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quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Uma semana sem internet

Por motivos de avaria no computador, vivi uma semana sem internet. Para quem tem banda larga há quatro anos, foi uma provação que ultrapassei mais facilmente do que pensava. Mesmo assim, foi doloroso. Devo mesmo admitir que as noites de quatro canais sem televisão de jeito foram anestesiadas pelas horas passadas de volta da máquina, a tentar restaurar a minha ligação ao mundo, qual alma penada que se esforça por abrir um canal de comunicação com os vivos.
À falta de séries e filmes de qualidade (quatro canais... nada de jeito) sobrepôs-se uma secura de notícias e opinião imparcial que até doía. Imaginei-me a viver assim, toda a vida, como a maioria dos portugueses que nem sonham do que fervilha na internet, sedada em estado comatoso por novelas da TVI, reality shows, reality telejornais e reality concursos da treta onde se escreve jasmim com "n" (jasmin, à inglesa) e girassol com apenas um "s" (girazol?). E futebol, muito futebol, e muito governo a dizer todos os dias a toda a hora que o país está a progredir, enquanto à socapa se vão passando notícias de que o desemprego aumenta, o endividamento não é preocupante, é chocante!!!, e o país se afunda. Apercebi-me, eu, que tenho acesso a um quociente de inteligência acima da média (mas bem tento acabar com ele, juro, mea culpa, mea culpa!) e à autoestrada da informação, do pouco que um português típico fica a saber do que se passa. Os coitados só percebem quando lhes bate à porta. E como ainda por cima o português tem a mania de fingir que está sempre bem na vida e cheio de dinheiro, nem entre "amigos" se confessa o real estado do sítio, a não ser quando a miséria é tão grande que nem os amigos acreditam.
E depois há outros problemas. Há empregos a manter. Há que calar a boca.
É por isso que artigos de opinião como estes, no jornal gratuito que é o Metro, são um bálsamo para a alma. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere fazer o sudoku ao lado da crónica, o que é lamentável. Vale a pena ler José Júdice às quartas feiras, embora o apelido do senhor me faça imediatamente torcer o nariz (reflexos condicionados de repulsa perante a consanguinidade das "elites" do país). Ora vejam.




Sim, sei que é mais um a dizer o mesmo, e num estilo tão irónico e sinuoso que apenas os abençoados com dois neurónios (porque a maioria só tem um) apanham o significado. Mas atentem nestas palavras:

"Se em Portugal não há uma 'riqueza intangível', é porque alguém a meteu no bolso, como já se mete a outra riqueza, a tangível. É por isso que a corrupção nos rouba duplamente".

Não sei quando começou mas suspeito que foi por altura do declínio e queda da nação pós-Descobrimentos, das quais ando aqui a tentar descobrir as causas já que desisti de lhe procurar cura para os efeitos. A certa altura esta elite de gente que casa entre famílias a um ponto de consanguinidade, ou a classe dos tios, como lhe chama o Hora Absurda, percebeu que a única maneira de pôr os idiotas congénitos que geravam à frente dos negócios de família era ter uma horda de gente semi-inteligente a trabalhar às suas ordens. Mas, atenção, gente não muito inteligente que ofuscasse completamente o idiota com o seu brilho. Gente apenas menos idiota que o idiota primogénito, que não tropeçasse na sua própria pastilha elástica. Os cérebros, os verdadeiros talentos, eram para abater logo, de preferência na escola primária. Aliás, todo o processo educativo em Portugal se destina a identificar estas potenciais ameaças ao domínio dos idiotas. Para isso promovem-se semi-idiotas que vão dando conta do recado, marionetas babadas porque afinal, e pela primeira vez na vida, se sentem inteligentes e recompensados. Como o Sócrates.
Pensemos no que liam os idiotas e os semi-idiotas no tempo de vida de Fernando Pessoa. Não sei o que liam, mas certamente não era Fernando Pessoa mas um semi-idiota promovido a bobo da corte do momento. Inteligências geniais como Fernando Pessoa, apesar de empregado de escritório e tudo, eram uma ameaça demasiado grande. Haviam de ser lidos, sim, mas depois de morrerem.
Até aqui, parece que o sistema funciona. Os príncipes idiotas governam nesta monarquia de ser filho-de-tal, fidalgo, portanto, e os semi-idiotas os servem. Até ao momento em que é preciso alguém inteligente para resolver problemas. E olhem, pasmem!, não há! O que temos em vez disso? Sócrates e Menezes. Com um pouco de sorte, ainda Pinto da Costa há-de ir a Presidente da República.
Quando disse aqui, muitas vezes, que se premeia a mediocridade, confesso que era um recurso estilístico, a hiperbole, que estava a utilizar. Claro que não se premeia a mediocridade. Premeia-se a semi-mediocridade, conhecida no nosso país pelo termo "chico-esperto". Nunca um chico-esperto inventou uma lâmpada. No máximo, roubou a ideia e vendeu-a. No momento em que não há ninguém a inventar nada, devido ao esmagamento de cérebros, os chico-espertos não têm nada para vender. Claro que os chico-espertos não conseguem ver tão longe. E os príncipes herdeiros idiotas também não gostam de ouvir estas coisas, que é preciso alguém com ideias, porque ficam nervosos e agitados e atiram cocó aos servos mais chegados, por isso é melhor nem tocar no assunto, que, é como quem diz, tocar na merda.
Quando José Júdice diz que meteram a riqueza intangível no bolso, está a usar outro recurso estilístico que é o eufemismo. Se a tivessem metido no bolso, tinham-na preservado. Quem a mete no bolso são os países que dão bolsas de estudo aos cérebros mundiais porque reconhecem que génios há poucos. Aqui o que se faz é mesmo deitar cérebros pela pia abaixo. Um dia até os idiotas vão ficar às escuras, e vão querer lâmpadas, e não as vão ter. É tão simples como isso.

sábado, 4 de agosto de 2007

DESAFIO: O declínio e a queda IV

Na sequência do meu post de 3 de Maio:

DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!

(...)

Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.




Na falta de respostas racionais, aceito até as explicações sobrenaturais de que fala o Goldmundo aqui, na Ribeira Negra::

Há uma palavra (não me lembro dela em português) que os espíritas usam pra descrever algo como "cascas vazias deixadas pelos mortos", fragmentos-coisas que já foram pessoas (vivas) e não são inteiramente almas (vivas também). Detritos do mar do espírito, sujidades de entre-Terra-e-Além, écorces mortes.

E lembro-me das palavras de um grande ocultista francês: "Portugal, submerso nas écorces mortes da Atlântida".

Infelizmente sei pouco de ocultismo, e muito pouco da Atlântida. Mas de Portugal sei o suficiente. Imerso em detritos, sim. Imerso num nevoeiro mental que paralisa, que não deixa ver, que não deixa agir. Não era Salazar que paralisava, não era o rei que paralisava, não era a inquisição que paralisava. Vivemos na Terra-de-não-ser, Avalon-ao-contrário. Miasmas.

Somos um país enrolado em si mesmo, purulento e manhoso como os mendigos da porta de igreja. Talvez tenhamos invocado demais as gaivotas, cantado demais as gaivotas, esses abutres-do-mar: talvez nos faltem as grandes cidades da Europa, as grandes montanhas da Europa. Talvez apenas nos falte aquele mínimo de vergonha que caracterizou os judeus e depois deles os protestantes, que inventaram a palavra "ética".

Pior de tudo: falamos que até faz impressão.

Em algum momento na História deve ter havido um erro terrível. Ou talvez seja mesmo a Atlântida.


Até agora, foi a melhor explicação que já li. Estranho é que seja do reino dos fantasmas, e não da História, a teoria que faz mais sentido.
Ideias? Comentários?...

quinta-feira, 10 de maio de 2007

DESAFIO: O declínio e a queda III

Na sequência do meu post de 3 de Maio:

DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!

(...)

Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.



Antes de transcrever as respostas, uma clarificação que eu julgar estar bem definida no desafio mas talvez não o esteja.

NÃO PROCURO MAIS DESCRIÇÕES DOS SINTOMAS CONHECIDOS E IDENTIFICADOS HÁ MAIS DE UM SÉCULO. PROCURO AS CAUSAS DO DECLÍNIO DE PORTUGAL. ATÉ AGORA NINGUÉM ME CONVENCEU.

Passemos, pois, a palavra aos intervenientes.


Comentário de Red:

Ora boas...
Desta vez ao contrário do 1º desafio lançado, não vou responder com versos metafóricos, que são mais interrogações que respostas.
Desta vez vou tentar um discurso mais coerente e de certa forma ciêntifico, para tal vou tentar mobilizar alguns dados empíricos.

Em primeiro lugar uma contextualização, para tal vou definir o que é o Global, não o global dos dicionários de sociologia, mas o Global que temos...
“Vejamos o que o global veio introduzir. No império do Global não há direitos adquiridos, há contratos...O lugar do indivíduo (do consumidor ou produtor) tem de ser conquistado, a pulso, no mercado, o seu desempenho tem de ser rentabilizado, a sua utilidade demonstrada. Há necessidade de uma contínua negociação, rentabilização, competição. As pessoas são dispensáveis, só interessam como função – de consumir ou de produzir – isto é, tornaram-se recursos: os recursos humanos!...Quem não é rentável não existe, não conta para o mundo global. Pode ser eliminado, pois não tem qualquer rentabilidade económica. Torna-se um peso para a sociedade globalizada e eficiente que, no limite, o despreza”1. isto é o global que temos só considera uma variável, a variável Capital, uma vez que a variável trabalho é local, “ A força do trabalho, só está globalizada num pequeno segmento da mesma, entre os trabalhadores de mais elevadas qualificações... (como analistas financeiros, engenheiros informáticos, publicitários de imagem ou estrelas desportivas)...O capital é global, o trabalho é local: nessa separação cria-se um vazio que torna ineficazes os processos de regulação e controle que se criaram na sociedade industrial”2 o que isto significa então em termos práticos? ora vejamos o que nos diz Casttels “...a produção de bens e serviços está globalmente articulada, em torno de um núcleo de 65 000 empresas multinacionais que, apesar de apenas empregarem uns 200 milhões de trabalhadores (há 3 000 milhões de trabalhadores no mundo), representam 40% do produto bruto mundial e 75% do comércio internacional. O comércio externo é pois a vida ou morte das economias, mas representa sobretudo a internacionalização da produção.”3 isto significa em termos práticos o seguinte. O conceito de globalização remete-nos de um ponto de vista económico, para a abertura dos mercados, isto é, um mercado global em que as fronteiras politicas e geográficas perdem importância, e em que os estados perdem gradualmente a influência politica sobre o mercado económico, numa lógica de causa efeito, isto reflecte-se numa concorrência também ela global, (onde interessa produzir bem, muito e barato).Num mercado global, interessa ás empresas reduzir custos de produção e aumentar o produto total, noutras palavras aumentar a produtividade, isto tem se reflectido numa fuga das empresas para mercados com uma mão de obra mais barata, e por vezes mais qualificada, consequentemente deparamos com um aumento do desemprego e precarização dos vínculos laborais, e aqui temos a VARIAVEL MAIS IMPORTANTE do caso especifico Português, a qualificação! senão vejamos em vários estudos realizados em Portugal a desqualificação emerge sempre como a variável mais importante no sentido de explicar os fenómenos que remetem este país para o pelotão de trás, (atenção que a influência das variáveis é facilmente demonstrável em termos estatísticos através de um conceito simples chamado o R de Pearson) mas não vou entrar em explicações de conceitos, correndo o risco de nunca mais sair daqui, de facto vejamos, temos uma população em que mais de 50% dos nossos cidadãos apenas têm o ensino Primário, e vamos lá meter as culpas nos senhores do costume, o ESTADO NOVO, parece que estamos a usar uma frase feita, mas que não deixa de ser real, interessava ao estado uma população inculta, e 30 anos ainda é pouco para vencer este paradigma, fruto disto vivemos num país de inteligentes incultos, com elites rascas, e numa ideologia paternalista, ou seja alguém nos vais resolver os problemas , e esperamos que o estado tome conta de nós, quem tem ideias ou critica este paradigma é apelidado de radical ou de pertencer a uma qualquer contracultura, enfim fomos arrastados para este turbilhão da globalização ( que não é mais que a globalização do capital) ao invés de uma globalização cultural geral, sem estarmos minimamente preparados, com isto afirmo, a emergência das novas economias como a china Índia ou Brasil, só vai piorar este quadro já de si bem negro. Interessa-nos mudar as nossas elites, e os nossos paradigmas, se não podemos mudar este Global, então temos de mudar o país para que o mesmo se adapte. Parece-me é que já vamos tarde...


1-Caraça, João, in Prefácio, A sociedade em rede em Portugal, Campo das letras, p 9, Porto, 2005.

2-Casttels. Manuel, in Capitulo inicial, A sociedade em rede em Portugal, Campo das letras, p 22, Porto, 2005.

3-Idem, p 23.


Acho que a tua explicação está muito focada na actualidade e nos efeitos da globalização. Procuro causas mais antigas, as mesmas dos sintomas de que falava Eça de Queirós n'"Os Maias", muito antes dos chineses.
Cito-te de novo: "de facto vejamos, temos uma população em que mais de 50% dos nossos cidadãos apenas têm o ensino Primário, e vamos lá meter as culpas nos senhores do costume, o ESTADO NOVO, parece que estamos a usar uma frase feita, mas que não deixa de ser real, interessava ao estado uma população inculta, e 30 anos ainda é pouco para vencer este paradigma, fruto disto vivemos num país de inteligentes incultos, com elites rascas, e numa ideologia paternalista, ou seja alguém nos vais resolver os problemas , e esperamos que o estado tome conta de nós, quem tem ideias ou critica este paradigma é apelidado de radical ou de pertencer a uma qualquer contracultura," Tudo isto está em Portugal muito antes do Estado Novo.
Mais?...


Comentário de Goldmundo, em várias partes, por opção do próprio, e a nosso bem pela graça de Deus:


Bem, tantas coisas para dizer. Vai ter de ser aos bocadinhos.

"O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha?"

Bem, não houve uma "nação determinada". No séc. XII, e nos anteriores desde que os romanos colapsaram, a questão era essencialmente militar. Coragem individual, espírito guerreiro, talvez fé e honra, que são as duas coisas que fazem com que sobreviver a todo o custo possa não ser sempre a opção a seguir. A inteligência é necessária, mas é a inteligência do lobo ou a do falcão. Ao povo, pedia-se que fosse povo: trabalhar nos campos, ter filhos, viver e esperar.

Quando surge aquilo a que agora chamamos capitalismo, ou comércio (em larga escala) as coisas tornam-se diferentes, muito diferentes. A honra do comerciante é diferente da honra do rei: trata-se de pagar a tempo e horas, de entregar a mercadoria a tempo e horas. Trata-se de cumprir contratos e não de cumprir regras morais. E aí aconteceu (não só a nós, também aos espanhóis) algo de dramático. Navegámos, e expulsámos os turcos da Índia, e uma vez um soldado português enfrentou sozinho, num bote, 22 navios de guerra do Sultão. Mas a certa altura isso não bastava.

- O D. Afonso Henriques não era "periférico" de coisa nenhuma. Quanto mais longe estivessem o Papa e o Rei de França e o Imperador menos gente ele tinha que o chateasse. Mas o comerciante de Lisboa no tempo dos Descobrimentos tem desvantagem (acesso ao crédito, acesso a mercados de matéria-primas, etc) face aos do centro-europa.

- A expulsão dos judeus (forçada por Espanha) não ajudou.



Segunda parte



Uma nota prévia ao comentário de Red: a ideia de que interessava ao Estado Novo uma população "inculta" é evidentemente um dos tristes mitos contemporâneos. A ver se nos entendemos: Portugal está repleto de escolas primárias e de liceus construídos nos anos 30/40/50 (aliás, com uma arquitectura perfeitamente reconhecível: "olha uma escola primária"). O que não interessava - mas é um assunto DIFERENTE - era a difusão das "ideologias de esquerda", como é óbvio. No entanto, ao contrário de agora, qualquer pessoa "urbana e culta" falava e lia duas ou três línguas estrangeiras, e o país (ou melhor, Lisboa, Porto e Coimbra)abarrotava de livros franceses e ingleses de todos os quadrantes.

Voltando ao assunto principal: o gap" entre Portugal e a Europa começou com o desenvolvimento do capitalismo. Não tivemos Revolução Industrial. Não tivemos dinastias burguesas de várias gerações, a trabalhar (ao modo burguês, isto é, como "empresários", mas a trabalhar) por sucessivas gerações e a acumular fortunas enormes.

As razões para isto são pouco conhecidas ainda (Pedro Brito, da Faculdade de Letras do Porto, é a única pessoa que conheço a estudar seriamente este ponto): tudo indica que, ao contrário da Europa do Norte, a preocupação de quem enriquecia era "afidalgar-se". Se conhecem o Minho (basta ver fotos de Viana e Ponte de Lima na net) vêem que está coberto de "solares" do século XVIII: os camponeses emigravam para o Brasil, faziam fortuna, voltavam para comerciar durante uns tempos e mal podiam faziam um casamento na nobreza, construiam um palácio... e passavam a viver de rendas agrícolas. Era bom enquanto durava. (era muito mal visto um "fidalgo" trabalhar, o que nunca aconteceu em Inglaterra, por exemplo).

Para quem goste de literatura "gótica" (a clássica, a dos anos 1750-1850), sugiro que vejam o que era a Espanha e Portugal aos olhos de ingleses e franceses: do lado de cá dos Pirinéus entravam numa espécie de Transilvãnia Ocidental, com ciganos, igrejas em ruinas e campos por cultivar. Por isso, e não pelo Sol do Algarve, aqui estiveram Byron, Walpole (o inventor" do romance gótico) e vários outros. Foram eles que "fizeram" Sintra, que era um ermo com um castelo arruinado.

(continuo)

O terramoto não ajudou (mil palácios destruídos em Lisboa), e também não ajudou uma coisa pouco conhecida: poucos anos depois do terramoto houve um misterioso incêndio na Alfandega de Lisboa, que servia de "registo central" aos documentos que provavam dividas dos comerciantes (de exportação/importação): grandes empresas arruinaram-se aí.

Mas não é o terramoto (nem as invasões francesas) a causa, as coisas vêm mais de trás.

Pensem em filmes como o "Patriota" com o Mel Gibson, ou filmes do tempo de Napoleão: aqueles grandes exércitos de infantaria, linha após linha de soldados profissionais com espingardas e baionetas: Portugal teve de importar generais para os organizar, como agora importa espanhóis para "gestores de topo". Não aprender o capitalismo e não ter a revolução burguesa significa não aprender organização, não aprender planeamento. Fazer as coisas ao modo de cada um, como o artesão da Idade Média. Nos últimos 300 anos, isso tornou-se cada vez mais um desastre.

Suponho que o facto de termos sido um país católico não ajudou: ao contrário das igrejas "protestantes", o clero católico desconfiava do progresso, dos "estrangeiros", das novas ideias. Cada vez mais as nossas coisas foram actos isolados e "heróicos", como a travessia aérea do Gago Coutinho, a travessia de África de Serpa Pinto, os romances do Eça ou a poesia do Pessoa: uma coisa de um só, que não deixa rasto nem escola.

O quotidiano continuou aldeão, e por isso continuou ineficaz: o compadrio, que agora nos horroriza no topo do Estado, foi inventado no adro das aldeias. Faz-se assim porque "sempre se fez", trabalha-se com este porque é primo de um amigo. Uma vez assisti a um telefonema feito directamente para o Presidente da República para "livrar um rapaz da tropa, a mãe é do meu tempo e boa moça, viúva coitada": e o rapaz livrou-se, sim. Os tribunais nunca funcionaram (funcionaram nos países em que os ricos precisavam que eles funcionassem para cobrar dívidas ou para impedir o Estado de fazer leis absurdas: aqui repercutia-se a dívida no seguinte ou falava-se com Lisboa para alguém "fechar os olhos".

Isso significa que o 25 de Abril, passado o folclore inicial, foi o desabar de um capitalismo em fase cancerosa sobre um país do séc. XVI. E ainda por cima, quando (anos 80) a ideologia exportada pelos americanos era a de que o capitalismo ia trazer consigo a paz da democracia. Tentou-se isso na Rússia, também.

O problema seguinte é o de perceber porque é que a Espanha triunfou quando nós falhámos. Também teve o Franco, e teve uma guerra civil que durou 3 anos. Também era um país de fidalgos e ciganos. E agora prepara-se para ultrapassar a Inglaterra em poder económico.

É curioso que Sócrates nos peça para olhar a Finlândia, com a Espanha mesmo ao lado. Se eu fosse o autor do Portugal Profundo, talvez sugerisse duas ou três explicações :)

(a continuar, acho...)



Obrigada pela paciência em escrever isto tudo, Goldmundo. Valerá a pena se a alma não é pequena (e a nossa não deve ser porque insistimos em escarafunchar a madeira podre das fundações da casa).

As tuas questões põem-me mais perguntas.
Cito e provoco.
A inteligência é necessária, mas é a inteligência do lobo ou a do falcão. Ao povo, pedia-se que fosse povo: trabalhar nos campos, ter filhos, viver e esperar.
Também o mesmo era pedido a todos os povos europeus, ou não?...

- A expulsão dos judeus (forçada por Espanha) não ajudou.
E todavia, mesmo sem judeus, a Espanha fez e faz coisas enquanto Portugal definhava e definha. Muitas culpas foram atribuídas aos judeus; não comeces também tu a desculpar-te com a falta deles. ;)

Voltando ao assunto principal: o gap" entre Portugal e a Europa começou com o desenvolvimento do capitalismo. Não tivemos Revolução Industrial. Não tivemos dinastias burguesas de várias gerações, a trabalhar (ao modo burguês, isto é, como "empresários", mas a trabalhar) por sucessivas gerações e a acumular fortunas enormes.

Agora sim, se não estamos no osso, estamos perto dele.

Não aprender o capitalismo e não ter a revolução burguesa significa não aprender organização, não aprender planeamento. Fazer as coisas ao modo de cada um, como o artesão da Idade Média. Nos últimos 300 anos, isso tornou-se cada vez mais um desastre.
Eis uma boa questão. O que faltou ou o que falhou para não percebermos com o exemplo dos outros quando até os intelectuais do século XIX já o apontavam? Somos burros? Não somos burros. O que trava, então, as mentes nacionais?
(Estamos a chegar perto.)


Suponho que o facto de termos sido um país católico não ajudou: ao contrário das igrejas "protestantes", o clero católico desconfiava do progresso, dos "estrangeiros", das novas ideias.
O exemplo de Espanha também faz deste um ponto mudo.

Aliás, o exemplo da Espanha faz-nos pensar muito e muito. Mas a Espanha não é o inimigo. O inimigo é a falta de reflexão sobre a nossa própria estagnação.

QUE CONTINUE O DEBATE!

MEXAM-SE! ESPALHEM-NO!

quarta-feira, 9 de maio de 2007

DESAFIO: O declínio e a queda II

Na sequência do meu post de 3 de Maio:

DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!

(...)

Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.


Transcrevo o comentário de Luna da caixa de comentários do blog Do Portugal Profundo:

Gotika lançou um DESAFIO sobre uma questão muito pertinente: "porque dorme Portugal?"
Pouca gente hoje em dia medita sobre este assunto talvez pq os intelectuais passaram a estar filiados nos partidos, perdendo a isenção da critica, ou porque não têm também qualquer peso na sociedade, sendo olhados até com desdém.
A consciência e o orgulho nacionais foram morrendo aos poucos. Só por ocasião dos campeonatos de futebol internacionais ou em outras situações muito pontuais ,como a inauguração da Expo 98, vem ao de cima essa vertente..De uma forma geral os Portugueses não gostam de o ser mas, qualquer ser humano consciente, deve gostar do seu País e sentir orgulho nele.
Hoje o que conta são os sinais exteriores de riqueza e a aparência , o interior é perfeitamente secundarizado. Amedrontam-nos constantemente com a infindável crise , pedem que nos sacrifiquemos ao máximo e eles no poder não se coibem de nada e ficam cada vez mais ricos à custa do povo . Alguns Portugueses querem a todo o custo ser “modernos” e ser moderno é únicamente absorver de forma insidiosa as taras e manias americanas ao mesmo tempo que se detesta George W.Bush!É a globalização
Lá fora sente-se que os povos tem orgulho na sua cultura, nas suas origens que permanentemente valorizam.A nossa cultura foi definhando porque ninguém a estimulou..O que vigora é o chico espertismo.Os valores morais andam aos trambolhões.
Portugal está realmente doente e corre o risco de se descaracterizar totalmente , acabando mesmo por deixar de existir como nação. Para isso muito têm contribuido os politicos. Quem vai hoje para a politica? Salvo raras e honrosas excepções são as pessoas ambiciosas ,frustradas, imaturas e mal resolvidas que querem a todo o custo ter poder e mordomias para se sentirem gente .O povo, para o qual dizem trabalhar, só serve para votar, porque de resto é perfeitamente desprezado. Acabam por fazer ao povo aquilo que sempre sentiram na pele.. Querem resolver a vidinha deles, dos seus familiares e amigos e como não têm principios entram em todas as jogadas que lhes faça aumentar o património. Corrompem e são corrompidos facilmente porque os valores não entram em linha de conta e, para culminar, saem sempre ilesos porque a impunidade está instalada. Os escândalos sucedem-se a um ritmo vertiginoso e uma boa parte da população alheia-se de tudo propositadamente porque não se quer incomodar.
Esquerda, direita? Tudo está desfigurado..veja-se como Socrates..que tem muito pouca cultura politica confunde socialismo com politicas de direita pura!!!
Nós , o povo, olhamos em redor e não temos referências , não temos lideres confiáveis e isso é responsável pelo desânimo que está entranhado em muitos de nós.As pessoas passam a olhar para si próprios exclusivamente, ficam cada vez mais egocentricas e tornam-se socialmente apáticas.
Há gente de muito valor em Portugal e, como diz Gotika ,há muitos Portugueses que se destacam no estrangeiro.Mas o que acontece então? Aqui não se dá o devido valor à prata da casa. Há invejas, complexos , pouco estimulo,a amizade deixou de ter um papel essencial na vida das pessoas. Usa-se, manipula-se e depois joga-se fora..é tudo descartável.
Por isso as pessoas partem como sempre fizeram e continuarão a fazer porque Portugal não tem futuro.
Mudar as mentalidades é fundamental e que haja alguém que estude todos estes fenómenos e se criem debates para se tentar melhor a qualidade das pessoas e engrandecer Portugal.
Luna



Continuam a precisar-se de respostas. Fica o DESAFIO.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

DESAFIO: O declínio e a queda

Nestes últimos dias tenho pensado muito no declínio e queda de Portugal.
Vou deixar três exemplos de como vários autores já tinha percebido tudo há muito tempo:


Lido recentemente no blog Braganza Mothers:

"Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não."

Jorge de Sena "A Portugal"



Lido recentemente em vários blogs:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro [.]

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.]

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896


A que junto daqui:

"Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."

Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)


DESAFIO:
Nem sempre foi assim ou estaremos todos muitos enganados? O que aconteceu à nação determinada que no século XII se tornou independente de Espanha? O que aconteceu à nação empreendedora que com mérito, coragem, saber e visão desbravou caminho pelos mares nunca dantes navegados, uma proeza semelhante às actuais viagens no espaço? O que aconteceu depois dos Descobrimentos que nos reduziu à medíocridade, à mesquinhez, à emigração, à subserviência?
Deixo aqui o desafio a toda a gente que tenha um blog dizer de sua opinião. Explicar o que aconteceu. Historiadores, cultos, incultos, gente com neurónios ou sem eles, é indiferente. Quero saber porque é que Portugal está a implodir.
Façam o vosso texto e avisem-me. Apontem-me para textos já escritos. EU QUERO SABER ISTO!


Eu começo. Os Descobrimentos foram a grande glória e o começo do fim. Como Roma e todos os grandes impérios, é no seu auge que se deve procurar as origens do declínio. As riquezas conquistadas serviram para comprar à Europa os produtos de subsistência em vez de os produzir, num movimento que, aprendi na escola, ficou conhecido por "política de transporte". Transporte do ouro de cá para lá. Regozijo do lado de lá, lazer e preguiça do lado de cá. Portugal tornou-se vaidoso e tolo, tão vaidoso e tolo que D. Sebastião decide empreender a primeira cruzada do pato-bravismo (o puto era uma espécie de street racer viciado em tuning de armaduras) com a consequente perda da independência.
Não culpo os espanhóis. Fizeram o que qualquer nação com juízo faria: aproveitar-se de uma nação que perdera o tino. E não se pode culpar os espanhóis eternamente. Já passou muita água debaixo da ponte, meus amigos.
A partir da recuperação da independência, as únicas criaturas que deixaram obra feita foram ditadores mais ou menos sanguinários. Marquês de Pombal e Salazar. Eis quem conseguiu pôr "isto" nos eixos se bem que pela força e sem democracia. Entretanto, lá fora, inventava-se o parlamento, e a monarquia constitucional, e fazia-se a revolução industrial, e rebentavam os sindicatos, e morria-se por uma causa se fosse preciso. Portugal dormia, nem sempre à sombra da bananeira. Muitas vezes ao frio. Mas dormia.
Porque dorme Portugal, é a pergunta? Onde começou este rastilho de corrupção e mau cheiro do qual o Brasil é a nossa vergonhosa obra prima? Entretanto a Europa cresceu. A Espanha cresceu. Até países de Leste nos passaram à frente. Portugal definha e envergonha-se. O que quer que tenha acontecido foi ditado após a ocupação espanhola pós sebastianista e nunca mais se recuperou a Pátria. No estrangeiro, os portugueses brilham tanto ou mais do que os nativos mas não têm hipóteses na sua terra. Que pátria é esta que desdenha o seu melhor e escolhe para a governar o seu pior, quer seja democraticamente ou através de um ditador?
Quando e porque é que começou? Porque é que não se fala do assunto? Ao descobrir a origem, o momento chave em que tudo se transformou naquilo que os autores citados dizem, estamos mais perto da cura.

Fica o DESAFIO.
Precisam-se respostas.