domingo, 28 de junho de 2026

Believer / A Crente (2024)


[contém alguns spoilers]

Este filme é uma desilusão. O começo até é bom, mas a certa altura a história esquece-se da lógica.
Em pleno julgamento, no dia em que a sentença vai ser lida, o líder de um culto responsável por múltiplos homicídios ataca uma jovem que está a escrever um livro sobre ele. Esta jovem, Kate, vai recuperar do trauma para casa da família da irmã mais velha, casada e com uma filha adolescente. Mas um detective acredita ter razões para suspeitar que Kate é na verdade uma seguidora do culto e que a família pode estar em perigo, uma vez que o líder, tal como Charles Manson, persuadia os seguidores a cometer os crimes por ele.
A primeira parte do filme é algo arrepiante. Efectivamente, começam a acontecer coisas estranhas e sangrentas em casa da irmã de Kate. Ao mesmo tempo, vemos segmentos da narrativa pela perspectiva da irmã e somos levados a crer que o detective pode ter razão. Kate não está no seu juízo perfeito... ou será ela a vítima da irmã, ou do cunhado, ou até da sobrinha adolescente, que também demonstra algum fascínio pelo livro e pelo culto?
Chegamos ao fim e não percebemos o que aconteceu. Daquilo que nos é mostrado, nenhuma das personagens podia ter cometido todos os ataques que vemos acontecer, mas também há sempre aquela possibilidade de o criminoso simular ser uma vítima para não ser alvo de suspeita. Logo, todos podem ser o atacante, mas nunca descobrimos nem o filme se interessa em explicar porque é que não interessa se descobrimos ou não.
Mas se recordarmos, em retrospectiva, a cena do tribunal, logo no início, também não faz muito sentido. O líder do culto é cego, está desarmado e rodeado de polícia quando ataca a rapariga, e aquela polícia toda não conseguiu dominá-lo e teve de abatê-lo? Muito improvável.
O filme continua a jogar com a ambiguidade. Por um lado, o homem é apresentado como um líder carismático que controla a mente dos seguidores com uma doutrina apocalíptica, mas por outro há fenómenos que não podem ser explicados sem intervenção sobrenatural. Em que é que ficamos? É um líder de culto normal, ou há aqui uma presença maligna que possui os seguidores e, possivelmente, até possui o líder? Uma vez que todos os personagens são os chamados "narradores não-confiáveis", não se consegue determinar até que ponto é que os "fenómenos sobrenaturais" nunca chegaram a existir. E o que é que significou aquele sorrisinho sinistro na cara da família toda no final? Eram todos seguidores que a certa altura se apunhalaram uns aos outros para parecerem vítimas? Ou será que estão todos possuídos no fim?
(E, já agora, mais outra. Se o detective estava mesmo tão convencido de que Kate podia matar a família, como de facto estava, porque é que não apareceu mais cedo? A polícia não fica muito bem vista neste filme.)
"Believer" podia ser (e se calhar queria ser) daqueles filmes que usam a ambiguidade para nos perturbar mais, mas a ambiguidade só resulta quando assenta numa lógica qualquer que a permita, o que não acontece aqui. Em suma, não percebemos o que se passa, não percebemos o que o filme nos queria dar a entender, apenas ficamos frustrados por termos perdido tempo a tentar acompanhar. Ainda por cima a acção é muito lenta, o que cria mais tensão quando ainda estamos a esforçar-nos por apanhar o fio à meada, mas o final ilógico não me deixou vontade nenhuma de ver outra vez.
Pergunto-me se isto não foi propositado para abrir a porta a uma sequela para "explicar".

10 em 20

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