Marilyn Manson ao vivo
Pavilhão Atântico, 19 de Novembro
Passava das nove e meia quando cheguei ao Pavilhão Atlântico. Se calhar porque não estou habituada a concertos de estádio (fico-me por salinhas mais modestas) estranhei o aparato policial nas portas de entrada. A última vez que vi tantas fardas juntas foi no Disorder. Depois da revista policial digna de aeroporto em alerta laranja, perguntei-me se também tinham apalpado assim o maluco do americano que ia subir ao palco.
Perdi completamente os Turbonegro mas o trabalho não perdoa e a certa altura temi nem chegar a tempo de apanhar o princípio de Manson. Tive sorte. Cheguei no intervalo e ainda pedi uma cerveja "grande" pelo módico preço de 2 euros e 90 (não roubam pouco, não!).
O público era bastante heterogéneo, dos pitos aos cotas, dos metaleiros aos góticos, até à malta que que não tem nada a ver com nada e nunca se adivinharia que gostasse de Marilyn Manson.
Às 21h55 ouviu-se o intro e pouco depois caiu literalmente o pano. Marilyn Manson, pintado com uma banda vermelha horizontal sobre os olhos, muito ao seu estilo, atacou em força com "If I Was Your Vampire" do novo álbum.
Sucedeu-se um sortido de êxitos do passado mas o público estava frio, apático, nem batia palmas. Grandes espaços na plateia, longe de preenchida, e os balcões quase desertos. Eu própria me arrependia de ter pedido a cerveja "grande", ali especada com o "balde" nas mãos sem poder aplaudir. Não era que Manson desapontasse. A voz está boa, os novos músicos fazem o que devem... Mas faltava química.
A coisa só começou a animar quando Manson passou ao teatro. No alto de uma cadeira gigante, pôs-se a fazer malabarismos enquanto cantava "Are You The Rabbit?", mais uma do novo álbum, e o público empolgou-se.
Talvez Marilyn Manson tenha perdido aquela capacidade de chocar a que as pessoas se habituaram e ande simplesmente à procura de uma maneira nova de estar em palco. Uma coisa é certa, as pausas no intervalo das músicas para mudar o cenário são um "corte" no ambiente musical que arrefece completamente a plateia.
Munido de projecções relacionadas com os conceitos dos álbuns anteriores, Manson mostrou-se pouco "obscene" e muito bem comportado. Fizeram-lhe chegar uma bandeira de Portugal (cheguei a pensar que era lingerie mas não tivemos tanta sorte...) que pôs aos ombros em sinal de respeito. O público gostou. Eu não sei se Manson gosta de bandeiras (parece-me que não) mas foi bonito. Só faltava uma condecoração do presidente da República e um beijinho da primeira dama. Quem ainda espera o Anticristo que cospe e dá pontapés pode tirar o cavalinho da chuva. Pelo contrário, durante "Heart-Shaped Glasses" tivemos direito a uma chuva de confettis (pretos). Parecia o Dia dos Namorados.
Mas não vou ser mázinha. Quando já começava a pensar se tinha deixado "Os Sopranos" a gravar e se ainda chegaria a casa a tempo de ver "A Letra L" e se lá fora ainda chovia muito, fui arrancada do tédio por dois grandes momentos. O primeiro quando Manson se fez erguer num aparato metálico para cantar "The Reflecting God". Mais à vontade com o novo Manson, o público que quis entregou-se completamente: "shoot, shoot, shoot motherfucker, shoot!"
O outro grande momento foi quando o cenário voltou ao primeiro álbum, grandes faixas negras ao fundo com o símbolo do raio, e Manson, de fato, gravata e cartola, não só canta como interpreta um "Antichrist Superstar" em que faz de político, marioneta decadente, pregador, tudo ao mesmo tempo, para no fim lançar fogo ao livro que segura na mão. Política e religião a arder e eu a aplaudir freneticamente, às gargalhadas. Deve ser a primeira vez que um concerto apela ao meu sentido de humor mas confesso que me diverti imenso. "They say the drugs are made in Portugal" cai sempre bem. Não sei se Manson gostou. Com o homem tudo é ironia. Parece-me que não, como já me tinha parecido da última vez que o vi no Super Bock Super Rock. Gostava mesmo era de o ver no Coliseu, mais perto do público, mais intimista.
O próprio Manson parece também querer vencer a distância. Ainda andou a cantar para as primeiras filas antes do fim, e depois de "Beautiful People" lançou-nos uma nuvem de confettis brancos. Tudo muito profissional, tudo medido e ensaiado como numa peça de teatro. Pouco, se alguma coisa, é deixado à espontaneidade do momento. Para concerto de rock, sabe a pouco. Para peça de teatro, Manson terá de abandonar a tentativa de ser apenas um cantor de rock e abraçar o seu lado vaudeville. E talvez não fosse má ideia. O formato "concerto" parece atrapalhar mais do que ajudar. Rock is dead?
terça-feira, 20 de novembro de 2007
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Movimento gótico: Uma Perspectiva I
No princípio era o nada. Quando eu cheguei à noite, o Bairro Alto era ainda uma sucessão de tascas, casas de fados e elitistas bares da moda. Um pormenor que recordo com alguma perplexidade, ainda havia prostitutas na rua, sempre duas ou três, já quase reformadas e outras a entrar na pré-reforma, na esquina da Rua da Atalaia junto às Primas. Eram reminiscências de um tempo antigo, de engate à meia porta e cinta na liga, resquício ainda mais rebuscado da Lisboa do fado vadio, da Severa e de outras menos más, da soldadagem de província em busca de copos e mulheres, a fazer-se homem, dos boémios... e, claro, dos artistas. Parece há muito tempo mas ainda em 1987, quando eu cheguei, as pessoas sérias não saíam à noite. Sair à noite era coisa de puta, de putanheiro, de maricas e de artista de revista. Foi nesse Bairro Alto que eu herdei as tascas, as putas e os intelectuais. Estes últimos tinham os seus selectos santuários, o Frágil e os Três Pastorinhos, onde ninguém entrava se não vestisse Ana Salazar.
Não é possível descrever o meu caminho sem começar aqui, no Bairro Alto, onde (quase) nada do que há hoje existia mas algo de novo já começava a fervilhar, como um vírus contagioso todo contente no esgoto infecto, ainda invisível e incubado, mas pronto a espalhar a sua doença.
Mais em baixo, na rua do Diário de Notícias, havia sempre punks à porta de uma determinada discoteca. Discoteca era o nome que dávamos a um sítio onde se ia ouvir música tão alta que não se podia conversar. O termo "bar" raramente se ouvia. Havia o piroso bar dançante, isso havia, e a mais piolhosa "boite", geralmente também "casa de meninas" mas não necessariamente. Vai por isso o termo discoteca aplicado à Juke Box como a conheci, onde pela primeira vez ouvi Sisters of Mercy, Cure, Siouxie, Bauhaus ou Joy Division fora de casa.
Mas não avancemos mais que ainda há muito para contar. Lembro-me especialmente da sujidade, da porcaria. Ainda hoje os bares, tascas e mesmo discotecas da capital (nem escapam os mais finos) primam pela falta de limpeza. Falta de higiene da gerência, falta de asseio dos clientes. Porcos na pocilga em todo o estilo. (Será que conto aquela da menina que mijou nas escadas da casa de banho do Kremlin porque a pia estava ocupada? Não, não conto. E isso é muito para a frente na história.) Eis algo que não mudou. O que me leva a perceber que estas memórias começam muito antes disto tudo. O vírus desenvolve-se na merda.
A primeira vez que eu vi um punk tinha uns 7 ou 8 anos. Estávamos para aí entre 1979 e os primeiros anos 80. Eram duas gajas que vinham dos lados da Feira da Ladra. Os meus olhos de criança fixaram-se nas meias rotas até à brutal revelação que elas se vestiam assim de propósito. Collants esburacadas, roupas rasgadas, possivelmente de quem dormia na rua ou algo parecido (já havia droga mas não se sabia). Mas o que mais me chamou à atenção foi de facto a sujidade daquela gente. O cabelo, todo no ar, mas era mais da porcaria do que do gel. Se isto foi assim na anarchy do UK ou apenas aqui na piolheira (como um amigo insiste em chamar a isto, para meu desgosto) nunca saberei. Lembrei-me delas quando vi punks mais tardios deitados no chão a beber garrafas de litro de cerveja Sagres, também na Feira da Ladra, já iam altos os anos 80 e eram diacrónicas aquelas personagens de crista e pins dos Sex Pistols. Imaginem lá o que sustinha as cristas? Porcaria. Sabão azul e branco e porcaria. Muita porcaria. Não havia lêndea ou piolho que sobrevivesse muito tempo naquela cabeça cheia de heroína (ou será que os piolhos também gostavam?) mas na altura não se falava do assunto. Até se falava da piolhagem, mas não se suspeitava da heroína.
A porcaria nunca me atraiu, pessoalmente. O que leva a história aos meus 10, 11 anos, quando pela primeira vez comecei a ouvir música escolhida por mim. Antes de continuar, saliento mais uma vez que tinha 10, 11, 12 anos, nem mais um dia. Mesmo assim e tudo isso à parte, aqui vou ser peremptória: a música dos anos 70, década em que nasci, era uma grande merda e uma grande seca. Sejamos francos. Disco sound, Abba, Festival da Eurovisão por um lado, cantigas de intervenção pós-25 de Abril por outro, e no meio disto tudo lá se ouviam umas guitarradas de hard rock ou rock sinfónico que não excitavam o menino Jesus. Até os Doors, que são os Doors, no final se tornaram arrastados, psicadélicos, droga a mais.
As hipóteses de contacto com música de vanguarda, para um miúdo de 10, 12 anos, sem irmãos mais velhos, eram mais ínfimas do que ver um OVNI no céu alentejano.
Depois o Júlio Isidro começou a promover umas bandas, no seu execrável programa de domingo à tarde "O Passeio dos Alegres" (ou seria sábado? who cares? mas não queria dizer mal do "Passeio dos Alegres" porque pelo menos tentaram dar a conhecer algo novo...). Por lá passaram, se a memória de infância me não atraiçoa, os Trabalhadores do Comércio, os Táxi, os Salada de Frutas (de Lena d'Água), a Adelaide Ferreira (de "Baby Suicida"), e uma banda estranha, os Tantra, cujo vocalista se chamava Frodo (mal eu sabia o que eu ia gostar de Frodo...) e usava um cone de plástico na cabeça tão arrepiante que à pala disso não dormi algumas noites. (Foda-se, aquilo era lá coisa para passar num domingo à tarde, ou sou eu que me assusto demais?)
Isto era já o despertar do rock português, o Chico Fininho e outros que tais, mas nada disto me dizia a ponta de um corno.
Depois apareceu um programa inédito, salvo erro chamado Top Disco, já em plenos anos 80, portanto, onde se começaram a ver uns telediscos (a palavra era "telediscos") de uns rapazinhos giros chamados Duran Duran, e Limahl, e um outro de que eu gostava particularmente porque já sabia inglês e dizia-me algo, o Nik Kershaw, com o seu lamento de sucesso "Wouldn't it be good?", e até uns Culture Club que no mínimo me deixaram de boca aberta.
Havia neles uma diferença de tudo o que tinha visto até ali. Eram limpinhos. Eram bonitos. Usavam roupa escolhida a dedo. Penteavam o cabelo que só aparentemente parecia punk. Ali não havia porcaria, havia gel. Até a vil Madonna de Like a Virgin, com as suas rendas negras e meia dúzia de crucifixos ao pescoço, não cheirava mal à distância. Porque não vamos ter ilusões, os Táxi ainda me cheiravam a gasosa e peixe frito. Mas os Duran Duran? Cheiravam a vinyl, um aroma muito virtual de que eram feitos os artistas naquele tempo. E, contudo, com cheiro a disco rígido e a internet (que não cheira a nada), hoje os artistas da moda não têm metade da sinceridade que eles tinham.
Era também o tempo do hip hop. Na América estava na moda andar de lata da mão a pintar paredes. A Balada de Hill Street não demorou muito a chegar cá, mas quando atravessou o oceano não cheirava a hot dog mas a cachupa. Tinha doze anos quando fui a uma festinha de 2º ano do Ciclo (hoje 6º ano) e me disseram "hi, não sabes dançar reggae!" Eu saber até sabia, porque aquilo estava na moda à brava e se dançava assim: um passinho à frente, joelhinho abaixo, controlado, passinho para trás, joelhinho abaixo, controlado... Quase uns familiares passo à frente e dois atrás. Estava a guardar-me para música que valesse a pena.
Não podem dizer que não me tentei integrar na merda que havia. Eu tentei. Já com os meus 13, 14 anos, pus-me a ouvir heavy metal. Nessa altura já não se chamava heavy metal mas sim speed, trash, death metal. As minhas K7s estavam gravadas com temas pop da altura, "The Reflex" dos Duran Duran no lado A, e o lado B cheio de Anthrax (quando lhe dou, dou-lhe forte, não fico por paninhos quentes), não tanto porque gostava (depressa caía na mais profunda depressão) mas porque não conhecia outra coisa. Para explicar depressa e bem, nenhuma dessas K7s arqueológicas sobreviveram até aos nossos dias. Graças a Deus! E graças a mim que não tive o mau gosto de as preservar.
O que me leva à questão das tribos que existiam em Portugal na altura. Não, ainda não é hoje que vou falar nos vanguardistas. Esses merecem um cantinho bastante especial e dedicado nas páginas do meu ódio.
Vou começar pelos metaleiros porque me dá especial prazer, especialmente quando nas minhas tentativas de socializar aproveitei a minha audição (não apreço) pelas bandas de metal mais vanguardistas da altura para meter conversa com eles. Ser metaleiro, no início dos anos 80 e até princípios dos anos 90, não era andar vestido de preto com um pentagrama ao pescoço. Tudo isso foi roubado aos góticos. Vou então passar a explicar, e os metaleiros de hoje, quais alemães do pós-guerra, que me perdoem por não deixar morrer o horror mas vai ter de ser. Ser metaleiro, nesses tempos, era usar calças de ganga elásticas, azuis, usadas até ficarem azul bebé, todas chegadinhas ao rabo e pernas magras de anoréxicos/as, e camisolas dos "i-rom mái-dem", sim ouviram bem, "i-rom mái-dem" porque a maior parte deles nem sabia ler inglês quanto mais falar (o ensino obrigatório era o Ciclo Preparatório), e umas cabeleiras compridas, compridas, desgrenhadas, oleosas e... adivinhem?... sujas de meter nojo. Mas é como eu digo, a sujidade era tanta e geral que não se notava. Tudo era sujo, tudo era porco.
[Haviam de ver os pais e mães desses meninos, que só tomavam banho de quinze em quinze dias porque não havia dinheiro para mais.
Não sei se viram "O Perfume", já para não perguntar se leram. Há uma parte em que se diz que Paris na época devia ser um antro fétido a que os narizes já estavam acostumados. Portugal era um antro semelhante no que toca ao chulé, à caspa, à roupa suja. Ao perfume barato a disfarçar. Devemos ter aprendido esse truque do perfume com os franceses mas como não sou especialista vou-me reservar a falar do que sei.]
Os metaleiros, tal como os punks, parece que faziam um especial orgulho da sua falta de limpeza. E depois havia a droga. Já se cheirava droga por todo o lado e ainda ninguém lhe reconhecia o cheiro.
Isto da sujidade lembra-me outra tribo, aquela em que Portugal é mais pródiga, que são os bimbos em geral. Desses nem quero falar porque me deprime, mas diverte-me trazer aqui as memórias de uma sub-tribo de bimbos, os azeiteiros, que eram à sua medida uma espécie de "bimbo radical" mas mais porco. O próprio termo "azeiteiro" deriva da oleosidade capilar. A malta até lhes fez um eufemismo transformando o óleo em azeite pelo que não têm que se queixar. Um verdadeiro azeiteiro já é raro de se ver. Estão praticamente extintos (mas ainda existe um ou outro, escondido debaixo de uma pedra insuspeita.) Se querem imaginar um azeiteiro adaptado aos tempos modernos (versão azeiteiro rico) pensem num Cristiano Ronaldo, sem maquilhagem nem banho, com aqueles brincos espampanantes e o cabelo cheio de óleo, cortadinho à frente e comprido atrás, à Miami Vice, e aí têm a vossa fonte de inspiração.
Esta sub-espécie raramente saía dos buracos onde morava mas quando tomava banho frequentava discotecas à tarde (sim, à tarde, porque naquele tempo não se saía à noite) a fazer-se ao engate. Nem sei se hei-de falar aqui do famoso Crazy Nights ou mais à frente. Ou talvez nunca. Se hoje se tiver transformado em loja de chineses é muito bem feita.
Era vê-los, todos limpinhos com o banho da semana, de calcinha bege, camisinha às riscas, cinto fininho e preto, mocassin castanho e meia branca. Dois ou três botões desabotoados no peito, a mostrar a pintelheira e um fio de ouro com crucifixo, à chulo, como os pais que os pariram. Nem quero imaginar as mães.
À frente. Havia os betinhos, claro, mas nesses nem punha a vista em cima porque andavam em colégios particulares a engravidar e fazer abortos antes dos acampamentos dos escuteiros organizados pela igreja. Desses não é preciso falar. Continuam iguais e penso que, tal como as baratas, serão os últimos a perecer em caso de desastre nuclear ou afins.
Estou mais interessa nos putos filhos da classe média-alta emergente nos princípios e meados dos anos 80, época dourada de entrada na CEE e início do cavaquistão. Isso é que era dinheiro. Aos treze anos já achavam "o máximo!" ir com os pais aos bares da moda, o Bora-Bora e o outro ao lado, beber cocktails verdes de Pisang Ambon com um chapelinho-de-sol. Muitos desses vieram a tornar-se vanguardistas só para se livrarem dos pais e do Bora-Bora. (Não os condeno. Afinal, quem é que suporta o Bora-Bora? E os pais até ficaram aliviados porque naquela altura desatou tudo a divorciar-se e a dormir com este e com aquele e os fedelhos atrás só atrapalhavam o engate.)
Foi assim que os jovens começaram a sair à noite em Lisboa, extravagância proibida que até aí era um tabu tão grande quanto acender um cigarro numa unidade de oncologia do cancro do pulmão para doentes terminais.
E, de repente, num ápice, bons rapazes e boas raparigas começaram a invadir as tascas do Bairro Alto para beber barato (que a mesada não dava para mais) ao lado das putas e dos putanheiros e dos intelectuais e dos artistas.
Foi por esta altura que Jorge Palma escreveu um dos mais belos tratados sobre a noite chamado "Canção de Lisboa":
Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de lisboa
Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colções errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de lisboa
Mamã, mamã
Onde estás tu mamã
Nós sem ti não sabemos mamã
Libertar-nos do mal
A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nos também temos mão na vida
Mesmo que seja a custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa
As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de lisboa
Continua.
Não é possível descrever o meu caminho sem começar aqui, no Bairro Alto, onde (quase) nada do que há hoje existia mas algo de novo já começava a fervilhar, como um vírus contagioso todo contente no esgoto infecto, ainda invisível e incubado, mas pronto a espalhar a sua doença.
Mais em baixo, na rua do Diário de Notícias, havia sempre punks à porta de uma determinada discoteca. Discoteca era o nome que dávamos a um sítio onde se ia ouvir música tão alta que não se podia conversar. O termo "bar" raramente se ouvia. Havia o piroso bar dançante, isso havia, e a mais piolhosa "boite", geralmente também "casa de meninas" mas não necessariamente. Vai por isso o termo discoteca aplicado à Juke Box como a conheci, onde pela primeira vez ouvi Sisters of Mercy, Cure, Siouxie, Bauhaus ou Joy Division fora de casa.
Mas não avancemos mais que ainda há muito para contar. Lembro-me especialmente da sujidade, da porcaria. Ainda hoje os bares, tascas e mesmo discotecas da capital (nem escapam os mais finos) primam pela falta de limpeza. Falta de higiene da gerência, falta de asseio dos clientes. Porcos na pocilga em todo o estilo. (Será que conto aquela da menina que mijou nas escadas da casa de banho do Kremlin porque a pia estava ocupada? Não, não conto. E isso é muito para a frente na história.) Eis algo que não mudou. O que me leva a perceber que estas memórias começam muito antes disto tudo. O vírus desenvolve-se na merda.
A primeira vez que eu vi um punk tinha uns 7 ou 8 anos. Estávamos para aí entre 1979 e os primeiros anos 80. Eram duas gajas que vinham dos lados da Feira da Ladra. Os meus olhos de criança fixaram-se nas meias rotas até à brutal revelação que elas se vestiam assim de propósito. Collants esburacadas, roupas rasgadas, possivelmente de quem dormia na rua ou algo parecido (já havia droga mas não se sabia). Mas o que mais me chamou à atenção foi de facto a sujidade daquela gente. O cabelo, todo no ar, mas era mais da porcaria do que do gel. Se isto foi assim na anarchy do UK ou apenas aqui na piolheira (como um amigo insiste em chamar a isto, para meu desgosto) nunca saberei. Lembrei-me delas quando vi punks mais tardios deitados no chão a beber garrafas de litro de cerveja Sagres, também na Feira da Ladra, já iam altos os anos 80 e eram diacrónicas aquelas personagens de crista e pins dos Sex Pistols. Imaginem lá o que sustinha as cristas? Porcaria. Sabão azul e branco e porcaria. Muita porcaria. Não havia lêndea ou piolho que sobrevivesse muito tempo naquela cabeça cheia de heroína (ou será que os piolhos também gostavam?) mas na altura não se falava do assunto. Até se falava da piolhagem, mas não se suspeitava da heroína.
A porcaria nunca me atraiu, pessoalmente. O que leva a história aos meus 10, 11 anos, quando pela primeira vez comecei a ouvir música escolhida por mim. Antes de continuar, saliento mais uma vez que tinha 10, 11, 12 anos, nem mais um dia. Mesmo assim e tudo isso à parte, aqui vou ser peremptória: a música dos anos 70, década em que nasci, era uma grande merda e uma grande seca. Sejamos francos. Disco sound, Abba, Festival da Eurovisão por um lado, cantigas de intervenção pós-25 de Abril por outro, e no meio disto tudo lá se ouviam umas guitarradas de hard rock ou rock sinfónico que não excitavam o menino Jesus. Até os Doors, que são os Doors, no final se tornaram arrastados, psicadélicos, droga a mais.
As hipóteses de contacto com música de vanguarda, para um miúdo de 10, 12 anos, sem irmãos mais velhos, eram mais ínfimas do que ver um OVNI no céu alentejano.
Depois o Júlio Isidro começou a promover umas bandas, no seu execrável programa de domingo à tarde "O Passeio dos Alegres" (ou seria sábado? who cares? mas não queria dizer mal do "Passeio dos Alegres" porque pelo menos tentaram dar a conhecer algo novo...). Por lá passaram, se a memória de infância me não atraiçoa, os Trabalhadores do Comércio, os Táxi, os Salada de Frutas (de Lena d'Água), a Adelaide Ferreira (de "Baby Suicida"), e uma banda estranha, os Tantra, cujo vocalista se chamava Frodo (mal eu sabia o que eu ia gostar de Frodo...) e usava um cone de plástico na cabeça tão arrepiante que à pala disso não dormi algumas noites. (Foda-se, aquilo era lá coisa para passar num domingo à tarde, ou sou eu que me assusto demais?)
Isto era já o despertar do rock português, o Chico Fininho e outros que tais, mas nada disto me dizia a ponta de um corno.
Depois apareceu um programa inédito, salvo erro chamado Top Disco, já em plenos anos 80, portanto, onde se começaram a ver uns telediscos (a palavra era "telediscos") de uns rapazinhos giros chamados Duran Duran, e Limahl, e um outro de que eu gostava particularmente porque já sabia inglês e dizia-me algo, o Nik Kershaw, com o seu lamento de sucesso "Wouldn't it be good?", e até uns Culture Club que no mínimo me deixaram de boca aberta.
Havia neles uma diferença de tudo o que tinha visto até ali. Eram limpinhos. Eram bonitos. Usavam roupa escolhida a dedo. Penteavam o cabelo que só aparentemente parecia punk. Ali não havia porcaria, havia gel. Até a vil Madonna de Like a Virgin, com as suas rendas negras e meia dúzia de crucifixos ao pescoço, não cheirava mal à distância. Porque não vamos ter ilusões, os Táxi ainda me cheiravam a gasosa e peixe frito. Mas os Duran Duran? Cheiravam a vinyl, um aroma muito virtual de que eram feitos os artistas naquele tempo. E, contudo, com cheiro a disco rígido e a internet (que não cheira a nada), hoje os artistas da moda não têm metade da sinceridade que eles tinham.
Era também o tempo do hip hop. Na América estava na moda andar de lata da mão a pintar paredes. A Balada de Hill Street não demorou muito a chegar cá, mas quando atravessou o oceano não cheirava a hot dog mas a cachupa. Tinha doze anos quando fui a uma festinha de 2º ano do Ciclo (hoje 6º ano) e me disseram "hi, não sabes dançar reggae!" Eu saber até sabia, porque aquilo estava na moda à brava e se dançava assim: um passinho à frente, joelhinho abaixo, controlado, passinho para trás, joelhinho abaixo, controlado... Quase uns familiares passo à frente e dois atrás. Estava a guardar-me para música que valesse a pena.
Não podem dizer que não me tentei integrar na merda que havia. Eu tentei. Já com os meus 13, 14 anos, pus-me a ouvir heavy metal. Nessa altura já não se chamava heavy metal mas sim speed, trash, death metal. As minhas K7s estavam gravadas com temas pop da altura, "The Reflex" dos Duran Duran no lado A, e o lado B cheio de Anthrax (quando lhe dou, dou-lhe forte, não fico por paninhos quentes), não tanto porque gostava (depressa caía na mais profunda depressão) mas porque não conhecia outra coisa. Para explicar depressa e bem, nenhuma dessas K7s arqueológicas sobreviveram até aos nossos dias. Graças a Deus! E graças a mim que não tive o mau gosto de as preservar.
O que me leva à questão das tribos que existiam em Portugal na altura. Não, ainda não é hoje que vou falar nos vanguardistas. Esses merecem um cantinho bastante especial e dedicado nas páginas do meu ódio.
Vou começar pelos metaleiros porque me dá especial prazer, especialmente quando nas minhas tentativas de socializar aproveitei a minha audição (não apreço) pelas bandas de metal mais vanguardistas da altura para meter conversa com eles. Ser metaleiro, no início dos anos 80 e até princípios dos anos 90, não era andar vestido de preto com um pentagrama ao pescoço. Tudo isso foi roubado aos góticos. Vou então passar a explicar, e os metaleiros de hoje, quais alemães do pós-guerra, que me perdoem por não deixar morrer o horror mas vai ter de ser. Ser metaleiro, nesses tempos, era usar calças de ganga elásticas, azuis, usadas até ficarem azul bebé, todas chegadinhas ao rabo e pernas magras de anoréxicos/as, e camisolas dos "i-rom mái-dem", sim ouviram bem, "i-rom mái-dem" porque a maior parte deles nem sabia ler inglês quanto mais falar (o ensino obrigatório era o Ciclo Preparatório), e umas cabeleiras compridas, compridas, desgrenhadas, oleosas e... adivinhem?... sujas de meter nojo. Mas é como eu digo, a sujidade era tanta e geral que não se notava. Tudo era sujo, tudo era porco.
[Haviam de ver os pais e mães desses meninos, que só tomavam banho de quinze em quinze dias porque não havia dinheiro para mais.
Não sei se viram "O Perfume", já para não perguntar se leram. Há uma parte em que se diz que Paris na época devia ser um antro fétido a que os narizes já estavam acostumados. Portugal era um antro semelhante no que toca ao chulé, à caspa, à roupa suja. Ao perfume barato a disfarçar. Devemos ter aprendido esse truque do perfume com os franceses mas como não sou especialista vou-me reservar a falar do que sei.]
Os metaleiros, tal como os punks, parece que faziam um especial orgulho da sua falta de limpeza. E depois havia a droga. Já se cheirava droga por todo o lado e ainda ninguém lhe reconhecia o cheiro.
Isto da sujidade lembra-me outra tribo, aquela em que Portugal é mais pródiga, que são os bimbos em geral. Desses nem quero falar porque me deprime, mas diverte-me trazer aqui as memórias de uma sub-tribo de bimbos, os azeiteiros, que eram à sua medida uma espécie de "bimbo radical" mas mais porco. O próprio termo "azeiteiro" deriva da oleosidade capilar. A malta até lhes fez um eufemismo transformando o óleo em azeite pelo que não têm que se queixar. Um verdadeiro azeiteiro já é raro de se ver. Estão praticamente extintos (mas ainda existe um ou outro, escondido debaixo de uma pedra insuspeita.) Se querem imaginar um azeiteiro adaptado aos tempos modernos (versão azeiteiro rico) pensem num Cristiano Ronaldo, sem maquilhagem nem banho, com aqueles brincos espampanantes e o cabelo cheio de óleo, cortadinho à frente e comprido atrás, à Miami Vice, e aí têm a vossa fonte de inspiração.
Esta sub-espécie raramente saía dos buracos onde morava mas quando tomava banho frequentava discotecas à tarde (sim, à tarde, porque naquele tempo não se saía à noite) a fazer-se ao engate. Nem sei se hei-de falar aqui do famoso Crazy Nights ou mais à frente. Ou talvez nunca. Se hoje se tiver transformado em loja de chineses é muito bem feita.
Era vê-los, todos limpinhos com o banho da semana, de calcinha bege, camisinha às riscas, cinto fininho e preto, mocassin castanho e meia branca. Dois ou três botões desabotoados no peito, a mostrar a pintelheira e um fio de ouro com crucifixo, à chulo, como os pais que os pariram. Nem quero imaginar as mães.
À frente. Havia os betinhos, claro, mas nesses nem punha a vista em cima porque andavam em colégios particulares a engravidar e fazer abortos antes dos acampamentos dos escuteiros organizados pela igreja. Desses não é preciso falar. Continuam iguais e penso que, tal como as baratas, serão os últimos a perecer em caso de desastre nuclear ou afins.
Estou mais interessa nos putos filhos da classe média-alta emergente nos princípios e meados dos anos 80, época dourada de entrada na CEE e início do cavaquistão. Isso é que era dinheiro. Aos treze anos já achavam "o máximo!" ir com os pais aos bares da moda, o Bora-Bora e o outro ao lado, beber cocktails verdes de Pisang Ambon com um chapelinho-de-sol. Muitos desses vieram a tornar-se vanguardistas só para se livrarem dos pais e do Bora-Bora. (Não os condeno. Afinal, quem é que suporta o Bora-Bora? E os pais até ficaram aliviados porque naquela altura desatou tudo a divorciar-se e a dormir com este e com aquele e os fedelhos atrás só atrapalhavam o engate.)
Foi assim que os jovens começaram a sair à noite em Lisboa, extravagância proibida que até aí era um tabu tão grande quanto acender um cigarro numa unidade de oncologia do cancro do pulmão para doentes terminais.
E, de repente, num ápice, bons rapazes e boas raparigas começaram a invadir as tascas do Bairro Alto para beber barato (que a mesada não dava para mais) ao lado das putas e dos putanheiros e dos intelectuais e dos artistas.
Foi por esta altura que Jorge Palma escreveu um dos mais belos tratados sobre a noite chamado "Canção de Lisboa":
Os serões habituais
As conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre os dentes
Os convites nos olhos embriagados
Os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de lisboa
Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colções errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
E há quem diga que nunca foi boa
A canção de lisboa
Mamã, mamã
Onde estás tu mamã
Nós sem ti não sabemos mamã
Libertar-nos do mal
A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nos também temos mão na vida
Mesmo que seja a custa de a vivermos fingida
O estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de lisboa
As vielas de néon
As guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo e a gruta ainda fria
O abandonado da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de lisboa
Continua.
sábado, 10 de novembro de 2007
The Prophecy (saga)
"The Prophecy" é uma série de filmes daquilo a que gosto jocosamente de chamar "ficção religiosa". Ou, em termos certamente familiares aos leitores mais novos, uma espécie de "fan fic" em torno dos personagens angélicos da tradição judaico-cristã. É isso mesmo, os protagonistas da saga são anjos. Não são os querubins de S. Valentim, muito menos os anjos da guarda das criancinhas, nem sequer os anjos new age que respondem a preces e participam em curas astrais. Não. Estes são os anjos que vieram à Terra gerar em pecado os nefilins, os anjos que destruiram Sodoma e Gomorra, os mesmos que mataram os primogénitos do Egipto, e até os anjos que deixaram de o ser. "Todos os anjos são assustadores", diz-se no quarto filme, e a saga explica porquê.
Há uma guerra nos Céus, problemas no Paraíso. Algumas facções angélicas estão insatisfeitas com o favoritismo de Deus para com a sua criação terrestre e desejam voltar a ocupar o lugar que tinham "no princípio", antes de os seres humanos (mortais e imperfeitos) se terem tornado mais importantes no Plano Divino. Para atingir o seu fim, sem contrariar o Todo-Poderoso, tentam por isso conhecer e manipular as profecias apenas reveladas ao homem.
The Prophecy (1995)

Este é um filme que actualmente ainda se vê com interesse mas cujo arcanjo Gabriel de Christopher Walken não se consegue descolar da imagem do Exterminador Implacável, o que vem a ser corrigido nos filmes posteriores. Poderá ter sido um choque para os mais fundamentalistas quando o seu São Gabriel trata os humanos por "macacos" e desce à Terra para levar a alma de um general sem escrúpulos com o intuito de o fazer liderar os exércitos revoltosos que se preparam para travar a segunda guerra nos Céus. Para isso, não hesitará em matar quem se lhe atravessa pelo caminho, até a criança índia em quem a alma do tirano está aprisionada.
Um Lúcifer muito convincente interpretado por Viggo Mortensen (o "Aragorn" de "Senhor dos Anéis") reconhece a rebeldia e arrogância de Gabriel. É assim que o arcanjo, totalmente afastado da Graça Divina, é arrastado para o Inferno, e Lúcifer se torna um inesperado aliado dos humanos perplexos e desesperados. Sem dúvida a melhor parte do filme, esta reviravolta que lhe traz uma profundidade que se arriscava a não ter, e uma inversão de papéis que será de novo explorada à luz de um século XXI cada vez mais pessimista.
The Prophecy II, God's Army (1998)

Os arcanjos Miguel e Rafael enviam à Terra o anjo Daniel para conceber um nefilim que, segundo a profecia, está destinado a trazer a união entre anjos e homens e pôr fim à guerra que se prepara nos Céus. Conhecendo os seus planos, Lúcifer solta do Inferno o anjo Gabriel (dividir para reinar?), que imediatamente começa a perseguir a mulher grávida (Jennifer Beals). Ao tomar consciência do seu papel nas guerras celestiais, esta deixa-se conduzir até ao arcanjo Miguel que lhe confessa não a poder proteger do outro arcanjo.
É interessante como neste segundo filme não é o Diabo que intervém mas o Todo-Poderoso que, através da fé, faz saber o seu propósito. O anjo Gabriel é derrotado pela futura mãe do nefilim, sinal claro que Deus está do seu lado. Afastado do Céu e expulso do Inferno, Gabriel é condenado a viver na Terra, como humano, o pior castigo que poderia receber. E assim se salva mais um filme de cair na vulgaridade do Bem e do Mal.
The Prophecy III, The Ascent (2000)

O terceiro filme é, na minha opinião, o mais fraco da primeira trilogia. Retoma a história de Daniel, o nefilim, filho do anjo Daniel e de uma mulher, agora adulto e líder de uma seita que anuncia ao mundo que Deus abandonou a humanidade. Com a ausência de Gabriel, uma nova facção de anjos rebeldes surgiu nos Céus e pretende instaurar um novo Deus, Pyriel, "veterano" da guerra contra Lúcifer, mas a profecia diz que o nefilim Daniel o destruirá, pelo que o jovem se torna uma ameaça a ser eliminada. Depois de uma tentativa de assassinato mal sucedida, desce à Terra para tratar do assunto o anjo Zophael, criatura dúbia de lealdade incerta, que no fim se revela fiel a Pyriel, o novo Deus. A perseguição e constantes duelos entre Daniel e Zophael, com efeitos especiais tirados do "Matrix", podia estar muito na moda mas hoje já não se suporta os saltinhos e as correrias nas paredes. O filme ficou "passado".
Aproveita-se a grande interpretação de Christopher Walken, já não o exterminador implacável e angélico mas um velho decadente, cabeludo, barrigudo, viciado em todos os prazeres terrestres (até prostitutas), que já sabe conduzir e guia como um louco tocando a sua trombeta. É só por isso que vale a pena ver este episódio.
Quanto a Pyriel, que para personagem que aspirava a ser um novo Deus se finou num instante (o que é pena porque tinha uns lindos olhos azuis), penso que os argumentistas deram um passo maior que a perna.
Mais uma vez é a metáfora de Gabriel que salva o filme e lhe dá profundidade, pois só depois de largos anos a viver na Terra como os "macacos" que tanto despreza é que finalmente compreende o Plano Divino e é chamado de volta ao Céu.
The Prophecy IV, Uprising (2005)

Este filme regista nitidamente uma ruptura com os anteriores. O local é Bucareste, Roménia. A atmosfera é densa, europeia, cinzenta, soturna, por vezes apocalíptica, muito longe do espectáculo visual de Hollywood. É neste ambiente que um Satanás tão belo como frio (John Light) se faz passar por agente da Interpol na pista de um serial killer para se aproximar de um polícia corrupto com muitas culpas no cartório. Todavia, o que Satanás pretende desta vez não são (apenas) almas mortais, mas sim levar de volta para o Inferno o rebelde Belial (conhecido como o demónio da carne). Estes anjos são outros e também há guerra no Inferno. Belial pretende apoderar-se do Lexicon, um livro até então guardado por um velho padre local, onde está a ser escrito pela mão de Deus um novo capítulo do Apocalipse. Para os leigos na matéria, um novo capítulo da Revelação seria o acontecimento mais importante no cristianismo em 2000 anos! Com esta informação, Belial pretende criar um novo inferno, restaurar o equilíbrio, o preto no branco, em vez do cinzento tema que percorre todo o filme, a "ambivalência moral" nas palavras de Satanás, onde santos e diabos já não se distinguem.
Satanás, que desde a Queda não tem lugar no Plano Divino, ou assim parece, não mostra o mínimo interesse no livro e na sua profecia. Prefere estar na "cave" de castigo e divertir-se a ouvir as discussões dos irmãos preferidos do Pai como uma vingança servida fria. Para que nenhum anjo tenha acesso às profecias, protege a frágil Allison, guardiã do Lexicon, até obter o seu fim. E, parecendo sempre inofensivo, triunfa em todas as frentes.
Um pormenor politicamente curioso: a casa onde decorre parte da acção, que tinha servido de local de tortura à polícia secreta comunista, por ser palco de tantos horrores foi entregue pelo Divino como "pedaço de inferno na terra" ao domínio de Satanás. Dá que pensar. Dá muito que pensar.
The Prophecy V, Forsaken (2005)

Desta vez, é um serafim cujo nome verdadeiro nunca sabemos que vem à Terra à procura do Lexicon, onde se irá escrever muito em breve o nome do Anticristo que despoletará o Armagedão. Argumenta que quer intervir para evitar o genocídio, o Dia do Juízo Final ("a pior ideia de Deus"), e pretende eliminar a criança antes que esta se torne adulta. Mas para isso tem que encontrar Allison e convencê-la a entregar o livro. Movida pela fé no Plano Divino, Allison arrisca a vida para que o poderoso serafim não tome conhecimento da profecia, e para isso até recorre ao inimigo mais temível, Satanás, que já a tinha ajudado uma vez e que finalmente revela aos seus motivos. Ao contrário dos anjos celestiais rebeldes, que querem manter os humanos puros e justos fora do Paraíso, o que lhe interessa é encher o Inferno de escravos seus, e por isso tudo fará para que o Armagedão aconteça. Por algum tempo, Satanás é aliado do Plano Divino. O que também dá que pensar.
Toda a série de filmes "The Prophecy" foi classificada como cinema de terror mas, na minha opinião de habituée, exageradamente. Neste quinto episódio, contudo, garanto que há cenas arrepiantes até para o espectador mais vacinado. Direi mesmo que só não é mais assustador porque se sabe desde o princípio que a menina morta é uma mensageira de Satanás, o aliado da nossa heroína. Se isso é ainda mais arrepiante, à "Exorcista" mas post mortem, quem vir que decida.
Há uma guerra nos Céus, problemas no Paraíso. Algumas facções angélicas estão insatisfeitas com o favoritismo de Deus para com a sua criação terrestre e desejam voltar a ocupar o lugar que tinham "no princípio", antes de os seres humanos (mortais e imperfeitos) se terem tornado mais importantes no Plano Divino. Para atingir o seu fim, sem contrariar o Todo-Poderoso, tentam por isso conhecer e manipular as profecias apenas reveladas ao homem.
The Prophecy (1995)

Este é um filme que actualmente ainda se vê com interesse mas cujo arcanjo Gabriel de Christopher Walken não se consegue descolar da imagem do Exterminador Implacável, o que vem a ser corrigido nos filmes posteriores. Poderá ter sido um choque para os mais fundamentalistas quando o seu São Gabriel trata os humanos por "macacos" e desce à Terra para levar a alma de um general sem escrúpulos com o intuito de o fazer liderar os exércitos revoltosos que se preparam para travar a segunda guerra nos Céus. Para isso, não hesitará em matar quem se lhe atravessa pelo caminho, até a criança índia em quem a alma do tirano está aprisionada.
Um Lúcifer muito convincente interpretado por Viggo Mortensen (o "Aragorn" de "Senhor dos Anéis") reconhece a rebeldia e arrogância de Gabriel. É assim que o arcanjo, totalmente afastado da Graça Divina, é arrastado para o Inferno, e Lúcifer se torna um inesperado aliado dos humanos perplexos e desesperados. Sem dúvida a melhor parte do filme, esta reviravolta que lhe traz uma profundidade que se arriscava a não ter, e uma inversão de papéis que será de novo explorada à luz de um século XXI cada vez mais pessimista.
The Prophecy II, God's Army (1998)

Os arcanjos Miguel e Rafael enviam à Terra o anjo Daniel para conceber um nefilim que, segundo a profecia, está destinado a trazer a união entre anjos e homens e pôr fim à guerra que se prepara nos Céus. Conhecendo os seus planos, Lúcifer solta do Inferno o anjo Gabriel (dividir para reinar?), que imediatamente começa a perseguir a mulher grávida (Jennifer Beals). Ao tomar consciência do seu papel nas guerras celestiais, esta deixa-se conduzir até ao arcanjo Miguel que lhe confessa não a poder proteger do outro arcanjo.
É interessante como neste segundo filme não é o Diabo que intervém mas o Todo-Poderoso que, através da fé, faz saber o seu propósito. O anjo Gabriel é derrotado pela futura mãe do nefilim, sinal claro que Deus está do seu lado. Afastado do Céu e expulso do Inferno, Gabriel é condenado a viver na Terra, como humano, o pior castigo que poderia receber. E assim se salva mais um filme de cair na vulgaridade do Bem e do Mal.
The Prophecy III, The Ascent (2000)

O terceiro filme é, na minha opinião, o mais fraco da primeira trilogia. Retoma a história de Daniel, o nefilim, filho do anjo Daniel e de uma mulher, agora adulto e líder de uma seita que anuncia ao mundo que Deus abandonou a humanidade. Com a ausência de Gabriel, uma nova facção de anjos rebeldes surgiu nos Céus e pretende instaurar um novo Deus, Pyriel, "veterano" da guerra contra Lúcifer, mas a profecia diz que o nefilim Daniel o destruirá, pelo que o jovem se torna uma ameaça a ser eliminada. Depois de uma tentativa de assassinato mal sucedida, desce à Terra para tratar do assunto o anjo Zophael, criatura dúbia de lealdade incerta, que no fim se revela fiel a Pyriel, o novo Deus. A perseguição e constantes duelos entre Daniel e Zophael, com efeitos especiais tirados do "Matrix", podia estar muito na moda mas hoje já não se suporta os saltinhos e as correrias nas paredes. O filme ficou "passado".
Aproveita-se a grande interpretação de Christopher Walken, já não o exterminador implacável e angélico mas um velho decadente, cabeludo, barrigudo, viciado em todos os prazeres terrestres (até prostitutas), que já sabe conduzir e guia como um louco tocando a sua trombeta. É só por isso que vale a pena ver este episódio.
Quanto a Pyriel, que para personagem que aspirava a ser um novo Deus se finou num instante (o que é pena porque tinha uns lindos olhos azuis), penso que os argumentistas deram um passo maior que a perna.
Mais uma vez é a metáfora de Gabriel que salva o filme e lhe dá profundidade, pois só depois de largos anos a viver na Terra como os "macacos" que tanto despreza é que finalmente compreende o Plano Divino e é chamado de volta ao Céu.
The Prophecy IV, Uprising (2005)

Este filme regista nitidamente uma ruptura com os anteriores. O local é Bucareste, Roménia. A atmosfera é densa, europeia, cinzenta, soturna, por vezes apocalíptica, muito longe do espectáculo visual de Hollywood. É neste ambiente que um Satanás tão belo como frio (John Light) se faz passar por agente da Interpol na pista de um serial killer para se aproximar de um polícia corrupto com muitas culpas no cartório. Todavia, o que Satanás pretende desta vez não são (apenas) almas mortais, mas sim levar de volta para o Inferno o rebelde Belial (conhecido como o demónio da carne). Estes anjos são outros e também há guerra no Inferno. Belial pretende apoderar-se do Lexicon, um livro até então guardado por um velho padre local, onde está a ser escrito pela mão de Deus um novo capítulo do Apocalipse. Para os leigos na matéria, um novo capítulo da Revelação seria o acontecimento mais importante no cristianismo em 2000 anos! Com esta informação, Belial pretende criar um novo inferno, restaurar o equilíbrio, o preto no branco, em vez do cinzento tema que percorre todo o filme, a "ambivalência moral" nas palavras de Satanás, onde santos e diabos já não se distinguem.
Satanás, que desde a Queda não tem lugar no Plano Divino, ou assim parece, não mostra o mínimo interesse no livro e na sua profecia. Prefere estar na "cave" de castigo e divertir-se a ouvir as discussões dos irmãos preferidos do Pai como uma vingança servida fria. Para que nenhum anjo tenha acesso às profecias, protege a frágil Allison, guardiã do Lexicon, até obter o seu fim. E, parecendo sempre inofensivo, triunfa em todas as frentes.
Um pormenor politicamente curioso: a casa onde decorre parte da acção, que tinha servido de local de tortura à polícia secreta comunista, por ser palco de tantos horrores foi entregue pelo Divino como "pedaço de inferno na terra" ao domínio de Satanás. Dá que pensar. Dá muito que pensar.
The Prophecy V, Forsaken (2005)

Desta vez, é um serafim cujo nome verdadeiro nunca sabemos que vem à Terra à procura do Lexicon, onde se irá escrever muito em breve o nome do Anticristo que despoletará o Armagedão. Argumenta que quer intervir para evitar o genocídio, o Dia do Juízo Final ("a pior ideia de Deus"), e pretende eliminar a criança antes que esta se torne adulta. Mas para isso tem que encontrar Allison e convencê-la a entregar o livro. Movida pela fé no Plano Divino, Allison arrisca a vida para que o poderoso serafim não tome conhecimento da profecia, e para isso até recorre ao inimigo mais temível, Satanás, que já a tinha ajudado uma vez e que finalmente revela aos seus motivos. Ao contrário dos anjos celestiais rebeldes, que querem manter os humanos puros e justos fora do Paraíso, o que lhe interessa é encher o Inferno de escravos seus, e por isso tudo fará para que o Armagedão aconteça. Por algum tempo, Satanás é aliado do Plano Divino. O que também dá que pensar.
Toda a série de filmes "The Prophecy" foi classificada como cinema de terror mas, na minha opinião de habituée, exageradamente. Neste quinto episódio, contudo, garanto que há cenas arrepiantes até para o espectador mais vacinado. Direi mesmo que só não é mais assustador porque se sabe desde o princípio que a menina morta é uma mensageira de Satanás, o aliado da nossa heroína. Se isso é ainda mais arrepiante, à "Exorcista" mas post mortem, quem vir que decida.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Inland Empire (2006)

Uma actriz consegue um papel importante que há muito desejava quando descobre que o filme que protagoniza tem fama de estar amaldiçoado. Esta é a história. A partir daqui, "Inland Empire" deixa de a ter. Qualquer tentativa de transformar o filme de três horas numa narrativa lógica é perda de tempo.
Costumo dizer que em "Mulholland Dr." o realizador David Lynch deixou o cinema para se dedicar à poesia. Aqui, parece pintar nas sucessivas telas, principalmente nos grandes planos da musa Laura Dern, quadros mais ou menos abstractos intercalados às vezes pela mais literal escuridão. Qualquer palpite em decifrar o significado desta "pintura" de David Lynch será como atribuir significados a um teste de Rorschach.
Este não é um filme para a mente mas para a alma. Como perante qualquer obra de arte, a alma sente ou não sente. A minha alma vibra e é por isso que David Lynch continua a ser o meu realizador preferido. Sou por isso suspeita quando digo que há muito ultrapassou a nota 20 na minha classificação e que este filme tende para o mais infinito... sem deixar de ter em conta que quando o nível artístico é assim tão elevado (como o de um genial Picasso), apesar da perfeição técnica muitos outros não lhe dariam mais que zero. Afinal, David Lynch despreza a definição básica de cinema que é contar uma história em imagens animadas.
Mas devo confessar, apesar do meu apreço pelo realizador e pelo filme em análise, que algo não me agradou. Admito que já estou farta até aos cabelos desta obsessão americana pelo que é real e o que não é e a consequente exploração ad nauseum dos temas de Alice no País das Maravilhas, O Feiticeiro de Oz e quejandos, que parecem ser para os os filmes de Hollywood (especialmente os independentes) um fetiche tão grande quanto o sexo para os filmes franceses.
Faço figas para que o mestre Lynch decida "pintar", "poetisar", "musicar" talvez, sobre outro assunto qualquer num próximo filme.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Ocos e vazios
Depois de muito observar a corja que nos governa actualmente e não ter conseguido perceber porque parecem seres tão estranhos e inacreditáveis (é o das finanças, a da educação, o da economia, e o outro, o Lino das obras), talvez devido às leituras de H. P. Lovecraft se tenha feito luz.
Não são pessoas a sério. São balões. Se se lhes espetar um alfinete, saem disparados pelo espaço até esvaziarem o invólucro.
Tenho mesmo a desconfiança de alguns deles, como Sócrates, o Seguro, e aquele que ganhou a presidência da Câmara de Lisboa cujo nome não me lembro assim de repente (tal a sua não-importância) começaram a carreira como pessoas a sério. Com o tempo na política, uma invisível conspiração extra-terrestre chupou-lhes o cérebro e encheu-os de ar quente de baixo para cima. O mesmo fenómeno aconteceu a Cavaco Silva que actualmente só apresenta uma expressão facial. É dar-lhe tempo e votos e até os pitorescos Santana e Menezes passarão a balões.
Não são pessoas a sério. São balões. Se se lhes espetar um alfinete, saem disparados pelo espaço até esvaziarem o invólucro.
Tenho mesmo a desconfiança de alguns deles, como Sócrates, o Seguro, e aquele que ganhou a presidência da Câmara de Lisboa cujo nome não me lembro assim de repente (tal a sua não-importância) começaram a carreira como pessoas a sério. Com o tempo na política, uma invisível conspiração extra-terrestre chupou-lhes o cérebro e encheu-os de ar quente de baixo para cima. O mesmo fenómeno aconteceu a Cavaco Silva que actualmente só apresenta uma expressão facial. É dar-lhe tempo e votos e até os pitorescos Santana e Menezes passarão a balões.
sábado, 27 de outubro de 2007
Lilith em Escorpião
Esta Lua revela uma predisposição para as crises existenciais, para a depressão e angústia, ou mesmo tendências autodestrutivas. (...) Predispõe ainda o indivíduo à obsessão pela morte, mas, curiosamente, sem medos nem rejeições: sente um estranho fascínio por essa "viagem", que considera como uma espécie de caminho de iniciação espiritual.
In "Boa Estrela", Setembro
Se isto não é a definição da alma gótica, daquele "sentir" que inspirou artistas e assombrou infelizes desde que o mundo é mundo, muito antes da música, muito antes das roupas e do que somos hoje, então não sei o que é. Para mim, ser uma alma gótica é ser isto.
In "Boa Estrela", Setembro
Se isto não é a definição da alma gótica, daquele "sentir" que inspirou artistas e assombrou infelizes desde que o mundo é mundo, muito antes da música, muito antes das roupas e do que somos hoje, então não sei o que é. Para mim, ser uma alma gótica é ser isto.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
A morte moderna
E voltamos a falar na morte.
Há pouco tempo soube da morte de um amigo, mas soube tarde e a más horas. Temos a tendência para pensar que algumas pessoas que desaparecem das nossas vidas estão em todo o lado menos mortas porque são muito novas para morrer. Essa é uma das perplexidades da morte. Nunca se é muito novo para morrer. O dia em que se nasce é um dia mais próximo Dela.
Mas hoje não quero falar da eterna perplexidade da morte mas sim da morte moderna.
Da última vez que fui a um funeral foi por um vizinho idoso a quem tinha apreço. Lembro-me que tive de pedir autorização no trabalho e de me olharem de lado como se fosse uma extravagância, um mimo, uma ida ao cabeleireiro. Pedir dispensa do trabalho para ir a um funeral? Não podia ir ao funeral no fim de semana? E mesmo assim tive sorte. Na condição precária em que me encontro, actualmente só poderia ir à noite ao velório. Acompanhar o defunto à última morada à hora de expediente é que não. O morto que morresse ao sábado.
Isto faz-me impressão, confesso que faz. Seriam vinte pessoas naquele funeral, no funeral de um homem idoso que deve ter conhecido tanta gente ao longo da vida. Até se pensaria que era uma peste. Só uma peste merece ter um funeral de vinte pessoas. Achava eu.
Comecei a pensar no assunto, porque a morte é daquelas coisas que não me saem da cabeça, quando percebi que se um amigo chegado morresse ia ter muitos problemas para ir ao funeral. A lei laboral só contempla essa "benesse" para a família. Ao funeral dos amigos não se pode ir.
E depois pensei como as coisas mudaram com o progresso. Antes, quando Lisboa era ainda uma aldeia de pequenos bairros, e morria alguém lá da rua, nem se pensava pedir ao patrão para ter dispensa para ir ao funeral. Que raio! Fechava a mercearia, fechava a farmácia, fechava o sapateiro, punham a gravata preta e iam todos ao funeral. E depois voltavam, todos, mesmo todos, para os seus afazeres. Não falo do século passado. Falo de coisas tão presentes como os anos oitenta. A partir daí, o progresso ditou que os moribundos fossem para o hospital e os mortos se enterrassem sozinhos. É isto progresso?, pergunto ingenuamente. É isto que se faz nos países desenvolvidos?
Se a minha indignação pega, ainda vamos ter funerais depois das seis. Ou de noite. Faltar ao trabalho para ir ao funeral de um amigo é que não. Com os mortos que vão os velhos, que é o sítio deles. As crianças estão na escola e os novos estão a trabalhar. Não há tempo para enterrar os mortos. Toca a andar, sempre a correr. Isto é que é o progresso? Que honra está na vida quando se rouba a dignidade à morte?
Estranhos tempos, estes. Tempos de guerra, tempos de peste, tempos das mais terríveis trevas. Os vivos estão mortos e não sabem.
Há pouco tempo soube da morte de um amigo, mas soube tarde e a más horas. Temos a tendência para pensar que algumas pessoas que desaparecem das nossas vidas estão em todo o lado menos mortas porque são muito novas para morrer. Essa é uma das perplexidades da morte. Nunca se é muito novo para morrer. O dia em que se nasce é um dia mais próximo Dela.
Mas hoje não quero falar da eterna perplexidade da morte mas sim da morte moderna.
Da última vez que fui a um funeral foi por um vizinho idoso a quem tinha apreço. Lembro-me que tive de pedir autorização no trabalho e de me olharem de lado como se fosse uma extravagância, um mimo, uma ida ao cabeleireiro. Pedir dispensa do trabalho para ir a um funeral? Não podia ir ao funeral no fim de semana? E mesmo assim tive sorte. Na condição precária em que me encontro, actualmente só poderia ir à noite ao velório. Acompanhar o defunto à última morada à hora de expediente é que não. O morto que morresse ao sábado.
Isto faz-me impressão, confesso que faz. Seriam vinte pessoas naquele funeral, no funeral de um homem idoso que deve ter conhecido tanta gente ao longo da vida. Até se pensaria que era uma peste. Só uma peste merece ter um funeral de vinte pessoas. Achava eu.
Comecei a pensar no assunto, porque a morte é daquelas coisas que não me saem da cabeça, quando percebi que se um amigo chegado morresse ia ter muitos problemas para ir ao funeral. A lei laboral só contempla essa "benesse" para a família. Ao funeral dos amigos não se pode ir.
E depois pensei como as coisas mudaram com o progresso. Antes, quando Lisboa era ainda uma aldeia de pequenos bairros, e morria alguém lá da rua, nem se pensava pedir ao patrão para ter dispensa para ir ao funeral. Que raio! Fechava a mercearia, fechava a farmácia, fechava o sapateiro, punham a gravata preta e iam todos ao funeral. E depois voltavam, todos, mesmo todos, para os seus afazeres. Não falo do século passado. Falo de coisas tão presentes como os anos oitenta. A partir daí, o progresso ditou que os moribundos fossem para o hospital e os mortos se enterrassem sozinhos. É isto progresso?, pergunto ingenuamente. É isto que se faz nos países desenvolvidos?
Se a minha indignação pega, ainda vamos ter funerais depois das seis. Ou de noite. Faltar ao trabalho para ir ao funeral de um amigo é que não. Com os mortos que vão os velhos, que é o sítio deles. As crianças estão na escola e os novos estão a trabalhar. Não há tempo para enterrar os mortos. Toca a andar, sempre a correr. Isto é que é o progresso? Que honra está na vida quando se rouba a dignidade à morte?
Estranhos tempos, estes. Tempos de guerra, tempos de peste, tempos das mais terríveis trevas. Os vivos estão mortos e não sabem.
Cenas aterradoras
Hoje vou improvisar. Movida pela comentadora Penemue, que neste post falou "das mais aterradoras cenas alguma vez apresentadas em celulóide", aqui vão algumas das minhas "preferidas", aquelas que se "vêem" no escuro...
1. O Exorcista (1973) A miúda a rodar a cabeça 360 graus.
2. Night of the Living Dead (1968) Filme a preto e branco. Um casal que viaja de carro, ao fim da tarde, faz uma paragem à beira da estrada e vê um homem aproximar-se deles, a cambalear. A mulher comenta que deve estar doente e precisa de ajuda. Quando lhe tenta dar a mão, a criatura agarra-a e rosna. É um zombie.
3. The Howling (1981) Filme de lobisomens que podem transformar-se em lobos quando querem, não apenas na Lua Cheia e também durante o dia. A certa altura, uma das vítimas ouve um barulho fora de casa, em plena tarde solarenga. Quando a personagem se afasta, vê-se projectada na parede, através da janela aberta, a sombra de um lobisomem gigante.
4. The Haunting (1963) Filme a preto e branco.
Primeira cena: Duas mulheres estão deitadas no mesmo quarto, em camas separadas. Antes de adormecer, conversam sobre as suas vidas. Uma delas continua a desabafar sem se aperceber que a companheira já tinha adormecido. Pede-lhe que lhe aperte a mão porque tem medo. Pouco depois, queixa-se que a outra lhe está a agarrar a mão com demasiada força. A mulher adormecida acorda com os gritos, acende a luz, e ambas percebem que outra coisa estivera com elas no quarto.
Segunda cena: Fortes pancadas no tecto. Pancadas tão fortes que deixam marcas por onde passam. Aterrorizados, os presentes na sala nem abrem a boca. As pancadas dirigem-se para a porta. Batem na porta, ameaçam deitar a porta a abaixo. A porta de madeira maciça estica, como se fosse feita de borracha e estivesse prestes a romper-se. As pancadas cessam com o aproximar de mais pessoas. Quando abrem a porta, nada de sobrenatural. Nada de nada.
1. O Exorcista (1973) A miúda a rodar a cabeça 360 graus.
2. Night of the Living Dead (1968) Filme a preto e branco. Um casal que viaja de carro, ao fim da tarde, faz uma paragem à beira da estrada e vê um homem aproximar-se deles, a cambalear. A mulher comenta que deve estar doente e precisa de ajuda. Quando lhe tenta dar a mão, a criatura agarra-a e rosna. É um zombie.
3. The Howling (1981) Filme de lobisomens que podem transformar-se em lobos quando querem, não apenas na Lua Cheia e também durante o dia. A certa altura, uma das vítimas ouve um barulho fora de casa, em plena tarde solarenga. Quando a personagem se afasta, vê-se projectada na parede, através da janela aberta, a sombra de um lobisomem gigante.
4. The Haunting (1963) Filme a preto e branco.
Primeira cena: Duas mulheres estão deitadas no mesmo quarto, em camas separadas. Antes de adormecer, conversam sobre as suas vidas. Uma delas continua a desabafar sem se aperceber que a companheira já tinha adormecido. Pede-lhe que lhe aperte a mão porque tem medo. Pouco depois, queixa-se que a outra lhe está a agarrar a mão com demasiada força. A mulher adormecida acorda com os gritos, acende a luz, e ambas percebem que outra coisa estivera com elas no quarto.
Segunda cena: Fortes pancadas no tecto. Pancadas tão fortes que deixam marcas por onde passam. Aterrorizados, os presentes na sala nem abrem a boca. As pancadas dirigem-se para a porta. Batem na porta, ameaçam deitar a porta a abaixo. A porta de madeira maciça estica, como se fosse feita de borracha e estivesse prestes a romper-se. As pancadas cessam com o aproximar de mais pessoas. Quando abrem a porta, nada de sobrenatural. Nada de nada.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Uma semana sem internet
Por motivos de avaria no computador, vivi uma semana sem internet. Para quem tem banda larga há quatro anos, foi uma provação que ultrapassei mais facilmente do que pensava. Mesmo assim, foi doloroso. Devo mesmo admitir que as noites de quatro canais sem televisão de jeito foram anestesiadas pelas horas passadas de volta da máquina, a tentar restaurar a minha ligação ao mundo, qual alma penada que se esforça por abrir um canal de comunicação com os vivos.
À falta de séries e filmes de qualidade (quatro canais... nada de jeito) sobrepôs-se uma secura de notícias e opinião imparcial que até doía. Imaginei-me a viver assim, toda a vida, como a maioria dos portugueses que nem sonham do que fervilha na internet, sedada em estado comatoso por novelas da TVI, reality shows, reality telejornais e reality concursos da treta onde se escreve jasmim com "n" (jasmin, à inglesa) e girassol com apenas um "s" (girazol?). E futebol, muito futebol, e muito governo a dizer todos os dias a toda a hora que o país está a progredir, enquanto à socapa se vão passando notícias de que o desemprego aumenta, o endividamento não é preocupante, é chocante!!!, e o país se afunda. Apercebi-me, eu, que tenho acesso a um quociente de inteligência acima da média (mas bem tento acabar com ele, juro, mea culpa, mea culpa!) e à autoestrada da informação, do pouco que um português típico fica a saber do que se passa. Os coitados só percebem quando lhes bate à porta. E como ainda por cima o português tem a mania de fingir que está sempre bem na vida e cheio de dinheiro, nem entre "amigos" se confessa o real estado do sítio, a não ser quando a miséria é tão grande que nem os amigos acreditam.
E depois há outros problemas. Há empregos a manter. Há que calar a boca.
É por isso que artigos de opinião como estes, no jornal gratuito que é o Metro, são um bálsamo para a alma. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere fazer o sudoku ao lado da crónica, o que é lamentável. Vale a pena ler José Júdice às quartas feiras, embora o apelido do senhor me faça imediatamente torcer o nariz (reflexos condicionados de repulsa perante a consanguinidade das "elites" do país). Ora vejam.

Sim, sei que é mais um a dizer o mesmo, e num estilo tão irónico e sinuoso que apenas os abençoados com dois neurónios (porque a maioria só tem um) apanham o significado. Mas atentem nestas palavras:
"Se em Portugal não há uma 'riqueza intangível', é porque alguém a meteu no bolso, como já se mete a outra riqueza, a tangível. É por isso que a corrupção nos rouba duplamente".
Não sei quando começou mas suspeito que foi por altura do declínio e queda da nação pós-Descobrimentos, das quais ando aqui a tentar descobrir as causas já que desisti de lhe procurar cura para os efeitos. A certa altura esta elite de gente que casa entre famílias a um ponto de consanguinidade, ou a classe dos tios, como lhe chama o Hora Absurda, percebeu que a única maneira de pôr os idiotas congénitos que geravam à frente dos negócios de família era ter uma horda de gente semi-inteligente a trabalhar às suas ordens. Mas, atenção, gente não muito inteligente que ofuscasse completamente o idiota com o seu brilho. Gente apenas menos idiota que o idiota primogénito, que não tropeçasse na sua própria pastilha elástica. Os cérebros, os verdadeiros talentos, eram para abater logo, de preferência na escola primária. Aliás, todo o processo educativo em Portugal se destina a identificar estas potenciais ameaças ao domínio dos idiotas. Para isso promovem-se semi-idiotas que vão dando conta do recado, marionetas babadas porque afinal, e pela primeira vez na vida, se sentem inteligentes e recompensados. Como o Sócrates.
Pensemos no que liam os idiotas e os semi-idiotas no tempo de vida de Fernando Pessoa. Não sei o que liam, mas certamente não era Fernando Pessoa mas um semi-idiota promovido a bobo da corte do momento. Inteligências geniais como Fernando Pessoa, apesar de empregado de escritório e tudo, eram uma ameaça demasiado grande. Haviam de ser lidos, sim, mas depois de morrerem.
Até aqui, parece que o sistema funciona. Os príncipes idiotas governam nesta monarquia de ser filho-de-tal, fidalgo, portanto, e os semi-idiotas os servem. Até ao momento em que é preciso alguém inteligente para resolver problemas. E olhem, pasmem!, não há! O que temos em vez disso? Sócrates e Menezes. Com um pouco de sorte, ainda Pinto da Costa há-de ir a Presidente da República.
Quando disse aqui, muitas vezes, que se premeia a mediocridade, confesso que era um recurso estilístico, a hiperbole, que estava a utilizar. Claro que não se premeia a mediocridade. Premeia-se a semi-mediocridade, conhecida no nosso país pelo termo "chico-esperto". Nunca um chico-esperto inventou uma lâmpada. No máximo, roubou a ideia e vendeu-a. No momento em que não há ninguém a inventar nada, devido ao esmagamento de cérebros, os chico-espertos não têm nada para vender. Claro que os chico-espertos não conseguem ver tão longe. E os príncipes herdeiros idiotas também não gostam de ouvir estas coisas, que é preciso alguém com ideias, porque ficam nervosos e agitados e atiram cocó aos servos mais chegados, por isso é melhor nem tocar no assunto, que, é como quem diz, tocar na merda.
Quando José Júdice diz que meteram a riqueza intangível no bolso, está a usar outro recurso estilístico que é o eufemismo. Se a tivessem metido no bolso, tinham-na preservado. Quem a mete no bolso são os países que dão bolsas de estudo aos cérebros mundiais porque reconhecem que génios há poucos. Aqui o que se faz é mesmo deitar cérebros pela pia abaixo. Um dia até os idiotas vão ficar às escuras, e vão querer lâmpadas, e não as vão ter. É tão simples como isso.
À falta de séries e filmes de qualidade (quatro canais... nada de jeito) sobrepôs-se uma secura de notícias e opinião imparcial que até doía. Imaginei-me a viver assim, toda a vida, como a maioria dos portugueses que nem sonham do que fervilha na internet, sedada em estado comatoso por novelas da TVI, reality shows, reality telejornais e reality concursos da treta onde se escreve jasmim com "n" (jasmin, à inglesa) e girassol com apenas um "s" (girazol?). E futebol, muito futebol, e muito governo a dizer todos os dias a toda a hora que o país está a progredir, enquanto à socapa se vão passando notícias de que o desemprego aumenta, o endividamento não é preocupante, é chocante!!!, e o país se afunda. Apercebi-me, eu, que tenho acesso a um quociente de inteligência acima da média (mas bem tento acabar com ele, juro, mea culpa, mea culpa!) e à autoestrada da informação, do pouco que um português típico fica a saber do que se passa. Os coitados só percebem quando lhes bate à porta. E como ainda por cima o português tem a mania de fingir que está sempre bem na vida e cheio de dinheiro, nem entre "amigos" se confessa o real estado do sítio, a não ser quando a miséria é tão grande que nem os amigos acreditam.
E depois há outros problemas. Há empregos a manter. Há que calar a boca.
É por isso que artigos de opinião como estes, no jornal gratuito que é o Metro, são um bálsamo para a alma. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere fazer o sudoku ao lado da crónica, o que é lamentável. Vale a pena ler José Júdice às quartas feiras, embora o apelido do senhor me faça imediatamente torcer o nariz (reflexos condicionados de repulsa perante a consanguinidade das "elites" do país). Ora vejam.

Sim, sei que é mais um a dizer o mesmo, e num estilo tão irónico e sinuoso que apenas os abençoados com dois neurónios (porque a maioria só tem um) apanham o significado. Mas atentem nestas palavras:
"Se em Portugal não há uma 'riqueza intangível', é porque alguém a meteu no bolso, como já se mete a outra riqueza, a tangível. É por isso que a corrupção nos rouba duplamente".
Não sei quando começou mas suspeito que foi por altura do declínio e queda da nação pós-Descobrimentos, das quais ando aqui a tentar descobrir as causas já que desisti de lhe procurar cura para os efeitos. A certa altura esta elite de gente que casa entre famílias a um ponto de consanguinidade, ou a classe dos tios, como lhe chama o Hora Absurda, percebeu que a única maneira de pôr os idiotas congénitos que geravam à frente dos negócios de família era ter uma horda de gente semi-inteligente a trabalhar às suas ordens. Mas, atenção, gente não muito inteligente que ofuscasse completamente o idiota com o seu brilho. Gente apenas menos idiota que o idiota primogénito, que não tropeçasse na sua própria pastilha elástica. Os cérebros, os verdadeiros talentos, eram para abater logo, de preferência na escola primária. Aliás, todo o processo educativo em Portugal se destina a identificar estas potenciais ameaças ao domínio dos idiotas. Para isso promovem-se semi-idiotas que vão dando conta do recado, marionetas babadas porque afinal, e pela primeira vez na vida, se sentem inteligentes e recompensados. Como o Sócrates.
Pensemos no que liam os idiotas e os semi-idiotas no tempo de vida de Fernando Pessoa. Não sei o que liam, mas certamente não era Fernando Pessoa mas um semi-idiota promovido a bobo da corte do momento. Inteligências geniais como Fernando Pessoa, apesar de empregado de escritório e tudo, eram uma ameaça demasiado grande. Haviam de ser lidos, sim, mas depois de morrerem.
Até aqui, parece que o sistema funciona. Os príncipes idiotas governam nesta monarquia de ser filho-de-tal, fidalgo, portanto, e os semi-idiotas os servem. Até ao momento em que é preciso alguém inteligente para resolver problemas. E olhem, pasmem!, não há! O que temos em vez disso? Sócrates e Menezes. Com um pouco de sorte, ainda Pinto da Costa há-de ir a Presidente da República.
Quando disse aqui, muitas vezes, que se premeia a mediocridade, confesso que era um recurso estilístico, a hiperbole, que estava a utilizar. Claro que não se premeia a mediocridade. Premeia-se a semi-mediocridade, conhecida no nosso país pelo termo "chico-esperto". Nunca um chico-esperto inventou uma lâmpada. No máximo, roubou a ideia e vendeu-a. No momento em que não há ninguém a inventar nada, devido ao esmagamento de cérebros, os chico-espertos não têm nada para vender. Claro que os chico-espertos não conseguem ver tão longe. E os príncipes herdeiros idiotas também não gostam de ouvir estas coisas, que é preciso alguém com ideias, porque ficam nervosos e agitados e atiram cocó aos servos mais chegados, por isso é melhor nem tocar no assunto, que, é como quem diz, tocar na merda.
Quando José Júdice diz que meteram a riqueza intangível no bolso, está a usar outro recurso estilístico que é o eufemismo. Se a tivessem metido no bolso, tinham-na preservado. Quem a mete no bolso são os países que dão bolsas de estudo aos cérebros mundiais porque reconhecem que génios há poucos. Aqui o que se faz é mesmo deitar cérebros pela pia abaixo. Um dia até os idiotas vão ficar às escuras, e vão querer lâmpadas, e não as vão ter. É tão simples como isso.
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