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domingo, 6 de dezembro de 2020

Silence / Silêncio (2016)


Que grande filme! 20 em 20.
“Silêncio”, a adaptação do romance homónimo do autor católico Endō Shūsaku, é um regresso de Martin Scorcese ao tema de Deus e da fé que tornaram “A última tentação de Cristo” um filme tão controverso.
Dois padres jesuítas portugueses, Rodrigues e Garupe, partem para o Japão do século XVII onde se trava uma cruel perseguição aos cristãos. Rodrigues e Garupe são informados de que o seu mentor, o padre Ferreira, missionário no Japão, tinha cedido à tortura e apostatado contra a fé cristã, mas não conseguem acreditar e  pretendem encontrá-lo nem que para isso tenham de arriscar as suas vidas.
O perigo é muito real assim que põem o pé no Japão. Guiados por um japonês duvidoso, Kichijiro, ele próprio um cristão obrigado a renegar a fé, são acolhidos numa aldeia de pescadores tão devotos como miseráveis, que querem acima de tudo a presença dos padres para se poderem confessar e baptizar as crianças, que dão mais valor do que deviam aos símbolos tangíveis da fé: um crucifixo verdadeiro (em vez das cruzes de palha improvisadas), as contas dos rosários que os padres trazem com eles. O próprio Rodrigues faz esse comentário, é como se para os nativos a fé não fosse algo de abstracto, mas sim algo que podem praticar todos os dias e segurar nas mãos.
As autoridades japonesas consideram a religião cristã perigosa (nunca é explicado directamente porquê, mas fiquei com a ideia de que na sociedade feudal do Japão a religião oficial era mais uma maneira de controlar as pessoas e que uma seita diferente poderia potencialmente acarretar o risco de rebelião) e querem esmagá-la por todos os meios necessários. Conhecedores do seu povo, pedem aos suspeitos que pisem uma imagem de madeira com a representação de Cristo ou de uma cena cristã. Não o fazer significa uma morte atroz para os cristãos: escaldados com água a ferver, queimados vivos, afogados. Uma verdadeira reprodução do que significava ser cristão nos primeiros séculos depois de Cristo, os dias dos apóstolos e dos mártires. Pelo menos é assim que a fé ardente dos jovens padres encara a provação que os espera, como se fossem eles próprios uma espécie de apóstolos, em que o martírio é a maior “honra” concedida a um missionário.
Isto é na ingenuidade inicial, mas após verem a realidade das mortes e das torturas dos pobres pescadores que os tinham acolhido, os dois padres começam a vacilar. “Eles querem que a gente pise”, queixavam-se os pescadores, voltados para os padres como se esperassem deles a absolvição pelo que tinham de fazer. “Pisem! Pisem!”, diz-lhes Rodrigues, o primeiro a adoptar o pragmatismo, mas Garupe contradiz: “Que dizes? Não podem!”
Mais tarde Rodrigues e Garupe são separados, e quando Rodrigues o torna a encontrar (embora nunca cheguem a ter oportunidade de falar) tudo leva a crer que Garupe se tornou um pragmático também.
Este filme está carregado de cenas de tortura muito perturbadoras e é necessária preparação mental para o ver. Mesmo assim, a câmara mantém sempre uma certa distância do que está a acontecer, como se Scorcese nos estivesse a dizer que o importante não é a brutalidade e a repressão, o importante vem depois.
Depois de ver tanta crueldade, o padre Rodrigues começa a ter dúvidas. Deus, que devia amar os seus fiéis, não responde aos seus gritos de agonia. Tudo é silêncio. Será que Deus se importa? Será que Deus sequer existe? Nada responde ao padre Rodrigues senão mais gritos, seguidos do silêncio ensurdecedor de Deus.
“Silêncio” é um filme que levanta mais perguntas do que respostas. Da mesma maneira que os cristãos acreditam sinceramente que o Cristianismo é o único caminho para a salvação, também as autoridades japonesas acreditam que deixar propagar uma religião tão intransigente é uma ameaça à estabilidade social do país. Se há uma maneira aconselhável de ver este filme, eu diria que não é pelo prisma dos japoneses malvados que matam cristãos, mas pelos resultados da intolerância de parte a parte. Rodrigues acaba por perceber que o mundo não é tão a preto e branco como a fé o fazia crer, que é nas zonas cinzentas que o homem mais se confronta com Deus e com a sua própria natureza.
Não tenho nada de negativo a dizer sobre este filme, mas fiquei surpreendida que a identidade portuguesa dos protagonistas não tivesse sido mais explorada. Não que seja o importante, e é por isso que não é exactamente uma crítica, apenas uma observação. Nunca vemos nada que identifique Rodrigues e Garupe (e Ferreira) como portugueses, apesar de o serem. Podiam ter sido espanhóis ou italianos que não tinha relevância nenhuma. Os únicos vestígios de português que aparecem no filme estão na linguagem dos nativos, que adoptaram palavras portuguesas para expressar a fé cristã, como “paraíso” (mal pronunciado) e Deus-u. Gostaria de ter visto isto muito mais explorado, até porque nos interessa.
Por exemplo, porque é que os jesuítas portugueses parecem tão chocados com as torturas japonesas? Acaso nunca tinham visto um Auto de Fé da Inquisição? Não deviam já estar habituados ao horror? Ou, para eles, se fossem heréticos a sofrer não fazia mal nenhum, porque o fogo até lhes poupava as penas no Inferno? Isto nunca é abordado, mas basta ir às caixas de comentários das críticas a “Silêncio” para se perceber que filmes destes ainda fazem todo o sentido. É tanto o ódio, hoje no século XXI, entre ateus e cristãos fundamentalistas, que só falta mesmo acenderem as fogueiras.
Quanto a algumas críticas de que o filme é demasiado longo (e é um filme comprido), só tenho isto a dizer: por mim, via três temporadas desta história. Houve ali muitos personagens que não puderam ser mais desenvolvidos, muitos aspectos culturais a aprofundar, muita política a explicar. Era bem caso para fazerem uma série onde tudo isto pudesse ser detalhado, incluindo a identidade portuguesa dos protagonistas.


20 em 20

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O Céu e o Inferno, de Allan Kardec


“O Céu e o Inferno” é o quarto livro de Allan Kardec na explanação da doutrina Espírita, seguindo “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
[Aproveito para fazer desde já o disclaimer do costume: não conheço nem jamais tive contacto com a religião Espírita dos nossos dias, pelo que não posso ter qualquer opinião sobre esta. Este artigo (tal como os anteriores) debruça-se unicamente sobre os livros e a doutrina neles apresentada sob um ponto de vista filosófico moderno.]
Allan Kardec era um homem de intelecto brilhante e um escritor talentoso. Neste livro, é um verdadeiro prazer como ele prova por A mais B (teologicamente) o absurdo que é o Inferno de fogo onde as almas ardem sem se consumir. Eu até consegui rir-me.
Mas depois Kardec sai-se com esta:
Sem nos remontarmos aos tempos primitivos, olhemos em torno a gente do campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela despertam o esplendor do Sol nascente, do firmamento a estrelada abóbada, o trino dos pássaros, o murmúrio das ondas claras, o vergel florido dos prados. Para essa gente o Sol nasce por hábito, e uma vez que desprende o necessário calor para sazonar as searas, não tanto que as creste, está realizado tudo o que ela almejava; olha o céu para saber se bom ou mau tempo sobrevirá; que cantem ou não as aves, tanto se lhe dá, desde que não desbastem da seara os grãos; prefere às melodias do rouxinol, o cacarejar da galinhada e o grunhido dos porcos; o que deseja dos regatos cristalinos, ou lodosos, é que não sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou sem Flores.
Ò Kardec, ias tão bem! Então o homem do campo é um bruto sem sensibilidade artística que não sabe apreciar o canto das aves, a beleza do nascer do sol, o suave burburinho dos regatos? Nunca ouviste, ò Kardec, as músicas e os poemas da gente do campo, mesmo analfabeta, passados oralmente de geração em geração?
Só por causa disso, ficas já condenado a uma vida no campo para corrigires esse snobismo que só te fica mal. E como a vida no campo até é bem pacata e saudável, de certeza que até vais gostar e não te condeno a nada de desagradável. (Muito boa gente paga férias em quintas, a tratar da galinhada, para descontrair do stress da cidade.)
Mas encontramos este snobismo de classe alta parisiense do século XIX muitas vezes ao longo do livro, uma marca inequívoca da época. Um dos Espíritos que se comunica com a sociedade de Paris, depois de exortar à caridade, diz mesmo algo assim: “abstende-vos de vícios e de luxos no vosso trajar, cingindo-vos ao necessário à vossa posição…” Isto é, quem tem posição social pode gastar mais um bocadinho em roupa, a caridade que se lixe, para não fazer má figura na “boa” sociedade. Já o pobre, que não tem “posição” a manter, pode andar todo esfarrapado que não faz mal. Ó Espírito, Espírito, olha nem sei que te dizer. Há muito bom Espírito aqui encarnado que também acha que a caridadezinha o há-de salvar, com conta peso e medida, que uma pessoa de posição não pode andar por aí de ténis chineses e sem roupa de marca.
Enfim, fica o reparo, e avancemos. O Espiritismo não aceita a ideia de um inferno de fogo (Kardec prova a sua impossibilidade) nem de um Céu de eterna contemplação com anjinhos a tocar harpa.
Sobre o inferno, Kardec diz algo que a minha mãe sempre disse também: “naquele tempo os homens eram tão maus que tinham de ser assustados com o inferno para não fazerem tantas maldades”. É o que Kardec diz, que numa fase anterior de progresso Deus permitiu que as ideias do inferno de fogo se mantivessem porque os homens ainda não tinham capacidade de compreender conceitos mais abstractos.
Segundo Kardec, o Purgatório é aqui na Terra. Permito-me discordar. Isto aqui é mais do que o Purgatório; é o Inferno mesmo. Mas Kardec não viu. Sempre houve horrores, em todas as épocas, mas Kardec não viu as duas guerras mundiais. Não viu os campos de extermínio. Não viu Hiroxima e Nagasaki. Não viu o Vietname e o Cambodja. Não viu a Síria e o Estado Islâmico. Não viu os glaciares a derreter, os fogos na Austrália. Estes sim, verdadeiros infernos, de fogo e tudo.
Depois de ler já bastantes livros de Kardec, confesso que gostaria imenso de ter com ele uma conversa pós-isto-tudo e pós-existencialismo. Os acontecimentos do século XX fizeram muita gente voltar as costas a Deus de forma irreversível. Tenho percebido, dos livros, que Kardec estava convencido de que o Espiritismo ia tornar-se uma doutrina de massas. Não tornou, mas por outro lado nunca antes a ideia da reencarnação (e do karma, por via oriental) foi tão generalizada. O que eu dava para saber a opinião de Kardec sobre isto também. E quem sabe, se a teoria de Kardec é verdadeira, um dia ainda teremos essa conversa.
Em suma, no Espiritismo não existe o inferno de fogo mas existem expiações, no mundo material e no mundo espiritual, consoante as más obras do Espírito, algumas tão difíceis que nada devem às do inferno clássico. Os Espíritos mais aperfeiçoados não vão para um Céu de contemplação e de inércia, antes têm missões e ocupações na manutenção do universo.
Explicados os pontos doutrinais, chegamos à parte mais interessante do livro (direi mesmo de todos os livros de Kardec) que são as comunicações dos Espíritos. Algumas delas davam romances. Uns dizem-se felizes, outros estão em sofrimentos vários, outros estão assim-assim. Mas o que mais me interessa é a condição dos suicidas. O Espiritismo não podia ser mais severo para com eles, quase como se fosse o maior pecado que uma pessoa possa cometer. Se eu fosse de censurar livros, toda esta secção sobre o suicídio podia bem ser extirpada porque se chega às mãos de uma pessoa deprimida ainda lhe inspira o suicídio mais depressa. Temos de entender esta parte à luz da época, antes da Psicologia. O suicida é o mais severamente censurado porque perdeu a esperança, porque não acreditou na Bondade de Deus. É mais censurado, acredite-se, do que o ateu que não acredita sequer em Deus. Porque acreditar em Deus e perder a esperança na sua Bondade é considerada a afronta mais grave ao Altíssimo. (A eutanásia, mesmo em casos de grande sofrimento, é igualmente condenada porque o sofrimento é considerado uma prova a suportar com resignação para que o Espírito consiga expiar faltas passadas e progredir.)
Ora bem, sendo assim, e como já sei que me está reservado um “lugarzinho” no abismo e nas trevas e no isolamento, vou aproveitar para falar agora enquanto me deixam. Se eu acreditasse em Deus à luz desta e de outras doutrinas semelhantes (a católica incluída), também acharia que Deus é um grande sádico. Vejamos, Deus cria uma alma imperfeita já no intuito de a submeter a diversas e dolorosas provações para que esta se aperfeiçoe e atinja a perfeição, sem lhe dar hipótese de abandonar o “jogo”. Enquanto Ele, Deus, assiste. Oh, sim, Deus dá o livre-arbítrio ao homem de se aperfeiçoar ou não. O homem tem toda a liberdade… para fazer o que Ele quer. Se não fizer, leva na cabeça até aprender que Deus é Bom e se submeter à sua Bondade. Malta que não acha que Deus é Bom, malta que acha que Deus não existe ou que não precisa Dele, para o abismo das trevas com eles, que é uma espécie de solitária com privação sensorial. Não, estas ideias de Deus já não fazem sentido nos dias de hoje. Hoje, o homem exige escolher uma determinada via porque a deseja (mesmo que seja a via do Bem) e não admite a imposição de Deus. Pode, inclusive, desejar seguir a via do Bem sem aceitar qualquer deus, cristão ou outro.
A Justiça de Deus é muito bonita quando falha a dos homens, mas nada disto resolve a questão de fundo, que é a de um Criador originar criaturas imperfeitas para as submeter a provas e castigos (com ou sem o conceito do Pecado Original e da Queda, que ao fim de contas vai dar ao mesmo argumento). Nem explica como é que um Deus de Bondade cria um mundo em que tudo o que vive tem de se alimentar de tudo o que vive para sobreviver. Quem é que achou que isto era uma boa ideia? Que mal fizeram os bichinhos para serem comidos vivos, para por sua vez alimentar outros bichinhos? Que Mal fizeram eles a Deus? Outra pergunta que os Espíritas do século XIX não acharam relevante. Como se dizia acima, “os homens eram tão maus, etc”. Os do século XIX ainda tinham muito caminho a percorrer também.
Por outro lado, na altura não se conhecia o que se conhece agora sobre psicopatas sem empatia, e eu adoraria ouvir o que é que os Espíritos “modernos” têm a dizer a isto.
Quanto ao Céu, nesta doutrina, ou melhor, a progressão de um Espírito a um ponto em que já não é obrigado a encarnar, também tenho algumas dúvidas. Este estado só seria atingido quando o Espírito está depurado de todas as imperfeições. Ora, não sendo imperfeito pode ter ganhado qualidades, mas perdeu as imperfeições inerentes à natureza humana. E de facto a doutrina classifica estes Espíritos mais como na categoria dos anjos (ou quase, conforme o depuramento), o que implica o fim da sua humanidade e o começo de uma nova forma de existência. Onde é que fica a individualidade nisto tudo? O que é o Espírito depois de ser humano quando já não o é? Tem ainda livre-arbítrio, na prática, ou só consegue fazer o Bem? E perdendo todas as imperfeições, tem ainda a capacidade de escolher o Mal? E se ainda tem capacidade (livre-arbítrio) para o Mal, poderá mesmo considerar-se perfeito em virtude? É que não é simples.
O Céu segundo o Espiritismo é muito mais apelativo do que o clássico, beatitude e contemplação eternas que, convenhamos, seria uma seca. Tal como existem diversos níveis de expiação, também existem vários níveis de Além “menos mau” onde se agregam os Espíritos em semelhantes fases de progresso. E todos me suscitam dúvidas. Não sei, não sei mesmo, se quero passar a eternidade rodeada de pessoas. Já dizia o outro, “o Inferno são os outros”, e a ideia de sair daqui para continuar rodeada de pessoas, que só servem para me provocar cólicas e cabelos brancos, subitamente faz-me achar o tal “lugarzinho” um local mais agradável. Porque também já dizia o outro, “antes o Inferno contigo do que o Céu sem ti”. O que eu quero mesmo, e muitas outras pessoas também, Deus está farto de saber. Nos dias em que este livro foi escrito isso nem era considerado uma possibilidade. Mas eu confio que as coisas mudaram, e agora que ninguém me venha acusar de falta de Fé e de duvidar da Bondade de Deus.
Mas há dias, confesso, em que desejo que os ateus tenham razão e não haja nada depois da morte, nem Céu, nem Inferno, nem reencarnações. Só o desligar do cérebro e o fim. Eu dou-me bem com esta ideia, mas há quem não a suporte (especialmente se a vida é madrasta) e qualquer religião que forneça esperança é melhor do que a falta dela.

“O Céu e o Inferno” de Allan Kardec, para além de documento histórico valioso, oferece motivos de reflexão às pessoas sem ideias dogmáticas que se interessam por estas coisas da espiritualidade. Às outras, não dirá nada.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Risen / Ressureição (2016)

 

Clavius é um tribuno do exército romano incumbido por Pôncio Pilatos de provar que o corpo de Jesus foi roubado pelos discípulos.
Ao contrário de outros “filmes pascais” do mesmo género, este filme surpreendeu-me e penso que é capaz de agradar até ao ateu que nunca vê este tipo de coisas.
O filme começa com a legenda “Deserto da Judeia, 33 DC”, não nos revelando em que parte dos acontecimentos é que estamos. Logo de seguida, num flashback, Clavius e os soldados romanos lutam contra um grupo de insurgentes liderados por Barrabás. Aqui podemos pensar que foi Clavius quem prendeu Barrabás para o levar à cena bíblica em que Pilatos lava as mãos, mas em vez disso Barrabás morre na escaramuça. É Clavius quem o mata. E esta é uma maneira muito inteligente de o filme nos informar de que Cristo já foi crucificado.
Clavius é imediatamente chamado por Pilatos devido à situação em Jerusalém. Pilatos é um homem com o cargo em perigo. O imperador Tibério está para chegar em questão de dias e Pilatos não pode dar-se ao luxo de deixar transparecer que as rebeliões judaicas não estão completamente controladas. Os seguidores de Jesus, na perspectiva dos romanos, são uma facção de insurgentes e é fulcral que o corpo do seu líder não desapareça do túmulo, alimentado a profecia de que Jesus ressuscitaria. Quando o corpo desaparece mesmo, apesar das medidas de segurança reforçadas, Clavius começa a investigar quem o roubou.
Clavius investiga com a competência e o método de um verdadeiro detective dos nossos dias. Examinando cadáveres, seguindo pistas, pagando a informadores. Toda esta parte parece tanto um policial que quase nos esquecemos de que é um filme de inspiração bíblica. Mas num bom sentido, original e cheio de suspense. Clavius é tão bom detective que não só consegue descobrir a sala onde os onze apóstolos estão todos reunidos, como até encontra o que nunca lhe passou pela cabeça encontrar: o próprio Jesus ressuscitado. Tal como o apóstolo Tomé, que entra na sala e diz a Jesus que não acreditava se não visse, Clavius viu e agora tem de acreditar.
Este aspecto da ressurreição de Jesus, em que ele é visto pelos apóstolos em carne e osso, não é controverso por acaso. O filme trata-o com a maior naturalidade, sem grande misticismo para lá do implícito. Clavius é convidado a acreditar mas o filme acaba sem que se tenha decidido. O que fará depois fica em aberto. Não é costume um filme tipicamente pascal ser tão moderno sem deixar de respeitar a narração bíblica.

Nota pessoal: foi uma surpresa reconhecer a cara de Cliff Curtis (o Travis Manawa de ”Fear the Walking Dead”) no Cristo crucificado e ressuscitado. Agora vou ficar com umas associações estranhas na cabeça.

Dentro do género de filme de inspiração bíblica,

16 em 20


segunda-feira, 9 de julho de 2018

O Livro dos Médiuns / O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec


Como diz o próprio Allan Kardec, "O Livro dos Médiuns" foi publicado como sequência a "O Livro dos Espíritos". Se "O Livro dos Espíritos" expõe a doutrina, "O Livro dos Médiuns" dá largos passos no sentido de estabelecer o espiritismo como religião, com tudo de formal que isso acarreta.
Não haja dúvidas, este é um livro religioso. Tal como "O Evangelho Segundo o Espiritismo", também de Allan Kardec, interessará a quem deseje aprofundar os conceitos espiritualistas do que se convencionou chamar Espiritismo. Não aconselho "O Evangelho Segundo o Espiritismo" a quem não se interesse por religião (e pelo cristianismo em particular) ou a quem tenha ideias religiosas dogmáticas. Aos outros, apresentará perspectivas interessantes.
Quanto ao "Livro dos Médiuns", centra-se sobretudo na comunicação com os espíritos e será de pouca relevância para quem não conhece a doutrina.



sábado, 15 de abril de 2017

A Cabana/The Shack, de WM. Paul Young


Cheguei a este livro pela curiosidade que me causou a sinopse, prova de que uma boa capa e uma boa sinopse podem prometer mais do que vem na embalagem. Parece que este livro é um best seller, e nem todos os leitores vão enganados como eu.
O começo até é interessante. Um homem, cuja filha de seis anos é barbaramente assassinada por um serial killer, recebe um bilhete (aparentemente) de Deus a marcar um encontro na cabana onde as roupas ensanguentadas da menina foram encontradas.
Toda a parte do romance que relata a viagem de férias em que a menina foi raptada é intensa e envolvente. Conseguimos compreender muito bem a angústia daquele pai que perde a filha (talvez a preferida), e aqui o romance assemelha-se ao policial. Da mesma forma, identificamo-nos com o desgosto, o luto e a culpa dos meses posteriores, em que Mackenzie, o pai, mergulha em profunda depressão.
Um dia, Mackenzie encontra um bilhete dactilografado na caixa do correio, supostamente de Deus, a convidá-lo para o tal encontro na cabana de montanha onde a sua filha foi assassinada. Mackenzie pensa que o bilhete pode ter três origens: uma brincadeira de mau gosto, um desafio do próprio assassino, ou uma autêntica mensagem divina. Todavia, Mackenzie decide ir ao encontro, e ir armado. Todo este enredo é de um suspense irresistível.
Não é todos os dias que se recebe um bilhete de Deus. A questão é, e ELE aparece?



***CONTÉM SPOILERS***

E a Justiça, Senhor?
Eu nunca tinha ouvido falar de "ficção cristã", mas agora que ouvi vou fugir dela como o Diabo da cruz. Não porque eu seja o Diabo, mas porque, a avaliar por este exemplo, é uma literatura muito má, tendenciosa e acrítica. O que me parecia uma boa premissa, o encontro entre Deus e um pai enraivecido e revoltado, perde-se num instante assim que Deus aparece. Sim, Deus aparece ao encontro! Li algumas críticas ao livro, que não conseguiram passar desta parte: a manifestação física de Deus. Que Deus não é assim, que não é assado. Eu quero lá saber como é que Deus se manifesta fisicamente, eu queria era saber o que Ele ia dizer àquele pai!
Ficção cristã ou não cristã, quando um autor se mete na aventura de falar por Deus, das duas uma: ou é brilhante, ou se espalha ao comprido. WM. Paul Young espalhou-se ao comprido. Assim que Deus aparece, acontece um efeito sedativo em Mackenzie, a quem, de repente, já não apetece estrangular Deus pela injustiça e crueldade que Este permitiu que acontecesse à sua filha. Fica grato, fica contente, fica eufórico de alegria. O que até faria sentido se Deus (este Deus de WM. Paul Young) conseguisse explicar a velha questão que atormenta toda a gente que pensa nestas coisas: porque é que um Deus de amor permite que o Mal aconteça? Este Deus de “A Cabana” é efectivamente um Deus de Amor, que proclama o afecto e prega o perdão. Mas então e a Justiça?
O resto do livro, que me recusei a abandonar, não passa de uma fantasia mística de um homem que parece estar numa trip de ácidos a ver Jesus, o Espírito Santo, uma rave de auras iridescentes das almas já partidas e um coro de anjos. Mackenzie, o homem revoltado em quem eu tinha posto tantas expectativas de conseguir colocar a Deus as perguntas difíceis, parece que fica pedrado no êxtase divino. Só porque Deus diz: “Eu gosto de ti”.
Ah sim? E Missy? A menina assassinada? Que justiça existe para Missy? Mas não faz mal, diz “Deus”, porque agora Missy está no Céu, com Jesus, e não podia estar melhor. Ah sim? Não podia estar melhor? Então o que é que andamos cá a fazer? Eu também quero ir para Jesus! Vamos todos suicidar-nos para irmos para Jesus mais depressa! E não se preocupem, se “Deus” perdoa o homem que matou uma menina de seis anos (e sabe-se lá que mais lhe fez) também perdoa um suicídiozinho.
Fiquei doente e deprimida durante uma boa semana depois de ler este livro. Não aconselho este livro a ninguém, especialmente a pessoas inteligentes. Faz mal ao cérebro e faz mal à alma.

O livro que recomendo, embora às vezes se perca em explicações pseudo-científicas que não faziam lá falta nenhuma, é “Conversations with God”, de Neale Donald Walsch (sim, os três volumes!). Não finge que é um romance, faz pensar, apresenta respostas lógicas, abre-nos a mente para outras perspectivas, e, acima de tudo, põe-nos um sorriso nos lábios.




terça-feira, 20 de janeiro de 2015

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobrenatural ("Supernatural")



Quando comecei a ver a série “Sobrenatural” (original “Supernatural”), há mais anos de que me lembro e ainda na RTP2 (que aparentemente já não tem dinheiro para comprar o resto), os primeiros episódios levaram-me a crer que ia ser uma série dramática. Dois irmãos são atormentados por uma tragédia de infância, quando perdem a mãe, queimada viva, no tecto, por um demónio. Filhos de um caçador de monstros, dos dois irmãos apenas Dean (Jensen Ackles) aceita continuar a tradição de família. O irmão mais novo, Sam (Jared Padalecki), rejeita-a, e tenta escapar-lhe, sem sucesso, pois também a sua namorada encontra o mesmo destino que vitimara a sua mãe, às mãos do mesmo demónio, que os persegue. Os dois irmãos reúnem-se no esforço de o derrotar.
Dean idolatra o pai. Sam ressente-se da vida de caçador que nunca lhe permitiu uma infância normal. O conflito acerca do pai, já desaparecido, confirmava a interacção dramática entre os dois irmãos.
Devo ter sido das pessoas mais desgostadas ao perceber que rapidamente a série seguiu o caminho mais fácil: dois energúmenos a caçar monstros. Até com os personagens fiquei decepcionada. A princípio, Sam era o inteligente, o rapaz universitário, e Dean era o bronco. Com o desenvolver das temporadas, Sam torna-se quase tão bronco como o irmão… e Dean continua bronco. Em suma, ficam iguais. As companhias também não são melhores, a um ponto que gera inverosimilhança: os caçadores que aparecem em “Sobrenatural” não têm uma educação formal (o único que frequenta a universidade até é Sam), mas um homem vulgar como Bobby (Jim Beaver), dono de um ferro velho e recrutado para a profissão já em idade adulta, mostra-se subitamente versado em latim e outras linguagens e códigos obscuros! Possui mesmo uma biblioteca de fazer inveja a qualquer mestre do oculto. Como se diz na série, “seriously?”…
Continuei sempre a ver, pela vertente do entretenimento acéfalo, e pelos monstros. Duas ou três temporadas disto. Só pela quarta temporada é que as coisas começam a aquecer. Não sei se finalmente deram rédea solta aos autores, ou se a série se encontrava em sério risco de ser cancelada por se encontrar esgotada a fórmula e não havia alternativa senão arriscar por caminhos mais ousados.


Temporada cinco: supremo apocalipse

Ainda bem que o fizeram, porque é aqui que o enredo se adensa. Esta é a insuperável quinta temporada, alucinante, vertiginosa, escatológica, que abre literalmente as portas do Inferno! Os dois irmãos, durante este tempo todo, nem desconfiavam da sua importância. Sam, em pequeno, bebeu sangue do demónio Azazel, porque Sam está “marcado”. Sam e Dean estão destinados a desempenhar um papel cósmico: são eles que, querendo ou não, vão despoletar o Apocalipse.
Se os irmãos Winchester estão habituados a lidar com demónios, que são maus, agora começam também a lidar também com anjos, que não são melhores e querem cumprir as profecias bíblicas ao pormenor. Lúcifer e Miguel (o arcanjo) vão literalmente defrontar-se no Armagedão, usando por receptáculos os corpos de Sam e Dean, para o que estes têm de dar o seu consentimento. (Lúcifer, em "Sobrenatural", ao contrário da crença geral, sendo um anjo, não pode possuir um corpo sem consentimento do ocupante.) Sam e Dean têm de consentir (nem que seja à força) e os anjos têm as suas sinistras maneiras de os “convencer”. Serafins, querubins, assediam-nos. Lúcifer, liberto do Inferno, assedia-os. Não existe alternativa senão travar o Apocalipse e mandar Lúcifer de volta para o Inferno.
Os irmãos têm a ajuda do confuso anjo Castiel (Misha Collins)… Que merece mais algumas palavras. Não me recordo exactamente de quando Castiel entra na série mas julgo que terá sido ainda na temporada anterior (a quarta), tentando convencer Sam e Dean a impedirem os eventos conducentes à libertação de Lúcifer. O que acaba por acontecer, involuntariamente, pois a informação que os irmãos detêm está errada e são manipulados a quebrar o último selo antes do Apocalipse. Castiel é apenas um anjo, fervoroso, fiel, que desconhece o livre arbítrio mas sofre de dilemas existenciais. Acontece que Deus se ausentou do Céu, ninguém sabe onde Ele pára, e ninguém sabe o que fazer excepto continuar com o plano bíblico. Castiel começa a agir pela sua própria cabeça, pela primeira vez, e ao ajudar os dois irmãos torna-se alvo da ira dos seus superiores, serafins e querubins. Castiel, apenas “um anjo do senhor” não passa de um zé-ninguém na hierarquia celestial. Podia ter sido imediatamente fulminado, se lhe prestassem atenção, mas subestimam-no, como subestimam aos irmãos Winchester. Grande erro! E se trabalham em equipa, erro colossal! Não é por nada que na temporada seguinte o demónio Crowley pergunta retoricamente “mas serei o único que não subestima aqueles dois pesadelos vestidos de ganga?!” Crowley sabe bem do que a casa gasta.


Crowley, o detestável/adorável demónio



É exactamente o demónio Crowley (uma impagável interpretação de Mark Sheppard) quem se torna um inesperado aliado dos irmãos Winchester na sua tentativa de derrotar Lúcifer. O demónio Crowley, igualmente um zé-ninguém da hierarquia infernal, um diabeco cuja ocupação é estabelecer pactos em encruzilhadas, com um beijo na boca (homem ou mulher, o beijo é o mesmo, aliás, um dos atractivos da série é perceber qual é exactamente a inclinação sexual de Crowley, nada fácil de detectar!), descobre que a intenção do big boss (Lúcifer), ao ser libertado, é destruir todos os demónios criados desde o seu aprisionamento, que este abomina visceralmente. (Lúcifer, em “Sobrenatural”, não é um diabo de pés de cabra, mas o anjo, caído e condenado ao Inferno; condenado ao inferno,  mas um anjo ainda assim). Crowley, sem nunca fazer parte da “equipa”, não deixa de ser um elemento essencial, porque nada mais lhe importa do que meter Lúcifer de volta no buraco. Neste momento de tudo por tudo, os irmãos Winchester, anjos e demónios são aliados.
É desta forma que Sam e Dean, antes limitados ao obscuro conhecimento enciclopédico e buscas online e ao armamento improvisado de balas de ferro e de sal, começam a receber informação e ajuda sobrenatural do Céu e do Inferno. Com tais personagens, a série tinha de se tornar transcendente.
É nesta temporada que acontece o único episódio que causa arrepios. Lúcifer, liberto do Inferno, precisa de um receptáculo. Encontra-o num homem amargurado que tinha perdido a mulher e o filho bebé num assalto. Sitiando a sua presa, com visões fantasmagóricas e sonhos (o que consiste, na concepção medieval, na obsessão que precede a possessão) Lúcifer alimenta-lhe a raiva e o desespero até obter o seu consentimento para lhe possuir o corpo, prometendo vingança. Um grande papel de Mark Pellegrino (que já tinha sido o Jacob de “Lost”) e momentos dignos de um filme de terror. Seriously!
A partir daqui, Lúcifer começa a perseguir o seu verdadeiro receptáculo, Sam, que vai defrontar Dean, possuído pelo arcanjo Miguel, na batalha do Armagedão. Nenhum dos irmãos quer ouvir falar em tal coisa! Descobrem que o feitiço para reabrir a jaula de Lúcifer (que involuntariamente tinham aberto), passa por recolher os quatro anéis dos quatro cavaleiros do Apocalipse: a Guerra, a Pestilência, a Fome, e a Morte. Vivem-se os tempos do fim e os quatro cavaleiros já andam no mundo. Sam e Dean procuram-nos e acabam por encontrá-los. Todas as prestações dos actores convidados que interpretam os Cavaleiros são formidáveis, mas é impossível não salientar uma.
Um dos melhores episódios de “Sobrenatural”, senão um dos melhores episódios de todas as séries de sempre, a lembrar o “filme sério”, é aquele em que Dean se encontra com a Morte numa pizzaria.


Dean encontra a Morte numa pizzaria


A Morte, um tipo alto, de sobretudo preto, de aspecto sinistro mas indistinto entre um agente funerário, um chefe da Máfia ou um caixeiro viajante, mas um fulano civilizado e inteligente, tem com Dean uma soberba conversa filosófica, enquanto come pizza, em que afirma: “Tudo começa e tudo acaba, menos eu. Um dia, Deus, também, será ceifado”. Ora, porque é que isto (e muitas outras blasfémias que aparecem na temporada cinco) não ocasionou uma verdadeira onda de fanatismo dos “jesus lovers” a exigir que "Sobrenatural" fosse tirado do ar? Muito simples. Porque "Sobrenatural" tem dois tipos de fãs: os que não percebem, e os que não se interessam.
Da mesma forma, Deus também aparece na quinta temporada, como personagem, muito disfarçadamente, mas não vou dizer mais do que isto. Deixo apenas a mesma pista oferecida pelo jardineiro do Céu a Sam e Dean, quando Dean e Sam morrem e vão para o Céu (mas voltam), de que Deus está na Terra. Ele está lá, é uma questão de o procurar.
(Este é também um dos melhores episódios da série, numa sequência de muitos. Sam e Dean, no Céu, a fugir, a pé, de anjos! E conseguem! Com a ajuda do jardineiro, o único que ainda está em contacto com o Patrão. Existe aqui também uma leitura política, para além da leitura religiosa ortodoxa: Deus já não fala com a arrogante hierarquia do Céu, mas fala com o mais pequenino, o jardineiro; da mesma forma, Deus intervém ao ajudar os pobres de espírito, Sam e Dean. Deus abandona os grandes mas protege os fracos. Nada disto é acéfalo e a mensagem está lá, quer se queira acreditar que é religiosa ou apenas política, para quem a quiser entender.)
“Sobrenatural” é por isso uma série com muitos níveis de interpretação: uma série de acção com monstros, uma série de acção com humor, uma série de acção com humor muito inteligente, político e actual (mas já não atingido pela maioria), uma série de acção com humor e questões filosóficas (ainda menos atingida apesar da simplicidade da abordagem).
Não sem sacrifício, Sam e Dean derrotam Lúcifer, os anjos todos, serafins e querubins e arcanjos, anulam as profecias bíblicas, e impedem o Apocalipse!


Temporada seis: a desbunda continua

Quando terminou a temporada cinco, fiquei perfeitamente convencida de que era o fim da série. Foi de facto uma grande surpresa quando descobri uma temporada seis. E tive medo. Tive muito medo que após uma temporada tão espectacular não fosse possível fazer melhor e que talvez não fosse boa ideia continuar. Comecei a ver na expectativa de que ia ficar desiludida.
Não fiquei desiludida. Antes pelo contrário! Ainda estou de boca aberta pelo nível de qualidade que foi mantido! Depois da temporada cinco (soberba) os autores sabiam que já podiam fazer tudo o que lhes apetecesse. Já não havia nada a provar. A temporada seis continua a abordagem da guerra no Céu, o anjo Castiel toma algumas más decisões, o demónio Crowley é mais engraçado do que nunca (uma das personagens mais marcantes da série que perderia muito se ele desaparecesse), e o resto é uma grande desbunda que me fez rir algumas vezes.


Castiel, promovido a manda-chuva do Céu, estabelece um acordo com o novo rei do Inferno, Crowley. Não acaba bem.


Saliento o episódio 15, em que Sam e Dean são transportados para uma realidade alternativa… que é a nossa, em que a vida deles é uma série de televisão. Hilariante! Confesso que adoro todo este tipo de interacção surreal entre personagens reais e fictícias. Para não variar, os fãs da série dividiram-se. Muitos adoraram, muitos detestaram. (Como eu dizia acima, não é para todos.) A vertente filosófica gira agora em torno das almas. Diz um anjo, inimigo de Castiel (não esquecer a guerra pós-apocalíptica no Céu) que os persegue até esta realidade, a um aterrorizado Misha Collins a fazer o papel de si próprio: “Como é que suportam viver aqui, sem Deus, sem alma, sem nada superior a vós? Matar-te é um favor que te faço!”, e mata mesmo. E não deixa de ter razão.

Misha Collins interpreta o actor Misha Collins nos bastidores da série "Sobrenatural" de uma realidade alternativa em que Misha Collins interpreta o anjo Castiel


Sam regressa do inferno mas regressa sem alma. É curiosa a interpretação filosófica com que é definida a alma, porque não o torna falho de consciência, antes o transforma em algo mais semelhante a um robot para quem os fins justificam os meios, não para seu proveito pessoal mas porque está “programado” para caçar monstros nem que tenha de matar os inocentes que se metam à frente… Falta-lhe a compaixão, mas não é por motivos egoístas que age (como um sociopata); é o “exterminador implacável” que tem uma missão a executar sem sentimentos a inibi-lo. Interessante definição de alma, à parte as controvérsias.
“Sobrenatural” tornou-se uma das minhas séries preferidas. Sei sempre que vou passar um bom bocado, cheio de humor inteligente que me diverte e de questões filosóficas que me fazem pensar. Lamento que a genialidade de “Sobrenatural” não seja reconhecida e que a série seja encarada apenas pela vertente do entretenimento pouco sério: fazer uma série aparentemente tão simples, tão fácil de absorver, e ao mesmo tempo tão profunda, não é trabalho fácil nem para todos.
Manter a qualidade, após a suprema temporada cinco, ainda menos. Posso apenas desejar que a série, que vai já na temporada oito, saiba não esgotar as ideias e terminar no momento certo, nem antes nem depois. Enquanto isso, vou ser fã. Seriously!




domingo, 24 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Conclusão

Quando comecei a fazer esta série de comentários não contava escrever uma conclusão. Mas o “O Livro dos Espíritos” é uma obra religiosa e merece alguns reparos finais.

Se alguma coisa do que aqui disse ofendeu ou melindrou ou desgostou qualquer espírita praticante (que tenha aqui chegado, por exemplo, através de uma busca qualquer), nunca foi essa a intenção. Os meus comentários inscrevem-se no estilo do blog, sempre crítico e sempre sarcástico e sem papas na língua, mas respeito todas as religiões que pugnem pelo Bem, independentemente das minhas opiniões pessoais.
Simpatizo com o Espiritismo, e penso mesmo ler mais obras da doutrina, mas não é caminho para mim. Se por agora ou para sempre, não sei.

Se alguma coisa do que disse ofendeu algum Espírito (ainda desencarnado ou já reincarnado), bem, vamos ter muito tempo de resolver essas diferenças, um dia mais tarde, certo?

Se alguma coisa do que disse ofendeu Deus... Então ninguém tem nada a ver com isso. É entre mim e Ele.


Gostei, confesso, destas conversas com Espíritos que as ditaram algures antes de 1857, e das discrepâncias e das semelhanças de ideias entre nós apesar de mais de um século nos separar. Toda esta serie de posts foi previamente agendada, pelo que não sei, no momento em que escrevo, se mais pessoas se juntaram às conversas. Por acaso teria apreciado que a série de posts tivesse suscitado comentários. Quando chegarmos a este momento, no futuro, se verá.
Algo está muito mal quando as conversas mias interessantes que alguém consegue ter é consigo mesmo. Era bom que mais alguém as apreciasse.

É tudo.
Que a leitura de “O Livro dos Espíritos” faça os seus leitores pensarem, e meditarem, e concluírem.





quarta-feira, 20 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Morte

O tema é a morte. Vou deixar falar os mortos.

Capítulo “Lei da destruição”


Uma vez que a morte deve nos conduzir a uma vida melhor, que nos livra dos males desta, e, por isso, mais deveria ser desejada do que temida, porque o homem tem um horror instintivo que o faz temê-la? [pergunta]
– Já dissemos, o homem deve procurar prolongar a vida para cumprir sua tarefa; eis porque Deus lhe deu o instinto de conservação, que o sustenta nas provas; sem isso, muitas vezes se deixaria levar pelo desencorajamento. A voz secreta que o faz temer a morte lhe diz que ainda pode fazer alguma coisa para o seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça, é uma advertência para que aproveite o tempo e a morada que Deus lhe concede. Mas, ingrato! Rende mais vezes graças à sua estrela do que ao seu Criador.

Nunca tinha pensado nisto assim: prolongar a vida para cumprir a tarefa.


Capítulo “Fatalidade”


Haverá fatalidade nos acontecimentos da vida, conforme o sentido que se dá a essa apalavra, ou seja, todos os acontecimentos são predeterminados? Nesse caso, como fica o livre-arbítrio? [pergunta]
– A fatalidade existe apenas na escolha que o Espírito fez ao encarnar e suportar esta ou aquela prova. E da escolha resulta uma espécie de destino, que é a própria consequência da posição que ele próprio escolheu e em que se acha. Falo das provas de natureza física, porque, quanto às de natureza moral e às tentações, o Espírito, ao conservar o seu livre-arbítrio quanto ao bem e ao mal, é sempre senhor para ceder ou resistir. (…)

Há pessoas que parecem ser perseguidas por uma fatalidade, independentemente do seu modo de agir; a infelicidade não é um destino? [pergunta]
– São, talvez, provas que devem suportar e que escolheram. Mas definitivamente não deveis acusar o destino pelo que, frequentemente, é apenas a consequência de vossas próprias faltas. Nos males que vos afligem, esforçai-vos para que vossa consciência seja pura, e já vos sentireis bastante consolados.

O Espírito sabe por antecipação como desencarnará? [pergunta]
– Sabe que o género de vida escolhido o expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra. Sabe igualmente quais as lutas que terá de enfrentar para evitá-la e, se Deus o permitir, não fracassará.

Há homens que enfrentam os perigos dos combates com a convicção de que a sua hora não chegou; há algum fundamento nessa confiança? [pergunta]
– Frequentemente, o homem tem o pressentimento do seu fim, como pode ter o de que não morrerá ainda. Esse pressentimento vem por meio dos seus protectores*, que querem adverti-lo para estar pronto para partir, ou estimulam sua coragem nos momentos em que é mais necessária. Pode vir ainda pela intuição que tem da existência escolhida, ou da missão que aceitou e sabe que deve cumprir.

* Espíritos protectores que acompanham a existência de cada um de nós. Semelhante à noção de “anjo da guarda”. [Nota minha]


Porque os que pressentem a morte a temem menos que os outros? [pergunta]
– É o homem que teme a morte e não o Espírito; aquele que a pressente pensa mais como Espírito do que como homem: ela a compreende como sua libertação e a espera.

   

Capítulo “Medo da morte”


O medo da morte é para muitas pessoas um motivo de perplexidade; de onde vem esse medo, se têm o futuro diante de si? [pergunta]
– É um erro terem esse medo. Mas o que quereis! Procura-se convencê-las desde crianças de que existe um inferno e um paraíso, e que é mais certo irem para o inferno, porque lhe dizem que ao agirem de acordo com a natureza cometem um pecado mortal para a alma: então, quando se tornam adultas, se têm algum discernimento, não podem admitir isso, e tornam-se ateus ou materialistas. É assim que se conduzem as pessoas a crer que além da vida presente não há mais nada, e as que persistiram nas suas crenças de infância temem esse fogo eterno que deve queimá-las sem destruí-las.
A morte, entretanto, não inspira ao justo nenhum temor, porque, com a fé, tem a certeza do futuro; a esperança lhe faz esperar uma vida melhor, e a caridade que praticou dá-lhe a certeza de que não encontrará no mundo para onde vai nenhum ser do qual deva temer o olhar.




Capítulo “Intuição das penalidades e prazeres futuros”


No momento da morte, qual é o sentimento que domina a maioria dos homens? A dúvida, o medo ou a esperança? [pergunta]
– A dúvida para os descrentes endurecidos, o medo para os culpados, a esperança para os homens de bem.

Quanto a mim, a curiosidade. Uma curiosidade que não será satisfeita se não houver nada para ver. Se houver algo para ver, dúvidas, medos, esperanças (ou desapontamentos), tudo isso é para depois da curiosidade. Prefiro assim. Sem expectativas.


Porque existem descrentes, uma vez que a alma traz ao homem o sentimento das coisas espirituais? [pergunta]
– Existem menos do que se acredita; muitos se fazem espíritos fortes durante a vida por orgulho, mas no momento da morte não são tão fanfarrões.

Muito boa pergunta.

Excelente resposta.


Capítulo “Natureza das penalidades e prazeres futuros”


O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles uma fonte de felicidade? [pergunta]
– A união dos Espíritos que simpatizam com o bem é, para eles, um dos maiores prazeres, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no mundo espiritual, famílias com o mesmo sentimento, e nisso consiste a felicidade espiritual, assim como na Terra vos agrupais por categorias e sentis um certo prazer quando estais reunidos. A afeição pura e sincera que sentem e da qual são os agentes é uma fonte de felicidade, porque lá não há falsos amigos nem hipócritas.

A minha permanência na Terra já deve ir muito longa porque não há maneira para mim de acreditar nisto.
A não ser que estejamos a falar de Espíritos que já não são seres humanos, em que o homem se transforme noutra coisa superior ao humano, e aí o caso é outro. Se melhor ou pior... É o mesmo que conjecturar sobre extraterrestres. Talvez. Mas já não são humanos, pois não?


Existe para a condição futura do Espírito uma diferença entre aquele que durante a vida temia a morte e outro que a encarava com indiferença e até mesmo alegria? [pergunta]
– A diferença pode ser muito grande; entretanto, acaba frequentemente diante das causas que geram esse medo ou esse desejo. Tanto quem a teme quanto quem a deseja pode estar movido por sentimentos muito diferentes e são esses sentimentos que influem na condição do Espírito. É evidente, por exemplo, naquele que deseja a morte unicamente porque vê nela o fim de suas aflições, revelar-se uma espécie de revolta contra a Providência e contra as provas que deve suportar.

Esta foi a resposta mais próxima à pergunta que ninguém n'"O Livros dos Espíritos" se atreveu a fazer. E a pergunta é esta: o que acontece se alguém quiser sair do jogo? Se alguém olhar para trás do pano, e conhecer as regras, e se fartar das provas ou discordar da perfeição e pedir o fim? O verdadeiro fim. Segundo a resposta (à pergunta que não se fez, quer porque ninguém estava interessado no fim, quer por medo de a fazer), é a "revolta contra a Providência". Compreende-se que haja medo em fazer a pergunta. Pode ser a última pergunta que se faz.






sábado, 16 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Infelicidade

Capítulo “Os deficientes mentais e a loucura”


Qual pode ser o mérito da existência para seres que, como os loucos e os deficientes mentais, não podendo fazer o bem nem o mal, não podem progredir? [pergunta]
– É uma expiação obrigatória pelo abuso que fizeram de certas faculdades; é um tempo de prisão.

A superioridade moral nem sempre está em razão da superioridade intelectual, e os maiores génios podem ter muito para expiar. Daí resulta frequentemente para eles uma existência inferior à que tiveram e causa de sofrimentos. [Allan Kardec]


Porque a loucura leva algumas vezes ao suicídio? [pergunta]
– O Espírito sofre com o constrangimento e a impossibilidade de se manifestar livremente, por isso procura na morte um meio de romper seus laços.
  
Capítulo “Felicidade e infelicidade relativas”


Porque, na sociedade, as classes sofredoras são mais numerosas do que as felizes? [pergunta]
– Nenhuma é perfeitamente feliz, e o que se acredita ser felicidade esconde frequentemente grandes aflições. O sofrimento está por toda a parte. Entretanto, para responder ao vosso pensamento, direi que as classes que chamais de sofredoras são mais numerosas porque a Terra é um lugar de expiação. Quando o homem fizer dela morada do bem e dos bons Espíritos, não será mais infeliz e viverá no paraíso terrestre.

A Terra é um lugar de expiação. Para uns mais do que para outros. Mas volto ao que disse no princípio destes comentários: isto, aqui, não é bom. As próprias lei da natureza o tornam um lugar de crueldade, de dor, de sofrimento, de doença e de morte. Há quem consiga fechar os olhos a isto. Há quem não consiga. Não são loucos os que não fecham os olhos. Do que se fala aqui é o mesmo do que se fala em "Memnoch" de Anne Rice, que lhe chama o "jardim selvagem". Eu chamo-lhe outra coisa.

  
Capítulo “Decepção. Ingratidão. Afeições destruídas”

  
As decepções causadas pela ingratidão e a fragilidade da amizade também não são para o homem de coração uma fonte de amargura? [pergunta]
– Sim, mas já vos ensinámos a lastimar os ingratos e amigos infiéis: eles serão mais infelizes que vós. A ingratidão é filha do egoísmo, e o egoísmo encontrará mais tarde corações insensíveis, como ele mesmo foi. Pensai em todos que fizeram mais o bem do que vós, que valeram muito mais do que vós, e que foram pagos com ingratidão. (…)

Esse pensamento não impede o seu coração de ser magoado; portanto, isso não poderia originar a ideia de que seria mais feliz se fosse menos sensível? [pergunta]
– Sim, se preferir a felicidade do egoísta, que é muito triste! Que ele saiba que os amigos ingratos que o abandonam não são dignos da sua amizade e que se enganou sobre eles; portanto, não deve lamentar sua perda. Mais tarde, encontrará outros que o compreenderão melhor. Lamentai aqueles que têm para convosco um comportamento ingrato que não merecestes, porque terão amarga recompensa, um triste retorno; e também não vos aflijais com isso: é o meio de vos colocar acima deles.

Nunca foi para mim consolação esta espécie de vingança cósmica ("vais pagar o que me fizeste") ou de orgulho encapotado ("sou superior"). Antes me pergunto, como o participante, se não seria melhor ser insensível.
Por outro lado, também não me dou à bondade de lastimar a sorte de quem fez a sua própria cama. Não lastimo nem odeio, esqueço ou faço por esquecer.
A propósito:

 
Capítulo “Natureza das penalidades e prazeres futuros”


Os Espíritos, não podendo esconder os pensamentos uns dos outros e sendo todos os actos da vida conhecidos, significa que o culpado esteja na presença perpétua da sua vítima? [pergunta]
– Isso não pode ser de outro modo, o bom senso o diz.

Essa divulgação de todos os nossos actos condenáveis e a presença constante das vítimas são um castigo para o culpado? [pergunta]
– Maior do que se pensa; mas apenas até que tenha reparado suas faltas, como Espírito ou como homem em novas existências corporais.

Não sei se percebi esta parte. Significa que a vítima permanece junto do culpado (para o castigar com a sua presença) ou que a exposição dos actos não permite que o culpado esqueça a vítima?...
Não me entra na cabeça que a vítima permaneça junto do culpado, neste mundo ou no outro. Concebo que algumas vítimas gostariam de se encarregar da punição do culpado com as suas próprias mãos mas isso não é para mim. Que o culpado vá pagar bem longe e a outras mãos, e de preferência apagado da minha memória.

  
Capítulo “Decepção. Ingratidão. Afeições destruídas”


A falta de simpatia entre os seres que têm de viver juntos não é igualmente uma fonte de desgostos amarga e que envenena toda a existência? [pergunta]
– Muito amarga, de facto; mas é uma dessas infelicidades de que, frequentemente, sois os principais responsáveis. Primeiro, são vossas leis que estão erradas. Porque acreditais que Deus obriga a ficar com aqueles que vos desagradam? E depois, nessas uniões, procurais muitas vezes mais a satisfação do orgulho e da ambição do que a felicidade de uma afeição mútua. Então suportais a consequência de vossos preconceitos.

Mas, nesse caso, não existe quase sempre uma vítima inocente? [pergunta]
– Sim, e é para ela uma dura expiação. Mas a responsabilidade da sua infelicidade recairá sobre quem a causou. Se a luz da verdade já penetrou na sua alma, terá consolação na sua fé no futuro; além disso, à medida que os preconceitos forem enfraquecendo, as causas dessas infelicidades íntimas também desaparecerão.

Parece-me que se fala em especial do casamento ("Porque acreditais que Deus obriga a ficar com aqueles que vos desagradam?"). Há muitas outra combinações, familiares e profissionais, em que as pessoas são obrigadas a viver e a conviver com quem não querem e de quem não gostam. Situações de abuso, não por ambição, longe disso, mas por mera sobrevivência.
A Terra é um lugar de expiação e isto aqui não é bom.






terça-feira, 12 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Suicídio

Capítulo “Desgosto da vida. Suicídio.”


De onde vem o desgosto pela vida que se apodera de certos indivíduos sem motivos razoáveis? [pergunta]
– Efeito da ociosidade, da falta de fé e frequentemente da satisfação plena de seus apetites e vontades, do tédio. Para aquele que exerce suas actividades com um objectivo útil e de acordo com suas aptidões naturais, o trabalho não tem nada de árido, e a vida escoa mais rapidamente. Suporta as contingências da vida com mais paciência e resignação quando age tendo em vista uma felicidade mais sólida e mais durável que o espera.

Confesso que me custou a perceber imediatamente que raio de resposta era esta. Faltava-me ponderar o contexto. Século XIX, classes superiores e ociosas, período romântico. Quando as pessoas da alta sociedade se suicidavam por tédio. (É curioso que "O Livro dos Espíritos" tem alguns parágrafos dedicados ao tema do duelo, denunciando-o como suicídio e homicídio. O que vem na mesma linha desta resposta.)

O homem tem o direito de dispor da própria vida? [pergunta]
– Não, apenas Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão dessa lei.

O que pensar do suicídio que tem como causa o desgosto da vida? [pergunta]
– Insensatos! Porque não trabalhavam? A existência não lhes teria sido pesada!

Insensatos! Porque não trabalhavam?! (Porque estavam desempregados, talvez?...)
Esta resposta, na sequência da primeira, é tão para gente rica que me lembra a outra "Não têm pão? Que comam brioche!"
Não gostam do que fazem? Que façam o que gostam.
(Uma pessoa tem de se perguntar como seriam as vidas desta gente privilegiada!)

O que pensar do suicida que tem por objectivo escapar das misérias e decepções deste mundo? [pergunta]
– Pobres Espíritos, que não têm coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem. As aflições da vida são provas ou expiações; felizes aqueles que as suportam sem queixas, porque serão recompensados! Infelizes, ao contrário, os que esperam sua salvação do que, na incredulidade deles, chamam de acaso ou sorte! O acaso ou a sorte, para me servir da vossa linguagem, podem, de facto, favorecê-los transitoriamente, mas é para fazê-los sentir mais tarde e mais cruelmente o vazio dessas palavras.

Nunca mostrem esta resposta a um suicida. "Deus ajuda aqueles que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem" reduz a pessoa deprimida a um estado de tal insignificância que nem Deus se interessa por ela. Dizer isto a um suicida poderia até conduzi-lo mais depressa ao suicídio.
Não podemos esperar que gente do século XIX, viva ou morta, compreenda o psiquismo da depressão. É preciso não esquecer que não se conhecia a mente inconsciente e os seus meandros. (A falta que Freud fazia, e a ingratidão de que (ainda) é alvo devido à ignorância e ao preconceito!)
  
Aqueles que conduziram um infeliz a esse acto de desespero sofrerão as consequências disso? [pergunta]
– Como são infelizes! Pois responderão por homicídio.

O homem que na necessidade se deixa morrer de desespero pode ser considerado um suicida? [pergunta]
– É um suicida; mas os que o levaram a isso ou que poderiam impedi-lo são mais culpados que ele, e a indulgência o espera. Entretanto, não acrediteis que seja inteiramente absolvido se lhe faltaram firmeza e perseverança e se não usou sua inteligência para superar as dificuldades. Infeliz dele, principalmente se o seu desespero se originou do orgulho; quero dizer, se é desses homens a quem o orgulho paralisa os recursos da inteligência, que se envergonham por depender do trabalho das suas mãos e que preferem morrer de fome a renunciar ao que eles chamam de posição social! (…)

Vou interromper este Espírito que continua incessantemente a bater na mesma tecla (com certeza devia estar a mandar uma indirecta a alguém).
Para nós, agora, quando é o desemprego uma grande causa de depressão e suicídio, até parece de mau gosto estar a mandar alguém trabalhar para não pensar na morte.
Achei interessante transcrever a insistência no assunto porque denota o espírito de uma classe e de uma época: quando alguém "bem nascido" preferia suicidar-se ou morrer de fome em vez da vergonha de ir trabalhar, com as mãos se fosse preciso. Dá que pensar. Dá muito que pensar.
Mas abandonemos por aqui as curiosidades históricas.
  
Quais são, em geral, as consequências do suicídio sobre o Espírito? [pergunta]
– As consequências do suicídio são muito diversas: não existem penalidades fixas e, em todos os casos, são sempre relativas às causas que o provocaram; mas uma consequência da qual o suicida não pode escapar é o desapontamento. Além disso, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente; outros, em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.

Segundo a doutrina espírita, o suicídio é inútil e contraproducente. A boa notícia (a morte não existe) é também a má notícia (a morte não existe).
Volto à alegoria do jogo de computador. Interromper o jogo a meio, sem passar de nível, significa ter de começar do ponto de partida outra vez. Apesar da reencarnação, não há "fugas para a frente".
Mas cuidado ao tentar "racionalizar" deste modo com uma pessoa deprimida. O que pode parecer até uma ideia positiva e animadora (a inutilidade do suicídio, a continuidade da vida após a morte) pode ser recebido com bastante mais desespero. Não há racionalidade no desespero e nenhuma lógica garante que o suicida não tente, à mesma, a fuga do que considera insuportável, crente ou não crente.
Isto, os espíritos (mortos e vivos) do século XIX não podiam ainda saber, daí o dogmatismo e a condenação explícita, que contraditoriamente descamba até numa certa ligeireza com que abordam o assunto, como se o suicídio fosse um pecadilho e um disparate. Desconheciam os mecanismos da depressão e não sabiam do que falavam.
Aconselho por isso cautela na abordagem deste capítulo d'"O Livro dos Espíritos" junto de pessoas muito deprimidas e principalmente sem se ler a obra na íntegra. O contexto explica o raciocínio. Aqui, limito-me a comentar esta ou outra parte que mais me interessa. Fica feita a ressalva.






sexta-feira, 8 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Ricos e pobres

Para pensar.

Capítulo “Desigualdades sociais”

A desigualdade das condições sociais é uma lei da natureza? [pergunta]
– Não. É obra do homem e não de Deus.

Essa desigualdade desaparecerá um dia? [pergunta]
– Apenas as leis de Deus são eternas. Vós não vedes essa desigualdade se apagar pouco a pouco todos os dias? Desaparecerá juntamente com o predomínio do orgulho e do egoísmo, apenas restará a diferença do merecimento. Chegará o dia em que os membros da grande família dos filhos de Deus não se olharão como de sangue mais ou menos puro, porque apenas o Espírito é mais ou menos puro, e isso não depende da posição social.

O que pensar dos que abusam da superioridade da sua condição social para oprimir o fraco em seu proveito? [pergunta]
– Esses se lamentarão: infelizes dele! Serão por sua vez oprimidos: renascerão numa existência em que suportarão tudo o que fizeram os outros suportar.

Capítulo “Provas de riqueza e de miséria”

Porque Deus deu a uns riquezas e a outros a miséria? [pergunta]
– Para experimentar cada um de maneiras diferentes. Aliás, vós já o sabeis, essas provas foram os próprios Espíritos que escolheram e, muitas vezes, nelas fracassaram.

Qual das provas é a mais terrível para o homem, a miséria ou a riqueza? [pergunta]
– Tanto uma como outra; a miséria provoca a lamentação contra a Providência; a riqueza estimula todos os excessos.


Neste mundo tanto as posições de destaque quanto a autoridade sobre seus semelhantes são provas tão arriscadas e difíceis para o Espírito quanto a miséria. Quanto mais se é rico e poderoso, mais se tem obrigações a cumprir e maiores são as possibilidades de fazer o bem e o mal. Deus experimenta o pobre pela resignação e o rico pelo uso que faz de seus bens e do seu poder. [Allan Kardec]


À luz da doutrina espírita, faz sentido que a riqueza se torne uma prova mais perigosa do que a pobreza. Quanto maior a fortuna (e quero incluir aqui também o poder), maior a responsabilidade. Maior o risco de explorar os outros, de falhar na solidariedade, de se cair no orgulho de se considerar que se é rico porque se tem mérito enquanto o pobre é pobre porque é estúpido ou inepto (nada mais errado, a pobreza é um ciclo, a igualdade de oportunidades não existe; a própria noção de igualdade de oportunidades é uma mentira inventada pelos ricos para justificarem o seu status social pois, ao convencer o mundo de que existe igualdade de oportunidades, só não é bem sucedido quem não tem mérito para o ser...).






segunda-feira, 4 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – O Bem e o Mal

Capítulo “Conhecimento do futuro”


Uma vez que Deus sabe tudo, sabe, igualmente, se um homem deve fracassar ou não numa prova? Nesse caso, qual é a necessidade dessa prova, que nada acrescentará ao que Deus já sabe a respeito desse homem? [pergunta]

Outra das perguntas mais pertinentes d'"O Livro dos Espíritos".

– É o mesmo que perguntar porque Deu não criou o homem perfeito e realizado: porque o homem passa pela infância antes de atingir a idade adulta. A prova não tem a finalidade de esclarecer a Deus sobre o mérito dessa pessoa, visto que sabe perfeitamente para que a prova lhe serve, mas, sim, para a deixar com toda a responsabilidade da sua acção, uma vez que é livre para fazer ou não. Tendo o homem a escolha entre o bem e o mal, a prova tem a finalidade de colocá-lo em luta com a tentação do mal e lhe deixar todo o mérito da resistência. Embora saiba muito bem, antecipadamente, se triunfará ou não, Deus não pode, na sua justiça, puni-lo nem recompensá-lo por um acto que ainda não foi praticado.

Mas a resposta não me convence.

Capítulo “O bem e o mal”


O mal que se comete não é, muitas vezes, o resultado da posição em que nos colocaram outros homens? E, nesse caso, quais são os mais culpados? [pergunta]
– O mal recai sobre aquele que o causou. Porém, o homem que é conduzido ao mal pela posição que exerce é menos culpado do que aqueles que o causaram; contudo, cada um será punido, não somente pelo mal que tiver feito, como também pelo que tiver provocado.

Aquele que não fez o mal, mas que se aproveita do mal feito por um outro, é culpado da mesma forma? [pergunta]
– É como se o cometesse; ao tirar proveito participa dele. Talvez não pratique a acção; mas se, ao encontrar tudo feito, faz uso disso, é porque a aprova, e ele mesmo o faria se pudesse, ou ousasse.

Basta não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar um futuro melhor? [pergunta]
– Não. É preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo o mal que resulte do bem que não tiver feito.

Há pessoas que, pela sua posição, não têm a possibilidade de fazer o bem? [pergunta]
– Não há ninguém que não possa fazer o bem; somente o egoísta nunca encontra ocasião. Bastam as relações sociais com outros homens para encontrar ocasião de fazer o bem, e cada dia de vida dá a oportunidade a quem não esteja cego pelo egoísmo; porque fazer o bem não é somente ser caridoso, é ser útil na medida de vosso poder todas as vezes que vossa ajuda se fizer necessária.


Concebe-se que toda a gente possa estar em posição de fazer o bem. O mais intrigante é que algumas pessoas desejariam fazer mais bem do que fazem e não podem fazê-lo porque a sua posição não lhes permite. Não é um contra-senso? Não falo apenas de mim, mas tenho notado que são os pobres, os muito pobres, aqueles que sentindo na pele as privações, são também das pessoas mais dispostas a ajudar os outros. Da mesma forma que aqueles que passaram por grandes traumas são os primeiros a desejar ajudar outros que também sofreram. E muitos outros exemplos semelhantes que todos nós conhecemos.
Mas na maioria dos casos não conseguem. Pobres não conseguem ajudar outros pobres. (Falo de pobres, não de "remediados".) Ficam à mercê da caridade dos ricos. Da mesma forma, talvez as pessoas psicologicamente magoadas não consigam, embora queiram, relacionar-se com outros semelhantes. Ficam à mercê de profissionais que não fazem a mais pálida ideia do que estão a falar. E por aí fora, um contra-senso em que quem estaria em melhor condição de fazer o bem não o consegue fazer.
Poderá haver uma forma de expiação, de prisão tão absoluta, em que seja também uma punição desejar fazer o bem e não poder? Mas não levará isso à paralisia, ao desespero, à indiferença perante o destino, a um ponto em que a expiação já não adianta rigorosamente nada porque não faz efeito uma vez que o ser desiste de tentar agir? Será esse o tempo de morrer?


 Capítulo “Vida Contemplativa”


Os homens que se entregam à vida contemplativa, não fazendo nenhum mal e pensando apenas em Deus, têm mérito perante Deus? [pergunta]
– Não, porque se não fazem o mal também não fazem o bem, e são inúteis; aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense n’Ele, mas não que se pense apenas n’Ele, uma vez que deu ao homem deveres a cumprir na Terra. Aquele que consome o seu tempo na meditação e na contemplação não faz nada de meritório aos olhos de Deus, porque a dedicação da sua vida é toda pessoal e inútil para a humanidade, e Deus lhe pedirá contas do bem que não tiver feito.


Capítulo “Privações voluntárias. Mortificações”


A vida de mortificações ascéticas dos devotos e dos místicos, praticada desde a Antiguidade e entre diferentes povos, é meritória sob algum ponto de vista? [pergunta]
– Perguntai para o quê e a quem ela serve e tereis a resposta. Se serve apenas àquele que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, qualquer que seja o pretexto com o qual se disfarce. Renegar-se a si mesmo e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, conforme a caridade cristã.

A resposta a estas duas perguntas esquece o mérito que existe em dar o exemplo a outros menos espirituais. Pela vida ascética e contemplativa, que não é para todos, o asceta inspira outros a pensar em Deus, outros que talvez não pensariam em Deus se não vissem tal exemplo de renúncia a que o asceta se submete, e que os impressiona. O asceta cumpre também esse papel.


 Capítulo “Marcha do progresso”


A perversidade do homem é muito grande. Não parece recuar em vez de avançar, pelo menos do ponto de vista moral? [pergunta]
– Engano vosso. Observai bem o conjunto e vereis que o homem avança, uma vez que compreende melhor  o que é o mal e a cada dia corrige abusos. É preciso o mal chegar a extremos para fazer compreender a necessidade do bem e das reformas.

A História demonstra-nos que isto não anda longe da verdade.


Capítulo “Civilização”


A civilização se depurará um dia de modo a fazer desaparecer os males que tenha produzido? [pergunta]
– Sim, quando a moral também estiver tão desenvolvida quanto a inteligência. O fruto não pode vir antes da flor.

Já esta parte, é uma questão de optimismo. Certamente que a humanidade avançou, tendo em conta séculos e milénios, mas não sem inventar a cada passo uma nova forma de barbaridade.
De barbaridade em barbaridade, lá vamos avançando.


Capítulo “Egoísmo”


Entre os vícios, qual se pode considerar o pior? [pergunta]
– Já dissemos várias vezes: é o egoísmo; dele deriva todo o mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe egoísmo. Vós os combatereis inutilmente e não conseguireis arrancá-los enquanto não tiverdes atacado o mal pela raiz, enquanto não tiverdes destruído a causa. Que todos os vossos esforços tendam para esse objectivo, porque aí está a verdadeira chaga da sociedade. Aquele que deseja se aproximar, já nesta vida, da perfeição moral, deve arrancar do seu coração todo o sentimento de egoísmo, por ser incompatível com a justiça, o amor e a caridade: ele neutraliza todas as outras qualidades.

O egoísmo, sendo próprio da espécie humana, não será sempre um obstáculo para que reine o bem absoluto na Terra? [pergunta]
– É certo que o egoísmo é o maior mal, mas ele se prende à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra, e não à humanidade em si mesma; os Espíritos, ao se depurarem nas sucessivas encarnações, perdem o egoísmo como perdem outras impurezas. Não tendes, na Terra nenhum homem desprovido de egoísmo e praticando a caridade? Há mais do que imaginais, porém pouco os conheceis, porque a virtude não se põe em evidência; se há um, porque não haveria dez? Se há dez, porque não haveria mil e assim por diante?

O egoísmo, longe de diminuir, aumenta com a civilização, que parece excitá-lo e mantê-lo; como a causa poderá destruir o efeito? [pergunta]
– Quanto maior o mal, mais se torna horrível. Será preciso que o egoísmo cause muito mal para fazer compreender a necessidade de extingui-lo. Quando os homens tiverem se libertado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, não se fazendo nenhum mal, ajudando-se mutuamente pelo sentimento natural da solidariedade; então o forte será o apoio e não o opressor do fraco, e não se verão mais homens desprovidos do indispensável para viver, porque todos praticarão a lei da justiça. É o reino do bem que os Espíritos estão encarregues de preparar.


Não acredito nisto. Não me vou rir, porque é feio rirmo-nos das utopias religiosas de cada qual, mas não posso deixar de o considerar uma utopia.






sexta-feira, 1 de novembro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Halloween

Capítulo “Comemoração dos mortos. Funerais”

Os Espíritos são sensíveis à saudade daqueles que amaram e que ficaram na Terra? [pergunta]
– Muito mais do que podeis supor; se são felizes, essa lembrança aumenta a sua felicidade; se são infelizes, essa lembrança é para eles um alívio.

O dia da comemoração dos mortos tem algo de solene para os Espíritos? Eles se preparam para visitar os que vão orar nas suas sepulturas? [pergunta]
– Os Espíritos atendem ao chamamento do pensamento tanto nesse dia quanto em qualquer outro.

Esse dia é para eles um encontro junto às suas sepulturas? [pergunta]
– Eles estão aí num maior número nesse dia, porque há mais pessoas que os chamam. Mas cada um deles vem apenas pelos amigos e não pela multidão de indiferentes.

Os Espíritos esquecidos, cujos túmulos ninguém visita, também aí comparecem apesar disso? Lamentam não ver nenhum amigo que se lembre deles? [pergunta]
– Que lhes importa a Terra? Eles somente se prendem a ela pelo coração. Se aí não há amor, não há mais nada que retenha o Espírito: tem todo o universo para si.





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

“O Livro dos Espíritos” – Provas, expiação e esquecimento

Capítulo “Espíritos errantes”


A alma reencarna imediatamente após a separação do corpo? [pergunta]
– Algumas vezes pode reencarnar imediatamente, mas normalmente só após intervalos mais ou menos longos. (…)

Em que se torna a alma no intervalo das encarnações? [pergunta]
– Espírito errante que aguarda nova oportunidade e a espera.

Qual a duração desses intervalos? [pergunta]
– De algumas horas a alguns milhares de séculos. Não há, propriamente falando, limite extremo estabelecido para o estado de erraticidade, que se pode prolongar por muito tempo, mas que nunca é perpétuo. O Espírito sempre encontra, cedo ou tarde, a oportunidade de recomeçar uma existência que sirva de purificação às suas existências anteriores.

Essa duração está subordinada à vontade do Espírito ou pode ser imposta como expiação? [pergunta]
– É uma consequência do livre-arbítrio. Os Espíritos têm perfeita consciência do que fazem, mas para alguns é também uma punição que a providência lhes impõe. Outros pedem para que se prolongue, a fim de progridem nos estudos que só podem ser feitos com proveito na condição de Espírito.

A erraticidade é, por si mesma, um sinal de inferioridade dos Espíritos? [pergunta]
– Não, porque existem Espíritos errantes de todos os graus. A encarnação é para o Espírito um estado transitório, como já dissemos, no seu estado normal o Espírito está liberto da matéria.

De que maneira os Espíritos errantes se instruem? É como nós? [pergunta]
– Eles estudam o seu passado e procuram os meios de se elevar, isso lhes inspira ideias que não tinham antes.

Os Espíritos errantes são felizes ou infelizes? [pergunta]
– São felizes ou infelizes de acordo como seu mérito. São infelizes e sofrem por causa das paixões das quais ainda conservaram a essência ou são infelizes segundo estejam mais ou menos desmaterializados. No estado de erraticidade, o Espírito entrevê o que lhe falta para ser mais feliz e procura os meios de alcançá-lo. Porém, nem sempre lhe é permitido reencarnar conforme sua vontade, o que é para ele uma punição.

Pois.


Capítulo “Mundos transitórios”


Existem, como já foi dito, mundos que servem aos Espíritos errantes como estâncias transitórias ou locais de repouso? [pergunta]
– Sim, existem. São particularmente destinados aos seres errantes, que podem neles habitar temporariamente. São como acampamentos, campos para repousar de uma erraticidade bastante longa, condição sempre um tanto angustiante. São posições intermediárias entre os outros mundos, graduados de acordo com a natureza dos Espíritos que podem alcançá-los e onde podem desfrutar de um bem-estar relativamente maior ou menor, conforme o caso.

Os Espíritos progridem durante a sua estada nos mundos transitórios? [pergunta]
– Certamente. Os que neles se reúnem é com o objectivo de se instruir e poder mais facilmente obter a permissão de alcançar lugares melhores e chegar à posição que os eleitos atingem.


Gosto desta ideia de mundos transitórios, destes acampamentos de "auto-ajuda". Espero que tenham muitos drunfos e muita terapia porque há gente que sai daqui feita em farrapos, sem vontade nenhuma de progredir ou sequer de continuar.

   
Capítulo “Prelúdio do retorno”


O Espírito pode antecipar ou retardar o momento da sua reencarnação? [pergunta]
– Pode antecipá-lo, solicitando-o nas suas preces. Pode também retardá-lo, recuar diante da prova, porque entre os Espíritos há também os cobardes e os indiferentes; mas não o fazem impunemente. Ele sofre, como quem recua diante do remédio salutar que pode curá-lo.

Se um Espírito se encontrasse bastante feliz por estar numa condição mediana na espiritualidade e se não tivesse ambição de progredir, poderia prolongar esse estado indefinidamente? [pergunta]
– Não, não indefinidamente. Progredir é uma necessidade que o Espírito sente, cedo ou tarde. Todos devem elevar-se, esse é o propósito do destino dos Espíritos.

A união do Espírito com um determinado corpo pode ser imposta pela Providência Divina? [pergunta]
– Pode ser imposta, bem como as diferentes provas, especialmente quando o Espírito ainda não está apto a fazer uma escolha com conhecimento de causa. Como expiação, o Espírito pode ser obrigado a se unir ao corpo de uma criança que por seu nascimento e pela posição que terá no mundo poderão ser para ele uma punição.


A reencarnação imposta é a minha concepção de Inferno.
Analisemos bem esta ideia: onde é que está o livre arbítrio se "todos devem elevar-se, esse é o propósito do destino dos Espíritos", ou sofrer? Como é que, pelo uso da força, se poderia alguma vez conduzir alguém à perfeição? À falsidade, à loucura, ao subservientismo, isso sim. Durante a vida na Terra, há pelo menos uma maneira de escapar à tirania: a morte. Como escapar da tirania eterna? Haverá por fim, como diz o Apocalipse, um extermínio de todos os iníquos, ou, para os "não alinhados", simplesmente sofrimento perpétuo?
Ideias que não cruzavam o espírito bem intencionado destes participantes nas conversas com os Espíritos antes de 1857, porque não tinham visto o Inferno na Terra. Tudo, para estes ingénuos, eram rosas e cantos angelicais.

   
Capítulo “Escolha das provas”


Na espiritualidade, antes de começar uma nova existência corporal, o Espírito tem consciência e previsão das coisas que acontecerão durante sua vida? [pergunta]
– Ele mesmo escolhe o género de provas que quer passar. Nisso consiste o seu livre arbítrio.

Então não é Deus que impõe os sofrimentos da vida como castigo? [pergunta]
– Nada acontece sem a permissão de Deus, que estabeleceu todas as leis que regem o universo. Perguntareis, então, porque Ele fez esta lei em vez daquela. Ao dar ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade dos seus actos e de suas consequências, nada impede o seu futuro; o caminho do bem está à frente dele, assim como o do mal. Mas, se fracassa, resta-lhe uma consolação: nem tudo está acabado para ele. Deus, na sua bondade, deixa-o livre para recomeçar, reparando o que fez de mal. É preciso, aliás, distinguir o que é obra da vontade de Deus e o que é obra do homem. Se um perigo vos ameaça, não fostes vós que o criastes, foi Deus; mas tendes a liberdade de vos expor a ele, por terdes visto aí um meio de adiantamento, e Deus o permitiu.

Se o Espírito tem a escolha do género de prova que deve passar, todas as dificuldades que experimentamos na vida foram previstas e escolhidas por nós? [pergunta]
– Todas não é a palavra, porque não se pode dizer que escolhestes e previstes tudo o que vos acontece neste mundo até nas menores coisas. Vós escolhestes os géneros das provas; os detalhes são consequência da situação em que viveis e, frequentemente, das vossas próprias acções. Se o Espírito quis nascer entre criminosos, por exemplo, sabia dos riscos a que se exporia, mas não tinha conhecimento dos actos que viria a praticar; esses actos são efeito de sua vontade ou do seu livre-arbítrio. O Espírito sabe que, ao escolher um caminho, terá uma luta a suportar; sabe a natureza e a diversidade das coisas que enfrentará, mas não sabe quais os acontecimentos que o aguardam. Os detalhes dos acontecimentos nascem das circunstâncias e da força das coisas. Somente os grandes acontecimentos que influem na vida estão previstos. Se seguis um caminho cheio de sulcos profundos, sabeis que deveis tomar grandes precauções, porque tendes a probabilidade de cair, mas não sabeis em qual deles caireis; pode ser que a queda não aconteça, se fordes prudente o bastante. Se, ao passar na rua, uma telha cai na vossa cabeça, não acrediteis que estava escrito, como se diz vulgarmente.

O Espírito, nas provas que deve passar para atingir a perfeição, deve experimentar todas as tentações? Deve passar por todas as circunstância que podem incitar o orgulho, a inveja, a avareza, a sensualidade, etc? [pergunta]
– Certamente que não, uma vez que sabeis que há Espíritos que, desde o começo, tomam um caminho que os livra de muitas provas; mas, aquele que se deixa levar pelo mau caminho corre todos os perigos desse caminho. Um Espírito, por exemplo, pode pedir a riqueza e esta ser concedida; então, de acordo com o seu carácter, poderá tornar-se avarento ou pródigo, egoísta ou generoso, ou entregar-se a todos os prazeres da sensualidade; mas isso não quer dizer que tenha que passar forçosamente por todas essas tendências.

Quando o Espírito usa o seu livre-arbítrio, a escolha da existência corporal depende sempre de sua vontade, ou essa existência pode ser imposta pela vontade de Deus como expiação? [pergunta]
– Deus sabe esperar: não apressa a expiação. No entanto, perante a Lei, um Espírito pode ter uma encarnação compulsória quando, pela sua inferioridade, ou má vontade, não está apto a compreender o que lhe poderia ser mais útil e quando essa encarnação pode servir à sua purificação e adiantamento, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.

Como o Espírito escolhe as provas que quer suportar? [pergunta]
– Ele escolhe as que podem ser para ele uma expiação, pela natureza dos seus erros, e lhe permitam avançar mais rapidamente. Uns podem escolher se impor uma vida de miséria e privações para tentar suportá-la com coragem; outros querem se experimentar nas tentações da riqueza e do poder, muito perigosas, pelo abuso e mau uso que delas se podem fazer e pelas paixões inferiores que desenvolvem; outros, enfim, preferem se experimentar nas lutas que têm que sustentar em contacto com o vício.

O homem na Terra, sob a influência das ideias terrenas, vê nas suas provas apenas o lado doloroso. Por isso lhe pareceria natural escolher as que, no seu ponto de vista, pudessem se conciliar com os prazeres materiais. Porém, na vida espiritual, compara esses prazeres ilusórios e grosseiros com a felicidade inalterável que percebe, e, então, nenhuma importância dá aos sofrimentos passageiros da Terra. O Espírito pode, em vista disso, escolher a prova mais rude e, consequentemente, a mais angustiosa existência, na esperança de atingir mais depressa um estado melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais desagradável para se curar mais depressa. [Allan Kardec]

O Espírito pode se enganar sobre a eficácia da prova que escolheu? [pergunta]
– Ele pode escolher uma que esteja acima de suas forças e, então, fracassar. Pode também escolher alguma que não lhe dê nenhum proveito, que resulte numa vida ociosa e inútil; mas, então, uma vez de volta ao mundo dos Espíritos, percebe que nada ganhou e pede para reparar o tempo perdido, numa outra encarnação.

Um homem que pertença a uma raça* civilizada poderia, por expiação, reencarnar numa raça selvagem? [pergunta]
– Sim mas isso depende do género de expiação; um senhor que tenha sido cruel com os seus escravos poderá tornar-se escravo por sua vez e sofrer os maus tratos que fez os outros suportar. Aquele que um dia comandou poderá, numa nova existência, obedecer até mesmo àqueles que se curvaram à sua vontade. É uma expiação que lhe pode ser imposta, se abusou do seu poder. Um bom Espírito também pode escolher uma existência em que exerça uma acção influente e encarnar dentro de povos atrasados, para fazer com que progridam, o que, neste caso, é para ele uma missão.


* Por “raça”, à linguagem da época, devemos entender “povo” ou “sociedade” ou mesmo “cultura”, sem qualquer conotação racista. [Nota minha]



Esta é a parte mais interessante da doutrina espírita. Não é Deus que impõe os castigos. Deixa ao homem castigar-se a si próprio.
Voltamos a falar do jogo de computador, dos níveis, e do pau e da cenoura. O "pau", aqui, é o sofrimento de sucessivas reencarnações infelizes; a "cenoura", o escapar a elas através de um aperfeiçoamento previamente estabelecido, que o Espírito antevê na sua estadia éterea entre encarnações, e anseia por alcançar. Este aperfeiçoamento abre-lhe as portas para a tal felicidade "pura e eterna" que ele tem que querer para si. Para tal, oferece-se para voltar ao jogo e tentar novamente passar de nível.
Mas vamos considerar que de facto não é possível aqui, neste mundo de expiação e sofrimento, antever qualquer clarão de felicidade "pura e eterna". Vamos considerar que o Espírito se submete às provas de sua verdadeira e livre vontade. O Espírito decide então expiar as suas faltas e/ou aperfeiçoar-se, escolhendo para isso uma existência que lho permita fazer, mas nessa existência não se recorda de que fez essa escolha.

   
Capítulo “Esquecimento do passado”


Como o homem pode ser responsável por actos e reparar faltas das quais não tem consciência? Como pode aproveitar a experiência adquirida em existências caídas no esquecimento? Poderia conceber-se que as adversidades da vida fossem para ele uma lição ao se lembrar do que as originou; mas, a partir do momento que não se lembra, cada existência é para ele como a primeira e está, assim, sempre recomeçando. Como conciliar isso com a justiça de Deus? [pergunta]


Grande pergunta, e uma das mais pertinentes de todo "O Livro dos Espíritos".


– A cada nova existência o homem tem mais inteligência e pode melhor distinguir o bem do mal. Onde estaria o mérito, ao se lembrar de todo o passado? Quando o Espírito volta à sua vida primitiva (a vida espírita) , toda a sua vida passada se desenrola diante dele; vê as faltas que cometeu e que são a causa do seu sofrimento e o que poderia impedi-lo de cometê-las. Compreende que a posição que lhe foi dada foi justa e procura então uma nova existência em que poderia reparar aquela que acabou. Escolhe provas parecidas com as que passou ou as lutas que acredita serem úteis para o seu adiantamento, e pede a Espíritos Superiores para ajudá-lo nessa nova tarefa que empreende, porque sabe que o Espírito que lhe será dado por guia nessa nova existência procurará fazê-lo reparar as suas faltas, dando-lhe um a espécie de intuição das que cometeu. Essa mesma intuição é o pensamento, o desejo maldoso que frequentemente vos aparece e ao qual resistis instintivamente, atribuindo a maior parte das vezes essa resistência aos princípios recebidos de vossos pais, enquanto é a voz da consciência que vos fala. Essa voz é a lembrança do passado, que vos adverte para não recair nas faltas que já cometestes. O Espírito, ao entrar nessa nova existência, se suporta essas provas com coragem e resiste, eleva-se e sobe na hierarquia dos Espíritos, quando volta para o meio deles.


Se não temos, durante a vida corporal, uma lembrança precisa do que fomos e do que fizemos de bem ou mal em existências anteriores, temos a intuição disso, e nossas tendências instintivas são uma lembrança do nosso passado, às quais nossa consciência, que é o desejo de não mais cometer as mesmas faltas, nos adverte para resistir. [Allan Kardec]

Não há no esquecimento das existências passadas, principalmente nas que foram dolorosas, qualquer coisa de providencial, em que se revela a justiça divina? (…)
Concluamos: tudo o que Deus fez é bem feito e não nos cabe criticar as suas obras e dizer como deveria reger o universo.
A lembrança de nossas individualidades anteriores teria inconvenientes muito graves; poderia, em certos casos, nos humilhar muito; noutros, exaltar o nosso orgulho e, por isso mesmo, dificultar nosso livre-arbítrio. Deus deu, para nos melhorarmos, exactamente o que é necessário e basta: a voz da consciência e nossas tendências instintivas, privando-nos do que poderia nos prejudicar. Acrescentemos ainda que, se tivéssemos lembrança de nossos actos pessoais anteriores, teríamos igualmente a dos outros, e esse conhecimento poderia ter os mais desastrosos efeitos sobre as relações sociais. [Allan Kardec]


Novamente Kardec tem toda a razão. Teria efeitos desastrosos sobre as relações sociais. Se descobrir segredinhos da treta via Facebook já tem as consequências que tem! E não, não estou a ironizar. Imaginem agora descobrirem segredos e falsidades de séculos, de milénios, que determinada pessoa escondeu de vocês ou com os quais vos enganou. Imaginem que são próximos dessa pessoa porque têm uma ligação kármica a resolver. Nada seria resolvido. Vejo a lógica.


Pelo estudo de suas tendências instintivas, que são uma recordação do passado, o homem pode conhecer os erros que cometeu? [pergunta]
– Sem dúvida, até certo ponto; mas é preciso se dar conta da melhoria que pôde se operar no espírito e as resoluções que ele tomou na vida espiritual. A existência actual pode ser bem melhor que a precedente.

Os acontecimentos da vida corporal são, ao mesmo tempo, uma expiação pelas faltas passadas e provas que visam ao futuro. Pode-se dizer que da natureza dessas situações se possa deduzir o género da existência anterior? [pergunta]
– Muito frequentemente, uma vez que cada um é punido pelos erros que cometeu; entretanto, não deve ser isso uma regra absoluta. As tendências instintivas são a melhor indicação, visto que as provas pelas quais o Espírito passa se referem tanto ao futuro quanto ao passado.


Certo. Nem todas as provas são uma expiação do passado. No entanto, ao ser humano, que é inteligente, não custa muito somar dois mais dois e perceber que género de faltas cometeu em vidas passadas e que virtudes delas trouxe. As virtudes são instintivas. As faltas são pagas na mesma moeda. Logo, se sou traída, é porque traí. Se sou roubada, é porque roubei. Se sou explorada, é porque explorei. Uma vez ouvi, num filme qualquer: "Quando as coisas se começarem a repetir na tua vida começa a prestar-lhes atenção". E quando as coisas se repetem, é para prestar atenção. Como eu dizia, basta somar dois mais dois.

Houve algo que li n'"O Livro dos Espíritos" que fez para mim especial sentido: é possível que alguns Espíritos queiram redimir-se de demasiadas coisas numa única existência, para "passar de nível" mais depressa, e assim escolham provas extremamente duras que não conseguem suportar... e falham. Diz Kardec, noutra passagem, que se um homem não souber nadar mas escolher como prova atravessar a nado um oceano, certamente se afoga, mas Deus permite. (Haveria Espíritos a desaconselhá-lo de tal loucura, mas se o Espírito for teimoso...)