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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Massa amorfa

O Fernando, dos blogs Angústias de um Professor (Actualmente fechado ao público) e Um Piano na Floresta, é comentador aqui há muitos anos e um blogger que respeito e aprecio. Deixou o seguinte comentário no meu post A geração que matou Abril, que eu acho digno de uma resposta mais alargada.

Tinha 3 anos em 1974 e entrei na Universidade em 1990 e, mesmo assim, fizeste-me sentir culpado... Sabes, gostava de ter mais alunos/as como tu, mas, em vez disso, apanho com a massa amorfa que essa geração que tanto criticas educou.


As gerações mais novas não me parecem uma massa amorfa. Ao contrário da visão negativa que os filhos dourados do 25 de Abril têm da "concorrência" mais nova (até nos chamam Calimeros), vou ter de repetir o chavão feliz de que não é uma "geração rasca" mas tão só uma "geração à rasca".
Ainda há pouco tempo ouvi o Eduardo Catroga (ministro das Finanças do governo de Cavaco Silva) num excelente programa de economia que dá às quintas-feiras na RTP2 pronunciar uma grande verdade, tão grande quanto terrível: é a primeira vez em muitas décadas que a geração mais nova não vai ter hipótese de viver melhor do que a geração anterior.
Nunca gostei muito do homem, até porque também se prestou ao seu papel na quadrilha, mas quando os programas têm fraca audiência até os hipócritas se descaem com as verdades.
É um facto. A geração depois da minha, entre os 18 e os 30 anos, já homenzinhos e mulherzinhas, sabem muito bem o que os espera. Já não acreditam em lirismos e em lutas. É fácil para os filhos dourados de Abril os culparem por não lutarem pelos seus direitos, mas a verdade é que se esgotaram as formas democráticas de lutar. Encaremos os factos. Os empregos são escassos e mais escassos ficarão à medida que a economia atrofia. Os sindicatos não têm poder nem já lhes interessa mobilizar os trabalhadores (até vieram propor, com toda a lata, que todos os contribuintes sem excepção os financiem). Os grupos económicos detêm todo o poder. Esta geração já não tem emprego. Vai tendo trabalho, precário, rotativo, até não remunerado. Por enquanto, quem financia isto são os mesmos filhos dourados de Abril que vão pagando as contas aos meninos (desde a universidade, ao carro, à casa) dos seus próprios salários. Ou seja, não estão a preparar uma nova geração, estão a adiar o caos. Quando forem finalmente postos na rua ou reformados com uma pensão miserável, perceberão no bolso a sociedade que sustentaram. Uma sociedade de mal pagos que não ganha para os sustentar na velhice. Tudo se paga e a factura não tarda.
Lutar nos tribunais? Pode um precário ir para um tribunal processar uma empresa que utilizou o seu trabalho durante seis meses ou um ano (ou mais, como eu conheço casos) sem lhe pagar um tostão, e no fim não o admitiu (e isto acontece no próprio Estado)? Anedótico. Primeiro, porque foi o jovem que se sujeitou a tal estágio, aliciado com promessas de talvez ficar, de ganhar currículo, de melhorar as possibilidades de emprego no futuro. Segundo, porque a justiça está estrangulada.
Que outras formas de lutar? A desilusão para com a política é generalizada. O pensamento reinante é "são todos iguais". E, se virmos bem, até são mesmo. Em vez de votar à esquerda e à direita e mudar as moscas, até já não votam. Diga-se de passagem, as moscas não mudam. Ainda no outro dia li um testemunho de um jovem de uma juventude partidária que confessava que as "jotas" só querem os voluntários para colar cartazes e fazer barulho. Depois da eleição, os cargos propriamente ditos vão para os filhos dos que já lá estão.
É assim. Parece ser o nosso triste fado. De Valentim Loureiro a João Loureiro. De Mário Soares a João Soares. Do avô de Manuela Ferreira Leite a Manuela Ferreira Leite.
As gerações mais novas não são estúpidas, ao contrário do que se pensa. Estúpido é quem pensa que são.
Amorfas, apáticas? E como não? Qualquer criatura jovem com dois dedos de testa sabe que a única saída é emigrar. E emigram mesmo. Haja saúde de ferro e um bocadinho de ajuda lá fora (família emigrada desde os anos 60 que nunca pensou voltar à tradição das "cartas de chamada"), e lá partem eles para a França, o Luxemburgo, a Suíça, o Reino Unido, e até a Espanha. Aliás, a emigração em Espanha é maior do que se pensa porque há muita gente a trabalhar lá e a vir passar o fim de semana a casa. Não deixa de ser um fenómeno sociológico curioso. Haverá já sociólogos, daqueles com lugar cativo nas cátedras das faculdades, a investigar o tema? Duvido muito. As universidades dependem do governo e o governo não vai disponibilizar dinheiro para fazer má figura.
Viram-se, sim, os emigrantes, na Suíça, a apoiar a selecção de futebol. Só não viu quem não quis. Aí está a juventude que não é amorfa, que teve oportunidade de se pôr a andar, sabe-se lá com quanto sacrifício e sonhos desfeitos. Aqueles não são os filhos dos emigrantes. Aqueles são os novos emigrantes. Aqueles não são a segunda geração. Aqueles são a nova primeira geração. De avô a neto, saltou os pais e retorna aos filhos.
Quem fica, porque não pode partir devido à idade, ou pobreza extrema, ou saúde, ou família, só pode ser amorfo. Por alguma razão os portugueses se encharcam de anti-depressivos.
Mas estou a chover no molhado. Vou antes dar um bom exemplo. Na cena gótica eu já sou uma velha cota e lido de perto com as gerações mais novas. Sem apoios, nem subsídios, nem calimerices, vão organizando as suas festas a uma dimensão que já tem fama a nível europeu, se não internacional. Como? Organizando-se para o o objectivo comum. Actuando numa área em que ninguém lhes pode cortar as pernas nem há lugares cativos. Aprendendo com o estrangeiro. Querem, podem, e fazem. Simples quanto isso. Do pequeno se faz grande.
A geração que é amorfa aqui depressa se torna notável lá fora. Curioso, não? E parece que o fado se repete geração após geração. Excepto, claro está, para os filhos dourados de Abril a quem deram uma cadeira. Essa cadeira é podre. Não se sentem nela. Acima de tudo, não se acomodem muito. Não tarda que ela se esfrangalhe e ainda partem o cóccix.

Voltando ao comentário do Fernando, não posso deixar passar um tema que lhe é caro (e a mim) e que é a Educação. Não, a culpa da bandalheira não pode ser atribuída aos filhos dourados de Abril. Esses já apanharam as coisas assim quando lá chegaram (os que chegaram). Neste país de curta memória aponta-se a União Europeia como motivo para os sucessivos governos terem baixado o nível a um ponto que se sai da escola sem se saber ler nem escrever. Errado. Erradíssimo. A bandalheira começou muito antes.
Depois do 25 de Abril, por reacção exagerada ao regime anterior, riscou-se da educação qualquer vestígio de rigor. Na década de 70, a anos luz da CEE, adoptou-se a ideia revolucionária de que não eram os alunos que eram burros, os professores é que eram maus. De modo que não podia haver maus alunos. Todos tinham que passar.
Estava eu na primeira classe, em 1978, puseram um atrasado mental na turma. Experiência primeira de muitas de um eduquês que actualmente mostra os frutos da sua aberrância. Este atrasado mental, com traços acentuados de mongolóidismo, mal sabia falar. Pensou-se então em juntá-lo aos normais para ver se evoluía (também fizeram uma experiência assim com uma criança e um chimpanzé). Resultado, não sabia desenhar um "A", nem sabia o que era um "A", mas passava as manhãs aos gritos, a agredir os colegas das carteiras mais próximas, riscando-lhes os papéis, atirando as coisas ao chão. Era de facto um aluno com necessidades especiais. Necessitava de um colete de forças e de um Valium. Nesse tempo ainda servia a régua de madeira da professora que tinha o dom terapêutico de o acalmar enquanto a mão doía. Depois esquecia-se e voltava ao mesmo. Actualmente parece que já não é assim. Já não se tenta sequer pô-los a desenhar o "A". Dá-se-lhes logo a escolaridade obrigatória. Pois não, meus amigos, isto não tem nada a ver com fazer boa figura perante a CEE mas com certas ideias deturpadas de vítimas de um regime demasiado rígido que quiseram à força garantir que todos os alunos eram iguais.
Os filhos dourados de Abril não passaram por isto. Nem sabem o que é isto.
Outro exemplo. Na segunda classe, eu já tinha conhecimentos suficientes e maturidade intelectual para passar directamente para a terceira, aliás, como se fez durante anos e se faz em sociedades em que a Educação é levada a sério. No meu ano, já não deixaram. "É preciso deixar as crianças brincar", era o lema. Como se eu estivesse interessada em brincar. E disse-lhes, mas já não deixaram. Portanto, meus amigos, o eduquês não começou agora. E o cancro na Justiça apareceu brioso logo assim que se fez uma revolução anti-fascista e não se julgou ninguém. Esses erros, porque pagamos gravemente hoje, não são culpa dos filhos mas dos pais de Abril.
A culpa dos filhos é não conseguirem compreender as dificuldades porque passaram as gerações anteriores e porque passam as mais novas.
A mim, que não sou amorfa, mas estou de tal modo de pernas e mãos atadas para fazer mais do que isto que o pareço, resta-me usar todos os meios ao meu alcance para ensinar às gerações mais novas o que precisam de aprender e não lhes ensinam em casa nem na escola nem na igreja: a fraternidade.
(Diga-se o que se disser, foi a igreja que durante séculos cumpriu esse papel, certamente mais mal do que bem, mas actualmente esse lugar ficou vago, à mercê de outras seitas e novas religiões ainda mais predatórias.)
O que é a fraternidade, perguntam os mais novos? A fraternidade é eu preocupar-me com o vosso futuro. A fraternidade é eu preocupar-me com o vosso futuro mesmo que eu já não tenha futuro.

Não, Fernando, não me parece que tenhas culpas. O sistema já estava montado. Fazes o papel que te permitem tal como eu faço o meu. Não há espaço de manobra para mais e por isso se sufoca. Não estão amorfos, estão amarrados.
De que te queixas, Fernando? De que as gerações mais novas não votam? Para quê? De que não lêem? Até lêem, e cada vez mais, mas só o que lhes interessa. Ler mais para quê? Acaso isso lhes vai garantir um futuro? Não sabem escrever, é certo. E porque haviam de o fazer? Acaso lhes arranja emprego? Mais vale aprenderem logo francês e inglês, para se integrarem melhor nos países de destino. Não sabem matemática? E para que haveriam de saber? Para tirarem um curso científico, fazerem um mestrado lá fora e voltarem para o país a trabalhar numa caixa de supermercado ou como operador de registo de dados? As máquinas do tio Belmiro até dizem qual é o troco.
A Educação tornou-se uma carolice. É irrelevante que português se escreve no telemóvel. Os empregos são para quem tem cunhas, saiba ou não saiba ler.
E depois disto, admiras-te que a massa pareça amorfa? Eu não. Mas sei que não são. O tempo da massa amorfa veio e foi. Actualmente é preciso estar triplamente vivo para sobreviver, coisa que a massa amorfa vai perceber no dia de luto e ranger de dentes.

Gostei muito deste bocadinho.

terça-feira, 30 de maio de 2006

A machadada final

E foi a machadada final no mérito. Pais a avaliar professores. Pais ignorantes, iliterados, quase analfabetos, sem educação e sem maneiras, que tudo o que precisam de fazer para ser pais é dar uma queca, a avaliar profissionais que no mínimo tiveram que tirar um curso para exercer a profissão.
É o fim, é mesmo o fim.

Ouvir a ministra da Educação dizer sem um pingo de vergonha uma barbaridades destas, que a "distribuição das melhores turmas aos melhores professores" é uma má medida, é cuspir na cara dos bons alunos e premiar os piores. Já agora, porque não realiza de uma vez por todas o sonho da burrocracia?

Que se dêem as notas ao contrário. Que passem os burros. Que chumbem os bons alunos.

É imperativo, é urgente, é necessário!!! mandar óvulos para Espanha! Óvulos para Espanha já e em força! E não só para Espanha, para a Europa toda! Pela educação das nossas crianças, pô-las fora de Portugal já!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Os alhos e as cebolas e a invencível armada

Ouvi dizer, não me lembro a quem nem porquê, que o empreendorismo português na época dos Descobrimentos teve os seus aspectos caricatos. Para as naus foram contratados agricultores do Portugal profundo que não sabiam a diferença entre bombordo e estibordo. Os capitães das naus encontraram uma solução peculiar. Penduraram de um lado um saco de alhos e de outro um saco de cebolas e em vez de dizerem “para estibordo” ou “para bombordo” diziam simplesmente “alhos” e “cebolas”.
Não sei se esta história é facto ou lenda mas reconheço-lhe todo o mérito por funcionar.

Imaginemos agora esta solução aplicada à realidade actual. Feitas as naus e pronta a armada a zarpar, contrataram-se os tais agricultores das Beiras (vulgo Berças) para “marinheiros” e adoptou-se o saco de cebolas e o respectivo saco de alhos. Mas agora havia um problema com que o Capitão da armada não contou de antemão. Havia concorrência internacional e o caminho marítimo para a Índia já era percorrido por navios de todos os países. Não que a concorrência preocupasse o Capitão porque só lhe interessava fazer o que lhe foi dito e levar a armada ao porto. Isso da concorrência e do lucro passava-lhe ao lado porque era um funcionário zeloso e fazia o que lhe mandavam. Mas a grande chatice é que a navegação internacional utilizava os termos “bombordo” e “estibordo” e à pala disso quase afundou os navios num embate com os pesqueiros espanhóis logo à saída do porto. Decidiu-se, então, que era “preciso fazer qualquer coisa”.
A solução foi culpar os marinheiros pelo acidente, visto serem mão de obra não preparada, e despedi-los em massa ou arranjar-lhes reformas antecipadas. Alguns, amigos do Capitão, não foram despedidos (não por saberem o que era bombordo e estibordo mas por conviverem socialmente com o Capitão e esposa e filhos e cão), e foram em vez disso promovidos a supervisores dos que haviam de vir substituir os outros.
Contratou-se uma agência de trabalho temporário que colocou este anúncio de acordo com o que foi pedido:

“Precisa-se marinheiros, robustez física, espírito de inciativa, proactividade, bla bla bla, e que saibam distinguir bombordo de estibordo.”

Ora, escusado, porque já se sabia (ou devia saber-se) que ninguém sabia o que era bombordo e estibordo. Foi aí que todo o problema começou. Mas o Capitão achou bem e entretanto foi promovido, por acumulação de anos de serviço, a Comandante da armada.

Como ninguém sabia o que raio era bombordo e estibordo, mas as pessoas precisam de trabalhar porque isto está mau, a tal agência foi inundada de currículos e cartas a assegurar que os candidatos sabiam o que era bombordo e estibordo. Assim que chegavam ao navio, era-lhes ensinado pelos tais supervisores (que também não sabiam o que era bombordo e estibordo) o sistema dos alhos e das cebolas e as manobras para zarpar do porto lá prosseguiam.
Mas os supervisores não conseguiam disfarçar a incompetência porque o Comandante continuava a falar em bombordo e estibordo e eles não sabiam para que lado era e então interpretavam “alhos” e “cebolas” conforme entendiam. Inclusivamente, contradiziam-se entre eles, e os navios queriam sair do porto mas chocavam entre eles e não arredavam dali.
Furioso, o Comandante manda os amigos à merda (porque já tinha o Rei em cima dele a exigir resultados), despede-os, arranja novos supervisores desta nova leva de alhos e cebolas e despede os restantes (só para não dizer que não havia ninguém competente, porque de facto não havia, mas não se podia dar essa impressão porque se assim fosse a culpa era da liderança e não do pessoal e era mau para o Comandante).
Veio logo um gajo novo que sugeriu que o Comandante desse formação aos recém contratados, explicando-lhes de uma vez por todas o que era bombordo e estibordo. Este gajo foi logo despedido, à desculpa de que não tinha habilitações para o lugar (como se alguém tivesse) por ter dado uma boa ideia, boa ideia essa que o Comandante se estava cagando para seguir porque não era próprio da sua patente ir lá abaixo ao convés explicar aos marujos o que era bombordo e estibordo, por isso continuou-se com o sistema de alhos e cebolas.
Mas o Comandante não era parvo nenhum (porque para chegar a Comandante é preciso alguma esperteza) e encomendou um estudo a dizer o que o gajo despedido tinha dito, e que era preciso formação sim senhor, e o Rei lá abriu os cordões à bolsa e veio uma equipa de peritos internacionais dar formação, não aos gajos que já estavam contratados que esses acabaram por ir para o olho da rua, mas a todos aqueles que tiveram a informação de que a formação valia a pena. Os seleccionados para a formação foram os filhos de boas famílias amigas do Comandante, gente que subornou tudo pelo caminho e, lá pelo meio, para não dar muito nas vistas e haver um exemplo positivo para divulgar no reino, um gajo qualquer que até tinha boas notas e conseguiu uma bolsa de estudo.
Os peritos internacionais ensinaram não só o que era bombordo e estibordo como, com infinita paciência, explicaram aos formandos que uma janela redonda num navio se chama escotilha e que aquilo que eles estavam a ensinar se chamava Navegação Marítima e não “Curso de Bombordo e Estibordo”.
Assim que se apanharam com uma certificação profissional, os formandos foram contratados pelas armadas estrangeiras. E isto por várias razões. A primeira é que quando os portugueses são bons são mesmo muito bons. A segunda e determinante, porém, foi que tinham possibilidades de progredir numa carreira a sério, ao contrário dos teatrinhos de faz de conta da armada que teimava em não sair do porto. Por esta altura, a armada tomou a alcunha de “Armada Invencível”, não por ser muito boa mas por ser inamovível.
E os anos passavam e os navios precisavam de ser reparados, então toca de arranjar imigrantes para os arranjar porque se achava que os marujos dos navios eram demasiado qualificados para fazer esse trabalho (porque, lá está, sabiam o que eram alhos e cebolas) de modo que foram despedidos e a expedição ficou em águas de bacalhau durante alguns anos à pala dos subsídios de restauro que ninguém mais recebeu senão o Comandante (e foi logo comprar um iate pessoal como “despesa de formação profissional” para não se esquecer do que era bombordo e estibordo que um homem também não se pode lembrar de tudo).
Entretanto, alguns espertalhões que viram ali a oportunidade, toca de abrir universidades privadas e cursos em universidades públicas para dar resposta às necessidades do mercado de trabalho, cursos esses de dois calibres. Um, de tendência mais profissional, “Curso de Alhos e Cebolas”, para explicar apenas e tão só o sistema de navegação nacional e mais umas cadeiras de Matemática Aplicada pelo meio. Outros, mais honestos, “Curso de Bombordo e Estibordo”, que incluía a cadeira “Alhos e Cebolas” para explcar a relação entre o bombordo e o estibordo e o sistema de navegação nacional e aproveitando à mistura para meter umas cadeiras de Relações Internacionais que havia muitos doutorados no desemprego.
Veio novo recrutamento para a armada depois do restauro e o Comandante, que era velha escola, achou que os licenciados, doutores em Alhos e Cebolas ou Bombordo e Estibordo, eram, em ambos os casos, demasiado qualificados para o lugar de marujos e voltou a recorrer às empresas que trabalho temporário que desataram a meter gente que dizia que sabia o que era bombordo e estibordo mas não fazia a mínima ideia. Mais uma vez, a armada não saiu do porto.
O Rei já andava pelos cabelos mas entretanto já se tinham passado trinta anos desde o início do projecto e o Almirante (que tinha sido promovido por antiguidade ao serviço) já estava velhinho e acabou por morrer sem se reformar. Foi a oportunidade de sua Sereníssima Majestade culpar o funcionalismo público pela ineficiência da Armada Inamovível e vai dái, zás, mete lá um boy da sua confiança política e o cargo deixa de ser um cargo público para ser um cargo de “mérito”.
O novo Comandante, que o boy nunca chegou a passar por Capitão, não só não sabe o que é bombordo nem estibordo nem o que é alhos e cebolas, como logo se depara com a evidência de que o velho Almirante não tinha deixado indicações para onde se queria ir afinal (que o Almirante, como se disse, achava abaixo do seu nível deixar explicações escritas ou outras, porque “um cargo de chefia é para ser obedecido e não para dar explicações”, dizia ele, quando a verdade é que não sabia escrever à máquina e nunca tinha visto um computador à frente mas não gostava de admitir que tinha de se modernizar porque isso era “degradante para o prestígio da carreira”), e o novo Comandante, como se dizia atrás, ficou sem saber o que estava ali a fazer. Mas não o podia admitir, porque o Rei pressupunha que ele sabia para onde se queria ir e, afinal, era um cargo de confiança política, por isso fingiu que sabia e calou-se muito caladinho. E quando lhe vieram perguntar, “Excelência, bombordo ou estibordo?”, ficou a olhar para os oficiais do momento como um burro para um palácio, e quando um deles trocou por miúdos “Alhos ou cebolas?” o homem foi mesmo aos arames e toca de despedir os dois. Depois de despedidos, perguntou aos restantes “Para onde?”, que eles “já lá estavam há tempo suficiente para saber”, e os desgraçados, não querendo ter o mesmo fim, disseram o que primeiro lhes veio à cabeça. Mas como não conversavam entre eles temendo ser traídos pelas costas, e já não havia sindicatos nem o raio que o parta porque era o salve-se quem puder, desataram também a fazer o erro dos anteriores e a gritar no convés: “alhos” para um lado e “cebolas” para o outro.
Os navios chocavam e a armada não saía do porto.
Nova vaga de despedimentos, em que se incluiram os oficiais acima (não escaparam), porque o boy queria apresentar serviço e parecer eficiente e para isso tinha culpar alguém.
Mas como também não era completamente parvo, lá decidiu meter gente nova e contratar uma empresa de formação para explicar, mais uma vez, aos marujos, o sistema de alhos e cebolas. A primeira coisa que o formador fez, porque era um chico esperto que também não sabia o que eram os alhos e as cebolas, foi abrir os sacos porque, pensou ele, bastava abrir os sacos para saber onde estava o quê! Esperto! Só que não resultou. Tinham-se passado tantos anos que quando o inteligente abriu os sacos só lá estava pó. Mas chico esperto como era, que nisto os portugueses são de facto imbatíveis, toca de arranjar uma solução provisória que era escrever num papel “alhos” e noutro papel “cebolas” para substituir os sacos e chamou ao procedimento “adaptação às novas realidades do mundo tecnológico da autoestrada da informação”.
Houve logo um formando (que podia ser eu) que simplesmente perguntou “mas se alhos e cebolas estão a substituir bombordo e estibordo e se se vai escrever num papel, porque não se escreve logo bombordo e estibordo e se esquece os alhos e as cebolas?”. Ideia genial. Erro fatal. Logo o formando (que podia ser eu) foi dispensado por 1) precisar de um papel para saber o que era bombordo e estibordo; 2) desrespeito à autoridade; 3) inadequação ao lugar; etc. E perguntaram os familiares e amigos ao formando (que podia ser eu) “Mas porque é que tiveste de fazer a pergunta?!”, e responde o formando “Mas eu só pensei...”, e interrompem os amigos e familiares: “Mas porque é que tiveste de pensar?!”. Não que a perda fosse grande para a armada, porque este formando não sabia a diferença entre bombordo e estibordo (como, aliás, ninguém sabia, e era essa a origem do problema, e o único que sabia era o Almirante e já tinha morrido) e que a perda fosse grande para o formando porque este não era nada parvo e percebeu claramente que daquela armada ninguém saía vivo.
E de facto foi uma questão de tempo até que o formador fosse também dispensado, e nova leva de gente que não sabia o que eram as cebola e os alhos foram contratados, só que desta vez eram os filhos dos agricultores que nunca tinham visto nem um alho nem uma cebola à frente em toda a vida, e para eles alhos e cebolas e bombordo e estibordo era tudo a mesma merda desde que lhes pagassem porque não valia a pena pensar mais nisso e quem pensava muito não aquecia o lugar.
E mais uma vez a armada não saiu do lugar e não foi a lado nenhum.

A epopeia podia continuar mas a partir daqui repete-se. Sai um boy, entra outro boy, muda o Rei, mudam os boys, e continua tudo sem saber onde estão as cebolas e os alhos, já nem se fala em bombordo e estibordo, e o novo Rei já nem sabe para onde o antecessor queria ir. A armada tornou-se de facto invencível.