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domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Hannibal


Mas que raio, quem é este Will Graham?! De onde saiu este fulano?! Onde está o Hannibal? Porque é que desde a primeira temporada temos de levar com este Will Graham como personagem principal quando a **** da série se chama Hannibal?
Bem, parece que este tal de Will Graham foi o tipo que prendeu (?) Hannibal Lecter, nos livros, de que supostamente a série é uma adaptação passada nos nossos dias, com um Hannibal Lecter muito mais novo. Por esta altura, com tantas modificações à história original, até os fans que leram os livros se estão a sentir um bocado perdidos.

Custou-me, a sério, custou-me muito, aceitar este novo actor como Hannibal. A interpretação mítica de Anthony Hopkins não é algo que se esqueça. Mas chegando à terceira temporada da série já estou habituada, e até fascinada com este novo Hannibal, um Hannibal em liberdade e no activo como nunca o tinha visto. Muitos parabéns ao Mads Mikkelsen: não tinha um trabalho fácil pela frente tendo que competir com o fantasma de Anthony Hopkins mas conseguiu brilhantemente encarnar o canibal (se não o mesmo um outro, tão convincente, tão intimidante, tão real como o dos filmes).
Infelizmente, a participação de Hannibal, nas três temporadas, têm sido subaproveitada. É disso que me queixo.
Quem me diria que ao assistir à primeira temporada de uma série sobre Hannibal Canibal eu haveria de bocejar e quase adormecer à mesa? A série tem conquistado prémios merecidíssimos (a beleza com que se filma o horror é arrepiante), mas a primeira temporada fez-me sono. Demasiado uso de sonhos, imaginações, e mais tarde até de alucinações (quando Will tem uma meningite ou algo semelhante), e convenhamos, uma pessoa chega do trabalho, cansada, e a certa altura já não percebe se o que está a ver é mesmo real ou um sonho ou o raio que o parta! Começo-me a perder na narrativa, a bocejar incontrolavelmente, a desinteressar-me do que o tal Will anda a fazer. Mas quem são aqueles serials killers, afinal?! Então e o Hannibal está ali para quê, só para dar nome à série?
E a primeira temporada lá vai indo assim, as cenas repugnantes a única coisa a conseguir abrir-me os olhos quase a fechar-se. Na segunda série, porém, abri os olhos.
Finalmente, quando eu já perdia a esperança, Hannibal entra em cena. E quando Hannibal entra em cena, Hannibal “devora” a cena. Todos os outros personagens desaparecem e finalmente temos Hannibal Show!

 Convincente, intimidante, aterrador, e bom como o milho. (Mas se alguém perguntar eu não disse isto.)

No final da segunda temporada, Hannibal foge para a Europa com a psiquiatra dele, Bedelia Du Maurier, a nossa grande Gillian Anderson. [É interessante, e gratificante, assistir a como a Gillian cresce como actriz de papel em papel desde a Scully dos X-Files. O carisma da grande senhora que actualmente enche o écran nem se adivinhava nesses dias, apesar do poder da personagem, e da série, e do mito.]
Todo o período passado em Itália é o meu preferido. Nem percebo porque é que alguns fans se queixam de falta de acção. Falta de acção?! O que mais houve foi acção. Bedelia demasiado aterrorizada para tentar fugir, Bedelia que não se atreve a comer nada que tenha carne, mas alimentada a ostras (segundo alguém diz, na série, as ostras dão melhor sabor à carne), Bedelia que se livra de dar a Hannibal o confesso gosto de a provar. Comportam-se, ambos, como marido e mulher num casamento de conveniência da alta sociedade. Um par de tios! Conveniente para ele, que não gosta de solidão, aterrador para ela, que sabe que vai acabar na mesma travessa onde Hannibal vai servindo os convidados que aceitam o jantar. Se calhar vejo ali o que outros não vêem, e gostei particularmente da cena em que Hannibal mata um comensal durante a sobremesa. A expressão de tia incomodada na cara de Bedelia, impagável!
“Aníbal, que aborrecido, estragar-me a refeição desta maneira!”
“Desculpe, Bedelia, fui impulsivo, admito!”
“Ora, Aníbal, seja honesto que já é crescidinho!... Estava a pensar em matar o homem assim que trouxe o picador de gelo para a mesa!”
“É verdade. Peço desculpa, Bedelia, não torna a acontecer. Que tal a sobremesa?”
“Estragada, o que é que espera?... Sinceramente, Aníbal, começo a ficar farta desta situação. Se ao menos o Aníbal ficasse farto também, mas o Aníbal nunca fica farto… E poupe-me a graçola que de que pondera fartar-se de mim, porque estou farta das suas ironias também. Olhe, coma-me de uma vez ou deixe-me comer descansada, é o farta que eu já estou!”
Mas Hannibal não quer estar sozinho, deve ser a sua maior fraqueza, e acaba por não comer a companhia.

 Aníbal, caríssimo, quer comer-me de que maneira, exactamente?

De regresso à América, Hannibal entrega-se. Pensei que era o fim da temporada, e talvez até da série, visto que existe a perspectiva de que ninguém a quer continuar, apesar dos prémios. (!!!)
Não, subitamente, voltamos ao tal fulano, ao tal Will Graham, super-profiler, a investigar serial killers medíocres. Bem diz o Chilton, a Hannibal, mais ou menos que “você vai ter sempre o seu nicho, mas tem que ver, a sua sofisticação, a sua erudição, não é apelativa a um público tão vasto”. O público identifica-se mais com a brutalidade de um serial killer que massacra famílias. Não alcança o requinte artístico de Lecter. E talvez seja por isto que a série não vai ser continuada...
Mais dois episódios e já estou a bocejar e a adormecer. Porque é que não deixam o Graham ficar lá com a família e os cães? Qual é o interesse em mostrar serial killers medíocres, ao nível de “Mentes Criminosas”, quando a série tem ali uma diamante, e nem sequer em bruto, um diamante polido e cintilante na coroa de um dos maiores monstros de sempre? A quem é que interessa ver o tipo bronco que mata famílias, quando lá está o Lecter, atrás do vidro? Os livros? Já inventaram tanta coisa que não está nos livros que os livros não são desculpa. Porque é que o Hannibal tenta comer o cérebro de Will, o que é que aconteceu ao célebre: “O mundo é um lugar menos interessante sem si, Clarice”? Não devia ser um lugar mais interessante com o Will, também, se o Hannibal gosta tanto dele que se entrega para que Will o visite?... Ou, pelo contrário, o Hannibal está tão farto do Will como eu estou? Está tudo doido?... Will diz que sente falta dos cães, mas não vai sentir falta de Hannibal. É curioso, porque quando o maluco foi para a Europa atrás de Hannibal, a única coisa de que senti falta neste personagem foi precisamente dos cães. (Já somos dois, Will.) Não sei quem é que pensou que este personagem ia ser interessante. Numa outra série de profilers, onde não houvesse um Hannibal, talvez. E por falar em Europa, quem era aquela senhora japonesa que aparece durante alguns episódios e desaparece outra vez sem ser explicada? Sei, vagamente, dos fóruns da série, que é alguém relacionado com alguém da criadagem da família Lecter. Quem é que pensou que não era preciso explicar quem ela era? Por falar em família, o que é que aconteceu a Misha, irmã do Hannibal, que ele não matou mas comeu? Quem era o prisioneiro na casa dos Lecter?...
Em vez disto tudo, andamos a ver um serial killer que mata famílias. Não compreendo estas opções, não compreendo. Compreendo uma tentativa de criar cenas perturbadoras, do mais perturbador que já vi na vida, e se calhar este enredo psicológico não se presta tanto ao torture porn que é o resto da série? O mesmo torture porn que vai matar a série, ao que parece? Como é que diz o ditado? Dar pérolas a porcos, em vez de bolotas? Tinham tudo para fazer uma grande série! Tudo! Mas não fazem, não porque não podem, não porque não sabem, mas porque não querem, e não se percebe as opções.
A melhor opinião que já ouvi foi a do fan que sugere que Thomas Harris devia escrever outro livro. Afinal, esta série já é outro livro que só de longe se aproxima dos originais. Não acredito que venhamos a ver a Clarice aqui. Nesta versão, o Hannibal era capaz de a comer também. E lá ficava o mundo um lugar menos interessante. Como o Hannibal atrás das grades. Bocejo.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror V

The Horror at Martins's Beach
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.

[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]

Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.


The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.


The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...


The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.


The Outsider

Unhappy is he to whom the memories of childhood bring only fear and sadness.

Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.


The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.


Continua.