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domingo, 2 de fevereiro de 2020

Exquisite Corpse, de Poppy Z. Brite

 

 [spoilers mínimos; não revela o fim]


Confesso que li este livro “por engano”. Conheci Poppy Z. Brite através de “Lost Souls”, uma Dark Fantasy com vampiros quase riceanos, embora com diferenças, igualmente passada em New Orleans, onde a autora vive. Admito que gostei (mesmo com as semelhanças com Anne Rice, ou mesmo por causa delas) e peguei neste livro à espera de mais do mesmo. Não podia estar mais enganada!
É difícil encontrar palavras suficientemente fortes que expliquem de forma inequívoca que este livro não é para toda a gente. O próprio título devia ter-me alertado, mas não estava à espera de um “exquisite corpse” tão literal. Então, para não haver dúvidas, esta é uma história em que os protagonistas são serial killers, na perspectiva deles e na primeira pessoa de um deles, inclui cenas de morte em que as vítimas são evisceradas, sodomizadas e comidas vivas, não necessariamente por esta ordem, em que as descrições são super-gráficas a ponto de quase conseguirmos sentir o cheiro a podre dos cadáveres, em que tudo é repulsivo, repugnante, aberrante, sinistro e trágico. Isto é horror puro e duro, mas tanta violência nunca é gratuita: é uma história de serial killers; a violência é o dia-a-dia deles.
Esta história é só para quem tem estômago forte, e digo isto literalmente porque algumas passagens podem levar um estômago mais sensível ao vómito. Eu própria comecei a ficar muito indisposta e incomodada e a perguntar-me porque raio é que leio livros destes. A última passagem, principalmente, é muito perturbadora e desconfortável de ler. Algumas pessoas podem mesmo ficar deprimidas depois de ler este livro. Se aqui no blog pudesse pôr uma bolinha vermelha de aviso no topo do post, não punha só uma mas umas CINCO bolinhas vermelhas. Agora não digam que não avisei.
Tendo em conta todo este conteúdo do mais macabro que há, acrescentar que todos os personagens são homens e gays e infectados com o HIV, ou em vias de serem infectados, até parece um pormenor corriqueiro de menor importância.

Uma história cheia de monstros
Então, porque é que eu leio livros destes? Andrew Compton, serial killer inglês, responde em primeira pessoa:

«Horror is the badge of humanity, worn proudly, self-righteously, and often falsely. How many of you have lingered over a rendering of my exploits or similar ones, lovingly detailed in its dismemberments, thinly veiled with moral indignation? How many of you have risked a glance at some wretched soul bleeding his life out on a highway shoulder? How many have slowed down for a better look?»

Quase, mas não exactamente. Alguns de nós lêem estes livros com uma curiosidade/interesse quase científicos, assim como vemos o “Hannibal” ou o “Mentes Criminosas”, na tentativa de compreender os mecanismos de perversidade que transformam pessoas em monstros. E também, o que não é menos importante, numa lógica de “conhece o teu inimigo”, para ficarmos alerta, para os reconhecermos, para fugirmos deles a sete pés. Mr. Compton, na sua afirmação acima, limitada e redutora, esquece que olhamos um sinistrado na estrada com piedade e horror, “Oh, meu Deus, podia ser eu!”, que é a empatia, coisa que os Comptons/psicopatas deste mundo nem sabem o que é.
Mas vamos lá à história. Andrew Compton, nos seus trinta e poucos anos, é um serial killer que já está preso por matar rapazes no intuito de manter relações necrófilas com os seus cadáveres. É assim que ele gosta.
Farto da vida na prisão, e depois de ser diagnosticado com HIV, decide fugir fingindo a sua morte utilizando métodos usados pelos faquires: arrefecimento do corpo, supressão das funções corporais, imobilidade absoluta. Ora, eu lamento desde já ter de revelar este spoiler, porque toda a sequência inicial da sua fuga quando já está a ser autopsiado valia em si própria um continho curto, muito empolgante, com princípio, meio e fim. A história passa-se algures nos anos 90 (embora nunca seja dito ao certo, mas o livro é de 1996), quando o HIV ainda era um vírus misterioso e assustador, sem cura ou tratamento eficaz. O pessoal da prisão nem desconfiou desta “morte” súbita, julgando ter sido causada pela SIDA. Aliás, o medo do HIV era tanto que a inspecção inicial do cadáver foi feita à pressa e sem muito rigor e Compton foi logo enviado para um pequeno hospital de província. Mesmo assim, admito, é preciso esforçarmo-nos por acreditar que os médicos pudessem ser tão incompetentes, e que estes tais métodos de faquir sejam mesmo capazes de simular a morte a ponto de enganar médicos experientes. Mas vale a pena fingir que acreditamos.
Compton consegue mesmo fugir, não sem cometer mais alguns homicídios pelo caminho, e o destino leva-o a New Orleans.
Em New Orleans, outro serial killer psicopata, Jay, ainda é pior do que o primeiro. Jay recorre a muitos dos métodos de Compton, como aliciar rapazes jovens, especialmente toxicodependentes, com dinheiro e abrigo em sua casa, para os matar com grande sadismo. Mas não é um sadismo requintado. Jay gosta de comer as vítimas enquanto as mata (VIVAS e cruas), e também depois de as matar (tem um frigorífico industrial onde preservar os corpos), e também muito depois de as matar (quando já começam a ficar fora do “prazo de validade” e a “cheirar”). Ao contrário de Compton, que utiliza os corpos para prazer sexual “directo”, Jay obtém um prazer sexual quase involuntário ao morder e comer pedaços de carne das vítimas. Não consegui perceber muito bem os mecanismos psicopatológicos deste “pancadão”, mas uma coisa é certa: Jay é muito mais sádico do que Compton. Todavia, têm bastante em comum, ambos atraentes e na casa dos trinta, ambos predadores de rapazes, ambos socialmente bem adaptados e capazes de passar por pessoas normais que frequentam bares e restaurantes caros.
Uma das partes mais empolgantes é quando percebemos que os dois se vão encontrar ou confrontar em New Orleans. Como se encararão um ao outro? Será um idílio de almas gémeas? Ou, pelo contrário, julgar-se-ão rivais a partilhar o mesmo terreno de caça? (Vimos isto muitas vezes em “Dexter”. Existe algo que nos compele a assistir ao confronto de dois monstros: por um lado, porque enquanto eles lutam entre si não atacam as pessoas inocentes; por outro, não nos interessa muito qual deles vence porque nenhum nos merece simpatia.)
O autora é muito competente (já falarei mais da autora) e segue uma das minhas “regras” preferidas nestas coisas da escrita: dar-nos pelo menos UM personagem por quem torcer. Este personagem é Vincent Tran, adolescente de origem vietnamita que vive com uns pais extremamente tradicionalistas radicados em New Orleans. Tran é um miúdo normal, que gosta de raves e drogas e de se divertir, e de explorar a sua sexualidade recém-descoberta. E Tran podia ser também o protagonista de um conto cautelar: a sua fraqueza é a sua promiscuidade e uma demasiada confiança nos outros, o que o faz andar em más companhias. Em companhias piores do que o próprio Tran imagina. Aparecerá um lenhador a tempo de salvar este “Capuchinho”? Na verdade, Tran já tem um historial de relações abusivas ainda antes de se cruzar com os verdadeiros monstros. O que nos leva ao ex-namorado de Tran, Luke, um tipo mais velho do que Tran uns dez anos ou mais. (O que é que este miúdo andava a fazer com canastrões em vez de se divertir com gente da sua idade? Devia ser pela experiência dos amantes mais velhos, porque Tran não é do tipo de querer um sugar daddy. Seja como for, fica o conto cautelar.)
Luke não é um monstro, mas é um gajo hedonista, vaidoso, superficial, de um egoísmo inacreditável com tendências possessivas bastante doentias. Ao descobrir que estava infectado com o HIV, o que na época significava morte certa e iminente, mas que Tran testou negativo, Luke pensa mesmo em infectá-lo também para que Tran “o amasse para sempre”. Felizmente, Tran apanhou-o em flagrante com uma seringa de sangue infectado que tencionava injectar-lhe e a relação acabou ali. Como qualificar esta besta? Admito algumas atenuantes no caso de Luke, como uma espécie de desespero e loucura momentânea devido ao choque de saber que ia morrer em breve, mas nada o desculpa. Parece que foi mesmo só momentâneo, porque Luke voltou a cair em si. Muitos meses depois ainda chora por Tran, literal e figurativamente, e apercebe-se de que Tran não foi apenas mais uma paixão passageira mas realmente o amor da sua vida. Luke já está muito doente nesta altura, e não tem esperança de reconquistar o ex-namorado. Entre o desespero e a raiva, Luke dedica-se a uma rádio pirata, a WHIV, operada a partir dos pântanos em redor de New Orleans, onde reclama contra a falta de fundos para a pesquisa da doença, considerada ainda uma doença de gays, prostitutas e drogados. Um estigma, aliás, que persiste. A rádio pirata é operada por outros dois doentes de SIDA, em fases mais ou menos adiantadas. Explica muito deste livro dizer que uma das mortes menos perturbadoras foi quando um deles decidiu suicidar-se antes de chegar à fase terminal. O homem dá um tiro na cabeça, na presença dos outros dois não fosse algo falhar, e os companheiros deitam o corpo ao pântano onde este é imediatamente abocanhado por um crocodilo. Mas depois de tudo o que lemos antes, e do que ainda vamos ler depois, esta morte parece-nos consequente, compreensível, embora triste. O homem não quer prolongar o inevitável, o crocodilo está apenas a ser um crocodilo. Nada de chocante, comparativamente.
Por esta altura, na leitura, questionei-me porque é que estávamos a passar tanto tempo com as desventuras de Luke, que não é uma personagem empática, apesar de toda a relevância deste sub-enredo, triste e trágico e de forte crítica social. E acho muito bem que a autora tenha escrito sobre isto. Os primeiros doentes HIV/SIDA sofreram duplamente: a doença e o estigma, e o isolamento e o pânico que causavam numa sociedade que temia um contágio que ainda não se sabia muito bem como se propagava. Mas isto não invalida que o protagonista deste sub-enredo seja bastante antipático. Consegui empatizar mais com os outros dois envolvidos na rádio, que me pareceram gente normal e decente.
Contudo, foi também por esta altura que comecei a compreender onde é que todos estes personagens se encaixavam. Não é nenhum demérito para a autora que eu tenha percebido onde é que a história ia dar. Pelo contrário, quando o desenvolvimento do enredo é orgânico, natural, quando não há reviravoltas artificiais e “à pressão” e personagens incoerentes, isto é que é boa escrita. O género Terror não é Tragédia, mas vai buscar muitos elementos a este género clássico. Uma boa Tragédia guia o leitor a antever o desenlace trágico, mostrando como os personagens se encaminham inexoravelmente para ele com a mesma fatalidade inevitável com que o Titanic avançou contra o iceberg. Isto, meus amigos, é boa Tragédia.
Tive algumas dúvidas quanto ao fim, que a princípio me pareceu um pouco forçado. Mas depois de pensar melhor nas personagens envolvidas, concordei que não fizeram nada que não fosse típico delas. Não me importava de explicar aqui (ou a alguém que tenha lido o livro) o que me confundiu a este ponto, mas não vou estragar o fim ao/à corajoso/a que ainda se atreva a pegar em “Exquisite Corpse” depois de tudo o que leu neste artigo.
Por último, é interessante que enquanto acompanhamos a história do ponto de vista dos assassinos, por mais aberrante o que eles façam, a voz deles recorda-nos constantemente que são seres humanos, quase como nós, quase sem nenhuma diferença. Mas uma vez que esta perspectiva desaparece, e os vemos a comer uma vítima ainda viva como os zombies em The Walking Dead, é difícil encará-los senão como monstros. 

Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa
Como disse acima, a autora é muito competente. Deduzo, de “Lost Souls”, que terá sido influenciada por Anne Rice (mas neste género quem é que não foi?), mas considero que Poppy Z. Brite consegue ser tecnicamente superior a Anne Rice. Uma das melhores autoras que já li em língua inglesa, onde todas as palavras são bem escolhidas, onde todas as imagens são vívidas, onde a autora navega sem sobressaltos de uma primeira pessoa para uma terceira pessoa limitada, sem ter medo de uma visão omnisciente quando esta é necessária. A escrita é, numa palavra, Gótica: a beleza do horrível no seu esplendor. A lembrar, claro está, o mestre Poe (e quem é que não foi influenciado por ele também?), mas com a profunda imersão no psiquismo dos personagens exactamente como eu gosto. A imersão é tão completa que chega a tornar-se opressiva, mas de certeza que foi mesmo este o objectivo. Brite faz questão de rechear “Exquisite Corpse” de analogias cruéis, sombrias, macabras ou sinistras, frase após frase, parágrafo após parágrafo, página após página. Tão sistematicamente que só pode ter sido propositado. É como se Brite tivesse pensado para si própria: “Vou escrever 70 mil palavras de horror e vai haver horror em cada palavra”.
Reparem, por exemplo, em como ela diz que o Novembro de Londres é mais frio do que o de New Orleans:

«There was a chill in the air, to be sure, a damp cool vapour drifting round corners and rising from drains. But I had just come from London, where November vapours were like ill-intentioned hands sliding beneath your collar to encircle your coat-chafed, chicken-skinned throat, where November winds cut more deeply than my stolen scalpel ever did.»

Podia ter dito apenas “estava um pouco frio, mas que é isso comparado com um  Novembro londrino?” Não, teve de ir buscar mãos que estrangulam gargantas, lâminas que cortam fundo. E é tudo assim, tudo assim, do princípio ao fim.
Até as descrições mais triviais denotam este tratamento de “horror”. Rara é a frase ou o parágrafo onde ele não aparece (se calhar para grande aborrecimento da autora que não se lembrou de uma imagem sinistra na altura), mas todas as imagens funcionam, todas as imagens são boas. Outro exemplo, ao calhas, porque isto é frase sim frase sim:

«'Excuse me.'
The voice was soft but very sharp. It cut through my hazy maundering like a serrated knife through gauze. I opened my eyes, blinked away a brief dazzle of bar lights and unfamiliar spectacles, and beheld the love of my life for the first time.»

E agora uma amostra mais hardcore, para que não haja dúvidas de que isto não é para toda a gente:

«The heat of freshly exposed organs wafted up at him. Jay lowered his face into the visceral stink, the stew of blood and shit and secret gases, the innards' rare perfume. His eyelids fluttered and his nostrils flared with pleasure. But there was no time to enjoy himself. He'd had his fun while this one was still alive. The dissection was going to be a total loss.
He pulled out yards of intestines that felt like soft boudin sausages in his hands, the shrunken pouch of the stomach, the hard little kidneys, the sluttish liver, big and gaudy as some flamboyant subtropical blossom. All went into the plastic bucket. He reached up under the ribs and slit the diaphragm, stuck his hands in the chest cavity and raked out both spongy lungs, then the rubber-textured, veined knot of muscle that was the heart.»

A autora fez imensa e exaustiva investigação (pelo menos assim eu espero, que tenha sido investigação) a par com uma imaginação prodigiosa. Ficamos a saber, por exemplo, que todas as pessoas, e respectivos órgãos (carne, fígado, coração, entranhas), têm um sabor diferente porque as pessoas têm uma vida (e uma alimentação) mais variada do que o gado.
Este tipo de escrita, que nunca nos dá um momento para relaxar e respirar ar puro não contaminado pelo cheiro a sangue ou podridão, pode efectivamente ser demasiado para muita gente. A não ser, como eu fiz, se começarmos a apreciar e admirar a poesia e o trabalho por trás desta avalanche imparável de imagens macabras. A autora trabalhou para isto e merece o seu valor reconhecido.
E aqui está o motivo por que eu não gosto de avaliar um livro de 1 a 5. A nível técnico e artístico (para usar os termos da patinagem), Brite merece sem dúvida a nota 5. Mas a história não é das minhas preferidas. Na verdade, nem é algo que eu leia muitas vezes. Que nota dar, então, sem ser injusta? Possivelmente um 4, porque a história não agrada exactamente ao meu gosto subjectivo, mas tenho a perfeita consciência de que não estou a ser justa.

Como já disse, mas não é demais repetir, ”Exquisite Corpse” não é para toda a gente. Aconselho a quem goste de ler algo de negro, negro, negro, negro como o breu, e bastante gótico. Aparentemente eu também gosto, mas só de vez em quando. Poppy Z. Brite é definitivamente uma excelente autora a ter debaixo de olho.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror V

The Horror at Martins's Beach
Se alguma vez Lovecraft pretendeu escrever sobre um horror tão terrível que ficaria para sempre na mente dos leitores, este é um dos contos em que conseguiu.
Um barco de pesca mata um monstro marítimo que se torna atracção para os turistas de Martin's Beach, uma aprazível costa de veraneio com um hotel junto ao mar.
Depois de examinarem a nova espécie, os cientistas concluem que apesar do seu tamanho gigantesco este exemplar não passa de uma cria recém-nascida, razão pela qual o seu progenitor volta para se vingar.

[História "curiosamente" semelhante à que deu origem ao telefilme "The Beast", em que o monstro é uma lula gigante, mas não convence pela inverosimilhança que uma criatura acéfala possa congeminar planos de vingança como, não vamos mais longe, as sequelas do famoso "Tubarão" ("Jaws"), escritas pelo mesmo autor: Peter Benchley... Nada disto se passa na história de Lovecraft uma vez que o monstro possui um cérebro e o resultado deixa concluir que maneja poderes sobrenaturais.]

Esta vingança é levada a cabo numa noite em que os salva-vidas da praia são atraídos ao mar pelo que pensam ser o grito de um náufrago ou de uma baleia, ao que respondem prontamente lançando uma corda e uma bóia de salvamento. Mas algo começa a puxar do outro lado, com tamanha força que muitos homens se lhes juntam e nem mesmo assim a corda parece ceder. Convencidos de que uma baleia teria engolido a bóia, os homens decidem desancorar um barco para a capturar quando percebem que estão "colados" à corda. É aqui que começa o verdadeiro horror. Ao perceber que os homens estão de alguma forma paralisados e que a maré está a subir, os turistas e outros observadores não têm coragem de se mexer e assistem, mais ou menos impávidos e incrédulos, enquanto todos aqueles seres humanos morrem afogados. Ninguém tentou ajudar. Os relatos dados posteriormente à polícia foram confusos e evasivos. Toda a agente tentou esquecer.
Então, onde estão os monstros, de facto?
Esta história foi publicada em 1923.


The Horror at Red Hook
O detective Thomas Malone [quantos polícias e detectives e agentes da lei herdaram este nome é inumerável...] começa por investigar um bairro degradado de Nova Iorque, Red Hook, devido a uma vaga de raptos de crianças que aterrorizava os seus habitantes mais honestos. Num ambiente de crime generalizado e imigrantes ilegais, acaba por descobrir uma seita satânica com origem na população curda [quão politicamente incorrecto isto nos soa agora] trazida para lá com promessas de grandes poderes sobrenaturais conferidos por um deus ou um sacerdote.
No centro desta seita está um velho eremita, aparentemente apenas um estudioso de lendas, cujo percurso lembra o antepassado de outra personagem de Lovecraft: Charles Dexter Ward. Como este, também o velho bruxo Robert Suydam pareceu rejuvenescer de um dia para o outro (as alusões do seu vampirismo amplamente demonstradas pelos raptos das crianças) e até contrair matrimónio com uma jovem noiva da alta sociedade que é brutalmente assassinada na noite de núpcias e todo o seu sangue levado como oferta a Lilith. Nesta história, o que é tão mais curioso quanto raro em Lovecraft, os demónios são do tipo tradicional: Lilith, Asmodai, Samael...
O detective Malone consegue pôr fim à terrível seita mas não sem prejuízo próprio pois acaba por ser afastado da cidade devido a um esgotamento nervoso.


The Hound
Como o título deixa sem dúvida escapar, este cão é a origem do terror que assola dois amigos, mas não dois inocentes. Tratam-se de membros da alta sociedade inglesa que, simplesmente por tédio, decidem procurar emoções violando túmulos e montando um verdadeiro museu de horrores na sua mansão isolada do mundo, onde se divertem, na maior das decadências, a recriar adorações e rituais da natureza mais mórbida rodeados dos despojos das suas explorações nos cemitérios. Um dia vão longe demais. Quando descobrem a história de um outro ladrão de túmulos, tal como eles, que teria morrido há séculos, desmembrado, vítima de um ser sobrenatural que as lendas atribuem à vingança dos mortos perturbados no seu descanso, decidem com ainda maior entusiasmo exumar o velho "colega". Ao seu pescoço encontram um medalhão onde figura um ser entre o cão e a esfinge, e os mais aterradores dizeres. A partir desse momento, parece-lhe ouvir em todo o lado o latir de um cão que os persegue e ameaça. Quem conta a história é o amigo sobrevivente, depois de encontrar o companheiro desfeito e moribundo. Ainda se tenta livrar do medalhão e devolvê-lo ao proprietário no seu caixão mas descobre que uma vez desenterrado é impossível voltar a devolvê-lo ao mundo dos mortos... com vida.
Não consigo deixar de pensar que belo argumento daria este simples enredo se posto num filme de época com dois amigos a viverem juntos no luxo e deboche de que só a alta sociedade de uma certa Inglaterra vitoriana é capaz, tresandando a ópio, violando caixões e oferecendo rituais entre copinhos de sherry, num misto entre Egdar Allan Poe e Oscar Wilde...


The Lurking Fear
Um investigador do sobrenatural, cujo nome nunca é referido [mas que à semelhança de Randolph Carter faz lembrar o moderno Fox Mulder dos Ficheiros Secretos], é atraído a Tempest Mountain depois de um massacre sangrento que vitimou muitos dos seus habitantes. O que o leva ao local não é o crime em si mas as lendas dos camponeses que dizem ter sido perpetrado pelo fantasma, ou fantasmas, da família Martensen, cuja mansão, apesar de abandonada, é absolutamente temida embora nem os próprios vizinhos se lembrem porquê. No decurso da investigação, em que são também mortos dois dos seus companheiros de longa data e um jornalista que "recrutara" já no local, o investigador é confrontado com um monstro e apercebe-se de que o horror em Tempest Mountain é algo que na sua busca pelo sobrenatural nunca tinha encontrado antes. Aterrorizado, começa a investigar a história da família Martensen, cujas lendas não tinha levado muito sério. Os registos indicavam que eram colonos holandeses, fugidos do domínio inglês, que continuaram a odiar, durante séculos e até no Novo Continente, tudo o que lhes lembrasse o inimigo da pátria, e se mantiveram, por isso, completamente afastados do resto da recém-nascida sociedade americana. Parece também que o local escolhido para se estabelecerem era, como o nome indica, muito sujeito a tempestades e trovoada, e que ao longo de gerações os relâmpagos e trovões começaram a influenciar os nervos da família. Contava-se que um certo Jan Martensen se tinha afastado do lar para se juntar ao exército e ao regressar teria sido rejeitado pela família, que o acusava de ser um "estrangeiro". Conta um amigo da época, com quem este se correspondia, que Jan Martensen teria sido por isso assassinado pela própria família, e seria o seu fantasma que os habitantes da região tanto temiam apesar de a família Martensen ter eventualmente abandonado a mansão depois de uma degradação aberrante só explicada pela consanguinidade das suas muitas gerações de isolamento. Levado pela superstição, depois de ver os seus colegas de aventura barbaramente assassinados, o nosso investigador acaba por acreditar na história e por isso decide escavar o túmulo da trágica vítima. É então que descobre que toda a montanha era minada por túneis subterrâneos. O som do trovão, ao ecoar, traz para a superfície não demónios nem fantasmas, mas todos os sobreviventes da desaparecida família Martensen: deformados, embrutecidos... e canibais!
Esta é daquelas histórias de que a América gosta particularmente.


The Outsider

Unhappy is he to whom the memories of childhood bring only fear and sadness.

Assim começa uma das histórias mais tristes de Lovecraft, em que o protagonista crê ter crescido e vivido a vida toda num castelo onde nunca entrava a luz, cheio dos restos mortais dos antepassados e rodeado de uma densa floresta onde parecia ser sempre noite. À procura da luz que nunca tinha visto, este ser decide então subir à torre mais alta do castelo para vislumbrar a paisagem por cima das copas das árvores que conhecia do seu mundo subterrâneo. Qual não é a sua surpresa quando depois da longa e perigosa escalada se encontra, não no alto de uma torre, mas ao nível do chão. Guiado por memórias inexplicáveis, consegue vaguear até uma casa que lhe parece familiar e onde decorria uma festa com muitos convidados. Era como se sentisse de novo em casa mas, assim que se lhes junta, todos gritam em horror e fogem espavoridos de um monstro que o próprio confronta olhos nos olhos. Alguns segundos depois, de novo sozinho, percebe que se está a ver ao espelho e recorda-se da sua grande tragédia: esteve morto este tempo todo e o que chamava "castelo" era nada mais nada menos do que a sua cripta. Percorrido por uma dor insuportável aceita por momentos que já não pertence àquela família, nem a nenhuma, e volta a encontrar a paz numa segunda amnésia.


The Picture in the House
Das velhas casas isoladas dos primeiros colonos que chegaram à América, puritanos e religiosos ao ponto do fanatismo, Lovecraft fala sempre com horror (como em "The Lurking Fear"). A uma destas cabanas aparentemente abandonadas chega um viajante de bicicleta perdido numa estrada de província que apenas pretendia fugir à tempestade que se avizinhava. Depois de bater à porta e ninguém responder, pensando que a casa estava desabitada e perante a fúria dos elementos, acaba mesmo por entrar. Já no interior apercebe-se de que afinal moraria lá gente. Apercebe-se de um mobiliário de estilo antiquíssimo, que se não fosse pela sua simplicidade seria a delícia de muitos coleccionadores, e surpreende-se pela quantidade de livros igualmente antigos. Em cima da mesa chama-lhe à atenção um em particular, que descrevia viagens pelo Congo no século XVIII e apresentava a ilustração fantasiosa de um talho de negros canibais. De facto, o livro parecia ter sido aberto tantas vezes nessa página que foi das primeiras que viu. À parte disso, ouve barulho nas escadas e percebe que tinha sido surpreendido pelo dono da casa, um velho grande, sujo e mal vestido que, notava-se bem, não estava habituado a ter visitas. A seguir desenrola-se uma conversa perfeitamente civilizada, em que o intruso pede desculpa pela invasão e explica a sua situação, perdido na estrada e na tempestade, e o velho anfitrião o acolhe com a maior das simpatias. Postos ambos à vontade, o tema virou-se para o livro, que estava escrito em latim, e que o velho não sabia ler pelo que pediu ao visitante que lhe traduzisse algumas passagens enquanto lhe contava que tinha adquirido o volume há muitos anos porque achava as ilustrações interessantes. Isto deixou o incauto visitante mais à vontade: afinal, o dono do livro era só um pobre iletrado com um fascínio pelas paragens distantes de África. Até aqui, nada de anormal. Anormal começa a ser quando o anfitrião aponta a figura do talho, salientando os seus pormenores mais sangrentos, e solta algo como "depois de ver isto, matar ovelhas tornou-se mais divertido". E logo depois, como se de nada se tratasse, acrescenta: "Uma pessoa põe-se a pensar como será que sabe. Se comer carne faz bem, comer mais semelhante à nossa carne deve fazer melhor..."
Não, este não é nada um sofisticado Hannibal Lecter, bem pelo contrário, mas apreciam os mesmos ingredientes.


Continua.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

H. P. Lovecraft - Mestre do Horror I

O primeiro contacto relevante que me levou a ler Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) foi referência ao clássico "The Thing on the Doorstep" por Anne Rice, nesse outro clássico que é a aventura do vampiro Lestat em "The Tale of The Body Thief". Curiosa, fui à internet procurar o primeiro conto que tinha inspirado o segundo (as obras de Lovecraft já se encontram disponíveis gratuitamente na web). Encontrei, e dando uma vista de olhos pelo resto da obra, foram-me logo parar os olhos num outro clássico de Lovecraft, "The Cats of Ulthar", quanto mais não fosse por não estar assim à espera de um conto de terror que envolvesse gatos. Como era uma história pequena, li-a também, deliciada, e prometi regressar a Lovecraft assim que pudesse.
Foi este o meu primeiro encontro com o autor americano, mas não com os seus mitos. Há muitos anos que conhecia Cthulhu, dos meus muito preferidos Fields of the Nephilim, mas há mesmo tantos anos que é uma vergonha ter demorado todo este tempo a dedicar-me à sua leitura, da mesma forma que é uma pena que Lovecraft esteja tão pouco divulgado entre nós, não só entre os apreciadores de terror como também entre os amantes de ficção científica. Eis uma tentativa para que a situação mude.
H. P. Lovecraft era daqueles autores que se sentam à secretária para escrever histórias de meter medo. Estes são poucos e, entre eles, menos ainda o conseguem. Lovecraft, contudo, no deserto dos anos 20 e 30, tanto inspirado em Edgar Allan Poe e no folclore da bruxaria de Salem, como em Einstein e nas recentes descobertas científicas do ainda recente século, compôs em histórias relativamente curtas toda uma obra que veio a influenciar autores de todas as áreas e os seus horrores mais básicos ainda inspiram o cinema mais recente. Aliens? Nada de novo. Possessão? Só mudam os mitos. Casas assombradas? Possivelmente ninguém explorou tanto o campo como Lovecraft e o seu fascínio pelos casebres abandonados das florestas em torno da cidade imaginária de Arkham, banhada pelo igualmente inexistente rio Miskatonic, no que os especialistas chamam "Lovecraft Country" (mas situado na verdadeira Nova Inglaterra, Essex County, Massachusetts). Feiticeiras? Das verdadeiras, e bruxos também. Investigadores paranormais? Ninguém foi tão longe como Randolph Carter. Necronomicon? Inventou-o. Pois é, o famoso Necronomicon não existe, mas existem versões disponíveis, geradas pelo que hoje chamamos "fan fic" (ficção feita pelos fãs utilizando os personagens e universo de um autor preferido).
Para começar a pesquisar Lovecraft, aconselho a página da Wikipedia, com vários links relativos ao seu mundo muito particular. Tal como Tolkien, Lovecraft também inventou todo um universo paralelo, metade passado na mundo como o conhecemos, a outra metade passado na terra dos sonhos, mas dividiu-o em pequenos contos de modo que não temos a papinha toda feita como na trilogia d'"O Senhor dos Anéis". Por outro lado, quanto mais se lê mais se deseja ler.
A melhor alusão à parte terrena do universo de Lovecraft vem mesmo do personagem do clássico "The Thing on the Doorstep", por onde comecei, que a certa altura desabafa: "I suppose you think I'm crazy, Dan--but Arkham history ought to hint at things that back up what I've told you--and what I'm going to tell you." Ou, "What he said was not to be believed, even in centuried and legend-haunted Arkham; but he threw out his dark lore with a sincerity and convincingness which made one fear for his sanity. He talked about terrible meetings in lonely places, of cyclopean ruins in the heart of the Maine woods beneath which vast staircases led down to abysses of nighted secrets, of complex angles that led through invisible walls to other regions of space and time, and of hideous exchanges of personality that permitted explorations in remote and forbidden places, on other worlds, and in different space--time continua."
Fora de Arkham, existe também um mundo de cidades escondidas no deserto, submersas no fundo do mar, nas entranhas da terra, nos inacessíveis picos gelados, restos de civilizações colossais, marmóreas, ciclópicas, há muito abandonadas pelos seus construtores e habitantes mais velhos do que o mundo, sejam deuses ou monstros, extraterrestres ou demónios, descritas apenas no misterioso e amaldiçoado Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

E muita atenção! Quando Lovecraft fala em "tráfico com as coisas do mar" não está de todo a referir-se à venda ilegal de pérolas preciosas, mas sim à existência de uma raça híbrida entre o ser humano e os Outros, os Antigos, os habitantes das profundezas.
Uma boa fonte para download da obra de H. P. Lovecraft, em formato .zip, é o Projecto Gutenberg Australia.
Tentarei abordar aqui as melhores histórias e despertar a curiosidade para este autor injustamente ainda tão desconhecido.

The Festival
Desejoso de voltar a participar nas tradições do seu parentesco, um jovem regressa à terra natal (a cidade ficcional de Kingsport) para uma celebração natalícia que nada tem de cristão. Acaba na manhã seguinte numa cama de hospital, convencido de que o seu parentesco nem sequer pertence à raça humana. O que faz dele então?...

The Colour Out of Space
Passada nos arredores da cidade ficcional preferida do autor, Arkham, esta é uma história de ficção científica verdadeiramente arrepiante. Isto é-vos dito e garantido por uma leitora e espectadora assídua de terror, em pleno século XXI. Confesso: a certa altura tive de parar de ler e começar a olhar em volta. Quando isto acontece, meus amigos, é porque estamos perante uma obra genial, que se insinua, que nos perturba, que nos faz considerar a possibilidade de acontecer mesmo. E porquê? No caso da ficção científica até não é muito difícil. Conhecemos tão pouco do universo!
Tudo começa com a queda de um meteorito perto de uma pacata quinta de família honesta. Chamados os peritos, chegam à conclusão que não se consegue determinar em termos científicos conhecidos a espécie de metal (a ser metal) que o compõe. Em questão de dias, o meteorito decompõe-se e desaparece. Mas a terra onde caiu começa a produzir estranhos vegetais que não prestam para consumo humano. Os animais que os comem transformam-se em seres esquisitos. As árvores em volta, por exemplo, brilham no escuro com uma estranha cor indefinível, a cor do metal do meteorito, e abanam-se mesmo quando não há vento, animadas por uma força exterior às leis da Natureza. A população da aldeia mais próxima começa a evitar a quinta e a família fica cada vez mais isolada. Mas nenhum dos habitantes consegue tomar a decisão de abandonar o local, nem quando a mãe fica louca, nem depois da fuga dos cavalos, cães e gatos da quinta, nem mesmo quando se descobre que a água do poço de onde bebem está inquinada e é maligna. Existe algo no poço, algo que vai sugando a energia, a sanidade e a força de vontade de todos eles. Os filhos mais novos atiram-se para dentro do poço, onde mais tarde se vêm a encontrar também esqueletos de pequenos animais. Depois chega a "morte cinzenta". Começa por afectar o gado. Porcos e vacas ficam cinzentos e quebradiços e partem-se aos bocados. O mesmo destino está reservado para o dono da quinta, que também termina assim, como que em cinzas. Os agentes da autoridade que vão investigar são forçados a fugir a meio da noite, quando uma luz sobrenatural começa a penetrar dentro da casa... pelas frestas, enquanto o último cavalo que ficou preso lá fora, e não se conseguiu soltar, se estalava aos bocados como um caco de barro.
Leitura não recomendável à noite.

 
 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)



The Call Of Cthulhu
Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn: "In his house at R'lyeh dead Cthulhu waits dreaming." Na sua casa em R'lyeh, morto, Ktulu espera dormindo. Um investigador persegue o desconhecido culto de Cthulhu (ou Ktulu, ou K'tula), cujos seguidores servem em loucura e bestialidade, praticando inclusive sacrifícios humanos nos pântanos de New Orleans, quando se reunem e dançam à volta do fogo ao som de tambores cuja inspirada descrição me lembra imediatamente do clássico início de "Endemoniada" (mais uma vez, nem podia deixar de ser, dos Fields of the Nephilim). Dizem que Cthulhu é um dos Antigos (the Old Ones), seres vindos das estrelas de onde trouxeram as suas imagens, mais velhos do que o mundo, e que esperam, na submersa cidade de R'lyeh, que os astros se conjuguem para que se libertam e tomem conta do mundo outra vez. Outrora, a sua comunicação com os seres mais sensíveis era feita apenas por pensamentos e sonhos, mas depois do desaparecimento de R'lyeh nas águas profundas a frase acima, que os servidores entoam sem cessar nos seus cânticos e na linguagem original que lhes foi transmitida de geração em geração, é o que resta das palavras dos Antigos.
Foi neste mito que Carl McCoy dos Fields of the Nephilim se inspirou em muitos temas (tal como em Lovecraft em geral), e o melhor exemplo será mesmo "The Watchman":
«You'll see, you'll see her when she starts to form
You'll see, you'll see her when she starts to call
Follow me...
You sleep, you sleep, follow me
It's just another day, remember I am calling you
Just another day, remember she's calling for you
Just another day, Kthulhu I am calling for you
Just another day, An empire has fallen from view
(...)»
Cthulho, "dead but dreaming", citando palavras dos Nephilim, penetra na mente dos homens através de sonhos colectivos e levá-los-à a resgatá-lo quando as estrelas se alinharem... e o mundo será seu de novo. (Também é no mundo dos sonhos que Freddy Kruger, um monstro moderno, contacta as suas vítimas...)
Este é o mito que tem alimentado páginas e páginas de especulação, e até banda desenhada cómica. Um novo filme "Chtulho" foi realizado ainda em 2007. Depois de o conhecer, não há como escapar aos seus "tentáculos", pelos menos aos inconscientes.

 
Cthulhu

Segue a história com uma embarcação de marinheiros que acidentalmente vai parar a uma pequena ilha a descoberto, nada mais do a ponta do iceberg que é a cidade submersa de R'lyeh.
Primeira nota curiosa: "It was Rodriguez the Portuguese who climbed up the foot of the monolith and shouted of what he had found." Não é de admirar que se encontre um português em todos os cantos do mundo, até na cidade de R'lyeh, num livro de Lovecraft.
Segunda nota curiosa: Muitas citações de Lovecraft, em que desconfia claramente de homens mestiços, geralmente designados por escumalha de marginais e malfeitores, como estes seguidores de Chtulhu em New Orleans, são indubitavelmente racistas se analisadas fora do seu tempo.

 Cartoon do site Unspeakable Vault (Of Doom)

É preciso compreender que a época de Lovecraft era outra, e tão distante que se podia sem cair no ridículo imaginar que o recém descoberto planeta Plutão seria uma base avançada dos estraterrestres (como se pode ler noutro conto). Mas não deixa de ser curioso como Lovecraft, fruto do seu tempo, era tão ingenuamente racista nos anos 20 e 30, o que nos permite desvendar outros mistérios bem mais horrendos e nada ficcionais...
De regresso ao relato: "The Thing cannot be described-- there is no language for such abysms of shrieking and immemorial lunacy, such eldritch contradictions of all matter, force, and cosmic order. A mountain walked or stumbled. God! What wonder that across the earth a great architect went mad, and poor Wilcox raved with fever in that telepathic instant? The Thing of the idols, the green, sticky spawn of the stars, had awaked to claim his own. The stars were right again, and what an age-old cult had failed to do by design, a band of innocent sailors had done by accident. After vigintillions of years great Cthulhu was loose again, and ravening for delight."
Então Chtulhu acordou. Mas o que aconteceu ao bravo Rodrigues? Chtulhu papou-o. Safou-se um norueguês, mas não por muito tempo porque os servos do monstro estão em todo o lado.
Quem sonhar com Chtulhu... é melhor não voltar a adormecer.

 



The Dunwich Horror
Os Antigos (the Old Ones) não são as únicas criaturas que aguardam no fundo do mar ou nos subterrâneos das montanhas o momento em que os astros se conjuguem para uma vez mais reinar sobre a Terra e dizimar toda a vida animal e vegetal, inclusive o ser humano. Neste conto aprende-se que Yog-Sototh (um dos Antigos e "primo de Cthulho", se bem que esta relação de parentesco não esteja minimamente explicada), é uma criação destes seres que vieram das estrelas e que habitam nos insterstícios das montanhas de Dunwich (povoação ficcional), onde um velho feiticeiro local o invoca regularmente, especialmente na véspera de Maio (May's Eve) e, como não podia deixar de ser, no Hallowen. Esta criatura, Yog-Sototh, embora desprovido de corpo material terrestre, pode gerar filhos (à semelhança dos demónios da Bíblia), e desta união com uma mulher nasce um ser metade humano -- ou mais de metade humano, para se ser preciso, como se comprova pelos seus restos mortais quando este encontra o seu fim nos dentes de um cão de guarda no momento em que tenta roubar o exemplar do Necronomicon da universidade de Mistatonik -- cujo objectivo é auxiliar os Antigos a regressar e destruir o mundo. Este híbrido termina de forma trágica mas o verdadeiro horror está ainda para se manifestar.
Esta é uma das histórias chave para o leitor que quer conhecer os mitos dos Antigos e seus propósitos. Altamente recomendável.



Continua.