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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Confissão de Lúcio, Mário de Sá Carneiro

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Para quem está a ler a antologia “Dentro da Noute”, chegar a este conto (que encerra a colectânea de contos portugueses) é chegar à modernidade.
“É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido."
Tirando algumas expressões muito datadas, especialmente de inspiração francesa, “Lúcio” continua a fazer sentido hoje (ou, neste caso, a não fazer sentido). Na primeira pessoa, o personagem Lúcio confessa, ou melhor, não confessa, um crime que não cometeu mas que o manteve na prisão durante dez anos. Uma verdade inverosímil, como o próprio diz, uma sequência de acontecimentos impossíveis, inacreditáveis.
A história passa-se mesmo no final do século XIX, início do XX, numa alta sociedade de artistas portugueses apaixonados por Paris, a cidade venerada de todo o vanguardismo à época. Lúcio, dramaturgo, convive com outros artistas e escritores, todos eles atingidos dessa doença dos ricos chamada “ennui” que se contrai por não se fazer nada na vida senão passear pelos boulevards, viver em hotéis e jantar em restaurantes chiques. Lúcio conhece o poeta Ricardo de Loureiro, com quem estabelece uma íntima amizade. Muitas coisas são ditas entre os dois (o poeta tem ideias muito “estrambóticas”, como diz o conto), mas talvez a mais importante seja a maneira como o poeta declara só ser capaz de amar se “possuir”, logo, como é que pode amar um amigo se não consegue possuir alguém do mesmo sexo? Isto vai causar uma materialização da alma de Ricardo numa figura feminina que se torna amante de Lúcio. Ou seja, pelo menos é esta a “verdade” de que o narrador nos tenta convencer, sabendo ao mesmo tempo que qualquer plausibilidade é impossível.
“Mas ponhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: Durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.”
O próprio narrador nos avisa, pelo excesso, de que não é de confiança. Até que ponto é que o autor não nos quer revelar o tema que o conto trata (a homossexualidade), ou até que ponto o autor não admite que trata este tema, deixo a outro tipo de análise. Um século depois, esta temática “chocante” perdeu-se e o leitor moderno sente-se atraído pelo mistério que Lúcio nos vai relatando, duvidando aqui e ali dos tais pormenores que o narrador prometeu descrever fielmente, questionando a sua sanidade mental (tal como ele nos advertiu), questionando a relevância deste ou daquele acontecimento no total da narrativa. Tive muitas vezes a sensação (e a desconfiança) de estar a ler o relato de um sonho. O que de certa forma me recorda de Kafka, pese embora a diferença de temáticas. Se tantas vezes as histórias pecam por incoerência e falta de sentido, quando é bem feito e apoiado num todo surrealista resulta muito bem. Este é um desses casos e uma leitura que recomendo a toda a gente que ama a literatura.




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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Sede de Sangue, de Manuel Teixeira Gomes

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Este conto devia ser daqueles que mais me empolgam. Um vampiro. Um vampiro a sério! Mas infelizmente o conto não me cumpriu as expectativas.
Esta é mais a história de um mirone, o narrador, que do seu escritório, onde escreve para um jornal da terra, tem uma vista privilegiada para a “taberna” de um Sr. Trovas e sua esposa Balbina Catada, “antiga marafona que ele desposara em Lisboa”. Sim, a “taberna” é um bordel, e “marafona”, presumo, era sinónimo de prostituta. (Actualmente, “marafona” significa “mulher feia”. É curioso como as palavras evoluem.)
O narrador passa a maior parte do conto a descrever as “marafonas” (nos dois significados) que trabalham na taberna, até que lá aparece uma bela mulher de raça cigana: “Era uma rapariga de aparência franzina que, airosa, de perna cruzada, arcando divinamente o braço nu, fumava cigarros e falava espanhol. Ao expelir o fumo do cigarro em ténues baforadas toda se encostava para trás e o seio entumecia-se-lhe prodigiosamente debaixo do leve casabeque solto; de entre as fartíssimas madeixas do cabelo, que lhe caía sobre os ombros em lustrosas ondas negras, o rosto emergia oval, puro, mate, iluminado por dois olhos babilónicos, imensos olhos ardentes que fascinavam…”
Ora, esta nova trabalhadora da taberna começa a dizer, repetidamente: “a minha vida está por um fio: não tarda muito que não venha alguém beber-me o sangue”. Por estranho que pareça, ninguém lhe pergunta o que é que ela quer dizer com isto. Não é uma coisa normal de se dizer. Mas um dia, de facto, o nosso narrador/mirone observa a chegada de um estranho homem: “No momento em que o tive quase ao meu lado examinei-o bem: era enorme; era monstruoso! O arcabouço mociço, redondo, com proporções de mó de moinho; os braços grossíssimos, como troncos d’árvore articulados, encurvavam-se a miúdo e ligavam as mãos com um jeito de formidável turquês que se fecha para esmagar qualquer coisa; e as esgalgadas pernas de uma tão maravilhosa elasticidade que só as feras assim as têm. Mas o rosto, então, apavorava: lívido, golpeado pelo farto bigode preto, que lhe caía em compridas, agudas pontas dos dois lados do queixo, e sob as hirsutas sobrancelhas, na profundeza das órbitas cavernosas, ardiam-lhe os olhos desvairadamente…”
O narrador espreita como a cigana e este “gigante” se encontram, como se afastam até uma praia, e como ele efectivamente lhe bebe o sangue. E depois o conto acaba, sem qualquer explicação. “Os médicos que lhe fizeram autópsia, ao dia seguinte, não lhe encontraram pinga de sangue nas veias, mas ninguém suspeitou que um vampiro lho houvesse sugado, pois durante a noite a maré lavajara por muitas horas o cadáver e o sítio onde ele ficara, presumindo-se que assim desaparecera o sangue derramado.”
Há casos em que a falta de explicação valoriza a história, mas este não é desses casos. Afinal, o que foi aquilo tudo? Este homem “monstruoso” era mesmo um vampiro (sobrenatural) ou um assassino qualquer? E se a vítima tinha conhecimento do vampiro (sobrenatural ou não) porque é que aceitava tão placidamente que este lhe viesse beber o sangue? Não saber as respostas a estas perguntas deixou-me frustrada e sem perceber o que é que o conto queria, de facto, contar. A mim parece-me que o autor estava mais interessado em falar das marafonas e da Balbina Catada. Como grande fã de literatura de vampiros, não gostei.




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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O Cadáver, de Beldemónio

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Este é um conto cómico que conseguiu fazer-me rir. Trata da história de um homem que vinha de um baile, “Fernando de Morais, um valsista infatigável de todos os bailes do campo”, pelas bandas do Campo Grande, que nessa altura era mesmo campo e arredores de Lisboa. (Primeira gargalhada.) “De repente, distraído, tropeçando em qualquer coisa de mole, caiu de bruços para a frente, com as mãos estendidas. As suas mãos bateram numa superfície fria e molhada; e quando ele rapidamente se quis firmar para se pôr em pé, encontrou cabelos; o seu olhar já habituado ao escuro reconheceu um cadáver ali estatelado, de ventre para o ar, com a cabeça um pouco de lado, lívida e horrorosa sob o luar alvacento.” Era um homem que tinha sido assassinado. Mas este Fernando, e justificadamente, tem medo de ser acusado do crime se for encontrado junto ao cadáver e desata a fugir espavorido. É muito interessante como ele toma medidas forenses para eliminar todos os vestígios do cadáver, queimando a roupa manchada de sangue, fingindo um semblante calmo e sereno enquanto, intimamente, a paranóia de ser acusado do crime vai aumentando a níveis insuportáveis. Bem diz o conto:
«Se se lembrarem de propalar que furtei sub-repticiamente o zimbório da Estrela, a primeira coisa que tenho a fazer é fugir para o estrangeiro, e justificar-me de lá...»
Segunda gargalhada. E não é que ainda é verdade nos nossos dias? Especialmente para o desgraçado do pobre, que não tem uma firma de advogados que o defendam se for injustamente acusado. Mas se é rico e corrupto, não só não o conseguem prender como ainda se “arrisca” a ser reeleito Presidente de Câmara…
Não vou contar o que acontece a Fernando porque ia estragar a piada. Na verdade, esta história nada mais é do que uma piada desenvolvida em forma de conto. O mais surpreendente é que ainda nos faz rir hoje em dia, duzentos anos depois.
Beldemónio é o pseudónimo de Eduardo Lobo Correia de Barros, cronista, contista, jornalista e tradutor.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Uma Récita do Roberto do Diabo, de Júlio César Machado

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Durante uma exibição da ópera “Roberto do Diabo”, um folhetinista (título que dá a si próprio) é abordado por um companheiro de camarim que lhe relata uma ignominiosa história de parricídio, caso este a queira escrever. O folhetinista interessa-se e o companheiro conta-lhe a história de Ricardo, que mata o pai no único intuito de lhe roubar a herança. Pior do que isso, consegue acusar um inocente do homicídio, inocente este que é enforcado por um crime que não cometeu. Ricardo é o Mal em pessoa. Mas sobrepujado pelos remorsos, acaba por se arrepender.
No drama em palco, temos a história inversa. Roberto é filho de Bertran, que se intitula diabo (“um diabo subalterno, um diabo inferior, um diabo de segunda qualidade, um pobre diabo! A licença com que veio à Terra expira nesse dia; dentro em poucas horas tem de abandonar o filho e voltar às trevas e às chamas, ao fogo e à escuridão, à alegria infernal e à dor maldita!”), e que gosta tanto do seu filho que quer levá-lo para o inferno para não se separar dele.
Este é um conto que promete mais do que oferece. Entretanto, o companheiro do folhetinista confessa que o tal “Ricardo” é ele próprio (o que já todos tínhamos percebido) e promete dar mais pormenores. Contudo, no dia seguinte, o folhetinista descobre que este estranho homem é um louco do manicómio. Ficamos sem saber se a história era verdadeira, se foi uma invenção do louco, se foi o parricídio que o fez enlouquecer. Não aprecio este tipo de fim que não nos dá nada em forma de conclusão. Justifica-se, em certos casos, mas aqui não percebo mesmo porque é que o fim fica “à interpretação do freguês”.
Salvam-se algumas considerações sobre o Bem e o Mal que vão sendo feitas a meio da narrativa. Não há muito mais a dizer sobre este conto e não quero fazê-lo parecer mais interessante do que é.



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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal

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Na forma de conto fantástico, “Os Canibais” é na verdade uma feroz crítica social. Quer-me parecer que a crítica não é apenas ao óbvio: a importância das aparências e a ganância, mas mais do que isto talvez já me escape nos dias de hoje.
A acção passa-se entre a alta sociedade portuguesa do século XIX. “Suponha o baile — se lhe apraz, mesmo por comodidade ou propriedade — suponha-o em Lisboa”, diz o narrador,  que já tinha começado o conto com uma crítica irónica ao pensamento literário da época: “Disse a crítica pela boca de Boileau: Rien n’est beau que le vrai”, isto é, só o verdadeiro é belo. [E esta já é uma tradição de séculos entre nós --só o realismo interessa-- o que é um dos factores que explica a falta de literatura gótica e fantástica em Portugal. Ainda hoje, note-se, na cabeça de muitos intelectuais, só o realismo é sério. Veja-se até o prémio Nobel, sempre atribuído a autores que retratam sociedade e política. A Fantasia, a Ficção Científica, o Fantástico em geral, são considerados devaneios inferiores. Salva-se o Realismo Mágico quando bem embrulhado em ditaduras. E isto explica porque é que Tolkien nunca ganhou o Nobel. E está tudo dito.]
Álvaro do Carvalhal vai citar a ideia de que “só o verdadeiro é belo” para se lançar num conto que é completamente Fantástico, se bem que nem sempre coerente. Eu fiquei com algumas dúvidas quanto ao que de facto aconteceu.
A jovem Margarida, bela e senhora do seu nariz, apaixona-se pelo misterioso visconde de Aveleda. Margarida é muito cortejada (“Ela era o ídolo acatado de todos os crentes”) mas não corresponde ninguém. Álvaro do Carvalhal bem sublinha que não quer dar a moral da história, mas eu vejo aqui algo do ditado “quem muito escolhe pouco acerta”. O visconde, desde o momento em que aparece, denuncia logo que não é um homem vulgar. Melancólico e desencantado, não diz duas frases seguidas que não sejam góticas: “O cego adivinha as maravilhas da natureza e adora-as, mas sem poder contemplá-las. Eu sou como o cego, Margarida; adoro-a, sem poder mais nada.” O visconde adverte Margarida de que não o ame, deixando adivinhar qualquer tragédia que nunca revela, mas por fim até ele cede à sedução de Margarida e acabam por casar.
Entra aqui em cena um outro personagem, D. João, que diz amar Margarida, embora tudo nos leve a perceber que é desejo de conquista e orgulho ferido que o move. D. João queria cortejá-la mas Margarida desdenha-lhe os avanços. D. João é um Don Juan (seja o nome propositado ou não), habituado a ter as mulheres que quer. É através deste personagem que Álvaro do Carvalhal faz a crítica mais severa, descrevendo-o como um produto da sociedade, julgando que são os seus talentos pessoais, em vez da grande fortuna, que lhe abrem todas as portas. “O prostíbulo, voragem que a lei sanciona, foi a arena borrifada com o vinho de suas primeiras proezas. Cansado enfim de se estorcer na crápula, no húmido chão do lupanar, volveu os despertados apetites para a recatada burguesia. Se lhe resistia a inocência, a palavra dinheiro, pronunciada com voz anelante por lábios torpes, abandonava o pudor aos soltos caprichos do mancebo. E muitas foram as envergonhadas pequenas, que lhe venderam a virgindade em beijos frios, em dilúvios de sentidas lágrimas.”
Mas tirando a crítica social, não percebi que papel D. João realmente teve nos acontecimentos. O orgulho ferido leva-o a intentar o assassinato do visconde, nomeadamente no dia do casamento, mas antes de o chegar a fazer já a tragédia se tinha desenrolado.
Eu cheguei a pensar, até devido ao título do conto, que o visconde seria um vampiro ou algo do género. O que o visconde realmente é, prefiro que o autor o descreva: “Fez um movimento. Ressoaram estalos como de molas. Horror! Sobre a poltrona caiu um corpo mutilado, disforme, monstruoso. Pernas, braços, os próprios dentes do visconde, brancos como formosos fios de pérolas, tombaram sobre os felpudos tapetes da Turquia, e perderam-se nas dobras de seu robe de chambre, que naturalmente se lhe desprendeu dos ombros. O infeliz era um fenómeno, um aborto estupendo, que em nossos dias valeria muito dinheiro a quem quisesse especular. Era ele poeta de mais para isso. A tudo porém dera remédio a civilização de seu tempo. Afortunados tempos!”
Isto acima descrito aconteceu na noite de núpcias, em frente da horrorizada Margarida. Antes, ele tinha-a lembrado da sua promessa: “prometeste seguir-me ao cemitério, se lá fosse minha morada…” Margarida lança-se da janela e morre, de cabeça esmagada num banco do jardim. O visconde, de coração partido, atira-se à fogueira para morrer queimado.
D. João, que entra no quarto neste preciso momento na intenção de matar o visconde (ou o casal?) foge também. Mas, ao descobrir que Margarida tinha morrido, dá um tiro no “coração”, numa intenção de morrer que eu não percebi muito bem. Achei demais para um homem movido pelo orgulho ferido que de facto não amava Margarida mas a ideia de a possuir como a todas as outras. Mas as motivações das personagens não são o aspecto mais trabalhado deste conto. Diria mesmo mais, este é um conto satírico disfarçado de conto de horror, em que as acções das personagens se destinam a realçar a sátira. Nem sei se devíamos mesmo sentir simpatia pelo pobre visconde e pelo seu atrevimento e ingenuidade de julgar que Margarida o podia aceitar como era, ou se o autor estava a gozar connosco também.
Não vou revelar a parte que dá nome ao conto mas asseguro que não é publicidade enganosa. A seguir, acontece aqui uma espécie de piada que de forma nada subtil nos informa de que o dinheiro compra tudo, até a consciência.
Mas fiquei a perguntar-me: seria só isto que o autor queria dizer, que me parece tão óbvio e batido, até para a altura? O problema da escrita satírica, e neste caso o autor chega mesmo a gozar com o próprio conto, é que só faz rir quem está por dentro da piada. Era preciso dizer ou mostrar muito mais para que se entendesse plenamente a piada mais de dois séculos depois. Nunca esperei canibalismo literal deste conto, mas o título fez-me pensar num “canibalismo” simbólico em que os personagens se destroem mutuamente. Afinal, porque é que os pais e irmãos de Margarida são “canibais” a nível simbólico? Porque são iguais aos outros e também teriam prostituído a filha ao D. João ou ao visconde ou a outro qualquer, não fosse ela tão senhora do seu nariz? Era só isto? Já que o objectivo é a sátira, eu esperava mais de um título tão forte. E não gostei mesmo nada da ligeireza do fim, quase uma anedota. O autor é demasiado gozão para o meu gosto. Mas justiça lhe seja feita, o conto consegue cenas verdadeiramente tenebrosas (rebuscadas que sejam). Tudo o resto sou eu que estou mal habituada a um terror mais moderno e consistente.

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Já depois de escrever este artigo, tive curiosidade de ir pesquisar o conto e o autor. Descobri que Álvaro do Carvalhal morreu com apenas 24 anos, em 1868. Isto explica tudo o que apontei acima. Não bastando o talento, a escrita é uma arte que se aperfeiçoa durante toda a vida, mas algumas coisas só se adquirem com a maturidade, nomeadamente a construção de personagens tridimensionais e com as devidas motivações. Não posso deixar de lamentar o potencial perdido com o desaparecimento deste jovem autor.


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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Morta, de Florbela Espanca

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Ou não fosse Florbela Espanca, este é um conto em prosa poética. Os temas são os do costume nesta poetisa, o amor e a morte, e mais uma dose de morte.
Tal como em toda a prosa poética, apenas se pode interpretar o significado, e do que eu conheço da autora interpreto assim: a Morta morreu nova; durante uns tempos, o noivo foi visitá-la ao jazigo; por fim, o noivo deixou de visitá-la. Sentindo-se esquecida, a Morta levanta-se e vai-se “afogar”/”diluir” no rio, onde acabam todas as memórias. (Florbela conheceria o rio Lethes?... Na sua obra poética, Florbela menciona várias vezes a transmigração das almas/metempsicose/reencarnação, pelo que não é descabido interpretar este conto como mais uma referência a essa “morte” do eu antigo/renascimento pós-morte).
Florbela Espanca foi a autora mais gótica do nosso país antes de haver o movimento gótico. Lamento muito por ela não ter encontrado a sua gente. Talvez o suicídio tivesse sido evitado. Trágico destino de nascer antes do seu tempo. Como é que se conseguia ser gótico e viver naquele tempo de Avé-Marias e procissões, e de gente normal a martelar-lhe aos ouvidos que o problema estava nela? A solidão intelectual devia ser absoluta.
Isto é suspeito da minha parte porque eu adoro a autora, mas este foi um dos meus contos preferidos desta colectânea.


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segunda-feira, 22 de julho de 2019

A Feiticeira, de Ana de Castro Osório

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Esta é uma história de aldeia com personagens a condizer. Num cenário muito rural, existe um rapagão considerado o melhor partido da terra, o Manel da Clara, que “tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz”.
Este tal Manel está dividido entre duas pretendentes, a pálida e frágil Teresinha, que “era afilhada da fidalga e lá pelo palácio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubescia como romã bem madura quando ele a fitava de frente, bem de frente, como fazia às mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jucundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegância exótica ao seu corpo delgado de anémica, flor tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a única que na terra sabia ler, eram também os seus os únicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja à procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada”, e a robusta Maria do Próspero, que “era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fora brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A boca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delícia no pão de milho, sua única escova. As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro. Quando punha o cachené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o xale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores. Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.”
Esta tal Maria, mais extrovertida, está a conseguir avanços no coração do Manel que a tímida Teresinha não alcança. A tia da Teresinha, que faz muito gosto no casamento, queixa-se à Gertrudes Zarolha que o Manel não se decide a declarar-se à Teresinha. A Gertrudes Zarolha oferece ajuda através de umas mezinhas de bruxa de aldeia:
“— Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hão-de voltar o Manel, oh se hão-de!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.”
O Manel, em noite que vinha da feira, depara-se então com um Sabat onde nem faltava “o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéu guizalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente”. Entre as feiticeiras, Manel vê a Maria do Próspero, e “E quando a viu chegar ao pé do homem vermelho, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardor, não pôde reter um surdo grito de raiva.” Horrorizado, nunca mais lhe fala e casa antes com a Teresinha.
Mas aqui é que está a parte mais difícil de perceber. Parece que ele não viu a Maria do Próspero. Esta nega tudo quando é confrontada. Mas, caída em desgraça, perde o gosto pela vida e torna-se um fantasma de si própria, questionando-se mesmo se afinal é de facto a bruxa que a acusam de ser.
Este conto peca pela falta de desenvolvimento. Havia aqui o suficiente para um romance, com personagens bem desenvolvidas, maior imersão no pano de fundo da vida na aldeia, maior aprofundamento psicológico dos protagonistas, pistas que nos levassem a perceber que se passa mesmo algo de sobrenatural. Afinal, esta Gertrudes Zarolha tem pacto com o demo, ou, no mínimo, tem poderes suficientes para invocar a imagem de um Sabat na mente do Manel, e até de o fazer ver a Maria no Sabat, e isto é tratado como se nada fosse?... Assim parece um conto escrito a correr, sem ter o desenvolvimento que merece. No pior dos casos, soa-me a coisa escrita por senhora da alta sociedade a gozar com as superstições (e a linguagem, e o modo de pensar, e a “vidinha”) do povo ignorante, porque é “himalaias de giro” observar a gentinha. E isto irrita-me muito. Se calhar não era a intenção da autora (raramente é) mas foi o que chegou até mim.
O conto tem uma temática gótica o bastante mas falha na execução.


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segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Corvo, de Fialho de Almeida

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Na sequência de um naufrágio, bóia no mar o cadáver de um escravo. Um corvo tenta alimentar-se do cadáver. E é só isto. Apesar da temática mórbida, este é um conto que eu identifico muito mais com o realismo do que com alguma sensibilidade a que se possa chamar gótica. O autor observa a cena e comenta-a, “O negro lá continua de bruços sobre as ondas, hirtas as pernas, o cavername do tronco abroquelado em glaciais musculaturas, os ombros sempre unidos, a cabeça debaixo do peito, como em vivo fizera, quando o chicote do amo lhe arava as carnes, delas fazendo suar martírio e sangue”, no que é uma posição política implícita contra a escravatura, e atira invectivas ao corvo como se o pássaro tivesse alguma culpa por se alimentar.
É claro que existe aqui uma metáfora no corvo, “Só o corvo prossegue na sua tarefa exaustinada, e imagem do ódio, ei-lo armando em força a cobardia, requintando a vingança, tripudiando sobre a impunidade — como esses vencidos que se desforram da humilhação sofrida, indo aos cemitérios esbofetear os cadáveres dos vencedores”, mas como no caso do conto “O Mistério da Árvore”, de Raul Brandão, faltam-me as referências para identificar a quem se destina a crítica virulenta sem ter de ir procurar fora do conto. É assim que as obras panfletárias ficam datadas e perdem relevância.
Posso estar a ser infinitamente injusta, mas também não gostei da escrita rebuscada do início , versão “o homem que engoliu um dicionário”: “Aos primeiros clarões da manhã, o casco do galeão tinha-se afundado inteiramente. Para qualquer lado que se olhava, o mar não tinha termo; o céu ia coberto duma bostela de nuvens cor de chumbo, mosqueada de fulvo, que se fora erguendo duma banda, erguendo té descobrir sobre a linha do mar uma fímbria d’alva muito pálida, por onde a luz começou a esclarecer de manso o plaino líquido. E esse plaino amainava e começara a perder os vagalhões… Sobre as águas se erguia, à maneira de torre, um grande ilhéu bronco e tisnado. Era uma massa de fortins dentada toda em roda, por cima de cuja plataforma outras moles gigantes se aprumavam. E havia pórticos, recantos, pátios, levadiças: a ressaca bramia nos recôncavos da rocha babugenta; por cima as nuvens galopavam, embebendo os goelanos e os corvos marinhos do seu chorume glácido e mortal.” Felizmente este estilo é abandonado assim que entramos na história propriamente dita.
O gótico baseia-se muitas vezes no mórbido, mas nem tudo o que é mórbido é gótico. Na minha opinião, este é precisamente o caso. Não reconheço neste conto o “belo do horrível”, apenas o horrível e panfletário.


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segunda-feira, 8 de julho de 2019

O Mistério da Árvore, de Raul Brandão

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De Raúl Brandão li “Húmus” (1917). Já não me lembro porque li. Se calhar por ser considerado o primeiro romance existencialista português. Mas perguntem-me de que trata o livro. Não me lembro. Não ficou nada. Foi daqueles que li por curiosidade e cultura geral. Já deste “O Mistério da Árvore” vou-me lembrar. Não por causa da história propriamente dita, porque quase não a tem. Um Rei que odeia a vida e, principalmente, o amor, manda enforcar dois amantes que entram no seu reino. Na árvore em que eles são enforcados, uma árvore negra e seca, que “não bebia água, nem sugava húmus”, nasce um galho florido. E é isto. Mais do que contar uma história, Raul Brandão pinta um retrato deste Rei e desta árvore em prosa poética. “Só o Rei no Palácio trágico vivia braço a braço com a Dor. A vida, a luz, as árvores lembravam-lhe a sua miséria e enojavam-no. Queria que todo o país fosse negro e viúvo; e o Amor que ele sentia correr na terra, a Morte até, que tudo transformava e enchia de vida, lhe parecia uma abominação.” Do que li de Brandão, sobressai imediatamente a obsessão/fascínio com a terra. A terra como lugar de germinação e a terra como lugar de decomposição. Ventre e sepultura, semente e húmus. Há algo de hippie antes do tempo neste fascínio em que Brandão faz equivaler a natureza à vida, ao amor, à alegria.
Mas confesso que não percebo exactamente onde é que Brandão quer chegar com este conto. Quem é o Rei Trágico? Será psicológico, alguém em particular? Sociológico, a sociedade do seu tempo como Brandão a via? Religioso, a igreja? Político, um louvor ao povo pobre mas “feliz”? Existe aqui uma crítica contundente algures, mas o conto já não basta para a identificar sem termos de ir estudar o autor e a época.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.



segunda-feira, 10 de junho de 2019

A Torre Derrocada, de Alberto Osório de Vasconcelos

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Penso que este conto queria ser um verdadeiro conto de terror. Se o conseguiu ou não, à época, não posso dizer. O conto começa a descrever uma velha torre em ruínas junto ao mar para nos levar ao drama que lá se passou “no tempo em que os antigos portugueses, os leões do mar, como lhes chamou Victor Hugo, desfraldavam as santas quinas em todas as regiões do mundo, e espalhavam o renome português pelas bocas dos seus canhões séculos antes”. Na torre vivia Rosalinda, de “uma nobre família que ali assentara os lares, por doação régia, com o encargo de vigiar e defender as costas”. Rosalinda, do cimo da torre, vê chegar o galeão que devia trazer das Índias a D. Álvaro, seu amado. Existe aqui, na subsequente conversa entre Rosalinda e a mãe, uma componente lírica que me recorda muito a cantiga de amigo, com o seu refrão “que me levou o coração”. Rosalinda vai ao porto saber de D. Álvaro, onde lhe dizem que este morreu na viagem. Desconsolada, Rosalinda volta à torre, e entre as vagas do mar julga ver o seu amado. Sem hesitar, atira-se da torre para os seus “braços”.
O conto teria terminado bem aqui, mas então o autor envereda por um exagero e absurdo que, na minha opinião, estraga tudo. É a tal parte que era suposto meter medo, calculo. Numa linguagem rebuscadíssima, que em vez de nos levar para lá só nos lembra constantemente de que estamos a ler ficção (mas o contrário seria pedir demais à literatura da época, bem entendido), descobrimos que afinal o fantasma que leva Rosalinda não é o seu amor D. Álvaro. É o demónio que lhe ouvira “as queixas, e ninguém lha podia roubar, que já a havia marcado com as garras”. A princípio pensei que era por ela se ter atirado ao mar, cometendo o pecado do suicídio, mas é ainda menos lógico. Sabendo da morte de D. Álvaro, Rosalinda lamenta: “Ó minha mãe, quem me dera ser sereia para viver no mar, abraçada com D. Álvaro, que me levou o coração.” E parece que foi o bastante para o demónio a chamar “dele”.
Se eu me queixava da falta de “gótico” de “A Caveira”, de Camilo Castelo Branco, aqui queixo-me de ser um conto metaleiro. [Sim, é uma piada.] De repente, temos uma capa dos Iron Maiden perante os nossos olhos: “O esqueleto levantou-se então na água. Brilhavam-lhe os olhos como carvões acesos no crânio; os braços longos e descarnados foram crescendo, crescendo até abarcarem o corpo de Rosalinda, e depois de a contemplar um momento, alumiando-lhe o rosto com o fogo dos olhos, soltou uma gargalhada horrível, e desconjuntando os ossos, sumiu-se na voragem, a tempo que ia dizendo: — Sou eu, sou eu o teu amante!” E continua, sem interromper: “Depois começaram a surgir monstros marinhos, trazendo as cabeças enormes à superfície da água e encobrindo os corpos nas profundezas. (...) Envolveram enfim completamente Rosalinda, roçando-lhe o corpo mimoso com as escamas frias e duras, como dentes de serra.” E o demónio, por fim, condena-a a ser uma sereia que para sempre atraia os viajantes com os seus “cantares maviosos”.
Primeiro, não percebo a ideia de misturar a mitologia grega com a cristã. O que é que o demónio tem a ver com as sereias? Seria necessário explicar isto assim à sociedade católica da altura? (Camões inventou as Tágides sem precisar de demónios.) Segundo, o castigo é despropositado. Rosalinda não era uma sedutora, pelo contrário. Era alguém que esperava fielmente o seu amado. Que lógica tem isto? Do ponto de vista de uma leitora dos dias de hoje, não faz sentido. O conto devia ter acabado com Rosalinda a lançar-se às ondas.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Caveira, de Camilo Castelo Branco

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Ou não fosse Camilo, esta é a história de um amor de perdição.
Mas antes do conto existe um prefácio, muito irónico e muito político, cheio de piadas às ideias da época, que hoje teria antes lugar num blog como este. Mas não havia internet e estes textos satíricos e críticos só tinham lugar na literatura. Aqui, Camilo goza com aqueles que julgavam o caminho-de-ferro o progresso que de imediato elevaria o desenvolvimento do país. “O cavador, na hora da sesta, lerá, na vinha, de barriga ao ar, o Times, e Benjamin Constant.” Muitas destas piadas estão datadas e perderam-se para sempre. Mas achei curioso como é que quase dois séculos depois ainda se aponta o TGV e a alta velocidade como imprescindíveis para o desenvolvimento do país. Como diria o outro, quanto mais as coisas mudam mais ficam na mesma. Pelo menos hoje temos algo que não havia no tempo de Camilo, uma educação que chega efectivamente a todos, mas que ainda não basta para desfazer esse grande cancro que sempre afligiu o país e não dá sinais de diminuir, antes pelo contrário: a desigualdade. E uma desigualdade ainda maior no interior, para lá do Marão, onde se passa esta história. De certa forma, apesar da sátira datada, o prefácio continua actual.
Mas vamos lá ao conto. A história é curta e não há muito a dizer. Um homem já avançado em idade conta a um amigo o motivo de ter uma caveira em sua casa, dentro de uma redoma. E tudo começa num amor de perdição. Neste caso, em vários. Quando era novo, este homem amou loucamente uma mulher que o “atraiçoou”. Marta, de seu nome, amou loucamente a outro, Pedro de Mesquita. Mas um filho segundo de uma família nobre, Heitor Correia, queria cortejá-la também. Os dois, Pedro de Mesquita e Heitor Correia, acabam mesmo por pegar-se em duelo numa Quinta-Feira Santa, à saída da igreja, onde Pedro de Mesquita mata o rival com a sua espada de forma limpa e nobre (segundo as regras destas coisas). Mas o irmão do nobre derrotado procura Pedro de Mesquita logo de seguida e mata-o cobardemente a tiro de bacamarte. Marta morre de desgosto em questão de dias. (No Romantismo, as heroínas morriam assim, de desgosto.) Mas o homem que a amava sem ser correspondido nunca deixou de a amar. Quando chegou a altura de levantar-lhe as ossadas, subornou o coveiro para o deixar ficar com a caveira. Até à velhice, continuou a sentar-se a adorar a caveira da mulher que amava, ora imaginando que esta o perdoava ou que lhe tinha rancor.
É a presença desta caveira que pode qualificar o conto como gótico, mas na minha opinião apenas marginalmente. Temos aqui um homem desconsolado, incapaz de superar uma paixão de juventude, com uma fixação mórbida. Não há elementos sobrenaturais e o próprio admite que os seus delírios não passam de imaginação. Não existe uma consequência trágica desta fixação, como, por exemplo, em Edgar Allan Poe. Apesar da excentricidade, o homem segue com a sua vida, pacatamente, até ser velhinho. Não me parece o bastante para ser um conto gótico. Um conto ultra-romântico sobre alguém que não consegue ultrapassar uma paixão não correspondida, isso sim. Mas eu espero mais qualquer coisinha do “rótulo” gótico.
O ponto alto do conto é o duelo e a vingança cobarde do irmão do nobre derrotado. Este outro nobre nunca é punido, pelo contrário, recebe um perdão real por ser fidalgo. Se calhar era disto que Camilo queria falar.


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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




domingo, 5 de maio de 2019

A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano

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Toda a gente conhece esta lenda, que já existia antes da adaptação de Alexandre Herculano e em várias versões (procurar, por exemplo, a lenda do castelo de Marialva). A primeira parte deste conto costuma ser inserida nos manuais escolares, onde me lembro de a ver. O que já tinha esquecido é que o conto tem uma segunda parte, embora tenha toda a certeza de a ter lido algures.
Começando pelo princípio, D. Diogo Lopes, nobre medieval, senhor de Biscaia, andava a caçar quando encontra na serra uma mulher lindíssima por quem se apaixona e a quem pede imediatamente em casamento. A senhora, de quem nunca nos é dado o nome, aceita, na condição de que D. Diogo Lopes nunca mais faça o sinal da cruz. Diz o conto que D. Diogo, que “que nos folgares e devassidões perdera o caminho do Céu”, nem pensa duas vezes. Mas ao chegar ao castelo com a noiva, repara que ela tem “pés forcados como os de cabra”. O que nada alterou, e viveram juntos e felizes por vários anos, tendo nascido entretanto duas crianças, D. Inigo Guerra e Dona Sol.
Certo dia de caça e festança, em disputa por um pedaço de carne, a podenga negra da dama mata o alão do senhor da casa. Este, impressionado, pela primeira vez em tantos anos benze-se com o sinal da cruz. A dama fica toda preta, eleva-se no ar, e sai por uma fresta com Dona Sol nos braços, deixando D. Inigo porque D. Diogo não a deixa levá-lo. (Na versão da minha mãe a dama “desaparece com um estouro”.)
Aqui acaba a primeira parte e começa a segunda.
Na segunda parte, D. Inigo já é homem. D. Diogo Lopes tinha partido em penitência para a guerra com os sarracenos e encontra-se aprisionado. D. Inigo não sabe como pagar o resgate. O seu pajem, o fiel Brearte, aconselha-o a procurar a sua mãe, na serra, que “é grande fada”. Ao que D. Inigo responde: “Que dizes tu, Brearte? Sabes quem é minha mãe e que casta é de fada?”
A interacção entre estes dois é tão boa e fluida que parece um romance contemporâneo. D. Inigo daria um grande anti-herói. Brearte é fiel e leal mas tem medo deste amo meio-humano e meio-outra-coisa. D. Inigo conta ao seu pajem a história que um velho abade relatou ao seu pai, que esta Senhora da Pena é uma alma penada, condenada ao inferno. Há mais pormenores sobre a origem desta senhora e do seu amante, transformado em onagro [jumento selvagem], que nos levam a D. Argimiro, que tinha jurado ao seu pai, estando este no leito de morte, que não caçaria animais que tivessem crias a seu cargo. D. Argimiro quebra esta jura. E aqui temos um momento belíssimo e invulgar para a altura em que foi escrito. D. Argimiro entra numa gruta onde um onagro guarda as crias, e este “deixando as suas crias, estendeu-se no chão e abaixou a cabeça, como quem suplicava”. A personificação do onagro, que acaba morto apesar da sua súplica, é bastante comovente. Mas D. Argimiro não tarda a sofrer o castigo pelo que fez.
De volta ao presente da história, D. Inigo, desesperado, e não sabendo como pagar o resgate de D. Diogo, acaba mesmo por procurar a sua mãe na serra, onde a encontra. A dama quer ajudar D. Diogo e envia o seu filho, montado do onagro maldito que é o castigo de D. Argimiro, direito à praça mourisca onde liberta o seu pai sob circunstâncias sobrenaturais.
Este conto recorda-me porque é não sou amiga de contos curtos. Havia aqui muito a explorar para um romance inteiro. Mesmo assim, D. Inigo, que morre de velho, tem fama de ter vendido a alma a Belzebu, pois “meio precito [condenado] era ele por sua mãe; não tinha que vender senão a outra metade da alma”. Mas há mais para contar, como diz Herculano: “o que a história não conta é o que então se passou no castelo. Como não quero improvisar mentiras, por isso não direi mais nada”. Pena não ter contado, que esta podia ter dado uma grande Fantasia Épica. Herculano, como historiador, prefere sempre ficar-se pelo que conhece e que mais gosta, a Reconquista aos Mouros. Muita da sua linguagem medieval já é para nós completamente obsoleta. Ainda tentei procurar alguns termos na internet mas não achei nada e também não figuram nos dicionários actuais. Foi preciso ir adivinhando pelo contexto, como se faz com as línguas estrangeiras. Quanto tempo restará até que nem o contexto baste para compreender a narrativa? Mas Herculano continua incontornável. Um pouco mais de desenvolvimento, menos absurdo, menos visões do inferno, mais psicologia (D. Inigo e a sua relação com a mãe), a história do que aconteceu a Dona Sol, e este conto podia ser um romance contemporâneo.



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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




terça-feira, 19 de março de 2019

O Defunto, de Eça de Queirós

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Ou não fosse Eça de Queirós, o conto começa com um homem que anda atrás de uma mulher casada. D. Rui de Cardenas apaixona-se pela formosa D. Leonor, casada com um homem mais velho. Ainda assim, D. Leonor é de uma virtude irrepreensível e nem sequer olha para D. Rui. Desapontado, mas conformado, este acaba por desistir. Mas o marido, D. Alonso de Lara (o que eu gosto deste nomes pomposos) desconfia dos olhares que o vizinho deita à sua belíssima esposa, e desconfia da honradez dela também. Muito velhaco, obriga-a, a ponta de faca, a escrever uma carta a D. Rui em que o alicia a visitá-la para um encontro romântico à noite no seu quarto. D. Rui, tomado de paixão, cai direitinho na emboscada. Quando vai pelo caminho, na noite iluminada de lua cheia, um enforcado fala-lhe, pendurado da forca. Seguem-se uma série de acontecimentos sobrenaturais em que o enforcado salva D. Rui.
Para quem só leu os “Os Maias” e achou uma estopada tão grande como eu achei, o melhor que tenho lido de Eça de Queirós não é ensinado na escola. Nem nunca me passou pela cabeça que Eça escrevesse coisas destas tal foi a ideia que me transmitiram. Gostei muito deste conto, que não conhecia. Aqui Eça pode parecer ainda Romântico (no sentido do Romantismo, bem entendido) com a sua noite, os seus morcegos, os seus pilares negros ao luar, mas a história centra-se bem no Realismo da carnalidade explícita que leva D. Rui à armadilha e que mais tarde faz “arfar” o peito de D. Leonor. Mas tudo muito recatado, que afinal o que os salvou foi um milagre de Nossa Senhora porque eram os dois muito beatos. Numa história à inglesa, da altura, não teria havido intervenção de Nossa Senhora. Teria acabado sem explicação. Mas este é gótico à portuguesa. Talvez Eça tivesse de justificar a ousadia com um milagre católico se queria publicar este conto.
Gostei muito do pormenor em que D. Rui se ajoelha em frente da imagem em que a Virgem tem sete espadas cravadas no peito, e que mesmo assim sorri como se não lhe doessem. Só no final é que percebi o presságio. Mal empregado Eça não se ter dedicado mais a estes géneros, como aqui e em “A Relíquia”. Aconselho a toda a gente, principalmente a quem detestou “Os Maias”. Este é outro Eça. Um Eça que para mim era desconhecido até há bem pouco tempo.



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Este conto encontra-se na compilação “Dentro da Noute – Contos Góticos”, do Projecto Adamastor. O download gratuito pode ser feito AQUI.




domingo, 3 de março de 2019

Dentro da Noute: Contos Góticos, de Projecto Adamastor

 

“Dentro da Noute: Contos Góticos” é uma colectânea de contos portugueses e brasileiros, em domínio público, organizada pelo Projecto Adamastor. Irei aqui comentar alguns deles numa série de artigos. O livro, nos formatos epub e mobi, encontra-se disponível para download gratuito na página do Projecto Adamastor. Os contos que já li garantem a relevância desta antologia.