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quinta-feira, 27 de maio de 2021

:: Review :: WORLD GOTH DAY 2021 :: Review ::

Sabiam que 22 de Maio é o Dia Internacional do Gótico? Eu também não. (Para dizer a verdade, só começou em 2009.) Foi preciso a pandemia e assistir a streamings estrangeiros para saber que o World Goth Day é cada vez mais celebrado pelo mundo fora. Mas este ano, 2021, foi definitivamente especial. (Podem tirar-nos os bares, mas não nos tiram o gótico.) Emissão em streaming, 24 horas ininterruptas, com DJ sets de todo o mundo.
Sendo que é a primeira vez que faço uma crítica / reportagem de um evento de streaming, vou-me guiar pelas regras da crítica de concertos (só que cada um em sua casa).
Só soube do evento no próprio dia, e só por acaso, uma vez que recentemente tenho andado mais ligada aos eventos de streaming como há muito tempo não andava (por exemplo, deixei de ouvir rádio/podcasts online há anos), desde que tenha tempo. Consegui acompanhar o evento das 18h às 2 e tal da manhã, e só posso dizer que foi um espectáculo. DJs do mundo inteiro, vários estilos de música (dentro do gótico / alternativo, bem entendido), góticos de todo o planeta a assistir aos eventos e a participar no chat, de início com alguma timidez, depois mais abertamente.
Algo que sempre me impressionou desde o meu contacto inicial com a cena é que não importa onde estejamos, de que país e cultura sejamos originários, da Europa aos Estados Unidos, da Austrália à América do Sul, quando nos encontramos sentimos que já nos conhecemos todos uns aos outros desde sempre. Isto nunca senti em mais lado nenhum nem com mais ninguém. Quando comunicamos uns com uns outros, apesar de desconhecidos, sabemos imediatamente do que o outro está a falar. É extraordinário.
Não se pense que os góticos são uns sisudos, porque houve momentos de humor. A certa altura um DJ de New York (DJ Sean Templar) decidiu discursar, agradecer a presença de tanta gente online, desejando que nos divertíssemos e mostrássemos, com o nosso apoio, as nossas “true colours”:
“OUR COLOURS ARE BLACK” Respondeu alguém no chat.
Eu ri-me porque estava a pensar o mesmo. Cores, quais cores? Maior verdade nunca foi dita.
Quem perdeu este evento não fique triste, todos os DJ sets estão no site
www.death-rock.de
para serem ouvidos e apreciados em
www.death-rock.de/2021/05/playlist-world-goth-day-stream-2021-22-05-2021
e noutras plataformas onde os DJs alojaram as suas prestações (é só procurar porque estão disponíveis).
Adoro estes streamings, quer os nacionais como os internacionais, e espero que não acabem, com ou sem pandemia. Dão muito jeito às pessoas que não podem sair por motivos profissionais ou familiares, ou que não podem viajar. É uma janela para o que se faz lá fora e, acima de tudo, uma maneira de conhecer música nova ao mesmo tempo que se passa um bom bocado.
Da nossa parte, fomos representados pelo DJ Yggdrasil, já um veterano dos streamings internacionais. Espero não perder para o ano e prometo anunciar com antecedência. É preciso é que se faça.

 

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Cat-Shape Hole In My Heart, vários artistas (1999) – requiem pelos ausentes

Um disco de grande beleza pelos nossos amigos felinos ausentes, essas criaturas misteriosas que dignam partilhar connosco as suas vidas efémeras.
O projecto começou quando Sam Rosenthal (fundador de Projekt e Black Tape for a Blue Girl) perdeu a sua gata Vidna devido à leucemia felina e decidiu convidar bandas a integrarem uma compilação que alertasse para essa doença. Os lucros foram, e são ainda, destinados ao Tree House No-Kill Shelter of Chicago, um abrigo para gatos.
Cruzei-me com este disco por acaso (se acreditasse em acasos) quando o encontrei em segunda mão nos anos 2000, ainda na velhinha loja Fata Morgana da avenida Duque de Loulé. Comprei-o logo, mesmo sem conhecer a maioria das bandas. Vinte anos depois, este disco fez-me companhia em alguns dos momentos mais penosos da minha vida: o adeus aos companheiros felinos que estiveram comigo e já não estão. Muitas destas canções fazem-me logo desatar em lágrimas, mas chorar lava a alma.
“A Cat-Shape Hole In My Heart” é um álbum de gótico puro e sublime, um requiem composto por pessoas que passaram pelo mesmo luto destruidor. Um disco obrigatório para góticos que amam gatos. Se ainda não o têm, não imaginam a falta que vos fez.
Não há uma única canção inferior nesta colectânea, mas destaco as minhas preferidas: o desgosto subtil de "Too Far Away" (Area), o comovente "Cayman" (Mira), o devastador "Night and Mourning" (Regenerator), os fantasmagóricos "Galactipus" (Tara Vanflower) e "Felix the Cat" (Collide), o melancólico "In The Snow" com o seu último verso "There’s something that falls apart the instant the light ends" (Dead Leaves Rising), o misterioso "In Dreams Of Mine" (Faith & The Muse).

Há pouco tempo pesquisei e não apenas ainda se encontra à venda o CD em formato físico como agora é possível ouvi-lo e adquiri-lo no Bandcamp do Projekt Records:
projektrecords.bandcamp.com/album/a-cat-shaped-hole-in-my-heart-pay-what-you-wish-1999
Ouçam-no, guardem-no, comprem para os amigos, não emprestem. Um dia vão precisar dele.


domingo, 27 de dezembro de 2020

Siglo XX, ilustres desconhecidos


Os Siglo XX são uma banda belga formada em 1978. Uma banda que só descobri graças, mais uma vez, ao festival Extramuralhas do ano passado. Não posso dizer que nunca tinha ouvido falar deles, porque afinal até tenho um tema dos Siglo XX na compilação “Fuck Yeah Goths Mix One” (2010), mas simplesmente não lhes tinha prestado a atenção que merecem. Desde o Extramuralhas 2019, que lhes descreve o género musical como Coldwave, Gothic Rock, Darkwave e Post-Punk, fui finalmente aprofundar a discografia desta excelente banda. E fiquei perplexa de como é que me passaram ao lado este tempo todo. Mas mais vale tarde do que nunca.
Um dos motivos para isto, suspeito, é que a música dos Siglo XX não é exactamente dançável (pode ser, mas é mais para ouvir do que para dançar, no meu gosto pessoal) e passa muito discretamente no meio de outras bandas do mesmo género. Não é banda em que se repare numa disco ou bar, por exemplo, enquanto se conversa com amigos.
Às vezes os temas lembram-me Joy Division, outras Bauhaus, outras ainda Siouxie and The Banshees, e Sisters of Mercy e Nick Cave do início, e até Dead Can Dance do primeiro álbum. Como é que é possível perdê-los?
Os Siglo XX fazem um som subtil e envolvente, com letras fortes e sombrias, que merecia ser mais conhecido. Recomendo que os vão já descobrir se eles também vos passaram ao lado.

domingo, 30 de agosto de 2020

The Doors / The Doors: O Mito de uma Geração (1991)


I am the Lizard King
I can do anything


Seria extremamente improvável, senão mesmo impossível, que eu não gostasse deste filme. “The Doors” é quase um video clip do princípio ao fim com todos os grandes êxitos. Podia tudo o resto falhar: actuação, cenários, guarda-roupa, direcção, enredo, que eu continuaria agarrada ao filme enquanto a música tocasse. O que não é o caso. Este filme é um 20 em 20, redondo e garrafal, e, estranhamente, é muito difícil dizer seja o que for do que é perfeito.
Val Kilmer encarnou Jim Morrison tão visceralmente que a certa altura eu me esquecia de que estava a ver um actor, especialmente nas cenas em palco. E o que me deixou de boca aberta: Val Kilmer, ele próprio, cantou no filme (embora algumas vezes se ouvisse mesmo a voz de Jim Morrison). Eu, que gosto dos Doors desde miúda, não conseguiria distinguir a diferença se não soubesse. De facto, até tive de ir pesquisar à net se as canções não tinham sido dobradas. Não foram inteiramente. Uma coisa é interpretar um ídolo da música, outra coisa é cantar como ele a ponto de conseguir “enganar” um fã. Porque é que não deram um Óscar a este homem? Val Kilmer transformou-se em Jim Morrison, da cara ao corpo à voz. Não é esse o pináculo do trabalho de um actor?
Por razão igualmente estranhíssima, perdi o filme quando saiu e só agora o vi pela primeira vez. Deve ter sido daqueles que ficaram na categoria “tenho de ver”, e depois o tempo foi passando e nunca mais me lembrei. É uma razão estranhíssima porque, embora não goste de tudo dos Doors, gosto bastante de algumas canções. “When the music’s over” “toca” na minha cabeça frequentemente. Do que gosto mais até é da sonoridade, inconfundível, que sempre me transportou para lá, para este tempo e para esta geração que não é a minha.
Eram os anos 60, o movimento hippie, e ao mesmo tempo que os Doors conseguiam apelar a essa multidão, toda paz e amor e LSD, chegavam também a uma outra, toda raiva e inconformação e LSD. A geração que buscava abrir as “portas da percepção” para fora de um mundo em que muitos jovens iam morrer para o Vietname, em que a utopia hippie degenerou em cultos sangrentos como os de Charles Manson, em que os Kennedys e Martin Luther King eram assassinados.
Jim Morrison viveu o mantra “sex, drugs and rock’n’roll” até ao limite e pelo mesmo mantra morreu. Aos 27 anos, live fast, die young, sê um cadáver bonito.
Admira-me sempre muito quando os Doors não são apontados como percursores do movimento gótico. Mas alguma vez haveria o movimento gótico sem os Doors? Alguma vez haveria o movimento punk sem os Doors? Led Zeppelin? Quais Led Zepellin sem os Doors? Alguma vez viram Jim Morrison em palco, vestido de negro da cabeça aos pés, de corpo serpenteante, voz poderosa e ganas de partir tudo? Alguma vez leram a sua poesia?
“The Doors” mostrou-me o homem e a banda que eu sempre adivinhei que Jim Morrison e os Doors tivessem sido, das tímidas origens ao estrelato e aos fãs em histeria, ao fim trágico que só podia ter sido aquele. De certa forma, era este o filme que eu tinha na cabeça ainda antes de o ver. Jim Morrison, Pamela Courson e os Doors como sempre os imaginei.

20 em 20. Perfeito.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Metropolis reabre no mesmo espaço

O bar Metropolis vai reabrir no mesmo espaço, Centro Comercial Imaviz, nas Picoas, a 17 de Novembro. Segundo post do Facebook, a reabertura deve-se aos muitos apelos dos clientes desde que encerrou a 30 de Setembro. No entanto, permanece em aberto a mudança de espaço, que pode ser "mais morosa que o desejado".

Boas notícias!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Metropolis encerra portas

O bar Metropolis encerrou no dia 30 de Setembro. Segundo o post abaixo, no Facebook, está previsto um "novo Metropolis".
O Metropolis, nas Picoas, em Lisboa, inaugurou a 7 de Junho de 2008.
Nove anos de memórias.

Mais uma má notícia para a comunidade.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Andrew Eldritch prometeu novo álbum se Trump fosse eleito

Já não é exactamente uma notícia fresquinha, mas pode ser que a eleição de Donald Trump ainda nos dê uma alegria (?????...). Exactamente! Como diz o título, Andrew Eldritch prometeu que os Sisters of Mercy lançariam um novo álbum se Donald Trump fosse eleito. Será?...
Eu cá esperava sentada, mas sei que os Sisters of Mercy têm suficiente trabalho não publicado para um novo álbum da qualidade dos anteriores (já ouvi, é excelente!). Os novos temas têm sido tocados nas muitas digressões desde "Vision Thing", embora a banda se recuse a editar por considerar que actualmente a música não produz lucro que compense o custo.

Um bom artigo sobre o assunto no Side Line:

(By Mandy Coldrun) Many people have been perturbed by the fact that the Sisters of Mercy band is not in the business of recording albums anymore. The last recording ever done by this group in a real studio happened sometime in the 90s. 25 years down the line, the group still sings but won’t release an album whatsoever. The reason why they chose to go radio silence – no one knows. Even their fans know nothing as to why this group has never released an album even though they command the attention of the world wherever they go.

Speculations on whether or not they may release an album this time round
No one understands the reason behind this group going on strike against their record label. It is actually hard to get them recording an album, despite their fans complaining about it. It has actually come to a point where people can bet about it, and those who say that the group won’t release an album in the next couple of years will always win.Waiting for this band to release an album is like betting against the odds of a slot machine random number generator. You will always lose money when you say this group will finally record an album.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

domingo, 13 de novembro de 2016

The Garden of Delight / Merciful Nuns: jardim de delícias

Merciful Nuns

Este é um post há muito devido. Há demasiado tempo que The Garden of Delight e a sua posterior encarnação Merciful Nuns me têm feito as delícias sem que deles tenha falado. Mas não vou contornar a batata quente. O profícuo trabalho de ambos os projectos é "derivativo", como se diz agora quando queremos ser simpáticos. Quem não quer ser simpático poderá chamar-lhe "imitação" de Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy, mas vamos lá mais devagarinho. Há imitação e há homenagem.
Antes de prosseguir vou relatar uma conversa que tive sobre o assunto, aqui há uns anos, com um daqueles ultra fãs de Sisters of Mercy. Conheci-o porque, eu também, era uma ultra fã de Sisters of Mercy. (Entretanto deixei de ser, mas não vem agora ao caso.) Penso que a conversa até não era sobre os Garden of Delight, salvo erro era sobre os Merry Thoughts, mas a questão é exactamente a mesma. Perguntava-lhe:
"Então, o que pensas destas bandas em que o vocalista faz uma voz tão igual ao Andrew Eldritch que quase não se percebe que não é o próprio?"
Ele: "Imitações. Rip-offs. Não interessam."
Eu: "Não sei... Têm boas canções. O estilo pode não ser original mas as canções não são cópias. E pelo menos assumem que são góticos e não fingem que não são. Porque é que não hei-de gostar de bandas que fazem a música que eu gosto de ouvir?"
Ele: "Estilo gótico!... Mas era só isso, no início, o estilo gótico?"
Aqui fiquei sem palavras porque ele já se referia a toda uma envolvente pós-punk que disse muito às pessoas que a viveram. Já não estávamos a falar de música, estávamos a falar de atitudes, rebeldias, tomadas de consciência, posições políticas e filosóficas. Os anos pós-punk, a adolescência. Não quis entrar nesse debate.

Não sou dada a nostalgias, percebo agora que sou mais velha, e nunca consegui ficar agarrada a meia dúzia de bandas preferidas dos anos 80. Nem me bastava! Musicalmente, sou um vampiro. Preciso sempre de mais, e mais, e mais. E devo dizer, depois de mais de metade da minha vida a ouvir música como um vampiro insaciável, que original nem sempre é bom, e certamente não é tudo. Mais vale não original e bom do que original e mau. Nunca assinei um pacto a prometer que sempre ouviria música original, da mesma forma que também não assinei um pacto com as bandas antigas a prometer que não ouviria bandas novas (originais ou não). Tudo isto para dizer que na minha opinião o original, apesar de sempre promissor e bem vindo, está sobrestimado.
Já não tenho preconceitos com bandas derivativas. Sei do que gosto musicalmente, e não vejo nenhuma razão para não ouvir o que gosto. Também não vejo nenhuma razão para que as bandas não dêem aos ouvintes exactamente a experiência que estes lhes pedem, a musical e a outra. A experiência gótica. E nisso, tanto os Garden of Delight como os Merciful Nuns, ambos projectos alemães da autoria do mesmo mentor Artaud Seth, não decepcionam. Isto é rock gótico, isto continua o estilo que Fields of the Nephilim e Sisters of Mercy iniciaram, isto é o que eu quero ouvir. O conteúdo lírico, inspirado no oculto e no ritualismo, invocando anjos, deuses e demónios, inspirado em Crowley e Lovecraft, e ao mesmo tempo espiritualista, entre a contemplação e a sublimação da morte, também me delicia. (Ouça-se a solução sobrenatural de "In Between Worlds", Merciful Nuns, "she found a way to wander forever in between worlds" e compare-se com "Emma", The Sisters of Mercy*, "to find her lying still and cold and upon my bed", em que a tragédia se esgota na crueza da realidade.) 
Os amantes do sobrenatural vão gostar muito destes prazeres proibidos, tabus, que apenas apelam à alma gótica.

Garden of Delight "The Darkest Hour" 2007

Fica o alerta, quem viu relata que os Merciful Nuns são uma força da natureza ao vivo. Acredito plenamente. Assim me seja dada a oportunidade de testemunhar.



*Pequena adenda: Depois de escrever este post ocorreu-me acrescentar que "Emma" não é um original dos Sisters of Mercy, mas sim dos Hot Chocolate, uma banda soul britânica. Mesmo assim, achei interessante fazer a comparação porque a escolha de uma versão também fala pelo seu intérprete.
(A reboque desta curiosidade, ouvi pela primeira vez o original dos Hot Chocolate, um êxito de 1974. Vale a pena ver o vídeo.)




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

American Horror Story: VAMPIROS!!!


Tropecei nesta série quase por acaso, lá muito escondida depois de The Walking Dead, como se a Fox tivesse vergonha de a mostrar ou não acreditasse que American Horror Story valesse audiências por si própria. Bem, tem sido um dos meus "prazeres envergonhados" mas também não é assim tanto caso para ter vergonha. Ao longo das cinco temporadas que já vi (há uma sexta), a série evoluiu e ganhou uma qualidade que talvez nem os próprios criadores esperassem da sua estreia, American Horror Story: Murder House.
Não comecei por ver a primeira temporada, a que só assisti recentemente. Caí de pára-quedas na segunda, "Asylum". E devo dizer que durante dois ou três episódios fiquei de boca aberta sem saber o que pensar. "Hospício" é um bom título, porque tudo aquilo me parecia uma doidice de uma mistura sem pés nem cabeça, um esmagador exagero de histórias e sub-histórias de terror, como se fosse a obra de alguém a quem tivesse sido dada oportunidade de fazer uma única série, e essa apenas, e tivesse querido meter tudo lá dentro: um hospício de freiras nos anos 50 (coisa já por si bastante assustadora, mesmo sem os choques eléctricos e os castigos corporais), uma história de lésbicas, uma ninfomaníaca, um psiquiatra serial killer, uma freira possuída pelo Diabo, um médico nazi fugido da Europa que faz experiências com os pacientes, e como se isto tudo não bastasse, e até acho que me estou a esquecer de qualquer coisa, extra-terrestres que vão e vêm e abduzem e devolvem quem lhes apetece! Uma salada russa de horror! Mas afinal a loucura era propositada.

American Horror Story: Asylum

American Horror Story é mesmo assim, um estonteante desfilar dos horrores e mitos e traumas que se alimentam do psiquismo americano profundo. O que explica o nome da série e acaba por ser o fio condutor entre temporadas. É curioso também como tão ao gosto americano estas histórias acabam sempre por ter um final feliz em família, nesta vida ou na outra. (Se vir mais uma família a enfeitar a árvore de Natal, vomito!)

 American Horror Story: Murder House

A segunda perplexidade que me causou esta série aconteceu na temporada seguinte, "Coven", com uma história de bruxas rivais (as finas e as pobres, que é como quem diz, a feitiçaria das brancas e o vodu das pretas...) em New Orleans. (Onde mais poderia ser?... Se isto tem a ver com o universo da Anne Rice ou se é o universo da Anne Rrice que tem a ver com isto, desconheço. Nunca me interessei pela saga das bruxas de Anne Rice.) 

 American Horror Story: Coven

A segunda perplexidade, dizia eu, é que muitos dos actores são os mesmos da temporada anterior a interpretar papéis completamente diferentes. Não é comum, e passada a confusão inicial o espectador habitua-se, mas este é um método muito próprio do teatro que denuncia a ambição da série. Uma ambição plenamente conseguida com grandes exibições de Jessica Lange, Kathy Bates, Denis O'Hare (que eu praticamente só conhecia de True Blood) e os outros actores mais jovens e/ou menos conhecidos que encontraram aqui uma grande oportunidade.
Admiro particularmente os momentos irrepreensíveis de Jessica Lange, a mesma que em 1976 era considerada apenas uma sex symbol para figurar na mão de King Kong. Com lucidez e ironia, esta senhora tem aproveitado magistralmente a sua idade em extraordinários papéis a tender para as divas acabadas de Hollywood nos tempos áureos das grandes estrelas de cinema. Como é que era aquela linha, "Mr. DeMille, estou preparada para o meu grande plano!"?... Jessica Lange nunca esteve tão preparada para o seu grande plano. Tem tido vários em American Horror Story e não consigo decidir em qual das personagens gostei mais dela. Ver esta mulher actuar é um prazer por si só. (Quem me dera ser assim quando tiver aquela idade!...) 

 Jessica Lange em American Horror Story: Murder House

Cada temporada tem o seu tema, e é natural que cada tema provoque maior ou menor agrado. Gostei da primeira temporada, "Murder House", que vai brincar com os mitos da casa assombrada e do Frankenstein louco (o médico, não o monstro), entre outros, tentando um pouco fazer lembrar os filmes sobre o bebé-Anticristo (Rosemary's Baby, The Omen), mas não se aventuraram muito por aí. Já não gostei tanto da quarta temporada, "Freak Show", porque não acho graça à ideia em si, e não gostei de toda aquela violência entre pessoas de carne e osso em que o sobrenatural quase não aparece. Não é o meu género de terror.

American Horror Story: Freak Show

E de repente... VAMPIROS!!!

O que é o meu género, o que eu não consigo deixar de ver nem que seja para dizer mal... Os leitores frequentes já sabem.
Não era isto que eu esperava de American Horror Story: Hotel, e ainda nem vi metade da temporada e já estou a recomendar. Vampiros! Crianças vampiro! Se não vos convence, o primeiro episódio começa ao som de "Decades" de Joy Disivion, sim, Joy Division!, e mais tarde passa "Neverland" dos Sisters of Mercy, sim, Sisters of Mercy!, e mais alguns, e até "Bela Lugosi is Dead" dos Bauhaus! E vampiros! E crianças vampiro! E muito de Shinning:

American Horror Story: Hotel

Concebido para uma audiência gótica? Talvez. Mas não deviam tê-lo sido também "Murder House" e "Coven"? Porque é que só os vampiros é que têm direito a música gótica? Não sei. Já desisti de perceber o que é que as pessoas normais pensam dos góticos.
E por falar em pessoas normais, em "Hotel" tive a oportunidade de conhecer bem a cara à Lady Gaga. Acreditem se quiserem, não a conhecia, nunca a tinha olhado duas vezes, se já ouvi alguma das músicas dela não sei porque desconheço e não tenho interesse em conhecer, e se passasse por ela na rua não a conhecia. Mas agora conheço-a! E sei que sempre que olhar para ela é só disto que me me vou lembrar:

Lady Gaga em American Horror Story: Hotel

Não há ninguém que convença a senhora a vestir-se sempre de preto? Fica-lhe tão bem!
E era isto, e basicamente: vampiros, vampiros, vampiros. E crianças vampiro. E Denis O'Hare num espaventoso papel de bicha que ainda não sei se também é vampiro ou não. E Kathy Bates noutro fantástico papelão. O resto é o mesmo do costume, mas: vampiros, vampiros, vampiros! Este "Hotel" está cheio de vampiros!
Os fanáticos do género, se ainda não viram, já sabem o que têm a fazer.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Blitz: entrevista a Andrew Eldricth


Entrevista de Rui Miguel Abreu publicada no Blitz a 10 de Setembro último. Para a posteridade.




Sisters of Mercy hoje no Reverence Valada: a entrevista BLITZ com Andrew Eldtrich

A banda de rock gótico é hoje cabeça de cartaz do derradeiro dia do festival Reverence, em Valada. A BLITZ falou com Andrew Eldritch, o vocalista e mentor da banda: anti-Trump, anti-Brexit, anti-editoras, anti-quase tudo


Andrew Eldritch é um homem de fortes convicções e uma voz refrescantemente honesta que não se importa de assumir que é no passado que se encontra a parte mais relevante da sua obra e que o futuro serve apenas para a revisitar. Eldritch traz os seus Sisters of Mercy ao Reverence, em Valada (atuam sábado, às 23h30, no palco Rio), para um concerto que, garante ele, será mais do mesmo. E o mesmo continua a ser épico, denso e negro.

O que é que se tem passado com Sisters of Mercy nos últimos anos?

Mais do mesmo, na verdade. Não mudámos o nosso pessoal, nem sequer os nossos métodos. A vida continua...

Com cada nova digressão surgem sempre algumas canções novas. Têm trabalhado fora do palco também...
Sim, sempre, mas não sei ainda o que iremos tocar nestes concertos. Essa é uma decisão coletiva da banda e como dois de nós estão em Inglaterra e outros estão... a olhar para o Mediterrâneo, algures, ainda não se tomaram essas decisões. Os últimos concertos que tocámos foi na Letónia, Polónia, na Alemanha e na Bósnia e posso dizer que sim, foi mais do mesmo.

Mudando de assunto, 2016 tem sido um ano terrível para a música com grandes perdas. A mais recente foi Alan Vega. Estes desaparecimentos obrigam-nos a confrontar a nossa própria mortalidade, não acha?
Eu tinha muito orgulho no Vega. Teria ficado surpreendido se ele tivesse vivido até aos 30 anos, mas ele conseguiu viver até aos 78 e isso é incrível. Ele mentiu sempre em relação à sua verdadeira idade. Conheci-o há muitos, muitos anos e pensei “bem, este homem não está destinado a ter uma grande vida”. Mas acabou por ter uma vida longa e durante todo esse tempo, apesar do crescimento da música industrial, apesar do crescimento do dubstep, continua a não haver nada por aí que soe como os Suicide. Ninguém sequer tenta imitá-los, porque seria impossível. Ele era um homem realmente único.

Disse numa entrevista recente que gravaria um novo álbum dos Sisters of Mercy se Donald Trump fosse eleito...
Bem, haveria muitas razões para gravar um álbum e nós temos vindo a gravar canções de tempos a tempos, mas temos feito isso sem pressões de prazos, sem pressões de editoras e sem a pressão de ter que lançar alguma coisa. A verdade é que o nosso sistema parece funcionar e não vejo grande necessidade de alterar o nosos posicionamento. Às vezes, no entanto, damos por nós a pensar em fazer alguma coisa, talvez usando o Kickstarter, mas parece que encontramos sempre outras coisas para fazer. Mas há muitas coisas que me revoltam e, mesmo que ele não seja eleito, o simples facto de saber que pelo menos 40 por cento da América vai votar naquele palhaço deixa-me terrivelmente revoltado. Há muitas coisas que me deixam nesse estado e essa é uma delas.

Muitas bandas da vossa geração gravam coisas novas apenas para terem uma desculpa para continuarem a tocar as antigas...
A verdade é que nos divertimos muito a tocar o nosso material original. Acho que é importante ter novas canções nos concertos e nós fazemos isso. E, claro, temos que navegar muito bem a linha divisória que separa as pessoas que compram bilhetes porque querem ouvir coisas que já conhecem das outras que compram bilhetes porque gostavam de nos ouvir a tocar coisas novas. Temos sempre que encontrar esse equilíbrio. Se calhar nem sempre conseguimos, mas vamos tentando. E em todas as nossas digressões cada concerto é diferente porque só decidimos alinhamentos no dia do concerto. Tem a ver como o que sentimos, se o sol está a brilhar, se tivemos problemas no aeroporto, se nos apetece tocar canções rápidas ou lentas, mais canções antigas, ou pelo contrário mais das mais recentes. Mas o que acontece com mais frequência é que cerca de metade das canções são clássicos que as pessoas já conhecem e a outra metade será material nunca editado.

Há muito que vive na Europa continental, mas os seus conterrâneos parecem querer seguir o caminho contrário...
O voto surpreendeu-me porque não sabia que a maior parte dos meus compatriotas se sentia assim. Sei que os escoceses não se sentem assim. E boa parte das pessoas da minha geração e talvez a maior parte das pessoas mais jovens acreditam nalgum tipo de união europeia, mesmo que possam estar desapontadas com algumas das promessas não cumpridas da União Europeia. Mas o que aconteceu é que a Direita mentiu às pessoas, os nacionalistas mentiram às pessoas sobre a imigração - ninguém quer viver no País de Gales, por isso a imigração não será um problema aí. E disseram que, abandonando a União Europeia, teriam dinheiro para gastar no Serviço Nacional de Saúde. Mas eles são conservadores; por eles não se gastaria dinheiro algum nos serviços públicos de saúde... Muita gente, branca sobretudo, mais velha, nostálgica, pensou “lembro-me dos anos 50, que eram maravilhosos”. Na verdade, e eu também tenho memória, os tempos mais recuados foram terríveis. A vida antes da União Europeia não era tão boa e tenho a certeza que o mesmo acontecia em Portugal. Sempre verbalizei as minhas opiniões e acredito mesmo que se pode ser britânico e europeu ao mesmo tempo.

Diz-se que a meio dos anos 90 gravou dois discos de tecno que editou sob outros nomes, nunca revelando a sua verdadeira identidade. É verdade?

O primeiro era um álbum de tecno, definitivamente. O resto das coisas que fiz, para minha satisfação pessoal, não sei como se poderia descrever... Trance? Não sei. Não será verdadeiramente música de dança, será logo “trancey”, mas “evil trance”, não “happy hippy trance”. Gosto de brincar com electrónica e algumas das coisas que faço é demasiado electrónica até para os Sisters of Mercy. Os Sisters usam muita electrónica, mas combinam isso com guitarras ao vivo. E às vezes gosto de fazer coisas sem guitarras que não me parecem material de Sisters. Faço essas coisas para mim e normalmente poderei gravar uns CDs que ofereço a 12 amigos, sempre diferentes de cada vez, dizendo “tomem lá, apreciem”. Para isso não preciso de me meter na engrenagem da edição de música. É música privada. E música privada é fixe.

Os Sisters of Mercy foram descritos como “uma mistura entre Leonard Cohen e os Stooges”. Parece-lhe uma descrição apropriada?
Sim, sem dúvida. Mas também se poderia dizer que somos uma mistura dos Hawkwind e dos R.E.M. ou Neil Young e Moby...

Para terminar: trabalhou em tempos com o [compositor, letrista e produtor] Jim Steinman, colaborador próximo de Meat Loaf, no tema “This Corrosion”, que tem uma dimensão quase operática. O que recorda dessas sessões?
Lembro-me que ele se fartou de gastar dinheiro. Lembro-me que ele comia muito. Nesses tempos era normal fazermos maquetes antes de se gravar a versão que seria editada e a minha maquete já tem todos os elementos da versão comercial. O que o Jim acrescentou foi o orçamento que lhe permitiu juntar um coro verdadeiro e muito tempo num grande estúdio de Nova Iorque. Esse disco ficou muito caro. E ele era muito melhor do que eu a convencer as editoras a gastarem muito dinheiro num projeto. Quando uma editora gasta muito dinheiro num disco, gosta de gastar ainda mais dinheiro a promovê-lo, por isso acabaram a gastar uma batelada a fazer vídeos. Isso é tudo muito bom, mas no fim todas essas verbas vão sair do bolso dos artistas. Eles apenas avançam o necessário. Quando se vendem muitos discos, eles acabam por tirar o dinheiro que gastaram. Felizmente, esse disco vendeu muuuito e por isso todos fizeram dinheiro, mas podia ter sido um desastre porque custou uma fortuna a fazer e outra a promover. Felizmente, as editoras morreram e são hoje irrelevantes, por isso já não temos que nos meter nestes números. E isso é maravilhoso.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

As dez palavras mais “metálicas” de sempre

Eu não gosto de metal mas achei este artigo no Blitz interessantíssimo:

Um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal e fez um top 10 das palavras mais utilizadas

Tal como em qualquer outro género musical, o heavy metal pode falar de uma miríade de temas: do amor à filosofia, da política à natureza, ou, no caso do black metal, de Satanás.

Contudo, há palavras mais comuns do que outras - e um cientista analisou milhares de letras de canções heavy metal para tentar perceber quais as mais utilizadas por este tipo de artistas.

Recorrendo ao website Dark Lyrics, bem como a 222 623 letras de 7 364 bandas de metal, o cientista em questão elaborou posteriormente um top 10 das palavras mais usadas no metal: confira-a aqui em baixo, e leia aqui o artigo científico em questão.

1. Burn
2. Cries
3. Veins
4. Eternity
5. Breathe
6. Beast
7. Gonna
8. Demons
9. Ashes
10. Soul
O artigo original pode ser encontrado aqui: Heavy Metal and Natural Language Processing

Fiquei muito curiosa. Se alguém fizesse a mesma análise a uma boa amostra de músicas góticas, quais seriam as 10 palavras mais utilizadas? Assim de repente, sem pensar muito, eu apostaria em "dead", "lost", e, por alguma razão, "away". A quantidade de músicas que usam a palavra "away", não é?




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Music is your only friend

Já era tempo de reorganizar o meu perfil em termos de gostos musicais. Necessário incluir o que descobri entretanto. Remover o que entretanto perdeu relevância.
O Winamp dá muito jeito. Pela primeira vez tenho toda a música que ouço digitalizada e nada fica de fora por esquecimento.
É sempre uma reflexão fazer estas listas. Algumas coisas, de que costumava gostar muito em tempos da adolescência, tornaram-se “obsoletas”, para não dizer pior, e sairiam do top  de preferidos. Outras, passaram sem dó nem piedade para um sub-top (uma espécie de classe B). Outras, que há 20 anos estavam no top das minhas preferências, desapareceram da lista e qualquer dia arriscam-se a desaparecer do Winamp também. Não gosto de guardar música que já não ouço e que já não me diz nada. Nem por nostalgia nem por qualquer outra razão.
Posto isto,

Os preferidos, novos e antigos e de sempre:
Adrian Alexis, Arcana, Bauhaus, Christian Death, Dead Can Dance, Joy Division, Lisa Gerrard, Mão Morta, Marilyn Manson, Merciful Nuns, Nick Cave & the Bad Seeds, Peter Murphy, Rammstein, Red Lorry Yellow Lorry, Rosa Crux, Siouxsie & the Banshees, The Creatures, The Cult, The Death Cult, The Fields of the Nephilim, The Garden of Delight, The Mission, The Nefilim, The Sisterhood, The Sisters of Mercy, The Southern Death Cult, Woven Hand.

O que também se ouve com muito prazer no meu Winamp:

Alice In Chains, All About Eve, Frank the Baptist, Ghost Dance, Grinderman, Hamza El Din, Irfan, Le Mystère Des Voix Bulgares, Miranda Sex Garden, Moonspell, Nirvana, Paradise Lost, PJ Harvey, Rubicon, Ruby Blue, Soundgarden, SSV, The Golden Palominos, The Merry Thoughts, The Offspring, Throwing Muses, Type O Negative, Violent Femmes.

All About Eve, Moonspell e Violent Femmes, curiosamente, todos por razões diferentes, passaram do top para a “2ª divisão”. The Mission está quase a passar.
Amar música é como amar alguém. Ama-se, ama-se muito, mas os anos passam e mudam-nos, e mudam o outro, e de repente já não se ama. Às vezes não é culpa de ninguém.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Música!

Capítulo “Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos”


Os Espíritos são sensíveis à música? [pergunta]
– Quereis falar da vossa música? O que é ela perante a música celeste cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma ideia? Uma está para a outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia. Entretanto, os Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir a vossa música, porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime. A música tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas. A música celeste é tudo o que a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.

Um post sobre música é um post sobre música, venha ele dos Espíritos ou de onde vier, e merece todo um destaque à parte.
Vamos lá dissecar as respostas deste Espírito porque tocou em nervos sensíveis.

Quereis falar da vossa música?
Em 1857, ou antes, não podia estar a falar da nossa música, mas avancemos.

O que é ela perante a música celeste cuja harmonia nada na Terra vos pode dar uma ideia?
Ui ui! Palavras de quem nunca ouviu Dead Can Dance. E de quem nunca ouviu uma guitarra eléctrica. Quando se fala de música, as pessoas e os Espíritos (vivos ou mortos) deviam ter o cuidado de respeitar os gostos dos outros. É bonito e fica bem.

Uma está para a outra como o canto de um selvagem está para uma suave melodia.
Muitos "cantos selvagens" e étnicos são melhores que muita treta de música erudita que se fez e faz para aí. Nem me interessa que se fale aqui de coros angélicos, como os imaginamos, e quem sou eu para me pronunciar sobre o que não conheço? É a arrogância da coisa que não suporto.

Entretanto, os Espíritos vulgares podem sentir um certo prazer ao ouvir a vossa música, porque ainda não são capazes de compreender uma mais sublime.
Aposto que vou ser um "Espírito vulgar", se me deixarem, a pairar por aí em tudo o que são festivais góticos deste mundo e dos outros, sempre à procura do sublime (do meu sublime). Se me deixarem, digo eu, porque me parece bom demais para ser verdade.

A música tem para os Espíritos encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas.
Ah, estás certamente a fazer a distinção das massas que consomem tudo o que lhes põem à frente, ou saberias que entre os vivos já há Espíritos de "qualidades sensitivas bastantes desenvolvidas" em questões de música, tão desenvolvidas que consideram desinteressante o que possivelmente consideravas o mais sublime da música do teu tempo, Espírito do século XIX ou anterior.

A música celeste é tudo o que a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.
"Belo e suave". Depreende-se que no mundo dos Espíritos não se ouça Rammstein. Por outro lado, ficámos com uma ideia muito clara da tua concepção de "sublime". Que queres, somos vulgares!

(É por estas e outras que o meu interesse em falar com os mortos é completamente igual ao de falar com os vivos. Não é exactamente a mesma coisa?!)