domingo, 13 de janeiro de 2019

Os três valentões e a velha (Histórias da minha avó)

Ao contrário de “O Touro Azul”, versões desta história já não são tão difíceis de encontrar. Mas aqui vou contá-la como me foi contada na infância, como a reconheço e como gosto dela.
“Os três valentões e a velha”, título que lhe dei, é uma história divertida com um elemento de sobrenatural de meter medo a criancinhas de outros tempos. Hoje em dia já nem as criancinhas têm medo de tão pouco.

-§-


Era uma vez o João Valentão. Antes de ganhar esta alcunha, o João era um menino como os outros. Como a mãe não tinha leite, em pequenino teve de mamar nas tetas de uma burra. Chamavam-lhe o Mama-na-Burra, mas talvez por isso tenha adquirido uma força tão sobre-humana que ao chegar à idade adulta não havia quem a igualasse. Para mostrar como era forte, João Valentão Mama-na-Burra mandou fazer um cacheiro de ferro que erguia no ar como se nada pesasse.
Mas João Mama-na-Burra sentia-se só, o único com essa força que o separava dos seus semelhantes. Na esperança de conhecer alguém igual a ele, decidiu correr mundo.
Depois de muito andar, encontrou um homem igualmente forte, que com uma única cavadela arrasava uma montanha. Chamavam-lhe o Arrasa-Montanhas.
– Tu és forte como eu. – disse-lhe o João Valentão. – Porque não vens correr mundo também e talvez encontremos outros como nós?
O Arrasa-Montanhas concordou e acompanhou o Mama-na-Burra.
Correram e correram mundo até encontrarem outro como eles. Era um homem tão forte que arrancava um pinheiro do solo só com uma mão. Chamavam-lhe o Arranca-Pinheiros. Igualmente interessado em conhecer o mundo, o Arranca-Pinheiros seguiu viagem com eles.
Chegando a uma aldeia, precisaram de um sítio onde pernoitar e perguntaram às gentes da terra onde podiam passar a noite. Falaram-lhes de uma casa abandonada onde podiam ficar à vontade, se tivessem coragem. Porque a casa estava assombrada por uma velha que lá aparecia à noite e ninguém se atrevia a chegar perto. Os três valentões riram-se dos aldeões e instalaram-se na casa abandonada.
Enquanto os outros dois iam à caça, o Arranca-Pinheiros ficou ao fogão a preparar a ceia. Estava ele a fazer sopa no caldeirão quando a velha lhe bateu à porta.
– Ai que frio! Ai que frio! – disse a velha, e aproximou-se do fogão. Mas quando chegou perto do lume, pegou numa mão cheia de cinza e atirou-a para dentro do caldeirão, estragando a comida.
– Ah velha duma figa! – exclamou o Arranca-Pinheiros, e atirou-se a ela para lhe bater.
Mas a velha deu-lhe uma coça tão grande que quando os seus dois amigos chegaram a casa o encontraram todo aleijado, deitado na cama sem se poder mexer. Muito envergonhado, contou-lhes que tinha sido a velha a pô-lo naquele estado.
– E onde está essa velha? – perguntaram os outros. Mas o Arranca-Pinheiros não sabia. Era como se ela se tivesse evaporado no ar.
A noite passou-se, e no dia seguinte ficou o Arrasa-Montanhas ao fogão. Novamente apareceu a velha.
– Ai que frio! Ai que frio!
O Arrasa-Montanhas já estava avisado, mas mesmo assim a velha se chegou ao fogão, pegou numa mão cheia de cinzas e atirou-a para dentro do caldeirão. Também o Arrasa-Montanhas não teve melhor sorte do que o amigo na véspera. Levou uma tareia tão grande que ficou de cama.
– Amanhã fico cá eu. – disse o João Valentão.
E ficou, com o cacheiro de ferro a seu lado enquanto aquecia o caldeirão. Só que desta vez a velha não bateu à porta. Apareceu-lhe já dentro de casa, pendurada da chaminé.
– Ai que eu caio! Ai que eu caio! – disse velha, e caiu-lhe uma perna. – Ai que eu caio! Ai que eu caio! – e caiu-lhe um braço.
O João Mama-na-Burra já estava à espera dos truques da velha e não se deixou intimidar.
– Ó velha, não caias aos bocados! Cai lá toda de uma vez!
A velha assim fez. Caiu da chaminé e pegou na cinza para atirar ao caldeirão. Já lhe conhecendo a manha, o Mama-na-Burra deu-lhe com o cacheiro de tal feição que lhe arrancou uma orelha.
A velha gritou, porque afinal não era assim tão fantasmagórica que nada a aleijasse, e desapareceu tão de repente que o João Valentão não viu para onde ela se escapuliu. Mas como a velha foi deixando pingas de sangue por onde passou, conseguiu seguir-lhe o rasto até um buraco no chão.
Quando chegaram os seus dois amigos, decidiram descer todos pelo buraco a ver onde ia dar. O primeiro foi o Arranca-Pinheiros. O Mama-na-Burra e o Arrasa-Montanhas ficaram a descê-lo com uma corda, só com a força dos braços porque não precisavam de outros apetrechos. Mas quando ia a meio do buraco, o Arranca-Pinheiros foi atacado por numa nuvem de mosquitos. Picavam tanto e tão ferozmente que o Arranca-Pinheiros teve de gritar para o tirarem dali. Assim eles fizeram, e de seguida desceu o Arrasa-Montanhas. Não se deu melhor e também não suportou os mosquitos.
Mas o Mama-na-Burra estava tão furioso com a velha que nada o faria desistir. Por muito que sofresse, não pediria ajuda. E como pensou melhor fez. Padeceu os mosquitos e chegou ao fundo do poço.
No subterrâneo encontrou toda uma série de aposentos, como se alguém ali morasse. Já muito espantado, ainda mais espantado ficou quando lhe apareceram três meninas.
– Viveis aqui? – perguntou-lhes.
– Sim, vivemos. Mas estamos à guarda de uma velha que não nos deixa sair.
Percebendo que as meninas estavam encantadas, o Mama-na-Burra resolveu logo ajudá-las. Uma a uma, mandou-as subir pela corda.
Lá em cima, o Arranca-Pinheiros e o Arrasa-Montanhas ficaram tão embasbacados ao ver surgir as três bonitas meninas que se esqueceram do amigo e foram-se embora com elas.
O Mama-na-Burra esperou e esperou, mas ninguém descia a corda. Ficou por ali, a pensar no que fazer, e começou a explorar o subterrâneo à procura de saída. Mas passou-se tanto tempo que a certa altura teve fome e não encontrava que comer. Lembrou-se então da orelha da velha, que tinha enfiado no bolso. Cheio de repugnância, acabou por decidir que sempre era melhor comer a orelha do que morrer de fome.
Assim que lhe deu uma dentada, apareceu-lhe a velha à frente, implorando:
– Ai não me comas! Faço tudo o que quiseres, mas não me comas!
– Ah é assim, velha d’um raio? Então leva-me já daqui para fora!
A velha tomou-o às cavalitas e subiu com ele pelo buraco acima até à superfície. (Porque a velha, é bem de ver, era o Diabo.)
– Agora leva-me aos meus amigos! – exigiu João Mama-na-Burra.
– Ai, mas não posso, não posso! – desculpou-se a velha.
– Olha que eu como-te a orelha! – ameaçou de novo o Mama-na-Burra.
Num esfregar de olho, a velha amansou e levou-o até aos amigos e às meninas. O Mama-na-Burra estava zangado com eles, mas o tempo tudo fez perdoar.
E assim se acabou o encantamento. Conta-se que cada um dos amigos se casou com uma dessas meninas e viveram felizes para sempre.
Não se sabe onde pára a orelha da velha.

FIM


Análise
Como eu gostaria de saber a origem deste conto. Cheira-me que tal como n’“O Touro Azul” há aqui qualquer coisa de “As Mil e Uma Noites”. A explicação do Diabo foi inserida depois para explicar o elemento de maravilhoso aos ouvintes cristãos. Outras versões que vi ainda carregam mais neste tom de sermão, transformando as meninas em tentadoras que insistem em seduzir os três amigos com maçãzinhas de ouro. (Como Eva.) A mulher é representada como a encarnação do Mal, e quanto mais velha mais sabida e ardilosa. A velha, então, só pode mesmo ser o Diabo.
Gosto mais da "nossa" versão, em que se contava que “a velha era o Diabo” como um piscar de olho, como quem diz “vamos fingir que sim para isto fazer sentido mas não é para levar a sério”.

domingo, 6 de janeiro de 2019

O Touro Azul (Histórias da minha avó)



"O Touro Azul" era uma das minhas histórias preferidas de infância. Em parte porque combina elementos de duas outras histórias infantis, A Branca de Neve (o arquétipo da madrasta má) e A Gata Borralheira (o arquétipo da jovem pobre e/ou que perde tudo e acaba a casar com um príncipe). Mas o que mais gosto nesta história é a parte triste. A parte que me fazia vir lágrimas aos olhos. O sacrifício. Nunca achei que este sacrifício tivesse valido a pena e sempre pensei, ainda antes de saber que pensava, que este é um conto sombrio e cruel.
Aqui há uns anos andei à procura deste conto na internet e não o consegui encontrar. Decidi um dia escrevê-lo eu e publicar aqui. São contos da oralidade, passados de avós para mães para netas, que facilmente se perdem se ninguém os registar e divulgar. Desta vez, quando tive tempo, procurei e encontrei. O blog Contos da Minha Terra teve a iniciativa de o publicar. É de lá que o transcrevo, acrescentando outros pormenores da versão da história como eu a ouvi e conheço. E já se sabe como é. Quando ouvimos uma história em crianças só há uma versão possível e é a nossa. É a versão sagrada da nossa infância e não admitimos que se altere uma linha. Esta versão, no geral, está muito perto daquela que eu conheço.
Vou fazendo os apontamentos e a análise ao longo do conto.

Era uma vez  um rei e uma rainha, os quais tinham cada um, uma filha. Como ambos eram viúvos, resolveram casar-se, e assim fizeram.
A filha do rei era muito formosa, muito bonita e boa para toda a gente do reino. Ao contrário, a filha da madrasta era muito feia, muito desajeitada e muito malcriada para com toda a gente do palácio. Ninguém gostava  dela. Entregava-se o rei muito ao exercício da caça, e enquanto por lá andava, era a sua filha que o representava, sendo por isso o ídolo dos habitantes do reino.
A madrasta ardia de ciúmes por esta preferência e jurou por sua alma vingar-se da filha do marido. Nesse intento, numa ocasião em que o marido teve de se ausentar , ordenou a madrasta à enteada que fosse guardar um touro azul, que o pai desta comprara e que era muito bravo.


Na nossa versão da história não havia reis nem rainhas. Eram gente do povo, mas gente abastada, porque não compraram só um boi mas uma boiada toda, onde vinha o Touro Azul. 


A boa menina, toda transida de medo, cumpria as ordens da madrasta, recebendo desta uma pequena merenda para comer todo o dia.


A nossa versão é mais perversa. A madrasta entregava à enteada um pão inteiro mas exigia-lhe que o trouxesse para casa intacto. O objectivo era mesmo matar a enteada à fome. Com a ponta do corno, o Touro Azul fazia um buraquinho na côdea por onde a menina podia comer o miolo. Assim, a menina comia e o pão regressava exteriormente intacto. E lá iam resistindo à madrasta.
Para a proteger dos outros touros, o Touro Azul (que obviamente não é um animal mas alguém sob encantamento) deixava que ela o montasse quando estavam no campo.

Contra a sua expectativa o touro não só não a maltratou, mas até a olhava serenamente. No dia seguinte, voltou a menina, e quando se dirigiu para o touro, este ajoelhou-se diante dela e disse-lhe:
-“ Tira o guardanapo , que tenho por detrás da orelha, e estende-o no chão que logo te aparecerá comida e bebida consoante a tua condição.” A princesa fez o que o touro lhe ordenou, e logo viu na sua presença os melhores manjares. Satisfeito o apetite, tornou a colocar o guardanapo atrás da orelha do touro, que em seguida, se retirou, cortejando-a.

Esta parte também me parece estranha. Não me lembro de o Touro Azul cortejar a menina. Lembro-me de ele a ajudar porque tinha pena dela e porque se tinham tornado amigos.

E assim, se passaram alguns dias. A rainha admirada que o touro não atentasse contra a enteada e de que esta parecesse viver satisfeita, ordenou a um pagem que espreitasse a enteada. Em breve, este se certificou de toda a verdade e a comunicou à rainha.
Entretanto, voltou o rei da caça, e a rainha fingiu-se doente, de cama. Ficou o rei muito aflito e mandou chamar os médicos, que declararam achar-se a rainha muito enferma. A rainha fingiu grande fastio, mas como instassem com ela para que comesse, resolveu pedir um caldo da carne do touro azul. Ficou a filha do rei muito magoada com aquela exigência, e antes que o pai mandasse matar o touro azul, foi ela preveni-lo. Pela calada da noite, dirigiu-se à tapada onde logo viu o touro azul.
-“Já sei a que vens aqui: a rainha quer matar-me. Vem comigo, senão ela dá cabo de ti.” – disse o touro azul
E ambos fugiram. Depois de terem andado toda a noite e todo o dia seguinte, disse o touro:
- “Agora vamos entrar nesse jardim, onde há muitas flores de cobre. È guardado por um gigante com quem brigarei, e como ele é muito forte, talvez me mate. Tu repara se cai alguma flor.”

Outra diferença. Na nossa versão da história o Touro lutava contra um feiticeiro (não que altere o efeito ou o resultado). E entravam em pomares, não em jardins. Mas o Touro prevenia a menina para não tocar em nada e não fazer cair uma única folhinha. Dava-se a entender que haveria graves consequências se isso acontecesse.
Sem querer, a menina fazia sempre cair uma folha, e depois de o mal estar feito o Touro Azul dizia-lhe que a recolhesse no avental: "Avisei-te que tivesses cuidado. Mas já que aconteceu, guarda a folha no avental." Esta sequência de acidentes ou descuidos aparentam ser um "quebrar de regras" por culpa da personagem que faz adivinhar um desfecho trágico.


Apesar das súplicas da princesa, o touro encaminhou-se para o jardim. Logo aos primeiros passos viu a menina cair uma flor.
-“ Guarda-a no teu avental:” – disse-lhe o touro.
E a princesa assim fez. Quase ao mesmo tempo, apareceu o gigante e começou a lutar com o touro. Este ficou vencedor, mas muito ferido.
-“ Tira um frasquinho, que o gigante aí morto tem à cintura, e deita-me sobre as feridas o óleo nele contido.”- disse o touro
A menina cumpriu a ordem, e o touro ficou completamente sarado.
Mais adiante, chegaram a outro jardim em que as pétalas das flores eram de prata. Nele também havia um gigante, que foi morto pelo touro, sendo as feridas que ele recebera, curadas com o licor contido no frasquinho que pendia da cinta do gigante. Aqui, também caiu uma pétala de prata que a menina recolheu no seu avental..
Mais adiante, apareceu outro jardim em que as pétalas eram de ouro. De guarda estava um formidável gigante que trazia à cinta um frasco e uma faca de mato. Lutou o gigante com o touro e este matou o gigante.
Então disse o touro à princesa: -“ Deita-me nas feridas o líquido do frasco e guarda a faca de mato.”
A menina assim fez. Mais adiante pararam, e disse-lhe o touro: - “ Que vês acolá?”
-“ Vejo uma ribeira e lá no cimo do monte uma casa” – respondeu a menina
O touro azul disse-lhe: - “A casa que vês é um palácio; aí vive uma rainha com o seu filho. Agora farás o seguinte: com a faca que trazes tira-me a pele, guarda nela as três pétalas que apanhaste, e vai meter tudo debaixo daquela lage ali ( aponta-lha), a qual às três pancadas, se levantará. Depois suja-te na ribeira e vai-te oferecer como criada àquele palácio. Quando ouvires dizer que há aqui perto alguma festa, faze-te parva e pede que te deixem lá ir. Debaixo da lage encontrarás o que desejares para te vestires.”
Bem contra a sua vontade, a menina fez o que o touro lhe ordenou.

Esta é a parte mais dramática do conto e aqui é apresentada quase sem relevância nenhuma. Na nossa versão, não é a menina que mata o touro. O Touro Azul venceu a batalha com o último feiticeiro mas desta vez ficou tão ferido que já não consegue recuperar. Sabendo-se a morrer, dá indicações à menina de onde se dirigir. A menina não o quer deixar, mas ele convence-a. Porque é que o Touro Azul morre? Porque enfrentou feiticeiros a mais? Porque demasiadas regras foram quebradas? Porque já não é possível reverter o encantamento? O que o levou a ir enfrentar estes adversários? Tanto na versão aqui transcrita como na que conheço, a história nunca dá resposta. E a que dá não me convence, como explicarei no fim. Mas a verdade é que por amizade ou amor o Touro Azul desiste de si próprio e sacrifica a sua vida pelo futuro da menina.

Foi enfim a princesa suja e com os cabelo em desalinho, oferecer-se por criada ao palácio, dando-se o nome de Maria.
Foi recebida por criada. Daí a dias, pediu o príncipe um pente. Foi a criada levar-lho. Ele atirou fora o pente dizendo:
-“Já não tinham por quem mandar o pente, senão pela Maria Suja!...”

A nossa versão da história era mais bruta. O príncipe não atirava só o pente como atirava também a Maria Suja pela escada abaixo.
Mas temos também outro pormenor mais bizarro. Ao despedir-se, o Touro Azul dá à menina um fato todo de pau, bem como sapatos de pau. (Debaixo da lage encontrarás o que desejares para te vestires.) Quando o príncipe a atira pelas escadas abaixo ela não se aleija devido a este fato protector, mas a queda faz um grande barulho.
De onde terá vindo este pormenor? Não foi de certeza invenção da minha avó. A contaminação (de outro conto?) terá sido anterior. Será que este fato de pau estapafúrdio e todo o episódio de rolar pelas escadas abaixo, e a barulheira, servia como comic relief para distrair e divertir as crianças depois da morte do Touro Azul? Actualmente não acho graça nenhuma. Pelo contrário. Isto do fato e da violência lembra-me algo entre o BDSM consentido e o abuso explícito.

Passado tempo, realizou-se naqueles arredores uma festa. À custa de muitos pedidos, deixaram ir a criada à festa. A criada dirigiu-se à lage e logo, diante dela, surgiu uma carruagem de cobre e juntamente uma vestimenta completa do mesmo metal. Maria dirigiu-se na carruagem às festas, onde deu nas vistas de todos, sem excepção do príncipe, seu amo, que lhe perguntou de onde era.
-“ Da terra dos pentes!” – respondeu-lhe a Maria
De outra vez, mandaram pela mesma criada ao príncipe uma toalha que ele pedira para se limpar. O príncipe recusou a toalha dizendo:
-“ Não quero toalhas da Maria Suja!”
Daí a poucos dias, houve outras festas às quais a criada Maria, seguindo os processos indicados, se apresentou em carruagem de prata e vestida do mesmo metal.
- “ De onde é? – perguntou o príncipe
-“ Da terra das toalhas.” – respondeu a Maria
Numa outra ocasião, o príncipe pediu um copo e foi a Maria levar-lho. Este , muito enojado por ver que quem lhe trazia o copo era a Maria Suja, disse que não o queria.
Dias depois, houve outra festa a que Maria assistiu vestida de ouro, em carruagem do mesmo metal e toda coberta de jóias de grande valor.
O príncipe, com os seus ares mais namorados e respeitosos, perguntou-lhe de onde era.
“Sou da Terra dos copos “– respondeu a Maria e começou a fugir da festa
Desta vez o príncipe não ficou calado nem pasmado. Correu atrás dela e conseguiu apanhar-lhe o sapato que ela tinha deixado cair, levou-o para o palácio, como uma relíquia preciosa.

Da mesma forma, a nossa versão da história não termina com o sapatinho da Gata Borralheira. Esta é uma contaminação mais óbvia. Na nossa versão o príncipe acaba por perceber sozinho que a menina dos copos e das toalhas é a criada do palácio e casa com ela. E acaba assim.

Convocou todas as princesas daqueles arredores, resolvendo casar com aquela a quem o sapato servisse. Entre as diversas princesas apareceu a filha da madrasta de Maria Suja . Ela calçou o sapato e disse que lhe ficava bem, embora a magoasse a ponto de lhe rasgar a pele do pé, deixando-o todo ensanguentado.
Como o sapato lhe servia, foi logo ali marcado o casamento. Sucedeu porém, haver no palácio uma pega, que foi a razão de se descobrir o engano. Com efeito, quando os dois noivos estavam já dentro da igreja, entrou a pega na igreja dizendo: “ – Olha como ela vai toda inchada com o sapato que pertence à Maria Suja!”
Parou imediatamente a cerimónia e o príncipe tratou de se certificar se o que a pega dissera, era verdade. Todos verificaram que o sapato não servia àquela princesa, que agora o calçava. Chamaram a Maria Suja e verificaram que ela o calçava muito bem, pois era dela o sapato. Em visto de tudo isto, o príncipe casou com a Maria Suja, pois que o príncipe era nem mais nem menos que o touro azul.

FIM

Revista A Tradição Setembro 1901(texto adaptado)

Aqui está a parte que não me convence. Como é que este príncipe besta, fútil e arrogante pode ser o Touro Azul que sacrificou a vida por amor e amizade?
Nem vamos tão longe. Como é que um pode ser o outro se nunca nos é dito que o príncipe esteve desaparecido ou ausente do palácio enquanto estava encantado como Touro Azul? Enorme plot hole.
É claro que por artes mágicas tudo é possível. O príncipe pode ter sido "desdobrado" num duplo Touro Azul. E aqui teríamos duas hipóteses:
1, ou o príncipe se lembra da experiência quando o encantamento é quebrado, o que não parece ser o caso porque não reconhece a Maria Suja;
ou,
2, o príncipe não se lembra de nada e foi como se não tivesse acontecido com ele. O que nos leva à estaca zero: de uma forma ou de outra, o príncipe e o Touro Azul não são a mesma pessoa. Este fim foi ali metido à martelada para justificar a morte injustificável do Touro Azul.
Sempre me perguntei se não haveria mais pormenores nesta história que de geração em geração se foram perdendo. O conto lembra-me muito "As Mil e Uma Noites". A origem do Touro Azul (quem é, de onde veio, quem o encantou e porquê, porque tem de morrer) parece um desses contos que continuam de outros anteriores. A minha teoria, baseando-me só no que a história apresenta, é que o Touro Azul era ele próprio um feiticeiro que foi castigado/derrotado pelos outros três. Afinal, ele sabe muito bem onde ir e como se vingar. Mas isto é apenas uma conjectura.

O conto é infeliz. No fim, todos perdem. A madrasta ganha (livra-se da enteada). O Touro Azul morre. E até a menina acaba casada com uma besta de um rapazinho fútil que só repara nela quando está coberta de ouro. Que ela melhora a sua condição social? Talvez melhore. Mas que aceitação tão cínica pressupõe este conto. Os bons não vão longe. O dinheiro, a posição social e as aparências são o que mais conta. O sacrifício altruísta não tem qualquer recompensa. Aposto que no futuro, com aquele marido, a menina foi muito infeliz apesar de coberta de ouro.
Não posso considerar um final feliz nem nada que se pareça. "O Touro Azul" é uma história triste, desencantada, cínica e deprimente. E é se calhar por isso que era uma das minhas histórias preferidas na infância.


domingo, 30 de dezembro de 2018

Pompeii / Pompeia (2014)

 

Neste tipo de filmes-desastre, geralmente, o personagem principal é o desastre em si. Tudo o resto são personagens secundárias que só ali estão para enfrentar a calamidade. Foi uma surpresa que Pompeia não tenha sido assim. A história é tão interessante que a certas alturas até me esqueci completamente do Vesúvio.
Tive muitas vezes a sensação de estar a assistir a um épico à antiga, daqueles dos anos áureos de Hollywood, com perseguições em quadrigas e tudo. E não é todos os dias que vemos Jack Bauer vestido de Senador romano. Elegantíssimo, e malvadíssimo, como fica tão bem a Kiefer Sutherland.


A história não é original. Milo é o único sobrevivente de uma revolta Celta esmagada pelos invasores Romanos. Feito escravo, é agora um gladiador famoso a quem levam precisamente para a arena de Pompeia nas vésperas da erupção do Vesúvio. Por coincidência, Pompeia é visitada nessa mesma altura pelo homem que massacrou a sua tribo e os seus pais. Assim que o vê, Milo só pensa em vingança.
Nota acerca dessa cena inicial em que Milo, ainda criança, assiste à decapitação da sua mãe. É sempre difícil dizer se foi propositado ou não, mas é tão semelhante que não pode deixar de lembrar o início de “Conan o Bárbaro” (o de 1982, com Arnold Schwarzenegger). Muitas partes do enredo podiam também ter saído da série "Spartacus". O dono dos gladiadores chega mesmo a dizer: “Estes trácios só dão problemas.” E de facto, 100 anos antes, um certo trácio conhecido por Spartacus deu água pela barba aos romanos. Mas sabemos como isso acabou. Na arena, os gladiadores já não falam em revolta. Atticus, o campeão, acredita mesmo (ou quer acreditar) que lhe falta apenas uma vitória para lhe ser concedida a liberdade. Para tal, tem de combater com o Celta (Milo) e derrotá-lo. Nenhum dos dois tem qualquer interesse em matar o outro, mas é a vida de um gladiador.
Este enredo é bastante interessante por si só. Mas sabemos que um personagem “oculto” não tarda a intervir e a estragar os planos a toda a gente. Nesta altura estamos a torcer para que o vulcão expluda e safe os dois gladiadores.
A história é cativante mas isto não quer dizer que os personagens sejam muito desenvolvidos. Num filme-desastre, histórico, cheio de acção e efeitos especiais de grande magnitude, alguma coisa teria de ficar para trás. Os personagens são apenas desenvolvidos o suficiente para contar a história mas não deixam de ser bidimensionais. Os vilões são maus como as cobras. As personagens dividem-se entre opressores e oprimidos. A família aristocrática de Pompeia, para ser mais simpática ao espectador, é também oprimida pelo poder imperial. Cássia, a heroína, manifesta-se contra os jogos na arena, para sabermos que alguns romanos são “bonzinhos”. Não há tempo para muito mais.
Lamento dizer que os efeitos especiais me desapontaram, nomeadamente os da destruição da cidade e os da tsunami. Nota-se que é feito por computador, e quando se nota é mau. (Se nos lembrarmos da destruição da arena em "Spartacus", por exemplo, foi muito mais realista do que aquilo que acontece aqui.) Os efeitos especiais do vulcão, ao menos isso, já são realistas o bastante. Mesmo assim esperava mais.
Também não gostei dos clichés debitados a torto e a direito. Já basta que as personagens sejam bidimensionais. Os diálogos não precisavam de ser tão fracos.
O final surpreendeu-me. Não pensei que tivessem coragem de acabar assim. Neste aspecto, o filme diverge muito do fim “clássico”.
Pompeia não será certamente um dos filmes da minha vida mas vê-se bem e é mais original do que dava a entender a princípio.


14 em 20

domingo, 23 de dezembro de 2018

Midnight, Texas


[crítica à primeira temporada]

Sobrenatural, vampiros, sangue, sexo tórrido. Era o que eu esperava de “Midnight, Texas”, série baseada na colecção homónima de Charlaine Harris, autora dos livros que deram origem a “True Blood”. Nem acredito que estou a dizer isto, mas a “Midnight, Texas” talvez falte mesmo o sexo tórrido para a acção abrandar. Tudo acontece a um ritmo tão alucinante que nem temos tempo para conhecer devidamente os personagens, muito menos envolvermo-nos com eles.
Por exemplo, a história de Manfred, o protagonista. Um verdadeiro médium, mas também capaz de “aldrabar” os seus dons para agradar a clientes ricas. Por causa de uma dívida contraída para pagar os tratamentos da avó com cancro, é obrigado a fugir para a pequena terriola de Midnight na esperança de escapar ao credor. Este credor promete ser um vilão terrível, mas afinal dão conta dele num só episódio. Tudo é assim em “Midnight, Texas”. A série é uma sucessão de monsters-of-the-week e tudo se resolve no próprio dia. Fez-me pensar que se calhar queriam rivalizar com “Sobrenatural”, mas a diferença é que em “Sobrenatural” os personagens são extraordinários: interessamo-nos por eles, sofremos por eles. Em “Midnight, Texas” mal os conhecemos. Nem parece haver muito para conhecer. Todos os personagens são bidimensionais.
Há o vampiro bonzinho, Lemuel, um antigo escravo que encontrou a liberdade no vampirismo. Esta podia ser uma história boa e dramática, mas não merece mais do que cinco minutos de flashback.
A outra fulana (a Lexi de “Diários do Vampiro”, mas nesta série nem lhe consegui fixar o nome), assassina profissional com um passado pesadíssimo, também nunca é desenvolvida a esse nível.
Depois temos o Reverendo, que é um tigromem. (Lobisomem, mas em versão tigre.) Este deve ter uma história bem interessante, se alguma vez a conhecermos.
Entretanto há também um casal gay, ele um anjo e ele um demónio, e amam-se. Mais outra história fofinha de que nunca conhecemos nada. Eu ia adorar assistir a como é que estes dois se apaixonaram e decidiram assumir um amor tão proibido.
E finalmente temos a bruxa Fiji, cujo gato é um familiar (espírito familiar) que fala. O gato é o meu personagem preferido. Nem querem imaginar a minha raiva quando em certo episódio decidiram sacrificar o gato. Sim, é verdade que foi o gato que pediu que o sacrificassem num acto altruísta e heróico, e que este não é um gato “normal”, mas com a ignorância e a maldade que ainda existem neste mundo preferia não ver estas atrocidades em obras de ficção. Felizmente, por qualquer razão que não fez sentido nenhum, o sacrifício não matou o gato. Pelo menos isso.
Tirando estes personagens “sobrenaturais” e/ou complicados, existem os normais. E os normais ainda são menos interessantes do que os outros e nem merecem que os mencione.
O verdadeiro enredo da série, afinal, não é a dívida que levou Manfred a Midnight. Midnight é daqueles locais em que o “véu” entre este mundo e o outro é mais ténue, e este véu está a ficar cada vez mais fino. O anjo prevê que quando este véu se romper o inferno passará através dele para reinar na terra. (Um enredo muito “Sobrenatural”.) Mas existe uma profecia, de que apenas um homem que fala com os vivos e os mortos pode deter o inferno. Este é Manfred, e esta é a verdadeira razão da sua presença em Midnight.
Contado assim até parece interessante, mas deviam ver o demónio medíocre que aparece em representação do inferno. Se calhar sou eu que estou mal habituada. Já vi tão melhor!
Se ao menos as personagens fossem profundas e cativantes a série ainda se aproveitava. Não basta deitar lá para dentro um sortido de criaturas sobrenaturais e julgar que basta. Não basta. É preciso que nos interessemos por elas. Se a série acabasse agora nunca mais pensava nesta gente.
“Midnight, Texas” é uma série para ver sem interesse nem expectativas. Daquelas que servem para olhar para a televisão e pensar noutras coisas. Para ser muito sincera, nem percebo como é que foi renovada.
Do mal o menos, resta-nos François Arnaud (César Bórgia de “Os Bórgias”) que me levava para todo o lado se eu tivesse a idade dele. Mal empregado neste papel.


domingo, 16 de dezembro de 2018

Poseidon / Aventura do Poseidon (2006)


Vi o primeiro “Poseidon” quando era miúda e foi daqueles filmes que me marcaram para toda a vida. De roer as unhas do princípio ao fim. Agora já não roo as unhas, mas este “Poseidon” de 2006 causou-me quase o mesmo efeito do primeiro.
Remake do filme de 1972 ("The Poseidon Adventure"), a história é igual: na véspera de Ano Novo, o cruzeiro de luxo Poseidon é atingido por uma onda gigante que vira o navio ao contrário. Um grupo de pessoas, apesar de desaconselhadas pelo capitão, decide encontrar a saída pelas hélices, que agora estão a descoberto. Entretanto, os passageiros e tripulação que se mantiveram onde estavam, à espera de socorro, são tragados pelas águas e pelos incêndios.
Classificado como filme-desastre, “Poseidon” tem elementos de puro terror: sobreviventes a tentar escapar de um ambiente hostil em que a morte espreita a cada esquina. Não deve haver cenário mais espectacular e aterrador do que um grande navio virado ao contrário, a encher-se de água, rodeado de mar profundo. (Excepto talvez um ambiente ainda mais hostil: uma nave espacial no espaço.) Depressa o percurso se torna opressivo e escuro, desorientador, e todos os perigos espreitam os sobreviventes: cabos eléctricos em carga, explosões, mobília e máquinas aos tombos, as grandes hélices ainda a trabalhar, e, nunca esquecendo, a água a subir cada vez mais depressa atrás deles, garantindo que não há retorno.
Não há tempo para respirar neste filme. É uma corrida desesperada até à única saída possível.
Tenho apenas uma queixa a apontar sobre o fim. Depois disto tudo, os sobreviventes têm à sua espera um salva-vidas aberto e em perfeitas condições, exactamente onde precisam dele. Curiosamente, é também o único salva-vidas que se vê em redor do navio. Isto é demasiado conveniente [quase um deus ex machina] e rouba algo do heroísmo que os sobreviventes demonstram até esse momento. Não custava nada terem feito com que houvesse mais dificuldade em chegar ao salva-vidas e teria sido o fim perfeito.
A última cena, em que vemos o navio vir à tona, virar-se, erguer a proa e por fim desaparecer na sepultura das águas profundas, é tão aterradora quanto bela. Para ver isto é que muita gente fez fila para o “Titanic”.

Por que é um filme bastante bem feito, de prender a respiração do princípio ao fim,

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sábado, 8 de dezembro de 2018

Dracula Untold / Drácula: A História Desconhecida (2014)


Em vez de “untold” e “história desconhecida”, o subtítulo devia ser “versão alternativa que a malta inventou”. Com isto em mente, dói menos ver este filme.
Então, por onde começar? Historicamente, o filme é inqualificável. Começa por ser a história do verdadeiro Vlad (mais ou menos) com datas e tudo. Mas depressa percebemos que este personagem é tudo menos Vlad. Vlad Tepes foi um monstro de sadismo. Um dos maiores entre os mais infames monstros da humanidade. O protagonista deste filme é um amor. Um marido amantíssimo, um pai meigo e extremoso. Um herói que se sacrifica pelos outros. Sem dúvida um personagem pelo qual apetece torcer.
Quem me conhece sabe que não gosto nada de misturas entre a realidade histórica e a ficção mirabolante. A romantização de um personagem histórico para efeitos dramáticos é admissível numa obra biográfica, desde que não seja tão excessiva que fuja à realidade. Neste caso, e em casos idênticos, mais valia terem enveredado pelo género Fantasia e criado um personagem original. Até porque já estamos todos fartos das mesmas histórias repetidas vez após vez. Eu, pelo menos, estou fartíssima.
Já que historicamente não há ponta por onde se pegue, vou falar do Vlad Drakul, o vampiro.
Os turcos estão à porta, ameaçando invadir o principado da Valáquia. Vlad descobre que numa gruta na montanha existe um vampiro com enorme poder e força sobrenatural. Sem capacidade de responder à ameaça turca, Vlad procura este vampiro para lhe pedir os mesmos poderes. Esta cena na gruta lembra muito a cena do Mestre na série The Strain (ou será o contrário?). O vampiro, um homem que vendeu a alma ao Diabo em troca de imortalidade, dá-lhe o seu sangue, mas Vlad tem de resistir à tentação do vampirismo durante três dias para não se transformar em vampiro também. Por isso, Vlad tenciona derrotar os turcos em três dias. (Historicamente, um insulto para ambas as partes do conflito.) Para tal, Vlad ataca os exércitos turcos com nuvens de morcegos. Sim, leram bem. Morcegos verdadeiros. (Como se já não bastasse o preconceito e a maldade que certos animais sofrem da parte de pessoas ignorantes, ainda há estes filmes idiotas a ajudarem à superstição. Os morcegos não fazem mal a ninguém. Comem insectos e são muito úteis ao ecossistema.) Quando os morcegos não chegam para derrotar os turcos (porque é que será?) Vlad decide aceitar o vampirismo de modo a transformar outros súbditos em vampiros. Com os morcegos e uma dúzia de vampiros consegue derrotar os turcos em três dias, mas não sem sacrifício.
Toda esta história dos “super-poderes” (domínio sobre os morcegos, poder de atrasar o nascer do dia, o próprio Vlad a transformar-se numa nuvem de morcegos) ficaria melhor num filme de super-heróis. Talvez o Homem-Morcego. Tive a sensação de que estava a ver um filme Disney, sanitizado para um público de 13 anos. Até a prata age sobre ele como a kriptonite no Super-Homem. Não há uma única cena que não passe este crivo infanto-juvenil. Toda a gente pode ver à vontade. Não há aqui nenhum empalamento ou outra malfeitoria mais desagradável.
Mas pelo contrário, e incompreensivelmente, a cena em que Vlad bebe o sangue da mulher que ama (a pedido dela e em circunstâncias completamente heróicas) não podia ser mais absurda. Esta era a cena que devia ter sido romântica. Ela é a grande paixão da vida dele. A sua esposa, a mãe do seu filho. E está a morrer. Vlad atira-se-lhe ao pescoço como um lobisomem. Não, não, não. Está tudo errado neste filme. Tudo. Errado.
O fim é decalcado de “Drácula de Bram Stoker”. Só falta a frase “atravessei oceanos de tempo para te encontrar” mas há outra semelhante.
De repente aparece o primeiro vampiro (o que criou Drácula) não se percebe muito bem de onde nem porquê, com a ameaça mais assustadora do filme: uma sequela. Este filme nem devia ter visto a luz do dia quanto mais uma sequela!
Não percebo mesmo qual foi o objectivo deste filme. Não foi um bom Vlad, não foi um bom Drácula. Foi uma manta de retalhos de filmes anteriores e bem melhores. Vi porque sou vampiro-dependente. Não aconselho a ninguém.
Só por causa dos actores, que bem se esforçaram em dar vida a este enredo estapafúrdio, dou

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sábado, 17 de novembro de 2018

The Colony / A Colónia (2013)


Durante a primeira hora deste filme pensei que ia ver algo de muito bom. O final desaponta. Custa-me avaliar “The Colony” de forma negativa devido a essa primeira hora em que estive verdadeiramente interessada. Neste caso, mais vale fingir que não vi o fim.
Num futuro próximo, o aquecimento global provoca uma nova Idade do Gelo. Para sobreviver, a humanidade refugia-se em colónias subterrâneas, onde existem outras ameaças para além do planeta glacial do exterior. A comida é escassa e racionada. A doença propaga-se mais depressa no ambiente fechado e dizima os poucos sobreviventes.
Os doentes são colocados em quarentena. Na falta de melhoras, é-lhes oferecida a escolha de “dar uma volta” lá fora ou ser executado com um tiro. Na colónia 7, onde se passa a acção, o braço direito do homem que comanda passa logo à execução dos desgraçados, sem dar escolha. O chefe da colónia, (Laurence Fishburne, o Morpheus de “The Matrix”) discorda destes métodos mas já não tem coragem, ele próprio, de disparar contra as pessoas doentes e deixa a “tarefa” nas mãos do outro. Tudo isto já é muito dramático e intenso e promete conflito ético que baste para o filme todo.
Neste momento, a colónia 7 recebe um pedido de socorro da colónia 5, seguido de silêncio. Um grupo de auxílio parte imediatamente, percorrendo uma grande distância na neve. Quando chegam à colónia 5 encontram um bando de canibais que está em processo de comer todos os habitantes. O grupo de socorro não está preparado para uma ameaça destas. Conseguem escapar mas ingenuamente deixam um rasto de pegadas na neve que guia os canibais direitinhos à colónia 7. Segue-se o confronto.
No seu início, A Colónia lembra-nos vários outros filmes. Desde logo, “The Thing”, pelo ambiente gelado e opressivo. E “The Road” e “The Walking Dead”, por causa dos canibais, ou “30 Dias de Noite”, ou “O Dia Depois de Amanhã”. Muito prometedor. A cena em que o grupo de socorro chega à colónia atacada é verdadeiramente arrepiante. As “pancadas” que se ouvem ao longe lembram-nos inconscientemente o barulho de um talhante a cortar carne mas só percebemos quando vemos. Muito bem feito.
Se o filme tivesse acabado aqui, não tinha nada de mal a dizer. Infelizmente, todo este potencial é desperdiçado quando o confronto final transforma “The Colony” num vulgaríssimo filme de acção. Com algum gore pateta, devo mesmo dizer. Um dos habitantes da colónia bate tanto com um pé de cabra na cabeça de um canibal que esta já devia estar feita em puré, e mesmo assim ele não morre.
O que me leva à queixa principal. A certa altura um dos personagens da colónia 7 diz aos outros que tencionam fugir: “Se conseguirem sobreviver lá fora não conseguem escapar àquelas coisas.” E tem razão, porque o bando de canibais é coisificado. Melhor, é monstrificado. Não são vampiros nem zombies, são seres humanos, mas é-lhes retirada toda a humanidade. Ao fazer isto, o filme torna-se numa guerra entre bons e “monstros”, quando podia ser outra coisa muito mais profunda (“The Road”). E foi uma desilusão.
Aconselho, mesmo assim, a primeira hora do filme.

Nota para os amantes do “Sobrenatural”: neste filme aparecem duas caras conhecidas desta série. Julian Richings, que fez de Morte (uma das melhores interpretações da Morte, se não a melhor, que eu já vi em cinema ou televisão). E Lisa Berry, a Ceifeira Billie. Ambos memoráveis. Pena que neste filme os actores não tenham tido papéis tão bons. De tudo o que faz “Sobrenatural” uma série sólida, a qualidade dos actores e das suas interpretações contribui grandemente para o nosso deleite.

Quanto a “The Colony”, queria dar mais mas só posso dar

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sábado, 3 de novembro de 2018

World War Z / WWZ: Guerra Mundial (2013)


O grande problema deste filme de zombies é que não tem zombies. Há um vírus tipo “28 Dias Depois”. Assim que alguém é mordido por um infectado, transforma-se em “zombie” em 12 segundos. 12 segundos! Nos casos mais demorados, 10 minutos. Não, isto não são zombies. Um zombie é um cadáver que come vivos. Estas pessoas não são cadáveres porque nunca chegaram a morrer.
Pior um pouco, em vez de ficarem mais lentos, os supostos cadáveres adquirem tanta força e velocidade que se nota perfeitamente que algumas imagens foram aceleradas por computador. Estes “zombies” são mais Incríveis Hulks ou algo do género.
E depois temos o enredo. Um ex-agente das Nações Unidas (nunca sabemos o que ele fez ao certo, excepto que era um durão), Brad Pitt (isto é, “Gerry Lane” interpretado por Brad Pitt, mas quem é que se interessa do nome do personagem quando Brad Pitt está no écran e não se chama “Louis”?), retirado da vida activa para se dedicar à mulher e duas filhas, uma destas com asma (mas isto nunca tem importância nenhuma), é o típico ex-militar dos filmes de acção que decide merecer o repouso do guerreiro. O personagem não passa disso, um Action Man a fazer de bom marido e pai extremoso. Como acontece nos filmes de acção, por razões e acasos ele acaba por ser chamado de volta ao seu trabalho quando há uma crise. E resolve-a. E aqui temos o enredo de filme de acção que já vimos ad nauseam.
World War Z até tem umas cenas interessantes no princípio, a lembrar o melhor de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead". (Faço um parêntesis para realçar como "The Walking Dead" se tornou o mais alto patamar de comparação em tudo o que toca a zombies. Tirando o primeiro filme de George Romero, “A noite dos Mortos Vivos” de 1968, realmente não vi melhor e há que admitir.) São as cenas em que se percebe que algo está mal mas ainda não se sabe o que é. Como aquele engarrafamento em que a família está dentro do carro e começa a ver motos da polícia a avançar por entre o tráfego e transeuntes aterrorizados a fugir na direcção inversa.
Infelizmente, toda esta tensão se perde quando o protagonista observa um “mordido” a transformar-se em “algo” (recuso dizer zombie) em apenas 12 segundos. Catrapás, já estás! A partir daqui o filme torna-se num daqueles enredos em que um herói é enviado a várias partes do mundo à procura do paciente zero, de uma vacina ou de uma cura. Torna-se definitivamente um filme de acção. Como bom filme de acção, não morre ninguém importante. Afinal, o herói tem de salvar a família para que tudo acabe bem.
Entretanto, vi supostos zombies a correr mais depressa do que os vivos, a escalarem muros e arranha-céus (!) tipo formigas umas atrás das outras, e a morderem tudo e todos sem nunca pararem para comer alguém. Mas que?!... Será que as pessoas que fizeram o filme alguma vez viram um filme de zombies? Sim, viram. Na verdade, sendo um filme de 2013, em que "The Walking Dead" já liderava audiências, se calhar até nem queriam fazer um filme de zombies, mas os zombies já estavam na moda e aqui está isto. Um filme que eu vi no engodo de ter zombies. Se me dissessem que era um filme de acção com pessoas infectadas por um vírus raivoso talvez não visse, pois não?
A este filme falta tudo o que é preciso para meter medo. É verdade, as últimas cenas são tensas, mas como já sabemos que ali está um típico herói de acção ninguém acredita que lhe aconteça alguma coisa. Afinal, ele tem de salvar o mundo!
O que nos mete medo, no zombie, é o horror de um cadáver humano que se reanima, podre e malcheiroso, para comer os vivos. (Simboliza, a bem ver, o horror da própria morte. Todos somos cadáveres a prazo). O que temos em World War Z são pessoas infectadas com um vírus raivoso. Sendo assim, preferi “28 Dias Depois”. Pelo menos é mais original. Os apreciadores de zombies não perdem nada se ignorarem World War Z.



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sábado, 27 de outubro de 2018

Sanctum (2011)

 

Um grupo de espeleólogos aventureiros monta uma operação num complexo de cavernas inexploradas. A princípio está tudo tão bem organizado que até parece turismo de aventura. Até que um ciclone inesperado inunda as cavernas. A partir daqui os mergulhadores presos na gruta ficam com a saída bloqueada e começa uma desesperada luta pela sobrevivência. Este filme é inspirado em acontecimentos reais.
Por alguma razão, pensei que Sanctum ia ter ameaças sobrenaturais. Devia estar a confundir com outro parecido, The Descent. Sendo assim, é apenas um filme-desastre com elementos de terror, um terror muito velhinho: o de ser enterrado vivo. Enterrados vivos já estão todos, dentro de um sistema de grutas sem conhecerem a saída. Ou morrem por falta de oxigénio ou morrem afogados. A grande experiência destes espeleólogos não é suficiente na luta contra as cavernas. As mortes não são gratuitas.
O filme é muito competente a mostrar-nos a urgência, o perigo, a claustrofobia dos espaços apertados dentro e fora de água. É daqueles filmes que nos deixam sem fôlego porque temos a tendência de conter a respiração quando os personagens estão a mergulhar sem oxigénio.
As personagens não são fascinantes mas é impossível não torcerá por Josh, filho adolescente do espeleólogo principal, o único que não está ali de sua vontade mas porque o seu pai acha interessante levá-lo com ele nas expedições como “actividade de férias”. Pobre miúdo. Do que percebemos do filme, a mãe do miúdo já não é viva, ou o pai do miúdo estaria em mais apuros fora da gruta quando ela soubesse a que perigos aquele pai anda a expor o filho.
Tirando esta relação pai-filho, não há muito mais para comentar a nível de personagens. Os sobreviventes tentam desesperadamente encontrar outra saída, a caverna continua a inundar-se, os espaços são cada vez mais apertados, o material e os alimentos começam a ser perdidos no percurso ou a ficar inutilizados. O desastre é inevitável. Resta saber quem sobrevive.
E afinal não é necessária a ameaça sobrenatural. Basta o instinto de sobrevivência que acaba por virar uns contra os outros, tornando uma má situação numa situação ainda pior.

É um filme que vai agradar aos amantes de aventura que também gostam de terror (algumas mortes são bastante chocantes). Um daqueles que nos deixa agarrados ao écran do princípio ao fim.



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Nota: Este filme teve ainda mais impacto em mim depois do recente incidente na Tailândia. Agora percebo que tipo de estreitos eles tiveram de vencer, debaixo de água, em que tinham de retirar o equipamento para passar. Não é para amadores. Aqueles miúdos tiveram mesmo muita sorte.

sábado, 20 de outubro de 2018

Ugetsu / Contos da Lua Vaga (1953)

 

O cinema japonês clássico é uma das minhas paixões “secretas”. Não sei explicar porquê. Talvez porque são sempre relatos de crueldade e servidão em que a sensibilidade sobressai de forma mais pungente do que nos filmes ocidentais. Uma sensibilidade muito japonesa que ainda se nota nos filmes modernos, até nos de terror.
Tenho a certeza de que já tinha visto “Contos da Lua Vaga”, filme de Kenji Mizoguchi de 1953. (Recordo-me de um ciclo de cinema japonês que passou na RTP2 há muitos anos, em que vi bastante filmografia da época.) Deve ter sido há demasiado tempo para lembrar e voltei a ver. Não me arrependi.
Não são filmes para toda a gente. Quem não conseguir abstrair-se do preto e branco e da actuação exagerada dos actores (como se estivessem no teatro), ou quem não conseguir “entrar” na cultura que serve de pano de fundo, dificilmente gostará do género. Nada aqui é Hollywood, e ainda bem.
“Contos da Lua Vaga” é um filme moral sobre a ambição e a ganância. Genjuro é um camponês pobre e humilde, casado e pai de um filho pequeno, que vive num casebre contíguo ao da sua irmã, Ohama, também casada com Tobei, igualmente camponês. A acção passa-se no século XVI, durante uma guerra civil. Genjuro domina a arte da olaria e aproveita a passagem dos exércitos para vender os seus trabalhos no mercado. Faz tanto dinheiro que nunca mais pensa nutra coisa. Por seu lado, o cunhado Tobei mete na cabeça que quer ser um samurai porque não quer ser pobre toda a vida. Ambas as esposas advertem contra a ambição em demasia mas, apesar dos riscos que correm em tempo de guerra, aceitam acompanhar Genjuro ao mercado para venderem mais olaria.
Fazem o caminho de barco, para evitarem os exércitos que andam a pilhar as aldeias, mas o rio também não é livre de perigos. Depois de avisados de que existem por ali piratas, Genjuro deixa a mulher e o filho em segurança, na margem do rio, e continua a viagem. Tobei e Ohama seguem com ele.
No mercado, fazem grande sucesso. A olaria de Genjuro é magnífica. Genjuro sonha em comprar sedas para presentear a sua esposa mas Tobei pega na sua parte e vai comprar uma armadura e uma lança que lhe permitam entrar ao serviço de um senhor da guerra. Ohama vai atrás dele, mas não o encontra. Perdida em terreno desconhecido, é emboscada por soldados que a violam. A cena da violação, que não se vê, é um dos exemplos desta sensibilidade nipónica de que falava a início. Ficamos na dúvida do que acontece, mas as dúvidas são esclarecidas quando um dos soldados lhe atira dinheiro como despedida. Acrescentado, ao abuso, injúria.
Entretanto, no mercado, Genjuro é abordado pela nobre dama Wakasa e sua aia que lhe fazem uma grande encomenda a ser entregue na casa senhorial. Quando Genjuro lá chega as coisas ficam estranhas. A dama Wakasa começa a seduzi-lo com cortesias e cantigas de requinte nobre e Genjuro não tem força para resistir. A aia ajuda-o a perceber o que tem de fazer: casar com Wakasa, imediatamente. Enfeitiçado, Genjuro esquece a mulher e o filho e fica sob o domínio de Wakasa. Nem repara, ao entrar na casa, que a entrada parece completamente abandonada. Sim, é uma casa assombrada. Wakasa, a aia, até as criadas, são todas fantasmas.
Entretanto, Tobei consegue tornar-se um homem importante ao serviço de um samurai. A sua única intenção é voltar a casa, para mostrar à mulher Ohama como está rico e prestigiado. Pelo caminho, os vassalos pedem-lhe que pare e descanse num bordel do caminho. Onde encontra Ohama, forçada à prostituição agora que ficou destituída de tudo pelos exércitos inimigos.
Ainda sob o efeito de Wakasa, Genjuro vai fazer mais compras para o seu novo lar quando encontra um sábio que o alerta. Incrédulo, descobre que todo o clã de Wakasa foi morto por inimigos e que a sombra da morte paira sobre ele também a não ser que fuja daquela assombração. Genjuro não consegue afastar-se do seu amor fantasma, mas permite que o sábio o exorcize. Quando ele regressa à casa senhorial, Wakasa está mais determinada do que nunca em levá-lo dali, agora que o considera seu marido, para a sua “terra natal”. Mas desta vez Genjuro está protegido do encantamento graças ao exorcismo que recebeu.
Não vou contar o fim. É digno de se ver e reserva ainda muitas surpresas. Os amantes do sobrenatural e do terror vão certamente gostar deste filme.

Para mais informações sobre o filme, em inglês, podem consultar o título original, Ugetsu.

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