal deve esperar. Não é o estilo, mas a obra, o que se tornou imortal. Estava lá, em Edmond Dantes, o que se revisita em "A Fuga de Alcatraz" e "Prison Break", e tudo o resto o que há-de vir.
Passarei, pois, às surpresas e reflexões que me inspiraram a sua leitura.

A história de Rita e Carlini
Antes ainda de comentar a história de Edmond Dantes propriamente dita, não consigo evitar referir esta "história dentro da história", que por lá aparece de modo algo surreal. Aqui, Dumas foi verdadeiramente genial, porque até o leitor moderno se questiona se a história de Rita e Carlini, que o mordomo de hotel conta a Albert de Morcef e Franz D'Epinay para os convencer da existência dos bandidos de Roma, é de facto "real", ou duplamente ficcional: uma ficção inventada pelo próprio Monte Cristo para melhor exercer a sua terrível vingança. Nunca se chega a descobrir. O que é inegável é que Dumas a queria contar, a esta pequena história, e o fez de modo bastante habilidoso.
Nem de propósito, ainda há bem pouco tempo comentava com alguém que a violação, como tema, não era coisa de que o Romantismo gostasse, e que a donzela nunca chegava a ser violada porque entretanto o herói aparecia para a salvar. Esqueci-me da história de Rita e Carlini. Rita era namorada do bandido Carlini, mas por azares desastrosos foi parar às garras do chefe deste, Cucumetto, que a raptou, violou, pediu ao pai dela resgate pela sua vida, e se preparava para a entregar, às sortes, ao resto do bando. O facto de Carlini ser um deles não bastou para intervir de outra forma. (Não há honra entre ladrões.) Carlini, vendo-se impotente para impedir os acontecimentos, aproveita o fato de a rapariga ter desmaiado para a matar. E, assim, a "salva". Ou, pelo menos, não conseguindo salvar a sua honra, consegue impedir que a desonrem mais. Quando chega o pai de Rita com o resgate, e encontra morta a sua filha, junto do homem que a chorava, e que a matara, justifica Carlini: "Cucumetto violou a vossa filha. Eu amava-a, e por isso a matei, para não servir de diversão ao bando inteiro. Agora, se fiz mal, vingai-a." E Carlini oferece ao velho pai o próprio punhal com que tinha morto a sua filha. O que é que este faz? Diz-lhe que fez bem, e ajuda-o a enterrar o corpo. De seguida, para isto tudo não parecer demasiado grotesco, o pai enforca-se numa árvore junto à sepultura da filha.
De alguma forma, eu acabo por ter razão. O Romantismo não sabe abordar o tema. Isso são contas para rosários do realismo do século XX, e se calhar só depois da chamada "libertação feminina". Repare-se que enquanto tudo isto acontecia, a vítima está desmaiada. Não tem vontade nem sequer uma palavra a dizer. É apenas uma criatura passiva, entregue aos desígnios dos homens que a protegem: o pai e o futuro marido. São eles que decidem, é a eles que parece importar a violação. A vítima é segunda vez violentada, nesta perfeita anulação do seu "ser".
Infelizmente, não é caso único nesta obra, espelho da mentalidade da época, e tratarei disso mais à frente.


In Vino Veritas
Algo para pensar:
"Drunk, if you like; so much the worse for those who fear wine, for it is because they have bad thoughts which they are afraid the liquor will extract from their hearts;" and Caderousse began to sing the two last lines of a song very popular at the time,--
'Tous les mechants sont beuveurs d'eau; C'est bien prouve par le deluge.' [*]

* "The wicked are great drinkers of water
As the flood proved once for all."

Os iníquos são grandes bebedores de água
Como o Dilúvio provou de uma vez por todas


Number 34 and Number 27
«A new governor arrived; it would have been too tedious to acquire the names of the prisoners; he learned their numbers instead. This horrible place contained fifty cells; their inhabitants were designated by the numbers of their cell, and the unhappy young man was no longer called Edmond Dantes--he was now number 34.»

Confesso não saber se Dumas foi o primeiro escritor a mencionar numa obra o horror da despersonalização do indivíduo e a sua transformação em mero número - mais tarde tão cara aos escritores de ficção científica do século XX, senão mesmo ainda mais cara aos inventores dos campos de concentração, que nada tinham de ficcional - mas não deixa de ser curioso encontrar aqui, já no Romantismo do século XIX, esta preocupação tão moderna.


É preciso ter sorte
Nas primeiras páginas de "O Conde de Monte Cristo" encontrei algumas das cenas mais comoventes que já li, mas esta em particular deu-me que pensar:

«"In two or three hours," thought Dantes, "the turnkey will enter my chamber, find the body of my poor friend, recognize it, seek for me in vain, and give the alarm. Then the tunnel will be discovered; the men who cast me into the sea and who must have heard the cry I uttered, will be questioned. Then boats filled with armed soldiers will pursue the wretched fugitive. The cannon will warn every one to refuse shelter to a man wandering about naked and famished. The police of Marseilles will be on the alert by land, whilst the governor pursues me by sea. I am cold, I am hungry. I have lost even the knife that saved me. O my God, I have suffered enough surely! Have pity on me, and do for me what I am unable to do for myself."»

Edmond Dantes tinha acabado de fugir de forma espectacular do seu cárcere, encontrava-se agora numa ilha deserta onde chegara a nado sob grande esforço, mas estava enfraquecido pela fome, e o seu aspecto de fugitivo seria suficiente para atrair sobre si fatais atenções. Nesse momento, volta-se para o Céu: "Ò meu Deus, eu já sofri certamente o suficiente. Tem pena de mim, e faz por mim o que não sou capaz de fazer por mim próprio." Dantes avista então no mar uma embarcação de contrabandistas que acaba por lhe fornecer um meio de escapar.
Esta singela ficção recordou-me de um facto que interessa muito a muita gente fazer por esquecer. O engenho não basta. Às vezes, é preciso mesmo ter sorte. Como Dantes, que avistou um barco.


Edmond Dantes apresentado como vampiro
Devo dizer que não esperava de todo esta descrição do Conde de Monte Cristo por Alexandre Dumas em que o autor, pelas palavras de uma personagem, o assemelha a um vampiro, nomeadamente Lord Ruthven, muito provavelmente o primeiro vampiro "romântico" precursor do mito do sedutor anti-herói bebedor de sangue como o conhecemos agora, por exemplo, através de Anne Rice. Ora vejam:

«"All I can say is," continued the countess, taking up the lorgnette, and directing it toward the box in question, "that the gentleman, whose history I am unable to furnish, seems to me as though he had just been dug up; he looks more like a corpse permitted by some friendly grave-digger to quit his tomb for a while, and revisit this earth of ours, than anything human. How ghastly pale he is!"
"Oh, he is always as colorless as you now see him," said Franz.
"Then you know him?" almost screamed the countess. "Oh, pray do, for heaven's sake, tell us all about--is he a vampire, or a resuscitated corpse, or what?"
"I fancy I have seen him before; and I even think he recognizes me."
"And I can well understand," said the countess, shrugging up her beautiful shoulders, as though an involuntary shudder passed through her veins, "that those who have once seen that man will never be likely to forget him." The sensation experienced by Franz was evidently not peculiar to himself; another, and wholly uninterested person, felt the same unaccountable awe and misgiving. "Well." inquired Franz, after the countess had a second time directed her lorgnette at the box, "what do you think of our opposite neighbor?"
"Why, that he is no other than Lord Ruthven himself in a living form."
This fresh allusion to Byron [*] drew a smile to Franz's countenance; although he could but allow that if anything was likely to induce belief in the existence of vampires, it would be the presence of such a man as the mysterious personage before him.
"I must positively find out who and what he is," said Franz, rising from his seat.
"No, no," cried the countess; "you must not leave me. I depend upon you to escort me home. Oh, indeed, I cannot permit you to go."
"Is it possible," whispered Franz, "that you entertain any fear?"
"I'll tell you," answered the countess. "Byron had the most perfect belief in the existence of vampires, and even assured me that he had seen them. The description he gave me perfectly corresponds with the features and character of the man before us. Oh, he is the exact personification of what I have been led to expect! The coal-black hair, large bright, glittering eyes, in which a wild, unearthly fire seems burning,--the same ghastly paleness. Then observe, too, that the woman with him is altogether unlike all others of her sex. She is a foreigner--a stranger. Nobody knows who she is, or where she comes from. No doubt she belongs to the same horrible race he does, and is, like himself, a dealer in magical arts."

Dumas, contudo, incorreu no erro da época de atribuir Lord Ruthven, isto é, a história "The Vampyre" (de que aqui já se falou), a Lord Byron, quando esta se veio a revelar de facto obra do amigo deste último, John Polidori, confusão que muita tinta fez correr nos meios literários.
Não deixa, no entanto, de ser curioso notar este facto, como a ficção se pode graciosamente cruzar de forma tão bem conseguida.


Valentine
Valentine é a típica heroína romântica: loira, pálida, inocente, apaixonadíssima pelo seu amado, obediente à família, pronta a tornar-se mais uma fada do lar, um anjinho para ser adorado, não uma mulher a sério e muito menos para levar a sério. É mais um exemplo de um "não-ser" em que um certo Romantismo era tão pródigo. Tal como todas as heroínas românticas, a esta não falta também a pincelada doentia (a bem da verdade, não estaria doente se a madrasta não lhe desse veneno todos os dias ao pequeno almoço). Quase morre, mas não morre, finge-se que morre, nem a sua morte é real. O que não é de estranhar, porque nenhuma Valentine é real. Nem nenhuma Valentine, nem nenhuma Rita, e certamente nenhuma Mercedes. A Mercedes, deixo-a para o fim.


Eugenie

«"Have you noticed the remarkable beauty of the young woman, M. Lucien?" inquired Eugenie.
"I really never met with one woman so ready to do justice to the charms of another as yourself," responded Lucien, raising his lorgnette to his eye. "A most lovely creature, upon my soul!" was his verdict.»

Depois de tudo isto, ninguém vai acreditar no que vou dizer a seguir, mas lede por vós mesmos. Ao contrário de tudo o que se podia esperar, Alexandre Dumas apresenta-nos uma lésbica! Uma lésbica, se bem que disfarçada, reconhecível apenas para os conhecedores (e especialmente "conhecedoras"), que contraria todas as outras personagens femininas.
A Eugenie, filha do barão Danglars, e grande "amiga" da sua jovem professora de música, Monte Cristo envolve no seu esquema preparando-lhe um casamento escandaloso com o seu meio-irmão. Mas sosseguem, o casamento nunca foi planeado para se concretizar de facto; era apenas um meio para atingir um fim. (Incesto é mais coisa do nosso Eça de Queirós.) Na verdade, Monte Cristo torna-se um protector de Eugenie e ajuda-a a realizar os seus maiores sonhos: fugir com a amiga e tornar-se uma artista.
Repare-se com que subtileza Dumas aborda o tema, tão explícito para nós, leitores modernos, e no entanto tão opaco (ou não?...) para os espíritos da época, nesta conversa entre Maximilian e Valentine. Diz ele:

"Ah, how good you are to say so, Valentine! You possess a quality which can never belong to Mademoiselle Danglars. It is that indefinable charm which is to a woman what perfume is to the flower and flavor to the fruit, for the beauty of either is not the only quality we seek."

Ao negar a Eugenie "o charme indefinível da mulher", Maximilian retira-lhe, assim, a feminilidade, e faz-nos questionar quais são as ideias de Dumas acerca da sua própria personagem.
E acrescenta Maximilian:

"No, Valentine, I assure you such is not the case. I was observing you both when you were walking in the garden, and, on my honor, without at all wishing to depreciate the beauty of Mademoiselle Danglars, I cannot understand how any man can really love her."

Nenhum homem a pode amar, diria Alexandre Dumas se pudesse exprimir o que pensava na altura, porque vê, nesta mulher, um homem. Interessante e curiosa análise do subconsciente da época.

«"She told me that she loved no one," said Valentine; "that she disliked the idea of being married; that she would infinitely prefer leading an independent and unfettered life; and that she almost wished her father might lose his fortune, that she might become an artist, like her friend, Mademoiselle Louise d'Armilly."
"Ah, you see"--
"Well, what does that prove?" asked Valentine.
"Nothing," replied Maximilian.
"Then why did you smile?"»

Maximilian sorri (mas não comenta com a inocente e pura e ingénua Valentine) porque se confirmam as suas suspeitas que Eugenie e Louise não são "apenas" amigas. Alexandre Dumas diz-nos isto neste sorriso de Maximilian, e depressa muda de assunto, para voltar a pôr os pombinhos a confessar mutuamente o seu amor conforme as normas morais da altura.
Mais tarde, quando Eugenie e Louise são apanhadas a meio da fuga, dormindo no mesmo quarto, na mesma cama, onde são surpreendidas pelo noivo da primeira, que se tornara também um fugitivo à justiça, é-nos dito que saem da estalagem envergonhadas sob os olhares de uma multidão. O que não se explica, jamais, é porque estão envergonhadas. A razão plausível para tal é que o noivo de Eugenie, um suposto príncipe italiano, não passa de um reles criminoso. Nada é revelado se a multidão também sabe que dormiam ambas na mesma cama. Tenho para mim que era por isso que as olhavam, mas Alexandre Dumas é inteligente e não o diz claramente. Afinal, não se quer chocar as Valentines desse tempo, que perante o escândalo não tocariam sequer no livro. Cabe aos Maximilians da época o sorriso esclarecido... e silencioso.


Mercedes
Mercedes, deixei-a para o fim porque nunca compreendi, e ainda hoje não compreendo, o que raio se passou naquele final. Mercedes não faz sentido. Julguei que ler o livro me esclareceria, mas fiquei na mesma.
Mercedes é descrita como uma mulher forte, corajosa e orgulhosa. Nada faz adivinhar que seja uma das tais criaturas passivas descritas acima, mais um "não-ser" igual às outras. E no entanto, quando Mercedes reconhece Edmond Dantes, o grande amor da sua vida, a quem julgava morto, na figura de Monte Cristo, porque é ela a única a reconhecê-lo de imediato, pela voz, é-nos dito, finge que de nada se apercebe.
Ora, estamos a falar de uma mulher tesa, espanhola, ainda por cima!, que acaba por casar com um homem que não ama porque foi também vítima da conspiração que destruiu o seu noivo, e de repente vê-o aparecer, ao fim de vinte anos, podre de rico, rodeado de todos os luxos, e ainda por cima acompanhado por uma rapariga com idade para ser sua filha, e não lhe faz uma cena?! Eu, que não sou espanhola, fazia-lhe uma peixeirada de que Edmond Dantes jamais se esqueceria: "Mas por onde andaste, desgraçado, que me abandonaste quase no altar?!" E se descobrisse todo o enredo, então, partia um vaso na cabeça do primo/marido, e de seguida enfeitava-lha com uma bela armação! Nem era preciso andarem Fernand e Edmond a desafiarem-se para duelos. Mercedes, se fosse mulher, tratava da saúde aos dois! E ainda por cima espanhola!
Em vez disto, que faz Mercedes? Resigna-se. Renuncia. Anula-se.
Na sua última conversa com Edmond, este ainda lhe pergunta se deseja algo dele. E o que responde? Que está velha. Que tem cabelos brancos. Que lhe pesam os anos. Claro que lhe pesam os anos. Uma mulher não pode esperar 14 anos que o homem que ama arranje maneira de fugir da prisão. Uma mulher, por imperativos biológicos, tem que se despachar. Porque é mesmo assim, não há volta a dar-lhe. Mas uma mulher não deixa de ser mulher, muito menos na presença de um amor tão mal resolvido. E era tão fácil para Dumas resolver isto de outra maneira. Bastava-lhe pôr Mercedes a dizer: "O tempo passou, e eu mudei, e se te amava dantes, agora já não te amo." Je ne t'aime plus. Isto sim, era o que uma mulher diria. Se fosse o caso. Não parece que fosse o caso, e Dumas não soube resolver.
Dumas é um autor viril, e curioso, e intelectual, mas as mulheres são para ele um mistério. Tenta adivinhá-las, e falha. Dá-lhes voz, mas não falam. E quando falam, dizem disparates, como Haideé (a suposta escrava de Monte Cristo) que lhe declara o seu amor afirmando que o ama como a "um marido, um irmão, um pai". Como se tal coisa fosse possível.
Frued, ò divino, que falta fazias tu à literatura!

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quinta-feira, março 18, 2010

"Control" (2007)


Assistir a este filme perturbou-me tanto que não o consegui ver todo de seguida. Há muito tempo que o ando a fazer aos pedaços. Finalmente hoje terminei, em lágrimas. Tinha vontade de fazer a crítica habitual, mas não há nada que possa dizer que seja objectivo, imparcial e, se calhar, minimamente relevante.
Na falta das palavras, que fale a eloquência das lágrimas.

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Hoje não tenho palavras para explicar como tudo está a chegar ao derradeiro fim.

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domingo, março 14, 2010

"Disseste a verdade, Maximilian; de acordo com a forma como a encaramos, a morte pode ser uma amiga que nos embala como uma ama, ou um inimigo que violentamente arranca a alma do corpo. Um dia, quando o mundo for muito mais velho, e quando o homem for senhor de todos os poderes destrutivos da natureza, para servir o bem geral da humanidade; quando o homem, como estavas a dizer, tiver descoberto os segredos da morte, então a morte tornar-se-à tão doce e voluptuosa como um sono nos braços de uma amada."

Alexandre Dumas, "The Count of Monte Cristo" (tradução minha, do inglês)

Mais sobre esta obra, em breve.

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One Death
One Try
Are your sure ?
Do you really want to Die ?


Suicide Commando, "Cause of Death: Suicide"

Provavelmente não estaria a pensar em tudo isto se esta não fosse uma das músicas que uso para fazer ginástica. Mas é. E foste tu quem primeiro me chamou a atenção para ela. Sabes que sempre fui muito dura de ouvido em relação à música electrónica. Agora não consigo ouvi-la sem me lembrar de ti. E depois, está a tornar-se um problema cada vez maior ficar sozinha com os meus pensamentos, o que acontece também quando faço ginástica. Sempre te disse, lembras-te?, que jamais poderia fazer ioga para "relaxar", tão concentrada e imóvel com os meus pensamentos? Não, eu preciso de distracção. Preciso de uma televisão, de um filme, de um livro. Nem que seja necessário fazê-lo e vê-lo na minha cabeça, desde que esta esteja bem longe daqui.
Mas agora já não sabes, já não sabes nada de mim, porque te foste embora, e eu não tive culpa nenhuma. Não me conformo. Eu preciso de ti. E pior um pouco, acho que tu precisas de mim também.
Este post poderia chamar-se "De como as pessoas arruínam as suas vidas".
Se porventura estiveres a ler isto (mas duvido muito que estejas) não te preocupes que ninguém sabe que estou a falar de ti. Mas como estou a falar para ti e não me estás a ouvir, faz de conta que estou a falar sozinha. Afinal, foi o conselho dado por um profissional. Mas tu não sabes, porque não estás aqui. E eu estou farta de ficar sozinha com os meus pensamentos.

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sábado, março 13, 2010


You love me.
You love me not.
You love me.
You love me not.
You love me.
You love me not.


You love me not.

A verdade é que não tenho muito para oferecer.

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terça-feira, março 09, 2010

Ajuda Urgente para os Animais de Loures!

Do site da associação Animais de Rua:

Ajuda Urgente para os Animais de Loures!

Todos estes animais viviam num terreno ocupado ilegitimamente por uma pessoa que os criava com intuitos dúbios. São 80 cães e estavam alojados em cima de várias toneladas de ossadas de vaca (que era a única alimentação que lhes era fornecida) e de cães mortos. Nasciam, viviam, alimentavam-se, defecavam e urinavam em cima dos ossos que eram ao mesmo tempo a sua única fonte de alimentação. Neste cenário, só os mais fortes sobreviviam. Os que morriam eram também comidos pelos seus companheiros de cativeiro - fenómenos de canibalismo na espécie canina só acontecem em situações extremas como esta. Há imagens da situação em que estes animais se encontravam na secção de Comunicação Social, do nosso website.

Todos estes cães só conheceram sofrimento desde o dia em que nasceram. Cabe-nos a nós dar um final feliz às suas histórias. São quase todos animais muito medrosos, mas que facilmente recuperarão a confiança no ser humano se lhes for dada essa oportunidade. Nenhum deles é agressivo e todos eles se dão muito bem com outros animais. Na curta sessão fotográfica que lhes fizemos (e aproveitamos desde já para agradecer à Wiseguys, que mais uma vez pôs a sua técnica ao serviço dos animais e capturou estas excelentes imagens), todos eles se mostraram meigos e reagiram com agrado à aproximação da voluntária que lhes fez festas.

Como podem ver, são dezenas de animais. Não será possível todos eles conseguirem um lar a não ser que sejam divulgados de forma massiva através de todos os meios disponíveis e que contem com a cooperação de todas as associações de protecção animal e de todas as pessoas que se preocupam com o seu bem estar.

Agradecemos desde já às associações Pé Ante Pata, que já se ofereceu para ajudar na divulgação e encaminhamento para adopção destes animais, e Abrigo da Bicharada, que irá acolher 3 fêmeas.

Pedimos a todas as pessoas e associações que possam acolher algum/alguns destes animais, mesmo que apenas temporariamente, que nos contactem para o geral@animaisderua.org.

Podem também dirigir-se directamente ao canil municipal de Loures.
Contacto do Gabinete Médico Veterinário Municipal - 219 848 210

Relembramos que foram encaminhados 15 cães (5 para cada um) para os canis municipais de Lisboa, Amadora e Vila Franca de Xira. A situação destes animais é ainda mais grave e urgente do que a dos animais que ficaram no canil de Loures, uma vez que não estão a ser alvo de qualquer divulgação já que, inacreditavelmente, estes municípios não permitem a captura de imagens dos animais que albergam..

Seguem abaixo fotografias e descrição de todos os animais que se encontram no canil de Loures.

Recomendamos vivamente a todas as pessoas e associações que decidam acolher algum/alguns destes animais a colocação imediata de uma coleira com alguma forma de identificação visível. Ver aqui, algumas dicas sobre identificação de animais de companhia.

A associação Animais de Rua compromete-se a esterilizar todos os animais que forem retirados do canil de Loures, para o que precisará muito de padrinhos de esterilização que ajudem a fazer face às despesas das cirurgias.

Agradecemos toda a ajuda possível na divulgação deste apelo.

A equipa da Animais de Rua

Mais informação e fotos dos cães resgatados

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quinta-feira, março 04, 2010

Agarrei-me ao vampiro

Não é todos os dias que me apetece escrever mas hoje deu-me para isto.
Dantes, havia em Lisboa a Feira Popular. Podia ser muito bimbo mas eu gostava de ir beber sangria e ver as caras das pessoas quando andavam naquelas maluquices perigosas. Eu nunca andava. Só gostava de me sentar a beber sangria a observar as suas expressões de terror, a ouvir os seus gritos, a escutar os comentários. Digam o que disserem, era impagável. Gostava muito da Feira Popular e lamento que tenha desaparecido (em mais um negócio da China que ninguém percebe).
Mas avançando. Como disse, não gostava de andar em coisa nenhuma, nem sequer no Comboio Fantasma. Minto. Gostava de uma coisa em que se praticava a pontaria. Antes de beber sangria, claro, hahaha!
Tirando esse divertimento bélico (ah, que saudades de dar uns tirinhos!), só me atrevi a ir a outra coisa. Nos últimos anos da Feira montaram um espectáculo chamado A Casa do Terror, ou algo assim. Era de facto uma casa, com actores vestidos a preceito, cuja missão era meter medo aos visitantes. A ideia era espanhola. Desafiada por um amigo, lá me atrevi a experimentar, certa de que com a minha experiência em filmes de terror não me ia acagaçar. Afinal, tinha 26 anos, e já umas sangrias a acompanhar! Podia lá ter medo daquilo, certo?!... À porta estava um vampiro, vestido à conde Drácula, muito a rigor, que era o cicerone. Era quase tão sinistro como um gótico. Quase. O que estragava tudo era o colete vermelho e a camisa branca. (Vampiros amadores!)
Enfim, entrei, com um grupo de pagantes, e depois disseram-me que ao subir umas escadas não reparei na miúda do Exorcista que se retorcia algures a um canto sombrio. Estava a olhar para onde, pergunto-me eu? Possivelmente para o vampiro.
Em grande escuridão, penetrámos num cemitério. Do silêncio, começámos a ouvir sussurros, e depois algo nos tocou. Eram zombies. E bem caracterizados que eles estavam! Aquela gente era mesmo do teatro e fazia o seu papel! Sentíamo-nos no teledisco "Thriller" do Michael Jackson. Fiquei um bocado nervosa mas não tive medo. Faltava algo de essencial para me meter medo. Faltava o cheiro. Sem o cheiro da putrefacção e da morte, o meu cérebro distinguiu claramente que nada daquilo era real. Lá sorri e continuei.
Então o vampiro voltou a aparecer, naquele que devia ser o momento da metade da expedição, e avisou-nos: "A partir daqui ainda se pode voltar para trás! Quem não sair agora, já não sai!"
Isto também era para meter medo, mas quanto mais olhava para ele mais contente eu ficava. (Acho que o actor não estava a achar graça nenhuma ao meu carinho pela sua pessoa, mas lá deve ter percebido "esta é gótica, tou lixado, nem vale a pena insistir!")
Passámos a um corredor, e foi aí que se deu o mais estranho. Se os zombies não me convenceram, por falta do cheiro, algo mudou quando comecei a ouvir, nitidamente, um rosnar. Um rosnar ALTO e ameaçador, e percebi que do outro lado da porta estava um lobisomem. Reparem, eu não o vi sequer. Senti-me tomada de tal terror, só por ouvir o som, que me voltei para trás, e pedi desculpa ao meu amigo, e disse ao vampiro: "Eu quero sair! Eu quero sair! Por onde é, por onde é?!"
Acho que o vampiro se desiludiu comigo. Mas foi assim, agarrei-me ao vampiro, para longe do barulho, e ele guiou-me pela "passagem secreta" para a rua. "Cuidado com as aranhas!", dizia, sempre no seu papel, mas eu não largava era o vampiro.
Nunca me arrependi de voltar para trás. Queria ter medo, e tive medo. Missão cumprida.
O meu amigo ainda passou por alguns sustos, o último dos quais foi ser recebido pelo homem louco com a motoserra de "Texas Chainsaw Massacre", mas até a isso assisti em segunda mão. Quando a porta se abriu, ouvi a serra, e ouvi os gritos, e senti medo também. E nem sequer já lá estava.
Reparem como é curiosa esta coisa do medo, que vem dos sentidos todos, do cheiro, da audição, dos sentimentos, e principalmente da imaginação. Quanto menos se vê, mais se imagina. Quanto mais se imagina, mais assustador se torna. Eu não vi lobisomem nenhum. Eu imaginei-o. Naquele momento, "acreditei" tanto nele que tive medo e voltei para trás, com medo do que ia ver. Com medo de ver o meu pior pesadelo. Esse, o meu pior pesadelo, jamais o veria, porque apenas existia na minha cabeça. Mas naquele momento existiu, e dei por bem gasto o dinheiro do bilhete.
E depois, podia lá perder a oportunidade de ser guiada à "segurança" pelo braço de um "vampiro"?... Só se fosse muito louca!
Todos pagavam o mesmo, mas nem todos usufruíam os mesmos prazeres.

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