domingo, 12 de fevereiro de 2006

Smoke and mirrors



"A política nuclear da República Islâmica tem sido pacífica até agora. Até agora, temos trabalhado dentro da agência (a Agência Internacional de Energia Atómica das Nações Unidas) e das regras do TNP (Tratado de Não-Proliferação). Se virmos que querem violar os direitos do povo iraniano através dessas regras, devem saber que o povo iraniano vai rever as suas políticas. Não devem fazer algo que leve a tal revisão das nossa política", avisou Mahmoud Ahmadinejad.

No mesmo discurso, aludindo à questão dos "cartoons" de Maomé na imprensa europeia, Mahmoud Ahmadinejad voltou a produzir afirmações que questionam a existência do Holocausto judeu perpetrado pelos nazis na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, classificando o Holocausto como um "mito". Para o líder iraniano, os países europeus são fantoches de Israel.

"Eles dizem que os seus países são livres mas estão a mentir. São reféns dos sionistas e os americanos e os europeus devem pagar por isso", invectivou Ahmadinejad. Invocando a questão da liberdade de expressão, Mahmoud Ahmadinejad questionou: "Como é que os insultos são livres no vosso país mas qualquer investigação sobre o Holocausto é um crime?"

Adepto da ideia de que a morte de seis milhões de judeus durante o regime nacional-socialista alemão é uma fabricação para justificar os interesses israelitas, o Presidente iraniano pediu uma conferência académica para discutir o que aconteceu no Holocausto, sugestão que foi condenada internacionalmente pela maioria dos líderes mundiais. Hoje, voltou a dizer que "se procuram pelo Holocausto, vão encontrar o verdadeiro Holocausto na Palestina".



Sobre a questão das caricaturas. Passei os últimos dias a ler muito do que se escreve por cá e no estrangeiro, não só pelas elites como pelos cidadãos anónimos e pelos jornais que supostamente (já digo supostamente) publicam os factos como eles são. Cheguei à conclusão de que não há nenhuma questão de caricaturas. A verdadeira questão prende-se com este senhor na imagem e tudo o que ele implica.
"Smoke and mirrors" é uma expressão inglesa que significa "enganar ou distorcer a realidade". Nunca uma expressão serviu tão bem para explicar o que se passa actualmente na Europa, embora os americanos estejam bem habituados a ela.
Os factos são o que são. As caricaturas foram publicadas primeiro em Setembro, depois em Dezembro num jornal egípcio em pleno Ramadão, e não aconteceu nada. Subitamente em Fevereiro, em que se agrava o braço de ferro com o Irão, surgem manifestações nas ruas, embaixadas incendiadas, mortos e feridos e ameaças de morte. Pensar que esta reacção não é manipulada por radicais (e governos que pouco fazem para os travar) é ser demasiado ingénuo nos dias que correm. Pensar que a questão se centra em torno da sensibilidade islâmica a qualquer boneco publicado aqui ou ali é uma extraordinária perda de tempo para entreter quem não quer (ou não pode) falar claramente.
Entre estes que não podem falar claramente estão os ministros dos negócios estrangeiros e os diplomatas. Agora os leitores habituais vão estranhar-me mas tem de ser. Isto não é um dramazinho pessoal de pouca importância. Vive-se num clima de pré-guerra mundial. Faz todo o sentido e dita o bom senso que as entidades oficiais não deitem mais achas para a fogueira e condenem as caricaturas. Bem sei que a Europa não está habituada a isto porque os mais novos esqueceram a guerra. (Os americanos, no entanto, estão bem habituados a isto.) Logo, o que os diplomatas dizem faz todo o sentido.
O que nós dizemos, mais abertamente porque os nossos blogs são insignificantes para resolução final das coisas, é outra questão. E quanto mais insignificantes, mais abertamente se pode falar. É por isso que o faço. Se fosse ministra dos negócios estrangeiros não faria (nem poderia, excepto muitos anos depois do desfecho, como em todas as questões de relevância histórica). Trazer a lume tricas de política interna não só é míope como politicamente oportunista. Por outras palavras, é bom para os cegos e os que vêem muito bem.
Voltando ao assunto. A publicação das caricaturas não me faz mossa nenhuma e acho muito bem que tenham sido publicadas para mostrar uma posição. Entretanto, o que é, na minha modesta opinião (modestíssima, acreditem) realmente novo nesta situação é que pela primeira vez desde a Segunda Guerra mundial (ou talvez na História?) a Europa está exaltada porque vê tão somente o seu direito à liberdade de expressão ser posto em causa. Isto surpreende-me. Todas as lutas anteriores da Europa não se centravam em torno da liberdade de expressão mas de algo mais, quer fosse a liberdade política (como no nosso país) ou religiosa ou a libertação do modo de vida servil (a Revolução Francesa com o seu lema "liberdade, igualdade, fraternidade"). Este ataque directo ao "European way of life" atingiu a consciência europeia mais fundo do que os próprios atentados terroristas em Madrid ou em Londres. Isto talvez se deva ao facto de que a Europa, ao contrário dos Estados Unidos, já estivesse habituada a movimentos terroristas no seu próprio seio: o IRA, a ETA, as Brigadas Vermelhas, até no nosso pacífico país as FP25. (Lembro-me de uma bomba que explodiu nas proximidades e fez vítimas quando eu tinha menos de 3 anos. E jamais me esquecerei do terror dos tempos do PREC, vivido na mesma tenra idade.)
Estou, por isso, surpreendida que o clamor de indignação seja provocado pela perspectiva de abdicar de um direito e não pelo terror dos atentados. Talvez ainda haja esperança para a Europa idealista apesar de tudo.
Pena é que muita dessa Europa ainda se deixe enganar por jogos de fumo espelhos que, como a parafernália usada por ilusionistas para esconder o truque, a ilusão do seu ofício, distraem os pensamentos da verdadeira causa das coisas, e a causa está no facto de que a Europa já não é um lugar seguro como nos habituámos a vê-la desde os anos 80 e a queda do muro de Berlim.
De um lado temos o fundamentalismo islâmico em erupção e de outro o belicismo irreflectido dos Estados Unidos (e o seu igualmente preocupante fundamentalismo cristão de que grande parte dos europeus ainda não se apercebeu). A Europa, lamento-o, tem estado de olhos fechados a olhar para o umbigo do seu poderio económico pensando que as convulsões lhe vão passar ao lado. Agora os bárbaros batem-lhe à porta como aconteceu ao Império Romano. Se a história se repete ou não, é o que vamos ver. Vivemos tempos diferentes e sem paralelo. Isso é que nos assusta mais do que tudo. A incógnita, a incerteza. A guerra já não se faz pelas espadas como no tempo das Cruzadas. Os países islâmicos não são a Rússia do tempo da guerra fria. Os valores europeus não são os mesmos que se viviam durante a Segunda Guerra. Tal como nos anos 30 do século XX, se quisermos estabelecer um paralelo algo rebuscado, ninguém sabe muito bem o que fazer nem o que pensar. Daqui para a frente não devemos olhar para as referências em busca de respostas (que as referências não sabem dar ou não querem dar por motivos de Estado que espelham a sua -- legítima! -- ambição política no futuro). Está na altura de pensar pela própria cabeça e de pensar duas ou três vezes antes de dizer seja o que for.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Olhem o que eu encontrei!

"GESTOR DE SINISTROS-URGENTE

Pretendemos candidatos com o seguinte perfil:

- Licenciatura em Direito ou 12ªAno;"

Pode ser visto aqui.




Ser licenciado em Direito ou ter o 12º ano é a mesma coisa?

Ver post abaixo sobre os alhos e as cebolas.

Ser inconveniente

Isto não é um post por pedir desculpa por existir, nem nada que se lhe pareça. Mas mesmo assim senti necessidade de o colocar.

Uma vez, há muitos anos, quando falava numa mesa de bar sobre a minha situação económica (que não se vê porque a pobreza é envergonhada) houve alguém que me disse "estás a ser incoveniente". Eu era inocente na altura e aquilo chocou-me profundamente. Dizer a verdade era "ser inconveniente". Claro que, como podem imaginar pela linguagem, estava a falar com pessoas de um certo nível.
Nesse dia mudei de amigos.

Já o disse aqui, muitas vezes, parece-me, que sou um caso atípico. Nesta internet, sei-o bem, não se espera encontrar situações de grande pobreza. Nem passa pela cabeça das pessoas que abdicar da internet é a última medida porque a internet é a melhor maneira de procurar emprego e ficar sem ela é o mesmo que dantes seria deixar de ler o jornal no café para procurar emprego. Por aqui, estamos conversados. Pensei ser útil explicar isto porque muita gente ainda não percebeu.
Depois, por ser um caso atípico, também gosto de escrever. E gosto de escancarar os meus sentimentos ao vento e de dizer o que se passa mesmo que ninguém leia. Para mim é terapêutico e faz-me bem.
Mas sei, porque já não sou inocente, que esta leitura é custosa para alguns e inconveniente para outros. Pois, sei-o muito bem.
A minha voz ergue-se contra a multidão de aparências que nos rodeiam. A minha voz não se importa com o que os outros pensam. E a minha voz é assim porque é anónima. E é anónima para poder ser assim. Sei que de outro modo não poderia expressar um décimo do muito que já expresso aqui. A sociedade não mo perdoaria.
Este é o ponto primeiro.
o ponto segundo é que este é um blog pessoal, logo, serve para desatar o que se passa comigo e na minha vida. O aspecto de utilidade que possa ou não ter para terceiros é algo que me é alheio e que não me preocupa. Não estou aqui em missão alguma que não o meu benefício pessoal e a minha estimulação intelectual. Se por acaso vêm à baila situações inconvenientes, azar. Ao contrário da mesa do bar, ninguém tem que me ouvir. E eu não preciso de mudar de amigos.

Uma última nota. Volto ao ponto de que ninguém na internet se espera deparar com situações de pobreza. A internet era um ponto de encontro de uma certa classe média alta, e foi assim até um certo ponto em que a banda larga se banalizou e tornou acessível. Junte-se a isso aptidões informáticas e, voilá, aqui me têm! Dito isto, quero acrescentar que há situações muito mais inconvenientes por aí, situações que nunca tiveram voz, que nunca vão ter voz, como os deficientes ou os doentes crónicos que não podem escrever pelo simples facto de estarem imobilizados ou impedidos por motivos físicos, e os idosos que vivem na miséria e não sabem escrever, e aqueles que simplesmente não sabem usar um computador. Peço que pensem nesses por um bocadinho, por muito inconveniente que esse bocadinho seja. Acreditem no que vos digo que se acham as minhas palavras inconvenientes não estão preparados para enfrentar a realidade. Se querem estar preparados ou não para enfrentar a realidade, isso também não é problema meu. Eu só escrevo. Que leia quem quiser. Mas pela vossa saúdinha, se este blog vos faz mal, não o leiam. Melhor que isto não posso fazer.

Os alhos e as cebolas e a invencível armada

Ouvi dizer, não me lembro a quem nem porquê, que o empreendorismo português na época dos Descobrimentos teve os seus aspectos caricatos. Para as naus foram contratados agricultores do Portugal profundo que não sabiam a diferença entre bombordo e estibordo. Os capitães das naus encontraram uma solução peculiar. Penduraram de um lado um saco de alhos e de outro um saco de cebolas e em vez de dizerem “para estibordo” ou “para bombordo” diziam simplesmente “alhos” e “cebolas”.
Não sei se esta história é facto ou lenda mas reconheço-lhe todo o mérito por funcionar.

Imaginemos agora esta solução aplicada à realidade actual. Feitas as naus e pronta a armada a zarpar, contrataram-se os tais agricultores das Beiras (vulgo Berças) para “marinheiros” e adoptou-se o saco de cebolas e o respectivo saco de alhos. Mas agora havia um problema com que o Capitão da armada não contou de antemão. Havia concorrência internacional e o caminho marítimo para a Índia já era percorrido por navios de todos os países. Não que a concorrência preocupasse o Capitão porque só lhe interessava fazer o que lhe foi dito e levar a armada ao porto. Isso da concorrência e do lucro passava-lhe ao lado porque era um funcionário zeloso e fazia o que lhe mandavam. Mas a grande chatice é que a navegação internacional utilizava os termos “bombordo” e “estibordo” e à pala disso quase afundou os navios num embate com os pesqueiros espanhóis logo à saída do porto. Decidiu-se, então, que era “preciso fazer qualquer coisa”.
A solução foi culpar os marinheiros pelo acidente, visto serem mão de obra não preparada, e despedi-los em massa ou arranjar-lhes reformas antecipadas. Alguns, amigos do Capitão, não foram despedidos (não por saberem o que era bombordo e estibordo mas por conviverem socialmente com o Capitão e esposa e filhos e cão), e foram em vez disso promovidos a supervisores dos que haviam de vir substituir os outros.
Contratou-se uma agência de trabalho temporário que colocou este anúncio de acordo com o que foi pedido:

“Precisa-se marinheiros, robustez física, espírito de inciativa, proactividade, bla bla bla, e que saibam distinguir bombordo de estibordo.”

Ora, escusado, porque já se sabia (ou devia saber-se) que ninguém sabia o que era bombordo e estibordo. Foi aí que todo o problema começou. Mas o Capitão achou bem e entretanto foi promovido, por acumulação de anos de serviço, a Comandante da armada.

Como ninguém sabia o que raio era bombordo e estibordo, mas as pessoas precisam de trabalhar porque isto está mau, a tal agência foi inundada de currículos e cartas a assegurar que os candidatos sabiam o que era bombordo e estibordo. Assim que chegavam ao navio, era-lhes ensinado pelos tais supervisores (que também não sabiam o que era bombordo e estibordo) o sistema dos alhos e das cebolas e as manobras para zarpar do porto lá prosseguiam.
Mas os supervisores não conseguiam disfarçar a incompetência porque o Comandante continuava a falar em bombordo e estibordo e eles não sabiam para que lado era e então interpretavam “alhos” e “cebolas” conforme entendiam. Inclusivamente, contradiziam-se entre eles, e os navios queriam sair do porto mas chocavam entre eles e não arredavam dali.
Furioso, o Comandante manda os amigos à merda (porque já tinha o Rei em cima dele a exigir resultados), despede-os, arranja novos supervisores desta nova leva de alhos e cebolas e despede os restantes (só para não dizer que não havia ninguém competente, porque de facto não havia, mas não se podia dar essa impressão porque se assim fosse a culpa era da liderança e não do pessoal e era mau para o Comandante).
Veio logo um gajo novo que sugeriu que o Comandante desse formação aos recém contratados, explicando-lhes de uma vez por todas o que era bombordo e estibordo. Este gajo foi logo despedido, à desculpa de que não tinha habilitações para o lugar (como se alguém tivesse) por ter dado uma boa ideia, boa ideia essa que o Comandante se estava cagando para seguir porque não era próprio da sua patente ir lá abaixo ao convés explicar aos marujos o que era bombordo e estibordo, por isso continuou-se com o sistema de alhos e cebolas.
Mas o Comandante não era parvo nenhum (porque para chegar a Comandante é preciso alguma esperteza) e encomendou um estudo a dizer o que o gajo despedido tinha dito, e que era preciso formação sim senhor, e o Rei lá abriu os cordões à bolsa e veio uma equipa de peritos internacionais dar formação, não aos gajos que já estavam contratados que esses acabaram por ir para o olho da rua, mas a todos aqueles que tiveram a informação de que a formação valia a pena. Os seleccionados para a formação foram os filhos de boas famílias amigas do Comandante, gente que subornou tudo pelo caminho e, lá pelo meio, para não dar muito nas vistas e haver um exemplo positivo para divulgar no reino, um gajo qualquer que até tinha boas notas e conseguiu uma bolsa de estudo.
Os peritos internacionais ensinaram não só o que era bombordo e estibordo como, com infinita paciência, explicaram aos formandos que uma janela redonda num navio se chama escotilha e que aquilo que eles estavam a ensinar se chamava Navegação Marítima e não “Curso de Bombordo e Estibordo”.
Assim que se apanharam com uma certificação profissional, os formandos foram contratados pelas armadas estrangeiras. E isto por várias razões. A primeira é que quando os portugueses são bons são mesmo muito bons. A segunda e determinante, porém, foi que tinham possibilidades de progredir numa carreira a sério, ao contrário dos teatrinhos de faz de conta da armada que teimava em não sair do porto. Por esta altura, a armada tomou a alcunha de “Armada Invencível”, não por ser muito boa mas por ser inamovível.
E os anos passavam e os navios precisavam de ser reparados, então toca de arranjar imigrantes para os arranjar porque se achava que os marujos dos navios eram demasiado qualificados para fazer esse trabalho (porque, lá está, sabiam o que eram alhos e cebolas) de modo que foram despedidos e a expedição ficou em águas de bacalhau durante alguns anos à pala dos subsídios de restauro que ninguém mais recebeu senão o Comandante (e foi logo comprar um iate pessoal como “despesa de formação profissional” para não se esquecer do que era bombordo e estibordo que um homem também não se pode lembrar de tudo).
Entretanto, alguns espertalhões que viram ali a oportunidade, toca de abrir universidades privadas e cursos em universidades públicas para dar resposta às necessidades do mercado de trabalho, cursos esses de dois calibres. Um, de tendência mais profissional, “Curso de Alhos e Cebolas”, para explicar apenas e tão só o sistema de navegação nacional e mais umas cadeiras de Matemática Aplicada pelo meio. Outros, mais honestos, “Curso de Bombordo e Estibordo”, que incluía a cadeira “Alhos e Cebolas” para explcar a relação entre o bombordo e o estibordo e o sistema de navegação nacional e aproveitando à mistura para meter umas cadeiras de Relações Internacionais que havia muitos doutorados no desemprego.
Veio novo recrutamento para a armada depois do restauro e o Comandante, que era velha escola, achou que os licenciados, doutores em Alhos e Cebolas ou Bombordo e Estibordo, eram, em ambos os casos, demasiado qualificados para o lugar de marujos e voltou a recorrer às empresas que trabalho temporário que desataram a meter gente que dizia que sabia o que era bombordo e estibordo mas não fazia a mínima ideia. Mais uma vez, a armada não saiu do porto.
O Rei já andava pelos cabelos mas entretanto já se tinham passado trinta anos desde o início do projecto e o Almirante (que tinha sido promovido por antiguidade ao serviço) já estava velhinho e acabou por morrer sem se reformar. Foi a oportunidade de sua Sereníssima Majestade culpar o funcionalismo público pela ineficiência da Armada Inamovível e vai dái, zás, mete lá um boy da sua confiança política e o cargo deixa de ser um cargo público para ser um cargo de “mérito”.
O novo Comandante, que o boy nunca chegou a passar por Capitão, não só não sabe o que é bombordo nem estibordo nem o que é alhos e cebolas, como logo se depara com a evidência de que o velho Almirante não tinha deixado indicações para onde se queria ir afinal (que o Almirante, como se disse, achava abaixo do seu nível deixar explicações escritas ou outras, porque “um cargo de chefia é para ser obedecido e não para dar explicações”, dizia ele, quando a verdade é que não sabia escrever à máquina e nunca tinha visto um computador à frente mas não gostava de admitir que tinha de se modernizar porque isso era “degradante para o prestígio da carreira”), e o novo Comandante, como se dizia atrás, ficou sem saber o que estava ali a fazer. Mas não o podia admitir, porque o Rei pressupunha que ele sabia para onde se queria ir e, afinal, era um cargo de confiança política, por isso fingiu que sabia e calou-se muito caladinho. E quando lhe vieram perguntar, “Excelência, bombordo ou estibordo?”, ficou a olhar para os oficiais do momento como um burro para um palácio, e quando um deles trocou por miúdos “Alhos ou cebolas?” o homem foi mesmo aos arames e toca de despedir os dois. Depois de despedidos, perguntou aos restantes “Para onde?”, que eles “já lá estavam há tempo suficiente para saber”, e os desgraçados, não querendo ter o mesmo fim, disseram o que primeiro lhes veio à cabeça. Mas como não conversavam entre eles temendo ser traídos pelas costas, e já não havia sindicatos nem o raio que o parta porque era o salve-se quem puder, desataram também a fazer o erro dos anteriores e a gritar no convés: “alhos” para um lado e “cebolas” para o outro.
Os navios chocavam e a armada não saía do porto.
Nova vaga de despedimentos, em que se incluiram os oficiais acima (não escaparam), porque o boy queria apresentar serviço e parecer eficiente e para isso tinha culpar alguém.
Mas como também não era completamente parvo, lá decidiu meter gente nova e contratar uma empresa de formação para explicar, mais uma vez, aos marujos, o sistema de alhos e cebolas. A primeira coisa que o formador fez, porque era um chico esperto que também não sabia o que eram os alhos e as cebolas, foi abrir os sacos porque, pensou ele, bastava abrir os sacos para saber onde estava o quê! Esperto! Só que não resultou. Tinham-se passado tantos anos que quando o inteligente abriu os sacos só lá estava pó. Mas chico esperto como era, que nisto os portugueses são de facto imbatíveis, toca de arranjar uma solução provisória que era escrever num papel “alhos” e noutro papel “cebolas” para substituir os sacos e chamou ao procedimento “adaptação às novas realidades do mundo tecnológico da autoestrada da informação”.
Houve logo um formando (que podia ser eu) que simplesmente perguntou “mas se alhos e cebolas estão a substituir bombordo e estibordo e se se vai escrever num papel, porque não se escreve logo bombordo e estibordo e se esquece os alhos e as cebolas?”. Ideia genial. Erro fatal. Logo o formando (que podia ser eu) foi dispensado por 1) precisar de um papel para saber o que era bombordo e estibordo; 2) desrespeito à autoridade; 3) inadequação ao lugar; etc. E perguntaram os familiares e amigos ao formando (que podia ser eu) “Mas porque é que tiveste de fazer a pergunta?!”, e responde o formando “Mas eu só pensei...”, e interrompem os amigos e familiares: “Mas porque é que tiveste de pensar?!”. Não que a perda fosse grande para a armada, porque este formando não sabia a diferença entre bombordo e estibordo (como, aliás, ninguém sabia, e era essa a origem do problema, e o único que sabia era o Almirante e já tinha morrido) e que a perda fosse grande para o formando porque este não era nada parvo e percebeu claramente que daquela armada ninguém saía vivo.
E de facto foi uma questão de tempo até que o formador fosse também dispensado, e nova leva de gente que não sabia o que eram as cebola e os alhos foram contratados, só que desta vez eram os filhos dos agricultores que nunca tinham visto nem um alho nem uma cebola à frente em toda a vida, e para eles alhos e cebolas e bombordo e estibordo era tudo a mesma merda desde que lhes pagassem porque não valia a pena pensar mais nisso e quem pensava muito não aquecia o lugar.
E mais uma vez a armada não saiu do lugar e não foi a lado nenhum.

A epopeia podia continuar mas a partir daqui repete-se. Sai um boy, entra outro boy, muda o Rei, mudam os boys, e continua tudo sem saber onde estão as cebolas e os alhos, já nem se fala em bombordo e estibordo, e o novo Rei já nem sabe para onde o antecessor queria ir. A armada tornou-se de facto invencível.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

O regresso do Rei



The Sisters of Mercy
Lisboa, Coliseu
5 de Abril de 2006

Eu também cá quero disto

Notícia fornecida através de um membro do fórum (obrigada!!!).

Padre inglês celebra missas ao som de bandas góticas

Um padre inglês celebra missas em Cambridge ao som de bandas góticas como os Sisters of Mercy, noticia a imprensa local.


O reverendo Marcus Ramshaw, de 34 anos, confessa-se um gótico e decidiu celebrar alguns serviços ao som de alguns nomes do movimento musical surgido nos anos 80.

As missas góticas são celebradas na Igreja St Edward King and Martyr à luz de velas e incluem uma liturgia escrita especificamente para a ocasião.

Além dos Sisters of Mercy, a banda sonora do serviço religioso é fornecida por nomes como os Joy Division ou os Depeche Mode.

«O objectivo da missa é frisar que todos desesperamos por vezes, todos sofremos revezes e, por vezes, a vida parece sem esperança. A missa gótica restabelece uma ligação: Deus continua a apoiar-nos mesmo se estamos cegos», explica o clérigo.

19-01-2006


http://diariodigital.sapo.pt/disco_digital/news.asp?section_id=2&id_news=17279

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

"A paixão de Cristo", filme, de Mel Gibson, 2004



20 em 20.

(Na imagem, Rosalinda Calentano, "Satanás")

Os miseráveis e os miseráveis

Há dois tipos de miseráveis:

Os miseráveis que passam fome.
Os miseráveis que fazem os outros passar fome.

Acontece na vida de algumas pessoas ter de escolher entre os dois. É nesse momento que se lhes mede a têmpera.


(Post para gáudio dos que têm muito a perder por alguém que não tem nada a perder. Riam-se por dentro, se faz favor.)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

O meu maior defeito é a honestidade. É uma honestidade tão brutal que se lê nos meus olhos, por isso não me adianta manter a boca fechada.
O meu segundo maior defeito é ser uma pessoa séria.
O meu terceito maior defeito é não conseguir esconder os dois primeiros.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Fui despedida. Razão "não me adequar às funções". As funções eram cobranças pelo telefone e parece que eles pensavam que eu não era suficientemente agressiva. (Quem me conhece melhor poderá avaliar como são os outros...)
Nunca cheguei a perceber o que raio eles queriam, e tenho sérias dúvidas de que eles próprios saibam o que querem e como o atingir. Mas esse é um mal geral.


Entrada atrasada: No domingo, dia 29 de Janeiro, vi neve cair pela primeira vez. Não teria visto se não tivesse ido trabalhar, mas por acaso pediram-me para fazer horas extras. (Nessa altura estava "adequada".) Então começou a chover e de repente disseram-me que estava a nevar, e eu coloquei o chapéu de chuva de parte e de facto não me molhava. Caíam pedaços de neve na minha camisola preta. Eu estava boquiaberta. Aqui na rua, aqui em Lisboa. Um assombro infantil invadiu-me. Teria ficado mais tempo a ver se não estivesse mal preparada para o frio, e de dedos gelados não tive outra alternativa senão meter-me em casa ao lado do aquecedor.
Foi pena durar tão pouco. Agora gostava de ver mais neve.