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terça-feira, 5 de agosto de 2025

Crise, qual crise - habitação

Há muito tempo que não falava de política/sociedade. Ora cá vai um apontamento da actualidade.
Eu devo ser mais lenta do que pensava. Finalmente consegui perceber o que é afinal a Puta da Crise Crónica - Crise, Qual Crise?, sobre a qual ando aqui a escrever há anos.
Tenho ficado muito perplexa com a "crise da habitação". Mas qual crise? As casas estão caras, não se consegue arrendar? E onde é que está a novidade? Qual é a diferença agora? Nos anos 60 e 70 a minha tia arrendava um apartamento de várias assoalhadas em Lisboa com os quartos todos "alugados". Um estivador aqui vizinho "arrendava" uma despensa de pátio onde só cabia uma cama de molas e um fogão de campismo. Outro vizinho vivia num armazém de refugo de madeira (antigo palheiro para animais de manjedoura), exíguo, de uma fábrica quando havia fábricas em Lisboa. Vivia-se assim, sempre foi normal. E havia barracas, sim havia, nos arredores. O palheiro sempre era mais perto do local de trabalho.
De repente, fez-se um clique, um momento EUREKA. Só se chama crise quando afecta a classe média. Quando (ainda só) afecta os pobres não faz mal, é normal, "não estudaram/não querem trabalhar". Mas quando toca nos filhos daqueles que conseguem arrendar e pagar empréstimos, aí já é crise. Percebi.
Isto já aconteceu com a crise do emprego precário, nos últimos 20 anos, quando os filhos da classe média saíram das faculdades e não conseguiam arranjar nada sem ser a recibos verdes (hoje recebem o ordenado mínimo). Pensei que, sei lá, as pessoas tivessem aberto a pestana. Afinal não.
Não é crise quando só afecta os filhos dos pobres. Está esclarecido.
 

sábado, 31 de outubro de 2020

O grande abanão

E porque logo é Halloween, aqui vai um post do diário pessoal do terror quotidiano, 100% Gotika™.
Transcrevo de seguida parte do artigo de opinião de Pedro Gomes Sanches, “Portugal: crónica de uma morte anunciada?”, publicado no Observador online a 25 de Outubro.
É sempre tão saboroso quando encontro quem diz tudo o que eu já ando aqui a dizer há 17 anos! Só é pena os mesmos não terem aberto os olhos mais cedo, e agora já é tarde para mim. Se calhar bateu lá à porta dele? Desculpem lá o cinismo, é o que tenho observado nestes 17 anos de blogosfera, desde o tempo em que eu dizia coisas destas e me mandavam para o psiquiatra porque estava “deprimida” (nunca lhes tinha batido à porta deles):

Era uma vez um país a empobrecer. Não a empobrecer por causa da pandemia, que apenas agravou e tornou indisfarçável esse empobrecimento, mas de antes, de mais de duas décadas sem rumo. Sem reformas. Não “um país” como construção abstrata, estatística, apenas captada nos números do PIB per capita cada vez mais distante da média europeia; nos números crescentes da dívida pública. Não. Um país de pessoas a empobrecer. Da angústia nunca mais debelada dos dias 20 a 30 de cada mês, em que se come menos e protela mais. Mês após mês. Ano após ano. Das famílias com passes sociais mais baratos, mas com pior serviço de transportes, cada vez menos frequente, cada vez mais cheio, cada vez menos pontual. De um país a morrer de envelhecimento, a debater-se com o encerramento das urgências pediátricas e obstétricas nos hospitais públicos mais próximos de casa, onde continuar a ter filhos é um misto de loucura e coragem. De um país com a maior carga de impostos da história, proclamações entusiasmadas de defesa do Serviço Nacional de Saúde, mas as primeiras consultas de especialidade e as cirurgias que não acontecem, penalizando cada vez mais os mais vulneráveis; que são também cada vez mais.

Era uma vez um país a perder liberdade. Não a perder liberdade em termos formais, que este país, em matéria de liberdade, sempre proclamou muito mais do que aquilo que concretizou. Mas a perder liberdade de facto. Famílias com menos oportunidade de escolha na educação a dar aos seus filhos. Casais com menos rendimento e maiores encargos, com menos infraestruturas públicas que impostos, sem horários nem apoios, impossibilitados de terem filhos. Trabalhadores sem expectativas de promoção. Empresários sem incentivo para promoverem. Jovens qualificados, hoje, sem expectativa de ganhar mais que mil euros, tal qual os seus antecessores nessa demanda há, pelo menos, 15 anos.

Era uma vez um país sem esperança que desistiu de si e do futuro. Não um país agarrado às grandiloquências do passado, das descobertas e dos “novos mundos ao mundo”. Mas um país sem qualquer visão de futuro. Nem tanto, apesar de também, um país demasiadamente ocupado em gastar no dia-a-dia o dinheiro que a União Europeia lhe envia há 35 anos, sem querer investir solidamente num futuro sustentável, sem qualquer aposta na sua emancipação. Mas um país em que os jovens qualificados só “lá fora” adivinham riqueza e mobilidade social. Um país cozinhado nos partidos políticos, com avenças e lugarzinhos para distribuir pelos leais, sem que a competência seja, vagamente sequer, critério. Um país de velhos abandonados pelos seus e pelo Estado no presente, agarrados a idealizações passadas mais felizes. Jovens sem expectativa de futuro, presos ao presente em casa dos pais de onde saem cada vez mais tarde. Um país tão desesperançado em si, que até o Primeiro-ministro, de um partido para quem a dívida pública nunca foi um problema, derrogou, não inocentemente, a possibilidade de recurso a empréstimos da União Europeia com condições muito favoráveis, simplesmente porque não acredita na possibilidade de retorno positivo económico do investimento que pudesse ocorrer com esses mesmos empréstimos.


Até aqui concordo com tudo. Excepto com a parte de jovens qualificados “sem expectativa de ganhar mais que mil euros”. Quais mil euros, ó pázinho? Onde é que se ganha mil euros, até já com experiência profissional de 20 anos? No meu tempo os jovens qualificados iam trabalhar para as empresas de borla, como estagiários, durante anos! Com os paizinhos a financiar.
Mas depois o autor estraga tudo, e revela a sua agenda política, quando diz: “Neste país manda o Governo mais incompetente de que há memória, pelo menos, desde o PREC.”
A memória do autor do artigo não pode andar muito bem, porque eu lembro-me de muito mais incompetência e, acima de tudo, de corrupção endémica e sistémica. Este é o governo mais incompetente desde o PREC? Não me façam rir. Isto não começou aqui nem ali, isto vem “de longe, de muito longe”, como diz a canção, e todos têm sido incompetentes e, acima de tudo, corruptos.
Este também foi o governo que se deparou com as maiores tragédias que tenho em memória no pós-25 de Abril (corrijam-me se falhar alguma), os incêndios de 2017 e a pandemia. Já nem falo da pedreira de Borba porque já é normal que de vez em quando caia uma ponte (Entre-os-Rios, 2001, 59 mortos), devido à inépcia e incúria na sua conservação (em Portugal o dinheiro tem sempre para onde ir menos para onde é importante, não se sabe já?).

Mas se pensam que estou aqui a defender o Costa, nem lá perto. O Costa anda numa deriva autoritária, não porque goste, coitado, mas porque o obrigam, porque se as pessoas fizessem o que ele quer o Costa não precisava de ser autoritário. (Não fui à procura do link para isto nem acho que precise. Toda a gente ouviu.)
O Costa precisa de um “abanão”, como ele próprio diz, assim tipo a polícia a mandá-lo parar na rua e a pedir-lhe os documentos que provem que é Primeiro-Ministro, porque é sempre muito agradável ser parado na rua, como um criminoso, para provar que vamos trabalhar, como se o simples facto de ir trabalhar não fosse já suficientemente desagradável. E já agora, ao Presidente da República também: “Mostre lá os documentos de Presidente, faxavor.”
Aliás, todos os partidos do “arco” estavam a precisar de um abanão, e tiveram-no quando lhes entraram pela porta dentro quatro novos partidos, algo impensável, por exemplo, quando comecei este blog. Eleger o Bloco de Esquerda lá para dentro já custou o que custou, digo eu que ajudei.
Aqui não me interessam as doutrinas, ideologias e filosofias dos novos partidos na Assembleia, mas apenas que foram eleitos. Interessa-me que houve um número significativo de portugueses que se fartou de votar com a carneirada e começou a votar nas alternativas que se lhe apresentaram. Portugueses que quiseram “ser a ovelha negra” (os leitores mais antigos lembrar-se-ão deste slogan do PSR). Portugueses que realmente deram um “abanão” aos partidos comodamente instalados a distribuir tachos pelos amigos, família, e negociatas ainda mais sórdidas.
Ainda se deve ter esperança, afinal, no povo português?

Quando é que são mesmo as próximas eleições?



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Catherine of Braganza, de Isabel Stilwell


Este livro é o romance ficcionado da vida de Catarina de Bragança, infanta portuguesa filha de D. João IV que se tornou rainha de Inglaterra ao casar com Charles II em 1662. Acredita-se que tenha sido Catarina de Bragança a introduzir o hábito de tomar chá na corte inglesa, o que depois se generalizou. É muito bom que este livro esteja traduzido em inglês para os ingleses ficarem a saber quem os ensinou a ter maneiras.

Um início muito aborrecido, para não dizer chato

Primeiro que tudo, e em jeito de disclaimer, eu não comprei este livro; foi-me oferecido. E foi-me oferecido em inglês, ainda por cima, quando eu preferia muito mais ter lido o original em português. A tradução não me permite avaliar a escrita, porque uma vez traduzida esta perde logo todas as subtilezas, todas as nuances, os segundos sentidos, a escolha das palavras, o ritmo, a poesia. Logo, fiquei sem saber como é que Isabel Stilwell escreve em português e não posso opinar nada sobre isso. E não conhecendo o original muito menos posso avaliar a tradução propriamente dita. Mas a cavalo dado não se olha o dente.
Segundo, embora eu goste muito de História em geral, não é deste período em particular. Claro que ouvi muitas vezes o saudoso Prof. José Hermano Saraiva a contar a história da Restauração, mas não me lembro de os filhos mais velhos de D. João IV serem mencionados (Catarina talvez fosse) porque, a verdade é esta, nem D. Teodósio nem D. Joana foram relevantes para a História (morreram novos, sem cônjuge nem descendência). Importantes foram os irmãos mais novos de Catarina, D. Afonso (esse mesmo, o tal do filme “O Processo do Rei”, e para quem viu o filme não preciso de dizer mais nada) e D. Pedro, que acabaria por usurpar o trono do irmão e casar com a mulher deste. Mesmo assim, interessei-me por saber mais acerca deste período histórico, ali já quase a entrar na modernidade, muito longe das minhas preferências medievais e renascentistas, e foi basicamente por isso que encarei o desafio de ler este livro.
E devo dizer, sem rodeios, que para mim o princípio do livro foi aborrecido de quase ir às lágrimas. E não tem a ver com o tamanho do livro, 640 páginas, incluindo biografias resumidas e retratos. Não, não é nada disso. Livros assim leio eu às 20/30 páginas por dia. Tive de pensar muito na razão de achar o livro tão aborrecido. Encontrei várias, mas a razão principal (para mim, pelo menos) é esta: a protagonista tem dois anos no princípio do livro, demasiado pequena para nos conseguirmos ancorar nela.
Esta parte vai ser um pouco técnica, mas necessária. Muitas vezes se pergunta quando é que um livro deve começar a contar a história. Há quem diga que deve começar na primeira página, ou logo no primeiro parágrafo, ou mesmo na primeira linha. Eu sou uma leitora muito mais paciente. Espero que o escritor me leve até à história conforme ele achar melhor para produzir o efeito pretendido. Mas aqui, admito, percebi qual é o meu limite. 10% do livro lido e começo a perguntar-me “mas afinal onde é que está a história?”. Claro que sei que é a história de D. Catarina, mas não é isso que o livro nos dá.
E agora outro disclaimer: não tenho nada contra o head hopping. Quem conhece a corrente de escrita anglo-saxónica actual sabe que o head hopping é considerado crime de pena capital e outros exageros. Eu discordo completamente. O head hopping, quando bem feito (e não é fácil fazê-lo bem feito, daí os autores iniciantes serem desaconselhados de fazê-lo), dá-nos a oportunidade de entrar dentro da cabeça de vários personagens no mesmo livro em vez de ficarmos agarrados a um só (como na vulgar “terceira pessoa limitada” que, como o nome diz, é limitada). O livro está efectivamente escrito com head hopping, o que contribui, nesta primeira parte, para não sabermos que personagem seguir e que história acompanhar. Será a história de D. Luísa de Gusmão? De D. João IV? Dos filhos mais velhos deles, Teodósio e Joana? Eu andei ali perdida sem saber a qual dos personagens prestar mais atenção e acabei por não me conseguir ancorar a nenhum. Pior um pouco, como disse, a protagonista é um bebé que não tem nada a dizer e muito menos a pensar. Ainda por cima, aquela família benzoca e beata lembrou-me aquelas famílias benzocas e beatas da Lapa, pior um pouco porque foi há 400 anos e era uma família nobre. Era tudo muito betinho, muito beato para o meu gosto, muitos padres, muitas santinhas, muita igreja, e acabei por não conseguir empatizar com ninguém. Chegando a 10% do livro já suspirava, à procura de motivos para continuar a ler.
Foi então que reparei na árvore genealógica da família e descobri um mistério. [Desculpem o spoiler.] Joana e Teodósio morreram no mesmo ano. Isto interessou-me e comecei logo a imaginar tragédias tipo Guerra dos Tronos. Mas interessou-me porque reparei nas datas, não porque o livro me desse razões. É claro que eu sabia que D. Teodósio não seria rei (não temos nenhum com esse nome) mas daí a morrer no mesmo ano da irmã dá que pensar. Não foi nada tipo Guerra dos Tronos. Tudo indica que morreram de tuberculose. Isto também me surpreendeu, confesso, porque sempre associei a tuberculose a uma época posterior, e não deixa de ser intrigante que um surto de tuberculose só infectasse dois membros de uma família muito próxima.
Mas não culpo o head hopping pelo meu aborrecimento a princípio. Na minha opinião o head hopping apenas obriga o leitor a estar um pouco mais atento. Talvez seja mais fácil escrever desta forma em português do que em inglês, admito, e há truques para tornar o head hopping tão pouco abrupto que o leitor normal nem dá por ele. Ou talvez estejamos já tão habituados a ele, por ser tão frequente na literatura portuguesa, que não nos incomoda. Mas os anglo-saxónicos têm um grande problema com isto, e, por razões semelhantes, com o narrador omnisciente, uma vez que só o narrador omnisciente permite o head hopping. Este livro, com efeito, está escrito em omnisciente, e bem escrito, de forma que não se nota a voz da autora (outra coisa que em geral me desagrada, tirando os casos em que a voz do autor faz parte do livro, o que daria pano para mangas que não pertencem a esta crítica).
O livro melhora imediatamente assim que Catarina cresce e começamos a acompanhar-lhe os pensamentos também, o que finalmente, e tardiamente, na minha opinião, nos permite estabelecer uma relação com a protagonista.
Eu sou daquelas que detesta quando uma crítica diz “se fosse eu fazia antes assim”, mas neste caso, até para exemplificar melhor, vou mesmo dizer que se fosse eu teria começado a história noutro momento, por exemplo, o momento dramático em que Catarina se prepara para partir para Inglaterra, nem que fosse num prólogo. Este momento fulcral permitiria que ela “olhasse para trás”, por assim dizer, e nos levasse à história da família quando ela era criança, mas neste caso já estaríamos ancorados na personagem principal e saberíamos que iríamos voltar ao ponto em que o livro começava. A falta de relação com a protagonista (e a ausência de uma personagem que me cativasse e a “substituísse”)  foi o que me prejudicou mais a leitura no início.

O que eu aprendi que não sabia
A existência da família Bragança em Vila Viçosa durante o domínio espanhol é simples e bucólica. Eu não sabia que D. João gostava de música e que lhe é atribuída a composição do tema natalício Adestes Fidelis. Esta atribuição é contestada e alguns académicos inclinam-se mais para que a autoria seja dos monges de Cister. Curiosamente, este hino é muito mais conhecido em terras anglo-saxónicas do que por cá. Terá sido também uma exportação da nossa Catarina?...
O come, all ye faithful, joyful and triumphant!
O come ye, O come ye to Bethlehem;
Come and behold him
Born the King of Angels:
O come, let us adore Him,
Christ the Lord.
Seja como for, gostei que a autora aproveitasse o Adestes Fidelis atribuindo-o a D. João, o que nos mostrou algumas cenas alegres em família durante a infância de Catarina.
Desconhecia, igualmente, os dois filhos mais velhos de D. João, e especialmente a importância de D. Teodósio, o herdeiro ao trono, que no livro nos aparece como o verdadeiro príncipe perfeito, galante, instruído, inteligente, corajoso (e bonito, a acreditar no retrato). Até que ponto esta representação foi ficcionada não imagino, mas leva-nos a pensar que se perdeu um bom rei com a sua morte precoce.

 D. Teodósio de Bragança, filho primogénito de D. João IV

O que eu já conhecia, mas que o livro me fez perceber em toda a sua dimensão, foi o dote colossal que Charles II recebeu por casar com Catarina. Nada mais nada menos do que as cidades de Bombaim e Tânger, o que sem dúvida ajudou a criar o império inglês de que eles se orgulham tanto, que afinal lhes foi entregue de mão beijada como restos do nosso, sem que eu acredite que as contrapartidas para Portugal tenham sido assim tantas.
Por último, e isto não sabia mesmo, a rima:
What are little girls made of?
Sugar and spice and all things nice,
that is what little girls are made of.
Parece ter sido inspirada por Catarina de Bragança, uma rapariga de estatura pequena, que no seu dote levou açúcar e especiarias na falta dos milhões prometidos por Luísa de Gusmão (mas já lá voltaremos.)
Por falar em Luísa de Gusmão, admito que nunca me apercebi da grande influência que ela teve na governação do reino pós-Restauração. Como disse, não é uma época da História que me excite por aí além. Mas neste livro consegui compreender até que ponto ela foi uma mulher de política e poder. E porque é que até há um liceu Luísa de Gusmão. Ah, foi por isso!
Foi também uma das únicas partes em que consegui estabelecer empatia com a família real. Após a morte de D. Teodósio e de D. Joana, D. João desinteressou-se da governação, que o agastava, e refugiou-se na música. D. Luísa tomou as rédeas do governo. Consegui empatizar com eles porque me pareceram um casal moderno. D. João lembrou-me aqueles accionistas que só vão às reuniões estritamente necessárias para assinar papéis, enquanto D. Luísa era a verdadeira CEO que assumia o papel do marido. Esta dinâmica, sim, é-me conhecida e quase consegui visualizar a versão moderna do casal, ela a chegar do trabalho ao fim do dia, ele entretido com os seus passatempos numa tentativa de escapar à desilusão e ao desgosto. Acontece.
Aproveito para falar também do Padre António Vieira, que neste livro me decepcionou. Talvez a culpa seja minha, mas esperava um personagem mais genial, mais marcante, um homem de craveira intelectual brilhante que se distinguisse sempre que abrisse a boca. Não foi nada disso que apanhei dele. Pareceu-me quase um padre vulgar, lá com as suas ideias que acabaram por nunca ser muito desenvolvidas neste livro. Se calhar porque nunca conseguimos passar tempo suficiente com ele, se calhar porque a sua presença em torno dos príncipes era a de um preceptor que não queria falar de temas controversos?... Sinceramente, estar ali António Vieira ou outro padre qualquer teria tido o mesmo efeito. (Talvez fique para outro livro.)
Gostei muito da maneira como D. Afonso é retratado neste livro. D. Afonso, que (aparentemente) devido a uma doença de infância sofreu problemas de desenvolvimento físico e mental, sempre foi muito mal tratado pela História e pelos historiadores, apelidado de imbecil e pior (veja-se o filme “O Processo do Rei”), considerado incapaz de assumir o cargo para que nasceu. Talvez. Mas aqui o livro mostra dele uma faceta bondosa e inocente, e um carinho pela irmã Catarina, que sempre o tratou com todo o carinho e respeito também, que me fez empatizar com o personagem. A autora vai ainda mais longe, dando-nos a perspectiva de D. Afonso como um jovem ressentido e revoltado por ter sido posto de lado pelos pais, e até nos diz que tanto D. Luísa como D. João lamentam não conseguir gostar do filho Afonso como gostam dos outros, devido às suas limitações, e D. João admite a si próprio que devia dedicar-se mais à educação de Afonso, que agora é herdeiro ao trono depois da morte de Teodósio, mas não consegue, se calhar mesmo por causa disso, porque encarar o filho mais novo como príncipe herdeiro é uma lembrança constante da morte do seu filho mais velho, que arrasou D. João. Toda esta dinâmica familiar é muito dramática e realista, e compreensível de todos os pontos de vista. Catarina deve ser a única pessoa na corte portuguesa que trata o irmão Afonso como a alguém digno de consideração, revelando um grande coração que nos predispõe a empatizar com ela também. Mas gostei especialmente desta versão de D. Afonso, que nos mostra o lado dele nesta história de uma forma que, embora ficcionada, podia muito bem ter sido mesmo assim e que vai contra a corrente do que se pensa maioritariamente sobre o futuro D. Afonso VI. Muito bem feito.

Uma protagonista que não é para mim
Catarina tinha 23 anos quando casou com Charles II, mas a sua mentalidade parece mais a de uma adolescente de 13. A sinopse promete-nos a “coragem de uma infanta portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra” mas para mim, muito pessoalmente, era preciso mais para falar de coragem. Como dizer isto sem ser mázinha?... Bem, Catarina não me pareceu exactamente uma inteligência muito brilhante ou um espírito muito profundo. Por exemplo, quando morreram os irmãos Teodósio e Joana, eu senti que sofri mais do que ela. Para Catarina estavam os dois no Céu, com Jesus, e não podiam estar melhor. Tentei esforçar-me ao máximo para ter em mente a religiosidade da época, mas D. João, por outro lado, nunca recuperou, apesar da religiosidade. Da mesma forma, D. Luísa também nunca recuperou completamente da perda dos filhos que lhe morreram bebés. Catarina não tem estes problemas existenciais, nem estes nem outros, e isso fez-me abanar a cabeça do princípio ao fim do livro. Não é uma protagonista para mim. É uma pessoa com quem, na vida real, eu dificilmente podia ter uma conversa intelectual. A superficialidade de Catarina, a infanta mimada, vai-se atenuando à medida que os desgostos a vão marcando, mas nunca a marcam como deviam. Não estou a dizer com isto que é uma personagem irrealista. Há mesmo gente assim. Mas gente assim não me seduz, e esta protagonista nunca me fez sentir grande coisa por ela.
Catarina foi preparada desde rapariguinha para a hipótese de casar com Charles II, nessa altura ainda um herdeiro sem trono. Não só nunca ela questiona, como alimenta esta fantasia acerca de Charles, sonhando com ele ainda antes de o conhecer. As negociações do casamento e do dote foram complicadas porque Charles queria muitos milhões que os portugueses não tinham. D. Luísa queixa-se dos “cofres vazios” (ah pois, não é de agora, começou logo aqui com a guerra da independência) ao mesmo tempo que precisa desesperadamente do apoio inglês contra Castela, que continua a reivindicar Portugal. Uma aliança com um reino protestante, em que a bênção do Papa não contava, era muito desejável para solidificar a independência do reino de Portugal na Europa. Catarina acha isto tudo muito normal e nunca lhe passa pela cabeça que Charles só está interessado no dote. Pelo contrário, quando ele lhe manda umas cartinhas de “amor” a rapariga fica completamente de cabeça perdida por ele, sem sequer o conhecer pessoalmente, muito embora já soubesse que Charles tinha filhos ilegítimos de outras mulheres. Mas, como eu dizia, Catarina tem 23 anos mas aparenta mentalidade de 13. Charles, para ela, é um príncipe encantado que vai ser seu marido e vão ser felizes para sempre. Por isso, não é com “coragem” que ela parte, é com a cabecinha cheia de ilusões.
Ora, podemos pensar que ao chegar a Inglaterra, ao ver que o marido é um mulherengo que muda de amante como quem muda de camisa, que tem tantos filhos ilegítimos que até eu perdi a conta, Catarina abre os olhos e percebe que a vida não é um conto de fadas. Mas não. Ela já ia apaixonada e ficou apaixonada toda a vida, toda a vida a tentar conquistar um marido que é simpático e cortês para com ela, mas nada mais do que isso. Digo mesmo mais, acho que a certa altura Charles até teve pena dela, como eu tive, por ela ser tão parvinha, e foi por isso que nunca se voltou contra ela quando se percebeu que Catarina não conseguia ter filhos, ou quando o movimento protestante fez da rainha católica um alvo. Charles sempre a protegeu, é verdade, com a decência de um homem que nunca a culpou por aquilo que ela não podia oferecer, especialmente um herdeiro, mas ter-se portado de forma decente não o faz um bom marido.
Catarina continuou sempre a iludir-se, mas sempre, sempre, até ficar viúva, de que ele a amava. Era só nisto que ela queria acreditar e nunca conseguiu acreditar noutra coisa. O que também não é irrealista. Há mesmo gente assim, que vive uma vida de fantasia na sua própria cabeça para não ter de lidar com a realidade. Catarina, neste livro, foi dessas, e o próprio Charles lhe fez a vontade de a deixar acreditar no que era melhor para ela. Pelo menos, assim, ela não era infeliz. Deve ter sido a única qualidade de Charles, porque de resto ele era mesmo um marido execrável que obrigava a esposa a conviver com as suas amantes que viviam na própria residência real. Mas isto não torna a personagem Catarina mais simpática aos meus olhos. Só a torna cega porque não quer ver, tipo avestruz.
Esta história foi tão aborrecida que já me estou a aborrecer a escrever esta crítica, imaginem, por isso vou abreviar.
Houve um momento, de facto, em que simpatizei com Catarina. Depois da morte de Charles, Catarina volta para Portugal e, através de cartas, conhecemos o seu estado de espírito. Numa passagem dessas cartas ela admite amargamente que fracassou em tudo o que tinha sonhado: não conseguiu dar um herdeiro a Charles, não conseguiu dar um rei a Inglaterra, não conseguiu promover a religião católica entre os ingleses.
Mas aqui, digo eu, Catarina também nunca aceitou os fracassos e nunca partiu para novos objectivos. Não, ficou sempre agarrada aos mesmos, sem qualquer evolução. Não é muito inteligente insistir em coisas que não resultam, mas foi precisamente o que ela fez a vida toda.
Mas depois ela diz algo que me atingiu. Quando Catarina foi para a Inglaterra, vinda de um país de costumes beatos em que até um decote era considerado imoral, foi considerada provinciana pela corte inglesa. Mas ao regressar, com toda uma nova ideia de moda e de estilo de vida, foi considerada escandalosa. E ela confessa que sente que agora já não pertence a lado nenhum. Isto tocou-me, e identifiquei-me.

 Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra

Recomenda-se
Um dos aspectos mais positivos dos romances históricos é que tornam figuras históricas em pessoas de carne e osso para o leitor. “Catherine of Braganza” consegue fazer isso e agora nunca me vou esquecer destas pessoas. Desconheço se a autora teria melhor material por onde tornar a história mais interessante (foi muito aborrecido para mim, em partes) mas também compreendo a opção de apenas mencionar “de longe” alguns dos capítulos mais sangrentos desta mesma história. Para começar, o célebre defenestramento de Miguel de Vasconcelos no Terreiro do Paço (nem sequer se fala disso). Depois, a morte do pai de Charles II, Charles I, um rei que foi decapitado por traição (essa é uma história que eu gostaria de saber melhor, admito, e a própria Catarina se pergunta que raio de sistema político era aquele em que o parlamento mandava mais do que o rei). Depois ainda, a decapitação do filho ilegítimo mais velho de Charles, James, também por traição, a mando do próprio tio e sucessor de Charles II, James II. Há aqui muito material à Guerra dos Tronos, mas aceito que o intuito da autora tenha sido mesmo evitar as partes sangrentas.
Um outro elogio que a autora merece é a ausência de descrições fastidiosas e demoradas. Admito que tive o livro na prateleira durante muito tempo, e que sempre que olhava para ele imaginava as páginas e páginas de descrições que eu supunha que tinha (é costume nos romances históricos) a descreverem tudo desde os vestidos às espadas aos botões às fivelas, já para não falar da arquitectura e da decoração e dos serviços de mesa, e suspirava, e não tinha coragem de pegar no livro. Graças a Deus, a autora poupou-nos a isso tudo, descrevendo apenas o necessário e o importante. Nos dias que correm, em que basta irmos à net e olhar para um retrato ou uma fotografia, já não são precisas essas descrições exaustivas que faziam a vez da internet e da televisão no século XIX.
Em suma, um romance histórico que não me encantou (por causa da própria história e dos personagens) mas que está suficientemente bem escrito para se recomendar. Teria preferido a inclusão de algumas partes mais sangrentas, mas compreendo a opção.
Por último, uma palavra para a capa lindíssima que fica mesmo bem num local bem visível da estante.

domingo, 14 de junho de 2020

A narrativa política do medo

Transcrevo integralmente o artigo de opinião "A narrativa política do medo" de Teresa Roque publicada no Observador de 7 de Junho de 2020.
Concordo com tudo o que a senhora diz, o medo, as histeria, os media, o poder dos media sobre os governos, a economia.
Faltou falar de uma coisa que esta pandemia veio agravar por cá: o conflito geracional. Não é só do tempo da troika, é de antes ainda, quando gente como eu era explorada como estagiários não remunerados por estes mesmos velhinhos que agora nos pedem para proteger. Mais uma vez, é a geração que está agora nos quarentas ou menos anos quem está a ser mais prejudicado por ainda outra crise, a mesma geração que devia estar activa e a pagar as pensões dos velhinhos que mais uma vez vê os seus rendimentos cortados e ainda mais diminutas as perpectivas de receber uma reforma decente quando chegar a sua vez. A mesma geração que abdicou de ter filhos por não ter capacidades financeiras e redes de apoio, a mesma geração que não vai ter quem lhe pague a reforma.
Agora calo-me e deixo a senhora falar, com os meus parabéns por um artigo tão lúcido e que dá voz a tantos pensamentos discordantes que não têm tido lugar nos media do terror e da histeria.

A narrativa política do medo

Vivemos num limbo em que não é possível fazer planos para o futuro, nem tão pouco pensar em como será a vida na próxima semana ou no próximo mês. Tornámo-nos prisioneiros das decisões do governo.


Vamos ser sinceros: na questão do confinamento, as regras foram alteradas a meio do jogo. Quando foi introduzido pela primeira vez, o principal objetivo do confinamento era o de impedir que os serviços públicos de saúde viessem a ficar sobrecarregados. Todos ficámos chocados com aquelas imagens horríveis vindas de Itália, em que os médicos, por não terem camas de cuidados intensivos suficientes, se viram forçados a fazer de Deus e a escolher tratar, de entre os pacientes críticos, aqueles que tinham mais hipóteses de sobreviver.

Objetivo esse que foi atingido. Não há sinais de que os sistemas de saúde públicos estejam ou possam vir a colapsar. Contudo, o confinamento, apesar de ter vindo a ser progressivamente aliviado, continua. O bicho-papão de uma segunda onda paira sobre nós. As escolas continuam fechadas. Os restaurantes são obrigados a trabalhar com cotas inferiores à sua capacidade. Os hotéis estão vazios e as companhias aéreas cada vez mais fragilizadas.

Tudo isto pode ou não ser necessário. O futuro o dirá. O que me incomoda é a falta de debate acerca de outras alternativas possíveis. E existem alternativas. Os meios de comunicação social, os responsáveis políticos, a OMS e alguns epidemiologistas continuam a acenar-nos com o temor a Deus. Para começar, isto foi tão bem conseguido que, mesmo que o governo decretasse a abertura das escolas amanhã, é de duvidar que a maioria dos pais deixasse os seus filhos regressar às aulas. Também duvido que a maioria dos restaurantes e empresas regresse à normalidade tão cedo. Continuamos a viver num limbo em que não é possível fazer planos para o futuro, nem tão pouco pensar em como será a vida na próxima semana ou no próximo mês. Em suma, tornámo-nos prisioneiros das decisões do governo.

Não houve sequer discussões públicas suficientes sobre se estes confinamentos são ou não epidemiologicamente sensatos. Podemos afirmar que parte da responsabilidade disto cabe aos media. Poucos são os dissidentes a quem é dada voz audível. A contração sem precedentes históricos da vida económica, a destruição dos meios de subsistência das pessoas, as operações e os tratamentos oncológicos que foram suspensos, as consequências emocionais e traumáticas que este confinamento continua a ter, tudo isto é considerado significativamente menos importante do que a própria Covid-19. Ao contrário, a narrativa da política do medo continua a estar na ordem do dia. Todos os dias continuamos a ser bombardeados com o número de mortos ou de novos infetados nas últimas 24 horas. São estes números que permanecem na mente das pessoas e que guiam todos os nossos movimentos. Mas pouca importância é dada aos especialistas que discordam desta política. Também pouca relevância é dada às dificuldades económicas por que as pessoas estão a passar. O nosso mundo parece ter sido resumido a um único tema – Covid-19.

Contudo, só existe uma única verdade, e encontrámo-la? Ainda não existe um conhecimento científico definitivo no que diz respeito à Covid-19. A OMS e todas as autoridades de saúde que têm vindo a seguir as indicações dos especialistas já falharam várias vezes. Em fevereiro, fomos informados de que a Covid-19 não poderia ser transmitida de humano para humano. No início, as máscaras não eram consideradas necessárias, agora são indispensáveis e quem for apanhado sem uma poderá ser multado ou preso, dependendo do país em que viva. Por um lado, libertaram-se alguns prisioneiros, por outro, há pessoas que são presas por supostamente porem outros em risco. Que sentido faz isto tudo?

O modelo estatístico do professor Neil Ferguson foi fundamental para influenciar as políticas de luta contra a pandemia de muitos governos. No entanto, recentemente, ele próprio foi visto a desrespeitar as políticas de distanciamento social que ele mesmo apregoava. Em toda a comunicação social do Reino Unido não se falava de outra coisa se não do facto de ele ter sido apanhado em flagrante a furar o confinamento social por razoes do seu foro pessoal sentimental. O que está aqui em causa é a hipocrisia do seu comportamento. Mas, acima de tudo, o que deveria ser questionado são as medidas impossíveis (e, ouso dizer, não provadas) que ele nos disse para tomarmos. Em primeiro lugar, era de uma grande ingenuidade acreditarmos que todos adeririam religiosamente ao confinamento social global. As pessoas são capazes de ajuizar e de tomar decisões sensatas. Visitar os pais ou companheiros e fazê-lo com sensatez não é exatamente o mesmo que pôr em risco a saúde pública em geral.

O que mais me impressiona é não ter havido, inicialmente, grande discussão e análise crítica dos pressupostos e do modelo matemático do Sr. Ferguson. As suas estatísticas foram consideradas como a única verdade possível. Segundo o seu modelo, o Reino Unido perderia 500.000 vidas e os EUA entre 1 e 2 milhões se nada fosse feito. Atualmente, estão ambos muito longe disto.

Podemos legitimamente argumentar que foram tomadas medidas e que, por isso, não temos uma ideia clara de quais poderiam ser os números reais, caso não as tivéssemos tomado. É verdade. Assim sendo, deveríamos tomar como exemplo um país que não seguiu o cenário de destruição iminente de Ferguson – a Suécia que, segundo a estimativa, pagaria o preço de 40.000 mortes por não ter optado por uma política de confinamento. De momento tem cerca de 4500. Uma ligeira diferença. E quanto à experiência comprovada do professor? Em 2005, previu que 200 milhões de pessoas morreriam de gripe das aves, que afinal matou 282 pessoas em todo o mundo entre 2003 e 2009. Não é o melhor dos currículos.

As previsões de Ferguson, apesar de erradas, podem, inicialmente, ter salvo vidas, não o contesto. Os nossos responsáveis pela saúde pública não estavam preparados para uma pandemia mundial, transmitida pelo ar e altamente infecciosa. A curva pandémica necessitava de ser aplanada. Agora, se isto deveria ter sido conseguido à custa de medidas draconianas é outra questão. Se tivéssemos optado por uma abordagem mais focada, em oposição a um confinamento social global que fechou em casa todas as pessoas jovens e saudáveis, talvez tivéssemos alcançado o mesmo resultado em termos de sinistralidade humana. Poderíamos ter concentrado esforços e mais recursos para proteger aqueles que mais precisavam da nossa proteção: pessoas em lares de idosos e pessoas com doenças crónicas e outras condições subjacentes que constituem os grupos de maior risco para contrair o coronavírus.

Nada disto foi discutido. Tomámos como exemplo a situação da China e da Itália e aplicámos o mesmo remédio, prejudicando seriamente a nossa economia no processo e causando grandes estragos e miséria no bem-estar financeiro, emocional e físico das pessoas. E, contabilizámos as mortes que poderiam ter sido evitadas se as pessoas se tivessem deslocado em busca de assistência médica quando dela necessitavam em vez de terem ficado em casa, com medo de ir aos hospitais?

As nossas sociedades têm vindo a tornar-se completamente avessas ao risco e há uma autêntica relutância em usar o bom senso. Já não contemplamos o que são bens sociais e necessidades sociais. Há algum tempo nas redes sociais, circulavam imagens perturbadoras de creches francesas, onde as crianças tinham quadrados marcados no chão aos quais deveriam estar confinadas. Em primeiro lugar, isto deita por terra a própria finalidade de um infantário, local privilegiado para que as crianças aprendam a interagir socialmente. Em segundo lugar, e quem já teve alguma experiência em lidar com crianças pequenas sabe-o, é quase impossível fazer com que as crianças cumpram essas regras. Já é bastante difícil conseguir que se mantenham nos seus lugares à mesa, quanto mais obrigá-las a ficarem confinadas a um quadrado desenhado no chão quando têm os seus amigos a poucos metros de distância. Por fim, esta estratégia constitui uma situação que é completamente antinatural e francamente desumana. Ainda para mais, é uma regra que lhes está a ser imposta numa altura em que não há ainda provas científicas de que represente de facto um enorme risco para a saúde permitir que as crianças estejam a menos de dois metros umas das outras. De momento, as evidências sugerem que é bem menos provável que ocorra transmissão do vírus entre crianças pequenas do que entre adultos.

Há uma narrativa crescente de que a Covid-19 irá tornar-se endémica, ou seja, de que será uma doença que nunca desaparecerá completamente e se tornará parte da família de doenças com as quais tiremos de nos habituar a viver. A Covid-19 não foi uma pandemia sem precedentes. Sem precedentes foi a nossa reação a esta doença e a forma como continuamos a reagir-lhe.

O problema agora é: como será que podemos sair do confinamento? As pessoas foram tão eficazmente assustadas que vai ser muito difícil fazer com que saiam para ir trabalhar, ir a restaurantes, ir de férias ou regressar à escola. Uma coisa é abrir os restaurantes; outra, completamente diferente, é persuadir as pessoas a sair para irem comer fora.

Todas estas novas regras trazem consigo uma grande indefinição. Afinal de que estamos realmente à espera? De uma cura milagrosa ou de uma vacina que tenha sido descoberta apressadamente sem que tenha sido suficientemente testada? Quantos estarão dispostos a correr o risco de administrar aos seus entes queridos uma vacina cujos efeitos secundários não são ainda suficientemente conhecidos? Deveremos aguardar que a doença simplesmente desapareça?

Com toda esta incerteza, como é possível gerir um negócio com sucesso? Se tem um restaurante e sabe que, neste momento, terá de sentar os seus clientes a dois metros de distância uns dos outros, como poderá servir um número de pessoas suficiente para cobrir as suas despesas? Não há países sem economia. Uma economia não é meramente um conceito abstrato. É o que nos permite ter a vida que temos. Não é possível ter uma vida como a que conhecemos sem ter uma economia que funcione. A sociedade implodiria e todos seríamos atirados de volta para tempos indesejáveis, em que não teríamos nada mais com que contar a não ser connosco mesmos.

Os países têm vindo a definir diferentes políticas e a tomar diferentes medidas para sair do confinamento. O conhecimento científico não está solidificado. Os governos cometem erros. Não são infalíveis. As ideias mudam. Nem sequer há consenso entre epidemiologistas e outros especialistas desta área. Com toda esta incerteza no ar, alguém terá de tomar decisões. Mas deixem que estas se baseiem o mais possível na ciência, nos factos e no senso comum, e não na política. Permitam que estas decisões tenham por base um equilíbrio de importância entre todas as dimensões do problema, e que não contemplem apenas uma. Acima de tudo, ouçam-se também os discordantes, aqueles que sempre acharam que o confinamento total não era uma boa ideia. Afinal, a liberdade de expressão e o protesto político sempre foram algo pelo qual as pessoas estavam dispostas a dar a vida.

sábado, 13 de junho de 2020

Coronavírus: as máscaras protegem?

Artigo de Gabriel Branco, Diretor do Servico de Neurorradiologia do Hospital Egas Moniz. no Observador de 6 de Junho de 2020. Transcrito integralmente.

Bases científicas sobre o uso de máscaras para proteção individual e social

As máscaras são para ser usadas por pessoas doentes em contacto com pessoas saudáveis, pelos cuidadores de pessoas doentes e por quem desinfeta zonas hospitalares referenciadas, por mais ninguém.
 
A população em geral tem sido aconselhada ou obrigada por Lei a usar máscaras que cobrem a boca e nariz, sem que as autoridades responsáveis por essas sugestões ou ordens tenham fundamentado de forma clara as provas da eficácia dessa prática, no que se refere à prevenção de doença respiratória viral.

Parece ser útil no interesse da saúde pública conhecer os dados científicos disponíveis sobre a eficácia dos diversos de tipo de máscaras na proteção contra estes agentes.

Existem basicamente 3 tipos de máscaras:

    Máscara têxtil reutilizável após lavagem;
    Máscara de tipo cirúrgico, de elásticos ou atilhos;
    Máscara filtro respiratório, designadas P1 a P3;

As máscaras cirúrgicas foram concebidas para proteger o campo operatório, filtrando 95% das bactérias expiradas, por reterem partículas a partir de 1000 nm. Não foram concebidas como filtros respiratórios de proteção individual.

A letra P é uma abreviatura de FFP (Filtering Face Piece); estas são as únicas máscaras que podem ser consideradas como filtros respiratórios. A maior parte das máscaras FFP contêm um filtro plástico central, mas muitas máscaras correntemente em uso em Portugal, com código KN300, não têm esse componente, embora possam ser classificadas como P1 ou P2.

Nos EUA a sigla N95 é equivalente a P2 ou P3 na Europa. Os números 95 e 300 significam que há uma capacidade de filtrar 95% ou mais de partículas de dimensão igual ou superior a 300 nm.

Revendo a literatura científica, devemos considerar a superioridade dos RCT sobre os artigos gerais. RCT são Estudos Randomizados Controlados e representam o grau de prova máxima que é possível obter em ciências médicas e biologia.

Especificamente sobre a proteção de máscaras contra os vírus da gripe, destaca-se um grande artigo de revisão crítica sobre a eficácia das máscaras, cuja conclusão passo a citar: “Nenhum dos estudos estabeleceu uma relação conclusiva entre o uso de máscara/respirador e a proteção contra a infeção por gripe (influenza): Influenza Journal (DOI:10.1111/j1750-2659.2011.00307.x)

A eficácia da máscara cirúrgica é definitivamente colocada em causa num RCT de boa qualidade, que compara a eficácia da máscara cirúrgica com os filtros respiratórios: A cluster randomized clinical trial comparing fit-tested and non fit-tested N95 respirators to medical masks to prevent respiratory virus infection in health care workers. Influenza and Other Respiratory Viruses (DOI:10.1111/j.1750-2659.2010.00198.x)

Ou seja, a utilização de máscaras têxteis no âmbito da prevenção de doença respiratória viral é prejudicial, pelo que a sua circulação deveria ser proibida.

Assim, a Organização Mundial da Saude (OMS) publicou em 6 de Abril de 2020 uma reavaliação sobre o uso das máscaras de proteção individual, sobre o assunto específico do Coronavirus. E concluiu: “as máscaras continuam a estar recomendadas apenas para certos grupos específicos – doentes infetados com o SARS-Cov-2, pessoas com sintomas, cuidadores ou profissionais de saúde em contacto com doentes infetados ou suspeitos.”

Nos estudos científicos as máscaras cirúrgicas são utilizadas por um máximo de 4h. O uso continuado de máscaras, sobretudo em exercício, reduz a oxigenação e aumenta a taxa de CO2. A acumulação de humidade e a concentração de partículas captadas do ar disponibiliza na máscara um maior número de agentes nocivos ao utilizador, portanto confere um risco maior de infeção do que o da respiração livre.

Não é assim compreensível a posição da DGS e do Governo português, que emitem ordens sobre o uso de máscaras contra os dados científicos, mas também contra as próprias diretrizes da OMS, o que constitui um atentado contra a saúde pública.

As máscaras são para ser usadas por pessoas doentes em contacto com pessoas saudáveis, pelos cuidadores de pessoas doentes e por quem desinfeta zonas hospitalares referenciadas, por mais ninguém.

Não há qualquer indicação para o uso generalizado de máscaras em pessoas saudáveis na comunidade, podendo mesmo ser afirmado com propriedade, que o seu uso acarreta riscos tangíveis.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

João Moura maltrata animais

O choque! O horror! Ouvi ontem esta notícia e não consigo conter-me de vir aqui falar disto. Geralmente não se dá pontapés em alguém que já está no chão, mas este caso merece todas as farpas que o ferrem (e mais coisas que o f….).
Então não é que o homem fazia criação de galgos e que os tinha num estado que faria chorar de piedade o mais insensível? Oh choque! Oh espanto! Um senhor tão famoso, tão rico, com uma herdade e tudo! Quem diria que um homem que ganha a vida a torturar animais fosse capaz desta brutalidade? Estou chocada, chocada!
Em depoimentos não sei a quem, outra organização que tortura animais como ele, João Moura disse que os “cães estão magros”. É verdade, mas, pelo contrário, o farpilheiro João Moura está gordo.


E com o melhor interesse do senhor em mente, visto que a obesidade não é saudável e provoca morte precoce, sugiro desde já a dieta ideal a aplicar-lhe. Chamo-lhe a dieta “copo de água” e é infalível para perder peso. Um copo de água ao pequeno-almoço, um copo de água ao almoço, um copo de água ao jantar. (Só copos de água, nada mais, nem sequer chá ou café.) À noite não bebe nada para não abusar das calorias. Em dois meses, no máximo, garanto que João Moura ficará em forma como nunca antes. Com alguma sorte, a dieta até acaba antes dos dois meses.
Tudo pela saúde alheia, porque eu sou boazinha.
Podia também receitar uma dieta para ganhar empatia e vergonha na cara, mas neste caso não fariam efeito enquanto houver tanta porcaria gordura a bloquear os neurónios do paciente. Fica pois a dieta de água, a aplicar até fazer efeito definitivo.

https://sicnoticias.pt/pais/2020-02-20-Associacao-divulga-video-dos-caes-do-cavaleiro-Joao-Moura







quinta-feira, 13 de junho de 2019

"Será que a igualdade de oportunidades existe?"

Discurso de 10 de Junho (Portalegre) de João Miguel Tavares, na íntegra AQUI.

O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo, porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida. Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa.
Os miúdos que não nasceram nesse tipo de “família certa” têm direito aos mesmos sonhos que os filhos das elites portuguesas – todos nós concordamos com isto. Mas será que estamos a fazer alguma coisa para que aquilo com que concordamos se torne realidade? Será que podemos garantir que o talento conta mais do que a família em que cada um nasceu? Será que a igualdade de oportunidades existe?

Gostei muito, mas este teve sorte:

Os pais lutavam por isso – lutavam menos por eles, do que pelas suas crianças, para que elas tivessem uma vida melhor, estudassem, fossem “alguém”. Os seus filhos chegariam às universidades. Estudariam dezasseis, dezassete, vinte anos, se fosse preciso. Viajariam mais. As suas férias não estariam limitadas aos 15 dias em Albufeira.

15 dias em Albufeira, ahahah! Ganda rico!
Que é preciso nascer na família certa? E ainda se pergunta? Eu ainda quero os meus 15 dias em Albufeira só para saber como é.




quarta-feira, 29 de maio de 2019

Parabéns PAN


Há muito tempo que não escrevo aqui sobre política. Muito tempo mesmo.
Durante anos, em artigos “abre-olhos” como alguém lhes chamou, tentei explicar a realidade de pessoas licenciadas a quem não era dada a mais pequena hipótese a não ser que fossem filhos de alguém (fidalgos, é a palavra). Estar à frente do tempo é uma chatice, porque ninguém acreditava. A austeridade veio mudar tudo. Finalmente os abrilistas indignados, que não tinham o menor pejo em explorar os filhos dos outros (como eu, meus amigos, como eu) indignaram-se deveras quando tocou aos filhos deles e os viram emigrar por falta de oportunidades por cá. As pessoas são assim. Só acreditam quando lhes toca a elas. Então indignaram-se. E eu fartei-me de rir. E achei que não valia a pena continuar a escrever porque agora já todos viam. Afinal não era um filme de terror, nem era eu que era maluca, era mesmo a sério. Mas quem é que lhes metia isso na cabeça, a todos os palermas que foram votar no Passos como se não houvesse alternativa ao Sócrates fora do Centrão?
Foi a classe média quem pagou as favas, é claro. Abaixo da média, pouco me tocou. Fui daquelas a quem não podiam roubar mais. (Directamente, isto é, através dos impostos do trabalho, porque a nível de IVA levei por conta como toda a gente, já para não falar dos feriados “abolidos” que trabalhei sem receber como tal.)

Se não querem votar, não votem
Nem queiram imaginar o meu choque quando, ao fim de quatro anos de austeridade, os energúmenos, boçais, iletrados, atrasados mentais deste país ainda foram votar no Passos outra vez. Fiquei assim boquiaberta em frente à televisão, a abanar a cabeça, muda de todo. A malta rica, banqueiros, gente com bons empregos que não sabe o que fazer ao dinheiro, clientelas, esses eu percebo. Mas o povão sacrificado, só mesmo por masoquismo.
A geringonça foi a única coisa boa que saiu disto tudo, quando finalmente se iluminou em suficientes cabeças que o governo não tem de estar só entre “este” ou “aquele”, mas entre mais. Foi o fim dessa instituição putrefacta chamada “voto útil”, que sempre foi o voto mais inútil de todos.
Vamos a ver, nas próximas legislativas, até que ponto esta gente de inteligência rastejante vai conseguir associar dois mais dois e chegar a esta conclusão. Não estou optimista.
Vou mesmo ser do mais politicamente incorrecto que há, e que se lixe: até é melhor que esta gente que nem sabe em quem vota, nem para quê nem porquê, fique antes em casa a ver os programas da manhã em que se telefona para lhes sair 2000 euros. Melhor do que irem votar, se só lá vão fazer merda. Havia uma desculpa para isto noutros tempos, tempos já longínquos, em que as pessoas não iam à escola nem aprendiam a ler porque começavam a trabalhar aos 5 anos. Mas isto já lá vai há tanto tempo. E tantos podiam já ter feito por si próprios e aprendido a ler nos anos de reforma antecipada –que os pôs em casa com 60 anos enquanto a nossa desgraçada geração vai ter de trabalhar até morrer– que não há desculpa para a preguiça. Que se abstenham, sim, em vez de fazerem porcaria. (Justiça lhes seja feita, eles já começaram a perceber que só fazem porcaria. A solução para isto era ler um jornal de vez em quando, mas pensar faz doer o cérebro.)
Eu costumo dizer, menos a brincar do que é democrático, que as pessoas deviam fazer um teste de literacia antes de serem autorizadas a votar. Isto parece mau e fascista e o que lhe queiram chamar, mas da minha perspectiva são estes energúmenos, que por ignorância votam até contra si próprios, que votam também em coisas que decidem a minha vida. Tenho todo o direito de lutar para que a minha vida não seja fodida.

Evolução civilizacional
Mas o que me faz mesmo sair do meu recolhimento político, nestes dias pós-eleitorais, é o crescimento do PAN. Engana-se quem pensa que é um voto de protesto. Aliás, engana-se muita gente que não percebe mesmo porque é que as pessoas estão tão fartas de ver animais abandonados, maltratados, abatidos em condições desumanas. Engana-se quem não percebe que torturar animais por diversão não é tradição, é sadismo. Que a tourada, por exemplo, já devia ter sido abolida há séculos. Que só um sádico pode assistir, impávido e sereno a um horror desses.
Não foi falta de protestos a que os partidos tradicionais fizeram orelhas moucas. Agora admiram-se, mas agora é tarde.
Congratulo-me com o crescimento do PAN, tendo a consciência de que ainda é pouco, muito pouco, para se conseguir mudar as coisas. Mas é um passo mais à frente do que noutros tempos, em que se afogavam ninhadas num balde de plástico em plena rua de Lisboa (como eu vi, impotente). Ainda há muito trabalho, se não para mudar estas mentalidades embrutecidas, pelo menos para as fazer perceber que este comportamento já não é aceitável. Sejamos francos, pessoas destas nunca se vão preocupar com os animais, mas talvez se preocupem com que pensa deles o vizinho do lado.
Esta maior consciencialização de ver o animal como ser senciente e sofredor também tem uma explicação. É um avanço civilizacional da parte de pessoas que têm os meios financeiros para esterilizar animais (em vez de afogar ninhadas). Que têm outros meios de diversão que não torturar animais. Que têm cultura geral suficiente para saberem que torturar animais é coisa de serial killers quando são pequeninos.
As pessoas queixaram-se, queixaram-se, queixaram-se. Aos partidos, aos meios de comunicação, à polícia. Nada foi feito: “Isso não tem importância nenhuma, ninguém quer saber”, “não podemos intervir”, “isso não dá audiências”. E depois alguns intelectuais irritadíssimos porque não conseguem eleger um único deputado nas facções que arrancaram aos partidos de onde vêm, quando um pequeno partido, em apenas dois ciclos eleitorais, já tem um deputado no Parlamento e na Europa, já para não falar na presença nas autarquias.
São casos como este que me fazem pensar que o mundo pode não estar completamente perdido.
Parabéns ao PAN! Parabéns a todos os que votaram no PAN mesmo com pouca esperança de conseguir ir longe. Parabéns ao PAN por tê-los convencido a votar. Que seja o início, que mais vale tarde do que nunca.
Não dou parabéns ao Bloco de Esquerda, que só muito recentemente abriu a pestana e começou a andar por aí no transporte de animais vivos. Vieram atrasados, muito atrasados. Agora, meus amigos, vão ter de correr muito atrás do prejuízo.
Não é um voto de protesto. É um voto de identidade. Os animais, para quem os tem, são família. Quem não percebe isto não percebe nada do que está a acontecer.

Deu-me tanto gozo escrever este post, tanto gozo!


segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Caveira, de Camilo Castelo Branco

http://projectoadamastor.org/antologia-dentro-da-noute-contos-goticos

Ou não fosse Camilo, esta é a história de um amor de perdição.
Mas antes do conto existe um prefácio, muito irónico e muito político, cheio de piadas às ideias da época, que hoje teria antes lugar num blog como este. Mas não havia internet e estes textos satíricos e críticos só tinham lugar na literatura. Aqui, Camilo goza com aqueles que julgavam o caminho-de-ferro o progresso que de imediato elevaria o desenvolvimento do país. “O cavador, na hora da sesta, lerá, na vinha, de barriga ao ar, o Times, e Benjamin Constant.” Muitas destas piadas estão datadas e perderam-se para sempre. Mas achei curioso como é que quase dois séculos depois ainda se aponta o TGV e a alta velocidade como imprescindíveis para o desenvolvimento do país. Como diria o outro, quanto mais as coisas mudam mais ficam na mesma. Pelo menos hoje temos algo que não havia no tempo de Camilo, uma educação que chega efectivamente a todos, mas que ainda não basta para desfazer esse grande cancro que sempre afligiu o país e não dá sinais de diminuir, antes pelo contrário: a desigualdade. E uma desigualdade ainda maior no interior, para lá do Marão, onde se passa esta história. De certa forma, apesar da sátira datada, o prefácio continua actual.
Mas vamos lá ao conto. A história é curta e não há muito a dizer. Um homem já avançado em idade conta a um amigo o motivo de ter uma caveira em sua casa, dentro de uma redoma. E tudo começa num amor de perdição. Neste caso, em vários. Quando era novo, este homem amou loucamente uma mulher que o “atraiçoou”. Marta, de seu nome, amou loucamente a outro, Pedro de Mesquita. Mas um filho segundo de uma família nobre, Heitor Correia, queria cortejá-la também. Os dois, Pedro de Mesquita e Heitor Correia, acabam mesmo por pegar-se em duelo numa Quinta-Feira Santa, à saída da igreja, onde Pedro de Mesquita mata o rival com a sua espada de forma limpa e nobre (segundo as regras destas coisas). Mas o irmão do nobre derrotado procura Pedro de Mesquita logo de seguida e mata-o cobardemente a tiro de bacamarte. Marta morre de desgosto em questão de dias. (No Romantismo, as heroínas morriam assim, de desgosto.) Mas o homem que a amava sem ser correspondido nunca deixou de a amar. Quando chegou a altura de levantar-lhe as ossadas, subornou o coveiro para o deixar ficar com a caveira. Até à velhice, continuou a sentar-se a adorar a caveira da mulher que amava, ora imaginando que esta o perdoava ou que lhe tinha rancor.
É a presença desta caveira que pode qualificar o conto como gótico, mas na minha opinião apenas marginalmente. Temos aqui um homem desconsolado, incapaz de superar uma paixão de juventude, com uma fixação mórbida. Não há elementos sobrenaturais e o próprio admite que os seus delírios não passam de imaginação. Não existe uma consequência trágica desta fixação, como, por exemplo, em Edgar Allan Poe. Apesar da excentricidade, o homem segue com a sua vida, pacatamente, até ser velhinho. Não me parece o bastante para ser um conto gótico. Um conto ultra-romântico sobre alguém que não consegue ultrapassar uma paixão não correspondida, isso sim. Mas eu espero mais qualquer coisinha do “rótulo” gótico.
O ponto alto do conto é o duelo e a vingança cobarde do irmão do nobre derrotado. Este outro nobre nunca é punido, pelo contrário, recebe um perdão real por ser fidalgo. Se calhar era disto que Camilo queria falar.


-§-

Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




terça-feira, 19 de junho de 2018

São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza em Portugal

OCDE. São precisas cinco gerações para uma família sair da pobreza

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico publicou esta sexta-feira um relatório sobre a mobilidade social. De acordo com o estudo, Portugal está entre os países com quadros mais negativos.

A baixa mobilidade social significa que uma família portuguesa com rendimentos mais baixos precisa de 125 anos – cerca de cinco gerações – até que descendentes atinjam um salário médio.

"Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se no estudo.


A análise desenvolvida pela OCDE compara a mobilidade social com uma escada ou elevador. Afirma-se no documento que uma criança que nasce numa família desvantajosa tem mais dificuldades em “subir a escada”. “Ter crescido com familiares com pouca ou mesmo nenhuma riqueza e ter pais com pouca riqueza são os dois fatores principais para a própria pobreza".

"Riscos que contam"

Em Portugal, os números dizem que 24 por cento dos filhos de pais com baixos rendimentos têm mais dificuldades em atingir salários mais elevados e acabam também por ter baixos rendimentos.

Já 39 por cento das crianças provenientes de uma família com rendimentos elevados conseguem subir mais rapidamente a escada e também elas passam a ter rendimentos mais altos.

O rendimento que os filhos virão a receber é uma das maiores preocupações por parte dos pais. Segundo a agência Lusa, a OCDE realizou ainda este ano um outro relatório, denominado "Riscos que contam”, onde se comprova que 58 por cento dos pais portugueses colocam entre as três principais preocupações o risco de os filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

O estudo revela ainda que 33 por cento das pessoas consideram que a educação dos pais está relacionada com a capacidade para se ser bem-sucedido.

Em declarações à Antena 1, o sociólogo Manuel Carlos Silva, da Universidade do Minho, defende que a ascenção social é muitas vezes mal compreendida.


Para a OCDE, a baixa mobilidade social em Portugal pode estar relacionada com os elevados níveis de desemprego e a segmentação do mercado laboral. A organização conclui que a falta de mobilidade social não é um aspeto irreversível e podem ser tomadas medidas com o objetivo de aumentar a mobilidade entre gerações. Entre os principais objetivos, a OCDE destaca o apoio a crianças de meios desfavorecidos, o combate ao desemprego e o aumento do nível de qualificações através da educação para adultos.

É o que eu ando a dizer há estes anos todos.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Caixa Económica Operária: tradição de clandestinidade

 

Já lhe chamaram "um dos segredos mais bem escondidos da capital" mas se os edifícios tivessem alma, coisa em que não acredito, apesar de tudo o que parece, então a nossa (agora familiar) Caixa Económica Operária teria uma vontade própria para brilhar mais na obscuridade. Recentemente, no documentário da RTP2 "Antes da Pide", tomei conhecimento de que aqui se realizou o derradeiro congresso do Partido Comunista Português antes da ilegalização.
Na verdade, estou um pouco perplexa porque julguei que para escrever este artigo me bastaria ir buscar um link à Wikipedia, acrescentar uma frase ou duas, e feito. Para minha surpresa, tive de andar à procura dos factos a que o documentário remete, aqui:

«Aos vinte e nove dias de Maio de mil novecentos e vinte e seis, às vinte horas e quarenta e cinco minutos, na Rua Voz do Operário número sessenta e quatro primeiro, da cidade de Lisboa (1) reuniu-se em segundo Congresso a massa filiada no Partido Comunista Português secção da Internacional Comunista», tendo a saudação aos delegados sido feita pelo «camarada Rodrigues Loureiro, Secretário-Geral interino da Comissão Central» (2) . Assim começa a Acta que regista a abertura, há 80 anos, dos trabalhos do II Congresso do PCP, iniciado, portanto, um dia depois de os militares golpistas comandados pelo general Gomes da Costa se terem sublevado em Braga e iniciado a sua marcha para Lisboa, onde acabaram por chegar quando os trabalhos do Congresso estavam a terminar.


E aqui:

O II Congresso realiza-se em 29 e 30 de Maio de 1926, na Cooperativa Caixa Económica Operária, em Lisboa. (...) Com efeito, a ditadura desencadeia uma forte vaga repressiva contra os comunistas e as organizações e militantes democráticos e sindicais. Centenas de dirigentes operários e militantes comunistas são presos.


E nem mesmo aqui quiseram mencionar o local:

II Congresso
(1926)
O II Congresso inicia os seus trabalhos a 29 de Maio de 1926, em Lisboa, mas estes - que contavam com a participação de 100 delegados - são interrompidos em consequência do golpe militar reaccionário que irá conduzir à instauração da ditadura fascista.A repressão aos comunistas não se faz esperar e. em 1927, a sede do PCP é encerrada. O PCP entra na clandestinidade, Da primeira reorganização do Partido, em 1929, emerge a figura de Bento Gonçalves que virá a ser Secretário-geral do Partido.


Esta clandestinidade da Caixa interessa-me pessoalmente porque, segundo fontes familiares, era onde o meu pai se continuou a reunir com a célula do partido muito depois da ilegalização. Faz-me confusão que não exista mais informação disponível online, ou se calhar sou eu que já estou mal habituada, e eu ainda sou do tempo pré-histórico Antes da Internet, das bibliotecas e dos pedidos por favor que nos deixassem ver os arquivos. Mesmo assim, acho estranho que um edifício tão cheio de história não tenha mais páginas online a contá-la. Começo por fazer a minha parte, e cá está.


Actualmente é outra a "clandestinidade" da Caixa (mas ainda assim não menos clandestina, e ainda bem que o é, o tal segredo mais bem guardado de Lisboa) e são outros os subgrupos que a povoam. Curiosas as voltas que a História dá, que me encontrei a cruzar o caminho extinto dos passos do meu pai, noutros passos completamente meus.
Serve este artigo, pois, para chamar a atenção para a tradição de clandestinidade de um edifício, Rua da Voz do Operário nº 64, que parece ter alma própria e gostar pouco de ser falado. A avaliar pelo sucesso dos últimos anos, agora que outra Comissão gere a "clandestinidade" desta moderna CEO, o espírito da casa tem acolhido com aprovação os novos inquilinos. Uma imensa minoria, diria alguém, uma minoria ainda menos imensa, digo eu.
Mas termino com humor. Passou-me pela cabeça, ao conhecer o passado do lugar, o que aconteceria que se de repente ali se abrisse um portal espaço-tempo, como tão a propósito seria que acontecesse num edifício tão carregado de história, e de repente ficassem frente a frente os comunistas daquele tempo, e os PIDES daquele tempo, e os estupefactos visitantes de agora. E quase imagino comunistas e PIDES, daquele tempo, por única vez a concordar, de olhos esbugalhados: "Esta juventude está perdida!"
Perdida não, que encontrou onde se encontrar.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O compadre e o burro (Histórias da minha avó)

Falávamos aqui há dias da falta de literatura de terror em Portugal e da suposta falta de lendas e fontes onde os autores se inspirarem que teria justificado a ausência dessa literatura. A história que vou contar prova como essa alegação não podia ser mais falsa. É uma história contada à minha mãe pela minha avó (que sabe muitas), contada à minha avó pela mãe dela, contada à minha bisavó sabe-se lá por quem. É uma história da tradição oral, sabe-se lá quão antiga, e da forma que me chegou passa-se no Alentejo mas nada garante que a sua origem seja alentejana. Para meter medo, a história tinha que se passar onde as pessoas viviam. Passo então a relatar a história, pedindo desde já desculpa pela falta dos regionalismos com que me foi contada a mim e que não consegui reter na memória. Tentarei fazer-lhe a melhor justiça.





Ali para os lados de Vila Viçosa, mas não na vila, nas aldeias por ali, um compadre gostava de ir à noite ao bailarico da aldeia vizinha, se pelo vinho de Borba se por ter lá um rabo de saia, ou ambos, não interessa para a história. Uma dessas noites, voltando ele a pé, já um pouco tocado, de regresso a casa, o que nestas veredas de terra batida do Alentejo implica umas boas horas de trajecto a compasso de cajado, o que prova que o compadre era rijo e valente, ia assim o compadre, noite cerrada, só o luar a iluminar-lhe o carreiro, quando lhe sai ao caminho um burro.
Não era um burro qualquer. A alimária, raivosa como um cão, investiu contra o compadre com dentes e cascos, a ponto de o homem se assustar porque nunca tinha visto tal comportamento em burro algum. Pensou, o compadre, que devia ter bebido uns copitos a mais ou julgaria que o cabrão do burro o estava a atacar!
"Eh, burro! Eh, burro!", gritou, e bateu-lhe com o cajado nos costados. O burro, assim enfrentado, zurrou e fugiu e desapareceu no breu da noite. O compadre não o viu mais...  e também não se importou nada com isso. Feliz estava ele de se ter livrado do diabo do animal. A besta tinha-lhe mordido a camisa, que era a sua melhor camisa, a camisa dos bailaricos, e tinha feito um rasgão de tal maneira que já não havia conserto. Isso aborreceu ainda mais o compadre, porque era uma camisa de bom pano, aos quadrados pretos e encarnados, toda vistosa, que não tinha sido nada barata! E ainda nova!
O compadre lá foi para casa mas aquilo ficou-lhe a fazer espécie durante o resto da santa noite. O raio do burro! Morder-lhe a camisa! Onde é que se já vira tal?!
No dia seguinte, continuava a fazer-lhe espécie. Foi para a eira, onde encontrou o compadre seu amigo de muitos anos, e tanto matutou no assunto que à hora do gaspacho este último lhe perguntou que mosca lhe tinha mordido porque não tinha dito nada o dia todo.
"Ó compadre, sabe lá!", disse o nosso compadre, disposto a ouvir uma opinião. "Onte à nôte, vinha eu do baile das comadris, quando aparecê um burro a correr dirêto a mim na estrada, olhe, rasgou-me a camisa, quase me mordia se não lhe tênho dado uma paulada! Rás parta a besta excomungada! A minha camisa aos quadrados, aquela vermêlha, a qu'eu gostava mais, toda rasgada!"
O outro compadre, que achou graça à irritação do compadre vaidoso, desatou-se a rir às gargalhadas. E então o compadre viu-lhe, ainda presos entre os dentes, os fios vermelhos da camisa nova...





domingo, 2 de junho de 2013

Gotika: arquivos Agosto 2004

agosto 31, 2004

(Falta de) Perspectivas
As minhas perspectivas ao longo da vida:

4 anos: bailarina, cabeleireira, veterinária

8 anos: cabeleireira, veterinária, professora

12 anos: escritora, professora, psicóloga, zoóloga

14 anos: psicóloga (mas não dá porque não há dinheiro para as explicações de matemática, vou ter de escolher Humanísticas - FODA-SE!), logo, socióloga

18 anos: Socióloga não tem saída, Professora também não, logo, Relações Públicas

22 anos: Relações Públicas não tem saída, Publicidade não tem saída, Jornalismo não tem saída... Vou ver o que há no jornal.

32 anos: operadora de call center

Publicado por _gotika_ em 02:26 PM | Comentários: (30)

domingo, 31 de março de 2013

Acabar com a vergonha de uma vez por todas!

Hoje é dia de Páscoa. Para quem não sabe (e muitos não fazem ideia), a Páscoa é o dia mais importante do cristianismo (e não o Natal, como muitos erradamente julgam, que não passa da festa pagã do solstício de Inverno, irrelevante para o cristianismo).
O domingo de Páscoa é o dia em que Jesus ressuscitou dos mortos, o dia da esperança, o dia em que Jesus venceu a morte e provou aos crentes que a vida nesta terra é apenas uma passagem. Os bens materiais corrompem-se e desaparecem, mas o espírito é imortal.

Neste dia de Páscoa, quero deixar uma mensagem de esperança.

A notícia sobre a vaga de suicídios "envergonhados" não me sai da cabeça. Este é um problema sociológico, não patológico, que requer uma cura social e não psiquiátrica. As pessoas não estão deprimidas, as pessoas estão desesperadas. Depois de pensar muito nisto, acho que um bom começo era mudar a mentalidade da "pobreza envergonhada" que é, ela sim, uma vergonha da mentalidade deste país. Desesperadas, isoladas na sua vergonha, as pessoas começam a entrar numa espiral de pensamentos depressivos. Não querem falar da sua pobreza, preferem gastar dinheiro em roupa na loja do chinês para "fazer figura" quando, se calhar, têm a luz cortada em casa. Porque também faz parte da mentalidade portuguesa "fazer figura". Sempre foi assim, e é uma mentalidade transversal desde os mais pobres aos mais ricos. Parar de "fazer figura", assumir a pobreza, não ter vergonha de ser pobre, especialmente neste tempos em que as pessoas são pobres por factores externos que não conseguem mudar [sim, eu sei que são pobres porque o país não as deixa evoluir] é um grande passo de orgulho e auto-estima.
Os portugueses precisam de auto-estima. Mesmo rotos e pobres e de luz cortada, devem erguer a cabeça e dizer, como eu vou dizer aqui: só tomo dois banhos por semana porque não há dinheiro para as contas da luz; não ligo o aquecedor quando está frio pela mesma razão (o frio que eu passei este ano, e ainda há quem se admire porque odeio o Inverno, é porque passo frio, pronto!); tenho os pijamas todos rotos porque não quis gastar dinheiro em novos. Preferi gastar o meu pequeno orçamente nas coisas que me cultivam, nas coisas que me inspiram. Livros, concertos, internet, televisão. (E não esqueçamos que através da internet se obtêm muitas destas coisas que lá estão à nossa espera, tesouros para a alma, não roupa e "fazer "figura" para os vizinhos que se calhar têm a luz cortada também.)

Era bom que estas pessoas nesta situação, e noutras piores, parassem de ter vergonha de falar na pobreza em que vivem. Era bom que se juntassem, numa terapia colectiva, era bom que levantassem a cabeça e se enchessem de orgulho e não se deixassem enganar de que são uns falhados (bem sei que deu muito jeito a muita gente convencê-los disto mesmo, de que são uns falhados, de que a culpa é toda deles, de que viveram acima das suas possibilidades, de que não tiveram mérito para isto ou para aquilo - MENTIRAS!!!)
Era bom que se juntassem, com orgulho, e comparassem histórias e expusessem estas mentiras. Que recuperassem a auto-estima que, uma vez perdida, os atira para debaixo de metros e os faz saltar de pontes.

Se esta crise pode servir para que algo evolua, que se comece por algum lado, que se expulse a "pobreza envergonhada", que se nos repugnemos todos de andar no rebanho a "fazer figura". Uma auto-estima por dia vale mais do que todos os antidepressivos.

Porque a vida terrena é efémera. Podem não acreditar na Ressurreição, mas pensem nisto: quando morrerem, quantos bens vão levar convosco para debaixo da terra?

A VIDA É MUITO CURTA PARA VIVER DE CABEÇA BAIXA E ENVERGONHADA COM MEDO DO QUE OS OUTROS PENSAM.


Aleluia!





sábado, 16 de março de 2013

A zombificação

Segundo estudo europeu, Portugal é o terceiro país da Europa onde o suicídio mais cresceu nos últimos 15 anos. Estima-se que se suicidem, em Portugal, cinco pessoas por dia.

Oh, porquê, porque será?! O mistério, o mistério!

Espanta-me (nos dias que correm) que os senhores doutores psiquiatras continuem a apontar a depressão como razão para esta decisão definitiva, coisa simples que se cura, com comprimidos, vejam lá! "Está desempregado, não consegue arranjar uma entrevista, vai perder a casa, anda a mendigar na rua? Tome lá um comprimido para não pensar nisso!"
Não, não se cura com comprimidos, nem sequer com conversas, porque as pessoas não estão doentes, as pessoas estão desesperadas e não têm futuro! As pessoas estão a perder o emprego, as mães estão a pegar nos filhos ao colo e a saltar de pontes abaixo, as pessoas vêem-se na iminência de ter de sair da casa própria (porque o desemprego não lhes permite cumprir as prestações ao banco) ou arrendada (porque não suportam a renda), as pessoas chegam aos 35 anos e são consideradas velhas para trabalhar, as pessoas não têm filhos para que não passem fome, as pessoas resignaram-se a enterrar os sonhos, as pessoas já não têm motivo para viver.
E estas bestas continuam a chamar-lhes doentes, e querer medicá-los, e a torná-los nuns vegetais, a andar pela cidade sem abrigo e a comer da caridade da Santa Casa da Misericórdia e da Legião da Boa vontade? E não lhes passa pela cabeça que essas pessoas chamadas “doentes” prefiram morrer com orgulho e dignidade, nos seus próprios termos, porque não querem viver de caridadezinha?... O que as pessoas querem é direitos. Só a justiça, a igualdade, as perpectivas de futuro, curam esta "doença". Uma doença social, um cancro, uma vergonha.
Foram feitas umas acções de formação. Diziam os formandos: "quando alguém diz: 'eu quero matar-me' já não está muito bem. Precisa de um psiquiatra." Eu é que já não estou muito bem! Porque eu sei o que faz o psiquiatra. O psiquiatra passa um papel e transforma esse "doente" num vegetal ou semi-vegetal.
Não precisamos de mais zombies! A Fox já nos fornece walking deads que cheguem!
Mas interessa, ao poder estabelecido, que os desesperados andem medicados, zombificados, vegetalizados. Toma lá com comprimidos para não pensares quanto te fodem!
E pensar que estes charlatães, que não têm outro nome, sem pinga de vocação (os mais velhos foram para Medicina porque os papás quiseram, os mais novos porque não havia emprego em mais nada), não sabem sequer distinguir o que é psicológico do que é sociológico! Não custa assim tanto. Leiam os jornais, grandes bestas! Está lá tudo! E não é psicológico, é mesmo a sério!
E se estes doutores, que ganham BALÚRDIOS, forem de repente corridos pelos cortes no Ministério da Saúde, como eu vi alguns (muitos deles, psicólogos, remetidos ao call center, ou às lojas, ou à caixa de supermercado), e se se virem sem papás a quem pedir dinheiro, e sem conjugues, igualmente desempregados, que não garantam sustento, e se se virem numa situação de miséria em que têm de ir recorrer à caridade do Banco Alimentar ou da Santa Casa, ou mendigar na rua? Também ficam "deprimidos", "doentes", "neuróticos"? Ou não vos passa pela cabeça que vos possa tocar a vós, alimárias?
Por esta altura já deviam saber melhor, mas parece que a alguns só dói quando vos toca na pele. Oxalá toque, anormais! Para morderem a língua antes de ensinar aos ignaros que "a pessoa já não está muito bem" quando a pessoa já está muito mal!
Se não sabem o que estão a fazer, suicidem-se! Mas passem antes o papel, que a malta quer é droga. Porque é isso que vocês são: não passam de dealers autorizados.





sábado, 2 de março de 2013

Gotika: arquivos Abril 2004

abril 01, 2004

Barbarismo

Apesar de já ser 1 de Abril, o que eu vou dizer não é de forma nenhuma irónico e também não é mentira, embora seja susceptível de várias interpretações. Hoje vimos na televisão imagens fantásticas (porque assombrosas) da mutilação de corpos americanos no Iraque. Vi imagens que só tinha visto semelhantes num filme de ficção, “Predador”: corpos mutilados pendurados de cabeça para baixo. Neste caso, o “predador” não é extraterrestre mas, para meu espanto, é tão humano como a presa.
No entanto, não fiquei chocada. Fiquei boquiaberta, sim, mas não chocada. Há aqui um pormenor que me faz pensar. Os corpos foram mutilados depois de mortos. Aqui há 500 (ou menos) anos, teriam sido desmembrados enquanto vivos. E arrastados por cavalos enquanto vivos.
Para descanso da minha consciência, estas mutilações foram efectuadas post mortem. Sei que isto vos vai parecer estranho, e irónico, e tudo isso, mas aqui é que se vê também o progresso da Humanidade enquanto TODO.
Sim, foi barbarismo, mas já houve mais e pior. Ali, o que aconteceu foi o descarregar de uma frustração colectiva no símbolo do opressor, como se os corpos fossem os bonecos que se incendeiam nas manifestações. Em tempos medievais, as execuções das pessoas (VIVAS) eram bárbaras e o povo aplaudia como se estivesse num espectáculo.
Por estas razões obscuras - não sei se me estou a fazer entender - acho que sim, a Humanidade progride. Lentamente, muito lentamente, mas progride. Por isso, haja razão para ter esperança.

Publicado por _gotika_ em 01:43 AM | Comentários: (15)


Temos revolução?

Este blog tem-me mostrado uma característica de mim própria - se não um defeito grave, ainda não decidi - que é o facto de ser obsessiva. Nunca imaginei ser tão obsessiva!
Mas enquanto não me passa a fase vampiresca, vamos ao estado da nação. (A fase política não há maneira de passar...)
Hoje tive de sair de casa para uma entrevista de emprego para nada. Eu explico. A entrevista não era para emprego nenhum, e eu já sabia disso quando lá fui. Uma entrevista numa empresa de recursos humanos (e nada pequena) que me chamou para uma entrevista para a eventualidade de aparecer qualquer coisa onde eu “caiba”. E não estamos a falar de emprego para licenciados. Não, estamos a falar de coisas bem mais modestas.
Esta de uma entrevista “para nada” nunca me tinha acontecido. Ou já? Sim, talvez em 1994/1995. É o tal ciclo da “toma” e “retoma” da crise, sendo que quem “toma” com ela somos sempre nós. Sim, eu sei que esta é uma boca revisteira e populista.
Por ser fim de mês, por ter havido greve da Carris de manhã e os autocarros demorarem à tarde, porque as empresas de transportes suburbanos vão abolir o acordo com o passe social, porque subiu a gasolina para mais de um euro, porque as falências não param e o desemprego também não, porque o dinheiro não chega, tudo isto junto, garanto-vos que nunca tinha ouvido tantos protestos e reclamações como hoje!
Era na paragem, era dentro dos autocarros, foi de tarde e foi de noite. Hoje esteve tudo fulo da vida em Lisboa!
Isso é que é estranho porque eu hoje estava tão bem disposta, mas tão bem disposta... Mas eu estou apaixonada. Apaixonada pela escrita de Anne Rice mas não interessa, o que interessa é que estou apaixonada.
Acho que o governo devia distribuir ecstasy para de repente nos apaixonarmos todos e suspirarmos pelas pestanas do Durão e pelas madeixas da Manuela e pela carecada do Portas. Como eu lhes chamo, quando estão os três no Parlamento, juntinhos, tão bonitos, a santíssima trindade. A Manuela, por ser do sexo feminino, cabe o papel de Espírito Santo. Durão e Portas alternam.
E ouvi uma palavra nova no autocarro: “Isto é uma vragonha!”. VRAGONHA. Inclusive, ouvi falar do 25 de Abril, e não foi pela mesma pessoa.

Publicado por _gotika_ em 01:41 AM | Comentários: (4)