
"A política nuclear da República Islâmica tem sido pacífica até agora. Até agora, temos trabalhado dentro da agência (a Agência Internacional de Energia Atómica das Nações Unidas) e das regras do TNP (Tratado de Não-Proliferação). Se virmos que querem violar os direitos do povo iraniano através dessas regras, devem saber que o povo iraniano vai rever as suas políticas. Não devem fazer algo que leve a tal revisão das nossa política", avisou Mahmoud Ahmadinejad.
No mesmo discurso, aludindo à questão dos "cartoons" de Maomé na imprensa europeia, Mahmoud Ahmadinejad voltou a produzir afirmações que questionam a existência do Holocausto judeu perpetrado pelos nazis na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, classificando o Holocausto como um "mito". Para o líder iraniano, os países europeus são fantoches de Israel.
"Eles dizem que os seus países são livres mas estão a mentir. São reféns dos sionistas e os americanos e os europeus devem pagar por isso", invectivou Ahmadinejad. Invocando a questão da liberdade de expressão, Mahmoud Ahmadinejad questionou: "Como é que os insultos são livres no vosso país mas qualquer investigação sobre o Holocausto é um crime?"
Adepto da ideia de que a morte de seis milhões de judeus durante o regime nacional-socialista alemão é uma fabricação para justificar os interesses israelitas, o Presidente iraniano pediu uma conferência académica para discutir o que aconteceu no Holocausto, sugestão que foi condenada internacionalmente pela maioria dos líderes mundiais. Hoje, voltou a dizer que "se procuram pelo Holocausto, vão encontrar o verdadeiro Holocausto na Palestina".
Sobre a questão das caricaturas. Passei os últimos dias a ler muito do que se escreve por cá e no estrangeiro, não só pelas elites como pelos cidadãos anónimos e pelos jornais que supostamente (já digo supostamente) publicam os factos como eles são. Cheguei à conclusão de que não há nenhuma questão de caricaturas. A verdadeira questão prende-se com este senhor na imagem e tudo o que ele implica.
"Smoke and mirrors" é uma expressão inglesa que significa "enganar ou distorcer a realidade". Nunca uma expressão serviu tão bem para explicar o que se passa actualmente na Europa, embora os americanos estejam bem habituados a ela.
Os factos são o que são. As caricaturas foram publicadas primeiro em Setembro, depois em Dezembro num jornal egípcio em pleno Ramadão, e não aconteceu nada. Subitamente em Fevereiro, em que se agrava o braço de ferro com o Irão, surgem manifestações nas ruas, embaixadas incendiadas, mortos e feridos e ameaças de morte. Pensar que esta reacção não é manipulada por radicais (e governos que pouco fazem para os travar) é ser demasiado ingénuo nos dias que correm. Pensar que a questão se centra em torno da sensibilidade islâmica a qualquer boneco publicado aqui ou ali é uma extraordinária perda de tempo para entreter quem não quer (ou não pode) falar claramente.
Entre estes que não podem falar claramente estão os ministros dos negócios estrangeiros e os diplomatas. Agora os leitores habituais vão estranhar-me mas tem de ser. Isto não é um dramazinho pessoal de pouca importância. Vive-se num clima de pré-guerra mundial. Faz todo o sentido e dita o bom senso que as entidades oficiais não deitem mais achas para a fogueira e condenem as caricaturas. Bem sei que a Europa não está habituada a isto porque os mais novos esqueceram a guerra. (Os americanos, no entanto, estão bem habituados a isto.) Logo, o que os diplomatas dizem faz todo o sentido.
O que nós dizemos, mais abertamente porque os nossos blogs são insignificantes para resolução final das coisas, é outra questão. E quanto mais insignificantes, mais abertamente se pode falar. É por isso que o faço. Se fosse ministra dos negócios estrangeiros não faria (nem poderia, excepto muitos anos depois do desfecho, como em todas as questões de relevância histórica). Trazer a lume tricas de política interna não só é míope como politicamente oportunista. Por outras palavras, é bom para os cegos e os que vêem muito bem.
Voltando ao assunto. A publicação das caricaturas não me faz mossa nenhuma e acho muito bem que tenham sido publicadas para mostrar uma posição. Entretanto, o que é, na minha modesta opinião (modestíssima, acreditem) realmente novo nesta situação é que pela primeira vez desde a Segunda Guerra mundial (ou talvez na História?) a Europa está exaltada porque vê tão somente o seu direito à liberdade de expressão ser posto em causa. Isto surpreende-me. Todas as lutas anteriores da Europa não se centravam em torno da liberdade de expressão mas de algo mais, quer fosse a liberdade política (como no nosso país) ou religiosa ou a libertação do modo de vida servil (a Revolução Francesa com o seu lema "liberdade, igualdade, fraternidade"). Este ataque directo ao "European way of life" atingiu a consciência europeia mais fundo do que os próprios atentados terroristas em Madrid ou em Londres. Isto talvez se deva ao facto de que a Europa, ao contrário dos Estados Unidos, já estivesse habituada a movimentos terroristas no seu próprio seio: o IRA, a ETA, as Brigadas Vermelhas, até no nosso pacífico país as FP25. (Lembro-me de uma bomba que explodiu nas proximidades e fez vítimas quando eu tinha menos de 3 anos. E jamais me esquecerei do terror dos tempos do PREC, vivido na mesma tenra idade.)
Estou, por isso, surpreendida que o clamor de indignação seja provocado pela perspectiva de abdicar de um direito e não pelo terror dos atentados. Talvez ainda haja esperança para a Europa idealista apesar de tudo.
Pena é que muita dessa Europa ainda se deixe enganar por jogos de fumo espelhos que, como a parafernália usada por ilusionistas para esconder o truque, a ilusão do seu ofício, distraem os pensamentos da verdadeira causa das coisas, e a causa está no facto de que a Europa já não é um lugar seguro como nos habituámos a vê-la desde os anos 80 e a queda do muro de Berlim.
De um lado temos o fundamentalismo islâmico em erupção e de outro o belicismo irreflectido dos Estados Unidos (e o seu igualmente preocupante fundamentalismo cristão de que grande parte dos europeus ainda não se apercebeu). A Europa, lamento-o, tem estado de olhos fechados a olhar para o umbigo do seu poderio económico pensando que as convulsões lhe vão passar ao lado. Agora os bárbaros batem-lhe à porta como aconteceu ao Império Romano. Se a história se repete ou não, é o que vamos ver. Vivemos tempos diferentes e sem paralelo. Isso é que nos assusta mais do que tudo. A incógnita, a incerteza. A guerra já não se faz pelas espadas como no tempo das Cruzadas. Os países islâmicos não são a Rússia do tempo da guerra fria. Os valores europeus não são os mesmos que se viviam durante a Segunda Guerra. Tal como nos anos 30 do século XX, se quisermos estabelecer um paralelo algo rebuscado, ninguém sabe muito bem o que fazer nem o que pensar. Daqui para a frente não devemos olhar para as referências em busca de respostas (que as referências não sabem dar ou não querem dar por motivos de Estado que espelham a sua -- legítima! -- ambição política no futuro). Está na altura de pensar pela própria cabeça e de pensar duas ou três vezes antes de dizer seja o que for.

