Mostrar mensagens com a etiqueta suicídio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta suicídio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Suicídio

Capítulo “Desgosto da vida. Suicídio.”


De onde vem o desgosto pela vida que se apodera de certos indivíduos sem motivos razoáveis? [pergunta]
– Efeito da ociosidade, da falta de fé e frequentemente da satisfação plena de seus apetites e vontades, do tédio. Para aquele que exerce suas actividades com um objectivo útil e de acordo com suas aptidões naturais, o trabalho não tem nada de árido, e a vida escoa mais rapidamente. Suporta as contingências da vida com mais paciência e resignação quando age tendo em vista uma felicidade mais sólida e mais durável que o espera.

Confesso que me custou a perceber imediatamente que raio de resposta era esta. Faltava-me ponderar o contexto. Século XIX, classes superiores e ociosas, período romântico. Quando as pessoas da alta sociedade se suicidavam por tédio. (É curioso que "O Livro dos Espíritos" tem alguns parágrafos dedicados ao tema do duelo, denunciando-o como suicídio e homicídio. O que vem na mesma linha desta resposta.)

O homem tem o direito de dispor da própria vida? [pergunta]
– Não, apenas Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei.

O que pensar do suicídio que tem como causa o desgosto da vida? [pergunta]
– Insensatos! Porque não trabalhavam? A existência não lhes teria sido pesada!

Insensatos! Porque não trabalhavam?! (Porque estavam desempregados, talvez?...)
Esta resposta, na sequência da primeira, é tão para gente rica que me lembra a outra "Não têm pão? Que comam brioche!"
Não gostam do que fazem? Que façam o que gostam.
(Uma pessoa tem de se perguntar como seriam as vidas desta gente privilegiada!)

O que pensar do suicida que tem por objectivo escapar das misérias e decepções deste mundo? [pergunta]
– Pobres Espíritos, que não têm coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem. As aflições da vida são provas ou expiações; felizes aqueles que as suportam sem queixas, porque serão recompensados! Infelizes, ao contrário, os que esperam sua salvação do que, na incredulidade deles, chamam de acaso ou sorte! O acaso ou a sorte, para me servir da vossa linguagem, podem, de facto, favorecê-los transitoriamente, mas é para fazê-los sentir mais tarde e mais cruelmente o vazio dessas palavras.

Nunca mostrem esta resposta a um suicida. "Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem" reduz a pessoa deprimida a um estado de tal insignificância que nem Deus se interessa por ela. Dizer isto a um suicida poderia até conduzi-lo mais depressa ao suicídio.
Não podemos esperar que gente do século XIX, viva ou morta, compreenda o psiquismo da depressão. É preciso não esquecer que não se conhecia a mente inconsciente e os seus meandros. (A falta que Freud fazia, e a ingratidão de que (ainda) é alvo devido à ignorância e ao preconceito!)
  
Aqueles que conduziram um infeliz a esse acto de desespero sofrerão as consequências disso? [pergunta]
– Como são infelizes! Pois responderão por homicídio.

O homem que na necessidade se deixa morrer de desespero pode ser considerado um suicida? [pergunta]
– É um suicida; mas os que o levaram a isso ou que poderiam impedi-lo são mais culpados que ele, e a indulgência o espera. Entretanto, não acrediteis que seja inteiramente absolvido se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou sua inteligência para superar as dificuldades. Infeliz dele, principalmente se o seu desespero se originou do orgulho; quero dizer, se é desses homens a quem o orgulho paralisa os recursos da inteligência, que se envergonham por depender do trabalho das suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que eles chamam de posição social! (…)

Vou interromper este Espírito que continua incessantemente a bater na mesma tecla (com certeza devia estar a mandar uma indirecta a alguém).
Para nós, agora, quando é o desemprego uma grande causa de depressão e suicídio, até parece de mau gosto estar a mandar alguém trabalhar para não pensar na morte.
Achei interessante transcrever a insistência no assunto porque denota o espírito de uma classe e de uma época: quando alguém "bem nascido" preferia suicidar-se ou morrer de fome em vez da vergonha de ir trabalhar, com as mãos se fosse preciso. Dá que pensar. Dá muito que pensar.
Mas abandonemos por aqui as curiosidades históricas.
  
Quais são, em geral, as consequências do suicídio sobre o Espírito? [pergunta]
– As consequências do suicídio são muito diversas: não existem penalidades fixas e, em todos os casos, são sempre relativas às causas que o provocaram; mas uma consequência da qual o suicida não pode escapar é o desapontamento. Além disso, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente; outros, em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.

Segundo a doutrina espírita, o suicídio é inútil e contraproducente. A boa notícia (a morte não existe) é também a má notícia (a morte não existe).
Volto à alegoria do jogo de computador. Interromper o jogo a meio, sem passar de nível, significa ter de começar do ponto de partida outra vez. Apesar da reencarnação, não há "fugas para a frente".
Mas cuidado ao tentar "racionalizar" deste modo com uma pessoa deprimida. O que pode parecer até uma ideia positiva e animadora (a inutilidade do suicídio, a continuidade da vida após a morte) pode ser recebido com bastante mais desespero. Não há racionalidade no desespero e nenhuma lógica garante que o suicida não tente, à mesma, a fuga do que considera insuportável, crente ou não crente.
Isto, os espíritos (mortos e vivos) do século XIX não podiam ainda saber, daí o dogmatismo e a condenação explícita, que contraditoriamente descamba até numa certa ligeireza com que abordam o assunto, como se o suicídio fosse um pecadilho e um disparate. Desconheciam os mecanismos da depressão e não sabiam do que falavam.
Aconselho por isso cautela na abordagem deste capítulo d'"O Livro dos Espíritos" junto de pessoas muito deprimidas e principalmente sem se ler a obra na íntegra. O contexto explica o raciocínio. Aqui, limito-me a comentar esta ou outra parte que mais me interessa. Fica feita a ressalva.






sábado, 16 de março de 2013

A zombificação

Segundo estudo europeu, Portugal é o terceiro país da Europa onde o suicídio mais cresceu nos últimos 15 anos. Estima-se que se suicidem, em Portugal, cinco pessoas por dia.

Oh, porquê, porque será?! O mistério, o mistério!

Espanta-me (nos dias que correm) que os senhores doutores psiquiatras continuem a apontar a depressão como razão para esta decisão definitiva, coisa simples que se cura, com comprimidos, vejam lá! "Está desempregado, não consegue arranjar uma entrevista, vai perder a casa, anda a mendigar na rua? Tome lá um comprimido para não pensar nisso!"
Não, não se cura com comprimidos, nem sequer com conversas, porque as pessoas não estão doentes, as pessoas estão desesperadas e não têm futuro! As pessoas estão a perder o emprego, as mães estão a pegar nos filhos ao colo e a saltar de pontes abaixo, as pessoas vêem-se na iminência de ter de sair da casa própria (porque o desemprego não lhes permite cumprir as prestações ao banco) ou arrendada (porque não suportam a renda), as pessoas chegam aos 35 anos e são consideradas velhas para trabalhar, as pessoas não têm filhos para que não passem fome, as pessoas resignaram-se a enterrar os sonhos, as pessoas já não têm motivo para viver.
E estas bestas continuam a chamar-lhes doentes, e querer medicá-los, e a torná-los nuns vegetais, a andar pela cidade sem abrigo e a comer da caridade da Santa Casa da Misericórdia e da Legião da Boa vontade? E não lhes passa pela cabeça que essas pessoas chamadas “doentes” prefiram morrer com orgulho e dignidade, nos seus próprios termos, porque não querem viver de caridadezinha?... O que as pessoas querem é direitos. Só a justiça, a igualdade, as perpectivas de futuro, curam esta "doença". Uma doença social, um cancro, uma vergonha.
Foram feitas umas acções de formação. Diziam os formandos: "quando alguém diz: 'eu quero matar-me' já não está muito bem. Precisa de um psiquiatra." Eu é que já não estou muito bem! Porque eu sei o que faz o psiquiatra. O psiquiatra passa um papel e transforma esse "doente" num vegetal ou semi-vegetal.
Não precisamos de mais zombies! A Fox já nos fornece walking deads que cheguem!
Mas interessa, ao poder estabelecido, que os desesperados andem medicados, zombificados, vegetalizados. Toma lá com comprimidos para não pensares quanto te fodem!
E pensar que estes charlatães, que não têm outro nome, sem pinga de vocação (os mais velhos foram para Medicina porque os papás quiseram, os mais novos porque não havia emprego em mais nada), não sabem sequer distinguir o que é psicológico do que é sociológico! Não custa assim tanto. Leiam os jornais, grandes bestas! Está lá tudo! E não é psicológico, é mesmo a sério!
E se estes doutores, que ganham BALÚRDIOS, forem de repente corridos pelos cortes no Ministério da Saúde, como eu vi alguns (muitos deles, psicólogos, remetidos ao call center, ou às lojas, ou à caixa de supermercado), e se se virem sem papás a quem pedir dinheiro, e sem conjugues, igualmente desempregados, que não garantam sustento, e se se virem numa situação de miséria em que têm de ir recorrer à caridade do Banco Alimentar ou da Santa Casa, ou mendigar na rua? Também ficam "deprimidos", "doentes", "neuróticos"? Ou não vos passa pela cabeça que vos possa tocar a vós, alimárias?
Por esta altura já deviam saber melhor, mas parece que a alguns só dói quando vos toca na pele. Oxalá toque, anormais! Para morderem a língua antes de ensinar aos ignaros que "a pessoa já não está muito bem" quando a pessoa já está muito mal!
Se não sabem o que estão a fazer, suicidem-se! Mas passem antes o papel, que a malta quer é droga. Porque é isso que vocês são: não passam de dealers autorizados.