quinta-feira, julho 24, 2008

Os velhos pobres

Tenho-me vindo a aperceber que cada vez menos gente escreve sobre a situação do país. A ausência de opinião levaria um observador abstraído, por exemplo, um estrangeiro, a imaginar que nos últimos dois, três anos, os bloggers se têm calado porque as coisas entretanto melhoraram. Não é assim. Pelo contrário, já chegámos ao ponto em que toda a gente com um bocadinho de inteligência já disse tudo o que havia para dizer e até já desistiu de voltar a explicar o óbvio.
Resta-nos, portanto, comentar as notícias que vão surgindo a público. Saliento o "a público" porque muitas destas notícias não são notícias para quem as recebe e algumas vão chegando com 10 anos de atraso, mas dos nossos jornais e televisões não se espera mais do que aquilo que os donos os deixam dizer.

Notícia impressionante foi aquela de que se chegou à brilhante conclusão de que 35% dos pobres têm emprego, isto é, que 35% das pessoas que trabalham são pobres. Chamam-lhes até "os novos pobres".
Se há novidade, é os pobres que trabalham serem tão poucos. Eu ainda sou do tempo em que toda a gente que trabalhava era pobre. Do merceeiro ao polícia, do professor ao empregado dos correios. Os únicos que se safavam bem eram os médicos e mesmo assim eram pagos em galinhas e chouriças. Se houve alguma diferença, entre esses tempos que eram os anos 70 e a euforia dos anos 80, em que as pessoas acharam que se trabalhassem tinham dinheiro para comprar casa e carro e gasolina e roupa e comida e férias, foi a mais pura ilusão. Não são novos pobres. São pobres que tiveram a esperança de o deixar de o ser. E não são 35 por cento com toda a certeza, mas mais provavelmente o dobro. Somando os "pobres de longa duração", isto é, aqueles que viram passar os anos 80 e ficaram na mesma porque a família era demasiado pobre para que a banca lhes concedesse um empréstimo (sem fiador nada feito), vamos em que percentagem exactamente? Tenho a impressão de que só saberemos os números daqui por mais dez anos. Assim um pouco a mesma coisa que acontece quando vemos o documentário do António Barreto sobre Portugal, no século XXI, e sabemos pela primeira vez quanta gente realmente passava fome nos anos 60. Do merceeiro ao polícia, do professor ao empregado dos correios. Os únicos que se safavam bem eram os médicos e mesmo assim eram pagos em galinhas e chouriças.
Vira o disco e toca o mesmo. Nada disto vem nos jornais nem nas televisões.

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