domingo, 4 de setembro de 2022

The Young Pope (2016)


A homilia de abertura de “The Young Pope” é tudo o que a geração actual espera de um Papa jovem (cerca de 50 anos, para um Papa, é bastante jovem). Mas há um problema. Esta homilia é um sonho (ou um pesadelo) de Lenny Bernardo, o primeiro Papa americano. Esta cena inicial diz-nos logo que nem tudo o que estamos a ver é necessariamente realidade. Na orla do surreal, a série utiliza sonhos, memórias, flashbacks e fantasias. Se algo nos parece um sonho, é porque geralmente o é. E depois há o mistério, o que apenas a fé de cada um pode decidir como real.
[Nota: “The Young Pope” é uma mini-série de 2016, com Jude Law, a não ser confundida com a continuação de 2019, com John Malkovich, “The New Pope”. A semelhança de títulos presta-se à confusão.]
A história começa com o mistério do Conclave. Somos guiados aos bastidores obscuros do Vaticano, onde aprendemos que a eleição do Papa obedece a políticas previamente estabelecidas para benefício dos cardeais. Durante um impasse, subitamente, Bernardo começa a receber votos sem que nada fosse combinado para tal. Até os cardeais mais cínicos concordam, contra tudo o que acreditam, que foi o Espírito Santo que elegeu o novo Papa. É a perplexidade! Nem o novo Papa acredita que o Espírito Santo o elegeu.
Mas Lenny não é um Papa como os outros. Ao contrário do esperado pelos cardeais que não quiseram eleger o mentor de Lenny por o acharem demasiado “conservador”, Lenny é um extremista ainda pior. “Não sabem que os jovens são mais extremistas?”, rebenta o cardeal Spencer, o que devia ter sido eleito.
Lenny é mais do que dogmático: é retrógrado, arrogante, pomposo, convencido. Lenny decide fechar a Igreja: acabou-se a tolerância, o ecumenismo, a evangelização. Nada de uniões de facto, nada de abortos, nada de divórcios. É a doutrina pura e dura. “Somos cimento, e o cimento não se move nem tem janelas”. Lenny recusa aparecer em público e, na primeira homilia, da famosa janela na Praça de São Pedro, revela-se de costas, à noite, em silhueta, e lança o sermão mais castigador que já se ouvia em séculos. Por fim, abandona a janela com as palavras “Vocês não me merecem”.
É o escândalo! E a partir daí cada vez pior. Lenny tem uma aversão a homossexuais que parece homofobia, mas na verdade está a seguir as coisas à letra. Ou é doutrina, ou não é doutrina. E Lenny é tudo menos hipócrita. (Embora esta aversão se deva mais a uma confusão entre homofobia e pedofilia na cabeça dele, como se verá mais tarde.) A Igreja volta a celebrar missas em latim, o sacerdote virado de costas para os fiéis; as igrejas estão vazias; os turistas escasseiam; a imprensa crucifica o Vaticano; o Vaticano perde receitas; o Papa entra em conflito aberto com o primeiro-ministro de Itália que ameaça aumentar os impostos do Vaticano. Lenny não se importa. Só importa Deus. Mais vale poucos fiéis do que fiéis em part-time, diz ele. É altura de a Igreja voltar a ser misteriosa, proibitiva, fechada. Os fiéis voltarão. Só que não voltam.
Lenny é profundo e perturbado. Abandonado por pais hippies num orfanato, é a ausência deles que compensa com a ausência/presença de Deus (quando Lenny acredita que Ele existe, porque na maior parte das vezes tem dúvidas); é no frio e na escuridão, no sacrifício e no sofrimento que os fiéis têm de encontrar Deus.
O Papa começa logo por recrutar o pobre pateta confessor do Vaticano para lhe contar todos os segredos, coisa que este, Don Tommaso, faz porque acredita na infalibilidade papal (e não é muito esperto, benza-o Deus). Desta forma, Lenny parece ter super-poderes.
Mas o que nós sabemos e que mais ninguém sabe é que Lenny realmente faz milagres: três, que nós saibamos. Três milagres são a prova de santidade para o Catolicismo. Alguns comentários aventaram que se calhar quem faz os milagres é o “outro lado”. Aliás, “diabólico” é como o assessor do primeiro-ministro se refere ao Papa, e o primeiro-ministro, após o encontro entre ambos, é forçado a concordar. Mas por mais interessante que seja esta teoria, a outra é ainda mais interessante: e se Lenny faz milagres porque Deus o aprova, porque Deus é tão fechado, dogmático e arrogante como Lenny? Esta é que é a questão inquietante.
Curiosamente, ou de propósito, talvez pelo formato mais quadrado da cruz que o Papa usa, ou pela maneira como está pendurada de um fio, a mim dá-me a ideia de uma cruz cristã invertida. O que ele faz também não ajuda a não dar esta ideia.

Parece ou não parece invertida?

Os créditos de abertura, geniais, são uma boa metáfora para a ascensão de Lenny: à medida que ele passa à frente de alguns quadros clássicos do imaginário religioso, a estrela de Belém, a do Presépio, cresce, eleva-se e torna-se um cometa que destrói tudo por onde passa.

Os adversários entram em campo
Como contraponto à seriedade do papa, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Voiello, serve muitas vezes como comic relief. Este é um homem que tem pensamentos impuros com a Vénus de Willendorf, vários livros publicados a falar dele (de que ele muito se orgulha), é um adepto do Nápoles que assiste aos jogos vestido com o uniforme da equipa e a rezar o terço, que se recusa a invocar o nome de Deus em vão (Maradona), e que tem por objectivo livrar-se de Lenny, nem que seja preciso recorrer à chantagem mais vil. A princípio, Voiello parece o vilão. O filho da empregada pergunta-lhe “Excelência, posso brincar com os meus carrinhos no tapete?” Ao que Voiello responde: “Excelência é a tua mãezinha; a mim chamas-me Eminência”: Parece bruto, mas quando o conhecemos melhor sabemos que Voiello passa as noites a tomar conta de um jovem com paralisia cerebral severa, preso a uma cadeira de rodas, que não fala nem entende, e que Voiello considera o único ser livre de pecado, porque nem o consegue imaginar. A amizade é recíproca.
O que Voiello faz é por amor à Igreja, que Lenny está a destruir pouco a pouco. A certa altura, até o braço direito de Lenny, a Irmã Maria, antiga directora do orfanato onde o Papa cresceu, decide aliar-se a Voiello (que se apaixona por ela, o que também é mais cómico do que parece, até porque ela não é nada o tipo Vénus de Willendorf, mas o amor não entende lógica) para forçar o Papa a resignar, pois, como ela diz, não consegue ver o homem que mais ama no mundo a destruir-se desta maneira e a destruir a instituição que ela ama mais do que a si própria: a Igreja Católica Romana.
Lenny está sozinho, obcecado pelos seus sonhos infantis de órfão que nunca cresceu e que só deseja conhecer os pais verdadeiros (a presença, constante, na ausência, exactamente a sua percepção de Deus). Eventualmente, até o idiota Tommaso deixa de lhe obedecer, com o simples: “O Santo Padre não acredita em Deus”. No mundo limitado de Tommaso é tudo branco ou preto, não há áreas cinzentas. A psique imensa de Lenny, a sua concepção de um Deus inescrutável, é demasiado complicada para Tommaso.
Mas eu acho que o ponto de viragem foi mesmo o canguru. A Austrália ofereceu um canguru ao Papa recém-eleito. Os funcionários do Vaticano queriam mandá-lo para um jardim zoológico mas Lenny opõe-se e deixa o canguru andar à solta nos jardins. (Nota: penso que já não se pode fazer isto, retirar um animal selvagem do seu habitat, mas ecoa os tempos medievais em que presentes exóticos, como leões e rinocerontes, eram oferecidos aos Papas. Muitas vezes esta série faz coisas de propósito que representam um Vaticano intemporal: o que é e o que foi, da mesma maneira que sobrepõe sonhos e memórias de Lenny quando são mais importantes para ele do que a própria realidade.) Alguém mata o canguru com um tiro no peito. Isto foi odioso. O bicho não fazia mal a ninguém, nem se aproximava das pessoas, limitava-se a espreitar por detrás de árvores e sebes. Nunca é explicado quem deu o tiro ao canguru, mas penso que é óbvio que foi um ataque ao Papa como retaliação. Ora, meus amigos, se eu fosse Papa era aqui que ficava fula e desatava a excomungar a torto e a direito. Querem matar o Papa, matem, mas não se vinguem no animalzinho indefeso.
Não posso dizer com certeza se o assassinato do canguru teve este impacto todo, mas foi a gota de água que fez transbordar o balde à medida que Lenny percebe que até os mais leais o começam a abandonar. Lenny portou-se como uma criança mimada a brincar aos reis. É altura de crescer e de se tornar homem, mesmo que isso implique fazer finalmente o luto dos pais vivos que o deixaram para trás.
Agora a parte mais misteriosa: Lenny pode ser de facto o escolhido de Deus. Pressionado para lidar com os casos de pedofilia nos Estados Unidos (personificados por um monsenhor fictício), o Papa manda o cardeal Gutierrez à América com a missão de provar a culpa do pedófilo. Gutierrez é alcoólico, medroso, nascido para ser antes um monge do que um cardeal, um tipo que tem ataques de pânico ao sair à rua, e um homossexual encoberto, ainda por cima, o que não agradaria ao novo Papa. E é a este sujeito improvável que Lenny manda lidar com o caso mais grave da Igreja. Por tal, foi criticado desalmadamente. Ninguém acredita em Gutierrez. Mas não é que Lenny tinha razão? Gutierrez sai do Vaticano um medricas e volta um durão. Isto, para mim, é um milagre, e foi Lenny quem o fez.

Para um público inesperado
Quando comecei a ver esta série pensei que iria aconselhá-la a pessoas que se interessam pelos bastidores do Vaticano, pelos meandros da Igreja Católica, pelos assuntos da fé em geral. Nunca pensei que acabaria a aconselhá-la a quem gostou de “Os Tudors”, “Os Bórgias” ou “A Guerra dos Tronos”. Não há aqui porno-tortura, é verdade (e graças a todos os Santos!), mas há intriga que chega para nos agarrar de episódio para episódio, e uma das cenas de sexo a três mais pornográficas que eu já alguma vez vi fora de um filme porno-gay. Não é com Lenny. Lenny existe numa esfera demasiado intelectual/espiritual para ceder às tentações da carne. Mas o mais irónico é que a cena nos mostra como às vezes podemos perceber tudo e mais alguma coisa do que se passa à nossa volta e ser tão cegos em relação aos mais próximos, aos que consideramos família e amigos.
Por último, uma nota para a ponta solta que a série deixou de fora. Tonino Pettola, um pastor seboso e devoto, acredita (fervorosamente, não a fingir nem por dinheiro) que vê a Virgem Maria numa das suas ovelhas e que através dela (da Nossa Senhora, não da ovelha) consegue fazer milagres. Pede insistentemente ao Vaticano que os milagres sejam reconhecidos, mas é ignorado. Nunca se sabe o que aconteceu exactamente a Tonino Pettola, mas digo apenas que ser “agraciado” com a presença deste Papa na própria casa é mais assustador do que receber uma visita da Máfia. Penso que Tonino Pettola daria um sub-plot hilariante, mas se calhar foi o próprio realizador que o abandonou porque a série é demasiado dramática para estas palhaçadas. Adorava que retomassem o sub-plot, mesmo assim, na sequela “The New Pope”, pelo menos para sabermos o que aconteceu a Tonino Pettola, coitado.
A última cena é uma obra de arte cinematográfica: a câmara parte de uma janela em Veneza e vai-se elevando, e depois vemos a cidade, e depois Itália, e depois a Europa, e depois a Terra vista do Espaço, como Deus é suposto vê-la. Sei que não é a primeira vez que é feito, mas é sempre empolgante.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 2 vezes

 

Sem comentários: