sábado, 13 de outubro de 2018

Frozen / Pânico na Neve (2010)


Três jovens são acidentalmente esquecidos num teleférico de uma estância de esqui. É noite, a temperatura é negativa, há uma tempestade de neve. Mas o frio não é o maior problema deles. Este é um daqueles casos em que o título português se aplica melhor do que o original. Sim, o frio é um problema também, mas o filme nunca se centrou na eventualidade de morrerem de hipotermia. Pelo contrário, se as temperaturas fossem assim tão baixas a história teria acabado muito mais cedo. Esquecidos no teleférico, a descoberto, pendurados a demasiada altura do chão, eles sabem que a estância de esqui vai ficar fechada a semana toda. Ninguém virá procurá-los. Não têm telemóveis com eles. Têm de sair dali ou morrerão de sede, de fome ou de frio, consoante as condições climatéricas a que ficarão expostos.
É um pouco incerto se a distância do chão é suficiente para saltar. Um deles tenta e parte ambas as pernas. Como se não fosse já uma situação terrível, de repente aparece uma alcateia de lobos atraída pelo sangue…
A premissa do filme é muito simples, mas as consequências são dramáticas. Este é um daqueles “podia acontecer a toda a gente” nas circunstâncias erradas. Não precisamos de investir muito nas personagens. O que conhecemos delas antes do acidente é suficiente para percebermos que não são excepcionais. São apenas pessoas normais apanhadas numa situação extrema em que têm de encontrar maneira de sobreviver.
E sim, existem alguns problemas de credibilidade neste filme. Por exemplo, que jovens desta faixa etária não levassem os telemóveis, mesmo arriscando-se a parti-los. Se fosse gente mais velha ainda acreditaria. Gente desta idade, não. Desde quando é que o risco de partir o telemóvel os impede? (Papá compra outro.) Mas de certeza que o filme arranjaria maneira de tornar os telemóveis inoperacionais (falta de rede) e ia dar ao mesmo. Por isso não considero uma falha significativa. Menos credível é que uma estância de esqui estivesse fechada desde domingo à noite até sexta-feira, isto é, a semana inteira, em plena época alta. Há sempre gente de férias, especialmente as pessoas que gostam de esquiar e que marcam as férias de propósito neste período. Isto já faz menos sentido. Mas a presença dos lobos, que também é estranha num local tão frequentado, até pode ser explicada por este lapso regular de actividade da estância. Uma estância, aliás, que devia ser encerrada por motivos de segurança. Bastou balançar um bocadinho o teleférico para saltar o parafuso principal que o mantinha preso à estrutura!
Mas nada disto é impossível e pode resultar de uma simples confluência de azares. Os nossos jovens estavam no sítio errado à hora errada. A partir do momento em que compreendemos a situação ficamos irremediavelmente agarrados ao filme. À medida que o perigo aumenta, temos de ver o final. É impossível não torcer por eles.
“Frozen” é um bom filme de “terror situacional”. Curto, tenso, sem desvios desnecessários, de um suspense de cortar à faca. Gostei e recomendo. O título é que podia ter sido mais bem escolhido.

Nota: os amantes de gore vão preferir ver a versão em DVD, que mostra cenas (não vou revelar de que tipo) que no filme original apenas se ouvem. Pessoalmente, bastou-me ouvir. Aplaudo a decisão de não cair na tentação de mostrar. Neste caso, Adam Green, o realizador, fez uma boa escolha em deixar certos pormenores à imaginação.


15 em 20

sábado, 6 de outubro de 2018

Black Death / Morte Negra (2010)

O ano é 1348. O pano de fundo é o surto de peste bubónica na Inglaterra medieval. Eu esperava um drama histórico à volta da epidemia mas o filme anda mais no género Aventura a piscar o olho à Grimdark Fantasy.
O enredo é muito curto. A mando da igreja, um grupo de cavaleiros dirige-se para uma vila isolada em terreno pantanoso onde, segundo rumores, não só as pessoas são imunes à peste como existe um necromante que ressuscita os mortos. O que só pode significar que têm um pacto com o Diabo, obviamente. O objectivo do líder dos cavaleiros, Ulrich (Sean Bean, Boromir em “O Senhor dos Anéis” e Ned Stark em “Guerra dos Tronos”) é capturar e executar barbaramente esse herege. No caminho, alicia um jovem noviço como guia até à vila recôndita (Eddie Redmayne, que também conhecemos como protagonista da adaptação de ”The Pillars of the Earth”).



Chegando à vila em questão, é óbvio que algo de estranho se passa. Aqui não há pilhas de mortos a queimar ou enterrar. A igreja está abandonada ao pó e às teias de aranha e os residentes converteram-se ao paganismo. A pessoa mais importante da vila parece ser a bela Langiva (Carice van Houten, a Melisandre de “Guerra dos Tronos”). Obviamente, tem de ser uma bruxa.


O filme é brutal e cru do princípio ao fim. Morte não falta (natural ou provocada), violência muito menos, e outras nojices de revirar o estômago como os corpos cobertos de bubões purulentos. O filme salva-se à minha classificação de porno-tortura porque tem o bom gosto de não mostrar todos os pormenores tão explicitamente como podia ter feito. Nos instantes piores, a câmara afasta-se.
O que não quer dizer que este não seja um filme de violência gratuita, ou quase. Chegamos ao fim sem perceber qual era o objectivo. Afinal, por quem é que devíamos torcer? Os cristãos são fanáticos, maus e desleais. Os pagãos são desleais, maus e fanáticos. O jovem monge, o único que prometia ser uma pessoa decente, acaba tão mau como eles. A bruxa, afinal, é apenas uma curandeira que percebe de ervas e drogas. O piscar de olho à Fantasia, que o filme prometia desde o princípio, desfaz-se em explicações sherlockianas: não são ressurreições, são embustes (Teria sido muito mais interessante ter enveredado pelo sobrenatural.) O que sobra então deste filme? Todos são maus, a religião é má, a vida não é boa, a peste é pior. Tudo é negro como a peste.
Mesmo assim, o filme não é muito difícil de se ver graças ao bom gosto de evitar a porno-tortura. Promete mais do que oferece, mas oferece o bastante. No mínimo dos mínimos podemos regalar-nos com os cenários, o guarda-roupa, a fotografia. Tudo muito convincente do período histórico que representa, se não entrarmos em grande minúcia.
E os fãs da “Guerra dos Tronos” vão adorar o confronto entre este quase-Ned Stark e esta quase-Melisandre, disto tenho a certezinha absoluta. Eu, confesso, diverti-me.

13 em 20

sábado, 29 de setembro de 2018

Zero Dark Thirty / 00:30 A Hora Negra (2012)


“00:30 A Hora Negra” é a reconstrução realista da caça ao homem que resultou no assassinato de Osama Bin Laden em 2011. Baseado em testemunhos de pessoas envolvidas, acompanha os operacionais da CIA envolvidos na busca de uma década que terminaria em Abbottabad, Paquistão, onde o terrorista mais procurado do mundo se encontrava escondido.
O filme é isto e pouco mais do que isto. Quase um documentário. Os personagens nunca são aprofundados para além dos seus papéis profissionais. Se calhar porque se baseiam em pessoas reais, heróis americanos, e ainda era/é muito cedo para os mostrar como seres humanos? Talvez. O filme apresenta-nos os factos como eles se passaram, desde a tortura utilizada em prisioneiros nos anos de George W. Bush até à abordagem mais soft da administração Obama. Mas nunca se tenta moralizar o que vemos no écran. Não é esse tipo de filme. Este é um filme para quem quer conhecer mais pormenores do que realmente se passou em Abbottabad e como é que a CIA lá chegou.
É impossível não apontar as semelhanças com “Homeland”. Tal como na série, muito do jargão e técnicas de espionagem caem-nos em cima sem que ninguém os explique. Cabe ao espectador fazer o esforço de acompanhar. Se calhar não teria percebido tanto do filme se não visse a série. Assim, o filme pareceu-me quase um episódio de “Homeland”, apenas sem Carrie Mathison. Ou melhor, sem a Carrie Mathison bipolar, porque a protagonista, obcecada e frenética, lembra Mathison em tudo o resto.
Mas “00:30 A Hora Negra” não é um filme interessado em explorar personagens. É o que é, desde o 11 de Setembro à caça a Bin Laden e às pistas que levaram a CIA a encontrá-lo. Mesmo assim, esperava mais em termos factuais, nomeadamente as reacções das duas administrações da Casa Branca ao desenrolar dos acontecimentos. Sim, esperava ver os bastidores que conduziram a esta célebre foto:



O filme nunca nos mostra as presidências. Foca-se apenas na equipa de operacionais no terreno. Talvez seja muito cedo. Tenho a certeza de que ainda vamos ver uma melhor versão desta operação secreta, mais completa, por perspectivas mais humanas, quando tempo suficiente transformar as pessoas reais em personagens históricas. É uma questão de esperar.


(Este filme não tem nota porque não o encarei como entretenimento.)


sábado, 22 de setembro de 2018

Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche


Eu sou Zaratustra, o Sem-Deus. Pois não sabeis que Deus está morto?
Afirmações destas devem ter sido muito chocantes em 1883, ano em que “Assim Falou Zaratustra” começou a ser publicado. (Apesar de não parecer, o livro está incompleto. Nietzsche tencionava publicar a conclusão.)
A filosofia de Friedrich Nietzsche influenciou todo o pensamento moderno. Mas será que ainda faz sentido ler “Zaratustra”, hoje em dia que somos tão pós-tudo que “Deus está morto” só nos induz um encolher de ombros?

Um livro para todos e para ninguém
Por paradoxal que pareça, “Assim Falou Zaratustra” é uma leitura tão acessível como difícil. A obra é apresentada como um romance fictício da vida de Zaratrusta (Zoroastro). Li algures que Nietzsche escolheu este profeta por achá-lo o primeiro a apontar que todo o conflito ético se baseia numa luta entre o Bem e o Mal. Não devia ser isto exactamente que pregava o Zoroastro original, mas serviu muito bem como modelo. Em “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche utiliza-o como uma quase-farsa, uma sátira ao Velho e ao Novo Testamento, às vezes fábula assumida (quando Zaratustra fala com os seus animais, a águia e a serpente, personagens importantíssimos que também falam). Que Nietzsche tem um ódio especial à religião, e ao cristianismo em particular, reflecte-se logo na afirmação chocante “Deus está morto”.
Chega a ser irritante de tanto que nos martela com isto. Na altura fazia sentido, mas penso que actualmente estamos tão além do pensamento religioso e tacanho em que Nietzsche batia que se torna um bocadinho demais.
Mas que Nietzsche e filósofos semelhantes tiveram influência nota-se ainda: nas pessoas que persistem, e que conheço pessoalmente, em passar um atestado de estupidez a toda a gente que tem tomates de admitir que acredita em algo de divino ou sobrenatural. Aguentem-se, filhos, eu também tive um grande choque quando percebi que inteligência não é sinónimo de sensibilidade. (Até me parece que são características tendencialmente opostas, o que me choca ainda mais.) Da mesma forma, queridos intelectos iluminados, nem só de Razão vive o homem. Mas se no tempo de Nietzsche fazia sentido “abrir os olhos”, hoje em dia já não há desculpa nenhuma e já não tenho paciência para estas manias de superioridade.
O que me leva ao grande tema do livro, o Super-Homem. Zaratustra prega o Homem-que-se-supera, e como o homem se supera constantemente, o Homem-que-se-supera é sempre o homem de amanhã. Por causa deste conceito de super-homem, o livro (e o pensamento de Nietzsche em geral) têm sido acusados de ter contribuído para a doutrina nazi. Admito que também li por causa disso, na curiosidade de saber de onde vêm as coisas. Agora que li, acho esta acusação injusta. É claro que percebo como é que o conceito pode ter sido interpretado assim, mas o livro é tão subjectivo que a interpretação também acaba por ser. Talvez fosse mesmo esse o objectivo. Por alguma razão o subtítulo de “Assim Falou Zaratustra” é “Um livro para todos e para ninguém”.

Afinal, a Fé não está morta
Eu confesso-me o “ninguém” do subtítulo. Muitas vezes não consegui compreender o contexto e a mensagem de algumas passagens. Faltam-me referências filosóficas, nomeadamente as mais próximas do tempo de Nietzsche e em que este batia com ardor. (A tradução que li, anotada, foi muito útil neste sentido.) Noutras passagens, Nietzsche fala de personagens-tipo da sua época que pura e simplesmente já não existem. Actualmente já nem nas igrejas há “adoradores da morte” cujo grande “objectivo” é morrer e ir para o Céu. Talvez apenas existam em seitas de pouca expressão numérica. As grandes instituições religiosas têm e querem ter um papel activo “neste mundo”. (Se deviam ter ou não, não é para aqui chamado agora.) Assim, admito que não apanhei muitas das indirectas, certamente deliciosas à época. Curiosamente apanhei outras, ainda mais obscuras, como aquele curto parágrafo em que Zaratustra faz uma piada ao Espiritismo. Até pensei que tinha percebido mal, mas a anotação confirmou. O que nos diz que nós compreendemos muito bem o que conhecemos e nos interessa. Mas muito do que Nietzsche fala neste livro já não é reconhecível para mim.
A somar a isto, o estilo satírico também me deixou na dúvida muitas vezes. A maior perplexidade surgiu-me na passagem sobre o eterno retorno. Não percebi mesmo se  Zaratustra/Nietzsche estava a expor o conceito ou a gozar com ele. Nunca me preparo de antemão para ler um livro (nem mesmo para um livro de temas filosóficos complexos, como este é, porque gosto de pensar pela minha própria cabeça primeiro e só depois consultar as convenções) mas o conceito não me é desconhecido. Na verdade, cheguei a ele pela via espiritualista de inspiração oriental. Será que dizer isto faz com que Nietzsche (o anti-religião) ande às voltas na cova, ou o contrário? Não tenho resposta. O próprio posfácio do livro menciona o orientalismo no pensamento de Nietzsche como algo de incomum nos filósofos ocidentais da época.
Mas o conceito de eterno retorno é velho, muito velho. Veio do Oriente para os Gregos clássicos e chegou desta maneira ao pensamento filosófico ocidental, aparentemente “depurado” de espiritualices. Na minha opinião, só aparentemente. Dêem-se-lhe as voltas que dêem, o conceito nunca deixa de me parecer místico. Para um pensador aparentemente tão devoto à Razão que diz que Deus está morto, é uma tese paradoxal. Afinal, Zaratustra/Nietzsche passa o livro a criticar aqueles para quem “tudo está perdido, a vida não interessa, nada é novo” e aponta-lhes o homem-que-se-supera como objectivo último e grande esperança da humanidade. Mas se tudo se repete vez após vez, a Humanidade está destinada a correr sempre atrás do futuro sem nunca o atingir. Assim sendo, não têm razão aqueles para quem “tudo está perdido” e nada vale a pena, ou, pelo contrário, é a eterna busca que vale a pena? Mas acreditar que vale a pena é um acto de Fé, não de Razão. É acreditar que a Humanidade está destinada a evoluir e (também) que a Humanidade não regride mais do que já evoluiu.
Talvez a última parte da pregação de Zaratustra (incompleta) esclarecesse estes pontos sem sombra de dúvidas. Se é que precisam de ser esclarecidos. Para mim bastaram e achei “Assim Falou Zaratustra” uma leitura muito válida e provocadora ainda nos dias de hoje. Com algumas ideias concordei veementemente, de outras discordei furiosamente. Aqui e ali fez-me rir. E sobretudo fez-me pensar. Não sei se pensei o que Nietzsche queria que pensasse mas este também já não é o tempo de Nietzsche. Às vezes perguntei-me se ele não estava a dizer algumas das coisas que disse só para provocar. Porque são estes os nossos tempos. Os tempos dos “grandes desprezadores”. Como grande desprezadora que sou, talvez eu e Zaratustra pudéssemos ter sido bons amigos. Daqueles que andam sempre às turras. Eu também teria uma coisinha ou duas para lhe martelar aos ouvidos.




sexta-feira, 7 de setembro de 2018

New Moon / Lua Nova (2009)


Segundo capítulo das aventuras de Edward o-vampiro-que-cintila e Bella a-rapariga-que-só-pensa-no-Edward.
Um dos motivos porque a saga Twilight foi tão mal recebida pelos verdadeiros amantes de vampiros foi na verdade um equívoco gerado pelo marketing à série. Um desfasamento de expectativas. Embora tenha elementos sobrenaturais, Twilight pertence mais ao género romântico do que a qualquer outro. O facto de ter vampiros e lobisomens é quase irrelevante. Se os substituíssemos por grupos rivais o enredo seria exactamente o mesmo. Esta é, acima de tudo, uma história romântica, e os amantes de horror que não apreciam o género romântico não vão encontrar aqui satisfação.
As minhas razões para continuar a seguir a saga são mais obcecadas. Sou de tal forma uma viciada em vampiros que muito raramente consigo resistir e vejo tudo: do muito bom ao muito mau. Para quem não é alérgico a histórias românticas, a saga Twilight vê-se.

Sempre desconfiei de vampiros que brilham
Depois dos acontecimentos do primeiro livro, que puseram Bella em perigo, Edward decide finalmente fazer a coisa certa e deixar de andar atrás de miúdas de liceu. Mas fá-lo mal. Em vez de revelar os seus verdadeiros motivos, arma-se em “todo-bom” e diz a Bella que esta não é digna dele. Grande estafermo. Eu já não gostava do Edward, mas neste filme começo mesmo a detestá-lo. Sem mais explicações, desaparece, deixando a miúda bastante deprimida por uns meses. Mas na verdade Edward não rompeu completamente, como devia ter feito se era mesmo esse o objectivo. Continuou em contacto com Bella através da ligação psíquica, o que pessoalmente achei de muito mau gosto. (Se vais, vai. Não vás pela metade.) Desta forma, nunca lhe permite recuperar e ultrapassar a relação. O que é mais grave, Bella fica à mercê dos inimigos dos Cullen, na ausência destes, e começa a ser perseguida por vampiros vingativos. Outra má onda. Não a deviam ter deixado sozinha nestas circunstâncias. Nomeadamente Edward sabe o que se passa (através da tal ligação psíquica) e nem isso o leva a mexer o traseiro para ir resolver problemas que são da família dele. (Estão a ver porque é que o detesto?)

Vampiros vs lobisomens
Felizmente, Bella torna-se mais próxima de Jacob, o índio. Admito que sempre gostei deste personagem. Sempre que ele aparecia no livro original, era uma lufada de ar fresco. Jacob parece ser o único que pensa e diz coisas com pragmatismo, e além disso tem sentido de humor. É difícil não torcer por ele. (Mas só aqui entre nós acho que a Bella não o merece.)
Quando se aproximam, Jacob ainda não sabe que é lobisomem. Mas atingiu a idade e as transformações começam a acontecer. (Coitada da Bella, também admito que não pode haver rapariga mais azarada. Ou se apaixona por vampiros ou lobisomens.)
Os lobisomens de Twilight, à semelhança dos vampiros, também não obedecem aos cânones. Não precisam da noite nem da Lua Cheia para se transformarem. Não sei se o livro explica melhor, mas fiquei com dúvidas. Conseguem transformar-se quando lhes apetece ou apenas quando se enfurecem? A Lua Cheia terá alguma influência, ou nenhuma? E até que ponto têm consciência humana na fase lobo? Se percebi bem, são responsáveis por alguns homicídios que a polícia da terra andava a investigar. Mas Jacob parece reconhecer Bella na fase de lobisomem, o que é problemático do ponto de vista da consistência. (Se como “lobo” tem este grau de consciência, também é responsável pelos homicídios.) Também não cheguei a perceber porque é que há rivalidade entre vampiros e lobisomens. O filme não explica, simplesmente apresenta como facto. Nos Diários do Vampiro, pelo menos, são apresentados como inimigos naturais porque uma dentada de lobisomem mata um vampiro. Aqui, não percebo qual é a rivalidade (e não me quero pôr a conjecturar). Afinal, não são todos monstros? Até deviam dar-se bem, penso eu. No primeiro livro/filme já havia aversão dos índios para com os Cullen, mas pensei que se devia apenas a saberem que eram vampiros. Afinal a aversão é outra.
É Jacob que lá está quando é preciso salvar Bella. Começa a estabelecer-se entre eles uma relação maior do que amizade. E eu a torcer por ele, obviamente.
Mas a relação não chega a ter tempo de se desenvolver. Em busca de adrenalina, e porque é jovem e não pensa (e para tentar que Edward a contacte psiquicamente), Bella decide mergulhar de um penhasco. Alice, a irmã adoptiva de Edward e vampira médium, tem uma visão deste mergulho e julga que Bella se tentou suicidar. Aqui acontece uma peripécia um bocadinho forçada. Sem confirmar que Bella está morta, Edward acredita apenas na visão de Alice e decide ir entregar-se a um clã de vampiros na Itália, os Volturi, que matam aqueles que quebram as regras. A primeira de todas é que os vampiros não devem expor-se aos seres humanos (brilhando ao sol). Nesta tentativa de suicídio à Romeu (porque não consegue viver num mundo onde Bella não viva), Edward decide quebrar as regras para que o matem. Mas eu acho isto um pouco precipitado. A própria Alice diz que nem sempre vê tudo. Porque é que o Edward acredita numa visão sem se certificar? Pelo menos ia ao funeral, não? Mas assim é mais dramático.
Bella e Alice chegam mesmo a tempo de o salvar, mas os tais Volturi exigem que ela seja transformada porque sabe demais. Isso, ou morta. Mais uma vez, Edward arranja-lhe problemas. Bravo, Edward vampiro-brilhante! E a Bella deixou o Jacob para isto!
Estes Volturi lembram-me os vampiros de Anne Rice, no tempo do coven do Cemitério dos Inocentes e do Teatro dos Vampiros. A qualquer altura, esperava que o vampiro Armand entrasse pela sala.

 Armand, Lestat e Louis não estavam disponíveis para participar no filme.

Tal como os vampiros de Armand, também estes se julgam a autoridade vampírica e gostam das suas regrazinhas. São os piores. O filme consegue um momento de quase-terror quando um grupo de turistas é guiado para dentro do palácio dos Volturi para lhes servir de refeição. Como é que eles explicariam todos estes desaparecimentos, pergunto-me? Levantar suspeitas também é contra as regras. Mas o filme não é sobre isto.
O facto é que Bella quer ser vampira. Desde o início do filme, não fala de outra coisa. Até me perguntei: mas esta miúda nunca leu Anne Rice? Aparentemente não, porque no mundo de Twilight não existem as Vampire Chronicles. Bella não quer ser vampira para ser imortal, nem para ser jovem para sempre, nem para ter poderes especiais. Nada disso. Bella quer ser vampira para ficar mais próxima de Edward. A princípio ele rejeita a ideia (única coisa em seu favor) mas acaba por concordar (lá se foi a coisa).

E assim terminaram duas horas de filme. Não imagino quando verei a continuação. Acompanho por uma questão de curiosidade e cultura “geral”, como acompanhei o Harry Potter. (De outra forma, como é que ia perceber as referências culturais da gente mais nova?) Comparando entre ambos os fenómenos, desgosto menos do Twilight. Pelo menos tem vampiros. E pronto, é só isto.


13 em 20 (ponto extra porque os Volturi me lembraram outras vampiragens)




sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Stranger Things

 

(crítica à primeira temporada)

!! CONTÉM ALGUNS SPOILERS, NÃO REVELA O FINAL !!

Às vezes temos surpresas. Quando uma série nos chega muito bem recomendada como uma das melhores da década, senão de sempre, criamos expectativas que por vezes nos desiludem. Ou não. Breaking Bad foi-me apresentada como uma série extraordinária e imperdível, e confesso que não fiquei entusiasmada. Drogados a vender speed? Achei que não era para mim. E no entanto adorei. Também Stranger Things me chegou altamente recomendada e despertou-me logo o interesse. Ambiente e música dos anos 80, um monstro, uma miúda com poderes especiais, experiências ultra-secretas em instalações militares. Isto é mesmo para mim. Ou assim pensei. Infelizmente, a série não me encheu as medidas.

Fiquei desiludida, mas a culpa não é da série. Pensei que era uma história sobre um monstro que por acaso envolvia miúdos. Afinal, é uma história sobre miúdos que por acaso envolve um monstro. Fica o alerta. Isto não é puro terror. Podia ter sido, mas tirando algumas cenas perturbadoras (e muito breves) pode perfeitamente passar como série para ver em família. Seriam mais problemáticas, neste aspecto, algumas passagens de “quase-sexo” entre adolescentes do que o aparecimento do próprio monstro.
Percebe-se melhor quando se sabe que Stranger Things é feita de homenagens. Nem falo de influências, são mesmo homenagens descaradas. A mais evidente de todas é o grupo de miúdos com bicicletas que escondem a miúda com poderes especiais. (E.T.) Muitas das referências são a Spielberg, incluindo “Tubarão” por estranho que pareça. Não sou grande apreciadora de Spielberg, o que explica perfeitamente a minha reacção de enfado. Aliás, é bastante interessante que uma série com tantos momentos de enfado consiga mesmo assim ser viciante. Não vou negar, viciou-me. É um produto feito para binge watching e resulta. É preciso muito auto-controlo para não ver os oito episódios de enfiada.
Mas é curioso, porque achei os dois primeiros episódios aborrecidos e o facto de serem longos (50 minutos ou mais) também não ajuda. Mas depois de ver o segundo episódio só consegui parar ao sexto.

É difícil escrever sobre uma série que vive do suspense para agarrar o espectador sem revelar spoilers, e tentarei não o fazer. Logo no primeiro episódio, um monstro escapa do que parece ser um laboratório militar. Nesse mesmo dia, do mesmo laboratório, escapa também a miúda com poderes especiais. Nesse mesmo dia, um dos miúdos do grupo das bicicletas desaparece misteriosamente. A partir daqui tudo é spoiler.

Os colegas que toda a gente teve
Como não quero revelar spoilers, vou falar antes das personagens. O maior problema para mim, nesta série, é mesmo a incapacidade de me interessar por elas. O que torna a maior parte do primeiro episódio numa seca só entrecortada pelas breves cenas do laboratório e de Eleven (a miúda com poderes). Os miúdos são normais. Sim, são um bocadinho geeks, mas são completamente normais. Vidas normais, pais normais, bicicletas normais, jogos de Dungeons&Dragons normais. Ver estes miúdos 15 minutos seguidos é demais para mim.
Depois temos uma sub-história de adolescentes igualmente normais. Nancy (irmã mais velha do protagonista Mike) namora com um miúdo popular, Steve, que quer ir para a cama com ela. Nancy não quer, mas depois já quer, e depois convida uma amiga (Barbara) para fazer de pau-de-cabeleira numa festa na casa de Steve, mas a meio da festa manda Barbara embora para poder ir para a cama com Steve. Oh Céus, poupem-me! Sei que isto que vou dizer não vai ser consensual porque Nancy se tornou numa das personagens preferidas de muitos fãs, mas eu DETESTO esta sonsa! Nem três dias depois de perder a virgindade com o tal Steve já estava mais interessada no Jonathan (irmão mais velho do miúdo que desapareceu). Ninguém diria ao olhar para ela, com aquela roupinha foleira de menina queque, muito certinha, que não parte um prato. Toda a gente teve uma colega assim naquele tempo, e irra, detesto sonsas. Mas há algo também na actriz. Se calhar até a cara dela me irrita.
A personagem Barbara foi muito maltratada pela série. Talvez nem os próprios criadores tivessem noção do impacto que ela ia ter. Barbara era a típica adolescente dos anos 80 que ainda não se sabia valorizar. Óculos grossos, peso a mais, vestida como se tivesse o dobro da idade. Mas a aparência física é irrelevante fora do mundo juvenil do liceu. Barbara é responsável, sensata, e acima de tudo é uma boa amiga. Uma amiga que não merecia ser tratada como Nancy a tratou. Tudo nela a torna uma personagem simpática de quem conseguimos gostar. Sem querer desvendar muito, Barbara mal apareceu na série e deixou uma impressão inesquecível. Se calhar porque toda a gente também teve uma colega assim e o efeito nostálgico é mais forte.
Mas Jonathan é o adolescente mais interessante. Habituado a uma vida complicada, é o único que transcende a vulgaridade da terrinha em que vive. Jonathan é o tal que ouve Joy Division e que traz a música alternativa para a série. Pena que goste da sonsa da Nancy. Mas é preciso dar tempo ao tempo. O puto só deve ter 18 anos e horizontes ainda muito limitados àquilo que conhece. Merece melhor, mas vai ter de procurar fora daquele buraco de banalidade. Também tive colegas assim. A maioria saiu do buraco.
Os adultos, felizmente, não são aborrecidos. Quando já me estava a passar com tanto drama (e marmelada) adolescente, as cenas com os adultos salvaram-me do tédio total. Os dois protagonistas, a mãe do miúdo desaparecido e o xerife da terra, são personagens profundas e cativantes, com muito passado e bagagem emocional. Por mim, podiam desaparecer todos os adolescentes (menos o Jonathan, para ouvirmos Joy Division) e os miúdos, e a série podia ficar só com adultos. E mais dramática e com terror a sério.
Por esta altura devem estar a perguntar: mas e o monstro? Porque é que estamos a falar desta gente quando há um monstro? Era isto exactamente que eu dizia no início. A série é sobre esta gente e por acaso há um monstro. E como também já estou a bocejar outra vez só de falar nesta gente, vamos mas é falar do monstro.


O monstro
O monstro não me convenceu. Não é um grande spoiler revelar que é uma criatura de outra dimensão. Também fica imediatamente estabelecido, logo no primeiro episódio, que existe uma ligação entre o monstro e Eleven. Não pode ser por acaso que escaparam os dois no mesmo dia. (Eu tenho as minhas teorias quanto a isso, mas este é um mistério que continua na segunda temporada e não me cheira que a série siga pelos caminhos que estou a imaginar. Pode ser que me surpreendam.) A cena inicial, no laboratório, é bastante explícita quanto à natureza predatória da criatura. Mas há uma falha de lógica ainda não explicada que rouba credibilidade a este monstro. Aparentemente, na outra dimensão não existe nada para comer. Absolutamente nada. Se este é um monstro animalesco que precisa de comer, como é que sobrevivia no “outro lado”? E estava lá sozinho? Não havia mais monstros? Pensei, a princípio, que seria antes um “monstro de energia” fabricado pelos militares. Descobrir que era só um monstro “animal” desapontou-me. E como é que descobriu, assim que chegou a este lado, que as criancinhas são saborosas? E como é que aprendeu a farejar sangue à distância, como um tubarão (por causa da tal homenagem, só pode)? Há mais inconsistências destas que nunca são explicadas. Para uma espectadora como eu, que não está a ver a série por causa da nostalgia dos anos 80, as inconsistências foram-se avolumando a ponto de me desiludir. A primeira regra do terror é que tem de nos convencer para meter medo. Se algo mina a credibilidade começamos a desligar as emoções e o efeito perde-se. Não é por acaso que a única cena que me arrepiou foi aquela em que a homenagem é a Alien. Fiquei tensa na cadeira, abri mais os olhos, cheguei-me para a frente. Parei de respirar. Porque o extraterrestre de Alien, o filme original de Ridley Scott, é completamente credível e aterrador. À menor alusão gela-se-nos a espinha. Era este terror que eu esperava de Stranger Things e que de certa forma nos foi “prometido” na cena inicial da série. Pelo sexto episódio percebi que a história ia mesmo ser sobre os miúdos que querem matar o monstro com pedras e fisgas. Pior, comecei a temer que os miúdos o conseguissem. Felizmente, a série não enveredou assim tanto pela fantasia infanto-juvenil que me teria retirado imediatamente do público alvo. As promessas dos primeiros episódios são cumpridas.

Mais negro para a próxima?
Stranger Things podia ter ido mais fundo e mergulhado em águas mais negras. Por opção, não o quis fazer. Isto prejudicou sobretudo a melhor personagem da série, sobre quem mal falei por causa dos spoilers. Eleven é a verdadeira estrela da história. Vítima de condicionamento psicológico, Eleven só quer ser normal num mundo que para ela é alienígena. É por ela que sofremos, é por ela que torcemos, é sobre ela que tecemos teorias. O final da primeira temporada deixa-nos com um sabor amargo que só pode ser remediado na segunda.


Porque, é claro, há uma segunda temporada. E é claro que vou ver porque a série é excelente. Não é o que eu esperava mas é completamente irresistível. Li algures que os criadores prometem que a continuação vai ser mais negra. Será mesmo, ou é só publicidade enganosa? As promessas foram cumpridas mas as minhas expectativas não foram satisfeitas. A única maneira de tornar a série mais negra, como prometem, é sair do conforto family friendly da fantasia infanto-juvenil que tornou a série acessível a um público mais alargado. Pode ser que me engane mas duvido que se atrevam.



sexta-feira, 24 de agosto de 2018

The X-Files / Ficheiros Secretos 2018

 

E aqui estamos nós outra vez a falar dos Ficheiros Secretos, versão 2018.  É a temporada 11, para quem já se perdeu.
Apesar de toda a minha indignação na crítica à mini-série / 10ª temporada de 2016, confesso que não a levei muito a sério. Como ali digo, “aconteceu-me um raro fenómeno de dissociação televisiva em que continuei a ver sem ver nada. Fui abduzida. O corpo ficou na cadeira em frente à televisão mas a mente já não estava lá.” Enfim, pensei eu, mini-série a apelar à nostalgia (e ao lucro fácil) que começa e acaba aqui. As reacções dos fãs foram semelhantes à minha e acreditei piamente que era a última vez que via o Mulder e a Scully.
Com este novo regresso, a que já chamaram “temporada” em vez de “mini-série”, levei o caso mais a sério. Então os Ficheiros Secretos iam voltar? Iam mesmo voltar, regularmente? Então é para ser bom. Não se admite outra coisa. E comecei a ver com uma maior expectativa que o primeiro “regresso” não me mereceu.
Logo no primeiro episódio, banhada. Toda aquela pandemia do vírus alienígena, o fim do mundo, tudo isso, bem, foi um sonho. [Como naquele famoso e infame episódio de Dallas, de que os leitores mais novos não se vão lembrar mas que é um clássico, em que uma temporada inteira desaparece com um sonho.] Tudo o que vimos na temporada anterior simplesmente não aconteceu. Era só a Scully a ter uma visão do futuro.
Aqui apeteceu-me logo atirar o comando ao écran. Mas acalmei-me. Racionalizei. Se calhar o Chris Carter não sabia se a série ia ser renovada e quis acabar em grande, com o fim do mundo. Sim, com um cliffhanger, mas em grande. E quando a série foi mesmo renovada, percebeu que não era exequível ou não tinha orçamento para continuar o enredo por ali e teve de retroceder. Racionalizei e aceitei. Se isso significava o regresso dos Ficheiros Secretos como os conhecíamos, um caso por semana, Mulder e Scully mais velhos, vinte anos mais tarde, enfrentando novos problemas pessoais e desafios diferentes, até perdoaria o começo desastrado. Porque, afinal, é disso que os fãs dos X-Files sempre gostaram: Mulder e Scully a investigarem casos estranhos, daqueles que nos fazem hesitar entre acreditar e não acreditar. Daqueles que fazem justiça ao slogan da série, I want to believe.

No baú do esquecimento

Esta temporada recordou-me tudo o que já não ia bem nos X-Files quando a série original chegou ao fim. A mitologia, que já não tinha pés nem cabeça. A conspiração, que já não fazia sentido. Mas pelo menos acabaram com a invasão alienígena: o planeta está tão estragado que os extraterrestres já não estão interessados em vir para cá. E aqui sorri. Nunca vi os Ficheiros Secretos à espera de comédia, mas não rejeito. E depois começaram a acontecer coisas estranhíssimas. Sabiam, ou lembram-se, que o Homem dos Cigarros era o pai do Mulder? Lembram-se de isso ser dito, implícita ou explicitamente, na série original? Porque eu não me lembrava nada. Absolutamente nada. E conforme fui lendo críticas aos episódios comecei a recordar-me das últimas temporadas da série que a minha memória tinha pura e simplesmente bloqueado. E lembrei-me que nos últimos tempos a série já não era nada de especial. Até houve uma temporada em que o Mulder esteve ausente! Substituído por um tal agente Doggett interpretado pelo actor de "Exterminador Implacável 2", Robert Patrick. Como é que me esqueci disto tudo? Bem, porque já era mau. É claro que vi, fielmente, mas a série já tinha passado o prazo de validade. Infelizmente, foi disso que esta temporada 11 me recordou e não é o tipo de memórias que queremos ter de uma das nossas séries favoritas. Nostalgia, sim. Do que foi bom, do que lembramos dos tempos áureos. A série não devia ter sido ressuscitada sem motivos épicos para a tirar do baú do esquecimento.
Mas também conhecemos William! Finalmente! Então o puto sempre existe! E não é filho do Mulder. Ficamos logo a saber, no primeiro episódio “My Struggle III”, que o Homem do Cigarro inseminou a Scully, drogada e inconsciente, com um embrião de ambos. Esperemos que a inseminação tenha sido artificial e já é repulsivo o bastante. Mas isto significa que durante este tempo todo o Mulder julgou que era pai de um filho que afinal é o irmão filho do pai. [Não resisti.] E irritou-me um bocadinho. Nunca fui muito apreciadora de terem transformado a relação entre o Mulder e a Scully num romance, admito. Mas fui-me habituando à dinâmica romântica entre os dois e fui-me afeiçoando à ideia de que algures no mundo tinham um filho. De repente, não têm. Nada nos adiantou tentar importar-nos com um miúdo que só vimos brevemente em bebé. Não é filho do Mulder e a Scully foi inseminada por violação científica. O “choque” não compensa a perda do investimento emocional. E faz-nos questionar o mais básico que um espectador nunca devia questionar: vale a pena investirmos emocionalmente nestes personagens? Porque o fim da temporada faz-nos suspeitar que não. Mas agora já me estou a adiantar.

Os bons motivos para uma continuação
Apesar disto tudo, a temporada 11 também me recordou o que me tornou fã dos Ficheiros Secretos. Alguns episódios foram bons, mesmo bons:
“Kitten” Centrado em Skinner e na sua experiência no Vietname, é um episódio à antiga, em que experiências governamentais com drogas alucinogénicas transformam pessoas pacatas em soldados sanguinários. Nada de sobrenatural ou alienígena, mas sempre interessante.
“Rm9sbG93ZXJz” Um episódio que podia ser um filme de terror salpicado de comédia. Num futuro mais ou menos próximo (?) Mulder e Scully vão comer a um restaurante japonês completamente operado por robôs. Depois de ser servido com um jantar horripilante, Mulder recusa-se a deixar gorjeta. Isto leva a uma conspiração entre todas as máquinas dotadas de inteligência artificial que perseguem Mulder e Scully atrás da gorjeta. Parece cómico mas tem momentos muito tensos. A sorte é que a inteligência das máquinas não é assim tanta. Mas faz-nos pensar até que ponto queremos inteligência artificial nas nossas vidas. Eu pensei em comprar um daqueles aspiradores redondos autónomos que andam de um lado para ao outro. Agora é que não compro mesmo! Um excelente episódio, o melhor da temporada na minha opinião.
“Familiar” Este episódio fazia mais sentido no Sobrenatural. Não sei até que ponto é que alguém decidiu que o regresso dos X-Files devia ser palhaçada. Funcionou muito bem com o Lagartomem da temporada anterior, episódio “Mulder & Scully Meet the Were-Monster”, mas para mim já não funcionou tão bem com “The Lost Art of Forehead Sweat” desta temporada, que supostamente devia ser cómico mas não me fez rir. “Familiar” é um episódio a roçar o mau gosto, em que no meio da palhaçada duas crianças são assassinadas e Mulder vê um Mastim do Inferno. No Sobrenatural fazem isto muito bem. Prova de que Sobrenatural é uma das séries mais subestimadas de sempre. Os X-Files tentaram fazer o mesmo e falhou ali qualquer coisa.
“Nothing Lasts Forever” Deste episódio gostei mesmo muito. Um culto procura a eterna juventude alimentando-se de carne e sangue de adolescentes e alguma ficção-científica. E resulta. O que os torna vampiros, nem mais nem menos. Uma diva dos anos 60 permanece jovem e bela como se tivesse vinte anos graças ao seu batido de sangue humano. Muito Erzsebet Bathory. Aconselhado a quem gosta de vampiros. Não aconselhado a pessoas de estômago sensível.
Com estes episódios, recordei o que gostava nos Ficheiros Secretos e vi uma verdadeira possibilidade de continuação. Mulder e Scully, com ou sem romance, a investigar casos estranhos. Sempre foi isto. Bastava só isto.
Mas entretanto aconteceu "Ghouli".


I want to forget
"Ghouli" foi o episódio que introduziu William e não podia ter sido mais disparatado. Começou com um monstro, mas afinal não era um monstro, era William, o filho perdido de Scully e Mulder, o personagem que todos ansiávamos conhecer, o salvador do mundo com o seu ADN alienígena. E estava morto. Mas afinal não estava morto, estava só a fingir-se de morto enquanto Skully chorava à sua beira. Ainda não estávamos refeitos do choque de descobrir que o episódio era sobre um personagem que devia ser fulcral, quando percebemos que William é um estafermo. Mas a série não percebe que William é um estafermo e segue em frente, episódio e temporada, como se nos devêssemos importar com este parvalhão. Entre as belas coisas que William nos mostra, consegue fazer com que as suas duas namoradas se esfaqueiem uma à outra (sim, duas namoradas, ao mesmo tempo). Quando os pais adoptivos são assassinados, não o afecta nada. E ainda diz a uma das namoradas que partilha visões com “uma mulher qualquer que deve ser a minha mãe biológica”. Não é um amor? Mas a série parece querer apresentá-lo como um rapaz interessante e incompreendido. Infelizmente, é apenas um estafermo. E a maneira como o episódio se desenrola é das coisas mais mal feitas que vi na vida. Como se fosse o script de uma história monster of the week em que o William foi metido à força porque não tiveram ideia melhor. É espantoso como uma série deste nível conseguiu destruir o personagem que devia ser o centro emocional da temporada.
Mas isto não é o mais grave. O mais grave é mesmo o fim.
Depois de algumas peripécias, em que Mulder e Scully nunca se apercebem de que têm por filho um estafermo, algo acontece que os leva a pensar que William morreu (mesmo). E aqui Scully tem uma reacção absurda. Depois de anos a agonizar pelo filho perdido, diz apenas: “Ele era só uma ideia, uma experiência de laboratório.” Como?! E Mulder diz esta pérola: “Que sou eu senão um pai?” Como?! Quando é que o Mulder foi um pai? Conheceu o miúdo durante cinco minutos. Trocou com ele cinco palavras. Mulder nunca foi um pai e Scully nunca diria do filho “deixa lá, a gente faz outro”. Ok, ninguém diria uma coisa destas de um filho, ponto final. Quem é que escreveu este diálogo e com que intenção? Porque eu quero esquecer o que vi e ouvi, de tão mau.
Uma coisa são episódios chochos. Outra coisa muito mais grave, como dizia acima, é transformar os personagens em marionetas de papel em que não se consegue investir emocionalmente. E fazer isto ao Mulder e à Scully, a quem conhecemos há mais de vinte anos, é imperdoável.


A temporada 2018 recordou-me o pior e o melhor dos Ficheiros Secretos. Mas o melhor não superou o pior, e é pena. Se é para trazer a série de volta, com pés e cabeça, porque não? Se é para destruir bons personagens e boas memórias, que esta seja a última vez que tenho de falar dos X-Files. De cada vez que tentam dar à série o fim que merece (e que nunca teve) conseguem fazer pior. Se é assim, como fã, prefiro que desistam. Que deixem a série repousar em paz.

domingo, 19 de agosto de 2018

Blog em obras



Após anos de resistência, finalmente decidi experimentar um template mais interactivo. Aqui está ele. Com mais funcionalidades, maior facilidade em seguir posts mais antigos, procurar por etiquetas, lista de updates dos blogs que sigo, essas modernices todas.
Não estou muito satisfeita com o resultado estético. Os templates disponíveis não deixam mudar tudo o que se deseja. Por exemplo, o título do blog. Nem sequer posso escolher pô-lo à direita, à esquerda ou ao meio. No texto e links abaixo dos posts também não consigo mexer. É frustrante.
Assim, o blog vai andar em obras até eu conseguir olhar para ele sem me chatear.
Como é tradição nacional, não é para fazer; é para ir fazendo.
 

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Final Destination 2 / O Último Destino 2 (2003)


Não é todos os dias que podemos dizer que uma sequela é melhor do que o original. É precisamente o caso com O Último Destino 2. Neste, já não encontramos as falhas de lógica que prejudicaram o primeiro filme. Tudo é surpreendente e faz sentido. Mas conseguirão enganar a morte?
Nesta sequela, uma jovem tem a visão de um sangrento choque em cadeia. Petrificada, já não consegue prosseguir viagem, e assiste ao concretizar da sua visão: acidente na estrada, mortos e feridos. A primeira surpresa acontece logo com os amigos que a acompanham no carro. Julgamos que vão ser eles a ser perseguidos pela Morte quando subitamente um camião os cilindra a todos ainda no local do acidente. (Eu não esperava isto, confesso). Chega-se depois à conclusão de que desta vez a Morte está a corrigir o seu desígnio em ordem contrária: do último que devia morrer ao primeiro. O que torna a jovem da visão a última vítima.
Desta vez aparece também o cangalheiro sinistro, mas pelo menos já nos dizem que ele “sabe muito destas coisas”. Isto torna-o mais do que um cangalheiro e o personagem faz mais sentido do que fazia no primeiro filme.
O Último Destino 2 vê-se muito melhor do que o original. Se calhar ajuda a interpretação de A.J. Cook (que conhecemos de “Mentes Criminosas”, aqui tão nova e rechonchuda, no bom sentido, que me custou reconhecê-la). As mortes continuam a ser rebuscadas, mas não tão delirantes, o que só reforça a credibilidade.


Apesar de achar que este filme é melhor do que o primeiro, acabo por dar-lhe a mesma nota porque o princípio da série sempre tinha o ponto da originalidade.

14 em 20

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Land of the Dead / A Terra dos Mortos, de George A. Romero (2005)


O título deste filme podia ser “A Fúria do Herói Zombie”. Um dos heróis do filme é mesmo um zombie revoltado com a maneira indigna com que os vivos tratam os da sua espécie. O que por si só já nos diz que este não vai ser um filme de zombies igual aos outros.

Os novos zombies
É praticamente um facto sociológico: o imaginário do zombie, como o conhecemos, surgiu numa época de inquietação existencial perante a alienação das massas cada vez mais passivas. Os anos 60 e 70 foram as décadas em que a geração dos Baby Boomers chegou à idade adulta. Os Baby Boomers nasceram nos anos após a segunda guerra mundial (em que houve um verdadeiro baby boom, daí o nome). Em relação à geração anterior, que teve de suportar a Grande Recessão, o rescaldo da Primeira Guerra Mundial e a Segunda, e as várias misérias decorrentes da situação internacional, os Baby Boomers foram uns privilegiados. A vida era simples e o caminho bem definido: escola, emprego, casa e filhos. Os salários eram razoáveis, havia emprego para toda a vida. Toda a gente tinha carro e dinheiro para gastar no passeio semanal ao supermercado. Instalou-se o consumismo. A vida era estável. Melhor do que na geração anterior, melhor do que na geração seguinte (nós, os Generation X, e nem falo dos Millenials, nem sabemos o significado de estabilidade). Era a geração que se podia “dar ao luxo”. A vários luxos, na verdade, como a alienação voluntária do flower power e do make love not war. Mas até os hippies assentavam, mais tarde ou mais cedo, para engrossar as massas consumistas e alienadas de uma rotina sempre igual.
Contudo, o medo existia, latente, cinematograficamente espelhado nos filmes de terror: o Twilight Zone, as invasões alienígenas, os insectos gigantes resultantes de experiências nucleares, e os zombies. As próprias massas mortas vivas a devorarem-se/consumirem-se a elas próprias.
Comparemos estes zombies iniciais com o que temos agora. Em The Walking Dead, feito para gerações em que a palavra “estabilidade” já nem existe, o importante é sobreviver. Subsistir mais um dia, à precariedade, às contas a pagar, a tentar viver debaixo de um tecto sem acabar na rua. Sobreviver aos energúmenos que nos acusam de viver “acima das nossas possibilidades” quando na verdade vivemos abaixo das nossas potencialidades. Talvez sejamos zombies também, meio vivos e meio mortos de cansaço, a geração no future que já sabia que nunca o ia ter, mas somos uns zombies diferentes. Os nossos heróis anti-zombie já não se limitam a fugir e a esconder-se e a esperar pelas autoridades. Os nossos heróis anti-zombie só contam consigo próprios.
Land of the Dead, de 2005, é algo na transição entre os filmes de zombies invasivos e os filmes de sobrevivência feroz em que da sociedade como a conhecemos já só sobram resquícios. No apocalipse zombie as ameaças vêm de todos os lados. Os vivos são muito mais perigosos do que os mortos. Land of the Dead vai nesse caminho, mas ainda não chega lá.


Os zombies também se revoltam
Comecei a ver este filme com zero expectativas. O filme que iniciou o universo zombie de George A. Romero, “Night of the Living Dead”, de 1968, foi um dos mais assustadores que já vi na vida. Apesar de ser a preto e branco, ou mesmo por causa disso (a televisão da altura era a preto e branco, o que quase lhe atribuía uma aura de “documentário”); apesar da pouca caracterização dos mortos-vivos, dando-lhes um aspecto mais realista de “cadáveres frescos”; apesar da explicação de que a “ressurreição dos mortos” era causada por uma contaminação radioactiva no cemitério (lá está, o medo latente da Guerra Fria). Os restantes filmes de Romero, lamento dizê-lo, aqueles a cores e com muito ketch up, começaram a tender para o exagero e a palhaçada. Interessantes para ver sem pensar muito. Maus efeitos especiais, zombies a invadir supermercados e a conduzir carros. Com estas memórias, também não esperava muito de “Land of the Dead”. Tendo em conta estas expectativas fiquei agradavelmente surpreendida.
Em Land of the Dead, já estamos em pleno apocalipse zombie, com todas as regras que conhecemos. Mas ainda não é a sociedade esfarrapada de The Walking Dead. Os vivos vivem em cidades bem vedadas e defendidas. Equipas bem preparadas vasculham os arredores abandonados em busca de provisões. Numa dessas excursões de busca, o nosso herói “vivo” (Simon Baker do “Mentalista”) repara que um dos zombies manifesta inteligência acima da média zombiesca. Este nosso herói zombie, a que o filme chama Big Daddy, está cada vez mais indignado com os massacres que os vivos infligem aos zombies. Esquecendo, é claro, que os vivos matam os zombies porque os zombies comem os vivos. Mas este zombie está muito revoltado, se calhar com as indignidades com que os vivos chacinam zombies sem distinção: velhos, mulheres e crianças. Os outros zombies não são tão espertos, mas Big Daddy consegue liderar uns quantos numa marcha de indignados para se vingarem dos vivos “maus”.
Isto parece palhaçada mas o filme consegue fazer-nos empatizar com estes zombies maltratados. Até temos pena deles.
Do lado dos vivos também há grandes injustiças. Uma elite de poderosos, ricos e privilegiados, vive num arranha-céus com tudo do bom e do melhor enquanto uma maioria de pobres e excluídos subsiste das sobras nos “subúrbios” da torre. Também alguns destes excluídos se encontram indignados e a planear uma revolta. Estas intenções valem-lhes repressão brutal por parte do chefão das elites.
Este é um mundo onde o dinheiro ainda existe e vale bastante. Um dos membros da equipa consegue juntar o suficiente para comprar um lugar no arranha-céus mas é rejeitado com desculpas. Mas ele sabe, e nós sabemos, que está a ser rejeitado porque é hispânico. Não faz parte da elite, não tem qualquer possibilidade de ascender na vida. Revoltado, também este jura vingança. Já o nosso herói do lado dos vivos só deseja comprar um carro que o leve para bem longe, para onde não haja zombies nem pessoas. (Amigo, como te compreendo! Era exactamente o que eu fazia!)


Todo este ambiente de tensão resulta na destruição da cidade. O zombie Big Daddy aprende por acaso a disparar uma metralhadora e consegue ensinar os outros a fazer o mesmo. [Zombie Rambo] Também os ensina a atravessar um rio, simplesmente caminhando debaixo de água já que não precisam de respirar. [Zombie ninja] Não se vê claramente, mas é ele e o seu exército zombie que consegue fazer explodir as defesas da cidade. É a fúria do herói zombie.


O final é estranho. O nosso herói vivo, relutante mas bonzinho, decide poupar estes zombies espertos. Porque o faz é um mistério. Se calhar porque compreende neles uma consciência de si próprios? Se calhar porque os considera também excluídos, como a grande massa de gente viva nas mesmas condições?
Claramente, a preocupação social do filme já não deriva do consumismo e da apatia, como os originais, mas de uma preocupação com a desigualdade que em 2005 já deve ser gritante. A América já não era a terra das oportunidades. Até os zombies se revoltam, e com razão.


É um filme diferente dos zombies de até então, com algumas cenas perturbadoras que me surpreenderam. Já não julgava que depois de tantos filmes do género ainda alguma coisa me impressionasse, mas aquela cena do umbigo faz mesmo impressão.
The Walking Dead criou outro patamar de qualidade que filmes anteriores não conseguem alcançar (tirando o original “Night of the Living Dead”, de 1968, que é realmente arrepiante), mas este Land of the Dead é um filme cheio de acção que merece ser visto. Gostei de encontrar motivações em todos os personagens, até nos zombies. As diferentes perspectivas conseguem criar-nos empatia e dividir-nos entre a ameaça colocada pelos mortos-vivos e as dúvidas que Big Daddy nos suscita.
Não é uma obra prima, mas vê-se bem.


Curiosidade: neste filme os mortos-vivos já são chamados de “walkers” e “stenchers”. Julguei que “walkers” era originalidade de The Walking Dead, mas enganei-me. É do mestre Romero.


14 em 20