10 mil pessoas vivem no Silo, uma cidade subterrânea com 144 níveis. O ar lá fora está envenenado. O Silo é o único refúgio para sobreviver. Tirando isso, ninguém sabe quem construiu o Silo, nem quando. Os habitantes do Silo só sabem que há 140 anos houve uma rebelião de insurrectos que queriam abrir a porta ao exterior. Antes disso não há memória e a História está proibida. Até certos objectos quotidianos, como relógios e lupas, a que chamam Relíquias, podem ser interditos. As consequências são sérias para quem possui Relíquias ilegais.
Isto já é muita informação, mas "Silo" transmite-a sem pesar num primeiro episódio em que acompanhamos o drama do xerife Becker e da sua mulher Allison, que são autorizados a ser pais (a natalidade está condicionada). A tentativa falha e Allison, que trabalha no departamento de Informática, começa a questionar as regras e a proibição de fazer perguntas. Um encontro com George Wilkins, técnico de hardware e traficante de Relíquias, leva-a a fazer uma descoberta avassaladora num disco rígido antigo. Impedida de a partilhar com o marido, Allison toma a decisão mais extrema: pede para sair do Silo.
Sair do Silo é suicídio, mas a regra número um do Silo é mesmo essa: um pedido para sair é irrevogável. Quem sai não sobrevive três minutos lá fora. Os habitantes do Silo podem assistir à saída (e à morte) através de uma câmara no exterior. Para suavizar este procedimento, o Silo chama a isto Limpeza: quem sai leva um pano de lã para limpar a câmara, beneficiando assim os que ficaram.
Becker está chocado com a decisão da esposa, mas o que ela lhe diz antes de sair deixa-o intrigado e também ele começa a procurar respostas. Meses depois, é o próprio Becker quem pede para sair.
A saída/suicídio de Becker é atribuída ao desgosto de perder a mulher, mas antes disso ele tinha passado o "testemunho" a uma engenheira do departamento de Mecânica, Juliette Nichols, que se vai tornar a protagonista. Juliette era namorada de George Wilkins, o dos computadores, e acredita que ele foi assassinado, embora a versão oficial seja que se suicidou. É assim que Becker e Juliette se conhecem, na sequência da investigação. Mas investigar a morte de George Wilkins esbarra com os segredos do Silo. Será mesmo verdade que o ar lá fora está envenenado? Os écrans que exibem o exterior mostram de facto a realidade, ou imagens falsas? E se não há perigo em sair do Silo, quem é que teria interesse em manter esta situação?
Obviamente, isto é uma sociedade distópica e totalitária, com perseguições, repressão, manipulação da História e da narrativa, e até uma polícia do regime. O que mais me surpreendeu, no entanto, é que não é um regime tão brutal como o contexto nos levaria a crer. As pessoas aceitam e obedecem porque acreditam que é a única maneira de sobreviver, as tais Limpezas são voluntárias (não são execuções), e as autoridades são bem-intencionadas. Mais ainda, até a polícia do regime, aparentemente, faz o que faz para proteger o Silo. Só é reprimido, no interesse do bem comum, quem põe em causa as regras. Mas há segredos e contradições gritantes. Os tais rebeldes são acusados de destruir todos os livros e discos rígidos que guardavam a História antes da rebelião, e no entanto quem procurar essa História e esses artefactos é preso ou mandado "voluntariamente" Limpar. É de caras, estes rebeldes míticos são um vilão muito conveniente para manter as pessoas na ignorância. Mas os habitantes do Silo que se apercebem da falta de lógica desta narrativa também preferem manter as suspeitas para si e seguir com a sua vida normal. Porque, afinal, não há vida fora do Silo. Ou haverá?
O mistério não fica esclarecido na primeira temporada. O último episódio é muito chocante e faz-nos dar voltas à cabeça a tentar perceber o que se passa realmente. Somos impelidos a continuar a ver. No entanto, nós que levámos a vacina "Lost" ficamos logo de pé atrás sempre que um mistério dá lugar a um mistério ainda maior. Mas "Silo" é baseado na série de livros do autor Hugh Howey, e isso costuma ser indicador de um enredo com pés e cabeça. Por um lado, não são argumentistas a inventar um episódio por semana; por outro, se os livros foram adaptados é porque alguma coisa têm de bom. (O que não invalida os casos em que os argumentistas adaptam mal, mas há que ter esperança.)
Muita coisa para pensar
Não posso falar mais do enredo, porque a partir de aqui quase tudo é um spoiler, mas quero alertar sobre algumas fraquezas da série que podem levar os mais impacientes a desistir. Não desistam. Vale a pena. Contudo, "Silo" talvez tenha ficado melhor no papel. No terceiro episódio, especialmente, em que Juliette e a sua equipa estão a reparar o gerador descomunal que alimenta o Silo, a ciência vai pela janela fora. Eu não acredito mesmo nada que aquela coisa, grande que seja, consiga alimentar uma cidade de 144 x 5 metros = 720 metros de profundidade no mínimo (é uma estimativa minha), ou mais, porque alguns níveis são mais altos do que os outros e debaixo deles há todo um outro subterrâneo não habitado. Aquele gerador deve ser alimentado a magia, porque, para além das necessidades fundamentais, toda a gente tem janelas com falsa luz solar e vitrines decorativas iluminadas. As janelas até percebo, por questões de saúde e sanidade, mas há energia suficiente para iluminar vitrines e tudo? Há outras coisas tão erradas neste episódio que basta ter mais de 12 anos para as detectar.
Por falar em funcionar, como é que eles conseguem ter energia e espaço suficientes para vários níveis dedicados ao cultivo de cereais e criação de animais, só com aquele gerador, e dar de comer a toda a gente? Não há escassez no Silo, uma cidade enterrada um quilómetro debaixo do solo. Se calhar eu nem me punha a fazer estas contas de cabeça se não tivesse visto o gerador. Às vezes mais vale não mostrar e deixar que as pessoas imaginem.
Ao mesmo tempo, à medida que a série coloca o mistério principal em segundo plano e envereda pela investigação do homicídio/suicídio de Wilkins, pode parecer um simples policial num cenário pós-apocalíptico. Foi o que me pareceu, durante uns episódios, e algumas pessoas até deixaram de ver por causa disso. Não deixem de ver. O fim recompensa!
A mim chateou-me um bocadinho uma tendência de que já falei aqui, a "Mary Sue", a mulher super-heroína que é boa a tudo, mesmo a tudo. Juliette Nichols é uma boa engenheira mecânica, tudo bem, mas depois é feita xerife sem perceber nada do assunto e age com a confiança de quem trabalha há uns 10 anos nas forças da ordem. Isto não é culpa da actriz, coitada, que faz o que lhe mandam, e muito menos da personagem, mas totalmente dos escritores que a conceberam assim. Juliette, tal como a Claire de "Outlander", é muito boa a tudo ou quase tudo. Tenho a certeza de que até seria uma boa astronauta, treinadora de golfinhos, vendedora de castanhas. Por favor, parem de escrever personagens destas. São falsas e irritantes.
Por outro lado, "Silo" é uma série subtil em que os pormenores contam. Custa acreditar que as pessoas pura e simplesmente tenham perdido a memória da História em apenas 140 anos, mas torna-se menos absurdo quando sabemos que o Silo tem uma droga que efectivamente faz as pessoas esquecer. O que novamente nos leva a questionar quem poderá estar por trás disto, e, se há uma droga envolvida, não poderá ser tudo uma simulação ou alucinação? O controlo de natalidade, igualmente, é um método de eugenia para extinguir o gene da curiosidade. Será que o Silo existe mesmo no mundo real, ou será uma experiência? As lupas são proibidas porque permitem ler as letras pequeninas nos discos rígidos antigos, mas porque é que proibiram os elevadores? Será apenas para manter as pessoas mais separadas por níveis (e classes), ou haverá razões mais sinistras?
Gostei principalmente das cenas em que os habitantes do Silo observam os outros a sair. Todos sabem o que vai acontecer, mas noto-lhes uma esperança de que seja diferente dessa vez, de que o ar já esteja puro, de que o "limpador" sobreviva, de que seja o sinal para abandonar o Silo. Estas pessoas aceitam e obedecem, mas querem mudança.
"Silo" é daquelas histórias que permitem muitas analogias com a actualidade, desde os confinamentos, ao populismo e à IA, e até com a espiritualidade (será que existe vida após a morte, ou só queremos acreditar nisso para não ficarmos tão deprimidos?). Não é uma série perfeita, mas há aqui muita coisa para pensar.
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PARA QUEM GOSTA DE: distopia, ficção científica, pós-apocalíptico
domingo, 16 de agosto de 2026
Silo (2023 - ?) [primeira temporada]
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