Hoje é dia de Páscoa. Para quem não sabe (e muitos não fazem ideia), a Páscoa é o dia mais importante do cristianismo (e não o Natal, como muitos erradamente julgam, que não passa da festa pagã do solstício de Inverno, irrelevante para o cristianismo).
O domingo de Páscoa é o dia em que Jesus ressuscitou dos mortos, o dia da esperança, o dia em que Jesus venceu a morte e provou aos crentes que a vida nesta terra é apenas uma passagem. Os bens materiais corrompem-se e desaparecem, mas o espírito é imortal.
Neste dia de Páscoa, quero deixar uma mensagem de esperança.
A notícia sobre a vaga de suicídios "envergonhados" não me sai da cabeça. Este é um problema sociológico, não patológico, que requer uma cura social e não psiquiátrica. As pessoas não estão deprimidas, as pessoas estão desesperadas. Depois de pensar muito nisto, acho que um bom começo era mudar a mentalidade da "pobreza envergonhada" que é, ela sim, uma vergonha da mentalidade deste país. Desesperadas, isoladas na sua vergonha, as pessoas começam a entrar numa espiral de pensamentos depressivos. Não querem falar da sua pobreza, preferem gastar dinheiro em roupa na loja do chinês para "fazer figura" quando, se calhar, têm a luz cortada em casa. Porque também faz parte da mentalidade portuguesa "fazer figura". Sempre foi assim, e é uma mentalidade transversal desde os mais pobres aos mais ricos. Parar de "fazer figura", assumir a pobreza, não ter vergonha de ser pobre, especialmente neste tempos em que as pessoas são pobres por factores externos que não conseguem mudar [sim, eu sei que são pobres porque o país não as deixa evoluir] é um grande passo de orgulho e auto-estima.
Os portugueses precisam de auto-estima. Mesmo rotos e pobres e de luz cortada, devem erguer a cabeça e dizer, como eu vou dizer aqui: só tomo dois banhos por semana porque não há dinheiro para as contas da luz; não ligo o aquecedor quando está frio pela mesma razão (o frio que eu passei este ano, e ainda há quem se admire porque odeio o Inverno, é porque passo frio, pronto!); tenho os pijamas todos rotos porque não quis gastar dinheiro em novos. Preferi gastar o meu pequeno orçamente nas coisas que me cultivam, nas coisas que me inspiram. Livros, concertos, internet, televisão. (E não esqueçamos que através da internet se obtêm muitas destas coisas que lá estão à nossa espera, tesouros para a alma, não roupa e "fazer "figura" para os vizinhos que se calhar têm a luz cortada também.)
Era bom que estas pessoas nesta situação, e noutras piores, parassem de ter vergonha de falar na pobreza em que vivem. Era bom que se juntassem, numa terapia colectiva, era bom que levantassem a cabeça e se enchessem de orgulho e não se deixassem enganar de que são uns falhados (bem sei que deu muito jeito a muita gente convencê-los disto mesmo, de que são uns falhados, de que a culpa é toda deles, de que viveram acima das suas possibilidades, de que não tiveram mérito para isto ou para aquilo - MENTIRAS!!!)
Era bom que se juntassem, com orgulho, e comparassem histórias e expusessem estas mentiras. Que recuperassem a auto-estima que, uma vez perdida, os atira para debaixo de metros e os faz saltar de pontes.
Se esta crise pode servir para que algo evolua, que se comece por algum lado, que se expulse a "pobreza envergonhada", que se nos repugnemos todos de andar no rebanho a "fazer figura". Uma auto-estima por dia vale mais do que todos os antidepressivos.
Porque a vida terrena é efémera. Podem não acreditar na Ressurreição, mas pensem nisto: quando morrerem, quantos bens vão levar convosco para debaixo da terra?
A VIDA É MUITO CURTA PARA VIVER DE CABEÇA BAIXA E ENVERGONHADA COM MEDO DO QUE OS OUTROS PENSAM.
Aleluia!