Dizia eu que só acreditaria em spin offs de “The Walking Dead” quando as visse, mal sabendo que já estavam a ser filmadas. E parece mesmo que vêm aí mais. A qualidade é que não é nada por aí além, tirando os próprios zombies, e é por causa dos excelentes zombies de Nicotero que ainda se conseguem ver estas séries. Esta é outra igual.
“World Beyond” é a versão adolescente de “The Walking Dead”. Enquanto que, na Virginia, Carl andava a comer comida de gato e a enfrentar famílias canibais, noutros lados do país as coisas parecem ter-se aguentado melhor depois do apocalipse zombie. É o caso da cidade de Omaha, de Portland, e do campus da Universidade do Nebraska, onde vamos encontrar os protagonistas de “World Beyond”. Isto causa alguma estranheza para quem viu a sociedade desaparecer e a anarquia reinar em “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”, mas aparentemente ainda há comunidades onde sobreviveu o mundo como o conhecemos. O que coloca desde logo a questão: como é que os sobreviventes ainda não sabem uns dos outros, 10 anos passados desde o apocalipse, uma vez que em “Fear the Walking Dead”, e mais ultimamente em “The Walking Dead” também, toda a gente usa o rádio para comunicar? Estas comunidades sobreviventes não saberiam já da existência umas das outras? Mas no universo “Walking Dead” é melhor não fazer muitas perguntas.
Hope e Iris são duas irmãs (adoptadas) que frequentam a universidade, junto com outros jovens como elas que eu não sei de onde apareceram nem onde vivem os seus pais. Omaha, Portland? Mas lá estou eu a fazer muitas perguntas. O importante é que estes jovens do campus passaram pelo apocalipse num ambiente seguro e resguardado onde sabem que fora dos seus muros existem zombies mas nunca tiveram de se confrontar com eles. O início da série é quase o nosso mundo, e estes jovens do campus estão a ser educados para trazer de volta a civilização.
O pai de Hope e Iris é um cientista que dá aulas nesta universidade pós-apocalíptica até ser recrutado pela sinistra Civic Republic Military. (Como chamar a isto em português, Milícias da República Cívica? República Cívica Miliciana? Parece-me mais a segunda opção. Mas uma República não contém já o conceito de “cívica”, e “militar” não é um dos ramos de poder em que assenta uma república?) A princípio nada nos diz que esta República Cívica seja sinistra, mas há sempre esse suspense de algo pesado no ar quando os helicópteros aparecem. A localização das bases da República Cívica é secreta (o que faz sentido num mundo dominado pela anarquia e o saque) e o tal cientista não está autorizado a comunicar para fora delas, mas antes de partir ele arranja uma maneira de estabelecer contacto com as filhas. Hope e Iris recebem uma mensagem do pai em que este as informa de que corre perigo, e decidem ir salvá-lo (sozinhas contra um exército, porque acham que conseguem). Com elas vão outros dois jovens da mesma idade, Elton e Silas. Nenhum deles alguma vez teve de sobreviver sozinho fora dos muros e não sabem sequer matar um zombie.
Dois dos seguranças do campus, Felix e Huck, vão à procura dos miúdos e conseguem encontrá-los, mas, cada um pelas suas razões, estes recusam regressar. Foi a sorte deles, porque, por algum motivo que ainda não faz sentido, a República Cívica destruiu o campus universitário.
Esta série é sobre os primeiros adolescentes a crescer num apocalipse zombie, mas a República Cívica acaba por ser o enredo (neste caso, sub-enredo) mais interessante. É que foram estes misteriosos helicópteros que levaram Rick Grimes e Anne/Jadis (personagem também conhecida por “senhora da lixeira”, que afinal era uma agente infiltrada). É por isso principalmente, e por outros encontros com a República Cívica em “Fear the Walking Dead”, que os espectadores do universo “Walking Dead” sabem que esta gente não é boa e recorre a métodos chocantes. Por muito que estes digam que o objectivo é o “futuro”, o “bem maior”, reestabelecer a civilização, ficamos perplexos quando destroem um campus universitário onde estava a ser preparada a próxima geração com esse mesmo objectivo em mente. Eu, por exemplo, a princípio nem percebi o que tinha acontecido, de tão contraditório que isto é. E na verdade não se viu acontecer, mas foi dado a entender e toda a gente percebeu assim. Afinal, quem é esta República Cívica e qual é o seu verdadeiro desígnio? Mas a série só nos deu migalhas porque não vai ser aqui que se vai descobrir.
Hope e Iris, e os companheiros Elton e Silas, partem numa daquelas viagens de auto-descoberta e de descoberta dos outros típicas da adolescência. Não digo isto como crítica mas como constatação, é um drama adolescente com temáticas adolescentes, em que os quatro miúdos têm de aprender coisas como conduzir ou matar o primeiro zombie. (Experiências que Carl, na série-mãe, começou a ter na infância.) Há muita conversa e o ritmo pode ser considerado demasiado lento para a grande parte dos espectadores. Cada episódio parece uma aventura separada e os miúdos nunca se encontram em grande perigo como acontece na série original. Só nos últimos dois episódios é que acontece algo minimamente empolgante.
“World Beyond” não é série que se compare às melhores temporadas de “The Walking Dead”, mas pelo menos a história não é o caos sem nexo em que se tornou “Fear the Walking Dead” (já não percebo o que se passa por lá). Vê-se bem, sem grandes expectativas, e só estão anunciadas duas temporadas, o que nos promete um enredo com princípio, meio e fim. Quem esperar mais do que isto vai ficar desiludido.
domingo, 23 de maio de 2021
The Walking Dead: World Beyond
domingo, 25 de abril de 2021
Carriers / Pandemia (2009)
Este vai ser filosófico.
Sempre me disseram, na escola, que o homem é um animal social, um animal gregário. Gregário, só se for como o lobo.
Começou tudo no tempo das cavernas, quando éramos caçadores/recolectores. O homem pensou que sozinho caçava um coelho ou um veado, mas em equipa podia caçar um mamute e a tribo toda tinha carne para muito tempo. Lógica de alcateia. Colaborar para encher a barriga.
Com a chegada da agricultura, o homem tornou-se sedentário. Depois de uma vida inteira a trabalhar o solo, a construir uma casa, a crescer um vinhedo, o homem chegava à velhice e pensava: quando eu morrer tudo isto se perde, o que me deu tanto trabalho a conseguir, o que passei anos de enxada a labutar, todo o meu trabalho, todo o meu valor. Para que não se perdesse, o homem arranjou uma família. Mulheres e muitos filhos que lhe mantivessem vivo o nome e dessem continuidade ao seu legado. Mais do que isso, o homem abastado doaria grão para os sacerdotes do templo, metal para fazer um novo ídolo, para que alguém lhe escrevesse o nome num pergaminho como “Fulano, muito rico em grão e metal, doou isto”. Não podendo ser imortal, o homem quis que ao menos a sua labuta lhe imortalizasse o nome. E que o imortalizasse perante quem? Perante a sociedade. Quem mais lhe recordaria os feitos e o valor? A sociedade serve o homem porque lhe espelha a vaidade. O que é o homem abastado sem uma sociedade que o reconheça? Não é ninguém. É o lobo solitário que morre bem alimentado, mas sozinho.
Chegamos aos nossos tempos. Agora as vaidades são outras, as necessidades são outras. Mas continuamos os mesmos lobos de sempre. Vivemos em sociedade para encher a barriga e alimentar a vaidade. O carro, o emprego, o curso, a viagem, os amigos que tem de se ter, a família que fica bem nas redes sociais. Ninguém quer morrer sozinho e ignorado, por muito bem alimentado.
E de repente chega um vírus mortal. No outro homem, onde antes se via um membro de equipa e um espelho da própria vaidade, vê-se agora a morte. A sociedade já não serve o homem, pelo contrário, torna-se uma ameaça à sua sobrevivência. O homem foge do homem. Foge da alcateia para as montanhas e regressa ao seu lugar de lobo solitário. Quando a sociedade se desagrega e tudo escasseia, o homem ataca-se entre si pelos bens que ainda restam: é o homem lobo do homem.
Vêm estas considerações a propósito de um filmezinho despretensioso de 2009, “Carriers” / ”Pandemia", que algum canal de televisão foi repescar na certeza de que os espectadores iam logo querer vê-lo nos tempos que correm. Além deste ainda tenho outro para ver, chamado “Contágio”, sem contar com o outro do Dustin Hoffman, que também tem passado muito frequentemente.
Em “Pandemia”, um vírus mesmo muito mortal, com efeitos muito rápidos semelhantes ao ébola ou à lepra, mata todos os hospedeiros e transmite-se por inalação de partículas. Dois irmãos, a namorada de um deles e a amiga do outro, fogem dos centros urbanos para se refugiarem numa estância balnear isolada onde os irmãos passavam férias quando eram miúdos. Por esta altura a sociedade já se desagregou. A estrada está deserta. Já não há gasolina para abastecer. A maioria da população já morreu. Não se vê ninguém. É quase o pós-apocalipse, mas ainda não chegaram lá. O intuito é sobreviver o tempo suficiente até que a doença desapareça, isto é, que todos os infectados morram e o vírus deixe de se transmitir por falta de hospedeiros. Para sobreviverem, os quatro concordam num conjunto de regras implacáveis: quem está infectado é como se já estivesse morto, deixa-se para trás.
O ambiente despovoado do filme lembrou-me muito de “The Walking Dead”, mas sem zombies, só com mortos, e trouxe-me esta outra reflexão: até no apocalipse zombie a sociedade continua a servir o homem. Os zombies são uma ameaça. A união em grupos coesos permite combater essa ameaça e a de outros grupos hostis. Em “Pandemia”, nem para isso a sociedade serve. É o completo regresso à sobrevivência do mais apto. Os quatro jovens são aptos, saudáveis, e querem sobreviver a todo o custo. E do ano de 2021, especialista que me tornei sem querer, até digo que eles estavam a fazer tudo bem: o uso correcto de máscaras, luvas e desinfectante, o que me surpreendeu porque geralmente estes filmes acabam sempre por desleixar os pormenores.
Na estrada, encontram um pai com uma criança infectada, e deixam-nos para trás. A namorada fica infectada, e deixam-na para trás. Um dos irmãos é mais impiedoso do que o outro, uma espécie de Shane de “The Walking Dead” que já percebeu que para sobreviver pode ser preciso matar. E mata. Logo da primeira vez que precisa de gasolina, mata duas inocentes num carro que só querem o mesmo que ele: fugir e sobreviver. O outro irmão parece condenar, mas vai tolerando porque também quer sobreviver. Todavia, nota-se na personagem uma crescente desilusão, um crescente nojo e antipatia. Já nem os laços de sangue os unem. Quando o irmão impiedoso também fica infectado e se recusa a dar-lhes as chaves do carro para continuarem sem ele, o outro irmão dá-lhe um tiro. Só fez, afinal, como lhe disse o irmão mais velho: “Fui eu que te ensinei tudo”.
No fim, este irmão e a amiga conseguem chegar à estância da praia, completamente abandonada. Já não se falam, já nem conseguem sequer olhar um para o outro depois das atrocidades que cometeram para chegar ali. Vai cada um para seu lado. Um homem e uma mulher jovens, dos poucos sobreviventes no mundo, e nem sequer se suportam de modo a fazer sexo e continuar a espécie. Mas por esta altura a gente questiona-se: e esta espécie de animais sem escrúpulos merece continuar?
O que distingue o homem do animal é a consciência moral. Talvez o outro irmão, o que não tinha escrúpulos nem remorsos, conseguisse continuar a viver com a namorada como se nada tivesse acontecido, como animais, como lobos. Se tivessem ambos sobrevivido. Mas sobreviveram os que tinham consciência, os que se repugnam do que fizeram. E agora nota-se-lhes nos rostos que se perguntam também: valeu a pena? Somos os mais aptos, somos os sobreviventes, mas sobrevivemos para quê se nem nos conseguimos olhar no espelho que é o rosto um do outro?
Todas estas reflexões não vêm deste filme em particular, “Pandemia”. Não é um filme assim tão bom, embora seja melhor do que as críticas o pintam. Estas reflexões vêm de muitos outros filmes como este, cenários apocalípticos que nos convidam a questionar o que é que nos distingue de uma alcateia de lobos. O que é verdadeiramente importante na existência humana. A vida, e não apenas a sobrevivência. Lembrou-me também as sábias palavras bíblicas: de que importa ganhar o mundo e perder a alma? Estes dois personagens podem ser as últimas pessoas vivas no planeta, mas perderam a alma pelo caminho. Tanto queriam sobreviver a todo o custo que agora a vida já não lhes interessa. Irónico, não é?
14 em 20 (o filme não é assim tão bom)
domingo, 11 de outubro de 2020
Dawn of the Dead / O Renascer dos Mortos (2004)
Não vi “Dawn of the Dead” mais cedo porque sempre pensei, pelo título, que este era o filme de 1978. Afinal é um remake, desta vez dirigido por Zack Snyder. Até parece que George A. Romero não teve nada a ver com este filme, apesar de ser mencionado nos créditos como escritor do original. O filme de 1978 é um clássico, mas na minha opinião tão mauzinho, comparado com o fantástico “Night of the Living Dead” (1968), que nunca me passou pela cabeça que quisessem fazer um remake.
Não sei o que teria pensado deste filme de 2004 se o tivesse visto na altura. É oficial, “The Walking Dead” estragou-me todos os filmes de zombies que já vi depois da série. A qualidade de “The Walking Dead” deteriorou-se, é verdade, e a série actualmente tem dificuldade em viver à altura das primeiras temporadas, mas essas primeiras temporadas foram tão marcantes, e deixaram uma mitologia tão bem estabelecida, que tudo o que se fez antes e depois me faz encolher os ombros.
Com a excepção do primeiro dos filmes, “Night of the Living Dead”, de 1968, a preto e branco, que ainda prefiro não ver sozinha porque aquilo é mesmo de meter medo.
Este “Dawn of the Dead” de 2004 é mais um para ver e esquecer. Primeiro que tudo, este foi um daqueles em que alguém achou que os zombies metiam mais medo se fossem mais rápidos. Isto deu em “zombies de corrida”, como já disse aqui mal suficiente em “World War Z”. Neste filme os zombies também correm e saltam (de esconderijos no tecto, ainda por cima) atrás dos sobreviventes. A certa altura parecia que estavam a ser perseguidos por um bando de gente enfurecida em vez de zombies. Ora, por alguma razão o filme de 1968 foi tão eficaz. Porque os zombies são lentos, aparentemente pouco perigosos e acéfalos, mas quando são muitos é que a porca torce o rabo. “The Walking Dead” percebeu isto desde logo, que o clássico é que era bom, e foi assim que se tornou um clássico também.
“The Walking Dead” foi buscar outra coisa à mitologia de “Night of the Living Dead”, e explorou-a. Todos têm o vírus, todos se transformam em zombies depois de mortos. Isto agora já me parece tão óbvio que fiquei desapontada quando neste filme de 2004 só os mordidos por zombies se transformam em zombies. Assim é muito menos perigoso. Em “The Walking Dead” não há mortos “seguros”. Todos têm de levar uma facada no cérebro, até amigos e família, para aumentar o drama.
Mas “The Walking Dead” foi buscar coisas a este filme também, em que uma meia dúzia de sobreviventes se refugiam num supermercado à espera que os venham salvar. Em frente ao supermercado há um prédio onde um jovem está a observar tudo do telhado, com binóculos, e a dar conselhos aos outros sobreviventes. Este jovem, não há volta a dar, pareceu-me o Glenn que salva a vida a Rick Grimes em Atlanta.
Por outro lado, “The Walking Dead” não esconde as suas influências. Em “Dawn of the Dead” os sobreviventes escrevem nas paredes: HELP ALIVE INSIDE. O que se torna, no hospital onde Rick Grimes acorda do coma, no enigmático:
DON’T DEAD
OPEN INSIDE
Já a deixar antever que esta não ia ser apenas mais uma série de zombies em que não era preciso pensar muito, como começava a ser expectável dos filmes do género pós-“Night of the Living Dead”.
Diria mesmo que o melhor que o remake “Dawn of the Dead” conseguiu foi dar ideias a “The Walking Dead”. De resto é um filme esquecível. Um filme até a querer mais ser um slasher do que um filme de zombies, como mostra a parte da serra eléctrica, completamente dispensável. Personagens estereotipados, alguns até pouco credíveis não obstante o estereótipo, os bons e os maus e os heróis, um enredo previsível. No fim, como num bom slasher, morrem todos à mesma, apesar dos grandes esforços para escapar, ou pelo menos é isso que se dá a entender. Mas a verdade é que não há aqui um único personagem por quem a gente se interesse, e aquele que ainda nos interessa mais já tem o destino traçado ainda antes da fuga final. Isto não é bom drama, nem o pretendia ser. Mas o público já estava preparado para mais do que isto, e “The Walking Dead” teve o mérito de ir explorar os personagens em vez dos zombies, a sociedade a desmantelar-se em poucos dias em vez das serras eléctricas. O público estava preparado para “The Walking Dead”.
Ver “Dawn of the Dead” agora parece-me um exercício injusto, um filme que mirrou à sombra de uma série que o suplantou. Recomendo apenas aos grandes fãs do género. A quem quiser ver um filme antigo de zombies que mete mesmo medo, recomendo “Night of the Living Dead” (1968).
14 em 20 (mais alguns pontos porque deu tantas ideias a “The Walking Dead”)
domingo, 4 de outubro de 2020
The Walking Dead [décima temporada]
[contém spoilers; não revela o final;
nem podia revelar porque, no momento em que escrevo, o último episódio ainda nem foi filmado]
E assim aconteceu que o apocalipse zombie durou tanto tempo que foi atropelado pelo apocalipse Covid. Mas não percamos a esperança. Já aí está o Covid. Talvez ainda venham os zombies.
Comecei a ver esta temporada sem saber que não tinham conseguido filmar o último episódio devido à pandemia. Curiosamente, quando acabou o penúltimo episódio também não me preocupei muito que não existisse o próximo. A qualidade da série melhorou, sim senhor, a olhos vistos, depois da saída de Scott M. Gimple (que foi estragar “Fear the Walking Dead”). Mas já tenho muita dificuldade em acompanhar o que se passa e, principalmente, em importar-me com as caras novas que só conheço há meia dúzia de episódios. Para fazer esta crítica estou a usar a cábula dos resumos dos episódios do IMDB, porque assim de repente nem me lembro de nada. Quando uma série atinge este ponto (e uma série que já foi inesquecível) é doloroso falar dela.
Pois a Michonne lá se foi embora também, o que não é um spoiler para quem acompanha as notícias em torno da série. Michonne não morreu. Simplesmente abandonou os filhos (Judith e o pequeno Rick Jr.) em Alexandria e foi atrás de uma ténue pista de que Rick possa estar vivo. Alguma vez a Michonne que eu conheço agiria assim, abandonar dois filhos no meio do apocalipse zombie? Mas nem pensar. A Michonne que eu conheço ficou enlouquecida quando o filho dela morreu. Não ia abandonar os filhos por uma pista obscura.
As personagens vão tendo flutuações de personalidade conforme o enredo (e os contratos) obrigam, e a certa altura até as personagens que já conhecemos há muito tempo começam a agir “out of character”. Isto cria um fosso, uma dissonância entre o espectador e as personagens, como se subitamente elas fossem possuídas por extraterrestres (mas menos interessante), em que já nem as reconhecemos. Este novo “Walking Dead” é uma série diferente, e até compreendo a necessidade de evolução, mas transformar as personagens numa coisa que elas não são arranca-nos a última âncora que nos agarrava à história. Hoje em dia vejo “The Walking Dead” e já não sei muito bem o que estou a ver.
Muitos problemas foram resolvidos com a direcção de Angela Kang, mas alguns dos mais irritantes persistem. O mais irritante de todos, julgo que é opinião unânime, é a mania de pôr os personagens a fazer coisas estúpidas para avançar o enredo.
Sim, as pessoas cometem erros e os personagens ficcionais não são diferentes, mas os acessos de estupidez momentânea dos personagens de “The Walking Dead” já são lendários. Desta vez calhou a sorte a Carol (uma das personagens mais respeitadas exactamente por estar sempre um passo à frente dos outros) de se comportar como uma imbecil. Isto porque perdeu o outro miúdo, Henry, a quem deviam dar um prémio qualquer por ter conseguido ser o personagem mais estúpido de todo o cast de “The Walking Dead”, e não apenas momentaneamente (o miúdo era constantemente imbecil). Mas Carol é uma personagem que já perdeu muito, que já perdeu tudo, e aguentou-se. Que não ia perder a cabeça agora, a esta altura do campeonato. Foi doloroso de assistir.
E depois temos Negan, uma batota completa. O Negan que nós conhecemos era um sociopata sem remorsos. Este Negan está cada vez mais bonzinho. Querem à força que a gente esqueça como ele esmagou à cacetada os crânios de Abraham e de Glenn com a Lucille. Aliás, já nem se fala da Lucille, para as pessoas não se lembrarem. E como se não bastassem os homicídios e a megalomania, ainda houve aquela vez em que ele queimou vivo um médico só porque desconfiou que este se andava a fazer a uma das suas “esposas”, “esposas” estas todas obrigadas a serem esposas de Negan, mercê de ameaças às famílias delas. E é este o personagem que querem reabilitar. Negan não tem redenção possível. A única vez que concordei com Carol nesta temporada foi quando ela disse: “O Negan também podia desaparecer”. Ah, se podia. Esta é que é a Carol que eu gosto. Admito que o Negan tenha uma qualidade redentora. Sempre foi bom com miúdos e adolescentes, o que se manifestou logo quando ele interagiu com Carl. Isto faz parte da personagem como ela nos foi apresentada. O resto é fabricação para ver se conseguimos começar a suportá-lo. (Ó Rick, para onde te levou a senhora da lixeira, que não vens enfiar um balázio na cabeça deste gajo?)
Pelo menos não sou a única que não esquece. Aaron e alguns outros habitantes de Alexandria também não esquecem. Negan só está vivo porque eles estão a honrar a “última vontade” de Rick, a quem julgam morto, de que Negan deve ser preso e não executado sumariamente, porque eles são “melhores do que isso”.
Estranhamente, Negan e Alpha foram protagonistas da cena de sexo mais explícita que já se viu na série toda. Uma cena pervertida como só podia acontecer entre Alpha e Negan, mas aconteceu. Até os vimos aparentemente nus, ao longe. “The Walking Dead” nunca quis perder tempo com isso, mas nesta última temporada temos algumas cenas de sexo, incluindo entre duas lésbicas. Definitivamente, a série está mesmo a mudar com uma mulher ao leme.
Por falar em sexo. Outra batota, o padre Gabriel. Onde é que este personagem é o mesmo que a gente conheceu na temporada cinco? Andar com a Rosita deve ter-lhe feito muito bem à auto-estima. O homem agora parece um autêntico Rick Grimes. Até manda e fala grosso.
E por falar em Rosita, que tem uma filha com Siddiq. O que aconteceu a Siddiq foi uma manobra bem orquestrada como eu já não via há muito tempo em “The Walking Dead”. Não estava mesmo à espera daquilo, se bem que o espião dos Whisperers me tenha parecido uma pessoa implausível de sofrer uma lavagem cerebral por parte da Alpha. Mas os Whisperers, percebemos nesta temporada, já não eram simplesmente um grupo de sobreviventes, eram acima de tudo um culto. E nós sabemos o que os cultos fazem à cabeça das pessoas, e aquela Alpha era sinistramente carismática, portanto até vou admitir que deu a volta à cabeça ao médico Dante.
A nível de choques, penso que o Siddiq foi mesmo o choque da temporada. Conseguiram que a gente gostasse dele (não havia muito para não gostar, tirando o facto de que foi praticamente responsável pela morte de Carl por causa de um disparate de matar walkers para respeitar uma crença da mãe de Siddiq de que matar zombies era libertar-lhes as almas). Conseguiram que tivesse impacto. Isto acontece cada vez menos em “The Walking Dead”.
Do mal o menos, o nosso Daryl continua o mesmo de sempre. O disparate de adulterar a personalidade das personagens consoante convém ao enredo ainda não o atingiu. (Mas temo que venha a atingir.) Algumas das melhores cenas são entre Daryl e Carol, os veteranos da série, a conversar e a fumar um cigarro e a mandar bocas um ao outro como nos velhos tempos. O que só nos lembra de como esta série era boa quando o núcleo de protagonistas era sólido e coeso, mas já não é nada disso.
Houve alturas em que tive de fazer um esforço para me lembrar de quem era aquela cara que ali aparecia, de tal maneira já nem sei quem é que está na série e quem é que já morreu ou se foi embora. Por exemplo, não me lembrava nada que a Enid e a Tara tinham morrido na última “leva”, na temporada anterior, de tão insignificantes se tornaram os seus papéis. (Ou se calhar foram as actrizes que pediram para sair.)
O penúltimo episódio podia chamar-se “O gato que traiu Alexandria”. Sim, houve um gato, e ficou muito mal explicado como é que o Beta percebeu que o gato significava onde estavam os sobreviventes. Boo! Má escrita! Devíamos ter visto que havia um espião exclusivamente designado para espiar o gato, e aquele gato, pela sua importância, devia ter sido um personagem mais desenvolvido. Por exemplo, qual é a relação do gato com a Carol, com o Daryl, com o cão do Daryl, Dog? Como é que o Beta sabe que o gato é amigo de Lydia? Ou será que não é? A Lydia falou do gato de forma tão ambígua que eu fiquei na dúvida. E o Negan, a quem a Lydia falou do gato, o que é que ele sente pelo felino? Despertar-lhe-á pesadelos com Shiva, a tigra, que em tempos lhe comeu bastantes Salvadores? Tudo mal explicado. Aquele gato nunca se tornou um personagem tridimensional. Mal o deixaram dizer um mio. Nem sabemos se o vamos ver outra vez. Oportunidade desperdiçada de mergulhar na mente do cão do Daryl e de aprofundar o conflito com o gato, cujo nome deve ser Cat.
E assim acabamos mais uma temporada de “The Walking Dead”, que não chegou a terminar, na paródia. Já não dá para ver de outra maneira. É aceitar ou procurar outra série. Mas os zombies de Nicotero continuam tão bons, é difícil parar de ver.
§
Já depois de escrever este artigo li a notícia de que ”The Walking Dead” tem finalmente uma data marcada para acabar, lá para 2022 se a pandemia não atrapalhar. Talvez isto seja bom. Talvez a série desenvolva, agora que há um fim à vista.
Também li por alto que estão planeadas mais spin offs, mas já houve tantos anúncios neste sentido, sem que se concretizassem, que nessas só acreditarei quando as vir.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
The Passage
Admito que é cada vez mais difícil escrever sobre vampiros de maneira original. É que já se fez tudo, tudinho, de uma forma ou de outra. “The Passage”, valor lhe seja reconhecido, consegue ser original durante todos os episódios… excepto o último.
Cientistas à procura da cura para a gripe das aves ouvem falar de um homem de 200 anos nas florestas da Bolívia a quem os nativos chamam “jararaca” (vampiro). Os cientistas não acreditam em nada de sobrenatural e vão visitar este homem na tentativa de compreender a sua longevidade. Só que este homem é um vampiro, e como os cientistas não dão ouvidos aos avisos, o vampiro acaba mesmo por morder um deles. Como toda a gente sabe, quem é mordido por um vampiro torna-se um vampiro.
Os cientistas não desistem. Recusam-se a acreditar em vampiros e começam a fazer experiências em condenados à morte com o ADN do cientista infectado, sempre em busca de criar o elixir da imortalidade sem os efeitos secundários do vampirismo. Manipulando geneticamente o ADN dos sujeitos, a quem eles chamam “virais” porque se recusam chamá-los vampiros mesmo quando alguns elementos da experiência já lhes chamam o que eles são, os cientistas descobrem que quanto mais jovem for o “sujeito” menos “efeitos secundários” manifesta. Estes efeitos secundários são mais que óbvios 100% vampiro: aspecto de nosferatu, intolerância ao sol, força sobre-humana, poderes psíquicos, e, claro está, os “virais” alimentam-se de sangue e matam sem pensar duas vezes. Para os controlar, os cientistas têm-nos detidos sob grandes medidas de segurança, inclusive a opção de os irradiar com luz do dia, e até têm uma carga de explosivos suficiente para detonar todo o laboratório se for preciso. Mas as experiências com pessoas cada vez mais novas estão a funcionar, e os cientistas têm a “grande ideia” de testar com uma criança. Entra em cena a nossa protagonista, Amy, a miúda órfã de uma mãe toxicodependente, a quem ninguém sentiria a falta se “desaparecesse”. A miúda é esperta e tenta fugir, e consegue mesmo que o agente que a rapta tome o seu lado e a ajude, mas nem mesmo assim têm hipótese. Todo o governo apoia esta experiência clandestina e a miúda é caçada como se fosse uma foragida e é mesmo levada para o laboratório onde é inoculada com o ADN do vampirismo.
Aqui começa a minha grande crítica à série (baseada no livro homónimo de Justin Cronin, mas não conheço o livro e não sei se a série o segue à letra). Os cientistas justificam o que estão a fazer com uma “ameaçadora” pandemia de gripe das aves, mas a série nunca nos mostra nada que nos convença da necessidade do sacrifício de uma miudinha. Pelo contrário, fora do laboratório está tudo normal, ninguém está doente, ninguém está a morrer. O que torna os cientistas nuns monstros maiores do que os vampiros por muito que digam que é para o Bem Maior, blá blá blá.
Estranhamente, apesar de a miúda acabar mesmo por se transformar em vampira, isto nunca tem a gravidade que devia ter. Os cientistas sempre tinham razão, o ADN funciona de forma mais “benéfica” numa criança e Amy é uma vampira diferente, mas nunca percebemos ao certo que tipo de vampira ela é e quais são os seus poderes e vulnerabilidades. Ou até mesmo se precisa de sangue para sobreviver/manter-se forte. E digo que é estranho porque a miúda é a personagem principal, contudo a série chega ao fim e não sabemos exactamente em que é que ela se tornou.
Gostei da parte da série que se passa no laboratório. Gostei principalmente da maneira que os vampiros usam para escapar, não recorrendo à força bruta, como costuma acontecer nestas coisas, mas usando em seu benefício a relutância dos seus captores em acreditar em vampiros. Foi muito original e inteligente. Até a mim me apanhou de surpresa. Sem dúvida o melhor momento da história.
E foi assim, a série prometia, até chegarmos ao último episódio. Nunca me passou pela cabeça que isto se transformasse em mais uma versão de The Walking Dead, com flechas e tudo. Vou fingir que a série acabou um episódio antes, quando ainda era interessante e original. Em resumo, uma série “que se vê bem” sem esperar grande coisa.
segunda-feira, 1 de julho de 2019
Colony (2016-2018)
[crítica às três temporadas; contém spoilers]
É um erro pensar nesta série como mais uma invasão extraterrestre. “Colony” é a história de uma família que tenta sobreviver a uma colonização repressora e brutal onde a vida humana perdeu o valor. Nada do que acontece aqui não aconteceu já em várias ditaduras do século XX. Desde a Ocupação nazi e à Resistência francesa (onde a série se inspira predominantemente), às outras ditaduras fascistas e comunistas, das europeias às soviéticas, às asiáticas, às latino-americanas. A invasão extraterrestre é uma desculpa para revisitar episódios da História tão monstruosos que é mais fácil imaginá-los cometidos por criaturas de outro planeta.
Will Bowman (Josh Holloway, o Sawyer de “Lost”) era um agente do FBI antes de chegar a Ocupação, mas agora o mundo está muito diferente. Quando a série começa, a invasão já aconteceu. Em flashback, vemos como os alienígenas dividem a área de Los Angeles em várias colónias através de umas titânicas muralhas de metal que caem directamente do céu nocturno e destroem tudo onde aterram (mais uma boca política a um certo muro…). Ao mesmo tempo, todos as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Não que tal rebelião fosse muito longe, porque os meios militares dos invasores são de tal modo avançados que neutralizam qualquer tecnologia terrestre. Os seres humanos não têm capacidade para se defender e têm de se submeter por uma questão de sobrevivência. Will consegue escapar a esta onda de assassinatos assumindo o nome de um vizinho que estava fora de Los Angeles e começando a trabalhar como mecânico. Kate Bowman, esposa de Will, (Sarah Wayne Callies, a Lori de “The Walking dead” e a Sara Tancredi de “Prison Break”) tem um bar que é fechado pela Ocupação. Existe um recolher obrigatório e qualquer incauto apanhado na rua depois de soar a sirene tanto pode ser morto imediatamente pelos drones extraterrestres que vigiam as ruas como, pior, ser preso e enviado para um lugar sinistro chamado a Fábrica, de onde nunca ninguém volta.
O drama dos Bowman é que um dos seus três filhos (o miúdo do meio, Charlie) ficou preso noutra colónia e não o conseguem ir buscar. As deslocações são proibidas. A colónia é uma grande prisão. Automóveis, telemóveis, todos os meios de comunicação avançados, foram neutralizados ou proibidos pela Ocupação. Os residentes recorrem a chamadas em cabines telefónicas anónimas onde, como nos tempos das ditaduras do século XX, transmitem mensagens em código. Tudo está a ser vigiado pelas câmaras da Ocupação, todas as comunicações são ouvidas. Noutras das alusões à Segunda Guerra Mundial, é através de frequências secretas de rádio que a Resistência transmite informação codificada.
A comida é racionada. Algumas pessoas, como os diabéticos, que é o caso do sobrinho de Kate, não têm acesso a medicamentos porque os Anfitriões (nome dado aos extraterrestres pelos representantes humanos da Ocupação) não consideram as suas vidas relevantes. Para os Anfitriões, os seres humanos são apenas um recurso: mão-de-obra em campos de trabalho, de onde se mantém toda a logística da Ocupação. A alusão aos campos de concentração nazis é arrepiante quando vemos um grupo de pessoas chegar à tal Fábrica, onde homens e mulheres (todos juntos) são mandados despir completamente e submeter-se a um “banho” químico de descontaminação. Nunca nos é explicado, mas pressupõe-se que quaisquer bactérias que transportem poderão ser nocivas à tecnologia extraterrestre. Esta tecnologia, descobrimos mais tarde, também é radioactiva, o que faz adoecer os trabalhadores que entram em contacto com ela. Vemos um deles começar a tossir sangue e a ser prontamente levado para parte incerta. Já não sendo produtivo, adivinha-se-lhe o que lhe acontece. Outros trabalhadores (vítimas) o substituirão.
Mas isto é na Fábrica, um verdadeiro campo de extermínio de todos os que lá vão parar. Cá em baixo na Terra (a Fábrica não fica na Terra) os ocupados tentam por tudo sobreviver e evitar ir lá parar.
Nem eram precisas listagens
Porventura o mais chocante desta série (chocante para quem não conhece os perversos mecanismos dos sistemas ditatoriais como eles sempre se desenvolveram) é a quantidade de pessoas que colaboram voluntariamente com a Ocupação, que fazem do lema do inimigo o seu lema, que por instinto de sobrevivência ou sadismo nada se importam com a vida dos seus semelhantes desde que mantenham o seu poder dentro da Autoridade Global, a face humana da Ocupação. A série até aproveita para fazer um comentário à actualidade, explicando que estes colaboradores de topo foram seleccionados um a um antes de chegar a Ocupação através dos seus dados online. Alguém diz mesmo que as nossas vidas estavam todas na internet para eles escolherem. Existe verdade nisto. Actualmente a nossa vida está toda online. E nem me refiro apenas às redes sociais, onde só partilhamos o que queremos. Refiro-me mesmo aos serviços do Estado, especialmente dados médicos e financeiros, onde qualquer hacker pode descobrir que lojas frequentamos, que medicamentos tomamos, que produtos consumimos. Tanta informação nas mãos erradas é uma receita para nos desenharem o perfil: pobre, abastado, casado, solteiro, desportista, sedentário, feliz, infeliz. Nas mãos de um regime ditatorial, o perfil seria diferente: saudável (mão-de-obra capaz), doente (dispensável, a eliminar), pai ou mãe (mais susceptível a intimidação), e por aí fora. Na série, com a ajuda dos colaboradores humanos, os Anfitriões tiveram acesso a listas de possíveis colaboracionistas e de elementos indesejáveis a abater. Assustador, não é?
Mas na vida real nunca foram precisas estas listagens. Basta que qualquer grande facínora chegue ao poder que imediatamente se encontra rodeado de batalhões de pequenos facínoras à cata do seu quinhão de poder que numa sociedade democrática e regida pela ética dificilmente conseguiriam alcançar. (E mesmo assim conseguem, que os pequenos facínoras também sabem jogar pelas regras.) O que “Colony” mostra aqui é a realidade nua e crua que o vizinho do lado ou o amigo de longa data pode ser o primeiro a mandar-nos para a Fábrica, especialmente se for uma questão de “nós ou ele”.
Colaboras ou resistes?
“Colony” começa quando Will consegue esconder-se, clandestino, num camião de carga destinado à colónia onde se encontra o seu filho Charlie, na esperança de o encontrar. Para seu azar, a Resistência faz explodir o camião quando este cruzava a passagem entre as duas colónias, debaixo da muralha alienígena, para potenciar o número de vítimas entre os colaboradores. Will é preso, o seu verdadeiro nome é revelado, e é-lhe feita uma proposta que ele não pode recusar: trabalhar para a Autoridade Transicional e ajudar a capturar os terroristas responsáveis pela explosão (na perspectiva da Ocupação, a Resistência é uma organização terrorista) ou… ganhar um “bilhete de ida” para a Fábrica, ele e toda a família. Por outro lado, se colaborar, prometem-lhe a possibilidade de lhe ser devolvido o seu filho.
O poster da série pergunta: Colaboras ou resistes? É fácil responder quando não se tem família, pais e filhos sujeitos a represálias, e até, neste caso de uma ditadura brutal, a correrem risco de vida. De repente, a resposta não é assim tão simples. Will aceita, por falta de opção.
Kate começa a envolver-se em actividades clandestinas para arranjar insulina para o sobrinho no mercado negro. Ao saber que o marido está a colaborar com a Ocupação, Kate decide, por sua vez, entrar em contacto com Eric Broussard, ex-militar e implacável membro da Resistência, para o ajudar na luta contra os ocupantes. Agora que Will tem acesso aos bastidores da Autoridade Transicional, Kate torna-se um elemento muito útil para a Resistência, obtendo informação privilegiada através do marido, que de nada suspeita.
“Colony” é, acima de tudo, e principalmente nas duas primeiras temporadas, um drama familiar e inteligente que coloca o casal um contra o outro, pelo menos até Will perceber que Kate trabalha com a Resistência e tem de tomar uma atitude. Adorei a cena, muito realista, em que finalmente se confrontam. Will nunca lhe pergunta ou diz “sei o que andas a fazer”. (E isso Kate também já tinha percebido.) O que ele lhe diz é “há semanas que ando a encobrir o que andas a fazer”.
Como colaborador, Will tem acesso a regalias que a restante população não tem, como sempre acontece nestes regimes. Mas uma das regalias é um presente envenenado. Tendo como desculpa as possíveis represálias que a família pode sofrer devido à colaboração de Will, os miúdos deixam de ir à escola e é-lhes atribuída uma tutora ao domicílio. Esta tutora é uma fanática da religião promovida pelos Anfitriões, a Igreja do Maior dos Dias, que promete vida eterna a todos os que forem fiéis ao novo regime. (Isto lembra-me os khmer rouge, no Cambodja, que endoutrinavam as criancinhas para denunciarem todos os que se opusessem ao regime.) Uma das melhores cenas da série é quando Kate se apercebe disto e mostra à filha, Grace, uma série de livros de várias religiões em que todas prometem o mesmo. Mas a miúda é muito jovem e susceptível (deve andar pelos 8/10 anos) e já lhe fizeram uma autêntica lavagem cerebral. De onde podemos tirar uma lição prática. Foi tão fácil endoutrinar Grace porque esta foi a primeira religião com que teve contacto. Se Grace tivesse tido alguma espécie de educação religiosa talvez tivesse resistido mais ao fanatismo da tutora, digo eu.
Agora que Will e Kate estão tão envolvidos na Ocupação e na Resistência, a sobrevivência torna-se cada vez mais periclitante para toda a família.
Era bom mas descambou
As duas primeiras temporadas de “Colony” são tão boas, mas mesmo tão boas, que quase cheguei a dizer aqui que é a melhor série que vi desde “Breaking Bad” e “Black Sails”. Só que:
1, entretanto vi “The Terror”
2, a segunda parte da terceira (e última) temporada de “Colony” foi por água abaixo.
Perguntei-me muito, quando soube que a série tinha sido cancelada, porque é que tinham acabado com uma série tão boa, tão bem escrita, focada em personagens bem construídos e desempenhados (a princípio, confesso, só conseguia ver o Sawyer e a Lori, e preferia ter visto nela a outra Kate, a de “Lost”, a única Kate que conseguia imaginar ao lado de Sawyer. Mas Sarah Wayne Callies impôs-se e a química entre os dois actores é excelente). As duas primeiras temporadas são espectaculares (em todos os sentidos, até na grandiosidade dos cenários exteriores com as grandes muralhas extraterrestres, os lançamentos de naves para o espaço, as cenas na Fábrica). A terceira temporada começa bem, mudando a família para um esconderijo nas montanhas onde se introduzem num campo da Resistência liderado por um survivalista ditatorial que gere a comuna com mão de ferro, em que não é por acaso que um dos episódios se chama “Sierra Maestra” e quase são fuzilados como traidores. Mais uma referência a outros movimentos insurgentes de guerrilha.
Infelizmente, na segunda parte da terceira temporada, quando eles vão para Seattle, foi o descalabro. Nem sequer vou dizer que o pior foi terem de facto mostrado extraterrestres (como tantos fãs exigiam) o que tornou a série numa dessas coisas que começam por Stargate e Babylon que eu não vejo. O pior nem foi isso, mas o grande plot hole no enredo.
Parece que os extraterrestres invasores até não eram tão maus de todo (apesar dos milhões que mataram indiscriminadamente e mandaram para a Fábrica e outros campos de trabalho forçado), e que andavam a fugir de uns extraterrestres ainda piores (e copiados do Predador, o que não foi nada brilhante), e que afinal até precisavam de um super-exército para combater estes últimos. Onde a bota não bate com a perdigota foi o que mencionei logo no início desta crítica: todas as forças de segurança, policiais e militares, são estrategicamente eliminadas (assassinadas) como medida para prevenir uma rebelião inicial. Há até uma cena em que Broussard e outros militares de elite são convocados a um único ponto de encontro, logo no início da invasão, para serem massacrados de uma só vez. Broussard consegue escapar porque tem um mau pressentimento à última da hora. Na terceira temporada, de repente, tanto Broussard como Will aparecem numa lista de operacionais a NÃO-abater por serem importantes para o tal exército ao serviço dos Anfitriões. Então em que é que ficamos? Os militares de elite são valiosos para os extraterrestres ou são alvos a abater? Quem escreveu a terceira temporada, será que viu a primeira?
E se fosse só isto! De repente há um colaborador, que nunca tínhamos visto na vida, que anda a esconder estes militares dos Anfitriões no intuito de estabelecer uma aliança com os inimigos deles e assim recuperar o planeta. Mas se estamos a falar de espécies tão avançadas (os Anfitriões conseguiram dominar a Terra em questão de horas) alguém acredita que vai ser um exército de humanos a fazer a diferença? E já agora, quem é que disse aos Anfitriões que este inimigo ia simplesmente “aceitar” lutar contra o exército de humanos na Terra quando o que estes outros extraterrestres querem mesmo são os Anfitriões e podem atacá-los no espaço? “Exmo.s Inimigos, sabemos que vêm aí e tomámos a liberdade de preparar para V.Exas estes soldadinhos aqui neste lindo planeta para vosso entretenimento e lazer. Façam favor de aproveitar, matar os humanos e visitar as belas paisagens terrestres, enquanto nós assistimos do conforto da nossa nave. Felizes em servir V.Exas. Voltem sempre.”
Eu explico: nas primeiras temporadas viram-se pessoas serem transportadas em cápsulas de animação artificial para as naves extraterrestres sem que soubéssemos porquê. Era um mistério que tinha de ser explicado. A série meteu os pés pelas mãos e explicou-o assim, com estes enormes plot holes. Os escritores começaram a inventar, pura e simplesmente, com o único objectivo de fazer render o peixe e sem grande vontade de começar a dar respostas ou de conduzir a narrativa a um fim coerente (a lembrar "Lost", onde o showrunner Carlton Cuse também andou...).
Se calhar até tinham conseguido vender melhor esta intrujice se tivessem sido os protagonistas a descobri-la. Mas em vez disso começámos a acompanhar a história pela perspectiva de um personagem novo, de quem nem me vou dar ao trabalho de saber o nome, enquanto Will e Kate e Broussard quase tropeçam no enredo principal por acaso.
E só mais uma: quem é que disse aos Anfitriões que estes soldados humanos mantidos em cápsulas de vida suspensa quereriam ou aceitariam lutar pelos invasores e opressores, quando subitamente têm como aliado natural uma espécie que também quer destruir os Anfitriões? O inimigo do meu inimigo meu amigo é, e claro que toda a gente estaria a pensar numa aliança com este inimigo comum dos Anfitriões. Até parece que quem escreveu as duas primeiras temporadas da série se foi embora a meio da terceira, de tal modo a qualidade e a coerência foi por água abaixo.
Mas a verdade é que as audiências de “Colony” nunca foram boas. Na minha opinião, muito da culpa se deve a ter sido dirigida a um público-alvo errado, os apreciadores de ficção científica com extraterrestres (Stargate, Babylon, etc) sem grande profundidade, em vez de se salientar o drama humano. A série é extremamente brutal e pessimista, às vezes é bastante deprimente, e raramente temos um qualquer motivo de esperança. Direi mesmo que foi isso que faltou à Resistência durante toda a série: uma vantagem secreta que pudesse efectivamente ser usada para derrotar os Anfitriões. Episódio após episódio, tivemos de assistir enquanto inocentes eram massacrados e a Resistência se desfazia aos pedaços em vez de se tornar mais forte. Esta falta de esperança que permeia toda a série pode ter afastado muitos espectadores que apreciam uma ficção científica mais levezinha em que os Bons ganham e os Maus perdem e tudo acaba bem.
Marketing errado, enredo pesado e deprimente, brutalidade e violência (embora nunca gratuita) podem ter ajudado ao cancelamento da série, mas nada tão grave como o final da terceira temporada. Eu, sinceramente, fiquei contente quando acabou porque não queria ver a série afundar-se mais.
Mas aconselho vivamente as duas primeiras temporadas e o princípio da terceira. São excelentes. Faz de conta que acabou na temporada 3 episódio 5, bem intitulado “The End of the Road”.
segunda-feira, 17 de junho de 2019
The Walking Dead (9ª temporada)
[crítica à nona temporada; contém spoilers]
O maior spoiler desta temporada é que não foi tão deplorável como se previa. Apesar da perda do protagonista, a nova showrunner Angela Kang conseguiu melhorar a qualidade: as personagens começaram a tomar decisões racionais (na maior parte, pelo menos), a história voltou a fazer sentido, a série tornou a ser uma coisa que se consegue ver sem que nos apeteça atirar o comando à televisão.
Não gosto de ser maldizente, mas neste caso é completamente óbvio. Assim que Scott Gimple entrou, a qualidade foi por água abaixo. Angela Kang pegou na série e fez um trabalho hercúleo tendo em conta o estado em que a herdou. Scott Gimple foi para “Fear The Walking Dead“ e este último programa deixou de ter pés e cabeça. Factos.
Agora sim, uma telenovela
Até que ponto é que são spoilers quando já se sabia no fim da temporada anterior? Rick foi-se embora para fazer um filme televisivo (ou vários, já ouvi as duas versões) no universo Walking Dead. Maggie bateu com a porta porque não lhe deram o aumento que ela exigiu e foi fazer outro programa, mas pode muito bem regressar se essa tal série não for renovada (chama-se “Whiskey Cavalier” e eu não vejo). Outra baixa de peso foi já anunciada para a temporada seguinte. Não vou dizer quem, porque nem toda a gente acompanha este tipo de notícias, mas esta vai ser mesmo muito difícil de gerir. Sempre quero ver como é que vão descalçar esta bota. Pobre Angela Kang, se calhar não merecia herdar uma série a desfazer-se aos bocados.
O grande momento da temporada, não há como dar volta a isto, foi a “morte” de Rick Grimes. Esta foi mesmo uma morte anunciada, oficialmente e tudo, com todos os fãs à espera do episódio “fatídico”. E considerando os litros de sangue que Rick perdeu, noutra série qualquer teria morrido mesmo. Mas isto é “The Walking Dead” e fizeram batota.
[Spoiler: e pela primeira vez o cavalo safou-se! Finalmente! Até os cavalos já começam a tomar decisões racionais!]
Mas Rick foi-se mesmo embora. A grande questão era, e ainda é, pode a série continuar a agarrar os fãs se dos primeiros episódios só restam Daryl e Carol, e (mais ou menos do princípio) Michonne? Têm sido introduzidos novos personagens e a série tem feito um grande esforço para nos interessar por eles, mas a verdade é que aqueles que nos interessam são o grupo de Atlanta, aqueles que vimos sobreviver aos primeiros dias do apocalipse, aqueles com quem partilhámos todos os horrores e alegrias desde então até agora, os que ainda vivem quando tantos outros ficaram pelo caminho. Uma série bem feita ter-nos-ia conduzido até ao fim da história dos personagens relevantes, aqueles em que nós investimos desde o início. Mas “The “Walking Dead” prolongou-se demais, muitos actores foram para outros projectos, e agora está efectivamente a funcionar como telenovela. Entram uns, saem outros, sem que consigamos ter tempo de nos ligarmos a eles. Pelo menos podiam aprender com as telenovelas brasileiras: é comprido, comprido, mas um dia acaba antes que sature. Ora, “The Walking Dead” não quer acabar. Quer ser abatido pela falta de audiências. Por este andar, vai conseguir o que deseja.
Vilões sem pés nem cabeça
Mas é preciso dar o devido valor à nona temporada e à nova showrunner. Desde os primeiros instantes, num episódio chamado “A New Beginning”, em que até o genérico é diferente, percebemos que a série vai tomar outro rumo. Confesso que a princípio não gostei muito do novo genérico. Parece uma coisa saída de “outro filme”, um mundo futurista de Fantasia com cavalos e natureza verdejante, muito longe dos subúrbios urbanos e desertos que eram imagem de marca da série. Custou, mas acabei por me habituar. Este já não é o mesmo mundo. Este é um mundo em que a sociedade que conhecemos desapareceu, em que tudo tem de ser reinventado, em que as pessoas têm de voltar às carroças e à agricultura. Tudo isto foi um bocadinho um choque, porque já nem parece a mesma série. Eu, pessoalmente, preferia o ambiente urbano e os prédios desertos.
Mas nenhum choque foi maior, para mim, como o momento em que Negan apareceu. Inconscientemente, eu já tinha “apagado” Negan. A série começa com um salto temporal depois da guerra com os Salvadores e de alguma forma irracional eu tive esperança de que se tivessem “esquecido” dele. (Não seria a primeira coisa incoerente que a série fazia, mas seria de certeza a mais perdoável.) Sim, eu sei que nos comics Negan está preso, porque Rick quer mostrar que apesar de tudo as pessoas ainda podem recuperar algo da civilização perdida e não é preciso andarem a matar-se uns aos outros, e que Negan na prisão significa um regresso à lei e à ordem, sim. Mas Negan é uma personagem tão mal concebida, tão antipática, tão desinteressante, e agora completamente irrelevante atrás das grades, que o melhor era libertarem Jeffrey Dean Morgan para ir para o “Sobrenatural” onde faz mais falta.
[Spoiler: sim, Jeffrey Dean Morgan vai regressar ao “Sobrenatural”, já há imagens!]
Houve uma passagem em que Negan conseguiu fugir da prisão e eu rejubilei, sem ironia: “Sim, faz-nos esse favor, desaparece e não voltes! Adeus!” Desgraçadamente, ele voltou. Enfim, foi um momento de esperança.
O mais preocupante é que “The Walking Dead” continua a tentar redimir Negan, talvez até a ponto de o tornar um personagem importante na nova sociedade, e isso é um erro. Negan é um monstro e ninguém o quer ver dar-se bem. É verdade que tem jeito para miúdos e que as cenas com Judith, agora crescida, têm tentado convencer-nos de que ele é um homem mudado. Mas não é. O que a série estará a tentar fazer é transformá-lo noutro personagem completamente diferente, o que nunca é bom do ponto de vista da coerência. Isto não é bom drama e não ajuda à recuperação da série.
Mas mal tínhamos recuperado do primeiro salto temporal, em questão de poucos episódios, e ainda na primeira parte da temporada, há outro salto de alguns anos. Não me perguntem quantos. Só sei que agora a Judith tem aspecto de andar algures na terceira ou quarta classe, mas posso estar enganada. Entretanto [grande spoiler] Judith tem um irmãozinho mais novo cuja idade também não percebemos muito bem porque ainda mal o vimos. (Qual é o interesse em arranjar mais um descendente ao Rick Grimes se acabamos por não o conhecer?...)
Maggie já se foi embora, nem a vimos ir. Carol está a viver com o “rei” Ezekiel e estão ambos a criar o adolescente mais burro que já apareceu em “The Walking Dead”: Henry. Sinceramente, acho que aqui a série estava a gozar consigo própria e com a famosa estupidez dos seus personagens. Henry foi um puto criado com os melhores sobreviventes do seu mundo. Era impossível ser tão idiota. Carol merecia melhor. (E aqui lembrei-me da filha dela, Sophia, a que apareceu no celeiro com os zombies, na quinta. É curioso como ainda me lembro do nome dela. Mas tenho a certeza de que vou esquecer Henry assim que acabar de escrever este artigo. O que aconteceu a Sophia, todo o grupo a arriscar a vida para a encontrar, teve impacto. Fez crescer Carol e Daryl na nossa simpatia. Henry não teve importância nenhuma.)
O que nos leva aos novos vilões desta temporada, que Henry consegue atrair até às comunidades. Os Whisperers são a coisa mais irrealista que “The Walking Dead” já fez. Ainda mais irrealista do que a malta da lixeira. É preciso querermos acreditar muito para aceitarmos que algumas pessoas consigam viver disfarçadas de zombies durante anos e anos desde o apocalipse, e, ainda mais estranho, que nunca se tenham cruzado nem com Rick nem com nenhum outro grupo de sobreviventes. Como vilões, têm os seus momentos, mas é preciso desligarmos grande parte do cérebro para os aceitar.
Mas os zombies são imperdíveis...
Em suma, “The Walking Dead” já foi uma grande série mas talvez seja mesmo impossível recuperá-la das temporadas catastróficas da guerra com os Salvadores. Angela Kang fez um excelente trabalho e a qualidade melhorou a olhos vistos, mas à medida que os personagens importantes vão saindo os escritores vão tendo de improvisar o melhor que podem para acomodar essas perdas que nada têm a ver com o enredo. E é isso que a história parece agora: um improviso em cima do joelho. Tudo se ressente da longevidade, ou melhor, da velhice da série. Se de repente “The Walking Dead” fosse cancelado e não houvesse uma décima temporada eu não me importaria quase nada. E este “quase” significa Daryl, Carol e Michonne. Gostaria de os ver ter um fim coerente. Mas as esperanças de isso acontecer são quase nulas também.
E, no entanto, eu sei que continuarei a ver esta série (tal como “Fear The Walking Dead”) enquanto ela passar. É que os zombies de Greg Nicotero são muito bons, imperdíveis. Mas actualmente já não espero qualquer desenvolvimento dramático/emocional que me afecte, como acontecia no princípio, e é pena ver uma das minhas séries preferidas chegar a este estado.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
The Terror
[spoilers mínimos; não revela o final]
Esta é a melhor série de terror que eu vi nos últimos tempos, se calhar mesmo na vida toda, e está a passar "abaixo do radar" sem ninguém lhe ligar nenhuma. Antes de mais, é preciso divulgá-la: passa na AMC. Se a virem, agarrem-na, gravem-na, devorem-na. Se não a virem, vão atrás dela. Esta série de extraordinária qualidade é imperdível.
"Em 1845, dois navios da Marinha Real zarparam de Inglaterra numa tentativa de encontrarem uma passagem navegável no Árctico. Eram os navios tecnologicamente mais avançados da sua era. Os últimos a vê-los foram baleeiros europeus na Baía de Baffin, aguardando o bom tempo para entrarem no labirinto do Árctico. Ambos os navios desapareceram."
[preâmbulo de abertura de “The Terror”]
Por estranho que nos possa parecer agora, HMS Terror era mesmo o nome de um navio. O nome explica-se por ter sido um navio de guerra antes de ser remodelado para a exploração polar. O seu outro companheiro de viagem, o HMS Erebus, também foi baptizado a partir de uma das zonas do inferno clássico, o Hades. Com nomes agourentos como estes, quase nos perguntamos quem é que no seu perfeito juízo levaria estes navios para uma expedição perigosíssima de onde podiam muito bem não regressar?
Estes nomes são reais, tal como são reais os nomes dos tripulantes da expedição que tinha por objectivo descobrir uma passagem para a Ásia através Círculo Polar Árctico, a norte do Canadá: a passagem Noroeste, que seria muito rápida e prática em termos comerciais. Houve várias expedições anteriores para a encontrar, sem êxito, até à vez de Sir John Franklin (esta conhecida como "a expedição perdida de Franklin") com resultados desastrosos. Todos os 129 tripulantes foram dados como perdidos.
"The Terror" faz excelente uso destes nomes verídicos, bons demais para desperdiçar, excepto esta ou aquela mudança de ocupação. Além dos próprios barcos, temos um Tenente Gore ("Gore" é o título apropriado do episódio em que este tenente tem um fim... que não conto), um Mr. Morfin (que, coitado, morre com tantas dores que implora que lhe dêem um tiro, mas não há morfina para Mr. Morfin), e um Mr. Goodsir (cirurgião assistente na série e na vida real), que os escritores aproveitaram logo para ser o homem mais decente naqueles dois navios.
A série é baseada no romance homónimo de Dan Simmons, publicado em 2007, antes de ambos os navios naufragados terem sido descobertos, o Erebus em 2014 e o Terror em 2016, muito longe do local onde se julgava terem sido abandonados. Novamente, bom demais para desperdiçar. Foram feitas algumas alterações à história para acomodar as novas informações que a descoberta trouxe à luz. E que informações! A história nem precisa de sobrenatural para ser um dos relatos mais horríficos das aventuras navais da época vitoriana, ou de todos os tempos.
Esta série não é para todos. É extremamente deprimente, e os últimos episódios, principalmente, têm cenas de um canibalismo tão realista que algumas pessoas talvez não consigam suportar. Não digo isto como spoiler mas como aviso: pode ser demais!
Um acto de húbris
No verão de 1846, os dois navios aventuram-se em águas do Árctico. O líder da expedição, Sir John Franklin, comanda o Erebus, mas é ao Terror que devemos prestar toda a atenção. O Capitão Francis Crozier, comandante do Terror e navegador com experiência em zonas polares, não gosta dos sinais preocupantes que vê no gelo. Imediatamente avisa Sir Franklin para não continuarem em frente, que fazê-lo será “um acto de húbris” de terríveis consequências. Franklin simplesmente o ignora. Em Setembro, do dia para noite, ambos os navios ficam encarcerados no gelo. Não um dia ou dois, ou sequer meses, mas por dois anos. Os navios eram tidos por capazes de suportar essas condições. Levavam provisões bastantes para durar três anos, enlatados e sumo de limão (contra o escorbuto), e tinham aquecimento central. Tal como o Titanic era “insubmersível”, também estes navios tinham tudo o que era preciso para resistir aos invernos polares. O que não tinham era um plano B. Em vão esperaram o degelo da primavera, mas uma série de anos mais frios do que o normal não derreteu o gelo.
O Capitão Francis Crozier volta a advertir Sir Franklin que deve enviar imediatamente uma equipa para pedir socorro, o que este volta a negar. Desta vez Franklin vai mais longe, acusando Crozier de ser um homem sem fé em Deus, um pessimista, um homem de vícios (Crozier, de facto, é alcoólico). Enviar tal equipa serviria apenas para desmoralizar a tripulação e admitir o fracasso, e Franklin nem quer ouvir falar disso.
Crozier leva uma rebocada tal que noutras circunstâncias era capaz de pedir a demissão e virar-lhe as costas, mas estes são oficiais da Royal Navy e estão isolados no Pólo Norte. O que Crozier faz é ignorar as ordens de Franklin e preparar a equipa em segredo, tencionando liderá-la ele próprio para que os homens que o acompanham possam dizer que apenas obedeceram às suas ordens e não sejam acusados de insubordinação. Caso tenham sucesso, isto é. Crozier já sabe que a expedição está perdida. Agora só importa salvar a tripulação. Antes que Crozier consiga realizar os seus planos, contudo, Sir Franklin morre. O capitão Crozier, segundo em comando, torna-se assim no líder da expedição e pode enviar a equipa sem incorrer em motim. O que não lhes vai servir de muito.
Crozier resume o tema da série na sua frase acima: um acto de húbris. É a arrogância que condena esta expedição. A arrogância de Sir Franklin, espelho da soberba do Império Britânico, que recusa admitir derrota quando já são as vidas dos tripulantes que estão em jogo. É a arrogância britânica que nem considera aprender com o povo Inuit como melhor sobreviver naquelas condições, encarando-os, pelo contrário, como selvagens que nada têm a oferecer ao poderio naval de Sua Majestade. É a arrogância civilizacional do Império Britânico que envia homens para condições extremas com equipamentos inadequados e uniformes impróprios para o clima, a quem falta o discernimento em assegurar o socorro caso algo corra mal. Nada pode correr mal nos planos científicos e metódicos do império. O único resultado só pode ser o sucesso. Outra coisa não se admite nem sequer se pondera.
O que acontece de seguida é uma lenta descida aos infernos. Os enlatados eram de má qualidade. Deficientemente soldados, os que não apodreceram continham níveis de chumbo que, segundo os cientistas que há décadas estudam a expedição, terão lentamente intoxicado os tripulantes. O que terá também explicado a loucura e os comportamentos irracionais que mais tarde foram depreendidos dos acampamentos abandonados. Esgotadas as outras provisões, os enlatados tornaram-se o único veneno que os homens tinham para comer. O frio, a fome, o escorbuto e a tuberculose também colheram o seu número de vítimas.
Isolados num deserto de gelo impiedoso e de terra pedregosa, não havia para onde fugir nem tinham meios adequados para tal. Os longos invernos de noite permanente, a crescente escassez de provisões, a continuada falta do degelo, levam os homens a cair no desespero e na loucura. Por fim abandonam os barcos e tentam escapar por terra, mas também não têm melhor sorte. É uma derradeira luta pela sobrevivência, mas a doença e a fome já os tinham enfraquecido ao ponto de não retorno. Segue-se o motim e a carnificina.
Como se tudo isto não bastasse, logo de início, ainda Sir John Franklin é vivo, um estranho animal, que julgam um urso polar mas de tamanho enorme e características estranhas, é avistado pelos homens. Tentam abatê-lo, mas, desgraçadamente, atingem acidentalmente um shaman Inuit (que, vimos a saber mais tarde, é quem mantém o monstro sob controlo). O shaman morre, e apesar das súplicas da sua filha, que o acompanha, os britânicos não cumprem os ritos fúnebres que ela exige. Em vez disso, o shaman é atirado sem cerimónia por um buraco de água no gelo. E aqui, na série, fizeram-na bonita. Este “urso” é um Espírito Guardião do Árctico e do povo Inuit, o Tuunbaq, um espírito em forma animal. Agora que profanaram o corpo do shaman, estão todos marcados. O Tuunbaq não distingue entre bons e maus. Mas diga-se de passagem, os “bons”, aqui, são muito poucos, como se verá no decorrer da história.
Personagens inesquecíveis
Poder-se-á pensar, erradamente, que a história perde o interesse logo nos primeiros minutos, quando se sabe que não sobrevive ninguém. Nada mais enganador. As tripulações do Erebus e do Terror tiveram várias hipóteses de escapar. Mesmo quando tudo já parecia negro, ainda havia esperança. Não para todos, os que já estavam demasiado doentes, mas para alguns houve sempre esperança até ao fim. O mais fascinante, a certa altura, não é perceber o como e o porquê de se terem perdido mas, pelo contrário, de não se terem salvo.
As personagens são excepcionais e é impossível não torcer por algumas. Um dos melhores trunfos desta série é como se pega nestes nomes de um manifesto e se criam personagens de carne e osso com quem conseguimos empatizar.
Vou começar pelo líder da expedição, Sir John Franklin (Ciarán Hinds, que os leitores mais novos conhecem de “Guerra dos Tronos” mas que eu lembro melhor ainda como Júlio César em “Rome”). Franklin parece um homem ambicioso, arrogante, até não muito competente (principalmente quando, em flashbacks, percebemos que é Lady Jane Franklin, sua mulher, quem o manipula), mas na duração de um ou dois episódios compreendemos que é afinal um homem sincero, profundamente religioso, que não é hipócrita e acredita no que diz. Um homem optimista, mais do que devia, que se preocupa acima de tudo com a moral da tripulação. Apesar da sua falta de discernimento, o objectivo nunca foi sacrificar homens por ambição, mas sim conduzi-los ao triunfo último da expedição. Franklin nada mais admite senão o triunfo, e acaba por ser essa a sua falha trágica. Até seria digno de pena se a sua cegueira não tivesse consequências tão horríveis. E Franklin não é o único culpado desta cegueira. Homem do seu tempo e do apogeu do Império Britânico, nele reflecte-se toda uma cultura que o criou. A mesma cultura que, ultimamente, também o vitimou.
Depois temos o Capitão James Fitzjames (Tobias Menzies, igualmente no elenco de “Guerra dos Tronos” e igualmente em “Rome” no papel de Brutus), que a princípio parece um daqueles homens balofos de vaidade que são “só garganta” e cobardia. Pois este foi uma surpresa! Em circunstâncias em que a maioria fugiria ou sujaria as calças, mostra uma coragem extraordinária a enfrentar o Tuunbaq. Prova de que nem tudo é o que parece à primeira vista, e Fitzjames não é de todo um cobarde.
Quem nunca me enganou foi o Capitão Crozier (Jared Harris, mais conhecido pelo seu papel em “Mad Men”), cínico, melancólico e pessimista, mesmo quando os longos meses no Árctico o mergulham no extremo do alcoolismo. Daqui eu sempre esperei grandes coisas, e elas vieram.
E depois temos o “talentoso” Mr. Hickey (Adam Nagaitis), sem dúvida a maior manipulação a que fomos submetidos em termos de personagens. Mr. Hickey é um tripulante simpático com quem empatizamos imediatamente, um homem do povo e um homossexual que é perseguido por sê-lo. Como não torcer por ele, a parte mais fraca? Jamais acreditaríamos, nos primeiros episódios, no que ele se vai tornar já a seguir. E eu também não vou contar, mas foram feitas comparações ao Coronel Kurt de “Apocalipse Now” e eu concordo que anda por aí. No fim, também a Mr. Hickey foi a arrogância que o perdeu. Ou melhor, que se perdeu a si próprio. Fantástico desempenho! Espero ver este actor muito mais vezes.
Chegamos então ao melhor personagem da história. Se não o grande herói (mas não parece que esta história tenha heróis), o coração de “The Terror”, Mr. Goodsir (Paul Ready). Ao contrário de Mr. Hickey, eu embirrei logo com este personagem. Muito bonzinho, demasiado bonzinho. E depois veio o golpe fatal que me fez mesmo detestá-lo. Ao desconfiar que os enlatados estão a envenenar os homens com chumbo, Mr. Goodsir começa a dá-los a comer ao macaquinho do falecido Sir Franklin. (Sim, havia um macaquinho de estimação a bordo, para se perceber até que ponto este comandante achava que a expedição era um passeio pelo gelo.) O macaco enlouquece e morre, e é aí que Mr. Goodsir percebe que não podem continuar a comer das latas. Episódio após episódio, este personagem conquistou-me, e da embirração e da antipatia tornou-se aquele pelo qual torci mais. (Porque, na verdade, mais tarde ou mais cedo o macaco tinha de começar a comer das latas também, tal como os homens, mesmo depois de saberem que estavam contaminadas. Dessa forma, não foi apenas uma experiência científica. Era só uma questão de tempo. Pelo menos o pobre macaco morreu de morte "natural", ao contrário do cão...) Mr. Goodsir, mais tarde tratado como Dr. Goodsir, tem um nome que lhe assenta como uma luva. A bondade não é falsa e acabou por comover o meu coração empedernido que me faz desconfiar deste tipo de pessoa.
Goodsir é bom autenticamente, porque sim, porque não pode ser de outra forma. A certa altura torna-se amigo da filha do shaman, a quem chamam apenas Lady Silence (não vou explicar porquê), e numa última escolha Goodsir tem a oportunidade de deixar tudo para trás e ir com ela. A mim só me apetecia gritar-lhe: Vai! Foge! Nem penses duas vezes! Foi tudo muito rápido e Mr. Goodsir talvez precisasse de mais tempo para tomar essa decisão, que o afastaria do dever para com os camaradas, da Inglaterra, da carreira científica. É muito a pesar a um homem que vive para a ciência encarar a ideia de viver como os Inuit, no gelo primitivo. Mas torcei por ele até ao fim, mesmo até ao fim, para que visse a luz.
Não me lembro de uma série que me tenha conseguido fazer mudar de ideias sobre os personagens sem que haja grandes revelações ou reviravoltas pelo meio. Não foram eles que mudaram. O que mudou foi a minha percepção deles, porque os observei desde o ponto de partida, porque aprendi a conhecê-los, porque “senti” com eles a longa e imparável descida ao desespero.
O Tuunbaq
É consenso geral entre a crítica que o Tuunbaq foi o aspecto menos bem conseguido desta série. Mas dizer isto é dizer que o Tuunbaq destoa porque é “apenas” bom no que é de resto uma obra-prima. (Mas verdade seja dita, o CGI do monstro não é muito bom. Li algures que é muito difícil reproduzir um mamífero em computador. Por exemplo, os tigres de “The Walking Dead” e de “A Vida de Pi”, em que até nos momentos mais realistas se nota que não são animais a sério. O Tuunbaq sofre do mesmo problema. Conscientes desta limitação, os realizadores da série evitam mostrá-lo muito perto e muitas vezes, o que foi mesmo a melhor opção.)
Não era necessário acrescentar o Tuunbaq a uma tragédia verídica, e muita gente não gostou da ideia, mas confesso que não vi o Tuunbaq como somente um monstro e se calhar por isso apreciei a sua inclusão. Muito cedo se percebe que não é um urso polar. Uma das primeiras coisas em que reparei na sua fisionomia, muita perturbadora, é que este “urso-espírito” tem cara de pessoa. Isso mesmo. Cara de pessoa. O Tuunbaq não foi completamente explicado e existem muitas interpretações, mas aqui vai a minha: o Tuunbaq é o espelho do mal da humanidade que é seu dever aniquilar. O verdadeiro Mal que rodeia os sobreviventes da expedição não está fora, está dentro, e o Tuunbaq tem a cara humana do Mal. Outra interpretação defende que o Tuunbaq consome a alma das suas vítimas, e que o Mal consumido nessas almas foi a sua perdição. Não desgosto desta teoria porque bate certo com o tema geral de “The Terror”. Até ao próprio Tuunbaq, é a arrogância que o perde. Mais olhos do que barriga e isso tudo. Talvez tenha levado a vingança longe demais sem dar ouvidos aos shamans. Talvez tenha comido arrogância a mais, a arrogância dos intrusos, e como eles, e pelo mesmo motivo, condenou-se a si próprio.
Para ver e rever
“The Terror” mistura o drama naval com o terror. Se alguém duvida que pode ser feito, é só assistir. Não tenho senão elogios a dizer, desde a magnífica cinematografia (tão depressa o gelo branco e o céu escuro como o solo de pedra solta e os horizontes cinzentos de um sol implacável, já para não falar do detalhe e realismo do interior dos barcos) às excelentes performances dos actores que conseguem diálogos de dez minutos sem que se note o passar do tempo.
Uma nota especial para o som, que adquire tal importância, como, por exemplo, no ruído incessante do gelo a esmagar lentamente os barcos, que aconselho que se ouça com auscultadores (na falta de surround). É uma experiência única por si só. Até o genérico é uma obra de arte. Não bastando a perícia dos efeitos sonoros, saliento ainda a música sombria e sinistra do compositor Marcus Fjellström (falecido em 2017 com a idade de 38 anos).
Se há apenas uma coisa de confuso na série é a grande semelhança entre todos os personagens. Todos homens, da mesma idade, todos de uniforme, todos Mr. Isto ou Mr. Aquilo, todos com cortes de barba e cabelo idênticos, como é de esperar neste ambiente naval. Demora um bocado a conseguir distingui-los. Pelo fim da série, à medida que o elenco diminui, começamos a ter uma melhor percepção de quem é quem. Vai ser uma satisfação ver de novo e associar, desde o princípio, as caras e os nomes dos que chegaram ao fim e captar todos os pormenores de personalidade que me escaparam quando a tripulação ainda estava mais ou menos intacta.
É uma série difícil de se ver, sem dúvida, deprimente e pessimista, mas com momentos de uma beleza tão imensa que quase compensa o horror quando ele acontece. É mesmo caso para recordar uma das características do gótico: a beleza do horrível.
Adenda
Depois de escrever este artigo já tive oportunidade de ver de novo o primeiro episódio. Confirmo: ainda é mais interessante à segunda vez. Quem diria, de uma ficção baseada em acontecimentos reais de que já sabemos o resultado? Fantástica série.
sábado, 30 de março de 2019
Jericho (2006 - 2008)
O que é um bom apocalipse sem o Lennie James?
Admito que foi este actor (Morgan em “The Walking Dead”) que me levou a dar outra hipótese à velhinha “Jericho”. Cheguei a ver alguns episódios na televisão, mas tinha perdido o princípio e algo me afastou da série. Na altura havia coisas melhores a passar, o que pode ter tido influência.
Quando um ataque terrorista faz detonar 23 bombas nucleares nas capitais americanas, a pequena cidade de Jericho, remota no meio do Kansas, passa quase incólume ao desastre. Os poucos habitantes observam, boquiabertos, a explosão da bomba mais próxima. Muito depressa descobrem que não foi a única. Entretanto, conhecemos o misterioso recém-chegado Rob Hawkins (Lennie James) que tem uma bomba atómica na cave (sim, uma bomba atómica na cave!) e tudo indica que estará ligado aos ataques. Hawkins é a verdadeira alma do mistério de “Jericho”, e o único que diz coisas que podiam ter saído de “The Walking Dead”, como daquela vez em que alerta os outros habitantes para não espalharem a informação de que Jericho sobreviveu e tem provisões, ou poderão atrair pilhagens.
A premissa é muito boa. A civilização como a conhecemos colapsa. Falha a electricidade, o abastecimento de água, os transportes. Mais tarde, uma bomba EMP (bomba electromagnética e não sei mais nada sobre isto) destrói todos os circuitos eléctricos de telecomunicações e automóveis. Isto também priva a cidade de notícias e ninguém sabe o que se passa. No segundo episódio ainda há alguém que diz “se estamos a ser atacados temos de descobrir o que se passa lá fora”, mas na verdade ninguém parece assim tão interessado.
Jericho é uma cidade de survivalistas americanos, daqueles mesmo ferrenhos que pensam que “quanto menos Governo melhor” e que o Governo é um inimigo em geral. Assim que as instituições federais desaparecem, imediatamente começam a governar-se a eles próprios à boa maneira do far west, isolados de tudo e sem grande apetência para contactar o exterior ou esperar por ajuda. Isto, acima de tudo, é-nos muito estranho. Mas também é este o valor de “Jericho” como documento sociológico e político de uma América isolacionista e paranóica (sem nunca se assumir como a extrema direita agora conhecida por alt right) que uma década mais tarde irá eleger Trump. Para quem ainda não percebe, “Jericho” é muito elucidativa.
A nível da série propriamente dita, bem designada algures como “telenovela apocalíptica”, alguns erros experimentais ditaram que fosse cancelada logo na primeira temporada. A série foi pensada para “render” vinte episódios em que o mistério de Hawkins e das bombas se arrasta a passo de caracol. Entretanto, temos episódios de filler que não deviam ter ali cabimento, como aquele em que a crise do dia foi a biblioteca a arder. O cúmulo do absurdo deste tipo de séries com a crise do dia resolvida à hora de jantar continua a ser “Under the Dome”, que já só se conseguia ver por hate watching, mas “Jericho” consegue andar lá perto muitas vezes. Como daquela vez que a comida era tão escassa que meia dúzia de habitantes de Jericho vão tentar caçar veados porque já não há nada para comer, enquanto duas amigas, como se numa série à parte, passam o dia a beber margaritas porque era o dia em que uma delas se devia ter casado. Então havia fome ou não havia fome? Porque as amigas não dão por nada. Muitas vezes tive a sensação de estar a ver uma telenovela entrecortada, por acidente, por uma série de mistério, e vice-versa. O número de personagens e enredos paralelos era para durar anos, aparentemente. Mas as audiências não gostaram. Porque é assim: os Estados Unidos foram praticamente destruídos por uma ameaça militar e desconhecida, e nem sabemos se foram só os Estados Unidos ou o mundo todo, quem é que se interessa se o outro deixa a mulher para ficar com a outra, ou se a outra deixa o noivo certinho para ficar com o rapaz rebelde? No entanto, a série achou que alguém se ia interessar por estes enredos de telenovela. Foi engraçado, lá para o fim da série, já depois de cancelada, como estes personagens começaram a morrer a torto e a direito, e outros simplesmente desapareceram sem deixar rasto ou explicação.
A série tinha uma mania irritante nos primeiros episódios, de passar uma música pop de novela (como nos “Diários do Vampiro” mas pior) como som de fundo nos momentos mais tensos, que quase me fazia arrancar os cabelos. O objectivo, penso eu, era que a música fosse irónica, como “It’s a Wonderful World” em “Bom Dia Vietname”. Mas aqui não havia dramatismo bastante para o justificar e não resultou. Deve ter havido mais pessoas a queixar-se porque pararam com a música irritante em questão de poucos episódios.
A série continua a engonhar o mistério até aos dois últimos episódios, em que finalmente temos algumas respostas. E já não era sem tempo! Mas não foi mesmo a tempo, porque não foi renovada.
Fazer a América grande outra vez
Os espectadores fiéis da série não se conformaram com o cancelamento e fizeram tanta pressão que a CBS produziu mais sete episódios para terminar a história que tinha acabado num cliffhanger. Aqui, então, foi sempre a correr. Os responsáveis pelas bombas afinal não são terroristas nem nações inimigas. São uma corporação que quer destruir a América para ocupar o poder. A América torna-se a corporação e a corporação torna-se a América. Era este o objectivo dos ataques, destruir a democracia e a constituição americana e estabelecer um governo-fantoche controlado por uma companhia que se tornou demasiado poderosa. Nestes últimos sete episódios, os sobreviventes unem-se para derrotar esta ameaça à democracia e fazer a América grande outra vez. Até se fala em Revolução.
Esta série é o sonho molhado dos survivalistas americanos, patriotas e defensores acérrimos do direito ao porte de arma, não se dê o caso (como aqui) de precisarem de combater o Governo, que é sempre o mau da fita.
Eu vi para perceber o mistério das bombas, mas admito que todo o filler foi extremamente aborrecido e quando a série acabou suspirei de alívio.
Saliento, além de um Lennie James muito mais novo que foi imediatamente contratado para o universo “Walking Dead”, a presença de um seu colega na série de zombies, Xander Berkeley, um Gregory praticamente irreconhecível mas igualmente vilão.
Aqui também um vilão (às vezes), aparece James Remar, o pai do “Dexter”.
E para os amantes do “Sobrenatural”, é um miminho a prestação de Richard Speight Jr., mais conhecido por Gabriel/Loki/Trickster, aqui num papel, acreditem ou não, completamente sério e dramático. Outra grande performance é a de Timothy Omundson, igualmente um vilão que não chega aos calcanhares do infame Caim em “Sobrenatural”. Não esquecendo a actriz Shoshannah Stern (a caçadora surda Eileen Leahy) que aqui também é uma durona.
Se a série é aborrecida, encontrar todos estes actores como eles eram há 10 anos foi motivo suficiente para ver até ao fim.
sábado, 17 de novembro de 2018
The Colony / A Colónia (2013)
Durante a primeira hora deste filme pensei que ia ver algo de muito bom. O final desaponta. Custa-me avaliar “The Colony” de forma negativa devido a essa primeira hora em que estive verdadeiramente interessada. Neste caso, mais vale fingir que não vi o fim.
Num futuro próximo, o aquecimento global provoca uma nova Idade do Gelo. Para sobreviver, a humanidade refugia-se em colónias subterrâneas, onde existem outras ameaças para além do planeta glacial do exterior. A comida é escassa e racionada. A doença propaga-se mais depressa no ambiente fechado e dizima os poucos sobreviventes.
Os doentes são colocados em quarentena. Na falta de melhoras, é-lhes oferecida a escolha de “dar uma volta” lá fora ou ser executado com um tiro. Na colónia 7, onde se passa a acção, o braço direito do homem que comanda passa logo à execução dos desgraçados, sem dar escolha. O chefe da colónia, (Laurence Fishburne, o Morpheus de “The Matrix”) discorda destes métodos mas já não tem coragem, ele próprio, de disparar contra as pessoas doentes e deixa a “tarefa” nas mãos do outro. Tudo isto já é muito dramático e intenso e promete conflito ético que baste para o filme todo.
Neste momento, a colónia 7 recebe um pedido de socorro da colónia 5, seguido de silêncio. Um grupo de auxílio parte imediatamente, percorrendo uma grande distância na neve. Quando chegam à colónia 5 encontram um bando de canibais que está em processo de comer todos os habitantes. O grupo de socorro não está preparado para uma ameaça destas. Conseguem escapar mas ingenuamente deixam um rasto de pegadas na neve que guia os canibais direitinhos à colónia 7. Segue-se o confronto.
No seu início, A Colónia lembra-nos vários outros filmes. Desde logo, “The Thing”, pelo ambiente gelado e opressivo. E “The Road” e “The Walking Dead”, por causa dos canibais, ou “30 Dias de Noite”, ou “O Dia Depois de Amanhã”. Muito prometedor. A cena em que o grupo de socorro chega à colónia atacada é verdadeiramente arrepiante. As “pancadas” que se ouvem ao longe lembram-nos inconscientemente o barulho de um talhante a cortar carne mas só percebemos quando vemos. Muito bem feito.
Se o filme tivesse acabado aqui, não tinha nada de mal a dizer. Infelizmente, todo este potencial é desperdiçado quando o confronto final transforma “The Colony” num vulgaríssimo filme de acção. Com algum gore pateta, devo mesmo dizer. Um dos habitantes da colónia bate tanto com um pé de cabra na cabeça de um canibal que esta já devia estar feita em puré, e mesmo assim ele não morre.
O que me leva à queixa principal. A certa altura um dos personagens da colónia 7 diz aos outros que tencionam fugir: “Se conseguirem sobreviver lá fora não conseguem escapar àquelas coisas.” E tem razão, porque o bando de canibais é coisificado. Melhor, é monstrificado. Não são vampiros nem zombies, são seres humanos, mas é-lhes retirada toda a humanidade. Ao fazer isto, o filme torna-se numa guerra entre bons e “monstros”, quando podia ser outra coisa muito mais profunda (“The Road”). E foi uma desilusão.
Aconselho, mesmo assim, a primeira hora do filme.
Nota para os amantes do “Sobrenatural”: neste filme aparecem duas caras conhecidas desta série. Julian Richings, que fez de Morte (uma das melhores interpretações da Morte, se não a melhor, que eu já vi em cinema ou televisão). E Lisa Berry, a Ceifeira Billie. Ambos memoráveis. Pena que neste filme os actores não tenham tido papéis tão bons. De tudo o que faz “Sobrenatural” uma série sólida, a qualidade dos actores e das suas interpretações contribui grandemente para o nosso deleite.
Quanto a “The Colony”, queria dar mais mas só posso dar
13 em 20
sábado, 3 de novembro de 2018
World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)
O grande problema deste filme de zombies é que não tem zombies. Há um vírus tipo “28 Dias Depois”. Assim que alguém é mordido por um infectado, transforma-se em “zombie” em 12 segundos. 12 segundos! Nos casos mais demorados, 10 minutos. Não, isto não são zombies. Um zombie é um cadáver que come vivos. Estas pessoas não são cadáveres porque nunca chegaram a morrer.
Pior um pouco, em vez de ficarem mais lentos, os supostos cadáveres adquirem tanta força e velocidade que se nota perfeitamente que algumas imagens foram aceleradas por computador. Estes “zombies” são mais Incríveis Hulks ou algo do género.
E depois temos o enredo. Um ex-agente das Nações Unidas (nunca sabemos o que ele fez ao certo, excepto que era um durão), Brad Pitt (isto é, “Gerry Lane” interpretado por Brad Pitt, mas quem é que se interessa do nome do personagem quando Brad Pitt está no écran e não se chama “Louis”?), retirado da vida activa para se dedicar à mulher e duas filhas, uma destas com asma (mas isto nunca tem importância nenhuma), é o típico ex-militar dos filmes de acção que decide merecer o repouso do guerreiro. O personagem não passa disso, um Action Man a fazer de bom marido e pai extremoso. Como acontece nos filmes de acção, por razões e acasos ele acaba por ser chamado de volta ao seu trabalho quando há uma crise. E resolve-a. E aqui temos o enredo de filme de acção que já vimos ad nauseam.
World War Z até tem umas cenas interessantes no princípio, a lembrar o melhor de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead". (Faço um parêntesis para realçar como "The Walking Dead" se tornou o mais alto patamar de comparação em tudo o que toca a zombies. Tirando o primeiro filme de George Romero, “A noite dos Mortos Vivos” de 1968, realmente não vi melhor e há que admitir.) São as cenas em que se percebe que algo está mal mas ainda não se sabe o que é. Como aquele engarrafamento em que a família está dentro do carro e começa a ver motos da polícia a avançar por entre o tráfego e transeuntes aterrorizados a fugir na direcção inversa.
Infelizmente, toda esta tensão se perde quando o protagonista observa um “mordido” a transformar-se em “algo” (recuso dizer zombie) em apenas 12 segundos. Catrapás, já estás! A partir daqui o filme torna-se num daqueles enredos em que um herói é enviado a várias partes do mundo à procura do paciente zero, de uma vacina ou de uma cura. Torna-se definitivamente um filme de acção. Como bom filme de acção, não morre ninguém importante. Afinal, o herói tem de salvar a família para que tudo acabe bem.
Entretanto, vi supostos zombies a correr mais depressa do que os vivos, a escalarem muros e arranha-céus (!) tipo formigas umas atrás das outras, e a morderem tudo e todos sem nunca pararem para comer alguém. Mas que?!... Será que as pessoas que fizeram o filme alguma vez viram um filme de zombies? Sim, viram. Na verdade, sendo um filme de 2013, em que "The Walking Dead" já liderava audiências, se calhar até nem queriam fazer um filme de zombies, mas os zombies já estavam na moda e aqui está isto. Um filme que eu vi no engodo de ter zombies. Se me dissessem que era um filme de acção com pessoas infectadas por um vírus raivoso talvez não visse, pois não?
A este filme falta tudo o que é preciso para meter medo. É verdade, as últimas cenas são tensas, mas como já sabemos que ali está um típico herói de acção ninguém acredita que lhe aconteça alguma coisa. Afinal, ele tem de salvar o mundo!
O que nos mete medo, no zombie, é o horror de um cadáver humano que se reanima, podre e malcheiroso, para comer os vivos. (Simboliza, a bem ver, o horror da própria morte. Todos somos cadáveres a prazo). O que temos em World War Z são pessoas infectadas com um vírus raivoso. Sendo assim, preferi “28 Dias Depois”. Pelo menos é mais original. Os apreciadores de zombies não perdem nada se ignorarem World War Z.
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