domingo, 3 de setembro de 2023
Dark (2017 – 2020)
[Contém spoilers!!!]
Tal como “The X-Files” e “ Lost” (e não vou colocar aqui “Twin Peaks” e “The Walking Dead” porque são inteiramente outro género), “Dark” é daquelas séries de mistério/ficção científica que só aparecem uma vez por década, se tanto. Desta forma, e sem esquecer os títulos mencionados, “Dark” é das melhores séries que já vi na vida. Paralelismos com “Stranger Things” também têm sido apontados, mais para promover “Dark” do que outra coisa. “Stranger Things” é uma matinée para miúdos; “Dark” é um filme para adultos para se ver depois da meia-noite.
Não existe tradução portuguesa para este “dark”, e se calhar também não existe em alemão, língua falada na série. Não é apenas “escuridão” ou “sombrio”, é um conjunto a que chamaríamos pesado, pessimista, desesperado, trágico, negro, ou mesmo malévolo em certos contextos. Esta série não é para amantes de finais felizes. Aqui as personagens morrem mesmo e para sempre e nós sofremos por elas. Eu chorei no último episódio.
Fazer a crítica a uma série com este nível de mistério é muito complicado. Tudo são spoilers. Mas fica a sinopse: após o desaparecimento de um adolescente, na pequena cidade de Winden aparece o corpo mutilado de um miúdo mais novo em circunstâncias muito estranhas. De seguida, desaparece outro miúdo, o filho de um polícia.
A princípio “Dark” parece um policial e é assim que nos prende a uma “história normal”. A partir do meio da primeira temporada já levantou voo para outros níveis que nem nos passavam pela cabeça e que incluem viagens no tempo, realidades e linhas temporais alternativas, wormholes, campos de Higgs, a Partícula de Deus, e mundos pós-apocalípticos. Acontece que têm desaparecido pessoas na cidade de Winden desde há mais de 100 anos sem que os desaparecimentos tenham sido notados, talvez por se tratarem de adultos que podiam simplesmente ter-se ido embora.
O enredo principal é sólido e consegue desenvencilhar-se sem plot holes, o que é difícil nestes casos. “Dark” é uma série verdadeiramente épica que começa como um drama policial e acaba num paradoxo existencial e apocalíptico antes que nos dêmos conta.
A nível de sinopse fico-me por aqui, mas não sem um alerta: esta série não é para espectadores preguiçosos, e nem sequer me refiro à ciência da coisa (que, estranhamente, acompanhei muito bem embora nunca tenha estudado estes conceitos). A parte realmente difícil prende-se com reconhecer os personagens. Acompanhamos algumas famílias durante várias gerações desde o século XIX a 2053! Cada personagem é interpretada por um actor diferente na infância, na idade adulta e na idade madura. Para compreender a totalidade do enredo é essencial decorar os nomes das personagens, o que é um desafio e peras! A minha estratégia foi ver a primeira temporada duas vezes e fazer um esforço para os fixar. Façam isso. Tomem notas, qualquer coisa. É mesmo necessário. Sim, parece complicado, é um desafio, mas quanto maior o desafio mais saborosa a recompensa.
Último aviso antes dos spoilers: quem quiser ver “Dark”, a melhor série da última década que quase passava ignorada na torrente de produção americana, faça o favor de parar de ler aqui e voltar depois. Não aviso novamente.
[SPOILERS!!!]
Não sem defeitos
“Dark” é uma grande série, mas tem defeitos. Se fosse um filme dava-lhe 18 em 20 porque não poderia dar o máximo. O enredo principal aguenta-se, mas ficaram muitas pontas soltas e situações mal explicadas, como, por exemplo, quando é que a máquina do tempo passa de um personagem para outro. Vi esta série quatro vezes, quatro! Alguns destes pormenores consegui deslindar sozinha. Alguns, e isso é que é trágico, só estão explicados na internet, no site oficial ou por comentários de fãs. Os comentários/teorias dos fãs não me preocupam, o que me irrita é só ficarmos a saber quem é o pai de certa personagem, por exemplo, se formos ao site. Não é assim que a narrativa televisiva/cinematográfica deve funcionar. Um filme ou série deve conter em si todos os elementos (ou pelo menos pistas) para nos dizer tudo o que temos de saber. Era mesmo necessário conhecer quem era o pai desta pessoa? Não, mas isto explicou muita coisa secundária que até aí não estava a fazer sentido para mim. A série tem três temporadas com episódios de uma hora. As duas últimas temporadas têm apenas 8 episódios cada. Talvez não fosse má ideia fazer antes 10 episódios de 40 minutos em que coubessem estas explicações que só existem na internet. (E já agora cortando as canções pop/triste que ninguém devia ter de aturar.)
Outras queixas. Não percebo porque é que o pai de Jonas teve de morrer. Isto não é um spoiler, é a primeira cena da série. Nessa altura ele ainda nem sabia que a mulher andava a dormir com o polícia. (Também não é um spoiler, é a segunda cena.) Não teria feito a mais pequena diferença se o pai de Jonas tivesse simplesmente decidido ir-se embora e deixar tudo para trás, já que, sabendo ou não do affair, aquele casamento estava mais morto do que um cão atropelado há três dias à beira da estrada. Bastava que deixasse uma carta diferente ao filho: “Olá filho, estou farto. Mudei-me para Berlim. Vou pedir o divórcio à tua mãe. Depois mando-te a morada. Um abraço do Papá.” Jonas podia à mesma ter andado a vasculhar a oficina do pai à procura de compreender o divórcio e podia à mesma ter encontrado o mapa das grutas, e tudo seria igual porque afinal ele não descobriu a passagem à procura do pai (que estava morto) mas de Mikkel, o último miúdo a desaparecer (e a quem Jonas foi o último a ver, note-se!). Mas isto não teria o efeito dramático de um gajo a enforcar-se, pois não? Vamos lá enforcar o pai de Jonas para as audiências.
Aliás, ao contrário de muitas outras séries sobre viagens no tempo, algumas personagens vão ao passado na tentativa de mudar as coisas e não alteram nada de relevante para o futuro ou apenas acrescentam um mero apontamento de rodapé. Terá sido uma manobra inteligente para dar que fazer aos actores que de outra maneira não teriam ocupação depois da primeira temporada?
Demasiado off screen
Sei que muito do que estou a dizer não vai ser percebido por quem não viu a série, mas não quero mesmo avançar spoilers e estragar o prazer de descobrir o mistério. Direi que “Dark” é também uma história de amor impossível e trágico. Direi mesmo que todos os personagens, incluindo e especialmente os vilões, agem por amor. Quando percebemos isto temos de compreendê-los, embora não possamos concordar com os seus métodos.
Para além das inúmeras gerações que temos de decorar, “Dark” é complicado a outros níveis. Por exemplo, muitas cenas são-nos mostradas fora de ordem temporal, o que nos exige que as reconstruamos mentalmente. Para complicar ainda mais, a certa altura alguns dos protagonistas mais velhos mentem aos seus Eus-Mais-Jovens para os manipular a fazer o que eles querem. Por exemplo, dizem-lhes que se fizerem X acontecerá Y, mas não acontece. O personagem fica confuso e frustrado. Nós ainda ficamos mais. Tal como os personagens, também nós temos de descobrir em quem confiar (o que me lembra muito de “Lost”). Nem sequer estou a falar de Noah, um dos “jogadores” mais importantes, porque tudo o que sai da boca dele é mentira e fácil de perceber que é mentira. Noah envolve as suas confabulações num discurso religioso que era importante no tempo dele (Deus, o Paraíso, o sacrifício, a salvação, etc) e que não tem nada a ver com aquilo que vemos que ele faz. Mas se eu vos disser que Noah acredita mesmo no que diz? Isto torna-o tridimensional, o que não podemos dizer do vilão principal.
Aqui está a minha maior queixa. O vilão final. Nunca percebemos como é que o personagem mais novo se torna naquele monstro. A transformação acontece off screen, o que nunca é bom. Não vi UMA ÚNICA MOTIVAÇÃO que o tivesse feito dar uma volta de 180º daquela maneira. Aproveito também para me queixar da personagem que aparece com a solução no último episódio. Novamente é tudo descoberto off screen. Sim, temos alguns flashbacks, pouquíssimos, e temos de acreditar no que foi descoberto sem termos o prazer de descobrir também (ou de nos serem dadas pistas para chegarmos lá). Lembrou-me aqueles livros da Agatha Christie em que o detective diz: “Ah,mas eu sei que foi Monsieur X quem matou Madame Y, porque o vi esfaqueá-la repetidamente”. Isto é sempre má escrita, não há volta a dar-lhe. “Dark” merecia melhor. Novamente retorno à ideia de 10 episódios mais curtos. Já agora também não percebi porque é que Regina tinha de morrer. Não de cancro, da outra coisa. A mulher devia ter um ou dois meses de vida, se não semanas ou dias, era mesmo necessário? Penso que é outro caso como o pai de Jonas. Efeito de choque para a audiência.
Já agora, uma outra queixa minha e de muitos fãs: porque raio é que Noah teve de fazer aquelas experiências se ele sabia muito bem como viajar no tempo, de várias maneiras e para a frente e para trás? Não digo que não haja explicação. Tenho a certeza de que há, mas não a vimos. Neste caso era importantíssimo que víssemos e percebêssemos, ou lá se vai a primeira temporada toda.
Mas não se deixem enganar pelas minhas queixas de quem viu a série quatro vezes e analisou isto tudo. “Dark” nem nos dá tempo para pensar nestes pormenores secundários tal é a voragem da velocidade que move a acção.
Direi, finalmente, que as viagens no tempo resultam em famílias sem começo nem fim. Por exemplo, a mãe de uma filha descobre que é filha da sua própria filha, o que a torna avó de si mesma. Isto foi a coisa mais doentia e perturbadora que já vi na vida, e já vi muita coisa doentia e perturbadora.
Como a própria série faz questão de explicar, o enredo baseia-se na simetria passado/presente/futuro/mundo paralelo/linha temporal alternativa. Ninguém diria, ao ver os créditos de abertura da primeira temporada, que é ali que está a origem, mas sei que ninguém me vai perceber se não vir o último episódio.
Por último, deixem-me falar de H.G. Tanhaus e do gato de Schrödinger. Schrödinger é um sádico e nunca percebi aquela experiência intelectual. (Se calhar nunca a encontrei no contexto certo. Era muito mais giro meter o próprio Schrödinger dentro da caixa e teorizar se está morto ou vivo. Era melhor até não voltar a tirá-lo de lá nunca mais, para termos mesmo a certeza de que está morto, morto, morto. Nenhuma verificação necessária.) Mas, enfim, H.G. Tanhaus é um professor, parece-me (não são teorias que qualquer pessoa consiga compreender), que tem um programa de televisão sobre Física Quântica onde expõe a ideia de Schrödinger. “Dark” explicou melhor as linhas temporais alternativas do que Schrödinger alguma vez fez. A certa altura um personagem adulto diz não se lembrar do mundo paralelo porque nunca lá foi quando era novo. E de facto não foi. O que aconteceu foi que enquanto ele estava preso no passado o seu Eu-Futuro viveu e experimentou coisas que o Eu-Passado não experimentou, logo, não pode lembrar. O tempo bifurcou-se. O que era um único homem são agora dois, cada um com experiências e memórias diferentes em linhas temporais separadas.
“Dark” foi feito para nos pôr os neurónios todos a funcionar, até alguns que nem sabíamos que tínhamos. É para ver com urgência e contar aos amigos.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1+(2+3)+1 (ou as vezes necessárias)
PARA QUEM GOSTA DE: Twin Peaks, The X-Files, Lost, Stranger Things, viagens no tempo, wormholes, realidades paralelas, linhas temporais alternativas
domingo, 27 de agosto de 2023
Jane Eyre (2011)
Por alguma razão julguei que este filme ia ser uma seca, e enganei-me redondamente. É claro que conheço a história; a preceptora que se apaixona pelo patrão que por sua vez é casado com uma mulher louca que este esconde de toda a gente em quartos recônditos da casa. É quase uma história de terror, e já foram feitas tantas adaptações ao cinema que seria impossível nunca ter visto um dos filmes.
Mas confesso que já não me lembrava dos pormenores. Durante aquelas cenas da infância, em que Jane é maltratada por um primo mais velho e detestada por uma tia que se quer ver livre dela, enviando-a para uma “escola” onde os castigos corporais são frequentes e a disciplina aterradora, nem sabia ao certo se estava a ver a infância de Jane ou a da pobre mulher louca. Uma infância de abusos daquela ordem podia muito bem enlouquecer uma pessoa.
“Jane Eyre” é um dramalhão, um bom dramalhão de Charlotte Brontë, e não sei se não será mais conhecido do que o outro dramalhão da sua irmã Emily Brontë, “Wuthering Heights” (“O Monte dos Vendavais”). Mas se “Wuthering Heights” é todo ele paixão desenfreada, gritos, lágrimas, loucura, morte e vingança, “Jane Eyre” é muito contido, espartilhado, mantendo a tensão naquilo que não se vê e não se sabe mas cuja presença se adivinha na estranheza dos acontecimentos. Esta adaptação conseguiu captar muito bem a atmosfera opressiva e misteriosa que inquieta Jane na grande mansão onde, como assalariada, não lhe cabe fazer demasiadas perguntas.
Muitas vezes não gosto de uma história por não me identificar nada com a heroína. Não foi o caso de Jane Eyre, com quem me identifiquei bastante. Diria mesmo que a admiro e que gostava de ser assim: contida, séria, profissional, impassível. Mas depois há a outra, a louca do sótão, talvez uma simbologia (acidental?) do próprio turbilhão de sentimentos, mágoas e rancores que Jane tem de esconder no sótão da consciência para que nada transpareça para o exterior. O que eu não faria jamais era casar com o homem que tentou casar comigo em bigamia. Mas a autora resolve o caso depressa, até um pouco convenientemente demais no meu entender.
Gostei muito do filme, recomendo, e estou a planear ler o livro.
15 em 20
domingo, 20 de agosto de 2023
I'll Always Know What You Did Last Summer / Vou Sempre Saber o Que Fizeste no Verão Passado (2006)
Este terceiro “episódio” de “Sei o Que Fizeste no Verão Passado” não é mau de todo tendo em conta o género. Mas a verdade é que eu já não sei o que eles fizeram no verão passado original, muito menos na sequela. Filmes completamente esquecíveis.
Nesta continuação, um grupo de adolescentes no último verão lá da terrinha, antes de irem às vidas deles para a universidade e novos empregos, decide pregar uma partida. Lêem no jornal o que aconteceu antes, e um deles veste-se de assassino, com o gancho e tudo. (Este gancho é mesmo o original, encomendado no Ebay como é moderno, o que vai ser importante mais tarde.) O objectivo é pregar um susto aos visitantes de uma feira de verão. Um dos jovens é o filho do xerife, que é bastante bom com o skate. O assassino mascarado persegue o skater até ao telhado de um prédio, de onde este salta com uma manobra monumental. A amparar-lhe a queda estariam alguns colchões colocados na rua. E, ora bem, a partida era só isto. Mas acontece que alguém retirou os colchões e o desgraçado estatelou-se e morreu.
A princípio o grupo de jovens nem quer acreditar. Era só uma partida. Nenhum deles desviou os colchões nem sabem quem foi. Mas de repente a nova realidade fala mais alto. Todos os adolescentes têm grandes perspectivas fora da cidadezinha e não lhes convém nada verem-se envolvidos num processo judicial em que teriam de provar a sua inocência, ou pelo menos a sua falta de intenção de matar alguém, ainda por cima sendo a vítima o filho do xerife. Afinal, foi um acidente azarado, ou eles assim pensam.
Dentro em breve, começam a aparecer os fatídicos avisos: SEI O QUE FIZESTE NO VERÃO PASSADO. A princípio os jovens pensam que é o xerife que está a vingar a morte do filho, mas depressa descobrem algo mais sinistro. O assassino voltou, embora tenha morrido no segundo filme. Isto significa que agora o assassino é sobrenatural! Tentam matá-lo com facas, tentam matá-lo com tiros… E ele não morre. É uma espécie de Michael Myers (“Halloween”) vingativo. Quando finalmente lhe vêem o rosto, então não é a cara chapada do Freddy Krueger (“Nightmare on Elm Street”)? Ouviram bem: Michael Myers com cara de Freddy Krueger. Pior é impossível.
Tendo tudo isto em consideração, e que agora o assassino é sobrenatural, estou abismada em como não fizeram mais filmes da série. É verdade que já não existe nada de original para explorar, mas isso nunca impediu sequelas atrás de sequelas.
Já era tempo de alguém fazer a versão portuguesa desta saga. “Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei o que fizeste no verão passado”. Cenário: Assembleia da República. O enredo seria uma mistura com “Final Destination”, em que os deputados receberiam avisos sinistros para não se aproximarem do parlamento, mas, ainda assim, seriam lá atraídos um a um, para serem chacinados de diversas formas e feitios nos corredores escuros da assembleia deserta à noite. Não vou dizer quem eu escolheria para ser a Final Girl para não parecer tendenciosa.(Sim, tem de haver uma Final Girl. É uma das regras. Mas em alguns casos a Final Girl também morre no final, fazendo jus ao título. Fica à vontade do realizador.) E pronto, foi a minha fantasia cinematográfica para alguém aproveitar.
Em suma, é um filme que se vê bem, sem grandes expectativas, e que agradará a quem conhece os dois primeiros.
12 em 20
domingo, 13 de agosto de 2023
The Winchesters (2022-2023)
Já disse várias vezes e vou voltar a dizer: “Sobrenatural” deve ter sido das séries mais subestimadas que já existiram. Durante 15 temporadas e 15 anos (2005-2020), “Sobrenatural” prendeu a atenção dos fãs e fez mesmo fãs envergonhados que não admitem conhecer os Winchesters (mas conhecem!). A química entre Sam e Dean era intensa e genuína. É preciso não esquecer que a princípio eram dois irmãos em conflito, muito diferentes um do outro, unidos unicamente pela busca de vingança em sequência da morte da namorada de Sam nas mesmas circunstâncias que vitimaram Mary Winchester. “Sobrenatural” fazia-nos querer saber de Sam e Dean. As mortes atingiam-nos. Houve mesmo cliff-hangers entre temporadas que me deixaram muito preocupada com o destino dos “rapazes”. Até os personagens secundários se tornaram mitológicos de tão inesquecíveis.
“The Winchesters” segue a mesma fórmula, mas num patamar muito inferior a este. Com produção e narração de Jensen Ackles (aqui também no papel de Dean), esta é a história de Mary Campbell e John Winchester, ou seja, supostamente uma prequela dos acontecimentos de ”Sobrenatural”. Dean é o narrador, e desde o início nos deixa de pulga atrás da orelha de que isto não vai ser exactamente o que pensamos, mas não posso tentar explicar sem incorrer em spoilers. O último episódio desvenda tudo. Prestem atenção porque no final faz sentido.
Algumas passagens de “The Winchesters” parecem de facto contrariar o que vimos e sabemos de Mary e John. Por exemplo, na série original John não conhecia o passado de Mary como caçadora e só descobriu quando Azazel (o demónio dos olhos amarelos) a matou. É então que John se torna no caçador obcecado que conhecemos.
Em “The Winchesters”, John recebe de certo “homem misterioso” uma carta do pai, Henry Winchester, que o leva direitinho a um bunker dos Homens de Letras. Mais motivo ainda para desconfiar, uma vez que John Winchester nunca falou dos Homens de Letras aos filhos e que Sam e Dean só encontram esta organização já tarde na série. (O episódio em que eles descobrem o bunker é inesquecível.)
John e Mary conhecem-se por acaso quando John chega do Vietname. Também ela anda à procura do pai, Sam Campbell, que foi caçar para parte incerta atrás de uma pista sobre uns monstros de outra dimensão chamados Akrida. Os Akrida querem aniquilar a vida em todos os planetas e já não seria a primeira vez que tentavam atacar a Terra, mas foram repelidos pelos Homens de Letras. Como é que nunca tínhamos ouvido falar de uma ameaça tão grande como os Akrida? A certa altura os Akrida até dizem a John que foram eles quem mataram Henry, o que nos deixa ainda mais perplexos. Sabemos que os Homens de Letras foram dizimados por demónios. Então, que segredo se passa aqui?
“The Winchesters” tenta fazer o mesmo que “Sobrenatural” fazia no princípio: um monstro da semana ao mesmo tempo que os caçadores perseguem a ameaça maior, os Akrida. É neste pano de fundo que John e Mary se apaixonam.
Ora, sinceramente, sabendo nós que este foi um amor épico, eu esperava ver faíscas a voar entre os dois. Pelo contrário, e lamento muito dizê-lo, não existe quase química, nem boa nem má, entre os dois actores. Mary e John são ambos casmurros e mandões, o que bate certo, e passam a série a discutir. Nunca aquela relação resultaria na vida real e muito menos acabaria em casamento. Simplesmente não está lá. Mary e John parecem mais irmã e irmão, o que neste caso não funciona por razões óbvias.
Aliás, todos os personagens mais jovens são muito superficiais. Temos algumas cenas boas com a mãe de John, Millie Winchester, a bruxa boa Ada Monroe, Sam Campbell e os actores veteranos em geral (alguns deles caras familiares do passado, mas não vou revelar). Não culpo os actores mais novos. Simplesmente não lhes foi dado o peso dramático que acontece naturalmente nas conversas entre os mais velhos.
John, Mary, Latika e Carlos não tiveram grande enredo emocional com que trabalhar. Sem surpresas, a série não foi renovada. Não sei se tenho pena ou não. Depois do último episódio ficou tudo muito bem resolvido. Não estou a imaginar mais temporadas de monstros da semana (e até esses foram muito fraquinhos) depois das proporções épicas atingidas por “Sobrenatural”. Os irmãos Winchester impediram dois ou três apocalipses, foram ao Inferno, foram ao Purgatório, foram ao Céu, travaram a irmã de Deus, mataram Lúcifer, mataram Deus, até mataram a Morte, tinham um anjo como melhor amigo e foram os pais adoptivos de um novo Deus. É difícil ultrapassar isto.
“The Winchesters” estaria sempre condenado a ser um sub-produto Young Adult a não ser que ganhasse asas como “Sobrenatural” ganhou. Sim, é preciso não esquecer que as primeiras temporadas de “Sobrenatural” não deixavam adivinhar o que veio depois. Faltou aqui a magia entre Sam e Dean, e faltaram as asas, algumas bastante literais como as de Castiel. Talvez com o tempo “The Winchesters” levantasse voo também, mas a temporada inicial não bastou para agarrar os fãs.
Eu achei interessante como entretenimento, mas confesso que os melhores momentos foram protagonizados pelas personagens da série original (obviamente). Detestei a música dos anos 70. Adorei a moda! Aquele poliéster todo, as calças de boca de sino, a roupa hippie, as flores no cabelo. A certa altura Mary usa um vestido branco que parece uma mistura entre camisa de dormir e vestido de noiva (alguma moda da altura era tenebrosa, admito). E adorei que os caçadores tivessem de usar livros a sério para investigar os monstros e que só pudessem comunicar-se através de telefones fixos ou rádios. Muito retro. Não desprezemos o poder da nostalgia. Talvez um dos problemas da série tenha sido não ter apostado mais na nostalgia. Afinal, resultou com “Stranger Things”. Mas talvez os fãs de “Sobrenatural” não tenham idade para nostalgias dos anos 70. Seja o que for, não resultou.
RIP “The Winchesters”. Ou talvez não, porque em “Sobrenatural” as coisas só ficam mortas até voltarem à vida. Talvez Jensen Ackles acerte para a próxima.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Sobrenatural
domingo, 6 de agosto de 2023
I Am Legend / Eu Sou a Lenda (2007)
Confesso que começo a ficar farta de ver o mesmo enredo repetidamente, se bem que este filme de 2007 deva ter sido dos primeiros, nos últimos tempos, a usar o único sobrevivente num mundo apocalíptico.
E o filme é basicamente isto: um vírus modificado, inicialmente usado para curar o cancro, transforma as pessoas em monstros raivosos que não suportam o sol, vivem no escuro e comem os não-infectados. (Questiono-me: porque é que não se comem uns aos outros também? Porque é que nestes filmes os infectados querem sempre comer os não-infectados? Mas divago.)
Robert Neville, militar e cientista, é imune e aparentemente o único sobrevivente da cidade. Todos os dias faz emissões de rádio a tentar contactar mais sobreviventes, sem sucesso. Ao mesmo tempo, trabalha incansavelmente a procurar a cura para o vírus a partir das suas células imunes, também sem sucesso.
Entretanto, a cidade é agora uma selva urbana. Veados correm em bandos por entre os carros parados no meio da rua desde há três anos quando as pessoas estavam a tentar fugir da quarentena (só 15 dias, a princípio, prometeram-lhes; onde é que eu já ouvi isto?). De repente, aparece uma leoa que mata um dos veados. O leão e os leõezinhos aparecem logo a seguir. Isto foi muito interessante. De certeza devem ter sido animais fugidos do Jardim Zoológico na falta dos tratadores, ou assim suponho a presença de leões em Manhattan.
Robert Neville tem uma única companheira, a cadela Max. Os cães podem ficar infectados apenas por contacto, mas não por via aérea como as pessoas. É claro que o filme usou o pobre animal para nos partir o coração.
Neste momento aparecem mais sobreviventes, quando Neville já não julgava que existissem.
E depois as coisas tornam-se estranhas. Afinal os seres humanos infectados não ficaram tão imbecis e raivosos como os pintaram, o que arrasa todo o world building feito até então.
Cheguei ao fim do filme sem perceber o que este queria transmitir. As imagens do mundo apocalíptico, desértico e selvagem, são sempre tão arrepiantes quanto fascinantes. Mas depois de vermos uma catrefada de filmes e séries do género já não tem o impacto que deve ter tido em 2007. O enredo não conseguiu aguentar-se nas pernas. Sinceramente não gostei e já vi muito melhor a partir do mesmo material. A melhor cena é mesmo a dos leões. Não estava nada à espera.
13 em 20 (mais um ponto pelos leões)
domingo, 30 de julho de 2023
Reginald The Vampire (2022 - ?)
No mundo de vampiros da Anne Rice é proibido criar um vampiro muito novo, ou muito velho, ou que não seja suficientemente atraente. Parece vaidade mas na verdade é por questões práticas: um vampiro jovem e atraente tem mais probabilidades de atrair uma vítima para se alimentar.
Não é o caso de Reginald. Reginald é um jovem obeso, careca, sem grandes atractivos, embora seja esperto. O seu objectivo era ir para a faculdade mas acabou por se empregar num trabalho frustrante numa cadeia de lojas de batidos. Reginald tem uma grande paixão por uma colega de trabalho, Sarah, mas nem tem coragem de se declarar. Uma noite, nas traseiras da loja, pede a Deus que o ajude. É então que Maurice, um vampiro e cliente regular na loja de batidos, tem pena dele e o transforma. Maurice tem um grande coração mas esquece que a comunidade de vampiros não aceita Reginald por não o julgar atraente (nota-se muito a influência de Anne Rice nesta série). Chamam-lhe inclusive o “vampiro gordo”, algo de inconcebível no modelo de estética do vampirismo. Para se livrar dele, o conselho de vampiros decide submetê-lo a uma Avaliação a que nenhum vampiro sobreviveu antes. O pior é que se Reginald não passar nesta Avaliação não será ele o único a morrer: Maurice, Sarah, e todos os que lhe são próximos morrerão também. Mas Reginald tem um super-poder. Os vampiros são capazes de “glamour”, isto é, de encantar/hipnotizar os mortais para esquecerem ou fazerem algo que lhes seja mandado, mas o glamour não funciona com outros vampiros. Reginald, extraordinariamente e sem explicação, tem o poder de encantar outros vampiros, o que o torna ainda mais um alvo a abater.
Baseado nos livros "Fat Vampire" de Johnny B. Truant, “Reginald The Vampire” pretende ser uma série cómica mas não foge aos momentos tristes. Não a achei muito engraçada, para ser franca. Gostei muito mais das passagens dramáticas, nomeadamente a história de Maurice (e Mike, já agora, de que temos vislumbres contados pelo próprio). No entanto, e desculpem o spoiler, a prova decisiva da tal Avaliação foram as maléficas Pinças Impossíveis: aquelas máquinas das feiras em que se tenta apanhar um peluche com aquelas pinças que não servem para nada. Confesso que me ri. Pior tortura não existe.
“Reginald The Vampire” não é uma grande série mas serve de entretenimento ligeiro a quem gosta de vampiros.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: vampiros, Vampire Chronicles da Anne Rice
domingo, 23 de julho de 2023
The Shallows / Águas Perigosas (2016)
Este é outro filme para recomendar aos amigos antes de irem para a praia.
Moral da história: nunca façam surf numa praia deserta, nunca nadem numa praia deserta, nunca se afastem para lugares desertos, e tudo aquilo que a mamã e o papá disseram para não fazerem: não façam!
Nancy é uma estudante de medicina a quem a mãe morreu de cancro recentemente. Na tentativa de a homenagear e fazer o luto, Nancy procura uma praia deserta no México para fazer surf onde a sua mãe tirou uma fotografia quando estava grávida. A praia é remota e de difícil acesso (ninguém lhe consegue dizer o nome do sítio), mas com a ajuda de um mexicano simpático Nancy consegue lá chegar.
A primeira coisa que faz é saltar para a prancha e começar a surfar. Dois surfistas locais já estão na água e explicam-lhe que na maré baixa um dos rochedos fica à mostra, como uma ilha, para que Nancy tenha cuidado com os baixios. Isto passa-se a poucos metros da areia, por isso não parece muito perigoso. Entretanto faz-se tarde e os dois surfistas vão para casa, mas Nancy decide ficar para apanhar uma “última onda”.
Sozinha, descobre uma carcaça de baleia em que ninguém tinha ainda reparado. Atrás da carcaça vêm os necrófagos, e um tubarão enorme (mas mesmo enorme!) que considera que Nancy está no seu território. Por essa indelicadeza, vai atrás dela e dá-lhe uma bela dentada na coxa. A dentada é muito realista e repulsiva.
Nancy consegue escapar para o tal rochedo, onde uma gaivota ferida também procurou abrigo, mas o rochedo só vai estar fora de água até à maré cheia. Entretanto o tubarão não pára de rodear o rochedo.
Nancy tem as bases de medicina para usar os brincos como pontos (espero que sejam de ouro ou podiam causar uma alergia muito grave) e o casaco de mergulho como ligadura para estancar o sangue, mas sabe que precisa de ajuda imediata ou a gangrena vai instalar-se. Dia e noite, não contente com a carcaça de baleia, o tubarão não pára de a rodear. De manhã, quando os dois surfistas regressam, não acreditam nos avisos de Nancy para não se meterem na água… e são comidos também. Ninguém sabe onde Nancy está. Agora é um duelo entre ela e a besta das águas.
Devo dizer, achei algumas passagens bastante irrealistas. Depois de algumas tentativas de Nancy para afastar o tubarão, parece que este já estava a agir por “vingança pessoal”. O que, de certa forma, vem na tradição deste tipo de filmes “homem vs tubarão”, mas nunca deixa de ser forçado. O fim, então, é mesmo inacreditável. Mas pelo menos a gaivota safa-se, que é o que interessa.
Tirando o irrealismo de algumas partes, se virmos o filme sem grande espírito crítico, “The Shallows” é daquelas histórias de sobrevivência de roer as unhas e torcer pela heroína. No fundo, acaba por ser mesmo isto: mulher vs tubarão, inteligência vs força bruta, criatura da terra vs criatura do mar. E funciona. Nunca conseguimos respirar fundo do princípio ao fim. Mas um bocadinho mais de realismo não teria custado muito, acho eu, embora em detrimento do espectáculo.
14 em 20
domingo, 16 de julho de 2023
Dexter: New Blood (2021)
[SPOILERS! Aconselho os fãs de “Dexter” a só lerem este artigo depois de verem a série porque vai haver spoilers do princípio ao fim.]
“Dexter: New Blood” foi feito, admitidamente, porque muitos fãs não gostaram do fim da série original que terminou em 2013. Eu devo ter sido das poucas pessoas que efectivamente gostou do final, Dexter com a irmã morta e envolta num lençol branco, qual fantasma, contra o céu negro da tempestade, o último “corpo” que Dexter amargamente depositou no mar alteroso antes de conduzir o barco Slice of Life mesmo para o meio do furacão.
O que enfureceu mais os fãs foi que Dexter sobreviveu e assumiu uma identidade falsa para passar a viver como lenhador. Não sei o que é que os fãs queriam em vez disto, talvez que Dexter fosse castigado? É caso para dizer “cuidado com o que se deseja”.
Serial killer em abstinência
Na primeira cena da nova série, Dexter está a correr numa floresta deserta e coberta de neve, com uma caçadeira, atrás de um veado branco, um animal lindo e majestoso de focinho negro que parece saído de um conto de fadas. A princípio pensamos que o objectivo é caçá-lo, mas com o decorrer dos episódios percebemos que Dexter faz esta corrida atrás do veado todos os dias, aproveitando a mira telescópica da espingarda para o observar. O objectivo é aproximar-se cada vez mais até conseguir ganhar-lhe a confiança.
Ficamos também a saber que Dexter já não é lenhador. Mudou-se para uma terrinha de interior onde trabalha numa loja de caça e pesca a vender armas, isco e facas de mato, o que é mesmo o emprego ideal para ele, e agora dá pelo nome de Jim Lindsey. Como um alcoólico em abstinência, Dexter conseguiu controlar os seus impulsos homicidas e já não mata ninguém há 10 anos. Isto é-nos revelado pelo novo “fantasma” que o acompanha, já não o pai adoptivo e mentor Harry mas nada menos do que a sua irmã Debra. Debra tornou-se a sua consciência, o reflexo dos seus medos e a sua maior antagonista quando Dexter ameaça querer ceder aos instintos que o levaram à fuga.
Mas voltemos à simbologia do veado, um animal carregado de mitologia desde tempos imemoriais. (Os amantes das lendas arturianas vão perceber isto muito bem.) Quanto mais penso nisso, mais me parece que a corrida matinal atrás do veado é para Dexter uma exibição de poder e auto-controlo: o poder de matar a qualquer momento e não o fazer, o dominar dos instintos.
É claro que toda esta pacatez não podia durar. Um miúdo rico e privilegiado (e responsável por um “acidente de barco que matou 5 pessoas”) está de férias na terrinha e decide ir caçar. Para mal dos seus pecados, mata o veado branco mesmo à frente de Dexter. Isto já seria o suficiente para enfurecer o serial killer reformado, mas o facto de o parvalhão caber no Código ainda ajuda mais. Dexter quebra o jejum de 10 anos, tão impulsivamente que nem planeou como se livrar do corpo. Isto é tenso e recorda-nos daquilo que a gente gostava em Dexter: o perigo constante de o descobrirem.
Aqui esteve mesmo muito próximo porque Dexter está destreinado e deixa um rasto de sangue. Para além disso, é namorado da chefe de polícia lá do sítio, Angela, talvez pela excitação do perigo ou pelo acesso à esquadra (mas ela também é muito gira, juntando o útil ao agradável).
Dexter ainda não se tinha livrado do corpo quando lhe bate à porta um espectro do passado: o seu filho Harrison, agora adolescente. Harrison vivia com Hannah na Argentina mas esta morreu e ele foi enviado para os Estados Unidos onde andou recambiado de lar de acolhimento em lar de acolhimento. No entanto, Harrison descobriu uma carta que Dexter enviou a Hannah, explicando a sua decisão de não se juntar a eles na Argentina. Hannah diz a Harrison que Dexter morreu, mas a carta tem remetente (o que é estranho para um serial killer que não quer ser encontrado, muito embora ninguém ande atrás dele porque toda a gente pensa que o Bay Harbour Butcher é o falecido Sargento Doakes), o que permitiu a Harrison seguir a pista do pai. Harrison está muito zangado por ter sido abandonado, mas acima de tudo quer respostas. A princípio Dexter nega ser o pai dele, mas acaba por mudar de ideias e aceitar a paternidade de braços abertos.
Esta nova série gira em torno dessa tentativa de pai e filho restabelecerem a relação, especialmente quando Dexter percebe que Harrison pode ter herdado também o “Passageiro Sombrio”.
Ao longo dos episódios, Harrison consegue arrancar ao pai toda a verdade. Ao mesmo tempo, Dexter percebe que talvez tenha de ensinar o Código ao filho por muito que o fantasma de Debra (a sua consciência) o tente dissuadir.
Final incoerente
Não vou explicar o enredo todo, mas existe mesmo um serial killer a operar há 20 anos na pequena cidade. Entretanto, Dexter e Harrison já estabeleceram uma ligação tão estreita que o adolescente aceita a verdade sobre o pai e até o acompanha na matança ritual do tal serial killer, aparentemente acreditando que “matá-lo é salvar vidas”.
Aqui é que o fim se espalha ao comprido, na minha opinião. A chefe de polícia, namorada de Dexter, conseguiu descobrir a sua verdadeira identidade e desconfia mesmo que Dexter é o Bay Harbour Butcher. Na sequência de um homicídio local, Angela prende Dexter. Dexter sabe que as provas que ela tem são fracas, mas se Angela começar a esgravatar há o sério risco de descobrir algo que realmente o incrimine. Para fugir da esquadra, Dexter tem de matar um dos polícias, que é também o treinador de wrestling na escola de Harrison.
O plano de Dexter é fugir com o filho e desaparecer novamente, e pede a Harrison que se encontre com ele exactamente onde o veado foi morto. (Os amantes das lendas arturianas já sabem onde isto vai dar…) Aqui é que não faz sentido nenhum. Ainda dois dias antes Harrison tinha assistido ao ritual de Dexter, embora com algum desconforto no fim mas em total concordância com o pai e disposto a fugir com ele. Quando Dexter mata o treinador de wrestling, que Harrison só conhecia há duas semanas, se tanto, e mal, Harrison acusa o pai de matar um inocente e dá-lhe um tiro?! A sério? Não! Não é credível. Não havia laços emocionais com o treinador para causar isto. Ainda se Dexter tivesse matado alguém importante para Harrison, como a mãe, a madrasta ou a tia, mas um gajo qualquer, uma personagem secundária? Não. Como uma pessoa normal, Harrison podia ter ido à polícia. Se Dexter fugisse sozinho, Harrison podia lavar daí as suas mãos. Tudo menos matar o pai, especialmente quando a série toda se passou a estabelecer uma relação tão próxima entre eles. É incoerente com o desenvolvimento do personagem e feito apenas para causar choque.
Se Dexter tinha mesmo de morrer, que pusessem outra pessoa a matá-lo. A namorada, por exemplo, ou um polícia qualquer. Nunca o filho a matar o pai. Eu não acreditei neste fim, um fim muito pior do que o da série original, e admito que não queria ver Dexter morrer. Admito que queria que Dexter se regenerasse, e este final deixou-me triste (para além de indignada com a incoerência).
Dexter sempre foi um psicopata complicado, capaz de sentir empatia e amor (o que coloca imediatamente a questão: será que Dexter é mesmo um psicopata?), que tem uma consciência e sente culpa. Isto sempre nos foi dito pelas suas interacções com os fantasmas Harry e Debra e o seu constante e característico monólogo interior. Nesta última série, Dexter superou o egoísmo inicial, e nem fez o que era melhor para ele em termos práticos, e tentou ser o melhor pai que sabia. Não merecia ser morto pela única pessoa por quem sentiu amor incondicional. Não sei o que é que a série queria com isto. Se queria chocar só conseguiu irritar. Até Mordred tinha melhores motivos para matar Artur.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: Dexter, serial killers
domingo, 9 de julho de 2023
Aristides de Sousa Mendes - O Cônsul de Bordéus (2011)
Aqui há uns tempos houve um programa de televisão que promoveu a eleição do maior português de Portugal. O voto era por chamada telefónica de valor acrescentado, o que significa que quem vota mais vezes (e tem posses para o fazer) consegue ganhar.
Quem se lembra deste episódio infeliz recordará que acabou num empate entre António Salazar e Álvaro Cunhal. (Tipo os comentários do Observador…)
Eu votei neste homem, Aristides de Sousa Mendes, sem dúvida o maior português do século XX. Como cônsul de Bordéus durante a Segunda Guerra Mundial, Sousa Mendes emitiu 30 mil vistos de passagem para Portugal contra as ordens do regime, salvando, inclusive, 10 mil judeus. Por isso é hoje reconhecido pela comunidade judaica como um Justo Entre as Nações (gentios que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar vidas de judeus do extermínio pelo nazismo), o que não é para todos.
Esta é a história de como Sousa Mendes ignorou as directivas de Salazar, obedecendo antes à sua consciência extremamente católica (ironicamente). Uma das cenas mais tensas do filme é quando o cônsul recebe um telegrama directamente do Professor Salazar, e mesmo assim persiste em passar vistos a eito, até não poder mais, inclusive numa mesa de café, já os alemães invadiam a França. Com isto, Sousa Mendes salvou 30 mil vidas.
É claro que desconheço os pormenores da intimidade do cônsul (interpretado por Vítor Norte), mas o filme dá a entender que numa primeira fase Sousa Mendes acreditava que Salazar ia “compreender”. O que lhe aconteceu foi acabar a vida na miséria.
O filme é maioritariamente contado através da perspectiva de um miúdo judeu que sobreviveu graças a Sousa Mendes. É interessante, mas roubou-nos muito do que aconteceu depois ao cônsul caído em desgraça.
Ficou na ruína e na miséria… e depois? Aristides de Sousa Mendes tinha 14 filhos, era rico. O que significa a ruína para um homem destes? Vou fazer o papel de advogado do Diabo e vou ser muito directa. Ser generoso, quando se é rico, quando nunca se passou privações na vida nem se sabe o que isso é, quando sempre se teve mansão onde morar e criados a servir, não é a mesma generosidade (nem a mesma miséria) de quem nasceu pobre e tem de fazer das tripas coração para sobreviver. Não estou de modo algum a diminuir o heroísmo de Sousa Mendes, mas o que significou a ruína para ele, exactamente, e para os filhos dele? Foram impedidos de estudar por falta de posses? Acabaram como carpinteiros, cerzideiras, mecânicos, cozinheiras? Passaram fome? Faltou-lhes roupa para vestir? Passaram frio de inverno? Esta foi a parte do filme que eu queria ter visto e que não foi abordada. Bastavam uns 10 minutos no fim, até menos. Uma reflexão do protagonista sobre o que fez e o que perdeu também seria interessante.
Este ainda não foi o filme sobre Aristides de Sousa Mendes que eu queria ter visto, mas é melhor do que nada.
14 em 20
domingo, 2 de julho de 2023
Tales of the Walking Dead (2022)
“Tales of the Walking Dead” não é um spin-off mas antes uma antologia de contos no universo Walking Dead não relacionados com as personagens originais excepto o episódio “Dee”, mais uma perspectiva sobre o passado de Alpha (líder dos Whisperers na série).
Evie/Joe
Joe é um survivalista que se barricou num bunker subterrâneo já preparado antes do apocalipse zombie com o seu velhinho doberman Gilligan. Tudo corre bem até que Gilligan é apanhado por zombies para defender o dono e a solidão torna-se demasiada para Joe suportar. Joe lembra-se então de conversas na internet pré-apocalipse com outra survivalista ferrenha que também tem um bunker e por quem ele nutria alguns sentimentos. No caminho encontra Evie, que igualmente está a fazer uma viagem para reencontrar o amor.
O episódio é mais engraçado do que romântico, mas fala sobretudo de amizades improváveis.
Blair/Gina
Este foi o episódio de que gostei menos. Uma patroa e uma recepcionista que se odeiam ficam presas num loop surreal no início do apocalipse zombie em que certos acontecimentos se repetem vez após vez até que ambas decidam cooperar. E é isto.
Dee
Considero “Dee” o episódio mais relevante porque nos fala mais de quem era Alpha (Dee) logo após assassinar o marido e ficar a viver com Lydia por conta própria. Percebemos aqui que a futura líder dos Whisperers não tem qualquer escrúpulo em matar, o que já sabíamos, mas o que não sabíamos é que lhe ocorreu matar a própria filha quando não a julgou capaz de sobreviver. Lydia não se apercebeu disto, pelo menos conscientemente, mas esteve perto. Não admira que a miúda tenha ficado tão traumatizada.
Descobrimos também que Dee não teve a ideia dos Whisperers, até isso foi roubado a outra mulher, a Alpha original. Vale a pena ver este episódio.
Amy/Dr. Everett
Dr. Everett é um daqueles especialistas em vida selvagem que decide estudar o Homo Mortuus (designação inventada por ele) como se fosse a nova espécie no topo da cadeia alimentar. Digamos que é um National Geographic Wild com zombies. A parte mais interessante do episódio é que na zona abandonada pelos seres humanos a natureza recupera e renasce (o que não é de estranhar). Amy faz parte de um grupo de sobreviventes que querem voltar a colonizar a área, com a feroz oposição do Dr. Everett que considera o ser humano a pior ameaça ao planeta que já existiu.
É um episódio interessante porque apresenta o apocalipse zombie de um ponto de vista ecológico.
Davon
Este é de todos o episódio mais confuso. Um homem acorda algemado a um zombie e a ser perseguido por homicídio. Uma vez que bateu com a cabeça, está amnésico e tem de reconstituir tudo o que se passou para se encontrar naquela situação, embora tenha a certeza de que está inocente. Da mesma forma, como ele, somos obrigados a reconstruir os factos, muitos deles fora de ordem e fruto da memória afectada do protagonista. Mas no fim compensa.
La Doña
“La Doña” foi o meu episódio preferido (tirando “Dee” por razões que se prendem com a série original), não tanto pelos zombies mas porque os protagonistas estão numa casa assombrada.
Um casal de sobreviventes pede abrigo a uma mulher com reputação de “bruja” (La Doña), que esta concede por uma noite, mas depressa um deles começa a insistir que fiquem mais tempo. A mulher manda-os embora e, na sequência de um acidente, bate com a cabeça na quina da mesa e morre. Não foi culpa de ninguém, e o casal decide apossar-se da casa, mas cedo começam a ser assombrados pelo fantasma da antiga proprietária que continua a querer expulsá-los. Foi refrescante ver uma história de fantasmas num universo de zombies e em que estes quase não têm importância.
Em suma, “Tales of the Walking Dead” é uma colecção de episódios especialmente para fãs, mas que poderá muito bem agradar a toda a gente, mesmo aos que não viram a série original ou os spin-offs.
ESTA SÉRIE MERECE SER VISTA: 1 vez
PARA QUEM GOSTA DE: The Walking Dead, Fear the Walking Dead, The Walking Dead: World Beyond, zombies








