domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ena. La reina Victoria Eugenia / Ena, A Rainha Vitória Eugénia (2024 - 2025)


Primeiro que tudo, o título não significa "Ena! A rainha Vitória Eugénia" mas antes "Ena, a rainha Vitória Eugénia". (Sim, eu li "ena!" e fiquei uns segundos a pensar o que é que ela teria feito para merecer o "ena"). Ena era a alcunha da rainha espanhola Vitória Eugénia, neta da rainha Vitória de Inglaterra, avó de Juan Carlos e bisavó do presente rei Filipe VI. Vitória Eugénia foi a consorte do último rei de Espanha antes do interregno, Afonso XIII, exilado em 1931. A acção da série centra-se sobretudo desde o início do século XX até ao pós-Segunda Guerra Mundial.
Confesso que conheço muito mal o período histórico português entre a instauração da República e o Estado Novo, mas do espanhol não conhecia mesmo nada. Por exemplo, nem me passava pela cabeça que Espanha não tivesse participado na Primeira Guerra Mundial, onde nós participámos. Esta série espanhola não explica os factos históricos em profundidade (é mais dirigida a quem já os conhece) mas fiquei a perceber muita coisa em que nunca tinha pensado.
Tive muita pena de Vitória Eugénia. Primeiro, teve de casar com um espanhol. Segundo, teve de viver em Espanha. Terceiro, assim que se casou descobriu que quem mandava no rei era a mãe do rei. Quarto, o marido era um mulherengo inveterado. Mas tudo isto era muito comum nas monarquias à antiga. Rainhas como Vitória Eugénia tinham um único propósito: gerar herdeiros. É claro que a série tentou romantizar a protagonista, mas eu não acredito que uma descendente da rainha Vitória, por jovem e ingénua que fosse, não soubesse muito bem o que esperar do casamento.
Vitória Eugénia, e isso é que eu acho mais fascinante, foi uma mulher do século XIX que viveu todas as revoluções do século XX. Da luz das velas às cidades iluminadas, do coche ao automóvel, dos canhões à bomba atómica, do espartilho ao biquíni. Vitória Eugénia viu o cinema, a televisão, e, embora já não tenha visto o homem na Lua, também assistiu à conquista do espaço. Não consigo imaginar outro período histórico com inovações científicas tão avassaladoras como estas devem ter parecido a quem nasceu no final do século XIX e viveu o século XX. (Como alguém que também mudou de século, e já vamos em 2026, não encontro nada no século XXI que se aproxime desta revolução vertiginosa, tirando a internet ao acesso de todos. Continuamos em evolução, mas o século passado foi uma explosão.) Estes choques tecnológicos não podiam deixar de influenciar também as mentalidades. Vitória Eugénia foi educada à vitoriana e preparada para uma monarquia à antiga, mas uma monarquia à antiga já não tinha lugar na modernidade e a própria Vitória Eugénia queria ser mais do que um enfeite e uma parideira, e efectivamente foi. Dedicou-se sobretudo a causas humanitárias como os hospitais para os pobres, a Cruz Vermelha e os prisioneiros de guerra. De muitas formas, foi já o modelo de rainha próxima e empática que as suas sucessoras europeias viriam a adoptar.
A corrente republicana ditou o exílio de Afonso XIII, e a monarquia só regressou a Espanha em 1975. Como disse, a série não se detém em profundidade a analisar os factos históricos. Afonso XIII, e o seu herdeiro Juan (pai de Juan Carlos), continuaram a escrever a Franco na tentativa de restabelecer a monarquia. Da perspectiva da série, não se consegue perceber se o fizeram em cumplicidade com o regime ou apesar dele. Na verdade, a série aborda o assunto com talvez demasiada leveza, quase como se Afonso XIII e Juan quisessem voltar ao trono só porque sempre foi assim e sempre assim será, haja ditadura ou haja democracia. A certa altura, um personagem até refere que "a Espanha é monárquica" na sua essência. Bem, o facto é que resultou e que a monarquia ainda lá está.
Por outro lado, compreendo que a prioridade de "Ena, A Rainha Vitória Eugénia" tenha sido dramatizar a mulher, retratá-la como esposa, mãe e avó, e não dar uma lição de História. Mesmo assim, aprendi muitas coisas que não sabia.

ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez

PARA QUEM GOSTA DE: Victoria, História, drama, séries de época


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