10 mil pessoas vivem no Silo, uma cidade subterrânea com 144 níveis. O ar lá fora está envenenado. O Silo é o único refúgio para sobreviver. Tirando isso, ninguém sabe quem construiu o Silo, nem quando. Os habitantes do Silo só sabem que há 140 anos houve uma rebelião de insurrectos que queriam abrir a porta ao exterior. Antes disso não há memória e a História está proibida. Até certos objectos quotidianos, como relógios e lupas, a que chamam Relíquias, podem ser interditos. As consequências são sérias para quem possui Relíquias ilegais.
Isto já é muita informação, mas "Silo" transmite-a sem pesar num primeiro episódio em que acompanhamos o drama do xerife Becker e da sua mulher Allison, que são autorizados a ser pais (a natalidade está condicionada). A tentativa falha e Allison, que trabalha no departamento de informática, começa a questionar as regras e a proibição de fazer perguntas. Um encontro com George Wilkins, técnico de hardware e traficante de Relíquias, leva-a a fazer uma descoberta avassaladora num disco rígido antigo. Impedida de a partilhar com o marido, Allison toma a decisão mais extrema: pede para sair do Silo.
Sair do Silo é suicídio, mas a regra número um do Silo é mesmo essa: um pedido para sair é irrevogável. Quem sai não sobrevive três minutos lá fora. Os habitantes do Silo podem assistir à saída (e à morte) através de uma câmara no exterior. Para suavizar este procedimento, o Silo chama a isto Limpeza: quem sai leva um pano de lã para limpar a câmara, beneficiando assim os que ficaram.
Becker está chocado com a decisão da esposa, mas o que ela lhe diz antes de sair deixa-o intrigado e também ele começa a procurar respostas. Meses depois, é o próprio Becker quem pede para sair.
A saída/suicídio de Becker é atribuída ao desgosto de perder a mulher, mas antes disso ele tinha passado o "testemunho" a uma engenheira do departamento de mecânica, Juliette Nichols, que se vai tornar a protagonista. Juliette era namorada de George Wilkins, o dos computadores, e acredita que ele foi assassinado, embora a versão oficial seja que se suicidou. É assim que Becker e Juliette se conhecem, na sequência da investigação. Mas investigar a morte de George Wilkins esbarra com os segredos do Silo. Será mesmo verdade que o ar lá fora está envenenado? Os écrans que exibem o exterior mostram de facto a realidade, ou imagens falsas? E se não há perigo em sair do Silo, quem é que teria interesse em manter esta situação?
Obviamente, isto é uma sociedade distópica e totalitária, com perseguições, repressão, manipulação da História e da narrativa, e até uma polícia do regime. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que não é um regime tão brutal como o contexto nos levaria a crer. As pessoas aceitam e obedecem porque acreditam que é a única maneira de sobreviver, as tais Limpezas são voluntárias (não são execuções), e as autoridades são bem-intencionadas. Mais ainda, até a polícia do regime, aparentemente, faz o que faz para proteger o Silo. Só é reprimido, no interesse do bem comum, quem põe em causa as regras. Mas há segredos e contradições gritantes. Os tais rebeldes são acusados de destruir todos os livros e discos rígidos que guardavam a História antes da rebelião, e no entanto quem procurar essa História e esses artefactos é preso ou mandado "voluntariamente" "limpar". É de caras, estes rebeldes míticos são um vilão muito conveniente para manter as pessoas na ignorância. Mas os habitantes do Silo que se apercebem da falta de lógica desta narrativa também preferem manter as suspeitas para si e seguir com a sua vida normal. Porque, afinal, não há vida fora do Silo. Ou haverá?
O mistério não fica esclarecido na primeira temporada. O último episódio é muito chocante e faz-nos dar voltas à cabeça a tentar perceber o que se passa realmente. Somos impelidos a continuar a ver. No entanto, nós que levámos a vacina "Lost" ficamos logo de pé atrás sempre que um mistério dá lugar a um mistério ainda maior. Mas "Silo" é baseado na série de livros do autor Hugh Howey, e isso costuma ser indicador de um enredo com pés e cabeça. Por um lado, não são argumentistas a inventar um episódio por semana; por outro, se os livros foram adaptados é porque alguma coisa têm de bom. (O que não invalida os casos em que os argumentistas adaptam mal, mas há que ter esperança.)
Muita coisa para pensar
Não posso falar mais do enredo, porque a partir daqui quase tudo é um spoiler, mas quero alertar sobre algumas fraquezas da série que podem levar os mais impacientes a desistir. Não desistam. Vale a pena. Contudo, "Silo" talvez tenha ficado melhor no papel. No terceiro episódio, especialmente, em que Juliette e a sua equipa estão a reparar o gerador descomunal que alimenta o Silo, a ciência vai pela janela fora. Eu não acredito mesmo nada que aquela coisa, grande que seja, consiga alimentar uma cidade de 144 x 5 metros = 720 metros de profundidade no mínimo (é uma estimativa minha), ou mais, porque alguns níveis são mais altos do que os outros e debaixo deles há todo um outro subterrâneo não habitado. Aquele gerador deve ser alimentado a magia, porque, para além das necessidades fundamentais, toda a gente tem janelas com falsa luz solar e vitrines decorativas iluminadas. As janelas até percebo, por questões de saúde e sanidade, mas há energia suficiente para iluminar vitrines e tudo? Há outras coisas tão erradas neste episódio que basta ter mais de 12 anos para as detectar.
Por falar em funcionar, como é que eles conseguem ter energia e espaço suficientes para vários níveis dedicados ao cultivo de cereais e criação de animais, só com aquele gerador, e dar de comer a toda a gente? Não há escassez no Silo, uma cidade enterrada um quilómetro debaixo do solo. Se calhar eu nem me punha a fazer estas contas de cabeça se não tivesse visto o gerador. Às vezes mais vale não mostrar e deixar que as pessoas imaginem.
Ao mesmo tempo, à medida que a série coloca o mistério principal em segundo plano e envereda pela investigação do homicídio/suicídio de Wilkins, pode parecer um simples policial num cenário pós-apocalíptico. Foi o que me pareceu, durante uns episódios, e algumas pessoas até deixaram de ver por causa disso. Não deixem de ver. O fim recompensa!
A mim chateou-me um bocadinho uma tendência de que já falei aqui, a "Mary Sue", a mulher super-heroína que é boa a tudo, mesmo a tudo. Juliette Nichols é uma boa engenheira mecânica, tudo bem, mas depois é feita xerife sem perceber nada do assunto e age com a confiança de quem trabalha há uns 10 anos nas forças da ordem. Isto não é culpa da actriz, coitada, que faz o que lhe mandam, e muito menos da personagem, mas totalmente dos escritores que a conceberam assim. Juliette, tal como a Claire de "Outlander", é muito boa a tudo ou quase tudo. Tenho a certeza de que até seria uma boa astronauta, treinadora de golfinhos, vendedora de castanhas. Por favor, parem de escrever personagens destas. São falsas e irritantes.
Por outro lado, "Silo" é uma série subtil em que os pormenores contam. Custa acreditar que as pessoas pura e simplesmente tenham perdido a memória da História em apenas 140 anos, mas torna-se menos absurdo quando sabemos que o Silo tem uma droga que efectivamente faz as pessoas esquecer. O que novamente nos leva a questionar quem poderá estar por trás disto, e, se há uma droga envolvida, não poderá ser tudo uma simulação ou alucinação? O controlo de natalidade, igualmente, é um método de eugenia para extinguir o gene da curiosidade. Será que o Silo existe mesmo no mundo real, ou será uma experiência? As lupas são proibidas porque permitem ler as letras pequeninas nos discos rígidos antigos, mas porque é que proibiram os elevadores? Será apenas para manter as pessoas mais separadas por níveis (e classes), ou haverá razões mais sinistras?
Gostei principalmente das cenas em que os habitantes do Silo observam os outros a sair. Todos sabem o que vai acontecer, mas noto-lhes uma esperança de que seja diferente dessa vez, de que o ar já esteja puro, de que o "limpador" sobreviva, de que seja o sinal para abandonar o Silo. Estas pessoas aceitam e obedecem, mas querem mudança.
"Silo" é daquelas histórias que permitem muitas analogias com a actualidade, desde os confinamentos, ao populismo e à IA, e até com a espiritualidade (será que existe vida após a morte, ou só queremos acreditar nisso para não ficarmos tão deprimidos?). Não é uma série perfeita, mas há aqui muita coisa para pensar.
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PARA QUEM GOSTA DE: distopia, ficção científica, pós-apocalíptico
domingo, 16 de agosto de 2026
Silo (2023 - ?) [primeira temporada]
domingo, 10 de maio de 2026
The Walking Dead: Daryl Dixon (2023 - ?) [terceira temporada]
[não contém spoilers relevantes]
Adorei esta temporada de "Daryl Dixon"! Há muito tempo que não podia dizer isto de uma spin-off de "The Walking Dead", mas "Daryl Dixon" está a conseguir atingir os objectivos e a divertir os espectadores, e não sou só eu que o digo.
No início, o original "The Walking Dead" pretendia não ser simplesmente mais um filme de zombies para rir e entreter. A série ambicionava ser realista, dramática, filosófica e profunda. E nas primeiras temporadas até conseguiu, muito embora alguns fãs apenas quisessem mais um filme de zombies com muita acção, só para entreter, e tenham chamado telenovela a "The Walking Dead". A série começou a descarrilar quando tentou fazer as duas coisas ao mesmo tempo para agradar a gregos e troianos, o dramático e o acéfalo, e a certa altura decidiu sacrificar o realismo também, primeiro o realismo dramático e logo a seguir o realismo da acção propriamente dita. Isto deu-nos cenas deploráveis como, por exemplo, o tiroteio com Negan, em que apesar da escassez de munições, estabelecida pelo próprio universo da série, houve balas com fartura. Sacrificando a profundidade dos personagens e sacrificando o realismo que o próprio universo estabeleceu, a certa altura já não se aproveitava nada. Até podiam ter metido ali Godzilla sob o pretexto "é uma série de zombies, nada disto é real, vale tudo". Na estrutura interna de uma história não vale tudo; só vale o que o universo ficcional permite. A franchise levou o absurdo ao limite com "Fear The Walking Dead", em que só não apareceu Godzilla porque não calhou, mas houve uma guerra nuclear e uma radioactividade selectiva que só afectava os personagens que dava jeito eliminar.
"Daryl Dixon" também se move nos limites da credibilidade, mas não os ultrapassa de tal forma que não nos convença a acreditar que talvez, se calhar, com muita sorte, Carol até podia ter voado para França em pleno apocalipse zombie.
Na terceira temporada, "Daryl Dixon" abraça o género de aventura e acção de corpo e alma. Os personagens não são bidimensionais, mas o dramatismo ficou definitivamente em segundo plano, e mesmo assim eu gostei e aplaudi. Daryl Dixon num duelo de motas, Daryl Dixon a assaltar um comboio, Daryl Dixon a matar um super-zombie com a bandeira de França (esta é da primeira temporada mas serve como exemplo). Às vezes o despretensiosismo é o melhor remédio e a terceira temporada assumiu-se abertamente como um "western spaghetti". E não é que funciona?
Era uma vez na Galiza
Carol e Daryl chegam à Inglaterra, onde quase toda a gente morreu. O único sobrevivente que encontram, convenientemente, tem um veleiro, e conseguem convencê-lo a levá-los de regresso à América. Mas o único sobrevivente mal sabe velejar. Todos decidem correr o risco e acabam naufragados na Costa da Morte, ali em cima na Galiza.
Ora bem, isto não é Espanha, nem a Espanha actual nem a Espanha passada. Isto parece mais o México com uma pitadinha de sabor local aqui e ali, como os trajes de festa que podem ter vindo de um rancho folclórico minhoto, ou a paisagem ou a arquitectura, ou os candeeiros de rua. Mas se começarmos logo por encarar isto como "Espanha alternativa cruza-se com Mad Max" gostamos muito mais. E a série ajuda-nos a querer acreditar, que é o mais importante.
Daryl e Carol descobrem uma povoação onde se desenrola um amor de Romeu e Julieta. Roberto e Justina são dois jovens que se amam, mas a povoação está sob o controlo de um chefão, servidor do rei de Espanha (não o verdadeiro), que exige o tributo de uma rapariga todos os anos. As raparigas são requeridas para ser casadas com homens importantes ou simplesmente para servirem como criadas. (Aqui, confesso, ao ouvir falar em La Ofrenda, pensei em coisas muito piores.)
As raparigas são seleccionadas através de uma corrida de porcos. (Na Espanha deviam ser touros, mas imagino que isso ia exigir bastante à produção e que muita gente não ia gostar das implicações com touradas, a começar por mim.) Justina é seleccionada e levada para o palácio do rei. A princípio Daryl não se quer meter no assunto, e com alguma razão, mas Carol insiste em resgatar Justina. Entretanto, Daryl e Carol conhecem mais pessoas capazes de velejar, incluindo outro americano que também quer regressar a casa, e só pretendem ficar na povoação até partirem. Mas o envolvimento no resgate de Justina vai levar Daryl por paisagens inóspitas que podiam ter saído de Mad Max, e são aventuras atrás de aventuras: o duelo, o comboio, uma comunidade de leprosos, um teatro de marionetas zombies que me lembrou muito o Teatro dos Vampiros.
Outro apontamento interessante é que a povoação é atacada por um grupo auto-intitulado Os Primitivos, uma espécie de seita niilista que usa máscaras de caveiras de animais chifrudos e quer destruir tudo o que sobreviveu ao apocalipse. Depois de dar algumas voltas à cabeça, lembram-me os Caretos do Entrudo Chocalheiro de Podence, versão pós-apocalíptica. Desconheço onde é que a série se inspirou.
Até sem enredo era bom
Pergunto-me, porque é que eles querem voltar para a América? Daquilo que já vimos, está-se muito melhor na Europa. Sim, existem zombies em todo o lado, e há escassez em todo o lado, mas as coisas deste lado do Atlântico são muito mais civilizadas e pacíficas. Li algumas críticas de americanos que se questionavam exactamente sobre isto. Voltar para quê? Mas acho que todos queremos sempre voltar a casa, não é? É humano.
No entanto, Carol arranja um namorado em Espanha e Daryl receia que o seu desejo de partir à procura de alguma coisa, precisamente o que o colocou nesta situação, não deixe de se manifestar seja onde for. Esta temporada não é forte em temas dramáticos mas temos flashbacks de Merle, o irmão mais velho de Daryl, quando eram crianças. Dá a entender que Daryl está a tomar consciência dos traumas que o fazem deambular de um lado para o outro quando no fundo está a tentar fugir de si mesmo.
Eu julgava que esta seria a última temporada e, confesso, fiquei muito contente quando percebi que ainda não acabou.
"Daryl Dixon" continua a ser uma série que se vê só pelo cenário. Temos Londres e Barcelona pós-apocalipse, temos paisagens deslumbrantes da Costa da Morte, temos o Real Alcázar de Sevilha (com uma arquitectura e decoração árabe tão Mil e Uma Noites que a câmara deu a volta ao salão todo), temos a vila de Sepúlveda. Voltar à América? Não, não. Por esta altura até só quero ver mais aventuras de Daryl e Carol pela Europa toda, em Itália, na Grécia, na Alemanha, na Roménia, nos países nórdicos, onde puder ser.
E, é claro, ia adorar ver zombies no nosso cantinho: zombies no Terreiro do Paço, zombies nos Jerónimos, zombies no Bairro Alto. E para não dizerem que só falo de Lisboa, estou completamente convencida de que a Torre dos Clérigos dava uma batalha épica de zombies. É só ir lá e percebe-se porquê.
❗OFEREÇO-ME COMO FIGURANTE❗
Zombies
Se há uma coisa que a franchise "The Walking Dead" sabe muito bem é que os espectadores estão aqui, principalmente, pelos zombies. Estamos tão "mal habituados" a zombies espectaculares em todos os episódios que quase nos esquecemos de que isto dá trabalho, custa dinheiro, e, acima de tudo, exige uma criatividade formidável. Admiro a inventividade da equipa que constantemente tenta criar zombies diferentes, adaptados ao cenário, à natureza, e até à cultura de cada local, bem como maneiras originais de os matar. Isto não é pequena proeza se tivermos em conta a longevidade da série. Nesta terceira temporada há zombies submarinos, zombies a arder e zombies-marionetas. Mas o que me surpreendeu mais foram as duas cenas em que tanto Daryl como nós, veteranos do apocalipse, nos questionámos por momentos se estávamos a ver zombies ou outra coisa. Não esperava que uma franchise com 16 anos de existência ainda nos conseguisse criar esta sensação de alarme e sobressalto.
Se a próxima temporada correr tão bem, ou superar, esta foi a melhor spin-off a sair de "The Walking Dead".
Por último, um spoiler não relevante mas interessante: Daryl Dixon mata o zombie do rei de Espanha. Isto, na cultura europeia, é significativo. Quem mata um rei é uma de duas coisas: um condenado à morte, se lhe correr mal, ou o novo rei, se lhe correr bem. Simbolicamente, Daryl Dixon já conquistou uma coroa. Por outra perspectiva, a série está a abordar o tema que "The Walking Dead" tem explorado desde o início. Num mundo pós-apocalipse, em que as estruturas da sociedade desmoronaram há muito tempo, qualquer zé-ninguém pode matar o zombie do rei de Espanha sem consequências.
Foi engraçado, porque o sobrevivente inglês também refere que actualmente se pode ir ao palácio de Buckingham e dormir na cama da rainha, e, com alguma sorte, se pode encontrá-la a deambular, zombificada, pelos corredores. Outra maneira de dizer a mesma coisa.
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PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, zombies, pós-apocalíptico
domingo, 12 de abril de 2026
The Last of Us (2023 - ?) [segunda temporada]
Eu nem ia falar mais sobre "The Last of Us", mas gostei muito de um dos episódios.
Se a primeira temporada me decepcionou, da segunda ainda gostei menos. Continuo a achar a miúda embirrante, desmiolada e insuportável, pondo tudo e todos em risco sem pensar duas vezes. Joel faz muita falta. Na falta de Joel, a série enveredou por um romance adolescente em que uma das miúdas pergunta à outra "como é que avalias o meu beijo de 1 a 10?" Oh, pelo amor da santa.
Infectados continuam a ser escassos. Temos um confronto muito tenso com os cabeças-de-fungo logo nos primeiros episódios e fica por aí. Se calhar fomos mal habituados por "The Walking Dead" com zombies em todos os episódios, mas, por outro lado, isto também é uma série de zombies.
Só estou a escrever sobre a segunda temporada porque o sexto episódio, "The Price", é mesmo muito bom. É um episódio dramático e humano que podia estar numa série completamente diferente, mas é bom, mesmo sem Infectados.
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domingo, 30 de novembro de 2025
Arcadia (2023 - ?) [segunda temporada]
Numa sociedade distópica cujo lema é "temos o que merecemos" e em que o valor da pessoa é medido por pontuação, a família Hendriks está cada vez mais ameaçada. Hannah é exilada como o pai, Alex fica em maus lençóis, e Milly também se encontra sob suspeita. Entretanto, na floresta do Exterior, o patriarca Pieter Hendriks começa a congeminar um plano para derrubar o regime.
Confesso que não esperava uma segunda temporada desta série holandesa, e muito menos que a qualidade da estreia conseguisse ser mantida. "Arcadia" não é um produto de Hollywood em termos de produção e orçamento, e às vezes nota-se no mau sentido, mas, no que é verdadeiramente relevante, a série aguenta-se bastante bem.
Fiquei muito impressionada pela maneira como nos fazem compreender os personagens, até os vilões. Podemos não concordar com eles nem gostar deles, mas percebemos porque é que a Guardiã está realmente convencida de que a repressão securitária em Arcadia é a melhor solução para a sociedade. Ver as coisas pela perspectiva do contrário ao que acreditamos faz-nos ponderar os nossos princípios mais a fundo. Ultimamente, ela diz que "já não há crime nem medo", mas alguém a recorda de que agora há outro tipo de medo. Tentar viver numa utopia/distopia em que as pessoas só são valorizadas por aquilo com que podem contribuir vai forçosamente fazer com que os mais frágeis (ou doentes, ou inadaptados) sejam excluídos e, em caso extremo, como em Arcadia, considerados inúteis e não merecedores do custo que a sociedade tem de despender com eles. É a sobrevivência do mais apto, a lei da selva, aplicada com a intenção e a racionalidade fria de que o ser humano é capaz quando põe de lado a empatia. Nestes casos, regra geral, aqueles que estão em posição dominante nunca pensam que poderão ser eles, um dia, os mais frágeis, ou tentam viciar o sistema (mesmo que inconscientemente) em que aparentemente acreditam para que as regras cruéis que aplicam aos outros nunca se apliquem a eles nem aos que lhes são próximos. Esta série despretensiosa mostra-nos a humanidade falível dos que defendem sistemas baseados em ideias erróneas de mérito social, e por isso já vale muito a pena.
No entanto, acho que a série não explicou bem o golpe de Estado que deu origem ao regime. Daquilo que percebi, estão a culpar um só homem como cabecilha do atentado e isso simplesmente não seria possível. Mesmo que houvesse uma predisposição social para aproveitar o ataque terrorista para implementar o autoritarismo, uma acção deste tipo teria de ser sempre concertada entre vários conspiradores, aliás, como até está documentado na História recente. Caso contrário, líderes autoritários fariam questão de perseguir o responsável e exibir-lhe a cabeça na praça pública como exemplo. Não cheguei a perceber se "Arcadia" falhou neste ponto ou se não conseguiu mostrar o que queria (ou se não tinha orçamento para filmar uma conspiração a larga escala), mas foi a ideia com que fiquei.
Esta série surpreendeu-me. Com poucos meios fazem-nos pensar em tanta coisa.
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PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas
domingo, 19 de outubro de 2025
Z For Zachariah / Os Últimos Na Terra (2015)
Depois de uma guerra nuclear, Ann, uma mulher jovem, mora sozinha com o seu cão na quinta que os pais lhe deixaram, num vale onde as radiações não conseguem entrar. Fora do vale, a contaminação matou todas as pessoas. Ann julga que está sozinha no mundo, cuidando da quinta, tocando órgão na pequena capela de madeira que o seu pai construiu, quando encontra John, na estrada, muito doente de radiação. John recupera e uma das primeiras coisas de que falam é da ausência de radiação no vale. John, um cientista que sobreviveu num bunker, atribui o fenómeno ao microclima no vale; Ann atribui-o à protecção divina. John encontra, entre muitos livros bíblicos na estante, um que se chama precisamente: "A is for Adam". Quando John sugere construírem um moinho de água numa cascata próxima de modo a produzirem electricidade para o inverno, usando a madeira da igreja, Ann fica muito dividida, a princípio, mas acaba por concordar por ser a única maneira de sobreviverem.
Com o tempo, Ann e John desenvolvem sentimentos românticos, mas John não lhes cede porque é mais velho do que Ann e pensa que têm muito tempo para se conhecerem melhor. Esta dinâmica é abalada quando surge outro sobrevivente, Caleb, que estava a trabalhar numa mina ali perto quando o desastre nuclear aconteceu. Caleb é um homem atraente, branco, com a mesma cultura de Ann e religioso como ela, um vizinho de uma povoação próxima, daqueles com quem Ann poderia vir a casar noutras circunstâncias. John é negro, ateu, mais velho, alguém que não tem nada em comum com Ann. E, de facto, enquanto os três trabalham no moinho de água, John repara que Ann e Caleb começam a aproximar-se. John diz que não se importa, mas não é bem assim. Ann pode ser a única mulher no mundo, e uma mulher bonita, e tanto Caleb como John a cobiçam numa tensão crescentemente mais declarada. O que poderá correr mal?
Os paralelos deste vale protegido com o Jardim do Éden são evidentes. O título "Z For Zachariah" nunca é explicado, mas se Adam foi o primeiro homem, Zacariah será o último. Só que, ao contrário do que Ann pensa ao conhecer John, este não era o último homem.
Muito diferente dos filmes pós-apocalíticos que conhecemos, "Z For Zachariah" aproveita este triângulo romântico para fazer um estudo da natureza e da moral humana. O filme não está muito preocupado em mostrar cenários de destruição, pelo contrário, o vale é idílico, até um pouco demais: todos parecem mais bem alimentados do que deviam (só têm legumes, couves, ovos de meia dúzia de galinhas que não podem comer por causa dos ovos, e alguns perus selvagens que conseguem caçar), não sei até que ponto o moinho de água conseguiria produzir electricidade para abastecer a casa toda e as arcas frigoríficas, e também tenho dúvidas de que John conseguisse recuperar do envenenamento por radiação no estado em que ele estava ao chegar.
Tudo parece decorrer, mesmo assim, num ambiente de harmonia e respeito, até ao final. O final, confesso, chocou-me. Não esperava aquilo.
Recomendo a toda a gente que se interessa pela natureza humana numa situação limite.
14 em 20
domingo, 22 de dezembro de 2024
The Walking Dead: The Ones Who Live (2024)
De todas as spin-offs que saíram de “The Walking Dead”, esta era sem dúvida a mais aguardada: o que aconteceu a Rick quando A Senhora da Lixeira/Jadis/Anne o levou de helicóptero, e a reunião com Michonne, que deixou tudo para o ir procurar. De certa forma, estes seis episódios são o verdadeiro final da série original, a conclusão da história daquele que foi o protagonista desde o primeiro momento, Rick Grimes.
Os fãs já desconfiavam, pelo que nem é um spoiler. Rick foi levado por Jadis para a CRM, que alguém traduziu melhor do que eu como Exército da República Cívica, o que não significa nada porque não é uma república e muito menos cívica.
Comecemos já por aí. Não é preciso ver “The Walking Dead: World Beyond” (a spin-off “adolescente” de “The Walking Dead”) para compreendermos a CRM, mas quem viu já ficou perfeitamente elucidado quando a CRM destruiu toda a cidade de Omaha, uma cidade aliada, e o seu Campus Universitário cheio de jovens. Em “The Ones Who Live” ficamos a perceber a ideologia subjacente a esta chacina: em primeiro lugar, este exército tem a sua base em Filadélfia, cidade que sobreviveu ao apocalipse e que é supostamente a tal República Cívica mas na verdade é a ditadura militar da CRM (Civic Republic Military). Segundo a CRM, a sobrevivência e segurança da cidade dependem do maior segredo em torno dela, pelo que quem lá entra já não é autorizado a sair e quem tenta fugir é abatido. Isto explica, finalmente, porque é que Rick nunca conseguiu regressar a Alexandria apesar das muitas tentativas de fuga. Rick não foi apenas levado, mas raptado e mantido em cativeiro, forçado a tornar-se um cidadão e, posteriormente, soldado da CRM. Jadis conseguiu que a CRM o aceitasse classificando-o como um “B”, isto é, um seguidor. Os “As”, os líderes, os que pensam pela própria cabeça, são abatidos, à semelhança da ideologia dos Khmer Rouge.
Mas a CMR é capaz de atrocidades piores, como já se viu em “World Beyond”. A princípio aliados de Omaha e Detroit, sem que estas duas cidades conhecessem a base da CRM, o exército decide pura e simplesmente bombardear Omaha, e Detroit está na calha a seguir. Porque é que a CRM bombardeia os seus aliados? Porque tem uma ideologia, a que só posso chamar nazi, de terra queimada: destruir o mundo velho para criar o novo, com pessoas submissas, que não se insurjam, que não questionem, dispostas a abdicar da liberdade em troca de segurança. A missão da CRM é, efectivamente, destruir todas as comunidades do país, e, a acreditar no que vimos em “The Walking Dead: Daryl Dixon”, em que tudo indica que a CRM tem ligações à Europa, talvez até do mundo (o que é confirmado aqui em “The Ones Who Live”). O mais grave é que a CRM, organização que herdou o poderio militar do exército dos Estados Unidos, tem à sua disposição os meios para o fazer. Nunca “The Walking Dead” conheceu um adversário tão temível e perigoso. Disto tudo, conseguimos perceber que “The Ones Who Live” faz a ligação com outras spin-offs e a série original.
A “escrita Gimple”…
Infelizmente, tenho de confessar que de entre os spin-offs do pós-Walking Dead, “The Walking Dead: Daryl Dixon”, “The Walking Dead: Dead City” e até “Tales of the Walking Dead”, “The Ones Who Live” foi do que gostei menos, e, lamento dizê-lo, porque foi o que me recordou mais dos problemas narrativos de “Fear The Walking Dead”. “Fear The Walking Dead” tornou-se uma coisa tão absurda que eu já só via para me rir e para ler as críticas a gozar com a série e rir mais. Em comum a “The Ones Who Live” e “Fear The Walking Dead” está a escrita de Scott Gimple, o mesmo que conseguiu arruinar a série original antes que Angela Kang tomasse as rédeas em modo de “controlo de danos” e tentasse endireitar o enredo e as personagens na medida do possível.
Em “The Ones Who Live” nota-se perfeitamente a “escrita Gimple”. Por exemplo, no segundo episódio, que eu detestei completamente, Michonne está à procura de Rick e encontra uma comunidade. Uma dúzia de pessoas preferem acompanhá-la. Michonne torna-se próxima de alguns destes personagens, e é suposto que os achemos simpáticos, mas 10 minutos depois estão todos mortos e nem conseguimos decorar-lhes os nomes quanto mais simpatizar com eles. Antes disso, porém, avisam Michonne de que existe uma horda de zombies de 5km de largura entre ela e o seu destino, e que ela devia antes esperar que a horda se deslocasse. Mas Michonne tem pressa e decide romper por entre esta horda descomunal sozinha, a cavalo, no que seria o seu suicídio e o “suicídio” do cavalo. Nunca perdoarei que tivessem posto Michonne a fazer esta estupidez. Mais tarde, à medida que se aproximam da CRM, Michonne e os viajantes são bombardeados com gás de cloro. Morrem todos, menos Michonne e um único sobrevivente, e ambos passam um ano inteiro num centro comercial a recuperar das queimaduras nos pulmões e na garganta, apenas com um tanque de oxigénio. Nem sei se isto é possível, mas na “escrita Gimple” tudo é possível, até uma espécie de radioactividade selectiva que só afecta os personagens quando dá jeito ao enredo (não estou a inventar, é só ver “Fear The Walking Dead”). Mais tarde ainda, no mesmo episódio, que já vai atribulado, Michonne chega ao fim das pistas que seguia em busca de Rick, fica desanimada, chora, decide voltar para casa. Já no caminho para casa, por coincidência, dá de caras com ele. É mesmo assim, Michone não encontra Rick, encontram-se por acaso. Ora, eu acho que se podia ter arranjado uma histórinha qualquer com os personagens desta comunidade, em que eles ajudassem Michonne a combater os zombies e a descobrir pistas que a levassem a Rick, sem que ela passasse um ano enfiada num centro comercial e sem que os dois se encontrassem só porque o enredo assim ditava. Péssimo, péssimo episódio.
Mas passemos à frente. Sem cometer muitos spoilers, direi apenas que Rick não quer regressar com Michonne porque isso faria com que a CRM o seguisse e destruísse Alexandria, e Rick acredita que tem de ficar para trás para o impedir. Na verdade, Rick está a ser chantageado por Jadis, que pertence à polícia militar como sabemos de “World Beyond”, e que tem as suas razões para que ele fique. Se Rick fugir, Jadis revelará a localização de Alexandria. Por outro lado, depois de anos de cativeiro traumático, Rick acaba por ser convencido por Okafor, um oficial da CRM, de que conseguirão mudar a ideologia da CRM por dentro. É isto que Rick pretende fazer: ficar, proteger Alexandria e trabalhar para mudar a CRM. Obviamente, Michonne não anda à procura dele há uns dois anos para o deixar ficar, e atira-se com ele de um helicóptero abaixo, sem pára-quedas, em mais um “momento Gimple”. Foi uma sorte terem caído na água porque não se notou que Michonne estivesse a prestar atenção a esse “pormenor”.
… e a boa escrita…
Chegamos ao meu episódio preferido da série, escrito pela própria Danai Gurira (Michonne). Não fazia ideia de que Danai Gurira escrevesse para teatro e televisão, mas depois disto teria sido melhor que ela tivesse escrito a série toda. Esquecendo a coisa do helicóptero, que é melhor não lembrar, Rick e Michonne encontram refúgio num edifício que parece ter escapado às pilhagens do apocalipse e que ainda tem electricidade e água corrente (mais um momento improvável), e aqui, sozinhos, desatam numa discussão das antigas, com acusações, recriminações e gritaria, e foi tão tenso, tão realista, que eu cheguei a temer que houvesse porrada, e na verdade até houve um empurrão. Michonne revela que Rick tem um filho que não conhece, e que RJ tem quase 8 anos. Isto indica-nos que Rick esteve desaparecido durante uns 9 anos. Depois de quase uma década de separação, Michonne não reconhece o homem à sua frente nem reconhece as suas razões. A briga torna-se tão feia, mas tão feia, que ela o deixa. Ela deixa-o! Adorei este episódio em que pela primeira vez vimos a mulher de carne e osso, vulnerável e magoada, por trás da heroína da catana. Confesso que nunca acreditei muito na relação entre Rick e Michonne, sempre pensei que tinha sido uma coisa de conveniência (eu estou sozinho, tu estás sozinha, é o fim do mundo, não há muito por onde escolher, e nós até nos damos bem, porque não juntamos os trapinhos?) mas uma coisa que “The Ones Who Live” conseguiu foi vender-me este romance, e isto graças a este episódio escrito por Gurira. Sei que muitos fãs se vão queixar e dizer que é “telenovela”, mas sobre eles falo depois.
O que acontece a seguir já não me agrada tanto. Rick e Michonne fazem as pazes e decidem ir destruir a CMR, sozinhos contra o mundo. Aqui aproveito para falar na representação de Terry O'Quinn, o John Locke de “Lost”. (Aliás, as representações são todas muito boas, e saliento igualmente Pollyanna McIntosh como Jadis. Se esta série vale alguma coisa é graças aos actores, não ao enredo.) Terry O'Quinn, como dizia, lembra-me um pouco Bryan Cranston de “Breaking Bad”, ambos com aquele arzinho sonso de quem nem sabe que é actor e que está num filme. Terry O'Quinn não tem muitas cenas mas quando aparece causa impacto no papel do Major General Beale, o topo da hierarquia da CRM, que num briefing a Rick expõe todos os planos secretos da organização: a CRM tenciona destruir os aliados e comunidades pelos recursos e superioridade numérica, tem espiões em todo o mundo para influenciar as políticas e sabotar os aliados (como vimos em “Daryl Dixon”), e é possivelmente a maior força militar do continente ou até do mundo. Só assim a CRM acredita que é possível salvar a raça humana da extinção.
… e o regresso à “escrita Gimple”
Rick e Michonne têm um plano: expor a CRM perante o Conselho da cidade de Filadélfia e as pessoas da cidade revoltar-se-ão. Afinal existe mesmo uma República Cívica e um Conselho, mas, admitamos, este plano é infantil. Este Conselho não manda nada, quem manda é a CRM, o que o torna um governo fantoche. A CRM tem oficialmente 17.000 efectivos, fora a polícia militar e as forças especiais e secretas, tem uma hierarquia militar com muitas chefias espalhadas pelo país, tem helicópteros, veículos, combustível, provavelmente até tem acesso a satélites ainda em funcionamento e talvez até ao arsenal nuclear pré-existente. Para derrotar Negan e duas ou três centenas de capangas e associados, uns bandidos de beira de estrada, foram precisas duas temporadas e dezenas de pessoas. Sobrepondo estes cenários, onde é que alguma vez Rick e Michonne, sozinhos, poderiam derrotar um exército com ramificações mundiais? Em “Daryl Dixon” ninguém pôs Daryl a superar o exército Pouvoir des Vivants sozinho; ele ajudou, mas não tinha conseguido nada sem a Resistência e numerosos aliados. E isto faz logo de “Daryl Dixon” um enredo de maior qualidade do que temos em “The Ones Who Live”, infelizmente, porque este spin-off é mesmo o verdadeiro final de “The Walking Dead”.
Quando a série acabou eu pensei: “Ok, isto não pode ficar assim. Quando é que começa a nova temporada?” Não há nova temporada planeada. É mesmo para acabar assim. Não vou dizer como termina, apenas que a levar a sério é ridículo e infantil. Prefiro considerar que não é um “felizes para sempre” mas um “felizes por agora”, e tirei da cabeça qualquer vontade de uma segunda temporada.
Acho a CRM maléfica uma história fascinante mas, sinceramente, não acredito que a série tenha o orçamento e a criatividade para se meter numa saga em que é travada uma guerra mundial, muito embora “Daryl Dixon” já tenha deixado algumas pistas de como fazer isso. Desde que não entre a “escrita Gimple”, talvez eu me engane.
O grande problema de The Walking Dead não são os zombies
“The Ones Who Live” ajudou-me a tecer algumas reflexões sobre o universo Walking Dead em geral. Desde a segunda temporada da série original que tem havido uma cisão entre os fãs que gostam do realismo e do drama (como o episódio da discussão entre Rick e Michonne) e os fãs que só querem sangue e miolos (como o episódio de Michonne a cavalo contra uma horda de zombies) e que acham que o drama é uma “telenovela”. Penso que a série sofreu devido a esta cisão, tentando agradar a uns e outros e não agradando a ninguém. Quando “The Walking Dead” estreou, quase há 15 anos, havia uma distinção muito clara entre séries dramáticas e séries de acção, distinção que já não faz sentido hoje em dia e que, ironicamente, “The Walking Dead” ajudou a destruir. No entanto, em todo o universo Walking Dead, nota-se claramente que há duas linhas de escrita: a irrealista e estapafúrdia que faz uma mulher inteligente atirar-se de um helicóptero sem pára-quedas, e a dramática e realista que aborda o aspecto emocional dos personagens. Tenho para mim que quem escreve os episódios delirantes, como a radioactividade selectiva, preferia estar a escrever sobre super-heróis para um público infantil ou pouco exigente que só quer ver bonecos de acção. Como a série se destina a adultos e os personagens são de carne e osso, acontecem coisas absurdas como “Fear The Walking Dead”. E desta forma “The Ones Who Live”, com o protagonista principal da saga inteira, conseguiu ter um enredo mais fraco do que “Dead City”, uma série que aliava Maggie e Negan e pela qual eu não dava mesmo nada, mas que funcionou porque o enredo não era completamente estrambólico e as motivações das personagens eram sólidas. Sim, é possível ter drama e acção sem cair no ridículo, mas não com desvarios de super-heróis sozinhos contra o mundo.
De “The Ones Who Live” salva-se o episódio escrito por Danai Gurira, um dos melhores da saga toda, um final para a história de Rick, a integração dos enredos de várias spin-offs, e o grande potencial que existe na ameaça planetária que é a CRM (oxalá houvesse meios para o desenvolver). Mas, pelo menos, não morreu nenhum cavalo.
Peço desculpa pelo testamento, tive de referir várias sub-séries para explicar onde queria chegar e mesmo assim acho que me esqueci de qualquer coisa.
PS: Descobri que Pollyanna McIntosh cresceu, em parte, em Portugal, o que é sempre interessante saber.
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terça-feira, 8 de outubro de 2024
Cell / Cell: Chamada Para a Morte (2016)
Ao contrário do que o título em português possa sugerir, este filme não tem nada a ver com o clássico de Hitchcock mas sim com telemóveis (cell phones) e é uma adaptação de um livro de Stephen King.
No terminal de chegadas de um aeroporto, o novelista gráfico Clay Riddell tenta encontrar uma tomada disponível onde carregar o telemóvel, sem sucesso. 90% das pessoas (ou mais) estão a falar ao telemóvel ou ligadas a algum dispositivo wi-fi.
De repente, um impulso electrónico (?) afecta todas as pessoas “ligadas”, transformando-as em monstros raivosos e assassinos que atacam os “não ligados”. Isto é, mais um filme sobre zombies-vivos e, como sempre, estes zombies-vivos só atacam os “não infectados”. Pergunto-me, depois de ver milhentos filmes destes, porque é que não se atacam uns aos outros também? Mas neste caso parece que as pessoas afectadas pelo impulso começam a agir em “mente de colmeia” para destruir a sociedade. Porquê? Boa pergunta. O filme nunca explica e eu também não me ponho a especular (embora tenha algumas suspeitas).
À medida que os sobreviventes deste mundo pós-apocalíptico tentam escapar aos “phoners” (nome que dão aos afectados), apercebem-se de que estes evoluem e já não precisam de dispositivos electrónicos para “infectar” os outros. O seu líder parece ser precisamente o protagonista do romance gráfico (BD) de Clay Riddell, sem que este tenha nada a ver com isso (o que não deixa de ser estranhíssimo).
Ora, eu já estou a ficar farta de filmes em que uma personagem adquire vida própria (literalmente) e estou ainda mais farta de filmes que não dão explicações, nem plausíveis nem implausíveis.
Não li o livro, embora não seja difícil imaginar de onde Stephen King tirou a ideia de “zombies” agarrados ao telemóvel. É uma premissa interessante e não sei se o livro a desenvolve num todo coerente, mas “Cell” esqueceu-se desse “pormenor”. Nunca sabemos quem controla os “phoners” (ou quem está por trás do personagem que ganha vida própria), nem o que eles querem e porquê. Simplesmente é apresentado assim, os “phoners” parecem tomar conta do mundo e nunca sabemos o que realmente aconteceu ou está a acontecer. Tudo isto é muito frustrante e mais do que sobejam filmes semelhantes em enredo e muito melhores em execução. “Cell” é para esquecer.
11 em 20
terça-feira, 13 de agosto de 2024
3022 (2019)
Quatro astronautas estão a cumprir um turno de dez anos na estação espacial Pangea, um entreposto de abastecimento entre o planeta Terra e Europa Um, a primeira colónia estabelecida no espaço. Ao fim de cinco anos, todos eles apresentam os sintomas patológicos do isolamento, especialmente o capitão, o que leva o médico de bordo a recomendar a rendição da equipa. Antes que isso possa acontecer, a estação é atingida por um forte impacto que danifica partes da nave. Mas o pior é que a equipa perde todo o contacto com a Terra e até com a Estação Espacial Internacional. O médico de bordo consegue ter um vislumbre de uma explosão e fica em estado de choque. Tudo leva a crer que o planeta Terra foi destruído.
Mais do que um filme de ficção científica, que evidentemente é, considero “3022” como mais na categoria da sobrevivência pós-apocalíptica. O enredo podia igualmente passar-se nos pólos, no alto mar, ou em qualquer região na Terra totalmente inóspita à vida. Em suma, estes personagens encaram o facto de que podem ser os últimos sobreviventes da raça humana e que estão completamente sozinhos e dependentes de recursos escassos. Nesta situação adiantará ter mais um dia ou dois de oxigénio e rações?
Inesperadamente, aparece ao largo o vaivém da Estação Espacial Internacional com três tripulantes a bordo, todos eles em péssimo estado. Veterana que sou destas coisas dos enredos pós-apocalípticos lembrei-me logo de um outro, “The Walking Dead”, que nos ensinou que depois de um apocalipse a primeira coisa a temer são os sobreviventes, e não augurei nada de bom.
Escusado será dizer que “3022” é um filme tenso e perturbador. A mim perturbou-me muito algo que não posso revelar, mas que tem a ver com o que aconteceu à Terra. As interpretações são excelentes, e tocou-me especialmente a de Kate Walsh (mãe de Hannah em “13 Reasons Why” que aqui também se angustia pela filha que deixou na Terra quando se candidatou ao longo turno na estação espacial).
Este é um grande filme. Lamento dizer que algumas vezes me perdi “espacialmente” e não percebi exactamente em que parte da nave é que a acção estava a acontecer. Também fiquei na dúvida sobre a posição exacta da estação espacial. Dizem que está a três meses da Terra (o que já é alguma coisa), mas será que a distância permitiria ver o acontecimento na Terra de tão longe, à vista desarmada? Até vi o filme duas vezes para tentar perceber melhor. Por outro lado, sendo uma estação espacial de reabastecimento, porque é que há tanto tempo não vivia ninguém em Europa Um, como é dito? Sendo assim, qual é a necessidade de manter uma estação permanentemente tripulada durante anos? Não faz muito sentido. Também me custa a acreditar que a Estação Espacial Internacional (ou o seu vaivém) tenha escapado a um acontecimento daquele calibre, pela sua proximidade.
Mas tudo isto são detalhes que deixo a quem perceba destas coisas. O importante é o impacto psicológico nos personagens que lentamente começam a perder a sanidade, cada um de sua maneira, de tal forma que não consegui decidir se o que acontece no fim é real ou não passa de uma alucinação. O filme dá-nos (mais) motivos para acreditar na segunda hipótese. Seja como for, o resultado é pessimista seja por que prisma for encarado, a lembrar-me o final de “The Road”.
“3022” aborda o tema de seres humanos que têm de lidar com a sua extinção e como isso os afecta psicologicamente. Como tal, afecta-nos a nós também.
16 em 20
domingo, 28 de julho de 2024
Arcadia (2023)
Num futuro pós-apocalíptico, depois de sofrer com as alterações climáticas e com um golpe de Estado que alterou o regime, a sociedade de Arcadia é uma comunidade distópica e fechada, fortemente vigiada no estilo “Big Brother”, onde o lema é “cada um tem o que merece”. Todas as pessoas têm implantado um chip obrigatório e são avaliadas a partir dos 18 anos por uma pontuação baseada na utilidade social, emprego, educação… e saúde.
O casal Hendriks e as suas quatro filhas (algumas deles, outras adoptadas) faz parte da classe mais privilegiada e próxima do governo, usufruindo de todas as regalias disponíveis em Arcadia. No entanto, os Hendriks têm um problema: a filha Luz é uma adulta autista, embora funcional, que mal distingue a bondade da maldade, o que é muito perigoso numa sociedade do tipo “1984”. Oficialmente, Arcadia não pratica a eugenia, mas na prática todos os deficientes são ostracizados através das suas pontuações e a dos seus pais. Ser ostracizado em Arcadia significa, em último caso, ser expulso da sociedade para sobreviver Lá Fora dos muros, na floresta selvagem. É o que acontece ao pai Hendriks quando se descobre que este manipulou as pontuações das suas filhas Hannah e Luz de modo a conseguir-lhes uma posição melhor. Num julgamento sumário, Hendriks é posto no exterior com uma mochila e a roupa do corpo, onde não tem qualquer hipótese de subsistir. Toda a família é igualmente castigada, quer soubessem da fraude ou não, perdendo 2 pontos cada um.
As classes menos privilegiadas têm ainda pior sorte. Sem a pontuação necessária não têm direito a uma boa alimentação (por exemplo, leite verdadeiro) nem aos cuidados médicos ou remédios de que precisam (onde é que eu já vi isto?). Quem fica doente perde o emprego, e quem perde o emprego perde pontuação porque não se considera que a pessoa valha o custo-benefício de a manter. Com a pontuação cada vez mais baixa, a pessoa acaba por ser expulsa para Lá Fora, ao que Arcadia chama o eufemismo “exilar”.
Uma das filhas dos Hendriks, Millie, militar despromovida devido ao processo que atingiu a família, pede transferência para o Serviço de Patrulha Exterior na esperança de encontrar e ajudar o pai. Graças à ajuda do seu parceiro, Millie descobre que existe uma colónia de sobreviventes na floresta, que subsistem da terra e de tudo o que lhes chega dos exilados de Arcadia, mas subsistem. No entanto, Millie não encontra lá o pai e continua a procurar, arriscando cada vez mais ser descoberta e punida pelos superiores.
Por seu lado, outra das filhas, Alex, polícia igualmente despromovida, é aliciada pelos detractores do pai a envolver-se numa intriga governamental entre facções inimigas na tentativa de ajudar a família que já perdeu a casa e cuja pontuação continua a descer sem explicação (porque o regime também a manipula).
Entretanto, começa a surgir uma Resistência em Arcadia, que desenvolveu uma tecnologia que consegue neutralizar o chip de vigilância. Graças a esta Resistência, por exemplo, pessoas que não teriam direito a um transplante recebem tratamentos clandestinamente. Como enfermeira, Hanna, outra das filhas dos Hendriks, vê-se directamente envolvida nesta tentativa de ajudar as pessoas em necessidade. O lema de Arcadia é “todos têm o que merecem” mas só os ricos e poderosos é que merecem tudo (onde é que eu já vi isto?).
Embora as séries europeias tenham a reputação que têm (muitas vezes injustamente), e ainda pior no canal SyFy, “Arcadia” é uma produção belga/holandesa que vale mesmo a pena ver, embora a língua, a princípio, nos soe bastante estranha (pelo menos a mim pareceu, mas habituei-me rapidamente). O ritmo é rápido, o enredo é tenso, o perigo é real. O final da primeira temporada é um cliffhanger e eu queria muito saber o que vai acontecer a seguir, mas, infelizmente, não me parece que esteja na calha uma segunda temporada. Por outro lado, talvez não seja precisa nenhuma continuação. Neste género de distopias o final acaba por ser um dos dois: a vitória da Resistência, como parece estar a acontecer na versão televisiva de “The Handmaid’s Tale”, ou o assassinato literal ou psicológico de todos os personagens, levados à completa submissão como em “1984”. Mesmo assim, recomendo vivamente.
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domingo, 21 de abril de 2024
The Last of Us (2023 - ?)
Fiquei decepcionada com esta série. “The Last of Us” é a adaptação de um jogo de vídeo num mundo pós-apocalíptico. O que causou o apocalipse foi um fungo mutante que começou a infectar seres humanos, controlando-lhes o cérebro e tornando-os agressivos de modo a contagiarem o máximo de pessoas possível (é-nos dito no prólogo que isto acontece na natureza, mas não em seres humanos). Chamam-lhes Infectados mas na verdade são mais “colonizados”, e comportam-se como uma mente única, a do fungo, que inclusivamente tem tentáculos subterrâneos que os controlam como uma só unidade. No entanto, embora se assemelhem a zombies, estes Infectados não o são e o próprio fungo acaba por matá-los mais tarde ou mais cedo.
Devo avisar que algumas imagens de Infectados são imensamente repugnantes. O fungo aloja-se dentro do hospedeiro mas acaba por sair para fora. Numa das cenas, uma professora universitária de Micologia está a fazer uma autópsia a um deles e, ao abrir uma incisão no cadáver, o interior do corpo é só fungo. A professora fugiu disparada da sala de autópsias e eu até fiquei com comichões e com os pêlos dos braços em pé de tanto nojo. Na verdade, acredito que “The Last of Us” podia ter feito os Infectados ainda mais repulsivos (alguns fungos são bastante repelentes) mas se calhar recearam que as pessoas não conseguissem ver a série devido à reacção física de repugnância.
Com este cenário, pensei que talvez “The Last of Us” viesse a preencher o vazio deixado por “The Walking Dead”, mas isso não aconteceu por várias razões. Uma das maiores é a notória falta de Infectados. Enquanto que em “The Walking Dead” tínhamos zombies em quase todos os episódios, aqui, por alguma razão, em 9 episódios só existem 3 ou 4 confrontos com Infectados. Terá sido falta de orçamento ou uma aposta maior no drama entre os personagens? Não tenho nada contra séries dramáticas, antes pelo contrário, mas se toda a história gira em torno dos Infectados não deveríamos vê-los mais vezes?
Voltando ao enredo, vinte anos depois do início da pandemia a sociedade organizou-se numa ditadura militar dentro de centros fortemente vigiados chamados Zonas de Quarentena. As pessoas vivem mal, tendo de trocar trabalho por rações. Existe uma Resistência bastante activa mas não consegue grandes resultados. Joel, um homem de 56 anos que perdeu a filha adolescente no início da pandemia, é um deles e vive na Zona de Quarentena de Boston. Joel também trabalha, mas é mais para disfarçar a actividade de contrabandista que comporta risco de execução sumária.
Acidentalmente, a Resistência encontra uma adolescente muito especial, Ellie, que parece ser imune ao fungo. Na sequência de um ataque imprevisto, a líder da Resistência incumbe Joel (a troco de contrapartidas) de acompanhar Ellie em segurança até às instalações médicas onde, têm a certeza, Ellie será fulcral para desenvolver uma vacina ou uma cura. É este o enredo: Joel e Ellie têm de atravessar o país enfrentando Infectados, salteadores, militares, rebeliões e até fanáticos religiosos canibais (o episódio dos canibais foi o melhor).
Como acontece sempre neste tipo de história, a princípio Joel encara Ellie como mais um “trabalho”, uma mercadoria a transportar, mas obviamente o seu instinto protector e a culpa por não ter conseguido salvar a vida da filha começam a vir ao de cima e Joel acaba por desenvolver um sentimento paternal para com Ellie. Ellie, em princípio à defesa e relutante em confiar, acaba por se afeiçoar também a Joel como ao pai que nunca teve (como em “The Witcher”, na verdade, só para citar um caso em milhentos). É nesta relação que se baseia o fundo dramático da história, que acaba por suplantar os elementos pós-apocalípticos da premissa.
Agora, as razões do meu desapontamento. Para além do exíguo número de Infectados que Joel e Ellie encontram pelo caminho (e esta queixa não é só minha), o que mais me afastou da série foi mesmo a miúda (e a queixa também não é só minha). Não tenho nada contra a actriz Bella Ramsey, pelo contrário, adorei-a como Lyanna Mormont em “Guerra dos Tronos”, mas Ellie é uma miúda embirrante, armada em boa, com 14 anos mas mentalidade de 12, inculta, tem acesso a livros mas os seus preferidos são uma compilação de trocadilhos sem piada nenhuma e uma banda desenhada do mais básico possível que só um miúdo de 8 anos partilha com ela (já nem falo do “auge” da vida dela que foi jogar Mortal Kombat), e ainda por cima acha-se muito engraçada. Ainda me irrita mais quando outros personagens dizem que ela é engraçada (não é) e que tem capacidades de liderança (eu não vi nada, qual liderança, a miúda segue Joel como um cachorrinho atrás do dono). Enfim, detestei-a. Preferia muito mais que a protagonista fosse a filha de Joel, essa sim, uma personagem empática, mas infelizmente tiveram de a matar logo a princípio.
Outra coisa que me desagradou na série foram os episódios filler, isto é, de encher chouriços. Sem nunca ter visto o jogo à frente (nem vi nem quero ver) fiquei com a impressão de que não havia enredo que chegasse e tiveram de arranjar maneira de esticar a massa. Um dos exemplos mais flagrantes é logo o terceiro episódio (de uma hora e vinte minutos!) que é o flashback da relação entre Bill e Frank. Bill é um survivalista quarentão que aparentemente não sabe que é homossexual quando conhece Frank, já depois do apocalipse. Apaixonam-se, vivem felizes e envelhecem juntos apesar de tudo o que se passa no mundo. É um episódio muito bonito, muito romântico, muito comovente, mas eu tive a sensação de que estava a ver outro filme. Bill e Frank nem nunca se cruzam com Joel e Ellie e o episódio não faz nada para avançar o enredo. Quando estava a ver pensei que Bill e Frank deviam ser muito importantes para o jogo para terem direito a tanto destaque e tão pormenorizado, mas ao ler as críticas percebi que (mais uma vez) a queixa não era só minha. Frank e Bill só têm importância marginal para o enredo em geral, não são personagens assim tão relevantes. Mas não é caso único. Novo episódio, novos personagens, novo sub-plot, morrem todos, novo episódio. E a série vai assim até ao fim. Tendo em conta que são apenas 9 episódios, esperava-se uma história mais coesa e focada nos protagonistas. Isto nem vai parecer eu a falar, mas realmente faltaram Infectados e confrontos a dificultar a vida a Joel e Ellie. Os adversários que eles encontraram, em vez disso, foram outros humanos, alguns muito monstruosos, é verdade, mas isto devia ser uma série sobre um fungo que infecta humanos e não sobre a monstruosidade humana em geral. Um título mais apropriado para o drama realmente retratado na história devia ter sido “Joel e a Filha Perdida”.
E ainda outra coisa que me irritou bastante na série: ao fim de 20 anos aquelas alminhas ainda não aprenderam que a maneira mais eficiente de matar um Infectado é o inescapável tiro na cabeça (até porque é lá que o fungo se aloja e de onde controla o hospedeiro). Foi tanta a munição desperdiçada ao desbarato que se Daryl Dixon ou Carol ou até a pequena Judith vissem aquilo abanavam a cabeça em desdém: “Amadores!”
Não detestei a série mas esperava muito melhor e um enredo mais baseado na premissa. É sobre humanos controlados por fungos. O drama pode ficar à mesma, mas mostrem-nos os fungos, bolas!
Pelo menos assistimos a 15 minutos do desagregar da sociedade antes do salto temporal de vinte anos para a frente, o que eu gosto sempre de ver, mas ainda não foi desta que fiquei satisfeita. Quando é que nos vão mostrar a sociedade a desagregar-se como deve ser?
PS: Já depois de escrever o artigo, para não morrer estúpida, fui espreitar um stream do jogo, que por acaso estava precisamente na parte mais emocionante do episódio dos canibais. Não tive paciência para ver mais de um minuto. Definitivamente, não gosto de jogos.
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domingo, 4 de junho de 2023
Wayward Pines (2015 – 2016)
Alguém se lembra da primeira temporada de “Wayward Pines”, prometida como uma mistura de “X-Files”, "Twin Peaks", ficção científica, distopia e terror? Eu também não. Mesmo assim, decidi ver a segunda e última temporada, só para saber como é que a história acabava.
Se a primeira parte de “Wayward Pines” era toda um jogo mental, entre destrinçar a realidade da mentira, entre descobrir em quem confiar ou não, a segunda parte é muito menos pretensiosa. Aqui já sabemos tudo o que precisamos de saber.
A cidade de Wayward Pines, com cerca de 1500 habitantes mantidos em criogenia até ao ano 4000 e tal, é o último reduto da raça humana. Fora dos seus limites, os seres humanos sofreram mutações genéticas que os transformaram em aberrações, com dentes e garras e tudo, e são donos do mundo. O problema de Wayward Pines é sobreviver.
Se na primeira temporada os dirigentes da cidade nos pareciam fascistas, agora vemos as coisas pelo outro lado. O objectivo é “frutificar”, aumentar o número de sobreviventes para terem alguma hipótese, e assegurar comida para todos. Nestas circunstâncias o que nos parecia fascismo assemelha-se mais a Lei Marcial. O que não quer dizer que não haja atropelos. As meninas são incentivadas a ter filhos assim que têm o período, preparadas ou não. É uma violência. Assegurar a sobrevivência da humanidade não implica cair na desumanidade. A resistência ainda existe, cada vez mais fraca, até ser completamente arrasada. Nesta altura já não há muito a que resistir, diga-se a verdade.
As colheitas estão fora da vedação e é perigoso ir buscá-las. Com os números de sobreviventes a aumentar, é necessário procurar mais locais de plantação. A comida é racionada. Pouca gente se preocupa a sério com este problema.
De repente, todas as aberrações desaparecem de vista e os sobreviventes julgam ter uma oportunidade. Mas subestimaram os novos habitantes da Terra. Quando estes regressam, muito mais inteligentes do que os julgavam, queimam todas as colheitas já existentes. Parece ser o fim da humanidade como a conhecemos.
A segunda temporada de “Wayward Pines” é isto, uma última comunidade de seres humanos a tentar sobreviver numa situação periclitante e cada vez mais improvável. Mesmo assim conseguiram atingir-me directamente nos sentimentos com uma revelação que ninguém esperava.
Penso que a premissa podia ter sido muito mais bem aproveitada mas não tenho a certeza se “Wayward Pines” julgava que ia ser renovada ou não. Todos os sobreviventes da primeira temporada são rapidamente despachados em meia dúzia de episódios, até os principais. O fim é ambíguo e frustrante. Apesar de tudo indicar que alguém tinha um plano infalível para dizimar as aberrações com um cocktail de doenças infecciosas, parece que estes não só sobreviveram mas agora estão a procriar com os seres humanos dando origem a uma nova espécie? Estou a especular, porque não sabemos. O objectivo seria renovar ou era mesmo para acabar assim?
Aconselho esta temporada a quem gosta de distopia e histórias de sobrevivência, sem grandes expectativas.
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domingo, 20 de março de 2022
The Incredible Tide, de Alexander Key
Admito que fui à procura deste livro assim que descobri que foi a base de inspiração dos desenhos animados “Conan, o rapaz do futuro”, tão queridos da minha infância. Não fiquei desapontada. Se os desenhos animados estão cheios de exagero, de infantilidades, de super-poderes, “The Incredible Tide” é uma história realista e adulta, entre o mundo pós-apocalíptico, a ficção científica e a distopia.
Conan é realmente um rapaz do futuro, mas um rapaz muito mais vulnerável do que aquele que conhecemos. A Terceira Guerra Mundial aconteceu. Ambos os lados beligerantes insistiram em usar armas magnéticas para destruir as cúpulas magnéticas que protegiam as cidades de ataques, ignorando os avisos do Professor Briac Roa. (O livro foi publicado em 1970, em plena guerra fria; de certeza o autor queria referir-se às armas nucleares.) O que conseguiram com o uso das armas magnéticas foi a inversão dos pólos da Terra (como no filme “2012”), destruindo o planeta. Os poucos sobreviventes a esta gigantesca tsunami (o mar que cobriu os continentes) são aqueles que conseguiram refugiar-se em picos elevados.
Conan, ainda muito jovem, vai dar a um destes refúgios, sozinho, sem utensílios. Para sobreviver tem de construir tudo pela força braçal. Alguns anos depois é de facto um adolescente forte, mas devido ao esforço físico que a própria sobrevivência lhe exigiu.
No pós-guerra, um poder assume-se, intitulado a New Order, que tem como sede a cidade de Industria e procura incessantemente o Professor Briac Roa, o último cientista capaz de produzir a energia de que Industria precisa desesperadamente. Esta New Order é tão tirânica como se podia esperar de um regime único num mundo apocalíptico e o Professor faz tudo para lhes fugir.
Entretanto, Conan é “resgatado”, ou melhor, capturado, e levado para Industria onde, para sua surpresa, encontra o Professor disfarçado debaixo dos narizes da New Order sem que ninguém desconfie.
O Professor tem planos de se reunir à sua família, noutro refúgio chamado High Harbor. É aqui que entra outra das melhores personagens, a sua neta Lana. Lana conseguiu desenvolver uma espécie de comunicação telepática com os animais, especialmente com os pássaros. O Professor e a filha dele, por outro lado, conseguem comunicar telepaticamente um com o outro.
Juntos, num barco construído pelo Professor, atravessando oceanos tão novos como desconhecidos, e perante uma estranha ameaça climática chamada a “época dos nevoeiros”, Conan e o Professor vivem a aventura de chegar a High Harbor perseguidos pela New Order e por outro perigo iminente. Acontece que a cidade de Industria está sobre uma falha tectónica e não tarda a cair para o mar, o que vai provocar uma tsunami gigantesca. Conan e o Professor têm de chegar a terra antes dela.
Eu estava realmente a gostar até chegarmos ao fim: o fim é tão abrupto que me perguntei se a minha edição estava completa. Mas parece que sim, está mesmo completa, e o final não faz justiça ao resto. Mesmo assim, uma boa leitura para quem gosta de aventura, ficção científica, distopia e mundos pós-apocalípticos.
“Conan, o rapaz do futuro”
Não podia acabar sem falar do desenho animado que me levou a ler “The Incredible Tide”. É claro que não esperava o mesmo, mas comparativamente fiquei desiludida. O papel de Lana é muito mais extenso no desenho animado de Hayao Miyazaki. Senti também a falta de Monsley, personagem de “Conan” que não entra no livro. Acontece que Monsley era a minha personagem preferida, o meu primeiro contacto com uma vilã “cinzenta”, como se diz agora. Monsley trabalha para Industria e persegue Conan e os amigos. Extremamente traumatizada pela tsunami a que sobreviveu quando era criança, tem momentos de vulnerabilidade que a tornam empática. Recordo perfeitamente a cena fulcral em que a tsunami se aproxima e Monsley fica paralisada. Conan, que tem à disposição um submarino para escapar à onda assassina, arrisca a vida para sair do submarino, pega nela ao colo e leva-a para segurança, o que inicia uma nova dinâmica entre Monsley e os heróis. A personagem mais parecida, no livro, é Doctor Manski, uma pesquisadora completamente devotada à New Order que abre os olhos quando percebe que o regime que serve não é inteiramente benévolo. Mas Manski não tem a profundidade de uma Monsley, na minha opinião a melhor adição que “Conan, o rapaz do futuro” fez à história original.
Apesar de tudo isto, gostei de rever estas personagens de infância, se bem que em versão adulta e num livro muito sério. Aconselho a todos os fãs de “Conan, o rapaz do futuro”, e aos outros também.









