domingo, janeiro 13, 2008

Má vida

Sou fumadora. Quando não estou a fumar estou a roer as unhas, ou o osso. E este tem dado para roer, roer, e parece-me que ainda falta muito para chegar ao tutano.

Como sou utilizadora de transportes públicos, passo (perco) horas e horas da minha vida a observar os outros na sua vidinha, mas disso não me queixo porque me dá um especial prazer (podia dar-me para pior). Estava eu à espera de um daqueles autocarros que só passam duas vezes por dia, à frente de um cafézinho/taberna que já conheço muito bem, a fumar o meu cigarrinho, quando reparo num velhote que saiu do café de propósito para fumar o dele, duas vezes. Deve ter sido a primeira vez na vida que o proibem de fumar, pensei, mas com todo o civismo lá vinha para a rua quando lhe dava para o vício entre os copos e o jogo de futebol. Depois vi outra cena muito triste, mesmo muito triste. Um dos frequentadores do café, também velhote, gordo, vermelho e tão cheio de vinho que até cambaleava, saiu e gozou, mas muito a sério, numa autêntica perseguição: "Merda de tabaco! Eu quero saúde!" Diz o roto ao nu. Diz a cirrose ao cancro. Pois aquela grande besta está convencida que fumar faz mais mal do que ser obeso e alcoólico. Se querem que vos diga, o fumador parecia mais saudável, mas as aparências iludem e é provável que estejam ambos igualmente de pés para a cova.
O que me fez impressão foi a atitude "eu agora sou melhor do que tu". Já aqui disse que o fanatismo me faz mal aos nervos. Quando morrer, quero ter na minha lápide: "Aqui jaz, vítima de ira".

Mas queriam fanatismo à americana, na Europa? Pois cá vai.

Despedidos por não fumar
2008/01/10 | 22:11
Patrão disse que empregados interferiam com «tranquilidade» do grupo

O proprietário de uma pequena empresa de tecnologia na cidade de Buesum, na Alemanha, foi processado por ter demitido três funcionários não-fumadores para os substituir por fumadores.

Segundo noticia o jornal alemão Hamburger Morgenpost, os funcionários, que já trabalhavam na empresa há cerca de dois anos e meio, foram despedidos depois de terem solicitado a criação de uma zona específica para não fumadores na empresa.

O dono não gostou do pedido, considerou que os três funcionários estavam a «interferir com a tranquilidade» do grupo e decidiu substituí-los por três fumadores, com a justificação de que estes «se adaptariam melhor». Está agora a responder em tribunal por despedimento sem justa causa.

Em declaração ao mesmo jornal alemão, o dono da empresa, que tem dez funcionários, considera que a proibição de fumar um ataque à liberdade individual. «Não posso preocupar-me com os problemáticos. Estamos sempre ao telefone e é mais fácil trabalhar enquanto fumamos», disse.


Aqui está o outro extremo do fanatismo. Eu ainda sou do tempo em que se fumava no trabalho e agora percebo que não era uma boa prática, nem para fumadores nem para não fumadores. Demasiada gente a fumar em pouco espaço muitas horas por dia. O trabalho já é um castigo, não há necessidade de o tornar ainda mais penoso. (Digo o mesmo dos ares condicionados que também hão-de ir à vida quando se provar que estão na base de alergias como a minha. Por enquanto não, que o negócio prospera e ainda não inventaram pior.)
Quanto à situação dos empregados de bares e discotecas e a sua exposição ao fumo, o caso é mais delicado. Há uma etiqueta da noite que distingue um barman de um empregado de café. Trabalhar na noite dá prestígio no meio. Nem sequer é só para quem gosta; é para quem dá "estilo" à casa. Não é por acaso que os empregados de bar são jovens. Há vantagens bastante cobiçadas naquela idade em que toda a gente quer ser visto. Não penso que seja profissão para se ter toda a vida. A exposição aos altos decibéis de alguns locais de diversão também pode provocar danos permanentes. Eu, melómana, que não concebo uma vida de surdez, fujo do barulho excessivo como os não fumadores fogem do fumo. Mas profissões de risco há muitas e as suas compensações são várias. É tudo uma questão de prioridades.

Há que ser muito claros numa coisa. A má vida não se chama assim por acaso. Quando a má vida for saudável inventam-se outras formas de má vida. Acabar com a má vida, como querem os puritanos, nunca vai acontecer. Que o diga Jeová que destruiu Sodoma e Gomorra. Louco é o homem que tenta o que Deus não conseguiu.




A propósito, eu assinei a petição online pelo direito de escolha. Não sei se servirá para alguma coisa mas como foi difícil encontrá-la aqui fica o link:

http://www.bardali.com/adn/adn.html

Se for preciso assinar em papel, também o faço.

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5 Comentários:

Blogger O Raio disse...

O problema da taberna é simples de explicar.
O tabaco provoca umas doenças e evita outras, como acontece normalmente com tudo o que se ingere.
Uma das doenças que o tabaco evita é o Alzheimer. Isto é, tal como existe uma correlação positiva entre o fumar e o ter cancro no pulmão, existe uma correlação negativa entre o fumar e ter Alzheimer.
Assim o gordo que saíu da taberna e que obviamente não fumava, já deveria estar corroído pelo Alzheimer...

Quanto ao tal patrão que despediu os três não fumadores pode contar com toda a minha solidariedade...

13/1/08 18:34  
Blogger gotika disse...

Essa do Alzheimer ainda não tinha ouvido.
Mas eu não me faço porque as benzas que tomo causam demência. Aliás, já se nota. :)

16/1/08 02:17  
Blogger gotika disse...

"Mas eu não me faço"

Queria dizer "mas eu não me safo".

Palavras para quê?

16/1/08 02:18  
Blogger linfoma_a-escrota disse...

e lá isso do gordo tar a murrer de cirroze é bem preferivel umas gigantes e patéticas bubbas desde os 15, que maços e maços de ligeira libertação de endorfina capitalista para o cerebro dos drogados do fumo de alcatrão que, sempre q existe um silenciozinho, já estão a puxar de outro bicho inutil de nicotina quando pudiam estar a fazer uma ganzinha q duraria o triplo do efeito e talvez um ou outro pensamento original, ainda para mais cheiram mesmo mal, n sei cm tanta gente cai nisso, que vergonha sinceramente !!! :P

20/1/08 14:12  
Blogger Leandro Substance disse...

Eu não fumo (na verdade não trago), mas adoro o lúdico da fumaça. Charuto, cigarro de palha, cachimbo ou mesmo um comum. Como em um ritual, criando meu próprio fog. Aqui não é a Europa mas a hipocrisia anti-tabaco deve ser universal. Quem fuma está cansado (farto!) de saber dos males e se ainda o faz é por um motivo pessoal, ou seja, não é da conta de ninguém. Mas a segregação prossegue e tenta vencer pelo caminho burro da vergonha. É uma vergonha!

Beijos e queijos!

23/1/08 03:50  

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