Numa sociedade distópica cujo lema é "temos o que merecemos" e em que o valor da pessoa é medido por pontuação, a família Hendriks está cada vez mais ameaçada. Hannah é exilada como o pai, Alex fica em maus lençóis, e Milly também se encontra sob suspeita. Entretanto, na floresta do Exterior, o patriarca Pieter Hendriks começa a congeminar um plano para derrubar o regime.
Confesso que não esperava uma segunda temporada desta série holandesa, e muito menos que a qualidade da estreia conseguisse ser mantida. "Arcadia" não é um produto de Hollywood em termos de produção e orçamento, e às vezes nota-se no mau sentido, mas, no que é verdadeiramente relevante, a série aguenta-se bastante bem.
Fiquei muito impressionada pela maneira como nos fazem compreender os personagens, até os vilões. Podemos não concordar com eles nem gostar deles, mas percebemos porque é que a Guardiã está realmente convencida de que a repressão securitária em Arcadia é a melhor solução para a sociedade. Ver as coisas pela perspectiva do contrário ao que acreditamos faz-nos ponderar os nossos princípios mais a fundo. Ultimamente, ela diz que "já não há crime nem medo", mas alguém a recorda de que agora há outro tipo de medo. Tentar viver numa utopia/distopia em que as pessoas só são valorizadas por aquilo com que podem contribuir vai forçosamente fazer com que os mais frágeis (ou doentes, ou inadaptados) sejam excluídos e, em caso extremo, como em Arcadia, considerados inúteis e não merecedores do custo que a sociedade tem de despender com eles. É a sobrevivência do mais apto, a lei da selva, aplicada com a intenção e a racionalidade fria de que o ser humano é capaz quando põe de lado a empatia. Nestes casos, regra geral, aqueles que estão em posição dominante nunca pensam que poderão ser eles, um dia, os mais frágeis, ou tentam viciar o sistema (mesmo que inconscientemente) em que aparentemente acreditam para que as regras cruéis que aplicam aos outros nunca se apliquem a eles nem aos que lhes são próximos. Esta série despretensiosa mostra-nos a humanidade falível dos que defendem sistemas baseados em ideias erróneas de mérito social, e por isso já vale muito a pena.
No entanto, acho que a série não explicou bem o golpe de Estado que deu origem ao regime. Daquilo que percebi, estão a culpar um só homem como cabecilha do atentado e isso simplesmente não seria possível. Mesmo que houvesse uma predisposição social para aproveitar o ataque terrorista para implementar o autoritarismo, uma acção deste tipo teria de ser sempre concertada entre vários conspiradores, aliás, como até está documentado na História recente. Caso contrário, líderes autoritários fariam questão de perseguir o responsável e exibir-lhe a cabeça na praça pública como exemplo. Não cheguei a perceber se "Arcadia" falhou neste ponto ou se não conseguiu mostrar o que queria (ou se não tinha orçamento para filmar uma conspiração a larga escala), mas foi a ideia com que fiquei.
Esta série surpreendeu-me. Com poucos meios fazem-nos pensar em tanta coisa.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Distopia, 1984, ficção científica, sociedades pós-apocalípticas

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