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domingo, 9 de maio de 2021

Maquiavel - O Fundador dos Tempos Modernos, um trabalho de D. D. Maio

MAQUIAVEL – O FUNDADOR DOS TEMPOS MODERNOS
© 2021 D. D. MAIO

Sinopse

Antes ser temido do que amado. Os fins justificam os meios. Quem foi Nicolau Maquiavel, famoso e infame por estas frases, e em que circunstâncias as proferiu? Cínico ou romântico desiludido?
“Maquiavel – O Fundador dos Tempos Modernos” é um trabalho académico breve e despretensioso que tenciona fazer luz sobre a verdadeira natureza do homem (biografia) e dos seus desígnios (pensamento político).


“Maquiavel - O Fundador dos Tempos Modernos” está disponível para download gratuito em www.bubok.pt/livros/266734


sábado, 20 de abril de 2019

O proibido



Transgression is fundamental to the artistic imagination, because the imagination deals with the forbidden.
 



Nick Cave, in Thoughts on Modern Rock Music




sábado, 22 de setembro de 2018

Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche


Eu sou Zaratustra, o Sem-Deus. Pois não sabeis que Deus está morto?
Afirmações destas devem ter sido muito chocantes em 1883, ano em que “Assim Falou Zaratustra” começou a ser publicado. (Apesar de não parecer, o livro está incompleto. Nietzsche tencionava publicar a conclusão.)
A filosofia de Friedrich Nietzsche influenciou todo o pensamento moderno. Mas será que ainda faz sentido ler “Zaratustra”, hoje em dia que somos tão pós-tudo que “Deus está morto” só nos induz um encolher de ombros?

Um livro para todos e para ninguém
Por paradoxal que pareça, “Assim Falou Zaratustra” é uma leitura tão acessível como difícil. A obra é apresentada como um romance fictício da vida de Zaratrusta (Zoroastro). Li algures que Nietzsche escolheu este profeta por achá-lo o primeiro a apontar que todo o conflito ético se baseia numa luta entre o Bem e o Mal. Não devia ser isto exactamente que pregava o Zoroastro original, mas serviu muito bem como modelo. Em “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche utiliza-o como uma quase-farsa, uma sátira ao Velho e ao Novo Testamento, às vezes fábula assumida (quando Zaratustra fala com os seus animais, a águia e a serpente, personagens importantíssimos que também falam). Que Nietzsche tem um ódio especial à religião, e ao cristianismo em particular, reflecte-se logo na afirmação chocante “Deus está morto”.
Chega a ser irritante de tanto que nos martela com isto. Na altura fazia sentido, mas penso que actualmente estamos tão além do pensamento religioso e tacanho em que Nietzsche batia que se torna um bocadinho demais.
Mas que Nietzsche e filósofos semelhantes tiveram influência nota-se ainda: nas pessoas que persistem, e que conheço pessoalmente, em passar um atestado de estupidez a toda a gente que tem tomates de admitir que acredita em algo de divino ou sobrenatural. Aguentem-se, filhos, eu também tive um grande choque quando percebi que inteligência não é sinónimo de sensibilidade. (Até me parece que são características tendencialmente opostas, o que me choca ainda mais.) Da mesma forma, queridos intelectos iluminados, nem só de Razão vive o homem. Mas se no tempo de Nietzsche fazia sentido “abrir os olhos”, hoje em dia já não há desculpa nenhuma e já não tenho paciência para estas manias de superioridade.
O que me leva ao grande tema do livro, o Super-Homem. Zaratustra prega o Homem-que-se-supera, e como o homem se supera constantemente, o Homem-que-se-supera é sempre o homem de amanhã. Por causa deste conceito de super-homem, o livro (e o pensamento de Nietzsche em geral) têm sido acusados de ter contribuído para a doutrina nazi. Admito que também li por causa disso, na curiosidade de saber de onde vêm as coisas. Agora que li, acho esta acusação injusta. É claro que percebo como é que o conceito pode ter sido interpretado assim, mas o livro é tão subjectivo que a interpretação também acaba por ser. Talvez fosse mesmo esse o objectivo. Por alguma razão o subtítulo de “Assim Falou Zaratustra” é “Um livro para todos e para ninguém”.

Afinal, a Fé não está morta
Eu confesso-me o “ninguém” do subtítulo. Muitas vezes não consegui compreender o contexto e a mensagem de algumas passagens. Faltam-me referências filosóficas, nomeadamente as mais próximas do tempo de Nietzsche e em que este batia com ardor. (A tradução que li, anotada, foi muito útil neste sentido.) Noutras passagens, Nietzsche fala de personagens-tipo da sua época que pura e simplesmente já não existem. Actualmente já nem nas igrejas há “adoradores da morte” cujo grande “objectivo” é morrer e ir para o Céu. Talvez apenas existam em seitas de pouca expressão numérica. As grandes instituições religiosas têm e querem ter um papel activo “neste mundo”. (Se deviam ter ou não, não é para aqui chamado agora.) Assim, admito que não apanhei muitas das indirectas, certamente deliciosas à época. Curiosamente apanhei outras, ainda mais obscuras, como aquele curto parágrafo em que Zaratustra faz uma piada ao Espiritismo. Até pensei que tinha percebido mal, mas a anotação confirmou. O que nos diz que nós compreendemos muito bem o que conhecemos e nos interessa. Mas muito do que Nietzsche fala neste livro já não é reconhecível para mim.
A somar a isto, o estilo satírico também me deixou na dúvida muitas vezes. A maior perplexidade surgiu-me na passagem sobre o eterno retorno. Não percebi mesmo se  Zaratustra/Nietzsche estava a expor o conceito ou a gozar com ele. Nunca me preparo de antemão para ler um livro (nem mesmo para um livro de temas filosóficos complexos, como este é, porque gosto de pensar pela minha própria cabeça primeiro e só depois consultar as convenções) mas o conceito não me é desconhecido. Na verdade, cheguei a ele pela via espiritualista de inspiração oriental. Será que dizer isto faz com que Nietzsche (o anti-religião) ande às voltas na cova, ou o contrário? Não tenho resposta. O próprio posfácio do livro menciona o orientalismo no pensamento de Nietzsche como algo de incomum nos filósofos ocidentais da época.
Mas o conceito de eterno retorno é velho, muito velho. Veio do Oriente para os Gregos clássicos e chegou desta maneira ao pensamento filosófico ocidental, aparentemente “depurado” de espiritualices. Na minha opinião, só aparentemente. Dêem-se-lhe as voltas que dêem, o conceito nunca deixa de me parecer místico. Para um pensador aparentemente tão devoto à Razão que diz que Deus está morto, é uma tese paradoxal. Afinal, Zaratustra/Nietzsche passa o livro a criticar aqueles para quem “tudo está perdido, a vida não interessa, nada é novo” e aponta-lhes o homem-que-se-supera como objectivo último e grande esperança da humanidade. Mas se tudo se repete vez após vez, a Humanidade está destinada a correr sempre atrás do futuro sem nunca o atingir. Assim sendo, não têm razão aqueles para quem “tudo está perdido” e nada vale a pena, ou, pelo contrário, é a eterna busca que vale a pena? Mas acreditar que vale a pena é um acto de Fé, não de Razão. É acreditar que a Humanidade está destinada a evoluir e (também) que a Humanidade não regride mais do que já evoluiu.
Talvez a última parte da pregação de Zaratustra (incompleta) esclarecesse estes pontos sem sombra de dúvidas. Se é que precisam de ser esclarecidos. Para mim bastaram e achei “Assim Falou Zaratustra” uma leitura muito válida e provocadora ainda nos dias de hoje. Com algumas ideias concordei veementemente, de outras discordei furiosamente. Aqui e ali fez-me rir. E sobretudo fez-me pensar. Não sei se pensei o que Nietzsche queria que pensasse mas este também já não é o tempo de Nietzsche. Às vezes perguntei-me se ele não estava a dizer algumas das coisas que disse só para provocar. Porque são estes os nossos tempos. Os tempos dos “grandes desprezadores”. Como grande desprezadora que sou, talvez eu e Zaratustra pudéssemos ter sido bons amigos. Daqueles que andam sempre às turras. Eu também teria uma coisinha ou duas para lhe martelar aos ouvidos.




domingo, 6 de março de 2016

Dark Matter (série TV)


Seis pessoas acordam numa nave espacial à deriva sem que tenham memória de quem são, de onde estão, de onde vêm e para onde vão. Não sabem se são a tripulação, não sabem sequer os seus nomes.
A premissa é suficientemente interessante mas, mal impressionada pela falta de qualidade do canal em geral (SyFy), não comecei a acompanhar imediatamente. Só apanhei a série na repetição, e fiquei agradavelmente surpreendida. Já aqui disse muitas vezes que não sou grande apreciadora de ficção científica, mas sei que a ficção científica tem servido, ao longo da existência do género e nos seus melhores exemplos, para criar obras de grande profundidade filosófica. Não estou a dizer que "Dark Matter" seja uma grande série do género, ou que a premissa seja original (na verdade não sei se é original ou não, não acompanho a produção de ficção científica o suficiente para poder afirmá-lo), mas fiquei agarradíssima desde o primeiro episódio! Parte por opção, parte devido ao baixo orçamento, é uma história que dá primazia às questões filosóficas e psicológicas em detrimento do aparato científico (que não existe, o que poderá desagradar aos fãs mais exigentes que querem ver efeitos especiais e criaturas de outros mundos, mas a mim não me incomoda nada).
A série vive do mistério e do suspense, principalmente do mistério, e para escrever esta crítica terei de fornecer mais elementos além da sinopse, mas acredito que não serão os suficientes para constituírem um spoiler significativo.
Voltemos, então, ao princípio. Seis pessoas (quatro homens, uma mulher e uma adolescente), acordam à deriva numa nave espacial sem saberem quem são e que fazem ali. Mal começam a perceber a sua situação quando um deles reanima uma andróide que encontra na nave, desconhecendo que esta está programada para matá-los. Conseguem travar e reprogramar a Andróide, mas esta reprogramação também lhe apaga a memória, colocando-a na mesma situação dos passageiros humanos. As únicas pistas que encontram são em vestígios de ficheiros apagados e corrompidos no computador central, que lhes confirmam que eles são de facto a tripulação da nave em que se encontram. Mais ainda, alguém, muito provavelmente um deles, utilizou um programa/vírus que apagou a memória a todos os outros e, talvez por erro, a sua própria.
Só este enredo bastava para um thriller de suspeita e tensão, em que todos os membros da tripulação se podiam acabar a matar uns aos outros. A série não foi por aí. Tudo isto aconteceu no primeiro episódio, quando de repente são atacados por um inimigo desconhecido, antes ainda de saberem quem são. O que os põe, imediatamente, e literalmente, no mesmo barco (nave). Os nossos passageiros amnésicos só têm tempo de respirar um pouco depois, quando entretanto a Andróide já tinha conseguido recuperar mais ficheiros apagados sobre as suas identidades. É o grande choque: quase todos são criminosos perigosos e procurados. Tirando a adolescente, todos eles são assassinos, ou assim dizem os ficheiros.
Tem sido uma das perguntas mais intrigantes da história da filosofia e da psicologia: a tábua rasa. Hoje sabemos que o ser humano não nasce uma "tábua rasa". No mínimo dos mínimos, o ser humano traz consigo uma herança genética. Ainda há muita controvérsia, no entanto, acerca de se o ser humano já nasce com uma personalidade ou se esta personalidade é moldada pela influência do meio. Da minha observação e experiência pessoais, sim, penso que o ser humano já nasce com uma "tendência de personalidade", por vezes até antagónica ao meio, mas há quem não acredite nisto, e, não sendo ético fazer experiências em seres humanos (desde bebés) de modo a prová-lo, o debate persiste.
O que esta série pergunta, neste momento crucial, é igualmente intrigante. Temos aqui cinco espécimes a quem é dito que são criminosos. Sem a memória de experiências passadas, sem a memória dos constrangimentos de infância e influências da adolescência, sem memórias da educação e dos princípios incutidos ao longo da vida, confrontados com a oportunidade de começar do zero, fazer tábua rasa, e mudar de vida, o que decidem fazer?
O que nos leva à pergunta mais intrigante, se não a mais importante de todas: o ser humano nasce inerentemente bom, ou inerentemente mau, ou as suas tendências morais dependem inteiramente da influência do meio?
A série parece defender a tese de que o ser humano nasce inerentemente bom, porque ao verem os ficheiros os nossos personagens reagem com perplexidade e choque, como se não pudessem ter ficado mais surpreendidos, se não mesmo ofendidos. Nenhum deles parece reconhecer-se nas acusações que lhes são imputadas. (Ou alguém ali finge muito bem!)


Mais tarde, têm a oportunidade de ajudar uns completos estranhos numa situação desesperada. É o primeiro teste. Virão à superfície as criaturas egoístas que alguém diz que são, ou reagirão com o altruísmo desinteressado que contradiz as acusações por que são procurados?
Certas escolas de pensamento defendem que ninguém nasce "mau", que é o meio que empurra o indivíduo para acções condenáveis. Um indivíduo neste momento de libertação, de "renascimento", um indivíduo que não se lembra do meio nem das experiências passadas, voltará ao seu estado inicial "bom", ou nada fará senão manifestar as mesmas más tendências que o conduziram onde terminou antes da perda de memória? Isto é muito interessante, e é a questão fulcral em "Dark Matter".
Um dos personagens destaca-se pelo seu egoísmo. Vou chamar-lhe o Egoísta (embora os personagens tenham sido "baptizados" pela ordem em que acordaram do hipersono: Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis, e a Andróide). Este é o Três, mas eu não gosto de chamar números às pessoas e Egoísta diz muito mais dele. Pois, a tripulação punha a hipótese de vender a nave e dividir o dinheiro por todos, mas a maioria opôs-se. O homem ficou irritado porque queria pôr-se dali para fora e depressa, e diz algo assim: "Mas temos de ficar juntos porquê?! Somos seis estranhos e um robô!" Era exactamente o que eu pensaria. Só a ideia de ficar fechada em qualquer lugar com cinco estranhos provoca-me um ataque de nervos. O Egoísta vai falar com o Samurai (Quatro), tão ou mais egoísta do que o Egoísta, na tentativa de obter apoio para a ideia de vender a nave, quando o Samurai lhe explica que também não tem interesse nenhum em ficar ali, com cinco estranhos e um robô, mas "ainda é muito cedo". O Samurai pretende ficar até conseguir descobrir mais sobre a sua identidade, e não vai deixar os outros enquanto acreditar que juntos têm mais hipóteses de perceber o que se passou. O que é razoável, e até o Egoísta concorda, mas pôs-me a pensar noutra dimensão existencial deste problema. Aquele instante, inicial, de liberdade do indivíduo, terminou no momento em que os personagens se confrontaram com o mundo. Independentemente de serem criminosos ou não, independentemente do que pensam das acusações que lhe são feitas, é aquilo que o mundo, aparentemente, pensa deles, que introduz consequências que imediatamente limitam a liberdade individual, e não durou muito o instante de libertação em que o indivíduo podia ser tudo o que desejava. O indivíduo, em contacto com a sociedade, apenas é livre interiormente. Não é livre da maneira como a sociedade o vê, justa ou injustamente, e a sociedade fatalmente cerceia a liberdade individual.
Então, porque é que as pessoas se juntam? Porque é que aturam a família, os colegas de escola, os colegas de trabalho, até alguns amigos de conveniência? Não, não é porque o ser humano é um animal gregário e gosta muito de companhia. Ficamos juntos porque precisamos uns dos outros. Para sobreviver. O ser humano é um animal gregário porque há força nos números, porque desde tempos primitivos era necessário uma tribo para caçar um mamute e proteger o território de outras tribos, e da mesma maneira ainda hoje nos submetemos a viver debaixo do mesmo tecto com famílias que detestamos, e frequentar escolas e cursos que abominamos, e ir trabalhar porque precisamos de um meio de sobrevivência. A liberdade total só existe em estado selvagem, na selva, que é possível mas dá muito trabalho.
Os nossos personagens continuam amnésicos e indefinidos, tendo ainda a liberdade individual de escolherem o futuro, mas o momento inicial de liberdade absoluta já tinha passado e agora forçosamente têm de resolver primeiro o passado, assim que o descobrirem.
É interessantíssimo assistir a como aquele grupo de estranhos começa imediatamente com os joguinhos que tornam a insuportável a coexistência humana: os segredinhos, os golpes de poder, a manipulação. Fantástico, e ainda antes de se conhecerem a si próprios muito menos uns aos outros! Só por isto já vale bem a pena ver e eu diverti-me imenso!
"Dark Matter" pode não ser uma série de excepcional qualidade (nem tem os meios para isso) mas está muito acima de outras séries medíocres que têm saído de origens mais respeitáveis: "Under the Dome", "Sleepy Hollow", "The Strain"...
Por falar em "The Strain", não podia ter tomado melhor decisão o actor Roger Cross ao deixar-se decapitar por Setrakian, porque o personagem dele não ia a lado nenhum (nem a série, convenhamos) quando o aguardava um melhor papel como Six em "Dark Matter". Até Natalie Brown, actriz que interpreta uma personagem principal em "The Strain" (é a mamã vampira), arranjou tempo para figurar como convidada especial num episódio de "Dark Matter", o que nos diz muito sobre o ritmo -a falta de ritmo- que "The Strain" impõe tanto aos actores como aos pobres espectadores. E quando comparamos o que em princípio nem devia ter comparação, "Dark Matter", pelo menos, consegue manter o suspense de um episódio para o seguinte. É daquelas séries que apetece ver toda de uma vez. Assistir a "The Strain", pelo contrário, já se tornou um castigo masoquista.

Não é mau, mas podia ser melhor, mas não é mau
A série acabou com um choque! Um choque tão mal explicado e imprevisto que foi um alívio saber que renovaram para uma nova temporada. Podia ter acabado assim, e os espectadores podiam ter ficado para sempre a tecer explicações e conjecturas, mas quem é que quer isso? Por outro lado, eu talvez preferisse que a série tivesse resolvido a história nos 13 episódios, e terminasse ali. Notou-se, nesta primeira temporada, que houve muito "encher de chouriços", embora efectivamente bem justificados e disfarçados nos episódios em que foi necessário desenvolver os personagens de quem não sabíamos nada (nem eles deles próprios!). Receio, por isso, que a segunda temporada se torne ainda mais arrastada, que tem sido um mal generalizado a certas séries que começam com uma boa ideia e que depois se põem a fazer render o peixe enquanto houver audiência, o que transforma a boa ideia numa seca insuportável.
Terminada, então, esta primeira temporada, posso dizer que ficou abaixo das minhas expectativas. Tudo aqui indicava um drama psicológico e filosófico (e podia tê-lo sido, ao nível das melhores obras do género), mas demasiadas vezes a série enveredou por cenas de acção "rambóides" (até zombies isto meteu!) que só serviram para baixar o nível. Pode ser uma opinião, mas é a minha. Já não me queixo, todavia, do sentido de humor desta série. Muitas das piadas são subtis ou acontecem quando menos se espera. Uma das minhas preferidas, por exemplo, quando um dos personagens diz a outro: "A raiva não adianta". E o outro pergunta: "Estás a falar comigo?" E o primeiro responde: "Não. Estou a falar com o banco passivo-agressivo vazio a teu lado." Não é toda a gente que percebe estas piadas, e eu gosto disso. Existe inteligência por trás desta série, por muito que mascarada pelas necessidade de acção que entretenha a audiência menos... intelectual.
Por fim, o  que não será exactamente um spoiler porque nunca passou de uma conjectura minha, sempre pensei que o título "Dark Matter" significava que eles teriam perdido a memória ao passarem inadvertidamente por um qualquer campo "magnético" (ou afins) ainda desconhecido da ciência que tivesse esse efeito no cérebro humano. Afinal não era nada disso, e parece que o próprio título "Dark Matter" é simbólico e se refere à obscuridade em que ainda não sabemos muito sobre o cérebro, nem sobre o que nele guarda a memória ou a identidade, aquilo a que se chama alma. Como diz um dos personagens: "Compreendo que alguns de nós foram conduzidos a isto devido às circunstâncias, mas há pessoas que já nascem más e nunca mudarão." E como diz outro personagem: "No fim, acabamos sempre por ser quem somos". Quem discordar que argumente.
"Dark Matter" tenta demonstrar isso mesmo, como da amnésia cada um dos personagens regressa à sua essência, seja ela qual for, boa ou má ou nem uma nem outra. Não é uma série excepcional, mas consegue prender-nos de episódio para episódio e eu estou em pulgas pela segunda temporada. Em termos de narrativa baseada no mistério e no suspense, é o mínimo que se pode pedir e recomendo.
Um último destaque, muito especial, para a cena inicial do primeiro episódio da série. Se ainda não viram, reparem. Se já viram e não repararam, observem outra vez. A nave à deriva no espaço, completamente apagada, sem qualquer sinal de vida, transmite vibrações de Nostromo, numa homenagem a "Aliens". Homenagem que não é única, a "Aliens" e a outras obras míticas da ficção científica, mas esta primeira cena em especial promete-nos que não vamos assistir a uma série qualquer. Podia ser melhor? Podia ser muito melhor, mas funciona.


sábado, 26 de junho de 2010

"A Filosofia Segundo Perdidos"



"A Filosofia Segundo Perdidos" é uma compilação organizada por Sharon M. Kaye que engloba uma série de pequenos ensaios de diversos autores que abordam a série "Perdidos" sob o ponto de vista da filosofia, da mais clássica à mais moderna.
Ler um livro destes fez-me sentir humilde, e perceber que não sou tão inteligente quanto imaginava e que sou muito mais ignorante do que pensava. É esta capacidade que têm sobretudo os autores de filosofia americanos de tocar o homem comum, sem pretensiosismo, e de o levar numa aventura intelectual que põe toda a "máquina" a trabalhar até... bem, na verdade, até onde esta conseguir dar. Mas esta humildade, com que o leitor médio se tem de confrontar, este vislumbre de que afinal há muito mais para descobrir do que pensámos a princípio, é no fundo o que nos faz sentir humildes e, ao mesmo tempo, empoleirados nas costas de gigantes, almejar um dia a sermos maiores e a ver também mais longe.
Só para o mais distraído é que "Perdidos" é apenas uma série de televisão igual às outras, para consumir e deitar fora. Perder "Perdidos" é simplesmente perder o melhor que se faz -- corrijo, o melhor que já se fez -- em séries de televisão até ao dia de hoje. Perder "Perdidos" é perder uma chave civilizacional.
Neste livro, inspirado pela série, variados autores dissertam sobre os temas filosóficos suscitados pelas primeiras três temporadas (tenho para mim que a partir da quarta era chamar os cientistas a comentar, em vez dos filósofos), abordando temas como o determinismo, o livre-arbítrio, a ética, a ciência, a fé, e os outros (em todos os sentidos, até no de Sartre, cujo existencialismo é também peça fundamental de "Perdidos"). Mas o meu artigo preferido é mesmo o último, e intitula-se "Perdidos e o problema da vida depois do nascimento", que é como quem diz "a vida antes da morte". E qual é o problema da vida antes da morte? O seu sentido, obviamente, ou a falta dele.
Jeremy Barris é de facto o autor que melhor resume uma certa atitude desatenta em relação a "Perdidos":

Desfrutar de Perdidos significa ter uma experiência profunda, existencial, que nos liga a temas básicos da nossa existência humana. "Perdidos" produz este tipo de experiência de uma forma especialmente clara e directa e, desse modo, pode ajudar-nos a compreender a razão pela qual outros programas exercem tanta atracção sobre nós, incluindo os de detectives e os de mistério, continuando a prender o nosso interesse.
Os críticos culturais comparam, por vezes desfavoravelmente, a cultura ocidental contemporânea com a antiga cultura grega, cuja arte de contar histórias não constituía sobretudo uma forma de escapar à vida, sendo em vez disso uma forma habitual de experimentar profundas questões a seu respeito. Eu sugiro, contudo, que a lição de Perdidos é que a forma habitual de diversão da nossa cultura constitui também por vezes esse tipo de arte profunda.

Pois:

Ao contrário da ciência, a filosofia não descobre coisas desconhecidas, nem fornece novas informações sobre coisas familiares. Em vez disso, o que é estranho à primeira vista, lida com coisas que todos, na verdade, já sabemos muito bem. Ajuda-nos a descobrir a natureza destas coisas familiares mais profundamente do que as conhecíamos antes. Este interesse num conhecimento mais aprofundado de coisas familiares expressa-se num sentimento de espanto acerca das coisas no mundo à nossa volta, uma sensação que todos por vezes experimentamos. Platão (428-347 a.C.) escreveu que "o espanto ( ... ) é característico do filósofo (...), é aí, e em nenhum outro sítio, que a filosofia começa".

"Perdidos" dá muita atenção à razão e à forma como cada pessoa chegou à ilha. Sob muitos aspectos, o modo como o programa apresenta e explora esta questão ecoa a forma como nós, nos nossos momentos de maior reflexão, somos perturbados pela questão: "Porque estamos aqui?".
(...)Como resultado, o programa é acerca do mistério. As histórias do passado de cada uma das personagens faz sobressair, de modo semelhante, as estranhas voltas que a suas vidas dão e as espantosas coincidências entre as suas vidas (...)
Este mistério da chegada dos náufragos à ilha está no âmago das nossas vidas, levando-nos à pergunta acerca da vida: "Porque estamos aqui?". Em termos heideggerianos, nós, tal como as personagens de "Perdidos", achamo-nos atirados para a situação da nossa vida, como partes de um meio ambiente e de uma história basicamente desconcertantes, nenhum dos quais feitos por nós, e ambos, sob muitos aspectos, indiferentes às nossas preocupações e à nossa própria existência.
Outro sentido da pergunta "Porque estamos aqui?" é se existe um propósito para estarmos aqui e, se tal for o caso, que propósito será esse. "Perdidos" presta uma especial atenção também a este sentido da questão. Estarão os náufragos ali para realizar uma tarefa importante, para servir um objectivo importante, embora desconhecido, como Locke acredita? Ou estarão talvez ali para serem moral ou espiritualmente redimidos?

A pergunta que a série e o autor nos põem é esta: E nós, porque estamos aqui? Para cumprir um destino pré-determinado por uma entidade exterior (Deus, a natureza, os nossos genes), ou teremos livre-arbítrio e a liberdade de escolher o nosso caminho?

É curioso também que antes de ler este livro nunca tinha reparado neste pormenor escandalosamente evidente:

Também é interessante que várias pessoas deste pequeno grupo tenham nomes de grandes filósofos do séc. XVIII: John Locke, (Desmond) Hume e (Danielle) Rousseau.
Há mais exemplos pela série fora, mas o que eu gostaria de destacar é este comentário de Jeremy Barris, imperdível:
E, mais importante, a personagem Henry Gale é interpretada pelo actor Michael Emerson. Coincidência? Ou será que o campo electromagnético da ilha se libertou do controlo dos argumentistas e começou agora a absorver o nosso próprio mundo para a sua realidade?
Penso que ele se refira a este Emerson, Ralph Waldo Emerson, de quem se diz:

Emerson's religious views were often considered radical at the time. He believed that all things are connected to God and, therefore, all things are divine. Critics believed that Emerson was removing the central God figure; as Henry Ware, Jr. said, Emerson was in danger of taking away "the Father of the Universe" and leaving "but a company of children in an orphan asylum". Emerson was partly influenced by German philosophy and Biblical criticism. His views, the basis of Transcendentalism, suggested that God does not have to reveal the truth but that the truth could be intuitively experienced directly from nature.
Pode muito bem ser que o campo electromagnético da ilha se tenha escapado pelo écran da televisão... Depois de "Perdidos", isso é certo, não direi que tudo mudará, mas sem dúvida que muitas pessoas se irão questionar duas vezes se devem ou não carregar no botão.

Acedia
Outro autor que me fez pensar foi Daniel B. Gallagher, dissertando sobre São Tomás de Aquino:

Rose mantém-se afastada daquilo a que São Tomás chama, em Latim, acedia, o maior dos pecados contra a fé. Embora seja muitas vezes traduzida por "preguiça", acedia é um termo mais técnico. Designa um tipo de torpor que impede a pessoa de desfrutar das coisas que são genuinamente boas. É uma paralisia espiritual que bloqueia a capacidade de olhar para além do mal. É "olhar para um bem valioso como sendo impossível de alcançar, quer por si, quer com a ajuda dos outros" e pode "por vezes dominar os afectos de uma pessoa, ao ponto de ela pensar que não mais poderá acolher aspirações ao bem".

Nunca pensei sofrer desta coisa que tem nome de doença e que se chama acedia, o maior dos pecados contra a fé. Mas, obviamente, eu não concordo nada com Tomás de Aquino. Não deixa, no entanto, de ser divertido ler estas linhas. (Ò Freud, a falta que tu fazias, de facto! Curiosamente, Freud é, sente-se, uma persona non grata para alguns destes autores -- a maior parte ignora-o -- talvez porque Freud explica o irracional e os filósofos não gostam nada do irracional, convencidos como estão de que o ser humano é todo ele "santo intelecto". Não fosse isso, eu até gostaria mais de filosofia).

Não quero deixar este post sem participar na dança. Se há perguntas, é para que se respondam. Mas talvez não da forma que os filósofos mais gostariam.

Alguma vez estiveram perdidos?
É a pergunta como que Sharon M. Kaye abre o livro, descrevendo de seguida a primeira vez que se perdeu dos pais na infância e as emoções que tal lhe suscitou.

Fiquei a pensar nisto e, estranhamente, cheguei a esta conclusão: eu nunca me perdi. Sempre fui uma criança cuidadosa, ultra cuidadosa, daquelas que sabem a morada de cor, o número de telefone, o telefone da polícia, onde ficam os bombeiros, e a quem só faltava marcar o caminho com pedrinhas, como na história infantil, para saber voltar a casa. Mas atenção, pedrinhas, não miolo de pão, pois, tal como como na história infantil ("Hansel e Gretel") os passarinhos comeram-no.
Não houve momento nenhum da minha infância em que me tivesse perdido dos pais, guardiões, amigos e "tratadores" em geral. Sabia sempre onde eles estavam, sabia sempre como voltar. (Às vezes eles é que julgavam que eu me tinha perdido, mas na verdade andava era fugida.)
Este cuidado exagerado foi-me abandonando com a idade. Já na adolescência, perdi-me da Praça da Figueira para o Rossio. Ou seja, não consegui encontrar o Rossio. Bem, para dizer a verdade, embora tenha metido pela rua errada, não foi por isso que não encontrei o Rossio. Foi preguiça de voltar atrás. E, para ser completamente franca, mais uma vez não estava perdida. Acontece que optei pela rua que me pareceu mais familiar. Em vez de perdida estava, pelo contrário, a caminho de casa.
Pareceu-me durante muito tempo que "perder-me" era uma terrível impossibilidade. Tive de fazer muito por isso. Finalmente, lá consegui. Com uma ajudinha de substâncias químicas, e nem sequer ilegais, mas lá consegui viver uma furiosa loucura. Por uns tempos, consegui esquecer-me do caminho. Hoje esforço-me por não me tornar a lembrar. Tenho feito um bom trabalho em continuar "perdida".
(Ou será fugida? Sim, é novamente fugida.)

O que fariam se estivessem na ilha?
Esta foi a pergunta a que mais me custou responder. Tive de admitir a mim mesma que se me encontrasse naquela ilha, depois de um acidente de avião, na companhia daquelas personagens (americanos malucos, francesa maluca, iraquiano maluco, sul-coreana cabra, nigeriano traficante-de-droga-que-finge-ser-padre, e quejandos) choraria amarga e inconsolavelmente. Isto diz muito, aparentemente, de uma personalidade derrotista. Mas só aparentemente. Em segunda análise, teria muito boas razões para chorar. No meio daquela gente estaria, muito mais do que eles, completamente privada da minha cultura. E a perspectiva de nunca mais ouvir música gótica nova é motivo suficiente para qualquer gótico cortar os pulsos.
Mas depois pus-me a pensar a sério. O que faria eu se me encontrasse naquela ilha, quando me passasse a choradeira? Obviamente, tentaria fugir de lá a sete pés. Nem que fosse preciso recorrer aos Outros e trair os restantes. Afinal, nenhum deles são "os meus". Faria como Desmond, que fugiu assim que pôde.
Mas há aqui uma armadilha, contudo. No momento em que me cheirasse a Jacob, ou à possível existência de Jacob, já não tenho tanta certeza se não faria antes tudo para o encontrar.
Isto, no entanto, digo eu agora que vi mais algumas temporadas e sei onde está a manivela "de saída". Não custa muito procurar Deus quando se lhe conhece escapatória... caso Deus não seja aquilo que se estava à espera.
E não, decididamente, não carregaria no botão. No dia em que o deixou de fazer, John Locke tornou-se o meu herói. Durou pouco; depressa o deixou de ser. Quanto mais os vejo mais me convenço que são todos doidos, alucinados e, sobretudo, perigosos. Pensando melhor... na dúvida, foge. Era mesmo de me pôr a milhas daquela maluquice toda.

Por incrível que possa parecer, ainda há uns quantos por aí que não viram "Lost". A esses, agora que a última temporada da série está prestes a passar na televisão portuguesa, recomendo encarecidamente: não vejam. Não só vão perceber muito pouco como não conseguirão desfrutar de toda a experiência "Perdidos". Voltem atrás, vejam o princípio, e depois, sim, podem vir agradecer-me pelo conselho.
É que há algumas coisas na vida que só interessam quando consumidas na sequência certa. Esta é uma delas.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Da ética

Escrevi o seguinte texto como resposta a um comentário ao post A geração que matou Abril mas acontece ser um dos meus temas preferidos e merecedor de destaque. Aqui estou a responder ao comentador Tomás, d'A Ponta da Pila (o nome do blog é da autoria do comentador), cujos comentários costumam ser, no mínimo, interessantes, se bem que raramente concorde com eles. Desta vez proporcionou-me o seguinte comentário/resposta, que acabou por sair completamente do âmbito do post inicial:

Vou também responder ao Tomás.

O que achas que se devia fazer a todas as pessoas que não acreditam na Ética e não subscrevem a fraternidade? Metê-los a todos em campos de concentração e reeducá-los? Distribuir umas chapadas que estiveram em falta quando eram crianças? Removê-los de circulação? Purgar os heréticos?

Geralmente são as pessoas sem ética que tentam meter os outros num campo de concentração e exterminá-los. E esta não é uma boa história inventada por mim (mas obrigada pelas palavras elogiosas, estava de facto inspirada nesse dia) mas infelizmente real, muito real.
Este simples parágrafo, para bom entendedor, chegaria como resposta, mas quero dizer mais.
A sociedade humana, como a Psiquê abordou acima, já para não falar do sucesso da espécie como um todo, baseia-se em mais do que a sobrevivência do mais apto. Aliás, basta olhar para a natureza e perceber que são as espécies que estabelecem melhores laços de entreajuda social, desde os leões aos chimpanzés passando pelas curiosas sericatas, que mais hipóteses têm de sobrevivência num ambiente hostil. A solidariedade é uma forma de inteligência. Não querendo ser uma darwinista social, mas não desprezando os argumentos da tese, o ser humano tem toda a conveniência em ser solidário, ético, ou, se quiserem, em seguir a regra dourada de "não fazer aos outros o que não queres que te façam a ti". No mínimo, evita o conflito social. Isto já é ser muito cínica (ou simplesmente darwinista social) mas parece-me que a sociedade funciona melhor quando os seus elementos sabem (porque são inteligentes) que as gerações mais novas não pretendem eutanaziá-los quando chegarem à velhice. Na selva manda a lei da selva. Mas não é na selva que a sociedade avança e progride. Não é num clima de guerra social e desconfiança generalizada que a espécie se mantém.
Nem com os leões isso funciona. O leão dominante mata as crias do leão derrotado, mas na sociedade dos leões não há memória, nem sensibilidade, porque não o QI não é suficientemente evoluído. A memória, a sensibilidade, são demonstrações de inteligência. Se a leoa se lembrasse que o leão alfa lhe matou os filhos era o fim da sociedade dos leões. E nós temos obrigação de agir de forma mais inteligente do que leões porque somos mais inteligentes.
O que fazer então aos que não percebem o interesse da ética para a sobrevivência da espécie? Tratá-los como gente menos inteligente, nem mais nem menos. Em alguns casos, tratá-los como os criminosos que são (quando o são e muitos são). A ideia de exterminar atrasados mentais também não é nova e também não é minha. Mas é contra a coesão social e todo o progresso da espécie, nem que seja porque as "leoas" do género humano não esquecem. Ainda estamos a pagar pela última experiência em ética. Mas a memória de alguns parece ser curta. Esperemos que a memória (mesmo inconsciente/colectiva) da maioria seja de maior duração, ou estamos bem fodidos, curto e grosso.


É importante falar destas coisas. Cada vez mais importante.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A juventude é desperdiçada nos jovens

"Youth is wasted on the young"

Provérbio não sei de onde que cada vez faz mais sentido à medida que os anos passam. Soubesse eu o que sei agora e tivesse eu menos vinte anos... Não estou a dizer que desaproveitei a juventude. Pelo contrário, fui uma privilegiada. Só fazia o que me dava na real gana, e isto de fazer apenas o que nos dá na real gana é um luxo que de poucos se podem gabar. Não há dinheiro no mundo que o pague.
Mas olhando para trás, agora percebo que ainda podia ter feito tão mais se soubesse mais. Ah!!! Ingénua juventude! Dai-me hoje um corpo e a vitalidade dos 15 anos e criai um monstro! Deve ser pela Providência Divina que ninguém deve saber tanto com tão pouca idade!

Vêm estas reflexões não só mas também a propósito de um mail recebido das Graveyard Sessions, já publicado no Pórtico, que reza assim:


Estamos à procura de novos membros a integrar na nossa equipa

Gostas de cultura, música e organização de eventos?
Gostarias de fazer parte da nossa equipa?
Envia-nos o teu CV com fotografia e fala-nos um pouco sobre ti.


graveyardsessions@yahoo.com



Actualmente não me posso voluntariar. É a falta de tempo, o trabalho, o pão de cada dia.
Mas digo-vos aqui de cátedra o seguinte, e a razão pela qual penso que a juventude é desperdiçada nos jovens: se fosse mais nova e tivesse mais tempo, também não me atreveria.
E porquê, perguntam? Porque os jovens não sabem nada da vida. Os jovens perdem a juventude a sentir-se inseguros, desenquadrados, tímidos, indecisos, a tentar descobrir onde pertencem e o que querem ser. Já não crianças mas ainda não adultos, perdem tempo, e o tempo não volta atrás, e quando se percebe finalmente o que se quer e o que se anda cá a fazer chegamos à conclusão de que estamos prontos para a morte.

Bem dizia o outro. A vida devia começar nas fraldas da velhice, desabrochar na descoberta da adolescência, definhar nos seios ternos da mãe, e terminar triunfantemente num orgasmo. Deus fez tudo ao contrário. Certamente de propósito.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

É contagioso. Aqueles derrotados por um amante com quem não podem competir arranjam por sua vez um amante idêntico. Um amante fiel. O melhor amante do mundo. Eis a maior ironia de todas.

sábado, 16 de junho de 2007

Pensamento do dia

Não há virtude de barriga vazia.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Os sete pecados mortais: A versão moderna

É a minha vez de repescar um post antigo em protesto silencioso para com o estado da nossa sociedade. Já não tenho palavras novas.


A Soberba
Começo pelo meu pecado preferido. E o meu. A Soberba é quando a auto-estima se transforma em arrogância, em desprezo pelo outro. O soberbo sente-se superior, mais sábio, mais importante, mais tudo. O soberbo está tão apaixonado por si próprio que nunca conseguirá amar o outro. O soberbo nunca saberá o que é o amor.

A Inveja
A Inveja é o pecado que mais abomino. A Inveja é o contrário da soberba. O Invejoso sente-se para sempre inferior, pequenino, insignificante. Procura no outro aquilo que não tem e inveja-o por tê-lo. Se o soberbo não conhece o amor porque não consegue amar o outro, o Invejoso não conhece o amor porque nunca conseguirá amar-se a si próprio.

A Avareza
A Avareza é a incapacidade de partilhar, é a ganância, o egoísmo. É a falta de solidariedade. É a exploração do trabalho, do ser, do ter do outro. O Ávaro não conhece o amor porque vê no outro um objecto a adquirir.

A Gula
A Gula é a grande amiga da Avareza. A Gula é o consumismo. É o querer sempre mais, sempre mais, sempre mais, é ter um carro maior, uma casa maior, e mais luxo, mais conforto, mais um livro, mais um cd, mais um jogo. É a falta de auto-domínio. É o crédito. É também o alcolismo, a droga legal e ilegal, o consumo do próprio corpo ao fazer o corpo consumir o que não deve. É o tabaco. É o viver para os prazeres materiais. É por isso que o Guloso não conhece o amor no outro; os bens materiais não têm amor para dar.

A Luxúria
A Lúxuria é o viver para os prazeres da carne. É a superficialidade, é a banalidade, é a falta de pensamento. É o verniz dos socialites. São as cabeças ocas, a exibição do corpo e das roupas que o cobrem, a beleza exterior e não interior, a beleza falsa e as operações plásticas. É a extravagância desmedida colada ao corpo. É o próprio endeusamento do corpo. (Pensavam que isto era a Soberba? Por vezes aproximam-se. Pensavam que a Lúxuria era ser escravo do sexo? Também, mas o sexo é o corpo.) O Luxurioso não conhece o amor porque não reconhece no outro mais do que a superficialidade da pele.

A Ira
A Ira é a violência, doméstica, urbana, rural. São os socos, os machados, as armas. São também os gritos, os insultos, os olhares de ódio. É o ódio tornado acção. É o rebentar dos instintos mais agressivos da natureza humana. É a intolerância. É o racismo e a xenofobia. É a destruição do mais fraco ou a destruição pura e simples. O Irado não conhece o amor porque destrói tudo em que toca.

A Preguiça
A Preguiça é o pecado mais perigoso. É a apatia, é o deixa andar, é o ir na corrente, é o não fazer nada, é o esperar que os outros façam tudo. É o valha-me Deus. É a alienação. É a completa insensibilidade pelo problema do outro. É o silêncio cúmplice e conveniente, a mentira para não arranjar problemas. É a cobardia. É a recusa em ir mais longe, em aprender, em partilhar, em explorar novos territórios. É o fechar na própria concha. É a estagnação. O Preguiçoso não conhece o amor porque conhecer o outro dá muito trabalho.


Original aqui, há dois anos.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Ter e não ter

Cheguei à conclusão de que há certas alturas na vida para ter certas coisas, brinquedos que têm uma época própria e cuja falta no momento crucial é impossível de compensar. Os baloiços são também para adultos mas apenas uma criança pode usufruir a loucura de um baloiço como quem descobre que sabe voar.
Ter não é mais importante do que ser (ao contrário do que este mundo de imagem nos tenta fazer acreditar) mas não ter a coisa certa no momento certo é uma perda irreparável. Há um momento certo para ser embalado ao colo da mãe, há um momento certo para dar os primeiros passos, para descobrir o mistério de ter o primeiro amigo, há um tempo certo para amar, e só um momento certo para morrer.
A falta, ou a perda, deste tempo, pode transformar um ser num outro ser completamente diferente. Quem seríamos nós se não nos tivessem faltado os "teres" que formam os "seres"? Seríamos todos iguais? Será de propósito que uns não podem ter o que precisam para descobrirem o seu destino, a sua única e irrepetível direcção?
Continuo a sentar-me, de olhos fechados, no silêncio, a lembrar-me do que é realmente importante. Outras vezes desfaleço e escondo-me e ouço música triste e bebo o suficiente para desatar as lágrimas.
Nesses momentos em que me sinto absolutamente sozinha com o universo, ele devolve-me a maior paz do mundo.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Vida pós-morte

Há pessoas que têm experiências de quase morte em que vêem uma luz branca e entes queridos já falecidos, e há pessoas que passam pelo mesmo e não se lembram de nada antes do momento em que tudo ficou negro.
E se, apenas como hipótese, a vida depois da morte não é para todos mas só para alguns? E se é um dom, ou uma recompensa, apenas para os dignos?
E se se nem sequer é um dom ou uma recompensa, mas algo de puramente aleatório?
Claro, não seria justo, mas há alguma coisa que o seja?


Pleasant nightmares, everyone.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Sabedorias várias

Citações


Everything moves toward their end.
Nick Cave

Com amigos destes, quem precisa de inimigos?
Autor desconhecido (?)


What fabulous lives you must lead, to come up with a question like that.
Andrew Eldritch


Só podes culpar os pais até aos 25 anos. A partir daí, a culpa é tua.
Autor desconhecido


Go ahead, punk, make my day.
"Dirty Harry"


Se tiveres dúvidas, foge.
Autor desconhecido


I don't necessarily agree with everything I think.
Andrew Eldritch


If you want ever to be promoted, make sure you're not irreplaceable.
Autor desconhecido


Se não tens nada de bom para dizer, não digas nada.
Autor desconhecido


Play dead has always been one of the best strategies to stay alive.
Autor desconhecido




Algumas das minhas próprias pérolas de sabedoria


Se fores apanhado a mentir, exige provas. Se não houver, nega até ao fim.


As coisas vão mal quando acordas a chorar.


Algumas pessoas fazem as coisas acontecer, algumas observam enquanto elas acontecem e algumas interrogam-se sobre o que aconteceu.
Sou das terceiras.


Antes de mentires, certifica-te que não és apanhado. Se não for possível, mais vale dizer a verdade.


Mentir é mau.
Às vezes, não mentir é pior.


Quando não souberes que direcção tomar, fica quieto até descobrires.
Se te obrigarem a dar um passo em frente e caíres num buraco, lembra-te: a culpa não foi tua.


Podes não gostar de mais ninguém. Mas se te dizes meu amigo é obrigatório que gostes de mim.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

A queda vertiginosa



O nosso corpo é como a montanha russa. Desde a infância até à louca adolescência, ele estica, cresce, desenvolve, acelera. Alguns de nós, os mais loucos, puxamos pela máquina e aceleramos pela vida porque é um crime desperdiçar a potência da máquina. Sem regras.
(Também é preciso ter sorte para nascer numa máquina topo de gama mas a natureza é bondosa e neste caso dá em fartura à maioria das criaturas.)
Quando chegamos aos 30 anos o nosso corpo começa a dar sinais. Até certo ponto, talvez até aos vinte e tal, mais coisa menos coisa, nem se dá por ele. Já não estica, já não apetece mexer tanto, já não desenvolve, mas funciona.
E depois chega-se aos trinta.
Passar dos trinta é como a montanha russa. Quem fez bom uso da sua máquina e experimentou a montanha russa pelo menos uma vez, sabe o que é subir, subir, subir, devagarinho e em segurança, até àquele patamar em que o carro quase pára. Aí percebe-se que a gravidade não admite ser contrariada. E de repente vislumbra-se, com terror, a queda vertiginosa que nos estava preparada. Mas verdade seja dita, ninguém se mete na montanha russa por outra razão senão a queda!
E é assim algures depois dos trinta. Periclitante, a máquina pára por instantes e ficamos na corda bamba do equilíbrio, mas sabemos que vai para baixo, inevitavelmente para baixo, e o frio na barriga que nos vai dar. É mesmo uma questão de tempo.
De repente as coisas deixam de funcionar. Se não é um pé é uma mão, se não é o pescoço é o tornozelo, se não é a cabeça é o coração. E se dantes a máquina se auto-regenerava, agora já não é bem assim. A máquina está cansada e não desenvolve. Só há uma saída airosa. Quando cair, deixá-la cair com o mesmo entusiasmo com que subiu.
Para os que acreditam que há uma segunda viagem, há que apreciar esta. Para os que não acreditam, é obrigatório apreciar esta.
E a queda também.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Memórias

Um homem desesperado comete erros uns atrás dos outros.


-§-



A ignorância é muito possivelmente a raiz de todos os males.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

A chave da sobrevivência é enfiar a cabeça em fantasia.

domingo, 16 de outubro de 2005

Respeito

Alguém ainda sabe definir o que é o "respeito"?
A sério, sem ajuda do dicionário.
Fica o desafio.

sábado, 1 de outubro de 2005

Das almas gémeas

Enquanto alguns de nós procuram no outro o seu oposto, outros procuram uma alma o mais gémea possível. Quase uma reflecção no espelho, o mais próxima possível.
Penso que não é narcisismo. Penso que é uma característica das pessoas, igual a muitas outras características como gostar de louras ou gostar de morenas.
Há pessoas e pessoas. Algumas procuram o diferente, outras o igual.
Muitas pessoas não percebem isso e passam a vida a forçar o que gosta do igual a gostar do diferente, e vice versa. Outras há, também, que não percebem isto, e tentam desesperadamente adaptar-se ao diferente ou ao igual quando só podem ser felizes com o igual ou o diferente.
Esta é uma grande causa de amores não correspondidos, se não a maior de todas.

domingo, 21 de agosto de 2005

Conselho do dia

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.

Nunca.

E, disso, ninguém, mas mesmo ninguém, me pode acusar. Eh bien. Quando eu fôr, sei que fiz tudo o que podia ter feito. Nada a lamentar, muito menos o que podia ter feito e não fiz.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Segunda vida

Não sei quantas pessoas passaram por esta experiência. Não são muitas as que partilham, mas lembro-me de Florbela Espanca dizer algo como "não me recordo das outras que fui outrora". Mas será que muita gente se apercebe? Será que se lembram?
Há cerca de dez anos, um pouco mais, eu morri. Pouco antes de acontecer eu tive aquela certeza de que a vida não podia continuar. Olhava para as coisas como se as estivesse a ver pela última vez.
E de facto estava. Nunca mais veria as coisas da mesma maneira.
Depois de alguns anos de luto pela minha "partida", confusão e desorientação, e possivelmente vagueando como um fantasma que não sabe que morreu, um dia acordei renascida. Eu era agora uma pessoa diferente e tinha uma vida diferente. Experimentei uma forma invulgar de reencarnação.
Pergunto-me quantos têm esta magnífica oportunidade? Quantos se lembram de morrer numa só vida?
Nesta nova existência, sou apenas uma criança. Nem sequer tenho idade para ser adolescente. Ainda não atingi a minha nova maturidade. Acima de tudo, ainda não sei o que quero. Estou na escola outra vez.

Mas pensando bem no assunto, olha o que se poupa em encarnações!