domingo, 27 de novembro de 2022

Waterworld (1995)

Acreditem ou não, nunca tinha visto este filme. Imagino que na altura tenha sido uma grande produção, uma coisa de encher o olho, mas o tempo não lhe foi benévolo.
Devido às alterações climáticas e ao derretimento das calotes polares, o planeta está agora todo coberto de oceano e os sobreviventes tentam por tudo encontrar terra seca. Kevin Costner interpreta uma personagem simplesmente designada por Mariner, um nómada dos mares que veleja de povoação em povoação marítima para trocar comida, água doce e outros bens. O bem mais precioso neste mundo pós-apocalíptico é mesmo a terra seca. Algumas pessoas ainda sonham encontrar um pedaço de planeta não coberto pelo mar, mas tal parece cada vez mais um mito.
Achei o filme longo, e longo no pior sentido (isto é, chato), principalmente com todas aquelas cenas no atol flutuante em que o Mariner é preso, e depois de muitas cenas de acção e porrada consegue libertar-se. Isto foi o quê, metade do filme?
O Mariner leva com ele uma mulher e uma criança que o ajudaram a fugir. Depois de muita insistência, ele acaba por revelar de onde vem a terra seca que costuma negociar. Esta é de facto a parte mais interessante do filme. O Mariner é um mutante, desenvolveu guelras e membranas entre os dedos, e consegue mergulhar a grandes profundidades. A terra está no fundo do mar. Neste mergulho, vemos cenas impressionantes do que seria a nossa civilização debaixo de água.
Não podiam faltar os vilões. Aqui estes aparecem na forma de piratas, que se chamam… Fumadores. Isso mesmo, Fumadores, porque todos fumam. Ora, eu compreendo que em 1995 queriam transmitir aos putos a ideia de que fumar não é “cool”, mas por amor de Blogger, vilões Fumadores? Que insulto! E onde é que estes Fumadores iriam arranjar as bateladas de tabaco num mundo em que quase não há água potável nem terra arável para cultivar três tomates e um limão? É o tal problema que acontece quando a lógica vai às urtigas.
“Waterworld” ainda se vê bem, mas parece mais um filme para miúdos do que outra coisa.

13 em 20 (pelos cenários subaquáticos)


terça-feira, 22 de novembro de 2022

[Actualizado] Better Call Saul (2015-2022)

[contém spoilers]

[Actualizado: quando fiz o post, por ser tão longo, esqueci-me de falar da cinematografia brilhante; corrigi essa falta no último parágrafo]


Saul Goodman é o melhor advogado do mundo. Se eu precisasse de um advogado podem crer que não pensava duas vezes antes de ligar ao Saul… desde que o pudesse pagar.
Na crítica à primeira temporada disse aqui que Saul Goodman é tão genial como Walter White, na sua especialidade, uma vez que Saul foi dos poucos que sobreviveu literalmente a Walter. Depois de vermos as seis temporadas da prequela descobrimos que Saul Goodman não sobreviveu apenas a Walter White, mas também ao psicopata Tuco Salamanca, ao ardiloso Hector, aos sinistros primos, ao perigoso Eduardo, ao implacável Gustavo Fring, e até mesmo ao fleumático Mike Ehrmantraut. Tendo em conta que Walter White eliminou todos estes personagens, directa ou indirectamente, e que Saul sobreviveu a Walter, acho que temos uma ilacção:
Walter White > [Salamancas, Fring, Ehrmantraut]
Saul Goodman > Walter White
O próprio Saul o diz: “Eu não era apenas um cúmplice. Eu era indispensável. Eu criei o império de Walter White. Sem mim, ele teria sido morto ou preso em menos de um mês”.
Se alguém pensou que a genialidade de “Breaking Bad” não podia ser ultrapassada, “Better Call Saul” pode muito bem vir a provar o contrário. É certo que não existem tantas explosões, perseguições, tiroteios e homicídios, mas transformar uma sessão de tribunal numa cena tensa e “explosiva”, como fazem Vince Gilligan e Peter Gould, não é para todos. É difícil encontrar adjectivos para qualificar o que é perfeito. “Better Call Saul” devia ser uma prequela à volta da personagem comic relief de “Breaking Bad” e tornou-se uma obra prima de storytelling, humor, personagens sólidas e enredo irrepreensível.

Dar em mau
Não existe uma expressão em português para exprimir o significado de “breaking bad”, excepto talvez o brasileiro “virar mau” ou “virar para o mal”, ou “tornar-se mau” ou “dar em mau”. Seguindo o tema da série-mãe, todos aqui viram para o mal. De Saul Goodman nós já sabíamos que ia dar em advogado de criminosos que aconselha Walter a desfazer-se de pessoas mandando-as para o “Belize”, só não sabíamos como é que ele lá chegava. O mesmo podemos dizer de Mike Ehrmantraut. O que desconhecíamos era sobre Ignacio Varga (“Nacho”), Chuck, Kim Wexler, e outras personagens fascinantes que não aparecem em “Breaking Bad”. A questão coloca-se, premente e inquietante, tendo em conta o universo de cartéis em que se movem: o que lhes aconteceu? Obviamente, não posso responder a essa pergunta.

Nacho, Fring, Ehrmantraut
Comecemos talvez por Nacho, o filho de um imigrante estofador de automóveis que quer mais da vida do que passar dia e noite agarrado à máquina de costura sem chegar muito longe. Trabalhando primeiro para o louco Tuco (a quem conhecemos muito bem de “Breaking Bad”), adquire mais responsabilidades quando este é preso. Mais responsabilidades, no universo dos Salamancas, significa mais violência, espancar e matar mais gente. Nacho é aquele rapaz de bom coração que percebe que se meteu em coisas demasiado negras para o que consegue suportar, mas não pode simplesmente fugir. Nacho sabe que fazer isso pode custar a vida ao seu pai, um “civil” que nunca quis nada com criminosos, e que muito provavelmente custará. O seu plano é convencer o pai a fugir, e até já mandou fazer passaportes falsos para ambos. Nacho é daqueles personagens de quem gostamos e por quem torcemos, mas a questão é complicada: como é que se foge aos poderosos Salamanca? Quanto mais Nacho lhes tenta escapar, mais se enrola com Gustavo Fring, o arqui-inimigo dos Salamanca.
De Gustavo Fring não aprendemos muita história passada. Alguns pormenores são-nos esclarecidos, mas no essencial a série-mãe já nos mostrou a sua backstory e a razão por que odeia tanto Hector. Quando muito, descobrimos que Fring é mais brutal do que o imaginávamos.
Já quanto a Mike Ehrmantraut, é uma reviravolta de 180 graus. O ex-polícia que conhecemos na primeira temporada a trabalhar como cobrador de bilhetes num parque de estacionamento era tão “certinho” que não aceitaria um suborno nem para deixar um carro sair sem pagar. Então, o que aconteceu? Uma parte já sabemos. Mike faz tudo pela neta e pela viúva do filho (igualmente um polícia, como o pai, assassinado em serviço). Mas a transformação não é de um dia para o outro. Pressionado pelas despesas da nora, tudo começa por aceitar um “biscate” como guarda-costas de um gajo de um laboratório que quer desviar comprimidos para vender aos gangues (esta substância serve como base à metanfetamina). Quem é que lá está para comprar? Nacho, às escondidas de Tuco. Nacho fica tão impressionado com a postura de autoridade, honestidade e profissionalismo que Mike lhe inspira que recorre a ele para tentar resolver um problema: Tuco, que naquela altura já tem a cabeça tão apanhada pelas drogas que mata homens leais à mínima paranóia. Justificadamente, Nacho receia ser o próximo e quer contratar Mike para matar Tuco. Mike arranja uma maneira melhor de se livrarem dele, mas é assim que se envolve com os Salamancas e acaba enterrado até ao pescoço ao serviço de Fring. A qualquer momento, Mike podia ter escapado, mas no seu caso a culpa é um pedregulho que o esmaga e prende a uma sentença auto-imposta: nos seus dias de polícia, Mike aceitava subornos. Aliás, toda a esquadra era corrupta. Quando chegou a vez do seu filho, Mike aconselhou-o a fazer como os outros se não queria arranjar problemas. Foi assim que o filho de Mike acabou morto e Mike não se consegue perdoar. Talvez por isso Mike sempre tenha exercido uma certa figura paternal com Jesse Pinkman, em “Breaking Bad”, e a repete aqui com Nacho.

James McGill vs Charles McGill
Antes de se chamar Saul Goodman, Saul era Jimmy McGill, irmão do prestigiado advogado Charles McGill, a quem tenta seguir as pisadas. Mas o que Jimmy McGill deseja ardentemente é merecer o respeito do irmão mais velho, e isso nunca conseguirá. Jimmy passou uma juventude de expedientes e pequenos golpes mas decidiu endireitar-se e tirar o curso por correspondência enquanto trabalhava na sala de correio da empresa onde o irmão é sócio: Hamlin, Hamlin e McGill (HHM). Conseguiu completar o curso e entrar na Ordem dos Advogados, tudo sem dizer uma palavra a Charles para a surpresa ser maior (e melhor, julga ele). Quando finalmente atinge este objectivo, conta ao irmão e pede-lhe um emprego na HHM. É aqui que acontece algo que pode ter virado Jimmy para o mal, se não mesmo *a coisa* mais relevante em toda esta escalada descendente. Em vez de uma oportunidade, Jimmy leva um chuto, sendo recusado por outro sócio da firma, Howard Hamlin. Tivesse sido contratado, ter-se-ia endireitado de vez? Nunca saberemos. É daquelas coisas. Mas foi aqui que começou a revolta. Jimmy já era capaz de recorrer a truques e expedientes. Saber que os ricos e privilegiados nunca o vão aceitar entre eles só o justifica mais para contornar a Lei quando lhe convém.
Mas fica pior. Jimmy acaba por descobrir que não foi Howard Hamlin mas o próprio Charles, ou Chuck, como os íntimos lhe chamam, quem lhe deu o chuto. Sem ter sequer a hombridade de lho dizer na cara, mandou o sócio fazer o trabalho sujo. Depois de muito espicaçado, Chuck acaba por confessar a Jimmy que este não pode ser advogado porque a Lei é demasiado sacrossanta para um tipo desonesto que nunca vai mudar. “É como pôr uma metralhadora nas mãos de um gorila”. Isto destrói Jimmy por dentro e envia-o no caminho de Saul. Acontece que Jimmy idolatrava o irmão. Chuck sofre de uma alergia à electricidade (psicológica, mas incapacitante) e vive numa casa a luz de camping gaz, sem frigorífico, sem conseguir sair para não se expor aos campos magnéticos que o “aleijam” lá fora. Durante anos, foi Jimmy quem o visitou todos os dias, logo de madrugada, para lhe levar comida fresca, gelo, mantimentos vários e até o Financial Times. E que recebe como paga? Ser chamado gorila com uma metralhadora nas mãos. Finalmente, Jimmy não desculpa o irmão (que sempre o menosprezou e lhe fez muitas e muitas como esta) e rompe definitivamente com ele. Eu já o teria feito muito antes e aplaudi.
Aqui vou cometer um spoiler. Chuck, furioso consigo próprio porque não conseguiu derrotar Jimmy, e frustrado porque sabe que a sua “doença” é imaginária, suicida-se. Por esta altura Jimmy já o tinha cortado da sua vida, que é o que se faz a pessoas tóxicas, e o suicídio não o afecta externamente. Faz-me confusão que as pessoas ainda esperassem, depois de tudo, que Jimmy sofresse pelo irmão, que o tivesse apoiado mais antes (para levar mais chutos?), porque são “sangue”. Lixe-se o sangue quando é tóxico. Ninguém merece uma vida de humilhação permanente e era isso que Jimmy tinha com Chuck. Até no suicídio, Chuck quis que fosse tudo sobre ele, a pobre vítima do irmão malvado a quem Chuck não conseguiu vencer em tribunal. Isto, sim, foi o que lhe atingiu o orgulho a ponto de se suicidar, e nada mais. Ninguém fica bem nesta fotografia.

Kim Wexler
Por último, a grande surpresa da série, Kim Wexler, ex-colega de Jimmy na sala de correio da HHM que também subiu a pulso na vida. Assistimos a como de amigos se tornam mais do que isso, e começamos a perguntar-nos: se Kim não está em “Breaking Bad”, se Saul Goodman nunca fala dela, o que aconteceu a Kim?
É impossível não nos apaixonarmos por Kim, com os seus defeitos e tudo. Kim começa por ser a bússola moral de Jimmy, avisando-o quando está a ir longe demais, até ao dia em que experimenta ela própria “virar má”. De início é apenas uma brincadeira, um pequeno logro em que ela e Jimmy fazem com que um estranho armado-em-bom lhes pague uma garrafa de tequila de 500 dólares (500 dólares a garrafa!). O que acontece depois é que Kim gostou demasiado da experiência. De amigos, Jimmy e Kim passam a ser amantes e cúmplices, mais tarde marido e mulher. E de novo nos dá um calafrio no estômago: o que aconteceu a Kim?
“Better Call Saul” gira em torno de dois grandes casos jurídicos. O primeiro, encontrado por Jimmy quando andava a ganhar a vida a custo a fazer testamentos a velhinhos por um preço irrisório, até que lhe sai a “lotaria”: descobre que uma grande cadeia de lares cobra demasiado e ilegalmente aos velhinhos, deixando-os apenas com uma pequena “mesada”. Isto transforma-se num litígio tão complexo que envolve a HMM e outras duas ilustres firmas de advogados. O outro caso é quando Kim consegue, sozinha, assegurar como cliente da HMM um banco local, Mesa Verde, ainda de tamanho modesto mas em plena fase de expansão. Desta vez, a culpa é mesmo de Howard Hamlin. Kim esperava ser promovida a sócia, mas é subestimada. O grande erro de Howard foi mesmo esse: subestimar Kim. Uma das firmas envolvidas contrata-a, para grande irritação de Howard, e Jimmy ajuda-a a “roubar” o cliente Mesa Verde à HMM recorrendo a tudo o que foi preciso, legal e ilegalmente. É a primeira vez que trabalham juntos, sabendo ambos que estão a transgredir, mas a verdade é que, ainda mais do que os benefícios materiais, estão ambos a divertir-se imenso. “Tu e eu, juntos, somos veneno”, dirá um dia Kim Wexler a Jimmy, mas ainda não. Agora o alvo é Howard Hamlin. Começa igualmente por ser uma brincadeira, uma conversa de cabeceira, mas Kim vira mesmo para o mal e da conversa passa-se à prática. O caso dos velhinhos explorados ainda não chegou a acordo porque os advogados de cada lado se recusam a ceder. Por cada ano que passe, menos tempo terão os velhinhos para aproveitarem a indemnização. Por outro lado, Jimmy, que aqui já é Saul Goodman, tem direito a um bónus quando o acordo acontecer. Então, porque não dar cabo da imagem de Howard Hamlin, desacreditá-lo, obrigá-lo a chegar a acordo e pôr fim ao processo? Era só isso, sem mais consequências e nem sequer muito graves: insinuações, acusações falsas e desmentíveis. Subitamente, a vida de Howard torna-se um inferno. E ainda assim ele continua a subestimar Kim, julgando que é tudo ideia de Jimmy/Saul, por dinheiro, quando na verdade já é ela quem puxa os cordelinhos, por vingança. (Howard nunca ouviu dizer que a fêmea da espécie é mais letal do que o macho…) Por fim, até Howard abre os olhos e põe o dedo na ferida: “Vocês não me fizeram isto por dinheiro! Vocês fizeram-me isto porque vos está a dar gozo!” Touché!

O homem que viveu duas ou três vezes
Um gozo que acaba em tragédia, e uma tragédia que dá origem ao maior segredo de “Better Call Saul”: a série não é apenas uma prequela; os últimos episódios, filmados a preto e branco, muito à film noir, são uma sequela. A princípio não percebi o preto e branco até me lembrar de Hitchcock. Mas é claro que os génios criativos por detrás de “Breaking Bad” e “Better Call Saul” devem adorar Hitchcock. Até uma das personagens-chave destes últimos episódios se chama Marion, como a personagem de “Psycho” assassinada no duche. Mas confesso que não gostei do preto e branco, o que não passa de uma preferência pessoal de quem cresceu com a TV a cores.
O final também não me convenceu. Não é que não seja válido e chocante, mas depois de tudo e mais alguma coisa Saul Goodman, vencedor, deita tudo a perder por amor? A sério, por amor? A minha natureza cínica revolta-se por dentro. Infelizmente não posso contar mais nada ou explicaria melhor as minhas razões. O que não quer dizer que Saul, novamente transformado em Jimmy McGill, não fosse capaz, mas com recompensas que valessem a pena.
Terminei “Better Call Saul” cheia de vontade de ir ver “Breaking Bad” outra vez, mas mudei de ideias. Não é a mesma série, não é a mesma história, não são as mesmas personagens. “Better Call Saul” vive e completa-se por si própria, não depende de mais nada. E as gargalhadas, ah, as gargalhadas. Quando Jimmy decide convencer o patrão a despedi-lo sem justa causa é o melhor momento de humor da série toda. Mas atenção, isto não é um programa cómico e há aqui passagens tão ou mais pesadas do que no predecessor. Aconselho a toda a gente que gostou de “Breaking Bad” e do humor de Saul Goodman. Genial!

[Actualizado] Cinematografia
Com todo este drama, até me esqueci de falar na cinematografia, e que falha seria não salientar esse trabalho de bastidores. Passa despercebido ao olho leigo, mas nem sequer consigo imaginar a criatividade necessária para filmar cada cena de uma perspectiva de câmara diferente: de dentro de uma mala, de cima da bancada da cozinha, a seguir os passos de Jimmy ou Kim. Nunca sabemos onde a câmara vai estar. O jogo de luz e sombra, o uso de cor e a falta dela, são verdadeiras delícias.
E depois temos momentos quase surrealistas. Lembro-me, por exemplo, da passagem em que Jimmy é obrigado a deitar um cone de gelado de menta para o chão (que vai ser importante mais tarde) e uma formiga solitária o encontra. Seguem-se minutos de beleza e estranheza enquanto todo o formigueiro explora e se apodera deste “festim”, ao mesmo tempo que a formiga solitária atinge o topo do cone. Durante todo este bocado, vimos (e ouvimos?) o mundo da perspectiva das formigas. Tal como na poesia, cada um terá a sua própria interpretação (a haver alguma) do significado deste desvio no âmbito da história. Muita gente diria que esta extravagância não avança o enredo nem desenvolve as personagens e que podia ser cortada. Não posso concordar! A cena das formigas é poesia e a poesia não precisa de justificação.
A cinematografia de “Better Call Saul” é poesia, e está tudo dito.


ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA:
Quantas vezes se deve ver uma obra-prima?


domingo, 20 de novembro de 2022

O Convento (1995)

Nunca tinha visto o filme nem lido nada sobre ele (como prefiro fazer sempre). Vi recentemente e vi logo duas vezes seguidas. Primeiro, porque nem acreditava no que estava a ver; segundo, porque queria tentar compreender o final. Consegui o primeiro, não consegui o segundo.
Um casal em crise, Hélène (Catherine Deneuve) e Michael Padovic (John Malkovich) visitam um convento na Arrábida onde este investigador julga poder encontrar provas de que Shakespeare teria ascendência espanhola. A recebê-los, o curador do convento, que se apresenta apenas por Baltar (Luís Miguel Cintra) manifesta imediatamente uma atracção por Hélène. É também este quem lhes apresenta o assistente Baltazar (João Bénard da Costa) e a governanta Berta (a conhecida astróloga Heloísa Miranda num papel delicioso). Para ajudar o professor, Baltar chama também a conservadora dos arquivos, a recatada e religiosa Piedade (Leonor Silveira).
E depois começam a acontecer coisas estranhas. Baltazar e Berta são adoradores do Diabo em pleno convento. Baltar, ele próprio, parece ser o Diabo, ou apenas um demónio, que, qual Mefistófeles a Fausto, quer tentar o orgulho do professor Padovic a aspirar à imortalidade.
Como em todos os filmes de Manoel de Oliveira, há aqui demasiada filosofia para resumir numa crítica curtinha, mas pergunto-me que Mefistófeles teria ainda algum poder para desencaminhar um homem moderno e científico para quem a alma é uma abstracção simbólica.
Nada expressa melhor esta ideia do que a conversa entre Hélène e Baltar, quando este a leva à Floresta das Bruxas (como ele lhe chama) e fala dos tempos em que não havia diferença entre o Bem e o Mal. “Como agora?”, provoca ela, cinicamente. “É melhor agora, porque agora faz-se o Mal sem qualquer escrúpulo", responde ele.
Enquanto Baltar tenta seduzir Hélène, um outro romance começa a despontar entre o professor Padovic e a sua assistente Piedade. Mas será mesmo um romance, ou uma relação de admiração de uma filha para com um pai, como esta confessa a Baltar? Quem está a dizer a verdade, quem está a ser manipulado? Hélène, alegando ciúmes, “promete-se” a Baltar se este levar Piedade à Floresta das Bruxas e a “perder completamente”. O próprio Baltar hesita perante isto, porque reservava outro destino a Piedade: perdê-la num “grande pecado”. Mas aceita o desafio para conquistar Hélène.
Entre as conversas filosóficas, as estátuas de santos mutilados, a adoração demoníaca num convento, o jogo de manipulação, a possibilidade de Baltar ser o próprio Diabo (e parece que é), a música dissonante e estridente a lembrar um filme de terror, eu estava quase a dar 20 em 20 ao filme, quando o fim se torna confuso.
Piedade e Baltar vão à floresta, mas não me parece que este a consiga “perder”. “Tenho saudades de Deus”, diz ela, e o suposto demónio quase tem um ataque de depressão. Entretanto, no convento, o professor Padovic pensa que vê a mulher, Hélène, entrar na sala de arquivos com a aparência de Piedade. Hélène deixa-lhe um livro aberto sobre Helena de Tróia. Subitamente, Padovic decide que Helena de Tróia tinha o poder da ubiquidade, e vai encontrar Hélène na praia. Não conto mais, mas a nível de resolução não temos mais do que isto.
Que significa este final? Que Hélène e Piedade eram uma só e a mesma? Mas como, se foi Baltar quem apresentou Piedade ao casal e já a conhecia antes? E se Hélène já estava no convento muito antes de Padovic chegar (graças à tal ubiquidade), terá sido tudo isto para reconquistar o marido?
Não percebi. E, ao contrário de outros espectadores que gostam de especular, até mesmo aquilo que não tem especulação possível, eu prefiro os finais que oferecem uma explicação lógica. Ou melhor, uma explicação qualquer, mesmo que não seja lógica. Isto não significa que eu tenha preguiça de pensar, ou mesmo de especular. Muito pelo contrário. Gosto da explicação do autor para posteriormente lhe analisar os méritos e deméritos.
Sem dúvida que “O Convento” é um grande filme, sem dúvida que gostei tanto que vi duas vezes de seguida, mas não me encheu as medidas todas. Tal como Baltar e Piedade, também a história se esfumou em nevoeiro quando tudo até ao momento se prometia materializar com um estrondo.
Por último, um elogio. Tenho-me queixado repetidamente, como AQUI e AQUI e AQUI, dos problemas de áudio nas produções portuguesas mais recentes. Caros técnicos de som, ponham os olhos neste filme. Ou melhor, os ouvidos. Mesmo com a música incessante e estridente, mesmo com as personagens a falar em línguas diferentes, mesmo com os sons de fundo, nunca em “O Convento” se notam problemas de áudio e dicção. Percebe-se tudo, ouve-se tudo, sem ter de se andar com o comando a levantar e a baixar o som constantemente. Para bom entendedor meia palavra basta e está tudo dito.

18 em 20


domingo, 6 de novembro de 2022

San Andreas (2015)

A falha sísmica de San Andreas, que acompanha toda a costa da Califórnia, é para eles o mesmo terror que para nós significa a falha sísmica a sudoeste do Cabo de São Vicente que se acredita ter causado o terramoto de 1755. San Andreas já provocou na Califórnia o grande terramoto de 1906. Tendo em conta que estes fenómenos acontecem aproximadamente de 100 em 100 anos, a questão aqui (para eles e para nós) não é “se” mas “quando”.
“San Andreas” é um filme-catástrofe que retrata o futuro “Big One” de forma muito realista e aparatosa, com a total destruição de São Francisco e a tsunami subsequente. Nem a ponte Golden Gate escapa (aquela mesma que parece a nossa ponte 25 de Abril). Não é um filme aconselhável a pessoas susceptíveis de terem insónias a imaginar terramotos (como eu).
Não há muito mais a dizer deste filme. As personagens só lá estão para termos alguém por quem torcer enquanto o apocalipse se abate sobre a cidade. Saliento os efeitos especiais da tsunami, que mete mesmo medo. Este é um filme que vale pela espectacularidade, não pretende ser um drama. O objectivo é aterrorizar-nos, e consegue, especialmente quando se vive em Lisboa.
Fico sempre perplexa quando, depois de uma destruição a esta escala, alguma personagem diz “vamos reconstruir”. Reconstruir, ali? Se isto acontecer em Lisboa no meu tempo, e se eu sobreviver, podem crer que não me apanham mais aqui.

14 em 15

domingo, 30 de outubro de 2022

The New Pope (2019–2020)

[contém spoilers inevitáveis; aconselho a ver primeiro “The Young Pope”]

“The New Pope” é a segunda temporada de “The Young Pope”. Isto é confuso porque as temporadas têm nomes diferentes e a série não tem um título comum a ambas. O realizador Paolo Sorrentino já confirmou que haverá uma terceira, para nossa delícia.
No entanto, tenho de ser franca. Não gostei tanto desta temporada como da primeira, se calhar porque se perdeu o efeito de choque, ou porque os enredos e sub-enredos desenvolvidos não são tão interessantes. E por outra razão, que a princípio me desagradou e que pelo fim já me irritava: Paolo Sorrentino não perde uma oportunidade de mostrar nudez e cenas lascivas gratuitas sem o mínimo interesse para o desenrolar dos acontecimentos. Isto chama-se pornografia, ou soft-porno, e eu não tenho paciência para este tipo de “cinema europeu” a pisar o risco sem razão válida. Reparem que não me queixei da orgia em “The Young Pope” porque fazia muito sentido para a história e para as personagens. Aqui temos uma cena em que Jude Law está nu, de costas para a câmara, dentro de uma fonte vazia, ao ar livre, a contemplar as vestes papais. Não me importei de ver (o senhor está em grande forma para a idade), mas pergunto: porquê? Quem é que leva as vestes papais para uma fonte húmida, de aspecto musgoso? O objectivo foi mostrar o rabo de Jude Law para agradar à audiência feminina, da mesma forma que muitas mulheres são desnudadas para agradar à masculina, e isto é sinceramente mau. Graças a deus não vimos o cardeal Voiello despido, porque não me parece que seja uma visão agradável…
Não é que não tenha havido cenas absurdas e engraçadas. Por exemplo, não gostei da rave das freiras no genérico, que mais pareciam strippers de luxo a dançar à volta de um poste. Curiosamente, não havia freiras feias, nem gordas, nem velhas. Eram todas umas top models. Realismo nenhum. Isto parece-me mesmo um sonho erótico de Sorrentino e nada mais. A cena deveria supostamente salientar um dos sub-enredos da temporada, a revolta das freiras do Vaticano que exigem mais direitos, mas este sub-enredo foi tão mal aproveitado e tão depressa descartado que nem vale a pena falar dele. Não gostei da rave das freiras, verdade, mas foi uma delícia ver a madre-superiora (que é anã) a dançar em cima da secretária, ou o cardeal Assente a saracotear-se com todos os seus tiques de gay assumido.
Aliás, os créditos da série continuam a ser um dos pontos fortes. Quando fazem Jude Law emergir do mar, apenas em bikini-cueca de um branco imaculado que resplandece como uma luz divina a apertar as “jóias papais” e todas as mulheres na praia ficam de boca aberta a apreciar, foi giro. Foi sublime.
A série continua a apostar em efeitos especiais geniais e quase surrealistas, quase à David Lynch, e quanto a isto “The Young Pope” e “The New Pope” são das melhores séries do momento e imperdíveis para quem gosta de boa cinematografia.

O Papa gótico
Mas vamos lá ao novo Papa. Com a ausência de Lenny (Jude Law), foi preciso eleger um novo pontífice, e as maquinações de Voiello (hilariantes) levaram os cardeais a votar no pateta Tommaso, antigo confessor de Lenny.
Tommaso é um franciscano que assume o poder e decide viver na mais abjecta pobreza, dormindo ele próprio no chão, abrindo o Vaticano aos imigrantes muçulmanos, possivelmente sírios (causando problemas inclusive com as autoridades italianas), e tentando doar todo o dinheiro da Igreja aos pobres. Tommaso não dura muito. Morre subitamente de ataque cardíaco e desconfia-se que foi assassinado. Mas terá mesmo sido? A série responde mais tarde.
O próximo elegível é Sir John Brannox (John Malkovich), católico inglês da nobreza britânica (penso que os pais são duques), erudito e dandy, que após uma carreira fulgurante que o levou a converter milhares de anglicanos ao catolicismo se retirou para a propriedade da família onde vive em reclusão, principescamente, na companhia apenas do seu mordomo e da sua cadela. Tal como Lenny, Brannox tem uma tragédia na família. Enquanto esquiavam, o seu irmão gémeo sofreu um acidente e morreu. Os pais de Brannox culpam-no e não lhe falam, chegando a fingir que ele não existe.
Brannox é um choque. Sempre elegantemente vestido, usa rímel e reclina-se languidamente nas chaises longues do seu palácio. Quando fala, mesmo de assuntos teológicos, é sempre com filosofia, poesia e intelecto, o que explica porque é que é admirado. Só os intelectuais o entendem; as pessoas comuns acham que diz coisas bonitas”. Brannox é um homem anacrónico, o poeta solitário e melancólico do século XIX que foge do mundo que o magoa para o refúgio da natureza e da fortuna de família onde vive em contemplação. Quando era adolescente, vimos a saber, teve uma fase punk, mas acho que só faltou um “bocadinho assim” para ser gótico. Perguntamo-nos, o que é que um homem destes, um esteta e um filósofo, está a fazer na Igreja? Porque os pais assim o determinaram, como acontece na realeza britânica. Um dos filhos devia ter sido cardeal, Adam, o filho preferido, o que morreu. Na falta deste ficou John, e a sua extrema passividade levou-o a seguir o caminho traçado pela família. E não é difícil para um homem como Brannox dedicar-se à vida religiosa, se ele próprio é um eremita de natureza. Mas há mais mistério aqui, especialmente a existência de uma certa caixa secreta que ajuda muito a explicar estas opções (ou a falta delas). Esta temporada devia antes chamar-se O Papa Gótico, mas duvido que Sorrentino, pelas execráveis escolhas de soundtrack da série, saiba o que é gótico. Já Brannox, pela ligação ao punk, talvez até curta uns Sisters of Mercy ou uma Siouxsie. Agora fiquei muito curiosa.
Voiello e uma delegação de cardeais vão de propósito a Inglaterra para o convencerem a aceitar o papado, o que ele faz muito relutantemente e, suspeito, só quando lhe dizem que pode conhecer pessoalmente Marilyn Manson e Sharon Stone.
E não é que Marilyn Manson aparece mesmo (sinceramente tive de ir confirmar, mas é mesmo ele)? Manson é lá bicho de recusar aparecer ao pé de um Papa, a quem oferece um dos seus quadros sombrios (de que eu gostei, confesso). Tinha esperança de que oferecesse antes o álbum “Antichrist Superstar”, muito mais apropriado. Não percebo porque não o fez.
A conversa entre Manson e Brannox é hilariante. Manson, que não percebe nada de Papas, pergunta-lhe:
“Desculpe, mas julguei-o mais novo.”
Brannox: “Está a confundir-me com Pio XIII, que viu na televisão.”
Manson: “Ah! Então quem é o senhor?”
Brannox: “Eu sou João Paulo III.”
A conversa é mais longa, mas não quero incluir spoilers.
Sharon Stone (ela mesma) também visitou o novo Papa e pediu-lhe que aceitasse o casamento homossexual. Brannox acha que isso já é demasiado progresso de uma só vez, mas, para tentar evitar os escândalos sexuais com menores, tem a intenção de permitir o casamento dos padres. Infelizmente, e aqui nota-se que a série lançou mais ideias do que realmente concretizou, esta questão nunca foi levada adiante.
Entretanto, um grupo leal ao papa Pio XIII torna-se cada vez mais fundamentalista (e mais papista do que Pio XIII). Ao mesmo tempo, repetem-se ameaças de um califa muçulmano que chama Iblis (diabo) aos cristãos, possivelmente mais uma referência ao Estado Islâmico/Síria/refugiados. Quando acontecem atentados em Lourdes e até na Capela Sistina (matando a cadela de Brannox, o que o deixa inconsolável, um paralelo com o canguru de Lenny) todos julgam os terroristas responsáveis. Mas a verdade é bem mais sórdida.
Aliás, sordidez de todos os tipos é algo que não falta a “The New Pope”. Mas, numa apreciação geral, acho que a série andou muito perdida em vários sub-enredos que não levaram a nada, como se numa exposição de artes várias que não têm forçosamente de fazer sentido, enquanto que “The Young Pope” teve mais cabeça, tronco e membros. Uma excelente série, mesmo assim, que faz mais perguntas do que dá respostas.
Saliento a última homilia do Papa João Paulo III. Acreditem, fez-me chorar. Não apenas de lágrimas nos olhos, mas de lágrimas a correr pela cara abaixo.
Brannox não era realmente homem para ser padre, muito menos Papa, e gostei do fim feliz. Viva o novo Papa, que ninguém acreditará quem é se eu disser. Mas também não digo.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

 

domingo, 23 de outubro de 2022

The Unfamiliar / A Presença Maligna (2020)


Este é um filme de terror com algumas potencialidades, mas que se perde a meio. Uma militar chega a casa depois de uma missão no Afeganistão, onde é esperada pelo marido e os três filhos. Imediatamente começam a acontecer coisas estranhas, algumas que podem ser resultado de stress pós-traumático, outras que são tipicamente a acção de um poltergeist (objectos a voar, gavetas a abrir e a fechar, etc) ou o início de uma possessão. O marido consegue convencê-la de que todos estes fenómenos são resultados do stress e convence-a a passar umas férias no Havai, onde este estuda os mitos locais.
Até aqui o filme parece pouco original, até que surge uma reviravolta surpreendente a lembrar “The Skeleton Key / A Chave” (2005). Teria sido óptimo que “The Unfamiliar” acabasse aqui, quando estava bom, mas de repente o enredo perde o fio à meada e começa a deixar de fazer sentido. Se calhar mais do que em todos os outros géneros, um filme de terror tem de fazer sentido se nos quer convencer e arrepiar. Quando o espectador deixa de acreditar no que vê, o filme não consegue atingir o objectivo. Foi exactamente o que aconteceu aqui, quando o enredo deitou fora a lógica. Por alguma razão pretendeu-se chocar os espectadores com horror físico, e existe uma cena em que a mãe pede ao filho (criança) que se cubra todo de água a ferver! Esta é uma boa mãe, não uma dessas megeras inqualificáveis, mas acho que nem uma megera inqualificável era capaz de sugerir uma coisa destas ao próprio filho. No que é que esta gente estava a pensar?
Enfim, como disse, um filme com potencialidades que vão por água abaixo (quase literalmente, porque de facto há cenas subaquáticas).

11 em 20


domingo, 16 de outubro de 2022

King Arthur: Legend of the Sword / Rei Artur: A Lenda da Espada (2017)

Eu… Eu… Fiquei sem palavras.
O grande Mago Mordred ataca o reino de Uther e derrota-o. Arthur, príncipe herdeiro da coroa ainda criança, tem de fugir quando o seu pai Uther é morto e acaba a crescer num bordel… Espera! Pára tudo! Onde é que estão os tomates podres para atirar ao écran?!
Mordred não pode derrotar Uther porque quando Mordred nasce Uther já tinha morrido e Arthur já era rei, porque Mordred é o filho incestuoso de Arthur com a sua meia-irmã Morgana. Arrgggh!
Então que história é esta? A história do rei Arthur não é de certeza. Na verdade, tudo isto me pareceu mais uma versão de Spartacus do que outra coisa. As opções de storytelling também são tão extravagantes (para não dizer mesmo rebuscadas) que passei o filme todo a tentar apanhar o fio à meada.
Sinceramente, este foi um filme que me apeteceu apagar a meio, e ponderei mesmo se devia perder tempo a escrever esta crítica. Prometi a mim própria não gastar mais de 5 minutos com ela, e apenas para avisar os desprevenidos: filme mau, muito mau, evitem a todo o custo!
Como é que um actor como Jude Law se meteu nisto? Bem, é a tal coisa das contas para pagar. Coitado, mesmo assim consegue fazer um papelão numa história abaixo do seu nível.
E Morgana? Sim, Morgana, essa figura incontornável das lendas arturianas? Acreditem ou não, Morgana não entra no filme. O único avistamento de “Morgana” foi no início, mas o de outra “Morgana”, a de “Merlin”. Isto é, Katie McGrath, noutro papel (uma tal Elsa, qual Elsa?!) em que a vemos por menos de cinco minutos. Oh, porquê? É a tal coisa das contas para pagar.
O que me irrita solenemente neste tipo de filmes é que se aproveitam de personagens conhecidas e amadas para vender uma história que não tem nada a ver, só para lucrarem com os incautos que vão ao engano, e assim escarram e pisam nas lendas arturianas.
Mais do que evitar, este é um filme para odiar. Só para ver por motivos de estudo do que é um filme mau, mau, mau.
Fim dos 5 minutos.

8 em 20 (menos 1 ponto pelo insulto e menos outro por usarem as lendas arturianas para fazer dinheiro)


domingo, 9 de outubro de 2022

Black Summer (2019 - ?)

Finalmente percebi porque é que não gosto de super-zombies. Não gosto de zombies que correm mais do que eu. Não gosto de zombies que correm mais depois de mortos. Abomino zombies de idade avançada que correm mais do que gente nova. "Black Summer” foi baseado em “Z Nation” (a série, depreendo, que eu não vi) mas são os mesmos zombies de “World War Z”, de que já falei aqui. Se todo o conceito de zombismo é ridículo, uma idosa zombie de 70 anos a correr que nem uma atleta olímpica exige uma completa anulação da nossa incredulidade.
Mas nem sequer é por isso. Todo o horror do zombie é o cadáver putrefacto, morto e bem morto, cheio de vermes e musgo e lapas (se esteve no mar), a cair aos pedaços, que se arrasta lentamente na direcção dos vivos. O problema não é apenas um zombie (a não ser que esteja “muito fresco”), é uma horda deles a cercar os vivos sem deixar escapatória. Todo esse horror original do melhor filme do género , “A Noite dos Mortos Vivos”, se perde quando temos super-zombies a correr mais do que os vivos.
“Black Summer” sofre disto, mas sofre de mais coisas. Sabemos por uma personagem que passaram pelo menos seis semanas desde que o apocalipse zombie começou e os sobreviventes ainda não descobriram como se mata um zombie. Errado. Sobreviventes que não descobrem logo nos primeiros dias não são de certeza sobreviventes seis semanas depois. E cometem mais erros que já não são desculpáveis por esta altura. Fazem muito barulho, gritam sem motivo, usam armas de fogo a torto e a direito (chamando a atenção), entram em lugares que parecem seguros e deixam a porta escancarada atrás deles mesmo a pedir que os zombies entrem.
O que permite que ainda existam tantos sobreviventes é que há poucos mortos. Mesmo muito poucos mortos. Super-zombies deste tipo, em números semelhantes aos de “The Walking Dead”, já teriam exterminado tudo. É-nos dito que no princípio os militares bombardearam as cidades mais populosas. Também se tentou fazer isso no universo de “The Walking Dead” (a sinistra operação Cobalto) mas o número inexorável de novas transformações não permitiu que tal fosse muito efectivo. Em “Black Summer”, então, em que o zombie se transforma no segundo em que solta o último fôlego, muito menos seria viável. O uso de armas e os tiroteios às cegas, neste caso, sem o precioso tiro na cabeça, só faz com que se transformem mais zombies imediatamente e vindos de todos os lados. Seria impossível sobreviver a um apocalipse zombie assim. A maneira que os criadores usaram para contornar isto, lá está, foi a existência de poucos mortos. Assim, temos uma média de dois zombies para cada três vivos. Comparado com o mais realista “The Walking Dead”, é risível.
Aliás, “Black Summer” é uma boa série, não digo que não, mas jamais seria possível sem as bases que (o universo de) “The Walking Dead” estabeleceu. Por exemplo, aqui não é preciso explicar que toda a gente está infectada e se transforma quando morre. Não é preciso ser mordido nem arranhado, como nos filmes/séries anteriores. Esta foi uma originalidade de “The Walking Dead”, para o bem e para o mal a melhor série de zombies das últimas décadas. Da mesma forma, “Black Summer” não tem de explicar quase nada. Já vimos quase tudo o que se passa aqui em “The Walking Dead”, desde os poucos sobreviventes dos alvores do apocalipse até aos grupos armados em busca de recursos e pilhagens. Por exemplo, a mansão. Há um motivo pelo qual os personagens de “The Walking Dead” procuram abrigo em cabanas e celeiros abandonados, ou mesmo no meio da floresta. A mansão para onde estes sobreviventes foram era um chamariz de salteadores. Obviamente, dois grupos armados em luta para a ocuparem acabam por destruí-la de cima a baixo. Agora não há nada para ninguém. Também já vimos isto.
Queria falar da história, mas receio que a história seja praticamente a mesma com outros personagens. Se calhar mais acelerada e sem tempo para os desenvolver, porque mal temos tempo de lhes saber o nome. Os protagonistas vão morrendo em catadupas porque a série é curta.
Mas vamos então tentar começar pelo princípio, embora o post já vá longo. A série começa com uma família (os pais e uma miúda) a fugir de um bairro suburbano na direcção de camiões militares que estão a evacuar as pessoas para um estádio. Mas o soldado nota algo de estranho no marido e descobre que este está ferido, aparentemente com gravidade. Imediatamente o camião se vai embora com a miúda deixando os pais (e o resto das pessoas à espera de vez) apeados. Mesmo ao lado, uma mulher asiática é igualmente rejeitada pelos militares, quase sem notarmos. Trata-se apenas da “protagonista”, mas para perceber isto é preciso ver a série duas vezes. Já explico melhor. Entretanto, o casal foge para uma das casas evacuadas, onde o marido sucumbe ao ferimento e se transforma. É o primeiro zombie que nós vemos e é de meter medo. Mas ao mesmo tempo perguntamo-nos, seis semanas de apocalipse e Rose (a mulher) ainda não sabia que o mais provável era isto acontecer?
Durante a maior parte da série acompanhamos a viagem de Rose e Anna (a filha), bem como a de Sun (a protagonista coreana de que falei acima e que só sabe dizer duas ou três palavras em inglês, o que foi inteligente porque nos obriga a compreendê-la de outra maneira). Como dizia, é preciso ver a série duas vezes para apanharmos todos os pormenores. Muitos acontecimentos que vemos ao longe, quase a sair do écran, são outros sobreviventes importantes que se vão cruzar com os protagonistas. A série não nos dá tempo de respirar na sua rapidez alucinante. Raramente temos um momento parado ou de diálogo para ficarmos a conhecer as personagens. Quando isto acontece quase podemos encher os pulmões de ar. Mas sabemos que não vai durar muito tempo. “Black Summer” não nos quer deixar adormecer. Talvez até exagere na sua avidez de nos manter agarrados ao écran.
Esta é outra série de zombies que começa quando a sociedade já se desagregou. Até à data, apenas “Fear The Walking Dead” se atreveu a mostrar-nos o início, e muito de raspão antes de passarmos para o caos completo. (Deve ficar caro filmar ruas cheias de gente em pânico, deduzo eu.) Difere do universo Walking Dead pelos zombies e pelo passo acelerado com que se move, sem medo de nos deixar para trás. Talvez por isso nos envolva a outro nível com os personagens. Ou estamos alerta e os acompanhamos, ou ficamos pelo caminho. Quem fica pelo caminho não se safa.
Uma última nota sobre o título. Este Black Summer deve ser no Canadá, onde a maioria das séries são filmadas hoje em dia, porque os personagens queixam-se de muito calor ao mesmo tempo que trazem vestidas três ou quatro camisas, t-shirts e uma parka. Fez-me rir. Eles que viessem para cá que os zombies até derretiam.
Deixo os factos, recomendo aos apreciadores do género. Não vamos ver nada de original mas não é uma série que se deixe escapar.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes (neste caso, é melhor mesmo ser vista duas vezes ou perdemos pormenores importantes)


domingo, 2 de outubro de 2022

Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid / Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita (2004)

Já vos aconteceu estarem a ver um filme muito mau e a certa altura perceberem que já o tinham visto mas não se lembram, porque tão depressa se vê como se esquece? A mim acontece muito. É exactamente o caso deste “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” de 2004, ao contrário do que eu disse aqui quando fiz a crítica à sequela “Anaconda - Rasto de Sangue” de 2009. No meio dos dois descobri que há um “Anaconda 3 / Anaconda: Offspring” com o David Hasselhoff, de 2008. Será que vi? Já não digo nada.
Só me lembrei de que já tinha visto “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” quando o macaquinho vê a anaconda. Mas não se preocupem, podem ver à vontade, o macaquinho safa-se! Quem não se safa são as personagens mais ou menos concebidas de propósito para serem comidas sem chocar muito o espectador.
Uma equipa de uma companhia farmacêutica dirige-se ao Bornéu em busca da tal orquídea milagrosa que contém o gene da imortalidade. Como costuma acontecer nestas coisas, a maioria das personagens está mais interessada nos lucros do que na imortalidade propriamente dita, o que é bastante conveniente para se tornarem ração de anaconda. Aparentemente, uma vez que a orquídea faz parte da cadeia alimentar, nesta região recôndita as anacondas crescem em proporções gigantescas. Pior um pouco, a equipa chegou ao local exactamente na época de acasalamento das anacondas, o que os lança no meio de uma orgia ofídica. O resto adivinha-se.
Mas “Anacondas: Em Busca da Orquídea Maldita” não é tão mau, nem de longe, como a sua sequela “Anaconda - Rasto de Sangue”. Existem aqui momentos de tensão a sério, e diálogos com piadas que realmente são engraçadas, coisa que “The Witcher” quis fazer e não conseguiu. Não houve grandes esforços para dar mais tridimensionalidade às personagens porque ninguém está a ver este filme por causa delas. Estamos todos a torcer pelo macaquinho que não tem culpa nenhuma de ali estar, e é o que basta. De resto, queremos ver cobras e o filme dá-nos cobras. Não é caso para pedir mais.

13 em 20


domingo, 25 de setembro de 2022

Heir to Sevenwaters, de Juliet Marillier

Os amantes de sagas, como eu, adoram regressar a um universo familiar e agradável que os encantou. É como encontrar velhos amigos, ou inimigos, conforme o caso. Foi esta a minha sensação ao ler o quarto livro da série Sevenwaters, “Heir to Sevenwaters”, de Juliet Marillier.
Já conheço a família toda. O que me fez muita espécie foi que Ciarán* está lá com eles, embora não na mesma casa porque decidiu retomar os estudos como druida, o que ele já queria ser desde jovem. Pergunto-me por que raio é que um feiticeiro do calibre dele quer ser um druida, mas acho que são sonhos de infância ou uma parvoíce assim. Também me pergunto o que raio faz ele em Sevenwaters depois da velhacaria que Conor, Sean e Red lhe fizeram e a Niamh. Sim, o nosso amado Red, marido de Sorcha e pai de Sean, a quem perdoo mais porque foi o único que foi fazer justiça pela filha com as próprias mãos. (Por alguma razão ele é o nosso amado Red.) Mas, mesmo assim, velhacaria. Conor até tem alguma desculpa, tendo passado tanto tempo com cérebro de pássaro não pode ter ficado muito bem, mas Sean (actual senhor de Sevenwaters) não tem desculpa nenhuma. Logo, o que está Ciarán lá a fazer? A família é uma coisa muito viciante e tóxica, é só o que posso concluir. Eu nunca mais os queria ver, nem que fosse para os transformar em lagartixas. E até tenho a certeza de que Ciarán também teria feito justiça por Niamh se ela o tivesse deixado. Mas o tempo que tiveram juntos foi tão escasso, se calhar não valia a pena desperdiçá-lo. Por outro lado, Fainne, a filha de ambos, também teve para onde ir, e Ciarán ficou mais ou menos sozinho (se exceptuarmos o corvo Fiacha que não me parece grande companhia). Voltar aos planos antigos talvez lhe tenha ocorrido por alguma razão que não é aqui explicada.
Nota-se quem é o meu personagem preferido, não nota? Esta história não é sobre ele, mas de certa forma implica a partida de Fainne para uma ilha sagrada onde será a guardiã de não sei o quê (nunca prestei muita atenção aos aspectos religiosos). Com ela foi, se me lembro correctamente, a Senhora da Floresta e o Senhor dos Cabelos de Fogo. E isto já tem a ver com o quarto livro da série.
Na ausência da Senhora da Floresta (a tal que “ajudou” Sorcha em “A Filha da Floresta”), instala-se na floresta de Sevenwaters (isto é, no Otherworld de Sevenwaters, o reino dos Fair Folk, ou, mais tradicionalmente, das fadas) um príncipe sem escrúpulos chamado Mac Dara. Ora, se os Fair Folk nunca foram muito de fiar, Mac Dará só não é mais violento porque não precisa. Basta-lhe um feitiço e já está. Mas já lá vamos.
O início do livro pode parecer lento e até aborrecido. Nada de interessante acontece. Deirdre, uma das filhas de Sean e Aisling, vai casar-se com um nobre importante. Os guerreiros de Inis Eala, inclusive Johnny (filho de Liadan, irmã gémea de Sean) estão presentes para a boda. A irmã gémea de Deirdre, Clodagh, parece namorar com um destes guerreiros com quem partilha o gosto pela música, e detestar o amigo dele, Cathal, um jovem sardónico que nunca parece ter nada de bom a dizer.
Entretanto, Aisling encontra-se à espera de uma criança, o que na idade dela pode ser muito perigoso. Felizmente, tudo corre bem e nasce um menino, chamado Finbar em homenagem ao tio-avô. Uma vez que Sean não tinha filhos, Johnny, seu sobrinho, seria o herdeiro de Sevenwaters, mas agora há um filho varão.
Até este momento, como eu dizia, pouco acontece. E, de repente, o livro começa a disparar em todos os cilindros. Cathal conta a Clodagh, ao pormenor, a possibilidade de um ataque a uma propriedade de Sean no norte. O pior é que este ataque acontece mesmo. Cathal decide ir-se embora e despedir-se de Clodagh sem dizer nada a mais ninguém. Clodagh estava a tomar conta de Finbar, e, assim que vira costas, num ápice, Finbar desaparece. No lugar dele foi deixado (e agora vai ser difícil explicar isto) um boneco feito de paus, com olhos de pedras e cabelo de musgo. Um changeling.
Não temos palavra em português que equivalha a changeling porque não temos este mito. Quando muito, um “trocado”. Mas na Irlanda e na Escócia, segundo vi em “Outlander”, acreditava-se piamente que as fadas roubavam as crianças e deixavam as delas, os tais changelings.
É claro que cai tudo em cima de Clodagh, e que Cathal é altamente suspeito. Para piorar as coisas, e isto também vai ser difícil de explicar, o changeling é uma espécie de criança, e Clodagh é a única que o ouve chorar e pedir comida. Todos a julgam louca. Todos menos Sibeal, a irmã vidente, que acredita em Clodagh. Clodagh acaba por se afeiçoar à criatura e chama-lhe Becan.
Clodagh e Cathal não são os únicos a quem os dedos são apontados. Já não é a primeira vez que noto como esta família de Sevenwaters é disfuncional. As suspeitas até chegam a recair no próprio Johnny, sobrinho de Sean. Não conhecemos assim tanto de Johnny, mas do que conhecemos é-nos bastante difícil de imaginar que fosse capaz de raptar uma criança (matar, até, o próprio primo) para ser ele o herdeiro de Sevenwaters. Esta família devia ir toda ao psiquiatra.
Entretanto, Clodagh decide que há apenas uma coisa a fazer: procurar um portal para o Otherworld e trocar o irmão pelo changeling, custe o que custar. Parte sozinha e à toa, quando subitamente encontra nada mais nada menos do que Cathal, que está a ser perseguido pela floresta pelos homens de armas de Sevenwaters, aparentemente sem saber porque é que o perseguem.
Aqui as coisas tornam-se estranhas. Cathal sabe muito mais do que diz, mas teima em manter-se em silêncio. No entanto, também ele consegue ouvir Becan, e, mais surpreendentemente, garante a Clodagh que consegue encontrar um portal para o Otherworld. Obviamente, Cathal esconde um segredo qualquer.
E em termos da história fico por aqui porque o resto são spoilers.
Já tinha dito de Juliet Marillier que se consegue sempre encontrar um ou outro elemento perturbador nas suas Fantasias Românticas, e se calhar é mesmo por isso que as leio. Em “Heir to Sevenwaters”, a certa altura (não vou dizer quando), desejei mesmo que a história enveredasse completamente pelo género do Terror, o meu preferido. E teve os seus momentos, se calhar porque são géneros que se tocam bastante e podem derivar um no outro a qualquer instante. Claro que não é o género de Marillier e as coisas suavizaram-se logo de seguida. Mas Marillier conseguiu pôr-me lágrimas nos olhos, o que não tinha acontecido em nenhuma das histórias anteriores (é preciso muito para me tocar tanto).
Por outro lado, fiquei muito triste ao ver que Marillier voltou a usar a palavra “piquenique”, como já não acontecia desde o livro de estreia. Isto põe-me os cabelos em pé. Não havia piqueniques no século VIII. Havia merendas e refeições ao ar livre. O que me chateia mais é que não era preciso usar esta palavra anacrónica. Outra palavra que me fez confusão foi “manequim” para descrever Becan. Não conheço o suficiente de inglês antigo (nem que língua falavam na Irlanda neste tempo) para saber se era uma palavra comum à época, mas às vezes o mais importante é a conotação que a palavra tem na compreensão do leitor moderno, e para um leitor moderno a palavra manequim soa estranha no contexto histórico. Mais uma vez, desnecessariamente. “Boneco”, ou mesmo “pequeno espantalho”, servia muito bem e até dava uma ideia mais clara do changeling. Gostaria muito que Marillier prestasse tanta atenção a estes pormenores como presta aos outros.
Por último, ia falar de Mac Dara, mas apercebi-me de que não há nada que possa acrescentar sem incorrer em spoilers. O que posso dizer é que quando tudo parecia perdido quem é que salvou a situação, quem foi? Ora, quem podia ser senão o meu adorado Ciarán (e já agora o corvo Fiacha também ajudou, mas não sei porquê nunca consegui ir à bola com ele). Ciarán conhece o novo príncipe do Otherworld e diz especificamente “ainda não é a minha altura de fazer guerra com Mac Dara”, o que dá a entender que a altura vai chegar. Se eu fosse a Mac Dara não deixava escrever a sequela, porque dava corda aos sapatos e fugia. Ciarán, filho da malvada feiticeira Oonagh, com quem aprendeu “as artes”, é um feiticeiro tão poderoso que causou uma tempestade para os Vikings não invadirem a terra onde ele morava. Ciarán tem com ele a sua filha Fainne, outra feiticeira de meter medo, e são ambos meio-Fair Folk.
Será que, mais uma vez, Marillier está a introduzir um segundo sentido no título, porque o herdeiro de Sevenwaters (ou do mundo oculto de Sevenwaters), por agora, é Mac Dara? Isto levanta hipóteses interessantes, mas não gosto de especular.
Às vezes penso que o único problema dos universos de Marillier é mesmo a Fantasia Romântica que os rege, porque, na minha opinião, muitos destes romances não faziam falta nenhuma à história.
Até admito mais. Disseram-me que os livros seguintes a “Filha da Floresta” não eram tão bons, mas quanto mais a série se embrenha no universo dos Fair Folk mais me interessa. Afinal, quanto mais Dark Fantasy melhor. A Dark Fantasy é a irmã mais “bem-comportada” do Terror. Um ou outro, é mesmo para mim.

*Por alguma razão atarantada, parece que passei as críticas aos livros anteriores da série a chamar “Chiaran” ao personagem Ciarán, ainda por cima o meu preferido. Acho que se calhar me “apossei” dele e até lhe mudei o nome. As minhas desculpas.