terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais um post abre-olhos, 100% IA, para reconheceres o padrão e não seres engrupido nas redes sociais

Querido Génio das Redes Sociais,

Parabéns. De coração. Com confettis e tudo.

Ontem li o teu post. Aquele sobre resiliência — ou foi sobre liderança? Ou sobre o universo? Ah, já me lembro: era sobre tudo ao mesmo tempo, como só os verdadeiros polímatas conseguem fazer.

E eu, humilde mortal, fiquei ali sentado com o meu café a arrefecer, a pensar: como é que este homem sabe tanto?

Deixa-me adivinhar como o teu processo criativo funciona.

Acordas. Inspiras fundo. Abres o ChatGPT (ou o Claude, ou o Gemini — escolhe o teu veneno). Escreves: "Escreve um post motivacional sobre superar obstáculos, com referências científicas, emojis, frases curtas e um tom inspirador."

E voilà.

Em 11 segundos tens Aristóteles, neurociência, e uma analogia sobre borboletas.

O resultado? Qualquer coisa assim:

🧠 O cérebro humano processa 11 milhões de bits por segundo — mas só tem consciência de 40.

📌 Pensa nisso.

🌊 Não és a tempestade. És o oceano.

💡 Não é apenas falhares. É aprenderes a cair com elegância — como os astronautas da NASA que treinam durante anos para flutuar no vácuo sem entrar em pânico.

E depois vem a parte pessoal, claro. Porque a IA sabe que tens de humanizar:

"Lembro-me de quando, há uns anos, estava numa encruzilhada profissional — tudo parecia incerto. Foi nesse momento que percebi três coisas fundamentais: a persistência, a clareza de propósito, e a coragem de recomeçar."

Que momento tocante. Que autenticidade. Que coincidência que seja exactamente o que a IA escreve quando lhe pedes para "adicionar uma experiência pessoal verosímil".

Mas o melhor — o verdadeiro chefe de obra — são os comentários.

"Que texto poderoso, obrigada por partilhares!"
"Isto chegou-me ao coração, precisava mesmo de ler isto hoje."
"Uau, que profundidade. Segui-te já!"

E tu respondes — provavelmente também com IA — "Obrigado! É sempre gratificante quando as palavras tocam alguém 🙏✨"

Toca. Toca mesmo. Como um raio numa torre de alta tensão — muito barulho, muita luz, e no fim não ficou nada.

Entretanto, eu. O autor de carne e osso.

Passo três horas a escrever um texto. Apago. Reescrevo. Discuto comigo mesmo se "todavia" soa demasiado formal. Procuro a palavra certa como quem procura chaves dentro de um sofá — de joelhos, com a mão encravada, sem garantia de resultado.

No fim publico.

Doze likes. Dois dos quais são da minha mãe e de um primo que provavelmente carregou sem querer.

Tu, entretanto, és convidado para podcasts.

"Como é que desenvolves uma voz tão autêntica?" — pergunta o entrevistador, visivelmente emocionado.

"Ah, é muito trabalho, muita leitura, muita vivência..." — respondes tu, com a serenidade de quem acabou de fazer um prompt de 40 palavras.

Não me interpretes mal. Não tenho nada contra a inteligência artificial. É uma ferramenta extraordinária — como o telescópio de Galileu, como a prensa de Gutenberg, como o autocarro que me poupa de andar a pé.

O problema não é usares a ferramenta.

O problema é apresentares a ferramenta como se fosses tu o carpinteiro.

O problema é receberes o troféu pela corrida que o teu carro fez.

O problema é que — e aqui peço desculpa pela brutalidade — estás a mentir. Não de forma violenta, não de forma ilegal. Mas estás. Calada e confortavelmente, post após post, emoji após emoji, analogia estapafúrdia após analogia estapafúrdia.

E o teu público? Esse público fiel que te lê todas as semanas?

Merecia saber.

Não para te destruir — drama é para telenovelas. Mas porque há qualquer coisa de profundamente torto em construir uma relação de confiança com pessoas reais usando palavras que não são tuas, emoções que não sentiste, e experiências que nunca viveste.

É como servir um bolo de compra numa caixa feita à mão e receber elogios pela receita.

Sabe bem. Toda a gente aplaude. E tu sorris — porque o segredo é teu e da máquina.

Mas olha: faz o que quiseres. O mundo é grande, as redes sociais são maiores, e a hipocrisia sempre teve boa audiência.

Só não esperes que eu, que passo horas a tentar encontrar a palavra exacta, aplauda de pé.

Tenho os braços cansados de escrever.

P.S. — Este texto foi escrito por um humano. Com erros, hesitações, e café frio. Sem assistência artificial. Podes verificar — tem impressões digitais por todo o lado. *

P.P.S. — Se sentiste que isto era sobre ti: era.


* Não foi não, Claude. Foi escrito por ti.

 

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