quinta-feira, 24 de julho de 2008

A Sara já foi operada!

A Sara já foi operada!

Os velhos pobres

Tenho-me vindo a aperceber que cada vez menos gente escreve sobre a situação do país. A ausência de opinião levaria um observador abstraído, por exemplo, um estrangeiro, a imaginar que nos últimos dois, três anos, os bloggers se têm calado porque as coisas entretanto melhoraram. Não é assim. Pelo contrário, já chegámos ao ponto em que toda a gente com um bocadinho de inteligência já disse tudo o que havia para dizer e até já desistiu de voltar a explicar o óbvio.
Resta-nos, portanto, comentar as notícias que vão surgindo a público. Saliento o "a público" porque muitas destas notícias não são notícias para quem as recebe e algumas vão chegando com 10 anos de atraso, mas dos nossos jornais e televisões não se espera mais do que aquilo que os donos os deixam dizer.

Notícia impressionante foi aquela de que se chegou à brilhante conclusão de que 35% dos pobres têm emprego, isto é, que 35% das pessoas que trabalham são pobres. Chamam-lhes até "os novos pobres".
Se há novidade, é os pobres que trabalham serem tão poucos. Eu ainda sou do tempo em que toda a gente que trabalhava era pobre. Do merceeiro ao polícia, do professor ao empregado dos correios. Os únicos que se safavam bem eram os médicos e mesmo assim eram pagos em galinhas e chouriças. Se houve alguma diferença, entre esses tempos que eram os anos 70 e a euforia dos anos 80, em que as pessoas acharam que se trabalhassem tinham dinheiro para comprar casa e carro e gasolina e roupa e comida e férias, foi a mais pura ilusão. Não são novos pobres. São pobres que tiveram a esperança de o deixar de o ser. E não são 35 por cento com toda a certeza, mas mais provavelmente o dobro. Somando os "pobres de longa duração", isto é, aqueles que viram passar os anos 80 e ficaram na mesma porque a família era demasiado pobre para que a banca lhes concedesse um empréstimo (sem fiador nada feito), vamos em que percentagem exactamente? Tenho a impressão de que só saberemos os números daqui por mais dez anos. Assim um pouco a mesma coisa que acontece quando vemos o documentário do António Barreto sobre Portugal, no século XXI, e sabemos pela primeira vez quanta gente realmente passava fome nos anos 60. Do merceeiro ao polícia, do professor ao empregado dos correios. Os únicos que se safavam bem eram os médicos e mesmo assim eram pagos em galinhas e chouriças.
Vira o disco e toca o mesmo. Nada disto vem nos jornais nem nas televisões.

Eu numa lista

Há algum tempo li num blog uma lista chamada "Os livros que me fizeram a cabeça" e fiquei cheia de inveja. Fiquei cheia de inveja porque o autor conseguiu fazer a lista (e já agora, era uma lista impressionante). Comecei a ensaiar fazer uma lista para mim e esbarrei num obstáculo tão inesperado como frustrante: mesmo que quisesse, não me lembraria (e em alguns casos não admitiria de livre vontade).
Mesmo assim, decidi fazê-la por duas razões. Primeiro, para me não me esquecer do que não me esqueci. Segundo, porque algumas pessoas me têm feito perguntas sobre as minhas referências. Ora aqui estão elas.
Por uma questão de método, decidi fazer a lista não ordem alfabética mas, mais difícil ainda, pela cronologia aproximada em que entrei em contacto com a fonte. No caso dos livros, deixei de fora tudo aquilo que não li pessoalmente. No caso dos filmes, às vezes importa mais um nome ou um estilo do que um título em especial. No caso da música, então, tornou-se tão complicado listar tudo que o título só aparece se for único.
Logo, esta lista é não apenas incompleta mas também injusta. Incompleta porque Platão e George Orwell, só para dar dois exemplos, não estão contemplados, o que não quer dizer que os seus pensamentos não me sejam familiares. E no caso em que um livro se tornou um filme decidi citar o que me fez mais impressão, se não ambos.
Esta lista estará em permanente actualização. Espero que seja útil.


Livros e autores que me marcaram

Hans Christian Andersen
Selecções Reader's Digest "Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico"
A Bíblia
Aventuras de "Astérix", BD
Florbela Espanca, sonetos
Bram Stoker, "Dracula"
Léon Bloy, "A Mulher Pobre"
Mary Shelley "Frankenstein"
Boris Vian
Franz Kafka
Colecção série B, editora Estampa
Edgar Allan Poe, contos
Marion Zimmer Bradley "As Brumas de Avalon"
Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos"
Anne Rice, Vampire Chronicles
J. R. R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis"
H. P. Lovecraft, contos


O jornal
Blitz (Saía às 3ªs feiras e era o nosso único contacto, em português, com a imprensa alternativa.)


Filmes que foram fazendo mossa

A Noite dos Mortos Vivos
The Haunting
O Exorcista
Aliens
David Lynch (realizador)
todos os filmes de terror dos Hammer Studios e filmes de terror e ficção científica série B dos anos 50, 60 e 70, como "Godzilla" ou "A mosca"
Lost Boys
David Carpenter (realizador)
The Doll Maker
Uma Paixão no Deserto
A Lista de Schindler
A vida é bela
Entrevista com o Vampiro (filme)
Queen of the Damned (filme)
Os Outros


Séries que de facto me fizeram pensar

Twin Peaks
The X-Files
Lost


Música (caso não especificado, entenda-se "tudo ou quase")

anos 60
The Doors (por motivo de ter nascido depois da morte de Jim Morrison, só conheci nos anos 80)

anos 70
Não havia música nos anos 70.

anos 80
All About Eve
Bauhaus
B52's, "Bouncing of the Satelites"
Christian Death
Dead Can Dance
Depeche Mode
Echo & the Bunnymen
Fields of the Nephilim
Golden Palominos
Joy Division
Le Mystère des Voix Bulgaires
Mão Morta
Miranda Sex Garden, "Fairytales of Slavery"
Nick Cave & the Bad Seeds
Paradise Lost, "One Second"
Peter Murphy
PJ Harvey
Red Lorry Yellow Lorry
Rubicon
Sinéad O'Connor, "The Lion and the Cobra"
Siouxsie & The Banshees
The Cult / Death Cult
The Mission
The Sisters of Mercy
The Smiths
Violent Femmes
U2, "The Joshua Tree"

anos 90 
Alice in Chains
Marilyn Manson
Moonspell
Nephilim
Nirvana
Offspring
Rammstein
Soundgarden
The Creatures
Throwing Muses, "Limbo"

2000
Adrian Alexis
?

A conclusão é que não se resume uma vida numa lista mas se um dia me esquecer de quem sou é por aqui que devo procurar. :)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

É urgente ajudar a Sara!

Da página da SOS Animal

"Olá! Eu sou a Sara!

Sei que não sou muito bonita quando olham pela primeira vez para mim. Mas nem sempre fui assim. Antigamente, era muito bonita, via muito bem, e até tinha uma familia que gostava muito de mim, ou pelo menos achava que sim, até ter ficado com este problema... Quando fiz 2 anos, o meu presente de aniversário foi descobrir que esta minha família me queria adormecer. Sabem, é que tive um problema muito grave nos olhos que me deixou cega. Já fui vista por um especialista que confirmou o pior... Nunca mais vou conseguir ver. Agora, preciso de fazer uma operação urgentemente para que possa retirar os olhos, pois no estado que estou tenho muitas dores. Felizmente fui resgatada por um anjo que me salvou e que está a fazer tudo para que consiga ficar boa e sem dores..."


Esta é a história da Sara. Para que possamos ajudar a Sara, precisamos de angariar o valor necessário para fazer esta operação. Como tal, precisamos da sua ajuda!

Custo desta Operação, com medicamentos e recobro: € 550,00

"Estou a contar com a vossa ajuda... Juntos, acredito que vamos conseguir."
Informação na página da SOS Animal.
Pora não chocar pessoas mais sensíveis não coloquei as fotos que são de facto impressionantes. É urgente ajudar este bichinho. Se 100 pessoas derem 5 euros, apenas 5 euros, são 500 euros. Não custa nada dar 5 euros.

NADA COMO VER AS FOTOGRAFIAS PARA PERCEBER DO QUE SE TRATA
Para saber como ajudar, clicar no link acima.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Florbela Espanca

IX

Perdi os meu fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
— Tantos escolhos! Quem podia vê-los?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca, excerto de "É um não querer mais que bem querer"

Certos autores são recorrentes não importa o tempo que passa. Almas gémeas?

domingo, 6 de julho de 2008

Metropolis Club

Inaugurado a 7 de Junho, O Metropolis Club não é apenas grande novidade da noite alternativa lisboeta mas também o primeiro local de copos e dança realmente novo que aparece na capital desde há mais de 20 anos, o que em si próprio é histórico! Logo, a expectativa é grande e o projecto ambicioso.
Conforme anunciado no flyer da inauguração, o espaço destina-se a passar música tão diferente como "rock, electro, industrial, goth, electrorock, postpunk, minimal, new wave, indie, ebm, batcave, psytrance, noise, synthpop, power elektronics, deathrock, harsh, tek-house, cyberpunk, etc". Resta saber se há viabilidade económica para esta alternativa, e pela minha parte só posso fazer votos para que haja.
Situado nas Picoas, Centro Comercial Imaviz, em frente ao Fórum Picoas, onde era o antigo bar dos anos 80, Whispers, o espaço é na cave mas bastante grande e arejado. E como já era uma discoteca, tem mesmo tudo: dos lugares ao balcão aos lugares sentados, da pista de dança ao bengaleiro. Não falta nada. A iluminação, ao contrário do que se dirá de bares normais, é suficientemente escura e inexistente, logo, cinco estrelas! Apesar do som estar no volume dançável, o espaço também permite conversa entre um grupo de amigos (mas não muito).
Pela experiência anterior da Juke Box na Rua da Fé e das Graveyard Sessions no Santiago Alquimista e na Caixa Económica Operária, fazer um bar gótico fora das rotas normais da vida nocturna tem mais vantagens do que desvantagens. Certo que o Bairro Alto não está ali ao lado, mas também não está a fauna heterogénea que o frequenta. Quem vai sabe para o que vai, e quem não gosta de misturas apreciará grandemente este "pequeno" pormenor e não precisará de mais divagações sobre o tema.
O ponto mais forte deste novo lugar é que está aberto desde as 23h às 6h, e não tem vizinhos chatos a chamar a polícia (esperemos). É, por tudo isto, um lugar a conhecer e a visitar.


Metropolis Club
Centro Comercial Imaviz (lojas 53/54)
Av. Fontes Pereira de Melo, frente ao Fórum Picoas, Lisboa

Eventos serão divulgados, como já é habitual, no Pórtico.

sábado, 5 de julho de 2008

Salazar segundo Kaos


Salazar segundo KAOS

Até dava um gótico jeitoso. Olha se a moda pega...

Um livro: "A Morte de Portugal", por Miguel Real

Este livro foi-me dado a conhecer por Metatheorique, colaborador nas Vicentinas de Braganza (agora The Braganza Mothers) que dele publicou alguns excertos muito interessantes.
Publicado por Campo das Letras (2007), é segundo o autor um "ensaiozinho despretensioso e reflexivo de horas nocturnas" que "intenta demonstrar que a constelação cultural e civilizacional por que emergiu a realidade histórica designada por "Portugal", enquadrada em quatro complexos culturais abaixo enunciados, atingiu o seu limite de esgotamento - menos por efeito de um decadentismo político (temos vivido em permanente decadência desde D. João III) e mais por causa de um fenómeno de aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade e de uma rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações, metamaorfoseando-as em regiões singulares de uma futura supranacionalidade europeia, comandada por títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios causais - e está a chegar ao fim".

Não se trata portanto do fim de Portugal como país independente (anexado ou invadido) mas de algo muito mais grave, a morte da realidade cultural que sustenta essa independência e sem a qual essa mesma independência deixa de fazer sentido.
Os diagnósticos já estão todos feitos mas este não deixa de merecer destaque e leitura global uma vez que, em meia dúzia de linhas, explica toda a estrutura mental colectiva da nação desde a sua fundação. Sintetizando, nas palavras do autor:

«Assim, na linha de Eduardo Lourenço, este ensaiozinho diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História: ora, segundo a tradição literária Renascentista, um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, nos e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império do padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva e na patética [tocante, mas idolátrica] pretensão de Fátima a "altar do mundo"; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando--se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês de Pombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro, permanentemente ansioso de purificação ortodoxa (Tribunal do Santo Ofício; Index inquisitorial; Intendência pombalina; Real Mesa Censória; guerra civil entre liberais e absolutistas; carbonários e republicanos jacobinos perseguindo e chacinando instituições eclesiásticas; polícia política e tribunais plenários do Estado Novo, santificados pela Igreja Católica, perseguindo, prendendo e exilando a totalidade da oposição, levando a cabo uma guerra de 13 anos nas colónias), no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as.»

Ou ainda:

«Por efeito do ambiente educacional e social, cada português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro figurações da história e cultura pátrias: ora se sente diminuído face à riqueza económica, ao grau cultural, ao nível científico e ao patamar cívico dos povos europeus do Norte, mas logo transforma a fraqueza em força e se afirma viriatinamente como eivado de uma pureza e humildade vitoriosas relativamente ao luxo decadentista europeu e americano e como penhor de valores tradicionais humanistas e íntegros que os países mais avançados, existencialmente desorientados, já perderam (complexo viriatino); ora sobreleva a insignificância real de ser português (povo que em nada conta no mundo), levantando teorias específicas de grandiosidade montanhosa (o Quinto Império de Vieira e Pessoa, o saudosismo de Teixeira de Pascoais; o "génio da raça" de António Sardinha e Oliveira Salazar; a Idade do Espírito Santo de Agostinho da Silva; cultura guardiã do legado celto-mediterânico da Deusa-Mãe, de Natália Correia e Dalila Pereira da Costa; o Evangelho Português de Manuel J. Gandra), postulando-se como nação superior às demais, facto desmentido no presente, mas provado no passado e anunciado providencialmente pela narrativa do seu futuro (complexo vieiríno); ora, caindo em si, ressaltando comparações com outros povos europeus, humilha-se, penitencia-se, desagradado de Deus ou de injustas leis históricas, consciencializando-se como nação inferior, bárbara, rústica, arcaica, como desde o século XVIII nos temos representado a nós próprios (complexo pombalino); ora, finalmente, se sente afã de uma pulsão desmedida, um vigor absolutista de reconversão do outro, apostrofando as ideias deste, condenando-as como heréticas, heterodoxas, abjectas, sugando--o canibalisticamente para as ideias próprias, em última análise eliminando-o, como o fizeram o Tribunal do Santo Ofício, o frenesi devorador pombalino, a Intendência-Geral de Pina Manique, os jacobinos da I República, o Estado Novo de Oliveira Salazar e a Igreja Católica de Gonçalves Cerejeira a republicanos, socialistas, anarquistas, esperantistas, evangelistas, homossexuais e comunistas na II República (complexo canibalista).

O Portugal desenhado pelos quatro complexos acima enunciados encontra-se moribundo, submerso pela avalanche de costumes liberais europeus e americanos, totalmente descristianizados e desumanizados.»

E cá está o que andamos a falar, aqui e ali, há muito tempo:

«Desde a década de 1990, o aparelho de Estado, privilegiando exclusivamente um sector da sociedade - a economia -, desprezando fundo os valores morais e espirituais próprios da cultura portuguesa, tem gerado na mente dos portugueses uma representação parcial de si próprios, que, incapaz de se elevar à unidade de uma ideologia estruturada e consolidada, se caracteriza pela passividade cívica, compensada por uma hipervalorização do individualismo, assente na fórmula amoral do "salve-se quem puder".»

«Portugal precisa menos de um choque tecnológico (experimentado pelo pombalismo, pelo fontismo e pelo cavaquismo, cujas consequências em nada mudaram o nosso ser, limitando-se a uma mera actualização de instrumentos técnicos ao serviço da sociedade civil e do aparelho de Estado) e mais de um choque cultural, elevando cada cidadão a um exigente patamar de conhecimento humanista e cívico que, por arrasto, geraria inevitavelmente o desejado choque tecnológico. Primeiro, a cultura, o espírito, o sentido da transcendência; depois, por inevitável arrasto de exigência cívica, o progresso tecnológico. A brutal inversão destes valores pelos actuais governantes evidencia tanto a sua pobreza de espírito quanto o projecto pombalino desumanamente tecnocrático em que se encontra empenhado.»

Muito interessante também, e digna de reflexão, é a análise que o autor faz da relação de conflito entre o intelectual português e o Estado, que o rejeita, não permitindo à intelectualidade do seu tempo fornecer o contributo devido para o seu progresso, demonstrando uma secular alergia às ideias:

«A relação intemporal entre o intelectual português e as instituições socialmente dominantes podem resumir-se em três momentos paradigmáticos: 1) uma fase de aproximação, de empenhamento e de voluntária adequação ou de tentativa de transformação do destino geral de Portugal; 2) por motivos circunstanciais, que muito diferem de autor para autor, vinculando-o ao seu tempo, o intelectual português sofre, em certo momento, um profundo desencantamento com o estado conjuntural do país, cuja consciencialização o força ou a desistir de transformar Portugal, interiorizando-se ou exilando--se no estrangeiro, abandonando o seu antigo empenhamento, concentrando-se na sua obra estética ou filosófica individual; ou a reiterar o seu compromisso de transformar Portugal, criando uma obra alternativa à visão social e política dominante; 3) no final da vida ou após a morte, a obra do intelectual português é recuperada pelas instituições dominantes do Estado, da Universidade ou da Igreja, que a estatui como um dos mais salientes vectores da cultura portuguesa, passando então a ser tão santificada pelas novas gerações escolares quanto antes fora abominada e desprezada pelas anteriores.»

«De qualquer que seja a forma, quaisquer que sejam as circunstâncias individuais, o exílio torna-se o seu destino pessoal, sofrendo duplamente a amargura de uma pátria a seus olhos torta e incorrigível (como os intelectuais da primeira vertente) e a amargura da ausência desta, duplo húmus donde frutificará a sua obra posterior, cruzando e unindo o lirismo melancólico motivado pela ausência da pátria ao revolucionarismo cultural das suas ideias de endireitamento da história de Portugal. Ao exílio (externo) acresce, não raro, um exílio interior, psicológico, elevando as múltiplas carências económicas sofridas e a consciência da insatisfação pessoal à figura de um calvário resignado como resgate do estado decadentista de Portugal.
O exílio externo (na Europa ou peregrinando nos longes do Império) tem sido, desde o século XVI, a marca mais pertinente do intelectual português. Uns, não deixando de se preocupar com Portugal, desinteressam-se do destino político deste, buscando no estrangeiro ou na solidão do Império a realização da sua obra numa atmosfera social mais propiciatória: Garcia da Horta, Francisco Sanches, Camões, o padre jesuíta Inácio Monteiro e Manuel Teixeira-Gomes, mas também Damião de Góis, Adolfo Casais Monteiro, Manuel Valadares, Fidelino de Figueiredo, Manuel Rodrigues Lapa, Fernando Gil, bem como inúmeros pintores portugueses do século XX exilados em Paris e Londres (Vieira da Silva, Paula Rego, Lourdes de Castro, Costa Pinheiro, René Bertholo, Jorge Martins...).
Outros, representados pelos casos modelares de Cavaleiro de Oliveira, Bocage, Eça de Queirós, Jorge de Sena, José-Augus-to França e Eduardo Lourenço, intentam, segundo o seu múnus estético, descrever com realismo o "reino cadaveroso" e a "vil e apagada tristeza" dominante em Portugal. Constitui este grupo o exemplo do mais impiedoso intelectual português, cuja obra analisa, ao bisturi do realismo da sua época, o conjunto de malformações políticas e culturais que concorrera para enfermar Portugal de um secular atraso relativamente aos países da Europa Central. Entre todos, a obra de Eça de Queirós, no campo da ficção, e a de Eduardo Lourenço, no campo do ensaio, constituem-se como as duas obras mais relevantes desta vertente do paradigma do intelectual português.»

Para pensar mais um bocadinho:

«Ao longo de 400 anos, de D. João III a Oliveira Salazar, Portugal criou uma forma mental e uma visão do mundo que se alimentam exclusivamente da negativização do pensamento oposto, da doutrina contrária, da teoria diferente, nulificando igualmente os seus autores - conceito combatido, autor preso, exilado ou morto, livro queimado ou proibido. O pensador portador da diferença era encarado como inimigo a abater ou a esmagar e o povo - eterno rústico aldeão, alimentado pelas malhas da crendice e da superstição - como massa amorfa ignorante a iluminar e converter. A história da cultura portuguesa moderna e contemporânea solidificou-se, ao longo de cerca de 400 anos por via de uma série de sucessivas negatividades que não têm par no movimento cultural dos restantes países europeus, porventura com excepção da Espanha. Assim, mais do que filosófica ou reflexiva, a cultura portuguesa tem sido eminentemente ideológica, isto é, enformada ou envolvida por um sentido de Estado que lhe guia a orientação político-social, ora entronizando no poder uma(s) doutrina(s), ora excomungando a(s) doutrina(s) contrárias. De D. João III a Salazar, passando por Marquês de Pombal, Mouzinho da Silveira e Afonso Costa, as teorias têm sido entronizadas "verdadeiras" pelo poder e força do Estado, e as suas contrárias condenadas às grilhetas da repressão.»

«Contaminado de ideologia, o pensamento português deve a sua existência à configuração político-cultural donde emerge, morrendo com ele. É uma autêntica tragédia - o pouco que escrevemos sobre o Ser, sobre o Bem, sobre o Belo, sobre Deus, logo o contagiámos desse máximo defeito de o postularmos como veículo triunfal do Estado, carro auriflamejante por onde todas as gerações portuguesas têm atravessado o Rubicão da nossa redenção; mas a teoria passa, a configuração cultural passa, o Estado, assim iluminado, passa, os actores da história passam e, no fim, outra geração olha para trás e o que os seus pais tinham entrevisto como o Rubicão sabe-lhe apenas a um longínquo Eufrates nunca atravessado em direcção à Terra Prometida. De novo, novas teorias exclusivistas apontam o caminho, penitenciam-se outra vez os 40 anos do Deserto, um Moisés português adeja as suas barbas sorridentes afogando em outro Mar Vermelho os novos egípcios, num outro Monte Sinai são descobertas outras tábuas da verdade e todos de novo sentem que é a hora, é agora, agora sim, agora é mesmo a aurora do futuro, enchem-se prisões de inimigos, apostasiam-se os foragidos, excomungam-se outras doutrinas e, no fim, olhos salgados de lágrimas, instalados no futuro ideal, constata-se que, perdido o presente, outro é o futuro real, feito do sangue dos perseguidos, que ora reclamam vingança. Assim, se quiséssemos definir o tempo moderno e contemporâneo da cultura portuguesa entre 1580 - data da perda da independência - e 1980 - data do acordo de pré-adesão à Comunidade Económica Europeia -, passando simbolicamente pelo ano de 1890 - data do Ultimatum britânico a Portugal -, atravessando 400 anos de história pátria, defini-lo-íamos como o tempo do canibalismo, o tempo da culturofagia, o tempo em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova doutrina emergente destruindo e esmagando a(s) anterior(es), estatuídas estas como inimigas de vida e de morte, alvos a abater, e as suas obras como negras peçonhas a fazer desaparecer.»

Por fim, segundo o autor, há razão para optimismo pela Europa:

«Porém, por via da Europa - honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica, os dois aparelhos políticos a quem mais devemos a nossa histórica forma mentis intolerante.
Esgotado de tanto absoluto histórico, a cultura portuguesa, passada a sua fase de canibalismo redentor, reinará no século XXI como goradamente Antero de Quental desejava que reinasse no século XX - sob império da Justiça e da Liberdade tendo como horizonte final o Bem ético, que, entre as suas virtudes, conta a tolerância como uma das principais.
De 1890, data do Ultimatum inglês, a 1980, data da assinatura do pré-acordo de adesão à Comunidade Europeia (então Comunidade Económica Europeia), Portugal habitou o fundo dos fundos da Europa. Face à comunidade internacional, era indisfarçável o retrato de Portugal como país apenas existente no mapa, onde, mau grado todos os triunfalismos internos historicamente dominantes, da Monarquia Constitucional ao fim da I República, passando pelo fascínio imperial do Estado Novo e desembocando no sonho comunista de 1975, conviviam majestaticamente a ignorância cultural, o atraso científico e a miséria económica, dados estatisticamente comprováveis. Em 1974, a taxa de analfabetismo rondava os 45 a 50 %, o que significava que, 48 anos depois de um discurso político glorificante dos passados feitos pátrios, cerca de metade da população portuguesa mal sabia ler, escrever e contar. Hoje, apenas os portugueses com menos de 30 anos conhecem, na ainda breve totalidade da sua vida, uma existência sem repressão política e sem guerra, não sendo assim motivo de espanto que esta nova geração, já plenamente europeia nos costumes, tanto positivos quanto negativos, assuma conscientemente a face de um novo Portugal urbano e cosmopolita, eticamente relativista, em total ruptura com o antigo Portugal, eminentemente rural e religioso, eticamente absolutista. Devido a determinante influência europeia, da publicidade ao design, da literatura à ciência, do cinema às artes do espectáculo, do jornalismo à pintura, os modelos sociais simbólicos prevalecentes nesta nova geração já não se encontram nem nas "imorredouras" figuras históricas portuguesas de "antanho", contaminadas pelo patrioteirismo provinciano da propaganda política, nem nas figuras da "resistência" política e sindical ao Estado Novo, rompendo-se o vínculo social de continuidade cultural entre gerações. Com esta nova geração urbana e europeia, em tudo similar às gerações dos países da Europa Central, prepara-se Portugal para enfrentar o século XXI, libertando-se definitivamente de um passado económico, político e cultural que há meio milénio, com breves excepções, a mais forte das quais entre 1415 e 1539, sempre lhe atrofiou as suas virtualidades.»

Não posso deixar de aconselhar a leitura integral deste ensaio a toda a gente que queira perceber as razões do declínio de Portugal e o seu iminente desaparecimento, bem como reflectir desapaixonadamente se esse fim, e essa diluição na Europa, tendo em conta o absoluto fracasso da experiência nacional desde a perda da independência em 1580, não será afinal mais benéfico do que eternamente continuar a carpir o morto sem o enterrar.
Mais grave ainda, se em virtude desse mesmo tremendo fracasso, não chegará o momento em que o morto tem de ser enterrado, mais ou menos carpido, sem que os seus nacionais, por incapacidade de inverterem a situação, tenham voto útil nessa decisão.
É minha opinião que será a segunda das hipóteses, não por falta de patriotismo da minha parte mas pela simples observação objectiva dos factos e constatação pessoal de que a situação é insustentável e irremediável. O futuro dirá o resto.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ice Age (2002) e Ice Age II The Meltdown (2006)



Devo confessar que o me mais me atraiu nestes filmezinhos leves e simpáticos foi o mórbido facto de que todos os protagonistas estão mortos há milhares de anos. Extintos. Excepto o esquilo, o psicótico, obcecado, desenho animado imortal, invencível, invulnerável como o famoso Bip-Bip (Road Runner), o Esquilo da Avelã. Aqueles olhinhos tresloucados, que só vêem a avelã (ou bolota, conforme as interpretações). Verdade verdade é que o esquilo, com a sua obsessão em guardar bolota, foi o único animal que sobreviveu até aos dias de hoje.
O existencialista mamute, a oportunista preguiça gigante, o poderosos tigre dente de sabre... Pó de esqueleto.
A extinção é o tema de ambos os filmes. No primeiro, os nossos heróis enfrentam a chegada da Idade do Gelo. No segundo, o degelo. O paralelo com os nossos tempos de "O Dia Depois de Amanhã" e "Uma Verdade Inconveniente" e a profunda preocupação ecológica torna este filme mais interessante para graúdos do que para miúdos. Não estou a ver as crianças perceberem o profundo terror e o perigo iminente sobre as nossas cabeças em que estes personagens extintos também não acreditavam. E olhem no que deu...
O filme é para crianças e não é para fazer chorar, nem quando o mamute percebe que talvez seja o último da sua espécie e nunca mais, nunca mais, pode ter uma família. O que me comoveu até até às lágrimas, coisas do Mistério, foi a morte do Esquilo da Avelã, quando ele se livra deste vale de lágrimas e degelo e corre doido de felicidade por entre fofos campos de nuvens polvilhadas de bolotas onde não conheceria mais frio nem fome.... até que finalmente encontra Deus, a Gloriosa Avelã Dourada, e para ela salta em extâse divino, de lágrimas nos olhos, chegado ao Paraíso. Então, alguém lhe puxa o rabito e volta para Terra, de vida salva e fulo da vida. Gosto deste Esquilo. Gosto das piadas adultas e subtis só para graúdos. Aconselho vivamente aos adultos. Mas não mostrem isto às crianças. Terão mais do que tempo para aprenderem o que é um "filme catástrofe".

17 em 20

terça-feira, 1 de julho de 2008

Não se aceitam licenciados

A XAC - Gestão de Frotas, anda à procura de operadores de call center mas não se aceitam licenciados. Por outro lado deve gostar do contacto telefónico com o exterior. Até porque o contacto telefónico com o interior, de extensão para extensão, acaba por ser uma seca.


É caso para nos questionarmos (sem o afirmarmos porque não desejamos ser processados e sabemos fazer as coisas como deve ser) se esta alergia a licenciados se deve ao dono da empresa ter a 4ª classe, escrever "fodasse" em vez do correcto "foda-se", e cuspir para o chão. Enfim, podemos apenas imaginar que empresa é esta que tem horror ao intelecto. Será inveja? Será complexo de inferioridade? Será o choque tecnológico?...
O choque é como é que existem empresas com esta mentalidade.
Até aposto tudo e mais alguma coisa que para senhoras da limpeza já não se importariam de lá ter licenciadas brasileiras ou ucranianas. Licenciado imigrante é licenciado de segunda.

Fica aqui um grande obrigada e um mal-haja à XAC - Gestão de Frotas, por este exemplo confesso e paradigmático do tecido empresarial português.
Têm razão em não querer lá licenciados que até escrevem na internet e coiso, mas deviam ser mais cuidadosos porque os licenciados andam por aí, lêem, e escrevem à mesma.

Mais uma para a listinha de greatest hits.