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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Crise, qual crise - habitação

Há muito tempo que não falava de política/sociedade. Ora cá vai um apontamento da actualidade.
Eu devo ser mais lenta do que pensava. Finalmente consegui perceber o que é afinal a Puta da Crise Crónica - Crise, Qual Crise?, sobre a qual ando aqui a escrever há anos.
Tenho ficado muito perplexa com a "crise da habitação". Mas qual crise? As casas estão caras, não se consegue arrendar? E onde é que está a novidade? Qual é a diferença agora? Nos anos 60 e 70 a minha tia arrendava um apartamento de várias assoalhadas em Lisboa com os quartos todos "alugados". Um estivador aqui vizinho "arrendava" uma despensa de pátio onde só cabia uma cama de molas e um fogão de campismo. Outro vizinho vivia num armazém de refugo de madeira (antigo palheiro para animais de manjedoura), exíguo, de uma fábrica quando havia fábricas em Lisboa. Vivia-se assim, sempre foi normal. E havia barracas, sim havia, nos arredores. O palheiro sempre era mais perto do local de trabalho.
De repente, fez-se um clique, um momento EUREKA. Só se chama crise quando afecta a classe média. Quando (ainda só) afecta os pobres não faz mal, é normal, "não estudaram/não querem trabalhar". Mas quando toca nos filhos daqueles que conseguem arrendar e pagar empréstimos, aí já é crise. Percebi.
Isto já aconteceu com a crise do emprego precário, nos últimos 20 anos, quando os filhos da classe média saíram das faculdades e não conseguiam arranjar nada sem ser a recibos verdes (hoje recebem o ordenado mínimo). Pensei que, sei lá, as pessoas tivessem aberto a pestana. Afinal não.
Não é crise quando só afecta os filhos dos pobres. Está esclarecido.
 

domingo, 31 de julho de 2022

Snu (2019)

Este foi um filme que adiei ver, e um filme que me custou a ver com imparcialidade. Por esta razão, vou pôr as cartas todas na mesa. Tinha apenas 8 anos quando Sá Carneiro morreu, mas a verdade é que já nessa idade nunca gostei da pinta dele. Também é verdade que raramente gosto da pinta de qualquer político, mas este em particular, que era primeiro-ministro e que eu via na televisão todos os dias, não me dava boas vibrações. Nem sequer estou a falar da ideologia que o político preconizava porque era demasiado nova para a compreender. Estou a falar do homem, da antipatia que sentia por ele. (Embora eu esteja perfeitamente convencida de que o homem foi de facto assassinado, mesmo que a bomba não fosse para ele. Veja-se sobre isto outro filme controverso, “Camarate”.)
Em 1980 não sabia nada da Snu Abecassis, nem tinha idade de saber. Tínhamos acabado de sair da ditadura, não era coisa que se falasse na Crónica Feminina. Os mais velhos também não falavam do assunto, e depois de Sá Carneiro morrer muito menos, para “não falar mal dos mortos”. Só descobri já na adolescência.
Mas este filme não é sobre política, mas sobre a história de amor entre Sá Carneiro e Snu. Mesmo assim, tive muita dificuldade em abstrair-me das ideias políticas, ainda por mais quando o filme mostra constantemente intervenções reais do verdadeiro Sá Carneiro na televisão da altura. Numa delas, ele dizia que o PPD estava a fazer tudo para que os “mais jovens tivessem um futuro melhor”. Eu ri-me, ri-me às gargalhadas. Não por culpa dele. Se calhar ele até estava a ser sincero (não tenho razão para pensar o contrário). Mas tanta gente se colou a ele, tanto energúmeno ao longo da história do PPD/PSD, incluindo o senhor Passos que mandou os jovens saírem da zona de conforto e imigrarem. Se calhar Sá Carneiro não merecia lapas destas agarradas à sua memória, mas os mortos não falam. A verdade é que, para além da antipatia que eu já sentia por ele, Sá Carneiro me lembra todos estes figurões que vieram a desfilar depois dele pelo PPD/PSD e foi difícil ver o filme sem ter isso sempre presente.
Mas vou pôr a política de lado e vou tentar.
“Snu” funciona como um documento histórico preciso, tão preciso que me irritou. Irritou-me aquela gente rica toda, aqueles betos que tratam os paizinhos por você e vice-versa, aquela gente de famílias opulentas que tinha grandes casas de banho onde tomar banho ou duche numa altura em que o povo passava mal, mesmo muito mal, e ainda se lavava num alguidar. Lá está, novamente, a dificuldade em avaliar o filme de forma imparcial. Ver o filme deu-me vontade de arrancar os cabelos, o que só significa que está muito bem feito. Foi pena não termos ao mesmo tempo a outra face da moeda: aquela gente pornograficamente rica enquanto o povo vivia na miséria.
Mas esta é uma história de amor trágico. Ainda antes da tragédia propriamente dita, o casal teve de enfrentar o grande problema das mentalidades. Nos anos 80, O PPD ainda cheirava a igreja. Este cheiro foi progressivamente passando para o CDS (RIP) e por lá ficou. (Sim, eu não queria falar de política, e estou a conter-me, mas é difícil quando o protagonista foi um antigo primeiro-ministro.) Na altura, PPD e CDS mal se distinguiam, daí a AD (Aliança Democrática) com outro partido improvável visto do nosso tempo: o PPM (Partido Popular Monárquico). Este era um Portugal profundamente salazarento, pidento, todo ele a cheirar a igreja católica. Um primeiro-ministro não podia apaixonar-se, e muito menos divorciar-se. (Ainda há alminhas, em Portugal de 2022, que não querem divorciar-se porque é pecado, tenhamos isto em atenção! O cheiro a igreja impregna-se no cérebro e depois custa a sair, quando alguma vez sai.)
Snu e Sá Carneiro, ambos casados, tiveram o azar de se apaixonarem naquela altura. Não chegou a ser um escândalo público porque, tragicamente, não houve tempo para que toda a gente soubesse. Algumas notícias em alguns jornais, mas nunca o falatório que seria agora.
O filme chama charmoso a Sá Carneiro bastantes vezes. Ora, eu não podia discordar mais. A carantonha que aparecia na televisão era tudo menos charmosa. Mas, quem sabe? O que somos em público é muito diferente do que somos em privado, e o que somos na intimidade ainda pode ser mais charmoso. Snu e Sá Carneiro eram um amor proibido para a altura, o que talvez ainda os tenha aproximado mais. A eterna tragédia de Romeu e Julieta.
Se nunca achei Sá Carneiro charmoso, não posso dizer o mesmo do actor que o representou, Pedro Almendra. Tão charmoso que se calhar até me convencia a votar nele! A personagem Snu (nunca conheci, nem sequer vi a pessoa real) faz um retrato muito convincente de alguém que se apaixona por um homem pelo seu ideal. Não é o meu ideal, mas compreendo. Até compreendo todas as boas intenções daquele tempo, embora discorde delas profundamente.
Sá Carneiro quer casar com Snu, mas isso implica divorciar-se da mulher que é a mãe dos seus não-sei-quantos-filhos. De acordo com a mentalidade da época, a mulher não lhe quer dar o divórcio. Acredito que seja daquelas que ainda hoje não daria o divórcio. Aqui posso fazer também o meu juízo de valor e perguntar-me porque é que um homem de visões mais largas casou com alguém de visões tão estreitas? Porque dava jeito ter uma esposa “bem”, muito honrada e católica? Reparem, não estou a falar mal dos mortos. Estou a dizer que sempre, em todas as épocas, a gente se deita na cama que faz. Às vezes há quem se deite na cama que parece mais fácil só para descobrir que é uma cama de picos. Vamos esquecer que estas personagens são pessoas reais. Vamos imaginar que são ficcionais. Quando ele casou com ela, como ela diz, colocou-lhe um anel no dedo e disse-lhe que era até que a morte os separasse, sabendo bem que ela levava essa promessa muito a sério. Também compreendo que algumas pessoas mudam, divergem, e não se tornam a encontrar. Mas aqui há culpa para toda a gente e para ninguém. E sim, sei que estou a dizer isto do conforto de 40 anos depois. E, mesmo assim, ainda há quem não tenha percebido estas coisas básicas: as pessoas mudam, divergem. Nada é para sempre. Que este filme sirva ao menos para abrir alguns olhos ainda embaciados de incenso de sacristia.
A nível das interpretações tenho de dar dois grandes parabéns:
À actriz Ana Nave, que fez uma Natália Correia tão real que até me esqueci de que não era a própria. (A Natália Correia eu tive muitos anos para conhecer.) Trabalho extraordinário. Até fiquei arrepiada.
À actriz Joana Brandão, que fez uma Manuela Eanes exactamente como eu me lembro dela. Fiquei igualmente arrepiada.
Já outros personagens não foram tão bem conseguidos. Só percebi que era Mário Soares quando Snu lhe chama Mário. Maria Barroso, Freitas do Amaral, Ribeiro Telles, Helena Roseta, etc, etc, não os reconheci. Mas o filme também não era sobre eles.
Tirando tudo isto à parte, este é um documento histórico (e político) sobre a vida da alta sociedade portuguesa à saída dos anos 70. Reconheci tudo, vi tudo. Do outro lado da história, mas vi. De tal forma que é difícil fazer as pazes com o que se passa aqui, por muito que queira. A história de amor é bonita e trágica, Romeu e Julieta, que não tinha de acabar assim, e não devia ter acabado assim porque ninguém o merece. Mas este era também um mundo bafiento e fechado, um mundo que Snu e Sá Carneiro, na maturidade das suas vidas, queriam arejar. Era inevitável abrir as janelas.
Uma das melhores partes do filme é quando se mostram imagens reais da Revolução de Abril misturadas com filmagens actuais e “envelhecidas” de Snu e Sá Carneiro. Portugal precisava dessa Revolução de Abril, mas ainda precisava mais da outra, da revolução de mentalidades que seriam Snu e Sá Carneiro. Que ainda precisa, 40 anos depois. Se foi isto que o filme quis fazer, e acredito que foi, então fez bem.

(Não vou dar nota ao filme porque não consigo ser imparcial.)


sábado, 31 de outubro de 2020

O grande abanão

E porque logo é Halloween, aqui vai um post do diário pessoal do terror quotidiano, 100% Gotika™.
Transcrevo de seguida parte do artigo de opinião de Pedro Gomes Sanches, “Portugal: crónica de uma morte anunciada?”, publicado no Observador online a 25 de Outubro.
É sempre tão saboroso quando encontro quem diz tudo o que eu já ando aqui a dizer há 17 anos! Só é pena os mesmos não terem aberto os olhos mais cedo, e agora já é tarde para mim. Se calhar bateu lá à porta dele? Desculpem lá o cinismo, é o que tenho observado nestes 17 anos de blogosfera, desde o tempo em que eu dizia coisas destas e me mandavam para o psiquiatra porque estava “deprimida” (nunca lhes tinha batido à porta deles):

Era uma vez um país a empobrecer. Não a empobrecer por causa da pandemia, que apenas agravou e tornou indisfarçável esse empobrecimento, mas de antes, de mais de duas décadas sem rumo. Sem reformas. Não “um país” como construção abstrata, estatística, apenas captada nos números do PIB per capita cada vez mais distante da média europeia; nos números crescentes da dívida pública. Não. Um país de pessoas a empobrecer. Da angústia nunca mais debelada dos dias 20 a 30 de cada mês, em que se come menos e protela mais. Mês após mês. Ano após ano. Das famílias com passes sociais mais baratos, mas com pior serviço de transportes, cada vez menos frequente, cada vez mais cheio, cada vez menos pontual. De um país a morrer de envelhecimento, a debater-se com o encerramento das urgências pediátricas e obstétricas nos hospitais públicos mais próximos de casa, onde continuar a ter filhos é um misto de loucura e coragem. De um país com a maior carga de impostos da história, proclamações entusiasmadas de defesa do Serviço Nacional de Saúde, mas as primeiras consultas de especialidade e as cirurgias que não acontecem, penalizando cada vez mais os mais vulneráveis; que são também cada vez mais.

Era uma vez um país a perder liberdade. Não a perder liberdade em termos formais, que este país, em matéria de liberdade, sempre proclamou muito mais do que aquilo que concretizou. Mas a perder liberdade de facto. Famílias com menos oportunidade de escolha na educação a dar aos seus filhos. Casais com menos rendimento e maiores encargos, com menos infraestruturas públicas que impostos, sem horários nem apoios, impossibilitados de terem filhos. Trabalhadores sem expectativas de promoção. Empresários sem incentivo para promoverem. Jovens qualificados, hoje, sem expectativa de ganhar mais que mil euros, tal qual os seus antecessores nessa demanda há, pelo menos, 15 anos.

Era uma vez um país sem esperança que desistiu de si e do futuro. Não um país agarrado às grandiloquências do passado, das descobertas e dos “novos mundos ao mundo”. Mas um país sem qualquer visão de futuro. Nem tanto, apesar de também, um país demasiadamente ocupado em gastar no dia-a-dia o dinheiro que a União Europeia lhe envia há 35 anos, sem querer investir solidamente num futuro sustentável, sem qualquer aposta na sua emancipação. Mas um país em que os jovens qualificados só “lá fora” adivinham riqueza e mobilidade social. Um país cozinhado nos partidos políticos, com avenças e lugarzinhos para distribuir pelos leais, sem que a competência seja, vagamente sequer, critério. Um país de velhos abandonados pelos seus e pelo Estado no presente, agarrados a idealizações passadas mais felizes. Jovens sem expectativa de futuro, presos ao presente em casa dos pais de onde saem cada vez mais tarde. Um país tão desesperançado em si, que até o Primeiro-ministro, de um partido para quem a dívida pública nunca foi um problema, derrogou, não inocentemente, a possibilidade de recurso a empréstimos da União Europeia com condições muito favoráveis, simplesmente porque não acredita na possibilidade de retorno positivo económico do investimento que pudesse ocorrer com esses mesmos empréstimos.


Até aqui concordo com tudo. Excepto com a parte de jovens qualificados “sem expectativa de ganhar mais que mil euros”. Quais mil euros, ó pázinho? Onde é que se ganha mil euros, até já com experiência profissional de 20 anos? No meu tempo os jovens qualificados iam trabalhar para as empresas de borla, como estagiários, durante anos! Com os paizinhos a financiar.
Mas depois o autor estraga tudo, e revela a sua agenda política, quando diz: “Neste país manda o Governo mais incompetente de que há memória, pelo menos, desde o PREC.”
A memória do autor do artigo não pode andar muito bem, porque eu lembro-me de muito mais incompetência e, acima de tudo, de corrupção endémica e sistémica. Este é o governo mais incompetente desde o PREC? Não me façam rir. Isto não começou aqui nem ali, isto vem “de longe, de muito longe”, como diz a canção, e todos têm sido incompetentes e, acima de tudo, corruptos.
Este também foi o governo que se deparou com as maiores tragédias que tenho em memória no pós-25 de Abril (corrijam-me se falhar alguma), os incêndios de 2017 e a pandemia. Já nem falo da pedreira de Borba porque já é normal que de vez em quando caia uma ponte (Entre-os-Rios, 2001, 59 mortos), devido à inépcia e incúria na sua conservação (em Portugal o dinheiro tem sempre para onde ir menos para onde é importante, não se sabe já?).

Mas se pensam que estou aqui a defender o Costa, nem lá perto. O Costa anda numa deriva autoritária, não porque goste, coitado, mas porque o obrigam, porque se as pessoas fizessem o que ele quer o Costa não precisava de ser autoritário. (Não fui à procura do link para isto nem acho que precise. Toda a gente ouviu.)
O Costa precisa de um “abanão”, como ele próprio diz, assim tipo a polícia a mandá-lo parar na rua e a pedir-lhe os documentos que provem que é Primeiro-Ministro, porque é sempre muito agradável ser parado na rua, como um criminoso, para provar que vamos trabalhar, como se o simples facto de ir trabalhar não fosse já suficientemente desagradável. E já agora, ao Presidente da República também: “Mostre lá os documentos de Presidente, faxavor.”
Aliás, todos os partidos do “arco” estavam a precisar de um abanão, e tiveram-no quando lhes entraram pela porta dentro quatro novos partidos, algo impensável, por exemplo, quando comecei este blog. Eleger o Bloco de Esquerda lá para dentro já custou o que custou, digo eu que ajudei.
Aqui não me interessam as doutrinas, ideologias e filosofias dos novos partidos na Assembleia, mas apenas que foram eleitos. Interessa-me que houve um número significativo de portugueses que se fartou de votar com a carneirada e começou a votar nas alternativas que se lhe apresentaram. Portugueses que quiseram “ser a ovelha negra” (os leitores mais antigos lembrar-se-ão deste slogan do PSR). Portugueses que realmente deram um “abanão” aos partidos comodamente instalados a distribuir tachos pelos amigos, família, e negociatas ainda mais sórdidas.
Ainda se deve ter esperança, afinal, no povo português?

Quando é que são mesmo as próximas eleições?



domingo, 14 de junho de 2020

A narrativa política do medo

Transcrevo integralmente o artigo de opinião "A narrativa política do medo" de Teresa Roque publicada no Observador de 7 de Junho de 2020.
Concordo com tudo o que a senhora diz, o medo, as histeria, os media, o poder dos media sobre os governos, a economia.
Faltou falar de uma coisa que esta pandemia veio agravar por cá: o conflito geracional. Não é só do tempo da troika, é de antes ainda, quando gente como eu era explorada como estagiários não remunerados por estes mesmos velhinhos que agora nos pedem para proteger. Mais uma vez, é a geração que está agora nos quarentas ou menos anos quem está a ser mais prejudicado por ainda outra crise, a mesma geração que devia estar activa e a pagar as pensões dos velhinhos que mais uma vez vê os seus rendimentos cortados e ainda mais diminutas as perpectivas de receber uma reforma decente quando chegar a sua vez. A mesma geração que abdicou de ter filhos por não ter capacidades financeiras e redes de apoio, a mesma geração que não vai ter quem lhe pague a reforma.
Agora calo-me e deixo a senhora falar, com os meus parabéns por um artigo tão lúcido e que dá voz a tantos pensamentos discordantes que não têm tido lugar nos media do terror e da histeria.

A narrativa política do medo

Vivemos num limbo em que não é possível fazer planos para o futuro, nem tão pouco pensar em como será a vida na próxima semana ou no próximo mês. Tornámo-nos prisioneiros das decisões do governo.


Vamos ser sinceros: na questão do confinamento, as regras foram alteradas a meio do jogo. Quando foi introduzido pela primeira vez, o principal objetivo do confinamento era o de impedir que os serviços públicos de saúde viessem a ficar sobrecarregados. Todos ficámos chocados com aquelas imagens horríveis vindas de Itália, em que os médicos, por não terem camas de cuidados intensivos suficientes, se viram forçados a fazer de Deus e a escolher tratar, de entre os pacientes críticos, aqueles que tinham mais hipóteses de sobreviver.

Objetivo esse que foi atingido. Não há sinais de que os sistemas de saúde públicos estejam ou possam vir a colapsar. Contudo, o confinamento, apesar de ter vindo a ser progressivamente aliviado, continua. O bicho-papão de uma segunda onda paira sobre nós. As escolas continuam fechadas. Os restaurantes são obrigados a trabalhar com cotas inferiores à sua capacidade. Os hotéis estão vazios e as companhias aéreas cada vez mais fragilizadas.

Tudo isto pode ou não ser necessário. O futuro o dirá. O que me incomoda é a falta de debate acerca de outras alternativas possíveis. E existem alternativas. Os meios de comunicação social, os responsáveis políticos, a OMS e alguns epidemiologistas continuam a acenar-nos com o temor a Deus. Para começar, isto foi tão bem conseguido que, mesmo que o governo decretasse a abertura das escolas amanhã, é de duvidar que a maioria dos pais deixasse os seus filhos regressar às aulas. Também duvido que a maioria dos restaurantes e empresas regresse à normalidade tão cedo. Continuamos a viver num limbo em que não é possível fazer planos para o futuro, nem tão pouco pensar em como será a vida na próxima semana ou no próximo mês. Em suma, tornámo-nos prisioneiros das decisões do governo.

Não houve sequer discussões públicas suficientes sobre se estes confinamentos são ou não epidemiologicamente sensatos. Podemos afirmar que parte da responsabilidade disto cabe aos media. Poucos são os dissidentes a quem é dada voz audível. A contração sem precedentes históricos da vida económica, a destruição dos meios de subsistência das pessoas, as operações e os tratamentos oncológicos que foram suspensos, as consequências emocionais e traumáticas que este confinamento continua a ter, tudo isto é considerado significativamente menos importante do que a própria Covid-19. Ao contrário, a narrativa da política do medo continua a estar na ordem do dia. Todos os dias continuamos a ser bombardeados com o número de mortos ou de novos infetados nas últimas 24 horas. São estes números que permanecem na mente das pessoas e que guiam todos os nossos movimentos. Mas pouca importância é dada aos especialistas que discordam desta política. Também pouca relevância é dada às dificuldades económicas por que as pessoas estão a passar. O nosso mundo parece ter sido resumido a um único tema – Covid-19.

Contudo, só existe uma única verdade, e encontrámo-la? Ainda não existe um conhecimento científico definitivo no que diz respeito à Covid-19. A OMS e todas as autoridades de saúde que têm vindo a seguir as indicações dos especialistas já falharam várias vezes. Em fevereiro, fomos informados de que a Covid-19 não poderia ser transmitida de humano para humano. No início, as máscaras não eram consideradas necessárias, agora são indispensáveis e quem for apanhado sem uma poderá ser multado ou preso, dependendo do país em que viva. Por um lado, libertaram-se alguns prisioneiros, por outro, há pessoas que são presas por supostamente porem outros em risco. Que sentido faz isto tudo?

O modelo estatístico do professor Neil Ferguson foi fundamental para influenciar as políticas de luta contra a pandemia de muitos governos. No entanto, recentemente, ele próprio foi visto a desrespeitar as políticas de distanciamento social que ele mesmo apregoava. Em toda a comunicação social do Reino Unido não se falava de outra coisa se não do facto de ele ter sido apanhado em flagrante a furar o confinamento social por razoes do seu foro pessoal sentimental. O que está aqui em causa é a hipocrisia do seu comportamento. Mas, acima de tudo, o que deveria ser questionado são as medidas impossíveis (e, ouso dizer, não provadas) que ele nos disse para tomarmos. Em primeiro lugar, era de uma grande ingenuidade acreditarmos que todos adeririam religiosamente ao confinamento social global. As pessoas são capazes de ajuizar e de tomar decisões sensatas. Visitar os pais ou companheiros e fazê-lo com sensatez não é exatamente o mesmo que pôr em risco a saúde pública em geral.

O que mais me impressiona é não ter havido, inicialmente, grande discussão e análise crítica dos pressupostos e do modelo matemático do Sr. Ferguson. As suas estatísticas foram consideradas como a única verdade possível. Segundo o seu modelo, o Reino Unido perderia 500.000 vidas e os EUA entre 1 e 2 milhões se nada fosse feito. Atualmente, estão ambos muito longe disto.

Podemos legitimamente argumentar que foram tomadas medidas e que, por isso, não temos uma ideia clara de quais poderiam ser os números reais, caso não as tivéssemos tomado. É verdade. Assim sendo, deveríamos tomar como exemplo um país que não seguiu o cenário de destruição iminente de Ferguson – a Suécia que, segundo a estimativa, pagaria o preço de 40.000 mortes por não ter optado por uma política de confinamento. De momento tem cerca de 4500. Uma ligeira diferença. E quanto à experiência comprovada do professor? Em 2005, previu que 200 milhões de pessoas morreriam de gripe das aves, que afinal matou 282 pessoas em todo o mundo entre 2003 e 2009. Não é o melhor dos currículos.

As previsões de Ferguson, apesar de erradas, podem, inicialmente, ter salvo vidas, não o contesto. Os nossos responsáveis pela saúde pública não estavam preparados para uma pandemia mundial, transmitida pelo ar e altamente infecciosa. A curva pandémica necessitava de ser aplanada. Agora, se isto deveria ter sido conseguido à custa de medidas draconianas é outra questão. Se tivéssemos optado por uma abordagem mais focada, em oposição a um confinamento social global que fechou em casa todas as pessoas jovens e saudáveis, talvez tivéssemos alcançado o mesmo resultado em termos de sinistralidade humana. Poderíamos ter concentrado esforços e mais recursos para proteger aqueles que mais precisavam da nossa proteção: pessoas em lares de idosos e pessoas com doenças crónicas e outras condições subjacentes que constituem os grupos de maior risco para contrair o coronavírus.

Nada disto foi discutido. Tomámos como exemplo a situação da China e da Itália e aplicámos o mesmo remédio, prejudicando seriamente a nossa economia no processo e causando grandes estragos e miséria no bem-estar financeiro, emocional e físico das pessoas. E, contabilizámos as mortes que poderiam ter sido evitadas se as pessoas se tivessem deslocado em busca de assistência médica quando dela necessitavam em vez de terem ficado em casa, com medo de ir aos hospitais?

As nossas sociedades têm vindo a tornar-se completamente avessas ao risco e há uma autêntica relutância em usar o bom senso. Já não contemplamos o que são bens sociais e necessidades sociais. Há algum tempo nas redes sociais, circulavam imagens perturbadoras de creches francesas, onde as crianças tinham quadrados marcados no chão aos quais deveriam estar confinadas. Em primeiro lugar, isto deita por terra a própria finalidade de um infantário, local privilegiado para que as crianças aprendam a interagir socialmente. Em segundo lugar, e quem já teve alguma experiência em lidar com crianças pequenas sabe-o, é quase impossível fazer com que as crianças cumpram essas regras. Já é bastante difícil conseguir que se mantenham nos seus lugares à mesa, quanto mais obrigá-las a ficarem confinadas a um quadrado desenhado no chão quando têm os seus amigos a poucos metros de distância. Por fim, esta estratégia constitui uma situação que é completamente antinatural e francamente desumana. Ainda para mais, é uma regra que lhes está a ser imposta numa altura em que não há ainda provas científicas de que represente de facto um enorme risco para a saúde permitir que as crianças estejam a menos de dois metros umas das outras. De momento, as evidências sugerem que é bem menos provável que ocorra transmissão do vírus entre crianças pequenas do que entre adultos.

Há uma narrativa crescente de que a Covid-19 irá tornar-se endémica, ou seja, de que será uma doença que nunca desaparecerá completamente e se tornará parte da família de doenças com as quais tiremos de nos habituar a viver. A Covid-19 não foi uma pandemia sem precedentes. Sem precedentes foi a nossa reação a esta doença e a forma como continuamos a reagir-lhe.

O problema agora é: como será que podemos sair do confinamento? As pessoas foram tão eficazmente assustadas que vai ser muito difícil fazer com que saiam para ir trabalhar, ir a restaurantes, ir de férias ou regressar à escola. Uma coisa é abrir os restaurantes; outra, completamente diferente, é persuadir as pessoas a sair para irem comer fora.

Todas estas novas regras trazem consigo uma grande indefinição. Afinal de que estamos realmente à espera? De uma cura milagrosa ou de uma vacina que tenha sido descoberta apressadamente sem que tenha sido suficientemente testada? Quantos estarão dispostos a correr o risco de administrar aos seus entes queridos uma vacina cujos efeitos secundários não são ainda suficientemente conhecidos? Deveremos aguardar que a doença simplesmente desapareça?

Com toda esta incerteza, como é possível gerir um negócio com sucesso? Se tem um restaurante e sabe que, neste momento, terá de sentar os seus clientes a dois metros de distância uns dos outros, como poderá servir um número de pessoas suficiente para cobrir as suas despesas? Não há países sem economia. Uma economia não é meramente um conceito abstrato. É o que nos permite ter a vida que temos. Não é possível ter uma vida como a que conhecemos sem ter uma economia que funcione. A sociedade implodiria e todos seríamos atirados de volta para tempos indesejáveis, em que não teríamos nada mais com que contar a não ser connosco mesmos.

Os países têm vindo a definir diferentes políticas e a tomar diferentes medidas para sair do confinamento. O conhecimento científico não está solidificado. Os governos cometem erros. Não são infalíveis. As ideias mudam. Nem sequer há consenso entre epidemiologistas e outros especialistas desta área. Com toda esta incerteza no ar, alguém terá de tomar decisões. Mas deixem que estas se baseiem o mais possível na ciência, nos factos e no senso comum, e não na política. Permitam que estas decisões tenham por base um equilíbrio de importância entre todas as dimensões do problema, e que não contemplem apenas uma. Acima de tudo, ouçam-se também os discordantes, aqueles que sempre acharam que o confinamento total não era uma boa ideia. Afinal, a liberdade de expressão e o protesto político sempre foram algo pelo qual as pessoas estavam dispostas a dar a vida.

sábado, 13 de junho de 2020

Coronavírus: as máscaras protegem?

Artigo de Gabriel Branco, Diretor do Servico de Neurorradiologia do Hospital Egas Moniz. no Observador de 6 de Junho de 2020. Transcrito integralmente.

Bases científicas sobre o uso de máscaras para proteção individual e social

As máscaras são para ser usadas por pessoas doentes em contacto com pessoas saudáveis, pelos cuidadores de pessoas doentes e por quem desinfeta zonas hospitalares referenciadas, por mais ninguém.
 
A população em geral tem sido aconselhada ou obrigada por Lei a usar máscaras que cobrem a boca e nariz, sem que as autoridades responsáveis por essas sugestões ou ordens tenham fundamentado de forma clara as provas da eficácia dessa prática, no que se refere à prevenção de doença respiratória viral.

Parece ser útil no interesse da saúde pública conhecer os dados científicos disponíveis sobre a eficácia dos diversos de tipo de máscaras na proteção contra estes agentes.

Existem basicamente 3 tipos de máscaras:

    Máscara têxtil reutilizável após lavagem;
    Máscara de tipo cirúrgico, de elásticos ou atilhos;
    Máscara filtro respiratório, designadas P1 a P3;

As máscaras cirúrgicas foram concebidas para proteger o campo operatório, filtrando 95% das bactérias expiradas, por reterem partículas a partir de 1000 nm. Não foram concebidas como filtros respiratórios de proteção individual.

A letra P é uma abreviatura de FFP (Filtering Face Piece); estas são as únicas máscaras que podem ser consideradas como filtros respiratórios. A maior parte das máscaras FFP contêm um filtro plástico central, mas muitas máscaras correntemente em uso em Portugal, com código KN300, não têm esse componente, embora possam ser classificadas como P1 ou P2.

Nos EUA a sigla N95 é equivalente a P2 ou P3 na Europa. Os números 95 e 300 significam que há uma capacidade de filtrar 95% ou mais de partículas de dimensão igual ou superior a 300 nm.

Revendo a literatura científica, devemos considerar a superioridade dos RCT sobre os artigos gerais. RCT são Estudos Randomizados Controlados e representam o grau de prova máxima que é possível obter em ciências médicas e biologia.

Especificamente sobre a proteção de máscaras contra os vírus da gripe, destaca-se um grande artigo de revisão crítica sobre a eficácia das máscaras, cuja conclusão passo a citar: “Nenhum dos estudos estabeleceu uma relação conclusiva entre o uso de máscara/respirador e a proteção contra a infeção por gripe (influenza): Influenza Journal (DOI:10.1111/j1750-2659.2011.00307.x)

A eficácia da máscara cirúrgica é definitivamente colocada em causa num RCT de boa qualidade, que compara a eficácia da máscara cirúrgica com os filtros respiratórios: A cluster randomized clinical trial comparing fit-tested and non fit-tested N95 respirators to medical masks to prevent respiratory virus infection in health care workers. Influenza and Other Respiratory Viruses (DOI:10.1111/j.1750-2659.2010.00198.x)

Ou seja, a utilização de máscaras têxteis no âmbito da prevenção de doença respiratória viral é prejudicial, pelo que a sua circulação deveria ser proibida.

Assim, a Organização Mundial da Saude (OMS) publicou em 6 de Abril de 2020 uma reavaliação sobre o uso das máscaras de proteção individual, sobre o assunto específico do Coronavirus. E concluiu: “as máscaras continuam a estar recomendadas apenas para certos grupos específicos – doentes infetados com o SARS-Cov-2, pessoas com sintomas, cuidadores ou profissionais de saúde em contacto com doentes infetados ou suspeitos.”

Nos estudos científicos as máscaras cirúrgicas são utilizadas por um máximo de 4h. O uso continuado de máscaras, sobretudo em exercício, reduz a oxigenação e aumenta a taxa de CO2. A acumulação de humidade e a concentração de partículas captadas do ar disponibiliza na máscara um maior número de agentes nocivos ao utilizador, portanto confere um risco maior de infeção do que o da respiração livre.

Não é assim compreensível a posição da DGS e do Governo português, que emitem ordens sobre o uso de máscaras contra os dados científicos, mas também contra as próprias diretrizes da OMS, o que constitui um atentado contra a saúde pública.

As máscaras são para ser usadas por pessoas doentes em contacto com pessoas saudáveis, pelos cuidadores de pessoas doentes e por quem desinfeta zonas hospitalares referenciadas, por mais ninguém.

Não há qualquer indicação para o uso generalizado de máscaras em pessoas saudáveis na comunidade, podendo mesmo ser afirmado com propriedade, que o seu uso acarreta riscos tangíveis.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Parabéns PAN


Há muito tempo que não escrevo aqui sobre política. Muito tempo mesmo.
Durante anos, em artigos “abre-olhos” como alguém lhes chamou, tentei explicar a realidade de pessoas licenciadas a quem não era dada a mais pequena hipótese a não ser que fossem filhos de alguém (fidalgos, é a palavra). Estar à frente do tempo é uma chatice, porque ninguém acreditava. A austeridade veio mudar tudo. Finalmente os abrilistas indignados, que não tinham o menor pejo em explorar os filhos dos outros (como eu, meus amigos, como eu) indignaram-se deveras quando tocou aos filhos deles e os viram emigrar por falta de oportunidades por cá. As pessoas são assim. Só acreditam quando lhes toca a elas. Então indignaram-se. E eu fartei-me de rir. E achei que não valia a pena continuar a escrever porque agora já todos viam. Afinal não era um filme de terror, nem era eu que era maluca, era mesmo a sério. Mas quem é que lhes metia isso na cabeça, a todos os palermas que foram votar no Passos como se não houvesse alternativa ao Sócrates fora do Centrão?
Foi a classe média quem pagou as favas, é claro. Abaixo da média, pouco me tocou. Fui daquelas a quem não podiam roubar mais. (Directamente, isto é, através dos impostos do trabalho, porque a nível de IVA levei por conta como toda a gente, já para não falar dos feriados “abolidos” que trabalhei sem receber como tal.)

Se não querem votar, não votem
Nem queiram imaginar o meu choque quando, ao fim de quatro anos de austeridade, os energúmenos, boçais, iletrados, atrasados mentais deste país ainda foram votar no Passos outra vez. Fiquei assim boquiaberta em frente à televisão, a abanar a cabeça, muda de todo. A malta rica, banqueiros, gente com bons empregos que não sabe o que fazer ao dinheiro, clientelas, esses eu percebo. Mas o povão sacrificado, só mesmo por masoquismo.
A geringonça foi a única coisa boa que saiu disto tudo, quando finalmente se iluminou em suficientes cabeças que o governo não tem de estar só entre “este” ou “aquele”, mas entre mais. Foi o fim dessa instituição putrefacta chamada “voto útil”, que sempre foi o voto mais inútil de todos.
Vamos a ver, nas próximas legislativas, até que ponto esta gente de inteligência rastejante vai conseguir associar dois mais dois e chegar a esta conclusão. Não estou optimista.
Vou mesmo ser do mais politicamente incorrecto que há, e que se lixe: até é melhor que esta gente que nem sabe em quem vota, nem para quê nem porquê, fique antes em casa a ver os programas da manhã em que se telefona para lhes sair 2000 euros. Melhor do que irem votar, se só lá vão fazer merda. Havia uma desculpa para isto noutros tempos, tempos já longínquos, em que as pessoas não iam à escola nem aprendiam a ler porque começavam a trabalhar aos 5 anos. Mas isto já lá vai há tanto tempo. E tantos podiam já ter feito por si próprios e aprendido a ler nos anos de reforma antecipada –que os pôs em casa com 60 anos enquanto a nossa desgraçada geração vai ter de trabalhar até morrer– que não há desculpa para a preguiça. Que se abstenham, sim, em vez de fazerem porcaria. (Justiça lhes seja feita, eles já começaram a perceber que só fazem porcaria. A solução para isto era ler um jornal de vez em quando, mas pensar faz doer o cérebro.)
Eu costumo dizer, menos a brincar do que é democrático, que as pessoas deviam fazer um teste de literacia antes de serem autorizadas a votar. Isto parece mau e fascista e o que lhe queiram chamar, mas da minha perspectiva são estes energúmenos, que por ignorância votam até contra si próprios, que votam também em coisas que decidem a minha vida. Tenho todo o direito de lutar para que a minha vida não seja fodida.

Evolução civilizacional
Mas o que me faz mesmo sair do meu recolhimento político, nestes dias pós-eleitorais, é o crescimento do PAN. Engana-se quem pensa que é um voto de protesto. Aliás, engana-se muita gente que não percebe mesmo porque é que as pessoas estão tão fartas de ver animais abandonados, maltratados, abatidos em condições desumanas. Engana-se quem não percebe que torturar animais por diversão não é tradição, é sadismo. Que a tourada, por exemplo, já devia ter sido abolida há séculos. Que só um sádico pode assistir, impávido e sereno a um horror desses.
Não foi falta de protestos a que os partidos tradicionais fizeram orelhas moucas. Agora admiram-se, mas agora é tarde.
Congratulo-me com o crescimento do PAN, tendo a consciência de que ainda é pouco, muito pouco, para se conseguir mudar as coisas. Mas é um passo mais à frente do que noutros tempos, em que se afogavam ninhadas num balde de plástico em plena rua de Lisboa (como eu vi, impotente). Ainda há muito trabalho, se não para mudar estas mentalidades embrutecidas, pelo menos para as fazer perceber que este comportamento já não é aceitável. Sejamos francos, pessoas destas nunca se vão preocupar com os animais, mas talvez se preocupem com que pensa deles o vizinho do lado.
Esta maior consciencialização de ver o animal como ser senciente e sofredor também tem uma explicação. É um avanço civilizacional da parte de pessoas que têm os meios financeiros para esterilizar animais (em vez de afogar ninhadas). Que têm outros meios de diversão que não torturar animais. Que têm cultura geral suficiente para saberem que torturar animais é coisa de serial killers quando são pequeninos.
As pessoas queixaram-se, queixaram-se, queixaram-se. Aos partidos, aos meios de comunicação, à polícia. Nada foi feito: “Isso não tem importância nenhuma, ninguém quer saber”, “não podemos intervir”, “isso não dá audiências”. E depois alguns intelectuais irritadíssimos porque não conseguem eleger um único deputado nas facções que arrancaram aos partidos de onde vêm, quando um pequeno partido, em apenas dois ciclos eleitorais, já tem um deputado no Parlamento e na Europa, já para não falar na presença nas autarquias.
São casos como este que me fazem pensar que o mundo pode não estar completamente perdido.
Parabéns ao PAN! Parabéns a todos os que votaram no PAN mesmo com pouca esperança de conseguir ir longe. Parabéns ao PAN por tê-los convencido a votar. Que seja o início, que mais vale tarde do que nunca.
Não dou parabéns ao Bloco de Esquerda, que só muito recentemente abriu a pestana e começou a andar por aí no transporte de animais vivos. Vieram atrasados, muito atrasados. Agora, meus amigos, vão ter de correr muito atrás do prejuízo.
Não é um voto de protesto. É um voto de identidade. Os animais, para quem os tem, são família. Quem não percebe isto não percebe nada do que está a acontecer.

Deu-me tanto gozo escrever este post, tanto gozo!


sábado, 2 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 01, 2004

Barbarismo

Apesar de já ser 1 de Abril, o que eu vou dizer não é de forma nenhuma irónico e também não é mentira, embora seja susceptível de várias interpretações. Hoje vimos na televisão imagens fantásticas (porque assombrosas) da mutilação de corpos americanos no Iraque. Vi imagens que só tinha visto semelhantes num filme de ficção, “Predador”: corpos mutilados pendurados de cabeça para baixo. Neste caso, o “predador” não é extraterrestre mas, para meu espanto, é tão humano como a presa.
No entanto, não fiquei chocada. Fiquei boquiaberta, sim, mas não chocada. Há aqui um pormenor que me faz pensar. Os corpos foram mutilados depois de mortos. Aqui há 500 (ou menos) anos, teriam sido desmembrados enquanto vivos. E arrastados por cavalos enquanto vivos.
Para descanso da minha consciência, estas mutilações foram efectuadas post mortem. Sei que isto vos vai parecer estranho, e irónico, e tudo isso, mas aqui é que se vê também o progresso da Humanidade enquanto TODO.
Sim, foi barbarismo, mas já houve mais e pior. Ali, o que aconteceu foi o descarregar de uma frustração colectiva no símbolo do opressor, como se os corpos fossem os bonecos que se incendeiam nas manifestações. Em tempos medievais, as execuções das pessoas (VIVAS) eram bárbaras e o povo aplaudia como se estivesse num espectáculo.
Por estas razões obscuras - não sei se me estou a fazer entender - acho que sim, a Humanidade progride. Lentamente, muito lentamente, mas progride. Por isso, haja razão para ter esperança.

Publicado por _gotika_ em 01:43 AM | Comentários: (15)


Temos revolução?

Este blog tem-me mostrado uma característica de mim própria - se não um defeito grave, ainda não decidi - que é o facto de ser obsessiva. Nunca imaginei ser tão obsessiva!
Mas enquanto não me passa a fase vampiresca, vamos ao estado da nação. (A fase política não há maneira de passar...)
Hoje tive de sair de casa para uma entrevista de emprego para nada. Eu explico. A entrevista não era para emprego nenhum, e eu já sabia disso quando lá fui. Uma entrevista numa empresa de recursos humanos (e nada pequena) que me chamou para uma entrevista para a eventualidade de aparecer qualquer coisa onde eu “caiba”. E não estamos a falar de emprego para licenciados. Não, estamos a falar de coisas bem mais modestas.
Esta de uma entrevista “para nada” nunca me tinha acontecido. Ou já? Sim, talvez em 1994/1995. É o tal ciclo da “toma” e “retoma” da crise, sendo que quem “toma” com ela somos sempre nós. Sim, eu sei que esta é uma boca revisteira e populista.
Por ser fim de mês, por ter havido greve da Carris de manhã e os autocarros demorarem à tarde, porque as empresas de transportes suburbanos vão abolir o acordo com o passe social, porque subiu a gasolina para mais de um euro, porque as falências não param e o desemprego também não, porque o dinheiro não chega, tudo isto junto, garanto-vos que nunca tinha ouvido tantos protestos e reclamações como hoje!
Era na paragem, era dentro dos autocarros, foi de tarde e foi de noite. Hoje esteve tudo fulo da vida em Lisboa!
Isso é que é estranho porque eu hoje estava tão bem disposta, mas tão bem disposta... Mas eu estou apaixonada. Apaixonada pela escrita de Anne Rice mas não interessa, o que interessa é que estou apaixonada.
Acho que o governo devia distribuir ecstasy para de repente nos apaixonarmos todos e suspirarmos pelas pestanas do Durão e pelas madeixas da Manuela e pela carecada do Portas. Como eu lhes chamo, quando estão os três no Parlamento, juntinhos, tão bonitos, a santíssima trindade. A Manuela, por ser do sexo feminino, cabe o papel de Espírito Santo. Durão e Portas alternam.
E ouvi uma palavra nova no autocarro: “Isto é uma vragonha!”. VRAGONHA. Inclusive, ouvi falar do 25 de Abril, e não foi pela mesma pessoa.

Publicado por _gotika_ em 01:41 AM | Comentários: (4)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 10, 2004

“Entrevista com o vampiro”




Quem estranha a minha ausência tem razões para desconfiar. Pois ando entretida a ler o livro original, em inglês e tudo, tentando em vão separar-me da impressão do filme. O que é impossível.
Mas quem viu o filme pode ficar descansado, até agora tenho notado que o livro foi fielmente representado, passo a passo, sem tirar nem pôr.
Com uma imprecisãozinha grave: Quem morreu a Louis não foi a esposa ao dar à luz. Louis nunca chegou a casar. Quem morreu foi o seu irmão mais novo, devido a um acidente talvez por culpa de Louis. A versão “esposa e filho” é bem mais romântica mas também muito mais banal. O amor por um irmão é assim algo difícil de explicar?...
Uma parte omitida: Depois de tentarem matar Lestat, Louis e Claudia fogem para a Europa mas não vão direitinhos para Paris. Claudia leva Louis para a Transilvânia atrás das lendas de vampiros, à procura das respostas que Lestat não sabia dar, e encontram por lá uma espécie de vampiros zombies não-inteligentes. Acontece uma batalha gore de Louis contra os zombies. Bom material para um filme de mortos vivos série B, mas a verdade é que o livro não explica muito bem (até aqui) a existência destes zombies nem porque é que são diferentes dos protagonistas...
O livro é grande e a memória é curta, por isso posso adiantar que Brad Pitt desempenhou o papel tão bem que não é possível imaginar outro Louis. Já Tom Cruise... *suspiro* Quando é que Tom Cruise fez alguma coisa bem feita? Talvez em “Eyes Wide Shut”, com Nicole Kidman, mas com certeza devido à direcção implacável de Stanley Kubrik - era impossível falhar (“Lolita”, “Dr. Strangelove”, “Laranja Mecânica”, “2001”, “The Shinning”...)! Desde o primeiro momento percebi que aquele não era o actor para a personagem Lestat, e quanto mais leio do universo das “Vampire Chronicles” mais lamentável me parece o seu desempenho.
Outro erro de casting é António Banderas no papel de Armand. Mas alguém acredita na sua vampiricidade?...
É verdade que no primeiro livro, este “Entrevista com o Vampiro”, Lestat é representado por Louis como um monstro ignorante, egoísta, insensível, vaidoso, oportunista, traiçoeiro, sarcástico e cruel. É também verdade que Lestat é um bocadinho de isto tudo. Mas não é apenas isto. Mais tarde, o próprio Louis confessa que tem saudades do “tirano” que estava habituado a odiar e não percebe porquê. Primeira constatação, porque de facto Lestat não é mentiroso nem falso (como Louis pensou a princípio). Parecendo que não, já faz esquecer meia dúzia de defeitos. Segundo, Lestat tem momentos de verdadeira candura em que mostra a sua estranha bondade debaixo da capa de frieza com que parece encarar o mundo.





Comparando depois a sua experiência com Claudia, a muito interessante personagem da criança vampiro que não se lembra de ter sido humana, Louis acaba por confrontar-se com a verdadeira personificação do Mal.




De humano a vampiro, Louis não perde a angústia de questionar a falta de sentido da existência, tão fascinado pela beleza e efemeridade da vida quanto dominado por impulsos suicidas que nem sempre se esforça por combater. Acaba por se entregar passivamente aos acontecimentos, apenas um espectador que hesita em pertencer completamente à vida ou à morte, ao Mal ou ao Bem.

E depois, é assim... Quem não sabe o que é um gótico tem em Louis o exemplo perfeito.


Publicado por _gotika_ em 06:10 AM | Comentários: (5)


Comentários 10.02.04 +/- 4h00

Sobre o Brasil, o que eu disse foi tão somente - e repito por outras palavras para que se perceba bem - que a dificuldade em sair do ciclo de pobreza se deve muito à mentalidade portuguesa que lá ficou. Já passou demasiado tempo para que se ponha a culpa na colonização. Tal como em Portugal, que nunca foi oficialmente colonizado (embora neste preciso momento esteja vendido à Espanha, o que é uma coisa completamente diferente), reina a mentalidade do chico esperto, do pato bravo, do assalto sistemático aos bens do Estado e da empresa do patrão para benefício próprio, da economia paralela, da fuga aos impostos, do benefício de uma clientela que vampiriza e mantém uma elite no poder, enfim, do salve-se quem puder. Em ambos os casos, Portugal e Brasil, o estado de coisas perpetua-se por culpa de um massa popular inculta e ignorante, muitas vezes analfabeta ou iletrada, mantida por largas décadas à custa da ditadura. As semelhanças são demasiado óbvias para serem coincidência.
Compreendo plenamente o Pedro Henrique. No entanto, também não penso que seria diferente se o país tivesse sido colonizado por outras potências europeias. Seria com certeza um país ainda mais violento - veja-se Cuba, veja-se a Argentina, o Chile, o Haiti, a África inteira! A herança portuguesa é também uma herança de passividade, para o melhor e o pior. Mas não deixa de ser uma herança de imobilismo, e isso é o seu pior.

Ao Simplista Complicado: Da maneira como falas, dás a entender que estás muito satisfeito com a situação, que não é preciso mudar. Lamento muito que penses assim. Eu exijo mais, muito mais!

Publicado por _gotika_ em 04:24 AM | Comentários: (5)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 08, 2004

Drácula ainda tem descendentes vivos!

E os parentes de Vlad Drakul não gostam nada que enxovalhem o nome da família...

Publicado por _gotika_ em 02:12 PM | Comentários: (6)


Comentários 08.02.04 +/- 14h00

Apenas um acrescento pessoal ao que a Gotika já comentou. Se nós nascemos neste país, é neste país que, em princípio, temos de construir a nossa vida e dar por ele o nosso esforço. Se não isto é o quê? Uma maternidade? Ou apenas para vir passar férias? Assim preferia ter nascido noutro país para não me dar ao trabalho de ter de mudar de lugar. É espectacular a facilidade com que se vai para o estrangeiro estudar e trabalhar, com bolsas que dão para cobrir as despesas básicas...(leia-se a ironia nesta frase). Será que é um sinal de estupidez querer trabalhar no nosso país e querer que ele seja melhor, que evolua como os outros países vizinhos (já só penso naqueles que estavam em situação semelhante à nossa quando começaram a vir os subsídios comunitários)? Que este seja um país de crescimento social, cultural, económico, científico? Porque é disso que se tem estado a falar. Se a solução é ir embora, então estamos muito bem... O ensino superior em ciências não nos prepara assim tão bem para a vida activa laboral fora da universidade e do meio académico. Ok, a licenciatura serva para fornecer "ferramentas" em determinada área. E quando as "ferramentas" são insuficientes e vêm enferrujadas, para não falar de ausentes, em alguns casos? Ok, nós tratamos de as complementar e desenferrujar, tudo bem. Eu fiz isso. Pós-graduações, mestrados, cursos de formação, 5 anos de trabalho, tudo. E agora? Já depois de bater às portas todas, o que é que resta? Ir para o estrangeiro, ou tentar lutar por alguma coisa cá dentro deste país? Não teremos direito a manifestarmos o estado de coisas ou será sempre interpretado como "lamechice"? Seremos todos estúpidos? É que eu tenho uma família a meu cargo, com todas as implicações que daí advêm. Enviado por Alya em março 8, 2004 09:27 AM

Grande comentário, Alya!
Vou apenas acrescentar que está tudo dito e não me apetece responder mais a pessoas que não sabem o que dizem e nem pensam no que estão a dizer.
As minhas primas estão lá fora mas para exercerem a licenciatura lá fora tiveram de fazer uma parte do curso lá fora também, porque os nossos cursos não têm credibilidade nenhuma fora deste Ensino do terceiro mundo.
Eu não quero ir para fora. Gosto do clima e da natureza. É a única coisa que Portugal tem boa. Também me enerva aquela mentalidade muito portuguesa que é "se for para servir às mesas, vou servir às mesas para o estrangeiro". Eu posso muito bem servir às mesas AQUI. Não vou para fora com o intuito de ganhar dinheiro. Se não posso trabalhar naquilo que estudei, é-me indiferente o que faço... mas gosto do clima. Salve-se o clima!

Certamente o ensino é mau e facilitista. Mas essa é apenas a ponta do iceberg, e por isso falei da Suécia. A razão profunda é a mesma que fez, há séculos, todas as riquezas da Índia demorarem em Lisboa o tempo de transbordo para as naus holandesas e os cofres italianos. Fomos, sem saber, os primeiros empregados de mesa do mundo. É que aqui estás a falar do capitalismo, e o capitalismo é feito de uma percepção do mundo que não soubemos nunca fazer nossa. Um mundo de cálculo e de método. De cumprimento de regras exteriores e de interiorização de regras de eficácia. Um mundo que germinou nas terras frias protestantes e se alimentou da severidade das Bíblias encadernadas a negro. Um mundo de cidades e de quotidiano (um mundo, já agora, que se fez também à custa de lugares escuros e almas caladas, e não foi por acaso que o gótico vitoriano não nasceu nas terras do vinho e do sol...). Foi-nos valendo o Brasil, a África, a França. Foi-nos enganando a ideia de que se "eles", os que mandam, quisessem, o mundo seria perfeito. E agora estamos encurralados no meio da grande revolução do mundo. De facto não fizemos o trabalho de casa. De facto a juventude foi enganada, e nem sequer sabemos bem o que é que correu mal. Resta-nos a mansidão dos mortos ou o combate total que é apanágio dos vivos. Não resta mais nada. Enviado por Goldmundo em março 8, 2004 12:05 PM

Goldmundo, continuas no tempo das caravelas?... Não passou já tanta água debaixo dessa ponte?
O que me parece é que já se podia ter aprendido e aplicado os modelos estrangeiros de sucesso mas há falta de coragem política para mexer nos interesses estabelecidos. O que falta ao povo português é viajar, ver os exemplos lá fora. Onde os carros de facto param antes ainda de o peão chegar à passadeira. Onde há cinzeiros ao longo dos passeios para as pessoas não atirarem beatas para o chão. Onde se recicla o lixo. Coisas de um português ficar parvo. E isto apenas na vizinha Espanha que não é o país mais desenvolvido da Europa.

Por fim, o desemprego não afecta só os licenciados mas também as pessoas mais velhas que, em desespero, têm respondido a anúncios para ir trabalhar para o Reino Unido aliciados por 200 contos por mês, o que lá é um ordenado de miséria, e se vêem privados de assistência médica e direitos, ainda por cima sem saberem falar a língua. Casos dramáticos de todo o tipo.
Também já estou farta de que as pessoas pensem que os desempregados estão nessa situação porque são estúpidos. Pensam assim dois tipos de pessoas: os que ainda não sentiram na pele o desemprego (mas da maneira que isto vai ninguém está livre) e os mais velhos que não imaginam o que é trabalhar a recibos verdes porque no seu tempo se trabalhava numa empresa a vida inteira, da infância até à morte. Muitos recebem com choque a notícia do desemprego como se um dogma existencial tivesse desabado diante dos seus olhos. Nem se deram conta do que lhes ia acontecer!
Sim, é dramático que o país não tenha nada para oferecer excepto biscates e salários de miséria. É dramático que estejamos cada vez mais perto do Brasil: a classe média a afunilar-se, meia dúzia de ricos muito ricos e uma maioria cada vez maior de pobres (a maior parte pobres envergonhados, à "portuguesa").
E por falar no Brasil, onde reina a corrupção, o desrespeito pelos direitos humanos e a quase impossibilidade de encaminhar o país no caminho do desenvolvimento, culpo por esse estado de coisas nada mais nada menos do que a mentalidade portuguesa, eivada dos mesmos males, que deixou por lá a sua herança de cunhas.

Publicado por _gotika_ em 02:09 PM | Comentários: (19)


Comentários 08.02.04 +/- 00h00

Na Suécia, onde o clima nem sequer permitia que houvesse "empregados de mesa", havia fome e camponeses descalços há pouco mais de cem anos.

E?...
Em Portugal ainda há fome e havia camponeses descalços há bem menos de 50 anos.

Nestas terras de sol ignoramos os direitos e julgamos compensar-nos incumprindo os deveres.

Este sim, é um bom comentário.

Eu já dei aulas a futuros licenciados sem emprego. Era deprimente. Não havia sequer luta de classes e professores exploradores. Viviam todos em paz, na absoluta ignorância do que era suposto acontecer ali. Uma estudante disse-me uma vez que eu era diferente dos outros professores, "assim para o intelectual". Isto porque eu gostava de ler, e muitas vezes trazia um livro para o bar, em vez da "Bola". Mas lembro-me também, num exame de fim de curso, de um miúdo desesperado. Precisava muito de passar e tinha-se esquecido da calculadora. Sem ela, como saber quanto era "dez por cento de cem"? Ah sim, e os jipes... Enviado por Goldmundo em março 7, 2004 03:38 PM

É interessante. Admites portanto que o Ensino é facilitista. Admites portanto que as pessoas chegam ao Ensino Superior sem saber fazer contas (e sem saber Português, acrescento eu). Admites que a formação é má e massificada.
Ainda bem. Porque isto até me ajuda a justificar o próximo comentário:



Ó Gotika, isto tudo é muito bonito e eu respeito o sentimento de desilusão das pessoas face ao desemprego em que vivem. Mas bolas, leiam a declaração de Bolonha sobre a criação de um espaço europeu no sector de ensino. A questão já não é aproveitar a massa cinzenta de um país. A questão é europeia. Se falam nos exemplos dos outros países, pois bem, peçam a homologação dos diplomas, desenferrujem o inglês já que têm tanta massa cinzenta e... ala para os outros países. Mas que lamechice. Uma licenciatura não existe para dar empregos, quem tem massa cinzenta, algo a oferecer à comunidade, não fica à espera que o venham chamar ou que lhe arranjem um lugar. O Estado só tem que facultar os estudos e impedir que pessoas com mérito fiquem impossibilitadas de estudar. O resto é com cada um. Há um espaço europeu, há programas de pós-graduações, há bolsas, há estágios, há linhas de crédito, ninhos de empresas. O que é que a malta quer? um cargo de professor de biologia, química ou português num liceu de província dado pelo Estado para o resto da vida? Mas o Estado não dá isso a ninguém (excepto aos boys q são muitos e maus...) Enviado por em março 7, 2004 10:18 PM

Primeiro, o que mais me irrita no teu comentário: "ala para os outros países". Porquê? Eu gosto do clima aqui. Por acaso até nasci aqui. Estás então a admitir que neste país não há futuro...? Que a única solução é fugir...?
"Uma licenciatura não existe para dar empregos, quem tem massa cinzenta, algo a oferecer à comunidade, não fica à espera que o venham chamar ou que lhe arranjem um lugar." E será que a comunidade quer realmente receber alguma coisa ou quer, como tu muito bem insinuas, mandar a massa cinzenta para outras paragens?
"O Estado só tem que facultar os estudos e impedir que pessoas com mérito fiquem impossibilitadas de estudar. O resto é com cada um. Há um espaço europeu, há programas de pós-graduações, há bolsas, há estágios, há linhas de crédito, ninhos de empresas." Então deixa-me elucidar-te que os estudos facultados pelo Estado são de tal má qualidade que não servem para nada lá fora. Pelo menos na maioria dos cursos da área das Humanidades. Na área das ciências já não se passa o mesmo, talvez porque a Ciência é universal, mas a nível de experimentação e investigação o Ensino em Portugal continua a ser risível.
Quanto às (poucas) oportunidades que existem para sair do país - isto partindo do princípio que as pessoas são obrigadas a sair, o que já por si é dramático! - são muitas vezes insuficientes porque a verba oferecida NÃO CHEGA para sobreviver lá fora e nem toda a gente tem condições para, de facto, sair. Porque se for para lá trabalhar e estudar acaba por perder a bolsa e por perder os estudos. Não passa de um imigrante como os outros, não um estudante. E há aqui uma diferença abismal. Os já licenciados, devido à má qualidade da formação que aqui recebem, não têm a mínima possibilidade de competir com os licenciados europeus. Essa então é a maior mentira de todas. Não por falta de massa cinzenta mas por falta de conhecimentos que não lhes foram transmitidos onde deviam ter sido.
Quanto às bolsas e oportunidades verdadeiramente boas, acredites ou não - e da maneira que falas não me pareces muito dentro da realidade - são aproveitadas pelos filhos dos tais boys. De tal modo que não são divulgadas pelo povinho e, quando divulgadas, já estão preenchidas.
Eu sei que é difícil pra algumas pessoas acreditar no lamaçal em que se tornou este país, mas fingir que não estamos no lamaçal só ajuda a perpetuar a lama.
Por isso, antes de abrirem a boca vejam lá se sabem o suficiente daquilo que dizem. Se fosse assim tão fácil as pessoas não estavam na situação em que estão. Não podem ser tantos tão estúpidos.
Mas parece que algumas pessoas estão tão enterradas na lama que já não a vêem ou acham que a lama é normal. Não é.

Publicado por _gotika_ em 12:15 AM | Comentários: (3)


~~§~~


Comentário:
É curioso como esta discussão parece tão actual agora, mas como tanta gente a achava descabida na altura. Tão descabida que eu acabei por me fartar de dizer a mesma coisa. Mas não me calei sem dar luta.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 06, 2004

Partilhas II

"(...) sabia que raramente estivera tão viva como o estava agora, que o vê-lo verdadeiramente, o ele estar ali, me devolvera à vida um fogo que eu não conhecera durante décadas. Há muito, muito tempo, antes de tantas derrotas, quando eu era jovem e estava apaixonada, talvez estivesse assim viva, quando eu tinha chorado sobre os meus falhanços e as minhas perdas naqueles anos energéticos iniciais, quando tudo era muito luminoso e quente para experimentar, talvez eu tivesse estado assim viva."

Anne Rice, "O Violino"


Bem me parecia que as pessoas morrer por dentro antes de morrerem por fora. Mas pensava que era só eu. Afinal, se calhar, é comum e recorrente. Mesmo assim, eu morri muito cedo. E vivi depressa.

Publicado por _gotika_ em 05:14 PM | Comentários: (5)


Partilhas

Não percam o post de 4-3, "A Igreja do Imaculado Blog - O Céu pode Esperar (ou então que vá andando…) – " no The Old Man. Parece que Blog já abriu o Céu, mas a entrada é condicionada. Aviai-vos, pois, ó crentes!

No mesmo sítio, o post sobre a Noite reza assim:
"É na noite que tudo se esgota.

A escuridão dilui todas as cores,
como um gigantesco sorvedouro cromático.

Á noite é difícil ser azul,
a não ser que escolhamos néon, e isso é falta de gosto.

Não faz muito sentido falar da noite.
Porque as trevas não se podem descrever,
excepto talvez a um cego…
ou a um gótico.

E esses já sabem como é.

Por isso esta noite,
não vou falar da noite!"

Eu diria que a melhor pessoa para descrever a noite é mesmo um gótico, ou, se arranjarem algum, um vampiro. Pessoas que vivem na e da noite.
Mas há pormenores que qualquer taxista ou homem do lixo vos pode contar. Por exemplo, que a noite é mais quente do que o dia mesmo que a temperatura desça. Que as pessoas da noite (e de noite) são completamente diferentes das pessoas do (de) dia. Que a noite é mais longa do que qualquer dia. Que de noite o tempo estende-se, de forma mágica, e fala-se de coisas que o dia nunca tem tempo para falar. De noite as pessoas vestem-se melhor antes de sair de casa. Tiram aquelas caras de obrigação que as arrasta durante o dia. E estão mais calmas, muito mais calmas. É um outro mundo.
Pelos olhos de um gótico, vai-se mais longe. A noite é também o palco de todos os desesperos. Se o dia entretem as pessoas com pensamentos mundanos, a noite revela as angústias, os vazios, as solidões. A própria noite embriaga as almas e fá-las dizer a verdade. O dia é mentira. Com a sua luz que faz doer os olhos, o dia finge que revela mas esconde tudo. A noite mostra. Os maiores dramas passam-se à noite. Porque a noite não deixa esconder nada. Tal como o mar, que devolve à costa todas as impurezas, a maré da noite expõe toda a substância da alma. O mesmo tempo longo que passa a correr para os amantes custa a passar para os desesperados. A noite pode ser um grande pesadelo de insónia. Por isso é preciso abraçar a noite, acolhê-la e desejá-la. Aprender a amá-la. Apreciar-lhe o silêncio e também o movimento das pessoas bonitas na rua. Navegar ao sabor da sua corrente desde o pôr ao nascer do sol.
Não há duas noites iguais. Cada noite é uma noite especial. Alguns povos antigos temiam a noite porque punham a hipótese de o sol ser devorado por um monstro e não chegar a nascer outra vez. O gótico teme o dia em que o sol não se ponha...
E há as noites de verão, quentes e convidativas. As noites de primavera, frescas e loucas. As noites de outono, já a prometer chuva e frio. E as noites de inverno, geladas, húmidas, cortadas pelo vento e cheias de nevoeiro. Neve, para alguns sortudos. Todas estas noites vibram e todas são misteriosas.
De noite as pessoas estão disponíveis. As diferenças sociais diluem-se e ficam apenas as almas. É uma espécie de limbo antes do céu.
E o sossego? Ah, o sosego de uma cidade à noite!
A noite é como o mar. Tanto mais perigoso quanto menos se conhece. Inspira o mesmo respeito. Quem vira as costas à noite nunca será parte dela.

Publicado por _gotika_ em 04:51 PM | Comentários: (3)


Comentários 06.02.04 +/- 16h00

Sou licenciada em ciências e não é por isso que tenho emprego garantido, aliás, estou no desemprego. Muitos colegas e amigos que também tiraram ciências (biologia, geologia, bioquímica, química, física, etc.) também estão desempregados ou em trabalhos precários, vivendo na dúvida se, após terminar o semestre, voltam a ter trabalho. Neste país não se valoriza a "massa cinzenta" que anda por aí. Não se preparou o país para receber e encaixar os recursos humanos que tem. Noutros países existe uma política de ligação entre a universidade e as empresas, onde os licenciados são "escoados" para o mercado de trabalho (o sistema pode não ser perfeito, mas resulta na maior parte dos casos). Neste país não existe um plano de educação, não existe um plano de inserção das pessoas no mercado de trabalho. Apenas existe o plano de obter dinheiro rápido a todo o custo para o ir gastar em jipes, viagens às caraíbas, iates (o ano de 2003 foi o melhor ano de venda de iates em portugal, segundo um vendedor da área), etc. Apostar no potencial humano do país, isso é lirismo a mais para muitos dos empresários e políticos que por aqui andam. Enviado por Alya em março 5, 2004 12:55 PM


O teu comentário é muito interessante. Só prova a desinformação que grassa por aí. Ouvem-se os analistas dizer a torto e a direito que são necessários licenciados em áreas científicas mas, na verdade, estes licenciados não têm onde trabalhar. Não se faz investigação a sério em Portugal. Já não há lugares para dar aulas. Começa a acontecer como nos países de leste, cujos licenciados preferem vir para cá trabalhar nas obras.
A minha prima mais velha tirou Biologia e já foi para o estrangeiro, para os Estados Unidos, de onde, se for esperta, não volta mais. Eu não tive essa possibilidade. A irmã mais nova, que está a tirar Relações Internacionais, também já foi estudar um ano para o estrangeiro. Tem uma bolsa mas se não fossem os pais a ajudar, a bolsa não chegava para ela sobreviver. País triste este, em que quem não pode sair dele não se safa.
O problema do país não é só não existir "um plano de inserção das pessoas no mercado de trabalho". O problema é que já quase não existe mercado de trabalho!... Não há onde trabalhar. Nestas condições, é natural que a faixa de população com escolaridade média (12º ano) seja a mais empregável. Abaixo e acima desta escolaridade, é-se preterido. Por isso também temos casos de operários de baixa escolaridade que trabalharam toda a vida em empresas que foram à falência ou se mudaram para países onde a mão-de-obra é mais barata e agora se vêem desempregados e sem expectativas. Demasiado novos para a reforma, demasiado velhos para serem contratados. Não é que não sejam ainda úteis e capazes, mas como a procura é muito superior à oferta de emprego, os empregadores tornaram-se muito mais exigentes. Têm muito por onde escolher, essa é que é a verdade.
Isto também ajuda ao estabelecimento de uma tirania onde os direitos dos trabalhadores não valem nada. E assim temos casos de exploração de bradar aos céus. É uma nova escravatura.
O que se passa no país é a completa atrofia da economia. A Europa prepara-se definitivamente para transformar Portugal na colónia de férias que sempre foi. Resta-nos a todos ser empregados de mesa.
O país é como uma família. Imaginem esta família, a quem foram dados subsídios para se desenvolver, e que em vez de investir desbaratou a ajuda e ainda guardou o resto no banco. Um dia perguntam-lhe pelo retorno do investimento. Qual investimento? Não houve investimento nenhum. Logo, não se vê nenhum resultado. Os bens adquiridos degradam-se e o dinheiro guardado é gasto a adquirir novos bens. A certa altura acaba-se o dinheiro. É neste ponto que está o país. Quando devia estar a colher os lucros do investimento, eis que não há investimento.
Então a nossa família repara que o pai está doente mas o sistema de saúde não funciona a tempo e horas e que a mãe vai ter de deixar de trabalhar para cuidar do pai. Os filhos não têm emprego porque não investiram o dinheiro numa empresa de sucesso mas em vez disso compraram jipes para ir para a faculdade fazer figura de novos ricos. Agora não há fontes de rendimento e a família estrangula. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Ao agirem de forma egoísta, esqueceram-se que estavam a condenar o país todo à ruína. É por isso que os países africanos estão como estão. No sub-desenvolvimento. Não é nada de novo.
Não houve coragem dos sucessivos governos para mudar o que está mal. Porque ao mexerem em interesses económicos importantes (sistema de saúde, administração pública, educação, leis laborais) estavam a perder votos e não seriam re-eleitos. Como a única coisa que lhes interessa é ganhar as eleições, fingiram que faziam alguma coisa e deixaram andar tudo na mesma. Não tiveram, principalmente, coragem para enfrentar os grandes grupos económicos e agora quem manda no país é a SONAE e afins. Porque os governos deixaram que isso acontecesse.
O povo é ignorante e não se mexe. Limita-se a sofrer em silêncio. Em vez de se revoltar, prefere tentar a sua sorte num jogo em que está condenado à partida porque as regras estão viciadas. Quanto mais tempo demorará até que perceba que é preciso dizer "basta!"?

Publicado por _gotika_ em 03:59 PM | Comentários: (2)

domingo, 27 de janeiro de 2013

Gotika: arquivos Março 2004

março 05, 2004

Comentários 05.02.04 +/- 10h30

Comentario ao SimplistaPrateado Enviado em março 5, 2004 09:34 AM
Toda a gente sabe já, que quem tira História não vai ter qualquer emprego, o mesmo com filosofia, direito, etc. Direito então, que era a vaca sagrada dos paizinhos, deu em dez faculdades em cada canto deste país e de cada vez que se chuta uma pedra, saltam de lá cinco advogados. Toda a gente sabe isto. Que fazer?

O problema que tu ignoras é que nem toda a gente sabe isto. A maioria das pessoas não "sabe isto".

Fecham-se os cursos? Não me parece! Ninguém anda a enganar ninguém! E fechar as universidades não é solução, seria como fechar o exército por não haver guerra. Realismo, pessoal, realismo.

Parece-me a mim. Pelo menos os cursos públicos, para dar um sinal aos privados, porque se o Estado não regulamenta a actividade económica então quem é que a impede de cair no capitalismo selvagem, em que, aliás, já caiu? Ninguém.
E sim, andam a enganar as pessoas. Pega numa brochura de uma universidade privada e depois vem falar comigo.
Fecha-se o exército? Quase. Reduz-se, como se tem vindo a fazer desde a guerra colonial.

Que a coisa custa e doi, disso não há dúvidas, mas o que eu queria ver aqui era uma análise ou proposta do género: ora eu se fosse governo era assim...

Ok, e prometes que votas em mim?
'Tás a brincar, não? Mas eu vou candidatar-me por alguém?... OK, propostas: fechem-se os cursos do público. JÁ! (Agora até vou perder leitores por tua causa, 'tás a ver?)

Nota posterior: Não fechava. Retringia a 10 alunos por curso. Só os melhores. E fazia com que fossem publicadas as médias de todas as escolas secundárias porque algumas fazem "inflacionar" as notas para os meninos entrarem na faculdade. E assim temos médias de 18 e 19, o que, no meu tempo e na minha área, era impensável há 10 anos atrás...

E deixo aqui uma proposta, a via americana, transformar todos as universidades em privadas, com propinas da ordem dos 2.000/3.000 contos ano, só para lá vão os endinheirados, ou os que recorrem aos financiamentos e ficam a pagar o curso o resto da vida, como nós cá pagamos a casa (eles arrendam), ou ainda os muito, muito bons alunos, que conseguem obter uma das milhares de bolsas de estudo dos mecenas privados. É óbvio que o sistema é de funil, de élite, mas conduz a que haja uma enorme carência de especialistas, e os que conseguem passar pelo funil, quando saem da universidade são em regra disputados, bem pagos e com emprego garantido.

Se dizes que é assim, é assim. Eu nunca lá fui nem lá vou (enquanto eles não atinarem). Mas certo e sabido é que uma dessas bolsas em mil era para mim, sim, adoptava esse sistema.
Podia não ser re-eleita, mas uma aposta que o governo a seguir não mudava isso? O que é preciso é coragem para mexer no sistema instituído.

Se há merda que me fode o juízo é o discurso optimista e dourado. Mas se há merda que me revolta os intestinos, é o inverso miserabilista em que é tudo merda, merdoso, merdunça, etc, etc. Bardamerda, são dois opostos idiotas, em que se acaba por não se discutir nada. Da bardoada à vaca sagrada do Mário Soares gostei. Enviado por Calimero em março 5, 2004 09:14 AM

Calimero, acho muito bem que manifestes o teu protesto. Mas não basta dizer o que achas, tens que justificar. Agora dá-me aí um exemplo da grandeza de Portugal, se faz favor...

Gosto de ler comentários furiosos. Porque foi numa fúria que escreveu isto. Infelizmente, não é no café gritando a altos berros que se resolvem os problemas. O povo faz isso costantemente. É procurando trabalhar para impor a nossa forma de estar. Ter um blog ajuda a mudar as coisas? Enviado por Stela em março 5, 2004 09:49 AM

Comentários furiosos? Comentário furioso é o que a senhora me provoca, dona Stela. Aliás, olhe as horas, acho que já está atrasada para o cabeleireiro. Vá, vá depressa, mas não corra que ainda parte uma perna! Tadinha!

Publicado por _gotika_ em 10:31 AM | Comentários: (7)


Fazer figura de merda grande

O que me irrita mais neste país nem é o caso do menino azul, nem os licenciados no desemprego, nem a miséria que alastra pelas ruas na figura dos sem abrigo, nem nada disso. Pior que nós estão os países africanos, dilacerados pela guerra e pela fome e por cabecilhas mafiosos que se alimentam do povo ignorante.
O que me irrita neste país é a mania de fingir que é mais do que é. Desde Cavaco Silva (raios o partam!) que se gerou uma atmosfera de pseudo-optimismo cego que me repugna. Já não se pode dizer que o país está mal. Está mal, mas quem o diz é apedrejado na rua. O país pré-Cavaco era uma merda, mas uma pequena merda. Uma merda insignificante. Agora o país faz parte da Europa, logo, tornou-se numa grande merda. A merda continua a ser insignificante mas inchou de gases e agora faz-se grande.
O país parece aqueles parolos que não têm onde cair mortos mas gostam de fingir que têm dinheiro. Deixam de comer para pagar as prestações do Mercedes. Vão almoçar fora mas em casa comem massa. Vão às feiras comprar imitações de roupas de marca e em casa estão às escuras para não gastar luz. Tomam banho de água fria para poupar no gás. Emprestam dinheiro a quem o pede e depois não têm para eles, só para não mostrar que precisam.
Há uma série inglesa “Keeping up the Appearances”, versão portuguesa “Cuidado com as Aparências”, que revela muito disto. A bimba que lê as revistas e faz tudo para aparecer nas festas, só para ser fotografada por acidente atrás do D. Duarte Pio.
Até me lembra a cena triste do Durão Barroso nas Lajes, junto aos grandes do mundo, Blair e Bush, e outro carapau de corrida, José Aznar, duas pequenas merdas a fazer figura de grande merda. Deus escreve, porém, direito em linhas tortas e o castigo não se fez esperar: “Burroso” escrito na web page da Casa Branca. O destino é eloquente.

Casos como o do menino azul mostram a pequena merda que o país sempre foi. Alguns iluminados acharam por bem vender o país ao estrangeiro. Entre eles Mário Sores, federalista convicto, e até com boas intenções, mas a raça é ruim. Veio dinheiro da Europa, meteu-se nos bolsos de alguns poucos. Não se guardou para o inverno. Não se criou desenvolvimento. Ainda há pouco tempo veio Bruxelas (como se não houvesse gente cá a dizer o mesmo há muito tempo), alertar que o Estado devia investir mais nas pessoas e menos nas estradas. Outros cá o disseram, e em tempo útil, mas o aviso de Bruxelas já vem tarde. E hoje, tal como ontem, ninguém lhe ligou.
Os que meteram o dinheiro ao bolso continuam a sugar até não poderem mais. Os outros estão entretidos a ver a bola. Quando é que começam a pensar na vida? Talvez quando lhes hipotecarem a televisão. Ora bem, esperemos. Cá estarei para me rir.
Afinal, o país anda a fazer figura porque o povo português é vaidoso. Somos uma merda, mas uma grande merda!
Parabéns, Portugal!

Publicado por _gotika_ em 05:04 AM | Comentários: (3)


Comentários 05.02.04 +/- 4h30

Concordo com o simplista prateado, fónix! O que tá mal não é existirem os cursos. O que tá mal é a malta pensar que os cursos servem para arranjar emprego. Esta mentalidade é preciso mudar. Enviado por Yolaró! em março 3, 2004 11:01 PM

Então servem para quê? Para encher o cu de cultura e enfiar o diploma... na parede? Achas que alguém punha os pés na faculdade se não fosse para arranjar um emprego melhor? Talvez meia dúzia de carolas. E sabes o que é que acontecia aos professores universitários? Iam para o olho da rua. E era bem feito para não andarem a criar universidades e cursos da carochinha para enganar os miúdos. Os miúdos que não fazem ideia do que os espera! Os miúdos que acreditam no mérito. Os miúdos que acreditam que vão vencer. Se fossem meia dúzia no desemprego, podíamos até pensar que a culpa era deles. Mas 60 mil, dá que pensar. Não podem ser todos falhados! Alguma coisa aqui cheira muito mal neste reino...
Dizes que o mal não é existirem os cursos, e eu digo que o mal é não existirem empregos. E sim, vou adorar ver os professores inscreverem-se no centro de (des)emprego junto com os alunos, porque, como eu disse, os pimpolhos vão acabar. Já estão a acabar. Já se sente no ensino secundário. Mais ano menos ano, chega à universidade.
(continua no post seguinte)


O cenário é mau. Mas o simplista prateado não deixa de ter alguma razão: um curso não é uma garantia de emprego e as pessoas devem pensar bem antes de lhe dedicarem não sei quantos anos da sua vida. Mas o que é que se pode pedir para fazer a um puto que revela capacidade para estudar Direito, Filosofia, Psicologia, Biologia, ou outra coisa? Que se contente em vender hamburguers no mac? Há qualquer coisa que não bate certo.É bem verdade que algo vai mal num país que desperdiça desta forma a sua massa cinzenta. Entretanto, na política, os valentins, os sócrates, os abelinos, os santanas e quejandos, continuam e sobrevivem... Mefistófeles Enviado por em março 3, 2004 11:17 PM

Mas isso são as cunhas! Qualquer idiota que tenha um papá (ex: João Loureiro) faz uma banda, dirige um clube de futebol, vai para a política... Queres ver que eu não faço nada disso porque sou muito estúpida? (só se for por não arranjar um amante com dinheiro e posição, que também é uma solução muito viável...) Mas somos 60 mil estúpidos? Pá, muita gente estúpida em Portugal...

Quanto às capacidades individuais, ainda posso ir mais longe. Dizem que o país precisa de licenciados nas Ciências. Ok, mas eu não gosto dessa área. Sempre gostei de Humanidades. Entre ser médica e ir fritar hamburgueres no MacDonalds, prefiro o MacDonalds. Sangue por sangue, pelo menos a vaca já não grita.
Se dissessem de uma vez por todas: não precisamos de mais advogados, jornalistas, professores, a malta nem se dava ao trabalho. Ia logo para o MacDonalds.
E é isso que os PROFESSORES E OS LOBBIES DO GOVERNO NÃO QUEREM QUE SE SAIBA!!! Ficavam com a família no desemprego e tinham que sustentar filhos, irmãos, cunhados e outras cunhas.

Ainda sobre o Mac, quem te disse a ti que o Mac emprega licenciados? Pois, aí é que está! Ninguém quer empregar gente sobre-habilitada. Porque é que pensas que está tanta gente licenciada desempregada? Porque preferem gente com o 12º ano. Porque a licenciatura só serve para atrapalhar o currículo. Agora já não me dou ao trabalho de a esconder, mas já dei. Já esteve muito pior do que está agora. Há 10 anos atrás um licenciado não conseguia um emprego como recepcionista, nem temporário. Agora já se consegue. Temporário, mas já se consegue. Progresso, aleluia!

Olá! Está muito bem aquilo que disseste! Eu acho que tu devias ir para comentadora dos telejornais, ou então ter um programa teu para falar sobre estes e outros assuntos (...) Filipa em março 4, 2004 12:05 AM

Não é preciso. A Manuela Moura Guedes comentou por mim. Aquilo é jornalista/comentadora 2 em 1. Lá está, a tirar um emprego a um comentador!...

Publicado por _gotika_ em 04:27 AM | Comentários: (3)

domingo, 22 de janeiro de 2012

E apagou-se a luz

Queridos amigos...

*evil grin*

2010 foi um ano muito divertido. 2011 ainda foi mais. Fartei-me de rir. (Bem vos disse que riria.)
Não, não fiquem indignados. Não vale a pena. Este ano já não vou rir. Já perdeu a piada.
Quando, há meia dúzia de anos, comecei a escrever neste blog sobre o estado da nação, e expliquei como a mediocridade havia de afundar o país, porque o mérito não era reconhecido, porque a Justiça não funciona, porque sem a Justiça a funcionar a democracia não funciona, porque nos íamos tornar todos escravos sem escolha, etc...
Nessa altura, e já pude falar do assunto pessoalmente com pessoas que me lêem desde então, houve comentários de gente de todas as idades -- deixem-me salientar, de todas as idades -- a chamarem-me doente, depressiva, a sugerirem que tomasse medicação para a depressão, a culparem-me de ter ido parar ao call center por falta de mérito. Coisas assim. Meia dúzia de anos mais tarde...

*evil grin*

... meia dúzia de anos mais tarde, dizia eu, aconteceu-lhes o impossível: alguns cresceram, e agora estão no call center também ou nas lojas do centro comercial ou nas caixas de supermercado. É à escolha. Ganha-se o mesmo.
(Mesmo assim, meus amigos, já houve uma evolução nas mentalidades, por isso não se queixem muito. Na minha altura, apenas há meia dúzia de anos, tive de mentir, tive de fingir que não era licenciada, tive de falsificar o meu currículo, para ser aceite sequer numa entrevista de emprego para call center! Actualmente, meninos mais novos, graças a pioneiros e pioneiras como eu, já não precisais de mentir. Podeis sair das faculdades e ir directamente à agência de trabalho temporário-permanente com a vossa licenciatura que eles já não se importam e vos esperam de braços abertos assim que terminardes o estágio não remunerado financiado pelos vossos papás na qualquer área do saber que vos passou pela cabeça prosseguir, cheios de esperança do tal mérito.)
Outros, os que tiveram a sorte de nascer um bocadinho mais cedo, uma geração privilegiada a que eu chamo "os irmãos mais velhos", que vieram ao mundo uns anos antes do 25 de Abril e se viram de repente no País das Maravilhas, indignam-se muito ao ver os filhos, os irmãos mais novos, e a eles próprios, num desemprego e numa desesperança que nunca lhes cruzou o espírito deslumbrado que lhes tocasse na pele. Excepto à meia dúzia de "irmãos mais velhos" que chegaram ao poder desde o tempo do engenheiro. [Cuidado com eles. Mudaram de cor mas são a mesma cambada. Não sabem sequer o que é querer limpar o rabo e faltar o papel higiénico mas não se importam de dizer aos outros 'limpem-se aos dedos'. Sempre vos avisei quanto a eles. Quem não os conheça que os compre.]
Os mais velhos que esses, coitados, dividem-se entre os alucinados que ainda julgam viverem no PREC e os que se contentam em dar graças ao Governo pela pensãozita. Destes nem vale a pena falar. É natural que estejam loucos. Depois de nascerem no tempo da guerra ou no período em que ainda lhe sentiam os efeitos de penúria, e passarem a maior parte da vida sob uma ditadura, e da esperança que foi saírem dela, e caírem a seguir... nisto, não é de estranhar que estejam afectados da cabeça. (Eu também estou, e não sou tão velha como eles, mas ainda estou suficientemente lúcida para saber que estou doida.)
Todos estes pobres deslumbrados se indignam.
Houve uma altura, aqui neste blog, em que se repetia a graça, em post ou nos comentários: "todos os dias acorda um". (Lembram-se?)

Acreditem ou não, ainda não acordaram todos, isso é que é intrigante!!!

Mas indignam-se, e indignam-se tarde.
Muito, muito tarde.

Sabem quando é que eu me indignei, meus amigos? Há vinte anos atrás.
Foi precisamente nos anos 90, há vinte anos atrás, sensivelmente, estava eu a acabar o meu curso quando vi a escuridão. Mas lá está, era eu que estava doente. Era eu que estava a ver fantasmas.
Agora indignam-se, e vão para o Facebook chamar nomes ao mesmo homem que há vinte anos foi um dos responsáveis pela minha indignação (mas longe de ser o único!). Estive a ler a página de comentários do fulano, e a mim o que me indigna é a falta de memória de quem tinha obrigação de se lembrar. Só os mais novinhos têm desculpa. Os outros, lamento, se não fizeram a vossa cova ajudaram a cavá-la. Onde estavam vocês, indignados, quando eu me indignei nos anos 90? Eu lembro-me. Vocês lembram-se? Ou fumaram assim tanta ganza que já não há nenhum neurónio nessa cabeça?
Acabei de dar a resposta à minha própria pergunta. Pois foi. Fumaram muita ganza. Eu sei porque me lembro. Não se ofendam, porém, porque eu não estou melhor. A benzodiazepina também não faz melhor ao neurónio, e há coisas que uma pessoa mais vale esquecer. De certa forma, tinham razão. O que me faltava era medicação, não anti-depressivos, porque já não há cura para estas trevas, mas ansiolíticos. Anestesia. O que é preciso é anestesia.

Por isso não me indigno. Nem me queixo. Para mim já é tarde. O meu barco já partiu. Já tive mérito mas já não tenho. Nem para caixa de supermercado porque me engano nos trocos e era logo despedida. Imaginem vocês que de um dia para o outro até já nem sei escrever português! Não há, de facto, neurónio que aguente tanta injustiça. Fundiu-se tudo.
Completo este ano os 40. Posso dizer que até tive sorte em arranjar um trabalhinho antes dos 35, ou já não arranjava nada. Assim haja saúde e transportes públicos para ir trabalhar, e até se sobrevive. Por enquanto.
Depois não sei, nem sei quando será o depois.
Isto de ser oráculo tem muitas desvantagens. Como diria o Nostradamus, "depois de 2000 não vejo nada". Eu também, lamento, não vejo nada no futuro. Nada de nada.
Há certas alturas em que até um oráculo decide fechar os olhos para não viver a tragédia duas vezes. (Esta aprendi no "Flashforward", o que se aprende com a televisão!)

Quem quiser saber como chegou aqui, clique ali em baixo na etiqueta com o nome do país. É possível que não apareçam os posts todos mas alguns hão-de aparecer.
Aos outros (poucos) visionários que também viram o futuro: coragem!
Aos recém-indignados: mais vale tarde do que nunca, mas olhem que é tarde, tão tarde! Mas tão, tão tarde que nem há palavra no dicionário para descrever o quão tarde.

Agora apagou-se mesmo a luz.
E olhem, meus amigos, até apagaram a televisão. Sempre dá jeito que as pessoas não estejam informadas, especialmente aquelas que não têm dinheiro para pagar tv-cabos e televisões novas e aparelhómetros.
Se me estão a ler, considerem-se pessoas de sorte. Muitos há que ainda não descobriram sequer que existe internet.

Vou acabar com uma pequena nota sobre algo que me está a impressionar profundamente, algo do país real, do país quotidiano. Desde há uns dois anos para cá, tenho notado uma crescente falta de bens à venda no supermercado, em quantidade e em variedade. Não é que não haja procura. Já não há sequer oferta. Nestes 40 anos de vida, ouvi falar dos tempos em que as pessoas queriam comprar e não havia à venda como uma coisa dos tempos da guerra, lá muito muito longe. Nunca pensei, na minha existência privilegiada, entrar num supermercado e não encontrar bens básicos como cotonetes, pacotes de sal, amendoins. Nunca pensei ter de andar de supermercado em supermercado à procura de bens tão básicos. E nem sequer estou a falar de uma determinada marca. Estou a falar de não terem o produto, seja de que marca, porque esgotou. E pode estar esgotado dias a fio. Não porque não haja procura. Mas porque não se investe para que haja oferta. Da mesma forma, por exemplo, alguns produtos únicos que eu usava, tipo sabonetes e afins, e não estou a falar de um ou dois mas de número significativo, deixaram de ser fabricados. Vendiam-se, mas deixaram de ser fabricados. Ora, se há procura, se há quem compre, se dava lucro, porque é que já não dá? Porque é que as fábricas fecham se há encomendas? Quem é que anda a fomentar uma economia de tempo de guerra? Quem é que anda a amealhar? O que vem por aí?...
Sintomático dos tempos.

Pensem nisto e até à próxima.

xoxos




post scriptum

Segui o meu próprio conselho e carreguei na etiqueta, para ver se ela ainda funcionava, e descobri este post engraçadíssimo de Janeiro de 2009, que até é giro e reproduzo na íntegra para não acabarmos isto em lágrimas, porque afinal rir é o melhor remédio:

Crise, qual crise?

Então nos últimos dias descobri que neste próximo ano, a manter o meu emprego, apesar da crise (qual crise?) até posso elevar o meu padrão de vida porque os combustíveis e a prestação da casa vão baixar.



Esta gente droga-se. Não há crise nenhuma. Não tenho acções, não tenho casa, não tenho automóvel. Vou ficar perfeitamente na mesma. Perfeitamente na mesma merda. E aqueles sem abrigo a dormir na rua também não vão perceber nada.
Às vezes dá gozo ser pobre. São gargalhadas, são barrigadas de riso, saber que um gajo se atirou para debaixo de um comboio porque perdeu milhões na bolsa. Idiota materialista. Com tantas boas razões para se suicidar foi-se matar por dinheiro.

Uma pessoa não se mata por dinheiro mas porque SIM! Poseur!!!

Devo dizer que desde que a crise dos ricos começou me tenho rido à fartazana, e parece que o ano de 2009 tem tudo para ser uma festa de endorfinas sem recurso a estupefacientes. Basta-me ouvir meia hora do telejornal da 2. Gostei daquela do Monstro do Bolo Rei vir dizer que as ilusões se pagam caras, e com esta se cala, (que ilusões, outro tabu?), e o Histérico nem sequer o ouço porque assim que aparece na televisão carrego no mute (é para isso que ele serve). O Vítor Constâncio, esse, é o melhor palhaço da televisão. Mais ou menos, a piada é esta: se não for despedido, até vai viver melhor do que os outros, mas se for vai amargar. Fantástico! Como se Portugal não fosse já, a par dos Estados Unidos, porque nisso somos uma potência mundial, o país com maior desigualdade! A começar pelo Vítor Constâncio, que devia (a não ser preso) receber o novo ordenado mínimo de 450 euros por incompetência, e o resto do ordenado ser distribuído equitativamente por todos os sem abrigo que aparecessem para o receber à porta do Banco de Portugal.
E como parece que hoje já me estiquei demais e tenho bocas para alimentar, desculpem lá não querer ser presa mas não dava muito jeito. O nome do jogo, dizia outro dia um vampiro qualquer, é "sobrevivência". Depois não se queixem, quando perceberem o verdadeiro significado da palavra que tão levianamente invocam: sobrevivência.