À falta de séries e filmes de qualidade (quatro canais... nada de jeito) sobrepôs-se uma secura de notícias e opinião imparcial que até doía. Imaginei-me a viver assim, toda a vida, como a maioria dos portugueses que nem sonham do que fervilha na internet, sedada em estado comatoso por novelas da TVI, reality shows, reality telejornais e reality concursos da treta onde se escreve jasmim com "n" (jasmin, à inglesa) e girassol com apenas um "s" (girazol?). E futebol, muito futebol, e muito governo a dizer todos os dias a toda a hora que o país está a progredir, enquanto à socapa se vão passando notícias de que o desemprego aumenta, o endividamento não é preocupante, é chocante!!!, e o país se afunda. Apercebi-me, eu, que tenho acesso a um quociente de inteligência acima da média (mas bem tento acabar com ele, juro, mea culpa, mea culpa!) e à autoestrada da informação, do pouco que um português típico fica a saber do que se passa. Os coitados só percebem quando lhes bate à porta. E como ainda por cima o português tem a mania de fingir que está sempre bem na vida e cheio de dinheiro, nem entre "amigos" se confessa o real estado do sítio, a não ser quando a miséria é tão grande que nem os amigos acreditam.
E depois há outros problemas. Há empregos a manter. Há que calar a boca.
É por isso que artigos de opinião como estes, no jornal gratuito que é o Metro, são um bálsamo para a alma. Infelizmente, a maioria das pessoas prefere fazer o sudoku ao lado da crónica, o que é lamentável. Vale a pena ler José Júdice às quartas feiras, embora o apelido do senhor me faça imediatamente torcer o nariz (reflexos condicionados de repulsa perante a consanguinidade das "elites" do país). Ora vejam.

Sim, sei que é mais um a dizer o mesmo, e num estilo tão irónico e sinuoso que apenas os abençoados com dois neurónios (porque a maioria só tem um) apanham o significado. Mas atentem nestas palavras:
"Se em Portugal não há uma 'riqueza intangível', é porque alguém a meteu no bolso, como já se mete a outra riqueza, a tangível. É por isso que a corrupção nos rouba duplamente".
Não sei quando começou mas suspeito que foi por altura do declínio e queda da nação pós-Descobrimentos, das quais ando aqui a tentar descobrir as causas já que desisti de lhe procurar cura para os efeitos. A certa altura esta elite de gente que casa entre famílias a um ponto de consanguinidade, ou a classe dos tios, como lhe chama o Hora Absurda, percebeu que a única maneira de pôr os idiotas congénitos que geravam à frente dos negócios de família era ter uma horda de gente semi-inteligente a trabalhar às suas ordens. Mas, atenção, gente não muito inteligente que ofuscasse completamente o idiota com o seu brilho. Gente apenas menos idiota que o idiota primogénito, que não tropeçasse na sua própria pastilha elástica. Os cérebros, os verdadeiros talentos, eram para abater logo, de preferência na escola primária. Aliás, todo o processo educativo em Portugal se destina a identificar estas potenciais ameaças ao domínio dos idiotas. Para isso promovem-se semi-idiotas que vão dando conta do recado, marionetas babadas porque afinal, e pela primeira vez na vida, se sentem inteligentes e recompensados. Como o Sócrates.
Pensemos no que liam os idiotas e os semi-idiotas no tempo de vida de Fernando Pessoa. Não sei o que liam, mas certamente não era Fernando Pessoa mas um semi-idiota promovido a bobo da corte do momento. Inteligências geniais como Fernando Pessoa, apesar de empregado de escritório e tudo, eram uma ameaça demasiado grande. Haviam de ser lidos, sim, mas depois de morrerem.
Até aqui, parece que o sistema funciona. Os príncipes idiotas governam nesta monarquia de ser filho-de-tal, fidalgo, portanto, e os semi-idiotas os servem. Até ao momento em que é preciso alguém inteligente para resolver problemas. E olhem, pasmem!, não há! O que temos em vez disso? Sócrates e Menezes. Com um pouco de sorte, ainda Pinto da Costa há-de ir a Presidente da República.
Quando disse aqui, muitas vezes, que se premeia a mediocridade, confesso que era um recurso estilístico, a hiperbole, que estava a utilizar. Claro que não se premeia a mediocridade. Premeia-se a semi-mediocridade, conhecida no nosso país pelo termo "chico-esperto". Nunca um chico-esperto inventou uma lâmpada. No máximo, roubou a ideia e vendeu-a. No momento em que não há ninguém a inventar nada, devido ao esmagamento de cérebros, os chico-espertos não têm nada para vender. Claro que os chico-espertos não conseguem ver tão longe. E os príncipes herdeiros idiotas também não gostam de ouvir estas coisas, que é preciso alguém com ideias, porque ficam nervosos e agitados e atiram cocó aos servos mais chegados, por isso é melhor nem tocar no assunto, que, é como quem diz, tocar na merda.
Quando José Júdice diz que meteram a riqueza intangível no bolso, está a usar outro recurso estilístico que é o eufemismo. Se a tivessem metido no bolso, tinham-na preservado. Quem a mete no bolso são os países que dão bolsas de estudo aos cérebros mundiais porque reconhecem que génios há poucos. Aqui o que se faz é mesmo deitar cérebros pela pia abaixo. Um dia até os idiotas vão ficar às escuras, e vão querer lâmpadas, e não as vão ter. É tão simples como isso.