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domingo, 30 de maio de 2021

Terminator: Salvation / Exterminador Implacável: A Salvação (2009)

Só há uma maneira de ver este filme: ou se gosta da saga ou não se gosta. Quem não gostou de “Exterminador Implacável” e suas sequelas escusa de perder tempo. Este filme não é muito bom nem acrescenta nada de novo. Vale pelo entretenimento.
O “herói” desta vez é Marcus Wright, homicida condenado à morte que aceita doar o seu corpo à ciência. Quando lhe concedem as últimas palavras, admite que é mau e merece o castigo.
Acorda novamente em plena guerra das máquinas contra os seres humanos, transformado num cyborg, mas ele não sabe o que lhe fizeram nem como foi ali parar. Ao dar-se conta da guerra, decide imediatamente lutar do lado dos humanos. Pelo caminho conhece o jovem Kyle Reese, feito prisioneiro pelas máquinas. Wright consegue escapar e é então que se cruza com um tal John Connor, que ainda não é o chefe da Resistência. Acontece que a Resistência parece ter conseguido uma vantagem tecnológica sobre as máquinas e o chefe da Resistência em funções não quer perder tempo: decide arrasar uma das instalações da Skynet sem apelo nem agravo, apesar dos prisioneiros humanos que lá estão. John Connor não pode aceitar isto porque o jovem Kyle Reese, a quem ainda não conhece, precisa de ir ao passado conhecer Sarah Connor. Estão a ver agora? Connor nunca tem de entrar em conflito com o superior em funções, porque entretanto a vantagem tecnológica que julgavam possuir era uma armadilha. Graças a este engodo, grande parte da Resistência é destruída, tornando Connor no chefe efectivo. É fulcral entrar na sede do inimigo e libertar Kyle Reese. Wright já sabe que o transformaram num cyborg, mas voluntaria-se. Quando as máquinas o confrontam com o facto de ser o que é, e que o fabricaram para se infiltrar na Resistência, responde-lhes que não é por ser feito de aço que deixa de ser um homem.
E foi o momento filosófico da noite, senhoras e senhores. O resto é pancadaria e cenas de acção. É claro que nós sabemos que Kyle Reese vai ser libertado, senão não existiria John Connor, mas e se algo correr mal?
A parte mais surpreendente do filme é quando aparece um modelo T-800 acabado de sair da caixa, isto é, um Arnold Schwarzenegger nuzinho da silva e jovem, em 2009! Claro que fui investigar como é que fizeram aquilo, embora já desconfiasse. O actor é um duplo e a cara é sobreposta com software, mas a ilusão ficou tão bem feita que se aguenta à bronca. A câmara também nunca se aproxima demais, para dizer a verdade.
Este é daqueles filmes para nos entreter durante duas horas sem termos de pensar muito. Seria difícil sair daqui alguma coisa de original tendo em conta que a saga já foi mais que explorada. Para quem já perdeu a conta, este é o quarto episódio do “Exterminador Implacável”.

13 em 20
 

 

domingo, 16 de maio de 2021

The Purge: Election Year / A Purga: Ano de Eleições (2016)

Passaram-se alguns anos desde o início da Purga. Agora a Purga é quase um feriado nacional, a noite em que se pode cometer impunemente qualquer crime, até o homicídio. Os “purgadores” tornaram-se mais sofisticados. Trajam a rigor para ir matar, usam métodos mais teatrais (a certa altura há uma guilhotina) e armas mais originais. Grupos de miúdas adolescentes vestem-se como quem vai para a noite em carros decorados com luzes de Natal. Nas palavras de um dos vendedores de roupa e máscaras, “A Purga é o Halloween dos adultos”. Turistas de todo o mundo visitam os Estados Unidos para participarem também na matança, dando origem ao “turismo de homicídio”. Serviços religiosos são organizados em que se matam várias vítimas como parte do ritual. É a carnificina institucionalizada.
Mas, finalmente, a população começa a acordar para a atrocidade com que antes compactuava. Se nos primeiros dois filmes não havia assistência médica durante a Purga, agora a sociedade civil organizou os seus próprios hospitais de campanha com médicos e enfermeiros voluntários. Veículos improvisados de ambulância percorrem as ruas à procura de feridos sem que os “purgadores” os incomodem. O cúmulo é um “carro do lixo” da Câmara, que agora também anda nas ruas na noite da Purga, carregado de mortos, anunciando com um megafone: “Serviços de limpeza e remoção de vítimas. Mantenha as ruas limpas”.
Grande parte do eleitorado quer que isto acabe. Uma senadora anti-Purga está bem posicionada para ganhar as eleições. O poder vigente, os Novos Pais Fundadores, decide aproveitar a noite da Purga para se livrar dela. Se até ali era proibido tocar nos detentores de altos cargos políticos, a regra muda nessa noite. A senadora sabe o que tem pela frente. O seu chefe de segurança é precisamente o polícia do segundo filme, que já pensou em tudo para a manter segura em casa dela, onde a senadora insiste em ficar nessa noite como “90% das famílias”. Mas são traídos, e acabam os dois na rua, perseguidos por mercenários altamente bem equipados contratados pelo governo e à mercê de todos os “purgadores” que andam na matança.
São salvos pelos voluntários da ambulância que os levam para o hospital clandestino. Estas instalações são protegidas pelas milícias anti-Purga que surgiram no segundo filme, mas que agora já se transformaram num exército bem oleado. A senadora descobre que nessa noite tencionam assassinar um dos Novos Pais Fundadores (o tal dos sacrifícios na igreja) e quer impedi-los. “Não quero ser eleita através do homicídio. Vai contra tudo o que eu represento”, tenta argumentar com eles.
Mas as coisas complicam-se. Os mercenários descobrem onde ela está e acabam na rua outra vez. Agora, além de tentar travar os planos do assassinato, a senadora e o seu segurança têm de sobreviver à noite da Purga.
Não deixando de ser terror, este filme inclina-se bastante para um thriller de acção mais convencional, com os bons de um lado e os maus do outro, e cenas de porrada e tiroteios e autênticas batalhas entre perseguições alucinantes a pé e em veículo. Por este motivo, gostei menos do que dos filmes anteriores, mas não deixei de gostar. Não percebo o que é que a crítica tem contra os filmes “A Purga”, excepto talvez a tal ideia da “premissa ridícula e inconcebível”. Não é, como disse aqui na crítica ao segundo filme, e por mim vinham mais filmes da série se o argumento conseguir arranjar maneira de se manter original e pertinente.
Este terceiro filme do mesmo realizador, James DeMonaco, tem um gosto a fim de saga, mas entretanto descobri que já existem mais dois filmes, de outros realizadores, e uma série de televisão. Fiquei particularmente interessada na série.

15 em 20


domingo, 25 de abril de 2021

Carriers / Pandemia (2009)

Este vai ser filosófico.
Sempre me disseram, na escola, que o homem é um animal social, um animal gregário. Gregário, só se for como o lobo.
Começou tudo no tempo das cavernas, quando éramos caçadores/recolectores. O homem pensou que sozinho caçava um coelho ou um veado, mas em equipa podia caçar um mamute e a tribo toda tinha carne para muito tempo. Lógica de alcateia. Colaborar para encher a barriga.
Com a chegada da agricultura, o homem tornou-se sedentário. Depois de uma vida inteira a trabalhar o solo, a construir uma casa, a crescer um vinhedo, o homem chegava à velhice e pensava: quando eu morrer tudo isto se perde, o que me deu tanto trabalho a conseguir, o que passei anos de enxada a labutar, todo o meu trabalho, todo o meu valor. Para que não se perdesse, o homem arranjou uma família. Mulheres e muitos filhos que lhe mantivessem vivo o nome e dessem continuidade ao seu legado. Mais do que isso, o homem abastado doaria grão para os sacerdotes do templo, metal para fazer um novo ídolo, para que alguém lhe escrevesse o nome num pergaminho como “Fulano, muito rico em grão e metal, doou isto”. Não podendo ser imortal, o homem quis que ao menos a sua labuta lhe imortalizasse o nome. E que o imortalizasse perante quem? Perante a sociedade. Quem mais lhe recordaria os feitos e o valor? A sociedade serve o homem porque lhe espelha a vaidade. O que é o homem abastado sem uma sociedade que o reconheça? Não é ninguém. É o lobo solitário que morre bem alimentado, mas sozinho.
Chegamos aos nossos tempos. Agora as vaidades são outras, as necessidades são outras. Mas continuamos os mesmos lobos de sempre. Vivemos em sociedade para encher a barriga e alimentar a vaidade. O carro, o emprego, o curso, a viagem, os amigos que tem de se ter, a família que fica bem nas redes sociais. Ninguém quer morrer sozinho e ignorado, por muito bem alimentado.
E de repente chega um vírus mortal. No outro homem, onde antes se via um membro de equipa e um espelho da própria vaidade, vê-se agora a morte. A sociedade já não serve o homem, pelo contrário, torna-se uma ameaça à sua sobrevivência. O homem foge do homem. Foge da alcateia para as montanhas e regressa ao seu lugar de lobo solitário. Quando a sociedade se desagrega e tudo escasseia, o homem ataca-se entre si pelos bens que ainda restam: é o homem lobo do homem.
Vêm estas considerações a propósito de um filmezinho despretensioso de 2009, “Carriers” / ”Pandemia", que algum canal de televisão foi repescar na certeza de que os espectadores iam logo querer vê-lo nos tempos que correm. Além deste ainda tenho outro para ver, chamado “Contágio”, sem contar com o outro do Dustin Hoffman, que também tem passado muito frequentemente.
Em “Pandemia”, um vírus mesmo muito mortal, com efeitos muito rápidos semelhantes ao ébola ou à lepra, mata todos os hospedeiros e transmite-se por inalação de partículas. Dois irmãos, a namorada de um deles e a amiga do outro, fogem dos centros urbanos para se refugiarem numa estância balnear isolada onde os irmãos passavam férias quando eram miúdos. Por esta altura a sociedade já se desagregou. A estrada está deserta. Já não há gasolina para abastecer. A maioria da população já morreu. Não se vê ninguém. É quase o pós-apocalipse, mas ainda não chegaram lá. O intuito é sobreviver o tempo suficiente até que a doença desapareça, isto é, que todos os infectados morram e o vírus deixe de se transmitir por falta de hospedeiros. Para sobreviverem, os quatro concordam num conjunto de regras implacáveis: quem está infectado é como se já estivesse morto, deixa-se para trás.
O ambiente despovoado do filme lembrou-me muito de “The Walking Dead”, mas sem zombies, só com mortos, e trouxe-me esta outra reflexão: até no apocalipse zombie a sociedade continua a servir o homem. Os zombies são uma ameaça. A união em grupos coesos permite combater essa ameaça e a de outros grupos hostis. Em “Pandemia”, nem para isso a sociedade serve. É o completo regresso à sobrevivência do mais apto. Os quatro jovens são aptos, saudáveis, e querem sobreviver a todo o custo. E do ano de 2021, especialista que me tornei sem querer, até digo que eles estavam a fazer tudo bem: o uso correcto de máscaras, luvas e desinfectante, o que me surpreendeu porque geralmente estes filmes acabam sempre por desleixar os pormenores.
Na estrada, encontram um pai com uma criança infectada, e deixam-nos para trás. A namorada fica infectada, e deixam-na para trás. Um dos irmãos é mais impiedoso do que o outro, uma espécie de Shane de “The Walking Dead” que já percebeu que para sobreviver pode ser preciso matar. E mata. Logo da primeira vez que precisa de gasolina, mata duas inocentes num carro que só querem o mesmo que ele: fugir e sobreviver. O outro irmão parece condenar, mas vai tolerando porque também quer sobreviver. Todavia, nota-se na personagem uma crescente desilusão, um crescente nojo e antipatia. Já nem os laços de sangue os unem. Quando o irmão impiedoso também fica infectado e se recusa a dar-lhes as chaves do carro para continuarem sem ele, o outro irmão dá-lhe um tiro. Só fez, afinal, como lhe disse o irmão mais velho: “Fui eu que te ensinei tudo”.
No fim, este irmão e a amiga conseguem chegar à estância da praia, completamente abandonada. Já não se falam, já nem conseguem sequer olhar um para o outro depois das atrocidades que cometeram para chegar ali. Vai cada um para seu lado. Um homem e uma mulher jovens, dos poucos sobreviventes no mundo, e nem sequer se suportam de modo a fazer sexo e continuar a espécie. Mas por esta altura a gente questiona-se: e esta espécie de animais sem escrúpulos merece continuar?
O que distingue o homem do animal é a consciência moral. Talvez o outro irmão, o que não tinha escrúpulos nem remorsos, conseguisse continuar a viver com a namorada como se nada tivesse acontecido, como animais, como lobos. Se tivessem ambos sobrevivido. Mas sobreviveram os que tinham consciência, os que se repugnam do que fizeram. E agora nota-se-lhes nos rostos que se perguntam também: valeu a pena? Somos os mais aptos, somos os sobreviventes, mas sobrevivemos para quê se nem nos conseguimos olhar no espelho que é o rosto um do outro?
Todas estas reflexões não vêm deste filme em particular, “Pandemia”. Não é um filme assim tão bom, embora seja melhor do que as críticas o pintam. Estas reflexões vêm de muitos outros filmes como este, cenários apocalípticos que nos convidam a questionar o que é que nos distingue de uma alcateia de lobos. O que é verdadeiramente importante na existência humana. A vida, e não apenas a sobrevivência. Lembrou-me também as sábias palavras bíblicas: de que importa ganhar o mundo e perder a alma? Estes dois personagens podem ser as últimas pessoas vivas no planeta, mas perderam a alma pelo caminho. Tanto queriam sobreviver a todo o custo que agora a vida já não lhes interessa. Irónico, não é?

14 em 20 (o filme não é assim tão bom)


 

domingo, 4 de abril de 2021

The Purge: Anarchy / A Purga: Anarquia (2014)

Muitos críticos deste filme apontam a premissa da Purga como ridícula e inconcebível. Eu discordo cada vez mais. Tal como disse aqui na crítica ao primeiro filme da série, “A Purga”, não acredito que uma noite de violência por ano em que todos os crimes são admissíveis, até o homicídio, resultasse na diminuição do crime. Mas, como acabámos de ver pelo exemplo do ano que passou, não é por uma medida não resultar que não se implementa. E uma população aterrorizada, neste caso uma população aterrorizada pelo crime, desde que bem regada de propaganda, aceita tudo o que percepcione como medida de protecção para si e para os seus.
Os Novos Pais Fundadores, como chamam a si próprios, não são ditadores de um regime totalitário. Tal como o partido Nazi foi eleito por uma população desesperada e iludida, estes líderes foram eleitos por uma população amedrontada que acreditou na propaganda. Uma vez engolida a propaganda, as piores atrocidades podem acontecer sob o aval da sociedade que concordou com elas, implícita ou explicitamente. E depois há sempre aquela tendência do ser humano de entrar em negação: “Eles dizem isso assim e assim, mas não são tão maus como parecem. É só conversa, não vão pôr em prática.” E lá vai o voto de protesto para os radicais que defendem as medidas. Aconteceu com o partido Nazi, não vejo razão por que não possa vir a acontecer. É claro que aqui também entra a negação: “Não, não vai nada acontecer outra vez. Que ideia ridícula e inconcebível.” Não é ridícula nem inconcebível e já esteve mais longe.
Raramente me vão ouvir dizer isto, mas este segundo filme é melhor do que o primeiro. Se “A Purga” era o típico filme de terror em que uma casa é assaltada por estranhos que querem matar os seus habitantes, esta sequela desenvolve-lhe as pistas políticas e sociológicas. Sem deixar de ser um filme de grande terror, que o é, é também um comentário à desigualdade social, à lavagem cerebral e ao poder.
Se em “A Purga” vimos os acontecimentos pela perspectiva de uma família privilegiada da classe média-alta, aqui andamos nas ruas, na anarquia da noite da Purga em que aqueles que não se conseguem proteger por detrás de muros e bunkers, os pobres, são os mais vitimados. Muitas coisas são chocantes por serem já consideradas tão normais pela sociedade.
Por exemplo, começa por aquele avô que precisa de remédios muito caros e sabe que a filha faz grandes sacrifícios para lhos comprar, e decide vender-se para ir ser assassinado por uma família abastada que mata em conjunto no conforto e segurança do seu lar. “Sobrevivam a esta noite e usem o dinheiro que vai aparecer na vossa conta”, escreve à filha e à neta antes de sair para ir morrer. 

Já na casa deste avô, esta filha, empregada de mesa, e a sua filha adolescente, tentam trancar-se como podem, mas uma milícia armada invade o prédio e arrasta-as para fora de casa, onde uma metralhadora as espera. É que o governo acha que as pessoas “não estão a matar-se o suficiente” e começou a intervir com assassinatos militarizados em bairros pobres para diminuir a despesa com as classes mais desfavorecidas. Esta milícia mata a mando do governo.
Mãe e filha são salvas no último instante por um polícia que andava na rua na noite da Purga com a sua própria vingança em mente: matar o condutor alcoolizado que vitimou o seu filho num acidente de automóvel. Este é daqueles que concordam com a Purga como método de fazer justiça pelas próprias mãos, e que se calhar até votou nos Novos Pais Fundadores, mas tem muitas horas para mudar de ideias até ao fim da noite.
Os outros protagonistas da história são um jovem casal em crise que apenas teve o azar de estar no sítio errado à hora errada. Ainda antes de começar a Purga, são perseguidos por um gangue com máscaras medonhas e facas. Pensamos que este gangue os quer matar, mas não. Este gangue anda à procura de vítimas para vender a um leilão da classe alta em que estas vítimas vão ser caçadas, como animais num safari, pelos licitantes que pagarem mais. A mensagem do filme não podia ser mais clara. A Purga serve os interesses dos mais ricos, que “purgam e purificam” completamente convencidos de que estão a participar na melhoria da sociedade. Porque nunca lhes calha a eles. Assim é fácil defender a Purga.
Mas se os mais ricos se conseguem proteger, isso não significa que alguns das classes mais desfavorecidas não gostem também da Purga. É uma noite para deitar cá para fora o “animal dentro de si” como dizem as notícias, e grupos de “purgadores” munidos das suas armas preferidas saem às ruas para fazer isso mesmo: matar tudo o que lhes aparecer à frente. Chegam até a procurar os locais onde dormem os sem-abrigo porque são os mais fáceis de matar e estão completamente indefesos.
Nem tudo é horrível. Já começa a formar-se uma resistência política e armada que anda pela noite da Purga a matar os ricos nos seus bunkers. Sim, também parece horrível, mas pelo menos estes matam por convicções ideológicas, se não mesmo em auto-defesa, não matam para satisfazer instintos sádicos. É a diferença entre a guerra e a barbárie, por muito más que sejam ambas.
Como se deve ter notado, gostei do filme e recomendo. Para se ver de olhos bem abertos sem as vendas da negação. Já aconteceu semelhante e pode muito bem vir a acontecer igual ou semelhante outra vez.

17 em 20

 

 

domingo, 21 de março de 2021

The Lazarus Effect (2015)

Uma equipa de cientistas produz um soro que tenciona prolongar a vida de pacientes em coma de modo a permitir mais tempo à intervenção médica. O soro funciona como um desfibrilhador, mas a nível cerebral. No decurso de experiências em laboratório com animais mortos, os cientistas conseguem ressuscitar um porco por breves instantes. De seguida ressuscitam um cão.
Acidentalmente, uma das cientistas da equipa morre electrocutada. E a seguir vocês já sabem o que acontece.
“The Lazarus Effect” é uma salada de clichés que me lembrou de dois filmes em particular: “Flatliners” / “Linha Mortal”, de 1990, um clássico em que os cientistas se submetem a experiências de quase-morte cada vez mais prolongadas de modo a investigarem o que existe para lá dela, e “Pet Sematary”, em que se pergunta: o que é que as pessoas estão dispostas a fazer para trazerem um ente querido da morte? Tudo!
Depois de ressuscitarem o cão, os cientistas observam que o seu comportamento não é normal. Primeiro que tudo, o cão tinha cataratas à data da morte e estas agora estão curadas. A princípio o cão mostra-se apático, mas torna-se cada vez mais agressivo. A sua actividade cerebral é extraordinária, muito acima do normal.
Um dos personagens (interpretado por Evan Peters, bem nosso conhecido de “American Horror Story”) sugere que se abata o cão antes que ele vire Cujo, numa referência descomplexada a Stephen King.
Mas claro que não fazem isso, e quando a cientista morre acidentalmente, com o soro ali tão perto, o noivo dela, e líder da equipa, nem pensa duas vezes e ressuscita-a.
Até aqui o filme estava a ser interessante, admito, não obstante a falta de originalidade. A premissa continha algo de filosófico, os próprios cientistas questionavam as suas escolhas éticas, falava-se da morte como o fim da vida biológica mas colocava-se a hipótese da sobrevivência da alma.
E depois descamba em todos os clichés possíveis e imaginários de um filme de terror previsível de reduzido orçamento, já a pensar na sequela que ninguém quer ver.
A sério, era necessário que os olhos da ressuscitada ficassem negros como os dos demónios de “Sobrenatural”? É que já nem provoca efeito de choque. Fiquei desiludida, confesso. Esperava mais deste filme que até não começa mal.
O enredo de “The Lazarus Effect” está demasiado explorado: o personagem que volta dos mortos “diferente”, inevitavelmente maléfico. O original seria que fosse malvado e voltasse bonzinho.
Este é um filme que se vê bem, sem expectativas e sem pensar muito. E também não há mais nada a dizer sobre ele.

14 em 15



domingo, 14 de março de 2021

Carrie (2013)

Sempre que é feito um remake de um clássico, é legítimo questionar porquê. Muitas vezes a única razão é monetária: sucesso de bilheteira instantâneo. Toda a gente quer ir ver, nem que seja por curiosidade. Na esmagadora maioria das vezes o remake não é melhor do que o original.
Confesso que já não me lembrava dos pormenores todos do enredo do “Carrie” de 1976 (tirando o sangue de porco e o massacre, que ficam na memória para sempre) e que tive de ir lê-los à Wiki. Tirando poucos detalhes insignificantes, o enredo do remake é exactamente o mesmo.
Mas há problemas de anacronismo. O filme de 2013 passa-se na actualidade, com smartphones e tudo. Torna-se muito difícil acreditar que a mãe de Carrie não soubesse que estava grávida e que Carrie, no ano de finalista do liceu, não soubesse o que é a menstruação. No caso da mãe de Carrie, fanática religiosa possivelmente com perturbações mentais, ainda se admite que estivesse em negação (estava a dar à luz e pensava que estava a morrer de cancro), mas no caso de Carrie torna-se ainda mais inacreditável. Quantos anos tem Carrie, afinal, quando lhe aparece o período em pleno duche do ginásio à frente das colegas? 15, 16 anos? Isto faria com que tivesse nascido por volta do ano 2000. Carrie, no filme, é uma miúda do novo milénio, que vive na cidade e sabe usar o computador da escola para pesquisar “telecinese”. É impossível, verdadeiramente impossível, não saber o que é o período, mesmo que a mãe nunca lhe tivesse explicado as coisas da vida, mesmo que não tivesse acesso a televisão nem rádio nem jornais, mesmo que não tivesse tido Biologia na escola (o filme explica que durante muito tempo foi ensinada em casa). Até os outdoors de publicidade a tampões e pensos higiénicos a deviam ter deixado curiosa, não? Assim, o filme não devia ter ido buscar um elemento do enredo que em 2013 é completamente irrealista.
Mas não o era em 1976, nem em 1974 quando Stephen King publicou o livro homónimo. Nesta altura, Carrie teria nascido nos anos 60, talvez até mais cedo. Era perfeitamente possível, vivendo na América rural e isolada, sem escola nem televisão, que uma mulher não soubesse o que era o período nem que estivesse grávida ou sequer como é que se engravidava.
Nem é preciso ir à América rural e imaginarmos uma casinha isolada no meio da pradaria. Em Lisboa, nos anos 70, esses assuntos ainda eram tamanho tabu que até as mães tinham vergonha de falar com eles às filhas. Era completamente possível uma miúda ser surpreendida com a menstruação sem saber o que era, ou ficar grávida sem saber exactamente como. (Basta recordar a revista Crónica Feminina e os artigos que lá apareciam a explicar estas coisas, todos muito decentes e cheios de eufemismos para não chocar as susceptibilidades mais puritanas.) Nesse aspecto, o livro e o filme de 1976 eram completamente plausíveis.
Portanto, o filme começa logo de início a alienar-nos do realismo em torno da história, o que é mau num filme de terror. Mas será este “Carrie” um filme de terror, ou melhor, um filme de terror bem conseguido? (O momento mais perturbador, para se ter uma noção, é a cena em que matam o porco. Só digo que envolve um martelo.) Senti mais esta versão como um drama centrado na relação mãe e filha, com Julianne Moore a desempenhar um papel deveras à sua altura que não vou esquecer tão cedo. O sangue de porco, o bullying, a vingança, tudo isso soa a cópia.
Então porque é que se fez este filme? Tirando a resposta possível “e porque não fazer?”, talvez pelos efeitos especiais mais modernos? Por falar nestes, achei-os muito espalhafatosos e exagerados. E todo aquele cliché em que Carrie utiliza as mãos ao mesmo tempo que aplica os poderes psíquicos para se vingar foi realmente de filme de terror barato.
O que fica deste filme? Um decalque ferido de anacronismos que não justifica o remake. Em 1976, “Carrie” teve impacto e foi chocante. Em 2013, “Carrie” vê-se e logo se esquece. Salva-se o espectacular desempenho de Julianne Moore.

14 em 15


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Divergente, de Veronica Roth (livro), e filmes

[contém spoilers]

Ó Céus, ó Seca! Sem exagerar, este foi um dos livros mais aborrecidos que já li na vida.
Mas antes, o disclaimer: este foi dos tais que adquiri como bónus da entidade patronal. Era escolher alguns ou ficar sem nada. A sinopse interessou-me. Numa sociedade de facções, uma jovem divergente é obrigada a escolher a facção a que vai pertencer o resto da vida. É caso para dizer que a sinopse é melhor do que o livro, porque me fez pensar numa história socio-filosófica em que a conclusão é que todos somos divergentes e ninguém pertence a uma só facção como ovelhas rotuladas. Eu, sem dúvida nenhuma, sou divergente. Mas afinal há sempre uns mais divergentes do que outros.
Assim que vi o primeiro filme, homónimo, arrependi-me logo de ter adquirido o livro. Mas já que estava cá em casa, dei-me ao trabalho de ler e julgar por mim própria. O livro ainda é pior do que o filme, não só porque qualquer livro demora mais a ler do que um filme demora a ver, mas também porque é mais chato.
É uma história Young Adult contada na primeira pessoa em que uma rapariga de dezasseis anos (mas que aparenta uns vinte e tal em maturidade) decide escolher uma facção de malucos e sádicos porque quer ser maluca e sádica como eles. Não lhe consegui perdoar isto e nunca consegui simpatizar com ela. Mas certas coisas são culpa da autora. Por exemplo, logo a princípio um dos Intrépidos (os tais malucos e sádicos) cai de um telhado por acidente e os outros companheiros de facção nem pestanejam. Penso que até ali deixam o cadáver sem se darem ao trabalho de o ir buscar, ou nada nos é dito sobre isso. Isto não é comportamento humano normal excepto em situação de guerra ou catástrofe. Desprezar assim um “membro da tribo” é minar o espírito de grupo. Mas Beatrice (a miúda) observa isto e nem se incomoda. Em Roma sê romano, deve concluir, e não pensa mais no assunto.
Segue-se uma longa iniciação cheia de praxes e bullying. Isto podia resultar se os Intrépidos fossem uma daquelas tiranias mesmo medonhas, como na História Alternativa de “The Man in the High Castle”. Mas não. Isto parece mais uma historinha de colégio interno onde os veteranos embirram especialmente com a miúda nova sem que haja sequer grande razão para isso. Beatrice veio de outra facção, mas não é a única. Não vejo razão para implicarem com ela mais do que com os outros “transferidos”, a ponto de a quererem matar por ter bons resultados, santo exagero! (Alguém deve ter passado as passinhas do Algarve no liceu e este livro é resultado/vingança dessa experiência.)
O livro são páginas e páginas de treino e simulações (tipo jogos de vídeo). Poderá haver algo mais chato do que páginas e páginas de treinos? Eu nem o “Karate Kid” consegui suportar já por causa disso.
Finalmente Beatrice consegue o que quer, ser iniciada como Intrépida de pleno direito, só não sendo tão sádica como os outros porque tem o tal gene “divergente”. Mais um simplismo irrealista, a mera ideia de um grupo de pessoas só poderem ser uma coisa e uma coisa apenas. Não há lugar para empatia nos Intrépidos, como se em vez de humanos fossem uma outra espécie qualquer, ou uma cambada de psicopatas (é mais a segunda hipótese).
Finalmente, chegamos à acção. Não vou contar como, mas há uma guerra entre facções. A mãe de Beatrice morre a salvar a filha. Reacção: “Oh, nem acredito que a minha mãe acabou de morrer à minha frente, mas tenho mais que fazer agora.” Apenas horas mais tarde, o pai de Beatrice morre também. Reacção: “Hoje não estou com paciência nenhuma. Morreu-me o pai e a mãe. Que raio de dia.”
Eu espero que no próximo livro ela chore, e chore muito, porque isto não é uma reacção normal de pessoa humana a fazer um luto por um pai e uma mãe de quem gostava muito. Não é mesmo. E novamente culpo a autora que não deve perceber muito de psicologia nem de gente nem da vida. Que personagens tão mal escritas, ó desgraça!
Ainda por cima os Eruditos (facção) são os maus da fita. Isto sim, já é plausível, porque este livro realmente não se destina a um público-alvo de grande erudição. Mas chateou-me ainda mais, não bastante tudo o resto, porque numa sociedade destas (ou doutras) eu escolhia mesmo pertencer aos Eruditos sem pensar duas vezes. Mais uma razão para não simpatizar com a protagonista nem com o livro.
Pelo menos fiquei a saber algo que não apanhei no filme. As facções estabeleceram-se assim para evitar aquilo que acreditam causar as guerras: os Eruditos, a ignorância; os Intrépidos, a cobardia; os Cândidos, a mentira, e por aí fora. Mais uma explicação simplista de gente pouco erudita, porque o Mal é demasiado complexo para se explicar apenas por um único factor. O mais irónico ainda é que não há nada mais propício do que um sistema de facções para criar um clima de conflito “nós contra eles”, que seria exactamente o que as facções supostamente deveriam evitar. Os Eruditos, que pelo menos estudam, devem ser os únicos que sabem disto. Mas chamar malvados aos únicos que prezam o conhecimento não é um bom princípio.
Dei três estrelas ao livro no Goodreads porque está escrito decentemente, em termos técnicos. Se fosse a avaliar unicamente a história, levava só duas estrelas com sorte.

Divergente / Divergent (filme, 2014); Insurgente / Insurgent (filme, 2015)
Como disse, assim que vi o primeiro filme, “Divergente”, arrependi-me logo de ter pedido o livro e demorei alguns anos a começar a lê-lo. Mesmo assim, tenho de dar os parabéns aos realizadores do filme por terem conseguido fazê-lo mais interessante do que o livro, adaptando e cortando o que foi preciso, adicionando mais dramatismo onde era criticamente necessário. Por exemplo, no filme sentimos de facto a dor e o luto de Beatrice quando perde os pais. No livro, e ainda mais grave, na primeira pessoa, é quase como se ela estivesse a falar de dois conhecidos lá da rua. O filme não me interessou nada, mas como o vi primeiro ainda serviu para salientar mais os problemas do livro.
“Insurgente” consegue ser um filme ainda mais maçador, o meio da história na trilogia onde se avança um bocadinho mas não muito, onde me dá a sensação de que o filme se passou todo entre várias simulações que apenas Beatrice consegue manipular. Olha outra incongruência. Por alma de quem é que a Super-Beatrice é a única que consegue manipular as simulações, como apenas os divergentes conseguem, e destes é a melhor de todas? Que genes tão bons devem ter os divergentes em relação aos outros seres humanos. No segundo filme há mais violência e mais mortes, mas nada que cause impacto.
Péssima série, não aconselho a ninguém. Vou ver o último filme, “Allegiant”, quando e se passar na televisão, porque gosto de saber o fim às coisas, mesmo quando as coisas são más. Mas não tenho pressa nenhuma. Se nunca o vir também não perco nada.

Divergente / Divergent (filme, 2014)

12 em 20

Insurgente / Insurgent (filme, 2015)

12 em 20

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas (2013); The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1 (2014)

Quando aqui fiz a crítica ao primeiro filme, perguntava-me quem seria Katniss quando não andava a ser perseguida na floresta. Agora já sei. Katniss é daquelas protagonistas Young Adult que estão muito na moda e que não passam de “action figures” à Schwarzenegger, mas no feminino como manda o “espírito dos tempos”. Queixei-me do mesmo quanto à Juliana de “The Man in the High Castle”, protagonista que ali está para fazer as coisas que o enredo precisa que ela faça. Profundidade nenhuma, motivações as mais básicas. Isto era o pior dos filmes de acção dos anos 80 e continua em força, pelos vistos.
O único esforço para aprofundar Katniss é um stress pós-traumático levezinho que a faz ter um ou dois pesadelos depois de sobreviver aos Jogos da Fome, mas nada de grave ou incapacitante.
Até o triângulo amoroso (?) é incompreensível. Mas afinal ela gosta é do Gale, ou do Peeta, ou dos dois, ou de nenhum? Assim o que parece é que ela beija aquele que ali está mais perto porque… está ali mais perto. Coisinha mais mal feita. Ao menos podiam ter aprendido com “Os Diários do Vampiro”, um triângulo amoroso Young Adult verdadeiramente épico, daqueles que nos prendem a respiração.
Mas vamos lá aos filmes.


The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas
“Os Jogos da Fome: Em Chamas” é a continuação do enredo onde o primeiro filme acabou. Katniss sobrevive aos Jogos da Fome, mas de maneira tão subversiva que inspirou as populações dos distritos oprimidos à rebelião. A princípio a elite dominante do Capitólio decide passeá-la e a Peeta, numa espécie de romance de telenovela para distrair a populaça. Quando não funciona, o malvado do Presidente Snow (malvado como só Donald Sutherland consegue fazer sem grande esforço) decide eliminá-la. Muda a “narrativa” política, e agora Katniss e os outros vencedores de prévios Jogos da Fome vão ter de se confrontar nuns Jogos especiais que celebram os 75 anos do regime.
A única maneira em que esta história funciona, e funciona muito bem apesar de tudo, é ao basear a elite despótica na Antiga Roma, desde os nomes ao vomitorium. (O próprio nome do país vem de “panem et circenses”, pão e circo.) O filme adquire uma gravitas que se calhar não merece quando os vencedores / participantes / gladiadores dos Jogos desfilam em quadrigas numa arena perante a tribuna do Presidente. Isto leva-nos imediatamente para a imagética dos filmes bíblicos de gladiadores e de cristãos lançados aos leões que têm um peso profundo no nosso inconsciente colectivo, entre os quais Spartacus, o antigo e o recente. Não é difícil de imaginar que isto seria Roma se os romanos tivessem reality shows na televisão. Mas quem viu o “Spartacus” recente sabe que também os tinham, apenas não tão mediáticos como agora.
A parte mais chata do filme, curiosamente, foram mesmo os Jogos. E detestei aquela coisa dos macacos assassinos. Completamente escusado.
Mas desta vez Katniss e Peeta e outras personagens simpáticas que conhecemos entretanto parecem mesmo feitos ao bife. Até que chega a reviravolta surpreendente.

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1
“Os Jogos da Fome: A Revolta” (primeira parte) começa exactamente onde o segundo “episódio” terminou, levando Katniss para o meio da rebelião da qual se tornou um símbolo mais ou menos sem querer.
Aqui o tom da série torna-se mais pesado, com imagens a lembrarem muitos cenários de guerra que já vimos na realidade, e repressão e execuções na rua à maneira dos vários regimes ditatoriais que têm existido aqui e ali. Mais uma vez o filme ganha uma gravitas que não sei se merece, emprestada de acontecimentos reais e exteriores à história que só nos tocam por esse motivo: porque aconteceram mesmo.
As personagens continuam bidimensionais, o que se torna cada vez mais notório e incomodativo à medida que o enredo progride. Sim, empatizamos com elas porque lhe conhecemos os nomes e as caras (da Katniss, pelo menos, dos outros nem isso) e porque temos coração, mas nada que perdure quando o filme acaba.
A acção passa-se agora no bunker do quartel-general do exército da Resistência (um exército que ninguém sabia que existia, nem a própria Katniss). O secretismo compreende-se, mesmo assim, porque os rebeldes não querem denunciar a sua posição e armamento antes de estarem em condições de atacar. Depois de ver a destruição infligida ao seu próprio distrito, Katniss decide finalmente assumir-se como símbolo da rebelião. Agora é que ela se torna realmente um alvo a abater, mas Katniss já sabia que o era e não tem nada a perder. Ou quase nada. Peeta foi capturado pelo Capitólio.
O resgate de Peeta é a parte mais empolgante do filme. O suspense da acção militar é merecido, decorrente do enredo e não “emprestado do exterior” como os exemplos que referi antes.
Não resisto a mencionar um momento que me fez rir, embora não devesse. A certa altura Katniss agarra-se a alguém a chorar quando percebe que tanto Gale como Peeta podem morrer. “Perdi os dois! Perdi os dois!”, lamenta-se. Apeteceu-me ser mázinha: Olha filha, quem tudo quer… Mas procura em tua volta, aí perto como tu gostas. Há muito peixe no mar. Mais um, menos um, para quem muda de homem conforme a fase da Lua, não há-de ser nada.
Duas últimas notas para as interpretações de Philip Seymour Hoffman (uma das suas derradeiras), num grande papelão como Plutarch Heavensbee. Já Julianne Moore foi criminosamente subaproveitada como Presidente Coin.
Falta-me ver o fim da história. Os filmes estão a tornar-se mais interessantes de “episódio” para “episódio” e pode ser que ainda me surpreenda. Vou deixar as conclusões finais para essa altura.

The Hunger Games: Catching Fire / Os Jogos da Fome: Em Chamas
13 em 20

The Hunger Games: Mockingjay - Part 1 / Os Jogos da Fome: A Revolta – Parte 1
14 em 20

 

 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Mary Shelley's Frankenstein / Frankenstein, de Mary Shelley (1994)

Sinceramente não me lembro se já tinha visto este filme. Mas aposto que daqui por vinte anos também não me vou lembrar de o ter visto agora. Lembro-me de ler uma crítica na altura que chamava “histérico” a Kenneth Branagh (protagonista Victor Frankenstein e realizador). Na altura ri-me, mas agora concordo. Não é só Branagh que é histérico, todo o filme é histérico.
Como o título indica, este filme tenta ser (?) a adaptação fiel do livro de Mary Shelley, mas a sensação que me deu é que foi buscar mais inspiração aos clássicos de monstros de Hollywood dos anos 30: "Frankenstein" (1931), "The Bride of Frankenstein" (1935). O guarda roupa e cenários são igualmente anacrónicos e mais próprios de um qualquer filme de fantasia de Tim Burton do que de um filme realista de época. (Mas se todo o mal fosse esse até não era grave.)
“Frankenstein” de Mary Shelley não é um livro histérico. Pessoalmente, nem o considero um livro de terror. Considero-o um drama filosófico que me fez chorar de empatia com o “monstro” que não pediu para existir.
O monstro, que não tem nome, ou Criatura, chamemos-lhe antes assim (interpretado por um Robert De Niro irreconhecível), foi mesmo o melhor momento do filme e o mais fiel ao livro. Mas durou pouco, na ganância de mostrar muitos efeitos especiais, muita electricidade a faiscar, muitas morgues e pedaços de cadáveres e outros elementos de gosto duvidoso. O livro da autora é subtil e convida-nos a simpatizar com a Criatura, e é por isso que é um clássico. Este filme não consegue fazer nada disso (a Criatura transforma-se demasiado facilmente num homem malvado e caprichoso), e é por isso um filme esquecível.
Recomendo antes a leitura do livro, melhor e mais interessante.

14 em 15, para ser generosa 



domingo, 13 de dezembro de 2020

Perdidos (2017)

“Perdidos” é a versão portuguesa do filme “Open Water 2: Adrift” (2006). Seis amigos embarcam num iate e decidem dar um mergulho no oceano. Mas o dono do barco, irresponsável, esquece-se de descer a escada. Agora as pessoas na água não conseguem escalar o barco. A escapadinha entre amigos transforma-se em tragédia.
Perdidos” é de tal modo a “tradução” do filme original que, tendo gostado do segundo, também tenho de gostar da primeira. É quase tudo igual. As únicas referências à cultura portuguesa são Porto Santo (de onde partem) e a canção de Sérgio Godinho “O Primeiro Dia”. De facto, logo ao chegar, um dos personagens vai trauteando a canção, com o conhecido refrão “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida”. Achei esta utilização do clássico demasiado óbvia (dentro de um dia ou dois o personagem está morto) e não vejo nada de literal na canção de Godinho para a trivializar assim, apenas como presságio num filme de terror. Ainda por cima um filme de terror que já toda a gente viu. Sinceramente, não gostei.
Tem-se colocado em questão a própria necessidade de filmar este mesmo enredo em português, tendo em conta que “Open Water 2: Adrift” é bastante recente, e este filme já é o aproveitamento do sucesso de ainda outro filme, igualmente uma tragédia no mar, “Open Water” de 2003. (Ora aqui está algo que eu só descobri a pesquisar para este artigo. Os dois filmes originais são perfeitamente autónomos, também não percebo porque é que quiseram relacionar os títulos.) A melhor explicação é que a costa portuguesa tem o cenário perfeito para o filme (fica barato nesse aspecto), e somos um povo de velejadores. Tudo bem. Mas podiam ter inserido algo mais original, ou da nossa cultura ou a nível das personagens ou do próprio enredo. Eu, pelo menos, esperava esse toque de originalidade.
Por falar nas personagens, confesso que estas vão ser menos esquecíveis para mim do que as do filme original, que ainda eram mais bidimensionais. O jovem casal com o bebé em plena crise conjugal, o ex-namorado que tem dinheiro e é um “merdas” (epíteto que lhe dão no filme e que não podia ser melhor escolhido), a namorada deste (que não tem nada a ver com os amigos dele), e os dois amigos “fixes” que podem ou não estar num relacionamento. Não falta aqui conflito e o filme sabe explorá-lo como deve ser. Tal como no original, o que aconteceu a estes “portugueses” é perfeitamente realista, principalmente com o conflito à mistura. Logo, tenho de gostar.
Há um problema técnico com este filme, que é o som. Não preciso de ser grande especialista para o identificar. Não percebi a maior parte do que eles diziam, especialmente o personagem Vasco (mas os outros também), e muitas vezes dei por mim a olhar para o rodapé da televisão à procura das legendas. Isto tornou-se mais frustrante nas partes mais tensas. Por exemplo, quando o merdas pega na mulher que tem fobia à água e se atira com ela para o mar. Ele diz-lhe alguma coisa, mas escapou-me. Era interessante saber que justificação é que ele lhe está a dar. Assim foi como ver uma cena de filme mudo.
Outra coisa mal explicada é a presença da faca dentro de água. No filme original esta questão não se me pôs, o que significa que a presença da faca foi explicada ou mostrada de forma tão natural que eu não achei estranho. Aqui não, e perguntei-me “de onde raio saiu a faca”?
Também há uma cena de micro-segundo, no fim do filme, em que se vê que a escada é accionada, mas isto foi tão rápido que já li algumas críticas a dizerem que perderam este pormenor. Confesso que tive de voltar atrás e rever, e se não tivesse visto o filme original se calhar também não percebia.
Gostei da última cena, longa e focada nas reacções faciais da sobrevivente, um bocado mais na linha da tradição cinematográfica portuguesa. Nunca ninguém me vai ouvir elogiar cenas demasiado longas, mas acho que aqui fez todo o sentido. Foi um toquezinho de classe à filme europeu que me agradou bastante neste contexto. Pena ter sido o único.

14 em 20 (não posso dar mais porque o filme é uma cópia)

domingo, 6 de dezembro de 2020

Silence / Silêncio (2016)


Que grande filme! 20 em 20.
“Silêncio”, a adaptação do romance homónimo do autor católico Endō Shūsaku, é um regresso de Martin Scorcese ao tema de Deus e da fé que tornaram “A última tentação de Cristo” um filme tão controverso.
Dois padres jesuítas portugueses, Rodrigues e Garupe, partem para o Japão do século XVII onde se trava uma cruel perseguição aos cristãos. Rodrigues e Garupe são informados de que o seu mentor, o padre Ferreira, missionário no Japão, tinha cedido à tortura e apostatado contra a fé cristã, mas não conseguem acreditar e  pretendem encontrá-lo nem que para isso tenham de arriscar as suas vidas.
O perigo é muito real assim que põem o pé no Japão. Guiados por um japonês duvidoso, Kichijiro, ele próprio um cristão obrigado a renegar a fé, são acolhidos numa aldeia de pescadores tão devotos como miseráveis, que querem acima de tudo a presença dos padres para se poderem confessar e baptizar as crianças, que dão mais valor do que deviam aos símbolos tangíveis da fé: um crucifixo verdadeiro (em vez das cruzes de palha improvisadas), as contas dos rosários que os padres trazem com eles. O próprio Rodrigues faz esse comentário, é como se para os nativos a fé não fosse algo de abstracto, mas sim algo que podem praticar todos os dias e segurar nas mãos.
As autoridades japonesas consideram a religião cristã perigosa (nunca é explicado directamente porquê, mas fiquei com a ideia de que na sociedade feudal do Japão a religião oficial era mais uma maneira de controlar as pessoas e que uma seita diferente poderia potencialmente acarretar o risco de rebelião) e querem esmagá-la por todos os meios necessários. Conhecedores do seu povo, pedem aos suspeitos que pisem uma imagem de madeira com a representação de Cristo ou de uma cena cristã. Não o fazer significa uma morte atroz para os cristãos: escaldados com água a ferver, queimados vivos, afogados. Uma verdadeira reprodução do que significava ser cristão nos primeiros séculos depois de Cristo, os dias dos apóstolos e dos mártires. Pelo menos é assim que a fé ardente dos jovens padres encara a provação que os espera, como se fossem eles próprios uma espécie de apóstolos, em que o martírio é a maior “honra” concedida a um missionário.
Isto é na ingenuidade inicial, mas após verem a realidade das mortes e das torturas dos pobres pescadores que os tinham acolhido, os dois padres começam a vacilar. “Eles querem que a gente pise”, queixavam-se os pescadores, voltados para os padres como se esperassem deles a absolvição pelo que tinham de fazer. “Pisem! Pisem!”, diz-lhes Rodrigues, o primeiro a adoptar o pragmatismo, mas Garupe contradiz: “Que dizes? Não podem!”
Mais tarde Rodrigues e Garupe são separados, e quando Rodrigues o torna a encontrar (embora nunca cheguem a ter oportunidade de falar) tudo leva a crer que Garupe se tornou um pragmático também.
Este filme está carregado de cenas de tortura muito perturbadoras e é necessária preparação mental para o ver. Mesmo assim, a câmara mantém sempre uma certa distância do que está a acontecer, como se Scorcese nos estivesse a dizer que o importante não é a brutalidade e a repressão, o importante vem depois.
Depois de ver tanta crueldade, o padre Rodrigues começa a ter dúvidas. Deus, que devia amar os seus fiéis, não responde aos seus gritos de agonia. Tudo é silêncio. Será que Deus se importa? Será que Deus sequer existe? Nada responde ao padre Rodrigues senão mais gritos, seguidos do silêncio ensurdecedor de Deus.
“Silêncio” é um filme que levanta mais perguntas do que respostas. Da mesma maneira que os cristãos acreditam sinceramente que o Cristianismo é o único caminho para a salvação, também as autoridades japonesas acreditam que deixar propagar uma religião tão intransigente é uma ameaça à estabilidade social do país. Se há uma maneira aconselhável de ver este filme, eu diria que não é pelo prisma dos japoneses malvados que matam cristãos, mas pelos resultados da intolerância de parte a parte. Rodrigues acaba por perceber que o mundo não é tão a preto e branco como a fé o fazia crer, que é nas zonas cinzentas que o homem mais se confronta com Deus e com a sua própria natureza.
Não tenho nada de negativo a dizer sobre este filme, mas fiquei surpreendida que a identidade portuguesa dos protagonistas não tivesse sido mais explorada. Não que seja o importante, e é por isso que não é exactamente uma crítica, apenas uma observação. Nunca vemos nada que identifique Rodrigues e Garupe (e Ferreira) como portugueses, apesar de o serem. Podiam ter sido espanhóis ou italianos que não tinha relevância nenhuma. Os únicos vestígios de português que aparecem no filme estão na linguagem dos nativos, que adoptaram palavras portuguesas para expressar a fé cristã, como “paraíso” (mal pronunciado) e Deus-u. Gostaria de ter visto isto muito mais explorado, até porque nos interessa.
Por exemplo, porque é que os jesuítas portugueses parecem tão chocados com as torturas japonesas? Acaso nunca tinham visto um Auto de Fé da Inquisição? Não deviam já estar habituados ao horror? Ou, para eles, se fossem heréticos a sofrer não fazia mal nenhum, porque o fogo até lhes poupava as penas no Inferno? Isto nunca é abordado, mas basta ir às caixas de comentários das críticas a “Silêncio” para se perceber que filmes destes ainda fazem todo o sentido. É tanto o ódio, hoje no século XXI, entre ateus e cristãos fundamentalistas, que só falta mesmo acenderem as fogueiras.
Quanto a algumas críticas de que o filme é demasiado longo (e é um filme comprido), só tenho isto a dizer: por mim, via três temporadas desta história. Houve ali muitos personagens que não puderam ser mais desenvolvidos, muitos aspectos culturais a aprofundar, muita política a explicar. Era bem caso para fazerem uma série onde tudo isto pudesse ser detalhado, incluindo a identidade portuguesa dos protagonistas.


20 em 20

domingo, 8 de novembro de 2020

The Purge / A Purga (2013)


Mais uma distopia a juntar às muitas que têm aparecido nos últimos anos. Para resolver o alto nível de criminalidade na América, uma nova ordem política institui uma noite chamada A Purga, em que durante 12 horas todos os crimes são autorizados, incluindo o homicídio. O objectivo é dar vazão aos instintos violentos da população nesta noite apenas, reduzindo assim –ou mesmo eliminando, não percebi bem– o crime durante todo o ano.
Primeiro comentário: compreendo a lógica subjacente, mas não acredito que isto resultasse. Muito do crime violento não obedece a qualquer lógica, e aquele que obedece, o crime profissional, digamos assim, “trabalha” o ano todo. Esta seria apenas mais uma noite de violência, e ainda por cima uma noite pior do que as outras.
Mas esquecendo esta objecção, a noite da Purga é o cenário perfeito para o terror que já se adivinha que vai sair daqui.
Na noite da Purga, os Sandin, uma família de classe média alta, barricam-se em casa, protegidos por um sistema de segurança semelhante a um bunker. O pai de família é precisamente um vendedor destes sistemas de segurança e o ano correu-lhe particularmente bem (alguém lucra com a Purga). O pai e a mãe explicam ao filho mais novo, ainda um miúdo, os benefícios da Purga do ponto de vista de quem conheceu as coisas “como eram dantes”. Declaram-se ambos apoiantes da medida, mas nota-se que nem a mãe nem o pai estão perfeitamente convencidos do que dizem, especialmente a mãe. O puto, definitivamente, não está nada convencido. Na televisão, em voz-off, alguém comenta que os detractores da Purga acusam o governo de pretender desembaraçar-se assim dos fracos, pobres e doentes que não se conseguem defender. (Uma ideia tanto mais perigosa porque até já foi aplicada por certos regimes durante a História e nada nos garante que não volte a ser.)
Mais tarde, durante a noite, um homem aparece na rua de vivendas desta classe média alta, perseguido por alguém que o quer matar, implorando que lhe dêem abrigo. Sem que os pais saibam, o puto abre-lhe a porta e deixa que o homem se esconda. Mais tarde vimos a saber que o homem é um sem-abrigo, embora sinceramente não pareça (ou os nossos sem-abrigo são muito mais miseráveis do que os sem-abrigo americanos), mas não é um sem-abrigo qualquer porque usa uma chapa de identificação de veterano de guerra. Aqui percebi logo que este acto de altruísmo ia ter repercussões quando fosse preciso salvar a família. Previsível e “subtil” que nem um calhau. Ainda por cima o homem em questão, pobre e perseguido, é negro. Ainda por cima é um ex-militar, abandonado pelo país que serviu, como “Rambo – A Fúria do Herói”. Podia haver maior cliché?
Pouco depois, um grupo sinistro bate à porta dos Sandin a exigir que lhes “devolvam” a presa, o tal homem que o miúdo escondeu. Senão, serão os Sandin a presa. Este grupo, composto por jovens de classe alta, é especialmente arrepiante porque foram sem qualquer dúvida inspirados nos seguidores de Charles Manson. Já o líder deles é a versão rica e privilegiada do psicopata de “A Laranja Mecânica”. O grupo de psicopatas só quer uma coisa, matar e divertir-se, divertir-se a matar. Os Sandin, que no princípio da noite pareciam tão protegidos, estão agora em grande perigo. E coloca-se-lhes a questão moral: devem entregar um inocente a um bando de assassinos que dizem descaradamente que “a única razão da existência dessa gente é para serem purgados por nós” e outras atrocidades do género? Afinal os Sandin não são assim tão adeptos da Purga como se julgavam.
Não vou revelar o fim, mas a reviravolta final também não me surpreendeu. Pelo contrário, até já estava à espera dela. No fim, são os vizinhos que querem matar os Sandin, invejosos do seu sucesso. Eu até me pergunto como é que ainda não tinham planeado, todos juntos, matar os Sandin mais cedo.
Este filme não é subtil, mas é um bom filme que pretende chamar a atenção para a parte mais negra da natureza humana se lhe for dada oportunidade de se manifestar impunemente. Como filme de terror cumpre a sua obrigação de manter a tensão do princípio ao fim, apesar dos clichés e do enredo previsível. Como filme de comentário social, era preciso muito mais para me chocar. Só podia ficar chocada se não conhecesse a natureza humana, e a natureza humana já fez muito pior do que isto.
Mesmo assim, um filme interessante para reflectir nas coisas antes que elas nos aconteçam a nós.


14 em 15, por ser tão previsível

domingo, 11 de outubro de 2020

Dawn of the Dead / O Renascer dos Mortos (2004)


Não vi “Dawn of the Dead” mais cedo porque sempre pensei, pelo título, que este era o filme de 1978. Afinal é um remake, desta vez dirigido por Zack Snyder. Até parece que George A. Romero não teve nada a ver com este filme, apesar de ser mencionado nos créditos como escritor do original. O filme de 1978 é um clássico, mas na minha opinião tão mauzinho, comparado com o fantástico “Night of the Living Dead” (1968), que nunca me passou pela cabeça que quisessem fazer um remake.
Não sei o que teria pensado deste filme de 2004 se o tivesse visto na altura. É oficial, “The Walking Dead” estragou-me todos os filmes de zombies que já vi depois da série. A qualidade de “The Walking Dead” deteriorou-se, é verdade, e a série actualmente tem dificuldade em viver à altura das primeiras temporadas, mas essas primeiras temporadas foram tão marcantes, e deixaram uma mitologia tão bem estabelecida, que tudo o que se fez antes e depois me faz encolher os ombros.
Com a excepção do primeiro dos filmes, “Night of the Living Dead”, de 1968, a preto e branco, que ainda prefiro não ver sozinha porque aquilo é mesmo de meter medo.
Este “Dawn of the Dead” de 2004 é mais um para ver e esquecer. Primeiro que tudo, este foi um daqueles em que alguém achou que os zombies metiam mais medo se fossem mais rápidos. Isto deu em “zombies de corrida”, como já disse aqui mal suficiente em “World War Z”. Neste filme os zombies também correm e saltam (de esconderijos no tecto, ainda por cima) atrás dos sobreviventes. A certa altura parecia que estavam a ser perseguidos por um bando de gente enfurecida em vez de zombies. Ora, por alguma razão o filme de 1968 foi tão eficaz. Porque os zombies são lentos, aparentemente pouco perigosos e acéfalos, mas quando são muitos é que a porca torce o rabo. “The Walking Dead” percebeu isto desde logo, que o clássico é que era bom, e foi assim que se tornou um clássico também.
“The Walking Dead” foi buscar outra coisa à mitologia de “Night of the Living Dead”, e explorou-a. Todos têm o vírus, todos se transformam em zombies depois de mortos. Isto agora já me parece tão óbvio que fiquei desapontada quando neste filme de 2004 só os mordidos por zombies se transformam em zombies. Assim é muito menos perigoso. Em “The Walking Dead” não há mortos “seguros”. Todos têm de levar uma facada no cérebro, até amigos e família, para aumentar o drama.
Mas “The Walking Dead” foi buscar coisas a este filme também, em que uma meia dúzia de sobreviventes se refugiam num supermercado à espera que os venham salvar. Em frente ao supermercado há um prédio onde um jovem está a observar tudo do telhado, com binóculos, e a dar conselhos aos outros sobreviventes. Este jovem, não há volta a dar, pareceu-me o Glenn que salva a vida a Rick Grimes em Atlanta.
Por outro lado, “The Walking Dead” não esconde as suas influências. Em “Dawn of the Dead” os sobreviventes escrevem nas paredes: HELP ALIVE INSIDE. O que se torna, no hospital onde Rick Grimes acorda do coma, no enigmático:

DON’T DEAD
OPEN INSIDE

Já a deixar antever que esta não ia ser apenas mais uma série de zombies em que não era preciso pensar muito, como começava a ser expectável dos filmes do género pós-“Night of the Living Dead”.


Diria mesmo que o melhor que o remake “Dawn of the Dead” conseguiu foi dar ideias a “The Walking Dead”. De resto é um filme esquecível. Um filme até a querer mais ser um slasher do que um filme de zombies, como mostra a parte da serra eléctrica, completamente dispensável. Personagens estereotipados, alguns até pouco credíveis não obstante o estereótipo, os bons e os maus e os heróis, um enredo previsível. No fim, como num bom slasher, morrem todos à mesma, apesar dos grandes esforços para escapar, ou pelo menos é isso que se dá a entender. Mas a verdade é que não há aqui um único personagem por quem a gente se interesse, e aquele que ainda nos interessa mais já tem o destino traçado ainda antes da fuga final. Isto não é bom drama, nem o pretendia ser. Mas o público já estava preparado para mais do que isto, e “The Walking Dead” teve o mérito de ir explorar os personagens em vez dos zombies, a sociedade a desmantelar-se em poucos dias em vez das serras eléctricas. O público estava preparado para “The Walking Dead”.
Ver “Dawn of the Dead” agora parece-me um exercício injusto, um filme que mirrou à sombra de uma série que o suplantou. Recomendo apenas aos grandes fãs do género. A quem quiser ver um filme antigo de zombies que mete mesmo medo, recomendo “Night of the Living Dead” (1968).

14 em 20 (mais alguns pontos porque deu tantas ideias a “The Walking Dead”)



domingo, 20 de setembro de 2020

The Hunger Games / Os Jogos da Fome (2012)

 

É difícil não gostar desta história. Algures numa sociedade autoritária, uma revolta dos oprimidos foi esmagada pela elite opressora. Como castigo e “lembrança”, esta elite organiza jogos de morte escolhendo à sorte dois jovens de cada distrito insurgente. Este ano, a lotaria fatal calhou à irmã mais nova de Katniss, que parece não ter mais de 13 anos. Katniss, a irmã mais velha, voluntaria-se para ir aos jogos em seu lugar. Logo aqui temos de empatizar com a protagonista, uma irmã mais velha que se oferece em lugar da irmã mais nova sabendo que muito possivelmente irá morrer em vez dela. Katniss é corajosa mas não acredita nas suas hipóteses de derrotar os outros adversários. Começa um jogo mortal, transmitido na televisão para a elite organizadora, em que só um dos adversários pode ser vencedor. Todos os outros terão de morrer.
Digo que é difícil não gostar desta história porque é difícil não torcer pelos fracos e oprimidos. Mas depois de ouvir falar tanto de “The Hunger Games”, esperava muito mais daqui. Esperava algo que me chocasse, talvez. Mas se calhar depois de ver “Spartacus”, amargo e sangrento, já pouco me consiga chocar.
Ou se calhar os livros são melhores do que o filme, ou se calhar os filmes seguintes são melhores do que o primeiro e ajudam-nos a criar um laço mais forte com os protagonistas? Confesso que não queria ver a miúda morrer, mas tirando o facto de ser uma miúda a lutar pela sobrevivência não consegui senti-la como personagem tridimensional. Quem é Katniss quando não está a ser perseguida pelos campos? Não sei. Talvez os filmes seguintes me esclareçam.
“The Hunger Games” faz parte de uma série de Young Adult distópico que tem tido muito êxito recentemente. (Outro exemplo é “Divergente”, um filme que eu já vi e não gostei, de que nem me apetece fazer a crítica. Tenho o livro e perdi qualquer vontade de o ler.) Não me espanta que as gerações mais novas estejam fascinadas com distopias. Eu sempre estive, desde os clássicos “Farenheit 451” de Ray Bradbury e “1984” de George Orwell (que ainda não li mas está na lista), só para citar os que me ocorrem mais à memória. Durante uns tempos o gosto pela distopia parece ter-se esbatido, mas voltou em força. Não me admira nada porque estas são as primeiras gerações (a começar pela minha) que vão ter um nível de vida abaixo do que os seus pais tiveram. À medida que as desigualdades se aprofundam, regressa o interesse no modelo máximo da sociedade de elites e oprimidos, a sociedade distópica.
Isto para mim não é novidade nenhuma. A desigualdade é o estado normal do mundo segundo o conheço. Sempre cresci tão rodeada de pobreza, crueldade, indiferença, insensibilidade, hipocrisia (como a daquelas pessoas que ganham 5000 euros por mês e “sentem-se bem” a comprar comida para os pobrezinhos no supermercado duas vezes por ano, mas se calhar já não se “sentiam bem” se lhes pedissem para abdicar de quatro quintos do salário para o distribuir pelos trabalhadores explorados de forma mais justa para que estes já não fossem pobres, porque aí os pobres já são pobres porque são estúpidos, coitadinhos, e quem ganha 5000 euros por mês é porque os merece) para me comover com uma Katniss ficcional. Katnisses conheço eu muitas, de carne e osso, todos os dias a lutar pela sobrevivência e a engolir exploração e humilhações (quando não são coisas piores) porque precisam do ordenado mínimo para subsistir. Os verdadeiros Jogos da Fome.


14 em 15

domingo, 30 de agosto de 2020

The Doors / The Doors: O Mito de uma Geração (1991)


I am the Lizard King
I can do anything


Seria extremamente improvável, senão mesmo impossível, que eu não gostasse deste filme. “The Doors” é quase um video clip do princípio ao fim com todos os grandes êxitos. Podia tudo o resto falhar: actuação, cenários, guarda-roupa, direcção, enredo, que eu continuaria agarrada ao filme enquanto a música tocasse. O que não é o caso. Este filme é um 20 em 20, redondo e garrafal, e, estranhamente, é muito difícil dizer seja o que for do que é perfeito.
Val Kilmer encarnou Jim Morrison tão visceralmente que a certa altura eu me esquecia de que estava a ver um actor, especialmente nas cenas em palco. E o que me deixou de boca aberta: Val Kilmer, ele próprio, cantou no filme (embora algumas vezes se ouvisse mesmo a voz de Jim Morrison). Eu, que gosto dos Doors desde miúda, não conseguiria distinguir a diferença se não soubesse. De facto, até tive de ir pesquisar à net se as canções não tinham sido dobradas. Não foram inteiramente. Uma coisa é interpretar um ídolo da música, outra coisa é cantar como ele a ponto de conseguir “enganar” um fã. Porque é que não deram um Óscar a este homem? Val Kilmer transformou-se em Jim Morrison, da cara ao corpo à voz. Não é esse o pináculo do trabalho de um actor?
Por razão igualmente estranhíssima, perdi o filme quando saiu e só agora o vi pela primeira vez. Deve ter sido daqueles que ficaram na categoria “tenho de ver”, e depois o tempo foi passando e nunca mais me lembrei. É uma razão estranhíssima porque, embora não goste de tudo dos Doors, gosto bastante de algumas canções. “When the music’s over” “toca” na minha cabeça frequentemente. Do que gosto mais até é da sonoridade, inconfundível, que sempre me transportou para lá, para este tempo e para esta geração que não é a minha.
Eram os anos 60, o movimento hippie, e ao mesmo tempo que os Doors conseguiam apelar a essa multidão, toda paz e amor e LSD, chegavam também a uma outra, toda raiva e inconformação e LSD. A geração que buscava abrir as “portas da percepção” para fora de um mundo em que muitos jovens iam morrer para o Vietname, em que a utopia hippie degenerou em cultos sangrentos como os de Charles Manson, em que os Kennedys e Martin Luther King eram assassinados.
Jim Morrison viveu o mantra “sex, drugs and rock’n’roll” até ao limite e pelo mesmo mantra morreu. Aos 27 anos, live fast, die young, sê um cadáver bonito.
Admira-me sempre muito quando os Doors não são apontados como percursores do movimento gótico. Mas alguma vez haveria o movimento gótico sem os Doors? Alguma vez haveria o movimento punk sem os Doors? Led Zeppelin? Quais Led Zepellin sem os Doors? Alguma vez viram Jim Morrison em palco, vestido de negro da cabeça aos pés, de corpo serpenteante, voz poderosa e ganas de partir tudo? Alguma vez leram a sua poesia?
“The Doors” mostrou-me o homem e a banda que eu sempre adivinhei que Jim Morrison e os Doors tivessem sido, das tímidas origens ao estrelato e aos fãs em histeria, ao fim trágico que só podia ter sido aquele. De certa forma, era este o filme que eu tinha na cabeça ainda antes de o ver. Jim Morrison, Pamela Courson e os Doors como sempre os imaginei.

20 em 20. Perfeito.

domingo, 3 de maio de 2020

Deepwater Horizon / Horizonte Profundo - Desastre no Golfo (2016)


 

Exactamente como o título indica, este filme é a dramatização do maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. Em Abril de 2010, a plataforma de exploração petrolífera Deepwater explodiu, matando 11 pessoas e derramando crude no Golfo Do México. De acordo com o filme, o acidente teve por causa a ganância da BP (a quem pertencia a plataforma), que, perante o atraso nos prazos, se recusou a realizar todos os testes necessários para garantir a segurança da operação.
O filme faz tudo o que precisa de fazer para nos explicar o que está a acontecer, até para quem (como eu) nunca viu uma plataforma petrolífera na vida. Percebi sempre o que se estava a passar, os riscos que se estavam a avolumar e os aspectos técnicos da explosão.
As personagens são bem desenvolvidas o suficiente para nos importarmos com elas, embora neste tipo de filmes não seja costume aprofundá-las muito porque se tratam de pessoas reais, vivas ou mortas, de quem não se pode revelar ou fantasiar demasiado.
“Deepwater Horizon” é um filme catástrofe explicativo, eficiente e direito ao assunto, que nos ajuda a perceber o desastre. Como disse, um filme que faz tudo o que devia fazer.

13 em 20

domingo, 26 de abril de 2020

Ice Age: Continental Drift / A Idage do Gelo: Deriva Continental (2012)


Porque é que eu estou agarrada a esta série? Se calhar porque me faz chorar a rir.
Só a primeira sequência, em que o nosso amigo Esquilo da Bolota consegue partir o continente Pangeia e dar início à deriva continental, fez-me rir de lagriminhas nos olhos.
Será que os miúdos apanham estas piadas todas? Porque isto tudo me parece demasiado sofisticado para miúdos. Lembra-me uma vez em que a minha tia me levou a ver um filme supostamente para miúdos. Foi uma seca. No fim ela perguntou-me o que é que eu tinha achado e eu respondi: “Não percebi nada.” Mas a minha tia tem tendência para os filmes intelectuais. Quando eu tinha 15 anos levou-me a ver um filme de Fellini, “O Navio”, e desta vez já percebi tudo, mas não é o meu género. Isto para dizer que muito possivelmente não ia achar graça nenhuma a “Ice Age” quando era miúda. Mas agora gosto mesmo muito. Faço questão de ver a versão original (e não a dobrada em português) para não perder uma única piada.
Além do humor, o que me prende à série já são as personagens. É claro que estes mamutes, que esta preguiça, que este tigre dente-de-sabre, são tão humanos como nós.
Peaches (filha de Manny, o tal mamute que no princípio pensava que era o último mamute do mundo, e de Ellie) já é uma adolescente que quer andar com rapazes. “Só no dia em que eu morrer!”, responde Manny, um pouco ultra-possessivo, “Melhor ainda, três dias depois de eu morrer para ter a certeza de que estou morto!”
Peaches, como qualquer boa adolescente, ignora o que o pai diz e foge para ir ter com os “rapazes” estilosos da manada. Entretanto, o seu amigo ouriço, Louis, tem uma paixão platónica e desesperada por Peaches. Coitado do ouriço, é tão pequeno que Peaches o pode transportar na tromba, mas o amor é cego.
Sid, a preguiça optimista, recebe a visita inesperada da família toda: pai, mãe, irmão, tio e avó idosa. Sid, que foi abandonado pela família, fica radiante ao vê-los. É o seu ingénuo optimismo. A família só apareceu para abandonar a velha com ele, e logo de seguida desaparece outra vez. Pobre Sid. Isto é para os miúdos perceberem que nem todas as famílias são perfeitas.
E depois temos Diego, o dente-de-sabre, que finalmente encontra um interesse romântico, mas penso que este enredo só vai ser desenvolvido em próximos episódios.
Só não gosto quando eles começam com as canções. Palavra de honra, nunca gostei de musicais, nem para adultos, e assim que eles começam a cantar fico atacada de urticária. Felizmente foi só uma canção.
Gostei da parte sobrenatural em que Manny, Sid e Diego, à deriva num iceberg, se cruzam com umas lindíssimas sereias que os querem atrair até elas. Só que estas sereias são uns monstros marinhos que podiam perfeitamente ter saído de Lovecraft. Sim senhor, educar os miúdos em Lovecraft desde pequeninos. Aprovo!
As personagens são sólidas e cativantes e já as acompanho há tempo suficiente que me importo com tudo o que lhes acontece. Mas não quero enganar ninguém. A personagem com quem me identifico mais, desde que o conheço, e foi amor à primeira vista, é mesmo o Esquilo da Bolota (Scrat). Anti-social e obcecado pela Bolota amada, o mundo todo podia partir-se à sua volta que Scrat não vê mais nada nem ninguém. Eu também sou assim, seja o que aconteça à minha volta, sempre obcecada e incansavelmente a perseguir a minha Bolota (os meus projectos, isto é, só para clarificar).
Em “Deriva Continental”, e depois de partir o mundo, Scrat encontra um mapa do tesouro para uma ilha repleta de bolotas. Nada o consegue deter de encontrar esse mundo idílico e bolótico. E encontra mesmo, e é assim que o Esquilo da Bolota consegue também afundar a Atlântida. Como é que é possível não chorar a rir?
Já sou fã da série e vou ver todos os filmes que saírem. Lamento não ter gostado tanto de “Dawn of the Dinosaurs”, não sei bem porquê. Mas “Continental Drift” é novamente “Ice Age” no seu melhor.

15 em 20 (para filme de animação)

A sequência inicial em que o Esquilo da Bolota parte o mundo, e agora digam-me que não é de chorar a rir: AQUI.

domingo, 12 de abril de 2020

Pet Sematary / Cemitério Vivo (1989)


Gravei este filme ao engano, porque o canal anunciava que era a remake de 2019. Não, era o original de 1989, mas não me importei porque gosto mesmo muito deste filme. Já o vi umas quatro ou cinco vezes, duas delas no cinema, e quanto mais o vejo mais gosto dele.
“Pet Sematary”, adaptação do livro homónimo de Stephen King, pode parecer superficialmente um filme sobre zombies, mas da forma que eu o vejo é tudo menos isso. É uma história profunda e filosófica sobre a morte, o luto, e a dor tão intolerável que leva quem perdeu um ente querido a fazer o proibido para o ter de volta. Várias vezes me vieram as lágrimas aos olhos.
Não vou contar a história, até porque por esta altura já toda a gente viu o filme, mas vou salientar quando no início a filha do casal se revolta ao perceber que o seu gato, Church, ia morrer um dia. “Ele ainda vai estar vivo quando andares no liceu”, diz-lhe o pai, “parece-me uma vida bem longa”. “Não me parece nada longa”, responde a miúda, e tem razão: “Já sei, quem faz as regras é Deus. Se Deus quer um gato que o arranje! Que não me leve o meu gato!”
O que a miúda diz reflecte a grande questão que pesa sobre a humanidade desde que a homem pré-histórico se sentou  à volta da fogueira e começou a pensar no assunto. A vida é muito curta. Por longa que seja, é sempre muito curta. Deus e a religião, se quisermos ser incréus, foram invenções da humanidade para solucionar o problema da mortalidade. Morremos, mas a religião diz-nos que, de alguma forma, ressuscitamos, neste mundo ou no outro. Nada é mais difícil para um ser pensante do que a aceitar a efemeridade da vida, e de que tudo continua mas já não estaremos cá para ver o futuro.
A revolta começa na infância, quando as crianças vêem morrer os seus animais de companhia. Continua pela fase adulta, enquanto o homem tenta encontrar a explicação ou a conformação que lhe apazigue esta angústia existencial. Para alguns, como o médico do filme, nada existe após a morte. Podemos mesmo condená-lo por tentar trazer à vida o seu filho bebé, e, apesar dos resultados, insistir ainda em ressuscitar a sua esposa? Pergunto mesmo mais: quem não faria o mesmo naquela situação? O solo do coração de um homem é emperdernido, diz o filme, e nada o demove.
O filme propriamente dito está muito bem feito e continua actual (não percebo os motivos do remake, mas logo comentarei quando o vir), tirando os exageros típicos da época: aquela parte de Zelda, com o cliché "Vou-te apanhar!", era perfeitamente dispensável. E a cena em que o bebé luta corpo a corpo com o pai adulto -- que ridículo e que cena péssima, péssima! Mesmo assim, um bom filme do princípio ao fim, mas por causa destas cenas não é o filme perfeito que podia ser.

17 em 20



domingo, 5 de abril de 2020

Only Lovers Left Alive / Só os amantes sobrevivem (2013)


Cheguei a este filme através da música de Jozef van Wissem, quando este veio tocar ao festival Fade In 2019 (Leiria). A banda sonora é tão boa que quando descobri que “Only Lovers Left Alive” era um filme de vampiros, ainda por cima, tive de ver.
E o filme não desaponta no que diz respeito à música. Diria mesmo o contrário, que às vezes o filme tem tanta música que mais parece um videoclip e se eu quisesse ver videoclips ia ao YouTube.
Mas não é este o grande problema do filme. Ninguém jamais me vai ouvir dizer mal de personagens tridimensionais e bem construídas, como é o caso. O que falta a este filme é outra coisa igualmente crucial. Este filme não tem história. Ou não tem história que chegue, o que vai dar ao mesmo. É um filme-retrato, que se vê pela estética e pelo “ambiente” criado e por interesse nos personagens, à maneira daqueles filmes europeus em que dois personagens se sentam à mesa da cozinha e discutem Filosofia, mas não é o meu tipo de filme. Se os personagens não fossem vampiros muito provavelmente eu nem teria visto o filme até ao fim.
Mas vamos então ao pouco de história que “Only Lovers Left Alive” nos apresenta. Os protagonistas são um casal de vampiros, Eve e Adam, ela a viver em Marrocos, ele a viver numa zona deserta de Detroit, consequência do fecho das fábricas. Nunca se explica porque é que não estão a viver juntos, se aparentemente ainda se amam como no princípio, mas talvez como vampiros tenham tanto tempo à sua frente que estas separações temporárias são normais. Eve é alegre, entusiástica, apaixonada pela vida. Adam é melancólico, filosófico, introvertido. Como acontece aos vampiros muito antigos, Adam frequentemente se deixa cair no ennui de existir, e desta vez chega mesmo a mandar fazer uma bala de madeira para se suicidar. Eve percebe-lhe a depressão e viaja até ele, num voo nocturno, as malas cheias de livros em vez de roupa. Se a paixão de Eve são os livros, a de Adam é a música, bem como outras engenhocas científicas. A casa de Adam é um pesadelo de desarrumação, mais parecendo uma oficina caótica, com peças e fios e aparelhos em todo o lado, até na banheira e no frigorífico (desligado). Eve e Adam vivem à parte da humanidade (a quem chamam zombies, a nós!), observando de longe a passagem dos séculos e os progressos e retrocessos da sociedade. Bons vampiros, daqueles que se alimentam nos bancos de sangue dos hospitais, não fazem vítimas. Mas têm um problema. O sangue dos seres humanos está cada vez mais contaminado, o que leva os vampiros a adoecer e até mesmo à morte. Esta contaminação nunca é explicada de forma explícita, mas tanto pode ser drogas como SIDA como até a dieta do ser humano moderno. Penso que sejam drogas, porque a certa altura um deles diz que o sangue veio de alguém ligado à música, logo, “era de esperar”. Drogas é a hipótese mais provável.
O filme não tem realmente muito enredo. A certa altura a irmã mais nova de Eve, Ava, igualmente vampira e antiga mas com uma irresponsabilidade e um egoísmo de adolescente, visita o casal em Detroit e faz uma vítima. Eve e Adam têm de se ver livres do corpo, mas entretanto foram vistos com a vítima e têm de fugir para Marrocos. Onde os espera outro problema. O médico que arranjava sangue puro para Eve entretanto já não está lá, e pela primeira vez no filme Eve e Adam estão em grandes apuros.
E então o filme acaba. E fez-me pensar: “Era só isto?” Agora que estava bom, que Eve e Adam tinham de recomeçar do zero e arranjar outra rede de apoio, acaba assim? Pelo menos façam uma sequela.
“Only Lovers Left Alive” é um filme-retrato que vai agradar certamente aos amantes de vampiros, especialmente aos amantes de vampiros riceanos, que compensa em ambiente e banda sonora o que peca por falta de enredo. Eu, confesso, esperava mais, e gostaria muito de ver uma continuação.

15 em 20



domingo, 29 de março de 2020

Predators / Predadores (2010)


Quem acompanha a saga Predador já sabe tudo sobre ele: quem é o Predador, o que faz e o que quer. A dificuldade, sequela após sequela, é continuar a fornecer o que já se espera da série com alguma dose de originalidade. Este filme de 2010 consegue ambas as coisas.
Desta vez, o Predador não vem ao nosso planeta. Antes rapta daqui algumas “presas” e leva-as para outro planeta, onde, por assim dizer, tem uma “reserva de caça”. Como nós sabemos, o Predador não gosta de presas fáceis e indefesas, por isso os escolhidos são um grupo heterogéneo de militares e mercenários e assassinos. O Predador não fez uma escolha moral, e entre estes temos pessoas boas, más e assim-assim. E nem sempre os bons e os maus são aqueles que o parecem, algo que o filme manobrou muito bem e que nos consegue surpreender com alianças e traições inesperadas.
Os elementos de sucesso dos filmes anteriores são usados de forma inovadora. Por exemplo, a batalha épica do filme original, homem em tronco nu contra o Predador, armado apenas com uma catana, é aqui elegantemente recordada, desta vez com um capanga da máfia japonesa Yakuza armado apenas com uma espada de samurai. Não vence, mas também não perde.
Até há tempo para a nostalgia, quando alguém relata a história do único comando que sobreviveu ao Predador, em 1987, nas florestas da Guatemala. E de repente uma pessoa sente-se tão velha por se lembrar tão bem disto como se tivesse sido ontem.
Ao contrário do Alien, um colonizador “animalizado” com que não conseguimos estabelecer qualquer empatia, o Predador é um extraterrestre inteligente a quem podemos compreender. O Predador é um caçador. O nosso azar é que as presas somos nós. Mas a um caçador nós reconhecemos algo de humano (ou desumano, conforme as opiniões), e ele também nos reconhece a inteligência e o mérito a nós. Alianças entre homem e Predador são possíveis, e o Predador, como vemos aqui, é mais fiável do que muitos humanos. (Descobrimos, neste filme, que entre os próprios Predadores nem todos são iguais, que existe alguma forma de conflito entre eles, e, já se sabe, “inimigo do meu inimigo meu amigo é”.)
Gostei deste filme em que as personagens são bastante mais desenvolvidas do que é costume em filmes de acção. O cast de actores é excelente. Fiquei bastante surpreendida ao ver Adrien Brody num papel de acção, tendo em conta que Brody até já ganhou o Óscar de Melhor Actor com o filme “O Pianista”. Eis a prova de que um filme de acção não precisa de ter actores abrutalhados e com poucos diálogos, como era típico nos anos 80. Outra presença de vulto é Laurence Fishburne, que aqui aparece num papel a lembrar um Gollum sem o Anel.
“Predadores” conseguiu surpreender-me pela positiva, com acção inteligente do princípio ao fim e boas interpretações que dão profundidade a uma sequela de que já não era provável esperar tanto.

15 em 20