domingo, 18 de outubro de 2026

For Evigt / Eterno (2023)


Um sismo abre uma fissura submarina na crosta terrestre que ameaça comprometer o campo magnético da Terra. Este cataclismo, supostamente causado pelas alterações climáticas, irá pôr fim a toda a vida no planeta que ficaria desprotegido das radiações espaciais.
Dito assim, isto seria ficção científica, mas a história de "For Evigt" não é esta. Na verdade, nunca se percebe o que é que as alterações climáticas (à superfície) têm a ver com a fissura no núcleo terrestre. Pode ser ignorância minha mas, já agora, se isto tem alguma relação plausível, podiam ter feito o favor de explicar.
Este filme nórdico (segundo o IMDB, uma produção da Dinamarca, Islândia e Noruega) não está verdadeiramente interessado na ficção científica. Do que aqui se trata é de uma relação romântica que acabou mal e de um lamento sobre oportunidades perdidas da juventude vistas à luz da maturidade. As cenas de ficção científica propriamente dita são lentas e confusas e eu dei por mim a pensar em tudo menos no filme.
Mas também dei por mim, quando o filme acabou, a pensar no significado do que tinha visto.
Será uma metáfora? Uma maneira de dizer que a humanidade age como um jovem imaturo que privilegia o presente sem querer saber do futuro dos que virão depois dele? Se sim, haveria melhores maneiras de transmitir a mensagem. Mas pelo menos fez-me pensar.

12 em 20


domingo, 11 de outubro de 2026

Lovecraft Country (2020)

Chama-se "Lovecraft Country" à região ficcional que H. P Lovecraft inventou para situar as suas histórias, parte imaginação e parte realidade da Nova Inglaterra. Este "Lovecraft Country", porém, é a adaptação do livro homónimo de Matt Ruff e não de H. P. Lovecraft como o título sugere.
O primeiro episódio até começa bem. Atticus é um veterano da guerra da Coreia que parte à procura do seu pai, misteriosamente desaparecido na remota localidade de Ardham (sim, como Arkham). Atticus e o seu tio são ávidos leitores do verdadeiro H. P. Lovecraft e perfeitamente bem preparados para investigar enigmas sobrenaturais, lutar contra monstros e traduzir livros escritos em línguas arcaicas. Isto prometia ser uma espécie de "Sobrenatural" encontra "Indiana Jones".
Mas não é. "Lovecraft Country" é um drama sobre uma família negra de Chicago nos anos 50 que enfrenta o racismo, a segregação e a violência racial da época. O drama está embrulhado em histórias inspiradas em H. P. Lovecraft que nem fingem querer meter medo. Quem está à espera de ver K'thulla, os alienígenas de Plutão, os híbridos de Dunwich, ou até mesmo o reanimador, esqueça, não há nada disso aqui.
Tive muitas vezes a sensação de estar a ver dois filmes diferentes. Por um lado, o drama histórico. Por outro, as aventuras dos protagonistas que se vêem envolvidos com a ordem secreta Filhos de Adão. Às vezes até estava a gostar mais do drama histórico, quando começava a "dar" o outro filme, e assim sucessivamente. Mas o "filme de terror" em "Lovecraft Country" é muito mau, com magia aleatória e CGI pobrezinho, e um enredo principal sem pés nem cabeça.
Faz uma pessoa perguntar-se: se queriam fazer um drama histórico, porque não o fizeram? Porque é que tinham de meter Lovecraft ao barulho? Tinham, e quiseram metê-lo, porque Lovecraft era muito racista (mais ainda na escrita não-ficcional do que nos contos), e esta é uma história sobre racismo. Na verdade, somos tão martelados com o racismo, constantemente e a torto e a direito, que saímos daqui a perceber: ah, ok, Lovecraft Country é a América. Lovecraft racista, América racista, território de Lovecraft! Podiam ser ainda um bocadinho mais explícitos? Não, não podiam. Podiam era ter sido um bocadinho mais subtis. "True Blood", também da HBO, era uma analogia com a homossexualidade, mas nunca deixou de ser uma história de vampiros. "Lovecraft Country" é um drama de época disfarçado de sobrenatural, e isso aborrece-me. Se não queriam levar o terror a sério, ninguém os obrigava a fazer terror. O título até podia ser o mesmo, bastava incluir o protagonista que gosta de Lovecraft, mas não vendiam gato por lebre para martelarem a mensagem na cabeça de mais gente. Mensagem essa que, se calhar, até seria transmitida com a seriedade que merece num drama igualmente sério. Se calhar este formato até é contraproducente para a mensagem.
E qual é a mensagem final? Chegamos ao último episódio e a mensagem é "todos os brancos são maus e racistas, vamos tirar-lhes a magia para sempre". Bonito, sim senhor. Uma mensagem racista a fechar uma série sobre racismo, se não mesmo um incitamento descarado à violência a julgar pela última cena de todas. Não era preciso dar a outra face e perdoar, mas aquilo foi bater no ceguinho.
Tirando a temática do racismo, a série só se debruça com igual atenção sobre uma temática gay e trans (com muito sexo explícito à mistura porque é a HBO). Aqui até se safaram melhor, com um sub-enredo sobre uma mulher negra a quem o amante dá uma poção para se transformar em mulher branca. Esta "mudança de corpo" é realmente inspirada num conto de Lovecraft e é sempre fascinante, mas melhor ainda quando ela descobre que o amante também é uma mulher que usa a mesma poção para se transformar em homem. Isto sim, é interessante, provocador, criativo, e subtil o suficiente (também não precisa de ser tão subtil que não se entenda), e não foi necessário martelar na tecla até à náusea. O espectador percebe, o espectador não é idiota.
"Lovecraft Country" é uma série de activismo e não deve ser vista como outra coisa. Quem gosta de H. P. Lovecraft pode evitar que não perde nada.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: drama histórico, True Blood, sobrenatural, H. P. Lovecraft

 

domingo, 4 de outubro de 2026

You Should Have Left / Deviam Ter Saído (2020)

Theo, um banqueiro rico e reformado, a sua mulher Susanna e a filha de 6 anos vão passar férias num alojamento temporário no País de Gales. Para começar, a casa que os espera é muito moderna, não tem aspecto de lugar pitoresco no campo. Mais tarde eles interrogam-se, quem é que sugeriu este sítio, Theo ou Susanna?
Theo e Susanna estão em crise. Susanna é muito mais nova do que Theo e é actriz de profissão, e Theo não consegue conter os ciúmes, incluindo bisbilhotar-lhe o telemóvel, o tablet e o portátil. Mas a Theo pesa também um passado trágico. A sua primeira mulher afogou-se na banheira por ter tomado comprimidos para dormir e Theo foi julgado, e absolvido, como suspeito de homicídio. Uma série de pesadelos leva-o a pensar que precisam de mudar de ares e passar tempo de qualidade juntos para que as coisas melhorem.
Assim que chegam ao local, Theo e Susanna reparam que a casa parece muito maior por dentro do que por fora. Isto é uma ilusão comum, mas logo na primeira noite é-nos revelado que não é uma ilusão. Esta casa labiríntica manipula o espaço e o tempo e torna realidade os demónios que já existem na cabeça dos personagens. Resta saber o que está reservado à família.
Fiquei completamente agarrada a este filme que tem influências óbvias de "The Shining" e de H. P. Lovecraft. Uma casa que não tem ângulos rectos não pode ser boa.
(A minha casa é assim, não deve ter um único ângulo recto. Causa tonturas.)
À medida que ia conhecendo as personagens, principalmente a menina, cada vez me afligia mais. Não queria que isto se tornasse "The Shining", mas ao mesmo tempo até queria. O grande problema de "You Should Have Left" é que, ao contrário do que fazem Stephen King e Lovecraft, não abraçou o terror que sugeria. Não era necessário que o fim fosse semelhante a "The Shining" para nos perturbar, mas acho que o filme nunca quis realmente ir tão longe. Como amante de terror, tenho a lamentar, mas "You Should Have Left" vale muito bem pelos primeiros dois terços do filme, e especialmente por aquela parte em que Theo foge com a filha de noite, no escuro e no frio. Eu fiquei arrepiada várias vezes durante este filme e isto já não me acontece com frequência.

13 em 20 (que podia ter sido mais se o fim não ficasse aquém da premissa)