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domingo, 23 de maio de 2021

The Walking Dead: World Beyond

Dizia eu que só acreditaria em spin offs de “The Walking Dead” quando as visse, mal sabendo que já estavam a ser filmadas. E parece mesmo que vêm aí mais. A qualidade é que não é nada por aí além, tirando os próprios zombies, e é por causa dos excelentes zombies de Nicotero que ainda se conseguem ver estas séries. Esta é outra igual.
“World Beyond” é a versão adolescente de “The Walking Dead”. Enquanto que, na Virginia, Carl andava a comer comida de gato e a enfrentar famílias canibais, noutros lados do país as coisas parecem ter-se aguentado melhor depois do apocalipse zombie. É o caso da cidade de Omaha, de Portland, e do campus da Universidade do Nebraska, onde vamos encontrar os protagonistas de “World Beyond”. Isto causa alguma estranheza para quem viu a sociedade desaparecer e a anarquia reinar em “The Walking Dead” e “Fear the Walking Dead”, mas aparentemente ainda há comunidades onde sobreviveu o mundo como o conhecemos. O que coloca desde logo a questão: como é que os sobreviventes ainda não sabem uns dos outros, 10 anos passados desde o apocalipse, uma vez que em “Fear the Walking Dead”, e mais ultimamente em “The Walking Dead” também, toda a gente usa o rádio para comunicar? Estas comunidades sobreviventes não saberiam já da existência umas das outras? Mas no universo “Walking Dead” é melhor não fazer muitas perguntas.
Hope e Iris são duas irmãs (adoptadas) que frequentam a universidade, junto com outros jovens como elas que eu não sei de onde apareceram nem onde vivem os seus pais. Omaha, Portland? Mas lá estou eu a fazer muitas perguntas. O importante é que estes jovens do campus passaram pelo apocalipse num ambiente seguro e resguardado onde sabem que fora dos seus muros existem zombies mas nunca tiveram de se confrontar com eles. O início da série é quase o nosso mundo, e estes jovens do campus estão a ser educados para trazer de volta a civilização.
O pai de Hope e Iris é um cientista que dá aulas nesta universidade pós-apocalíptica até ser recrutado pela sinistra Civic Republic Military. (Como chamar a isto em português, Milícias da República Cívica? República Cívica Miliciana? Parece-me mais a segunda opção. Mas uma República não contém já o conceito de “cívica”, e “militar” não é um dos ramos de poder em que assenta uma república?) A princípio nada nos diz que esta República Cívica seja sinistra, mas há sempre esse suspense de algo pesado no ar quando os helicópteros aparecem. A localização das bases da República Cívica é secreta (o que faz sentido num mundo dominado pela anarquia e o saque) e o tal cientista não está autorizado a comunicar para fora delas, mas antes de partir ele arranja uma maneira de estabelecer contacto com as filhas. Hope e Iris recebem uma mensagem do pai em que este as informa de que corre perigo, e decidem ir salvá-lo (sozinhas contra um exército, porque acham que conseguem). Com elas vão outros dois jovens da mesma idade, Elton e Silas. Nenhum deles alguma vez teve de sobreviver sozinho fora dos muros e não sabem sequer matar um zombie.
Dois dos seguranças do campus, Felix e Huck, vão à procura dos miúdos e conseguem encontrá-los, mas, cada um pelas suas razões, estes recusam regressar. Foi a sorte deles, porque, por algum motivo que ainda não faz sentido, a República Cívica destruiu o campus universitário.
Esta série é sobre os primeiros adolescentes a crescer num apocalipse zombie, mas a República Cívica acaba por ser o enredo (neste caso, sub-enredo) mais interessante. É que foram estes misteriosos helicópteros que levaram Rick Grimes e Anne/Jadis (personagem também conhecida por “senhora da lixeira”, que afinal era uma agente infiltrada). É por isso principalmente, e por outros encontros com a República Cívica em “Fear the Walking Dead”, que os espectadores do universo “Walking Dead” sabem que esta gente não é boa e recorre a métodos chocantes. Por muito que estes digam que o objectivo é o “futuro”, o “bem maior”, reestabelecer a civilização, ficamos perplexos quando destroem um campus universitário onde estava a ser preparada a próxima geração com esse mesmo objectivo em mente. Eu, por exemplo, a princípio nem percebi o que tinha acontecido, de tão contraditório que isto é. E na verdade não se viu acontecer, mas foi dado a entender e toda a gente percebeu assim. Afinal, quem é esta República Cívica e qual é o seu verdadeiro desígnio? Mas a série só nos deu migalhas porque não vai ser aqui que se vai descobrir.
Hope e Iris, e os companheiros Elton e Silas, partem numa daquelas viagens de auto-descoberta e de descoberta dos outros típicas da adolescência. Não digo isto como crítica mas como constatação, é um drama adolescente com temáticas adolescentes, em que os quatro miúdos têm de aprender coisas como conduzir ou matar o primeiro zombie. (Experiências que Carl, na série-mãe, começou a ter na infância.) Há muita conversa e o ritmo pode ser considerado demasiado lento para a grande parte dos espectadores. Cada episódio parece uma aventura separada e os miúdos nunca se encontram em grande perigo como acontece na série original. Só nos últimos dois episódios é que acontece algo minimamente empolgante.
“World Beyond” não é série que se compare às melhores temporadas de “The Walking Dead”, mas pelo menos a história não é o caos sem nexo em que se tornou “Fear the Walking Dead” (já não percebo o que se passa por lá). Vê-se bem, sem grandes expectativas, e só estão anunciadas duas temporadas, o que nos promete um enredo com princípio, meio e fim. Quem esperar mais do que isto vai ficar desiludido.



domingo, 4 de outubro de 2020

The Walking Dead [décima temporada]


[contém spoilers; não revela o final;
nem podia revelar porque, no momento em que escrevo, o último episódio ainda nem foi filmado]


E assim aconteceu que o apocalipse zombie durou tanto tempo que foi atropelado pelo apocalipse Covid. Mas não percamos a esperança. Já aí está o Covid. Talvez ainda venham os zombies.
Comecei a ver esta temporada sem saber que não tinham conseguido filmar o último episódio devido à pandemia. Curiosamente, quando acabou o penúltimo episódio também não me preocupei muito que não existisse o próximo. A qualidade da série melhorou, sim senhor, a olhos vistos, depois da saída de Scott M. Gimple (que foi estragar “Fear the Walking Dead”). Mas já tenho muita dificuldade em acompanhar o que se passa e, principalmente, em importar-me com as caras novas que só conheço há meia dúzia de episódios. Para fazer esta crítica estou a usar a cábula dos resumos dos episódios do IMDB, porque assim de repente nem me lembro de nada. Quando uma série atinge este ponto (e uma série que já foi inesquecível) é doloroso falar dela.
Pois a Michonne lá se foi embora também, o que não é um spoiler para quem acompanha as notícias em torno da série. Michonne não morreu. Simplesmente abandonou os filhos (Judith e o pequeno Rick Jr.) em Alexandria e foi atrás de uma ténue pista de que Rick possa estar vivo. Alguma vez a Michonne que eu conheço agiria assim, abandonar dois filhos no meio do apocalipse zombie? Mas nem pensar. A Michonne que eu conheço ficou enlouquecida quando o filho dela morreu. Não ia abandonar os filhos por uma pista obscura.
As personagens vão tendo flutuações de personalidade conforme o enredo (e os contratos) obrigam, e a certa altura até as personagens que já conhecemos há muito tempo começam a agir “out of character”. Isto cria um fosso, uma dissonância entre o espectador e as personagens, como se subitamente elas fossem possuídas por extraterrestres (mas menos interessante), em que já nem as reconhecemos. Este novo “Walking Dead” é uma série diferente, e até compreendo a necessidade de evolução, mas transformar as personagens numa coisa que elas não são arranca-nos a última âncora que nos agarrava à história. Hoje em dia vejo “The Walking Dead” e já não sei muito bem o que estou a ver.
Muitos problemas foram resolvidos com a direcção de Angela Kang, mas alguns dos mais irritantes persistem. O mais irritante de todos, julgo que é opinião unânime, é a mania de pôr os personagens a fazer coisas estúpidas para avançar o enredo.
Sim, as pessoas cometem erros e os personagens ficcionais não são diferentes, mas os acessos de estupidez momentânea dos personagens de “The Walking Dead” já são lendários. Desta vez calhou a sorte a Carol (uma das personagens mais respeitadas exactamente por estar sempre um passo à frente dos outros) de se comportar como uma imbecil. Isto porque perdeu o outro miúdo, Henry, a quem deviam dar um prémio qualquer por ter conseguido ser o personagem mais estúpido de todo o cast de “The Walking Dead”, e não apenas momentaneamente (o miúdo era constantemente imbecil). Mas Carol é uma personagem que já perdeu muito, que já perdeu tudo, e aguentou-se. Que não ia perder a cabeça agora, a esta altura do campeonato. Foi doloroso de assistir.
E depois temos Negan, uma batota completa. O Negan que nós conhecemos era um sociopata sem remorsos. Este Negan está cada vez mais bonzinho. Querem à força que a gente esqueça como ele esmagou à cacetada os crânios de Abraham e de Glenn com a Lucille. Aliás, já nem se fala da Lucille, para as pessoas não se lembrarem. E como se não bastassem os homicídios e a megalomania, ainda houve aquela vez em que ele queimou vivo um médico só porque desconfiou que este se andava a fazer a uma das suas “esposas”, “esposas” estas todas obrigadas a serem esposas de Negan, mercê de ameaças às famílias delas. E é este o personagem que querem reabilitar. Negan não tem redenção possível. A única vez que concordei com Carol nesta temporada foi quando ela disse: “O Negan também podia desaparecer”. Ah, se podia. Esta é que é a Carol que eu gosto. Admito que o Negan tenha uma qualidade redentora. Sempre foi bom com miúdos e adolescentes, o que se manifestou logo quando ele interagiu com Carl. Isto faz parte da personagem como ela nos foi apresentada. O resto é fabricação para ver se conseguimos começar a suportá-lo. (Ó Rick, para onde te levou a senhora da lixeira, que não vens enfiar um balázio na cabeça deste gajo?)
Pelo menos não sou a única que não esquece. Aaron e alguns outros habitantes de Alexandria também não esquecem. Negan só está vivo porque eles estão a honrar a “última vontade” de Rick, a quem julgam morto, de que Negan deve ser preso e não executado sumariamente, porque eles são “melhores do que isso”.
Estranhamente, Negan e Alpha foram protagonistas da cena de sexo mais explícita que já se viu na série toda. Uma cena pervertida como só podia acontecer entre Alpha e Negan, mas aconteceu. Até os vimos aparentemente nus, ao longe. “The Walking Dead” nunca quis perder tempo com isso, mas nesta última temporada temos algumas cenas de sexo, incluindo entre duas lésbicas. Definitivamente, a série está mesmo a mudar com uma mulher ao leme.
Por falar em sexo. Outra batota, o padre Gabriel. Onde é que este personagem é o mesmo que a gente conheceu na temporada cinco? Andar com a Rosita deve ter-lhe feito muito bem à auto-estima. O homem agora parece um autêntico Rick Grimes. Até manda e fala grosso.
E por falar em Rosita, que tem uma filha com Siddiq. O que aconteceu a Siddiq foi uma manobra bem orquestrada como eu já não via há muito tempo em “The Walking Dead”. Não estava mesmo à espera daquilo, se bem que o espião dos Whisperers me tenha parecido uma pessoa implausível de sofrer uma lavagem cerebral por parte da Alpha. Mas os Whisperers, percebemos nesta temporada, já não eram simplesmente um grupo de sobreviventes, eram acima de tudo um culto. E nós sabemos o que os cultos fazem à cabeça das pessoas, e aquela Alpha era sinistramente carismática, portanto até vou admitir que deu a volta à cabeça ao médico Dante.
A nível de choques, penso que o Siddiq foi mesmo o choque da temporada. Conseguiram que a gente gostasse dele (não havia muito para não gostar, tirando o facto de que foi praticamente responsável pela morte de Carl por causa de um disparate de matar walkers para respeitar uma crença da mãe de Siddiq de que matar zombies era libertar-lhes as almas). Conseguiram que tivesse impacto. Isto acontece cada vez menos em “The Walking Dead”.
Do mal o menos, o nosso Daryl continua o mesmo de sempre. O disparate de adulterar a personalidade das personagens consoante convém ao enredo ainda não o atingiu. (Mas temo que venha a atingir.) Algumas das melhores cenas são entre Daryl e Carol, os veteranos da série, a conversar e a fumar um cigarro e a mandar bocas um ao outro como nos velhos tempos. O que só nos lembra de como esta série era boa quando o núcleo de protagonistas era sólido e coeso, mas já não é nada disso.
Houve alturas em que tive de fazer um esforço para me lembrar de quem era aquela cara que ali aparecia, de tal maneira já nem sei quem é que está na série e quem é que já morreu ou se foi embora. Por exemplo, não me lembrava nada que a Enid e a Tara tinham morrido na última “leva”, na temporada anterior, de tão insignificantes se tornaram os seus papéis. (Ou se calhar foram as actrizes que pediram para sair.)
O penúltimo episódio podia chamar-se “O gato que traiu Alexandria”. Sim, houve um gato, e ficou muito mal explicado como é que o Beta percebeu que o gato significava onde estavam os sobreviventes. Boo! Má escrita! Devíamos ter visto que havia um espião exclusivamente designado para espiar o gato, e aquele gato, pela sua importância, devia ter sido um personagem mais desenvolvido. Por exemplo, qual é a relação do gato com a Carol, com o Daryl, com o cão do Daryl, Dog? Como é que o Beta sabe que o gato é amigo de Lydia? Ou será que não é? A Lydia falou do gato de forma tão ambígua que eu fiquei na dúvida. E o Negan, a quem a Lydia falou do gato, o que é que ele sente pelo felino? Despertar-lhe-á pesadelos com Shiva, a tigra, que em tempos lhe comeu bastantes Salvadores? Tudo mal explicado. Aquele gato nunca se tornou um personagem tridimensional. Mal o deixaram dizer um mio. Nem sabemos se o vamos ver outra vez. Oportunidade desperdiçada de mergulhar na mente do cão do Daryl e de aprofundar o conflito com o gato, cujo nome deve ser Cat.
E assim acabamos mais uma temporada de “The Walking Dead”, que não chegou a terminar, na paródia. Já não dá para ver de outra maneira. É aceitar ou procurar outra série. Mas os zombies de Nicotero continuam tão bons, é difícil parar de ver.

§


Já depois de escrever este artigo li a notícia de que ”The Walking Dead” tem finalmente uma data marcada para acabar, lá para 2022 se a pandemia não atrapalhar. Talvez isto seja bom. Talvez a série desenvolva, agora que há um fim à vista. 
Também li por alto que estão planeadas mais spin offs, mas já houve tantos anúncios neste sentido, sem que se concretizassem, que nessas só acreditarei quando as vir.


segunda-feira, 17 de junho de 2019

The Walking Dead (9ª temporada)


[crítica à nona temporada; contém spoilers]

O maior spoiler desta temporada é que não foi tão deplorável como se previa. Apesar da perda do protagonista, a nova showrunner Angela Kang conseguiu melhorar a qualidade: as personagens começaram a tomar decisões racionais (na maior parte, pelo menos), a história voltou a fazer sentido, a série tornou a ser uma coisa que se consegue ver sem que nos apeteça atirar o comando à televisão.
Não gosto de ser maldizente, mas neste caso é completamente óbvio. Assim que Scott Gimple entrou, a qualidade foi por água abaixo. Angela Kang pegou na série e fez um trabalho hercúleo tendo em conta o estado em que a herdou. Scott Gimple foi para “Fear The Walking Dead“ e este último programa deixou de ter pés e cabeça. Factos.

Agora sim, uma telenovela
Até que ponto é que são spoilers quando já se sabia no fim da temporada anterior? Rick foi-se embora para fazer um filme televisivo (ou vários, já ouvi as duas versões) no universo Walking Dead. Maggie bateu com a porta porque não lhe deram o aumento que ela exigiu e foi fazer outro programa, mas pode muito bem regressar se essa tal série não for renovada (chama-se “Whiskey Cavalier” e eu não vejo). Outra baixa de peso foi já anunciada para a temporada seguinte. Não vou dizer quem, porque nem toda a gente acompanha este tipo de notícias, mas esta vai ser mesmo muito difícil de gerir. Sempre quero ver como é que vão descalçar esta bota. Pobre Angela Kang, se calhar não merecia herdar uma série a desfazer-se aos bocados.
O grande momento da temporada, não há como dar volta a isto, foi a “morte” de Rick Grimes. Esta foi mesmo uma morte anunciada, oficialmente e tudo, com todos os fãs à espera do episódio “fatídico”. E considerando os litros de sangue que Rick perdeu, noutra série qualquer teria morrido mesmo. Mas isto é “The Walking Dead” e fizeram batota.

[Spoiler: e pela primeira vez o cavalo safou-se! Finalmente! Até os cavalos já começam a tomar decisões racionais!]

Mas Rick foi-se mesmo embora. A grande questão era, e ainda é, pode a série continuar a agarrar os fãs se dos primeiros episódios só restam Daryl e Carol, e (mais ou menos do princípio) Michonne? Têm sido introduzidos novos personagens e a série tem feito um grande esforço para nos interessar por eles, mas a verdade é que aqueles que nos interessam são o grupo de Atlanta, aqueles que vimos sobreviver aos primeiros dias do apocalipse, aqueles com quem partilhámos todos os horrores e alegrias desde então até agora, os que ainda vivem quando tantos outros ficaram pelo caminho. Uma série bem feita ter-nos-ia conduzido até ao fim da história dos personagens relevantes, aqueles em que nós investimos desde o início. Mas “The “Walking Dead” prolongou-se demais, muitos actores foram para outros projectos, e agora está efectivamente a funcionar como telenovela. Entram uns, saem outros, sem que consigamos ter tempo de nos ligarmos a eles. Pelo menos podiam aprender com as telenovelas brasileiras: é comprido, comprido, mas um dia acaba antes que sature. Ora, “The Walking Dead” não quer acabar. Quer ser abatido pela falta de audiências. Por este andar, vai conseguir o que deseja.

Vilões sem pés nem cabeça
Mas é preciso dar o devido valor à nona temporada e à nova showrunner. Desde os primeiros instantes, num episódio chamado “A New Beginning”, em que até o genérico é diferente, percebemos que a série vai tomar outro rumo. Confesso que a princípio não gostei muito do novo genérico. Parece uma coisa saída de “outro filme”, um mundo futurista de Fantasia com cavalos e natureza verdejante, muito longe dos subúrbios urbanos e desertos que eram imagem de marca da série. Custou, mas acabei por me habituar. Este já não é o mesmo mundo. Este é um mundo em que a sociedade que conhecemos desapareceu, em que tudo tem de ser reinventado, em que as pessoas têm de voltar às carroças e à agricultura. Tudo isto foi um bocadinho um choque, porque já nem parece a mesma série. Eu, pessoalmente, preferia o ambiente urbano e os prédios desertos.


Mas nenhum choque foi maior, para mim, como o momento em que Negan apareceu. Inconscientemente, eu já tinha “apagado” Negan. A série começa com um salto temporal depois da guerra com os Salvadores e de alguma forma irracional eu tive esperança de que se tivessem “esquecido” dele. (Não seria a primeira coisa incoerente que a série fazia, mas seria de certeza a mais perdoável.) Sim, eu sei que nos comics Negan está preso, porque Rick quer mostrar que apesar de tudo as pessoas ainda podem recuperar algo da civilização perdida e não é preciso andarem a matar-se uns aos outros, e que Negan na prisão significa um regresso à lei e à ordem, sim. Mas Negan é uma personagem tão mal concebida, tão antipática, tão desinteressante, e agora completamente irrelevante atrás das grades, que o melhor era libertarem Jeffrey Dean Morgan para ir para o “Sobrenatural” onde faz mais falta.

[Spoiler: sim, Jeffrey Dean Morgan vai regressar ao “Sobrenatural”, já há imagens!]

Houve uma passagem em que Negan conseguiu fugir da prisão e eu rejubilei, sem ironia: “Sim, faz-nos esse favor, desaparece e não voltes! Adeus!” Desgraçadamente, ele voltou. Enfim, foi um momento de esperança.
O mais preocupante é que “The Walking Dead” continua a tentar redimir Negan, talvez até a ponto de o tornar um personagem importante na nova sociedade, e isso é um erro. Negan é um monstro e ninguém o quer ver dar-se bem. É verdade que tem jeito para miúdos e que as cenas com Judith, agora crescida, têm tentado convencer-nos de que ele é um homem mudado. Mas não é. O que a série estará a tentar fazer é transformá-lo noutro personagem completamente diferente, o que nunca é bom do ponto de vista da coerência. Isto não é bom drama e não ajuda à recuperação da série.
Mas mal tínhamos recuperado do primeiro salto temporal, em questão de poucos episódios, e ainda na primeira parte da temporada, há outro salto de alguns anos. Não me perguntem quantos. Só sei que agora a Judith tem aspecto de andar algures na terceira ou quarta classe, mas posso estar enganada. Entretanto [grande spoiler] Judith tem um irmãozinho mais novo cuja idade também não percebemos muito bem porque ainda mal o vimos. (Qual é o interesse em arranjar mais um descendente ao Rick Grimes se acabamos por não o conhecer?...)
Maggie já se foi embora, nem a vimos ir. Carol está a viver com o “rei” Ezekiel e estão ambos a criar o adolescente mais burro que já apareceu em “The Walking Dead”: Henry. Sinceramente, acho que aqui a série estava a gozar consigo própria e com a famosa estupidez dos seus personagens. Henry foi um puto criado com os melhores sobreviventes do seu mundo. Era impossível ser tão idiota. Carol merecia melhor. (E aqui lembrei-me da filha dela, Sophia, a que apareceu no celeiro com os zombies, na quinta. É curioso como ainda me lembro do nome dela. Mas tenho a certeza de que vou esquecer Henry assim que acabar de escrever este artigo. O que aconteceu a Sophia, todo o grupo a arriscar a vida para a encontrar, teve impacto. Fez crescer Carol e Daryl na nossa simpatia. Henry não teve importância nenhuma.)
O que nos leva aos novos vilões desta temporada, que Henry consegue atrair até às comunidades. Os Whisperers são a coisa mais irrealista que “The Walking Dead” já fez. Ainda mais irrealista do que a malta da lixeira. É preciso querermos acreditar muito para aceitarmos que algumas pessoas consigam viver disfarçadas de zombies durante anos e anos desde o apocalipse, e, ainda mais estranho, que nunca se tenham cruzado nem com Rick nem com nenhum outro grupo de sobreviventes. Como vilões, têm os seus momentos, mas é preciso desligarmos grande parte do cérebro para os aceitar.

Mas os zombies são imperdíveis...
Em suma, “The Walking Dead” já foi uma grande série mas talvez seja mesmo impossível recuperá-la das temporadas catastróficas da guerra com os Salvadores. Angela Kang fez um excelente trabalho e a qualidade melhorou a olhos vistos, mas à medida que os personagens importantes vão saindo os escritores vão tendo de improvisar o melhor que podem para acomodar essas perdas que nada têm a ver com o enredo. E é isso que a história parece agora: um improviso em cima do joelho. Tudo se ressente da longevidade, ou melhor, da velhice da série. Se de repente “The Walking Dead” fosse cancelado e não houvesse uma décima temporada eu não me importaria quase nada. E este “quase” significa Daryl, Carol e Michonne. Gostaria de os ver ter um fim coerente. Mas as esperanças de isso acontecer são quase nulas também.
E, no entanto, eu sei que continuarei a ver esta série (tal como “Fear The Walking Dead”) enquanto ela passar. É que os zombies de Greg Nicotero são muito bons, imperdíveis. Mas actualmente já não espero qualquer desenvolvimento dramático/emocional que me afecte, como acontecia no princípio, e é pena ver uma das minhas séries preferidas chegar a este estado.


segunda-feira, 4 de março de 2019

Risen / Ressureição (2016)

 

Clavius é um tribuno do exército romano incumbido por Pôncio Pilatos de provar que o corpo de Jesus foi roubado pelos discípulos.
Ao contrário de outros “filmes pascais” do mesmo género, este filme surpreendeu-me e penso que é capaz de agradar até ao ateu que nunca vê este tipo de coisas.
O filme começa com a legenda “Deserto da Judeia, 33 DC”, não nos revelando em que parte dos acontecimentos é que estamos. Logo de seguida, num flashback, Clavius e os soldados romanos lutam contra um grupo de insurgentes liderados por Barrabás. Aqui podemos pensar que foi Clavius quem prendeu Barrabás para o levar à cena bíblica em que Pilatos lava as mãos, mas em vez disso Barrabás morre na escaramuça. É Clavius quem o mata. E esta é uma maneira muito inteligente de o filme nos informar de que Cristo já foi crucificado.
Clavius é imediatamente chamado por Pilatos devido à situação em Jerusalém. Pilatos é um homem com o cargo em perigo. O imperador Tibério está para chegar em questão de dias e Pilatos não pode dar-se ao luxo de deixar transparecer que as rebeliões judaicas não estão completamente controladas. Os seguidores de Jesus, na perspectiva dos romanos, são uma facção de insurgentes e é fulcral que o corpo do seu líder não desapareça do túmulo, alimentado a profecia de que Jesus ressuscitaria. Quando o corpo desaparece mesmo, apesar das medidas de segurança reforçadas, Clavius começa a investigar quem o roubou.
Clavius investiga com a competência e o método de um verdadeiro detective dos nossos dias. Examinando cadáveres, seguindo pistas, pagando a informadores. Toda esta parte parece tanto um policial que quase nos esquecemos de que é um filme de inspiração bíblica. Mas num bom sentido, original e cheio de suspense. Clavius é tão bom detective que não só consegue descobrir a sala onde os onze apóstolos estão todos reunidos, como até encontra o que nunca lhe passou pela cabeça encontrar: o próprio Jesus ressuscitado. Tal como o apóstolo Tomé, que entra na sala e diz a Jesus que não acreditava se não visse, Clavius viu e agora tem de acreditar.
Este aspecto da ressurreição de Jesus, em que ele é visto pelos apóstolos em carne e osso, não é controverso por acaso. O filme trata-o com a maior naturalidade, sem grande misticismo para lá do implícito. Clavius é convidado a acreditar mas o filme acaba sem que se tenha decidido. O que fará depois fica em aberto. Não é costume um filme tipicamente pascal ser tão moderno sem deixar de respeitar a narração bíblica.

Nota pessoal: foi uma surpresa reconhecer a cara de Cliff Curtis (o Travis Manawa de ”Fear the Walking Dead”) no Cristo crucificado e ressuscitado. Agora vou ficar com umas associações estranhas na cabeça.

Dentro do género de filme de inspiração bíblica,

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sábado, 3 de novembro de 2018

World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)


O grande problema deste filme de zombies é que não tem zombies. Há um vírus tipo “28 Dias Depois”. Assim que alguém é mordido por um infectado, transforma-se em “zombie” em 12 segundos. 12 segundos! Nos casos mais demorados, 10 minutos. Não, isto não são zombies. Um zombie é um cadáver que come vivos. Estas pessoas não são cadáveres porque nunca chegaram a morrer.
Pior um pouco, em vez de ficarem mais lentos, os supostos cadáveres adquirem tanta força e velocidade que se nota perfeitamente que algumas imagens foram aceleradas por computador. Estes “zombies” são mais Incríveis Hulks ou algo do género.
E depois temos o enredo. Um ex-agente das Nações Unidas (nunca sabemos o que ele fez ao certo, excepto que era um durão), Brad Pitt (isto é, “Gerry Lane” interpretado por Brad Pitt, mas quem é que se interessa do nome do personagem quando Brad Pitt está no écran e não se chama “Louis”?), retirado da vida activa para se dedicar à mulher e duas filhas, uma destas com asma (mas isto nunca tem importância nenhuma), é o típico ex-militar dos filmes de acção que decide merecer o repouso do guerreiro. O personagem não passa disso, um Action Man a fazer de bom marido e pai extremoso. Como acontece nos filmes de acção, por razões e acasos ele acaba por ser chamado de volta ao seu trabalho quando há uma crise. E resolve-a. E aqui temos o enredo de filme de acção que já vimos ad nauseam.
World War Z até tem umas cenas interessantes no princípio, a lembrar o melhor de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead". (Faço um parêntesis para realçar como "The Walking Dead" se tornou o mais alto patamar de comparação em tudo o que toca a zombies. Tirando o primeiro filme de George Romero, “A noite dos Mortos Vivos” de 1968, realmente não vi melhor e há que admitir.) São as cenas em que se percebe que algo está mal mas ainda não se sabe o que é. Como aquele engarrafamento em que a família está dentro do carro e começa a ver motos da polícia a avançar por entre o tráfego e transeuntes aterrorizados a fugir na direcção inversa.
Infelizmente, toda esta tensão se perde quando o protagonista observa um “mordido” a transformar-se em “algo” (recuso dizer zombie) em apenas 12 segundos. Catrapás, já estás! A partir daqui o filme torna-se num daqueles enredos em que um herói é enviado a várias partes do mundo à procura do paciente zero, de uma vacina ou de uma cura. Torna-se definitivamente um filme de acção. Como bom filme de acção, não morre ninguém importante. Afinal, o herói tem de salvar a família para que tudo acabe bem.
Entretanto, vi supostos zombies a correr mais depressa do que os vivos, a escalarem muros e arranha-céus (!) tipo formigas umas atrás das outras, e a morderem tudo e todos sem nunca pararem para comer alguém. Mas que?!... Será que as pessoas que fizeram o filme alguma vez viram um filme de zombies? Sim, viram. Na verdade, sendo um filme de 2013, em que "The Walking Dead" já liderava audiências, se calhar até nem queriam fazer um filme de zombies, mas os zombies já estavam na moda e aqui está isto. Um filme que eu vi no engodo de ter zombies. Se me dissessem que era um filme de acção com pessoas infectadas por um vírus raivoso talvez não visse, pois não?
A este filme falta tudo o que é preciso para meter medo. É verdade, as últimas cenas são tensas, mas como já sabemos que ali está um típico herói de acção ninguém acredita que lhe aconteça alguma coisa. Afinal, ele tem de salvar o mundo!
O que nos mete medo, no zombie, é o horror de um cadáver humano que se reanima, podre e malcheiroso, para comer os vivos. (Simboliza, a bem ver, o horror da própria morte. Todos somos cadáveres a prazo). O que temos em World War Z são pessoas infectadas com um vírus raivoso. Sendo assim, preferi “28 Dias Depois”. Pelo menos é mais original. Os apreciadores de zombies não perdem nada se ignorarem World War Z.



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